SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Vivemos em pleno caos!

Transcrevo abaixo um artigo e excertos de outro, de autoria de Dr. Plínio, um deles publicado pela "Folha de São Paulo" há exatos quarenta anos atrás, nos quais o Autor dissertava sobre o caos para onde nossa sociedade caminhava... e hoje afunda cada vez mais.


CAOS

“Vivemos em pleno caos.
Ao ler esta frase, haverá quem tenha pensado: “Como é banal o conceito que abre este artigo!”
Realmente, banal, banalíssimo. E esse conceito, já de si banal, eu o apresentei em sua forma mais elementar e, por assim dizer, acaciana, para lhe realçar, até que ponto é certo, evidente, indiscutível, que vivemos mesmos em um caos. Já que, neste caso, como em muitos outros, banalidade é sinônimo de evidência.
Essa sensação do caótico nos assalta, a cada passo, na vida quotidiana. A todo momento vemos pessoas cujo procedimento de hoje está em contradição com o de ontem, e entrará em contradição com o de amanhã. Às vezes, em uma mesma conversa, e até em uma mesma frase, nosso interlocutor externa convicções que a lógica aponta como incompatíveis uma com outra. E é cada vez mais raro encontrarmos pessoas que, ao longo de tudo quanto pensam, dizem e fazem, se manifestam coerentemente com alguns tantos princípios fundamentais.
Na apreciação deste quadro as pessoas se classificam em três principais famílias de almas:
a) Uns – os menos numerosos – compreendem, admiram e aplaudem a coerência. Por isto, estigmatizam o ilogismo ambiente e lhe imputam os piores frutos presentes e futuros;
b) Outros fecham os olhos para o fato e, quando este lhes entra olhos adentro procuram justificá-lo: a contradição seria, segundo eles, a ruptura necessária do equilíbrio ideológico de outras eras, o efeito típico do tumultuar fecundo das épocas de transição; por isto, ela não produz desastres senão na epiderme da realidade, e tem de ser vista, em última análise, com benigna e sorridente indulgência. A família de almas que pensa deste modo era muito numerosa até há alguns anos atrás. Mas, vendo que o assim chamado tumultuar fecundo das contradições vai tomando o cunho de uma farândola de ritmo endiabrado e conseqüências sinistras, vão rareando os que conseguem sustentar, diante dela, a despreocupação risonha e benigna de outrora;
c) Bem mais numerosas são as pessoas que constituem o terceiro grupo ou família de almas. Elas suspiram diante da contradição caótica de nossos dias, aturdem-se... e não passam disto. Mudar de posição lhes parece impossível. Pois se a contradição as assusta, por outro lado, implicam, do mais fundo de sua alma, com a coerência. Elas gostariam de prolongar, contra ventos e marés, seu mundo agonizante que resulta do “equilíbrio” de idéias contraditórias, as quais se “moderam” umas às outras em amável coexistência. E como, para essa família de almas, as idéias são feitas para parar no ar, sem relação com a realidade, não há, segundo ela, o menor risco de que esse “equilíbrio” de contradições venha a se romper algum dia com prejuízo para a pacata e boa ordenação dos fatos. Esta situação, intrinsecamente desequilibrada, se afigura a esta família de almas a quintessência do equilíbrio. E, como a experiência está a provar, escancaradamente, a inviabilidade desse equilíbrio, ela se encontra diante de uma opção que a aterroriza: de um lado, o caos que lhe entra como um tufão pela casa e pela vida adentro, e de outro lado uma coerência que lhe parece correta talvez no plano da lógica, mas espetada, desalmada, hirta, e, numa palavra, desumana. Estarrecidas diante da opção, as pessoas pertencentes a esta família de almas param. E ficam a suspirar, de braços cruzados, na espera obstinada de alguma coisa que faça cessar o caos, sem que se tenha que implantar o reinado da coerência.
Vamos aos exemplos quanto à terceira família de almas.
Quanto lar há que acolhe com um sorriso cúmplice a novela de televisão imoral, ou o livresco piegas e sensual, que pinta com cores fascinantes a imagem da vida mais dissoluta. Neste lar se nutre a certeza de que tais miragens não produzem senão efeitos puramente platônicos. Depois, se o filho ou a filha se transvia, as demais pessoas declaram que “não entendem mais nada” , e que “o mundo de hoje é um caos”.
Quanto proprietário há que proclama, diante de seus filhos ou de seus empregados, as idéias mais radicalmente igualitárias: toda superioridade de categoria é para ele um insulto à dignidade humana. (Isto não o impede aliás de fazer grossos negócios e encaixar opulentos lucros...). Se seu filho, ou sua filha, se torna comunista, ele se espanta. Se o empregado bem pago faz agitação, ele se desconcerta. Ele não compreende que tenha frutificado frutos amargos de caos e desordem o que ele mesmo pregou.
Porém, nas mesma família que figuramos, em que entram a novela e o livreco imoral, o pai e a mãe por vezes pregam também, para manter o equilíbrio baseado na contradição, alguns princípios cristãos de moral ou de ordem. Falam sobre a legitimidade da propriedade, declamam contra o comunismo e mantêm o respeito por certas tradições morais. Na mesma fábrica cujo dono se diz socialista avançado, se faz propaganda anticomunista. E se, de repente, um filho ou um operário arvora o estandarte da TFP, a surpresa e, logo depois, a implicância, são enormes. Como imaginar que esse “equilíbrio” houvesse de se desatar em uma opção coerente? Que esses princípios de ordem houvessem de deixar o mundo platônico das idéias para engendrar militantes que os quisessem inserir na ordem concreta dos fatos? Como aceitar a presença, no convívio familiar, de pessoas coerentes, lógicas, que tomam a sério o que se lhes ensinou sobre os fundamentos da ordem social e da civilização cristãs?
Assim, em suma, nessa família de almas se professa uma cômoda e risonha desordem de idéias. Desordem que vem do convívio, em uma região toda platônica, entre fragmentos de bem e de mal, de erro e de verdade. Alguns, dentro desse ambiente, optam pela integridade da desordem. Outros, pela da ordem. E por isto, nessa família de almas, cai-se em susto e em pranto.
A situação dessa família de almas suscita problemas de mais alto vôo. A ruína deste equilíbrio de contradições não importa em uma marcha para a unilateralidade, o exagero, em suma, a radicalização?Em caso afirmativo, o contrário da radicalização é a incoerência? (Folha de São Paulo, 23.10.68

O absurdo assumiu o centro do mundo
Pouco mais de dois anos antes de seu falecimento, Dr. Plínio publicou um outro artigo sobre o tema, onde a certa altura afirmava:
“Se há um denominador comum no acontecer da vida pública e privada de tantas nações, pode-se dizer que esse é o caos. As perspectivas caóticas parecem repetir-se a si próprias e, cada vez mais, caminha-se nas vias do caos, ninguém sabe até onde. As forças enigmáticas do caos produzem explosões, erupções que dão a impressão de que o mundo vai rachar. Os otimistas assustam-se pouco, por julgar que tudo voltará “como dantes no quartel de Abrantes”. Os que se têm em conta de clarividentes se alarmam, achando que logo o mundo “virará de pernas para o ar”. Mas, eles também se enganam, pois, como diz o ditado francês, "plus ça chagen, plus c’est la même chose": quanto mais isso muda, mais permanece na mesma...
Com efeito, o processo caótico que todos nós presenciamos e padecemos move-se, por assim dizer, na imobilidade. Daqui, dali, de acolá são desavenças que se manifestam, situações tão tensas e críticas, que se diria que uma guerra mundial arrebenta a qualquer momento em algum lugar. Entretanto, nesse gira-gira do caos, as situações terminam ficando imóveis.
Ora, precisamente essa imobilidade fixa de mobilidade contínua, das situações que não melhoram nem pioram, constitui o próprio drama em que, mais e mais, um número crescente de países vai imergindo.
É uma espécie de AIDS psicossocial que se espalha pelo mundo inteiro: essa doença não mata imediatamente, mas vai debilitando tudo quanto possa haver de sadio e orgânico no interior das nações. Acovardado diante da multiplicação das catástrofes e ruínas morais e materiais, o homem de hoje se acocora lamentando: "A quebradeira é a regra da vida e a ela todos têm de se sujeitar. Tudo quebra e nada tem significado. As coisas não significam mais nada”. Do fundo de todo esse panorama, parece projetar-se a seguinte mensagem: “Habitua-te e compreende que nada tem mais razão de ser! A razão humana está extinta e nada mais se passará razoavelmente, nunca mais! Mas isto não te será dito explicitamente: o operar dos acontecimentos mundiais será cada vez mais absurdo e desarrazoado. E todos hão de se habituar à idéia de que o absurdo assumiu o cetro do mundo!”
Essa parece ser a presente mensagem dos fatos: “Razão humana, retira-te! Pensamento humano, emudece! Homem, não reflita mais, e como um animal deixa-te levar de roldão pelos acontecimentos...”
E do mais recôndito desse abismo é dado ao católico discernir as fulgurações enganosas, o cântico ao mesmo sinistro e atraente, emoliente e delirante daquele ente abjeto que é como que a personificação da ilogicidade, do absurdo, da revolta estapafúrdia e cheia de ódio contra o Onipotente sapientíssimo: o demônio. Pai do mal, do erro e da mentira, ele geme e estertora desesperado, bradando o seu eterno e nefando grito de revolta: Non serviam. “Não servirei”.
São essas perspectivas sobre as quais podem e devem discutir os teólogos” (Excerto de artigo publicado em 8.5.93 no jornal “A Cidade”, de Campos-RJ).

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