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quinta-feira, 30 de abril de 2026

SÃO PIO V, O HERÓI DA BATALHA DE LEPANTO

 



Vamos dizer então uma palavra a respeito da Batalha de Lepanto e de Nossa Senhora do Rosário. Tantos foram os comentários que eu fiz a respeito da batalha de Lepanto, em vários anos sucessivos, que quase não sei o que comentar a respeito disso. Mas eu vou destacar aqui um herói da batalha de Lepanto a respeito do qual pouco se fala. E esse herói foi o Papa São Pio V.

 

Sem uma pressão heroica de São Pio V não haveria se dado a batalha de Lepanto

Em que sentido São Pio V foi herói, e em que sentido importa reconhecermos o heroísmo dele?

São Pio V via bem o poder otomano crescer cada vez mais, e o perigo que havia de os otomanos se jogarem sobre a Itália, por exemplo, ou sobre qualquer outra parte da Europa, e operarem uma invasão que poderia ter efeitos tão ou talvez mais ruinosos do que teve a invasão árabe na Espanha, no começo da Idade Média.

E por que razão isto? É que no tempo de São Pio V, século XVI, já a Europa estava dividida, os cristãos da Europa estavam divididos entre católicos e protestantes. E já a partir do século XIII tinha havido uma primeira divisão dos católicos da Europa entre cismáticos e católicos.

Havia portanto já instalada entre os cristãos essa lamentável divisão que nós desejamos remediar pela conversão de todos — e que o ecumenismo quer remediar pelo interconfessionalismo —, essa lamentável divisão que enfraquece tanto as forças católicas.

No século XVI, de São Pio V, da batalha de Lepanto, havia outra coisa. É que o protestantismo tinha naquele tempo um vigor incomparavelmente maior do que hoje, estava ainda na sua fase de expansão, na sua fase de luta. E era muito de se temer que os protestantes aproveitassem a agressão feita pelos maometanos a um país católico, para invadirem, eles os protestantes, outros países católicos. Tanto mais que já havia disso uma experiência.

A casa D’Áustria que, como os senhores sabem, governava a Áustria, Hungria, e à qual tocava já habitualmente o título, e por eleição, de imperador do Sacro Império Romano Alemão, a casa D’Áustria várias vezes se viu em dificuldades seriíssimas por causa de combinações —ou ao menos de convergência, esforços —, claras, entre protestantes dentro do Sacro Império e otomano de fora do Sacro Império, para forçarem a capitulação da Casa D’Áustria, e liquidarem o catolicismo, de imediato pelo menos nos povos de língua alemã.

De maneira que para a Santa Sé a ameaça otomana era uma ameaça muito mais forte do que foi a ameaça árabe, tão terrível, entretanto. Porque ao menos os católicos do tempo dos árabes, formavam um bloco, enquanto dos católicos do tempo de São Pio V estavam divididos. Alguns já não eram mais católicos, havia os protestantes alemães. É verdade que no tempo da invasão árabe havia os arianos, mas os que resistiram não eram arianos, esses eram católicos de fato e lutaram.

Nessa situação São Pio V tinha que apelar naturalmente para o varão que era o apoio temporal da Igreja naquele tempo, e que era Felipe II, rei da Espanha. Precisamente porque o imperador do Sacro Império não tinha condições, por causa da divisão religiosa no império, de lutar eficazmente contra os mouros, os turcos. Precisamente porque a França estava corroída por uma crise religiosa muito grande, guerra de religião, etc., e os católicos mal davam conta para vencer os protestantes; porque a França já não tinha o fervor religioso que a Espanha ainda conservava.

Por todas essas razões o Papa não podia contar também com a França. Ele só podia contar, portanto, dentre as grandes potências católicas, com Felipe II de um lado, e depois com Veneza, que era uma grande cidade marítima, uma república aristocrática, com largo desenvolvimento em todo Mediterrâneo, e com muitos bons navegadores, boas frotas, etc.

Mas, se bem que o poderio de Veneza fosse ponderável o grande poder decisivo era o de Felipe II.

Agora, acontece que, os historiadores reconhecem — mesmo os historiadores que admiram Felipe II, e tem muitas razões para admirá-lo, eu sou um admirador dele — os historiadores entretanto reconhecem que Felipe II era um homem de uma indecisão do outro mundo. Quando tinha que resolver qualquer coisa, tinha vais-e-vens, concordava, depois discordava; e era preciso mandar embaixadores, e era preciso falar, e ele pedia prazo, deixava passar o prazo… Era uma coisa tremenda vencer a indecisão de Felipe II.

E São Pio V estava vendo o perigo crescer e todo o assunto ser resolvido numa sala do palácio real de Madrid ou do Escorial, por Felipe II com seus auxiliares ou sozinho, e no momento em que, em última análise, Felipe II se retraísse de repente, a horda maometana se desatava sobre a Itália, e depois atingia toda a cristandade. Era o fim da Civilização Cristã no Ocidente. E não seria o fim da Igreja porque a Igreja é imortal, mas a que a Igreja poderia ficar reduzida, ninguém sabe.

Pastor[1], que historia esses fatos, conta as tratativas de São Pio V com Felipe II, e ele mesmo diz que constituíram um verdadeiro martírio, [pelo] tanto [que] São Pio V teve que pedir. Felipe II fazia exigências, ele não podia atender. Pedia apoio para uns e para outros, para depois poder atender às exigências financeiras e outras de Felipe II. Afinal conseguia. Felipe II queria mais. Depois Felipe II queria que o Papa mandasse navios e o Papa não tinha os navios. O Papa acabava arranjando os navios. Mandava falar, Felipe II já não queria mandar a esquadra dele. Só os navios da Santa Sé não adiantavam…

Tanto foi a coisa que é certo que se não fosse a pressão de São Pio V, não se teria realizado a batalha de Lepanto, porque a Espanha não teria mandado a esquadra que era o grande contingente decisivo dentro das esquadras aliadas que lutaram e venceram em Lepanto. De tal maneira que os historiadores de São Pio V reconhecem que para ele foi mesmo, ao pé da letra, naquele momento de aflição, um martírio ele lutar naquelas condições, e que ele foi um verdadeiro herói em aguentar a angústia que a situação lhe trazia, e ao mesmo tempo lutar, lutar, lutar até o último momento, para conseguir afinal de contas que a batalha se desse, que as tropas saíssem.

 

No momento decisivo da batalha, Nossa Senhora aparece a São Pio V e lhe comunica a vitória

Aí os senhores compreendem melhor porque razão é que houve a famosa aparição a São Pio V.

Todos os senhores conhecem o caso: São Pio V estava numa reunião de cardeais, em Roma, tratando de qualquer assunto. E em certo momento, enquanto a reunião se desenvolvia, ele se levantou e rezou um terço, e rezou pela vitória dos católicos sobre os maometanos, porque ele tinha a noção de que mais cedo mais tarde deveria realizar-se uma grande batalha, e que seria decisiva para a Cristandade.

Enquanto ele rezava o terço, ou terminado o terço, apareceu-lhe Nossa Senhora Auxiliadora e comunicou a ele que a batalha de Lepanto tinha sido ganha. Ele então foi para o ponto da sala onde estavam reunidos os cardeais e comunicou isso: “Nós podemos nos tranquilizar. A batalha foi ganha. Há uma vitória. Eu tive uma revelação neste sentido, etc.”

Naquele tempo não se podia discutir que isso era milagre, porque não havia rádio, telégrafo, televisão, não havia nada, e uma notícia dessas levaria um tempo enorme para chegar de Lepanto até Roma. E ele teve no próprio dia, — eu tenho quase certeza disso, —a revelação da batalha. O que quer dizer que foi uma revelação sobrenatural, feita por Nossa Senhora a ele.

Agora, por que a ele? A ele porque ele era o chefe da Cristandade, não tem dúvida. A ele também porque ele tinha sido um verdadeiro herói, e tinha lutado a propósito dessa guerra, e tinha desenvolvido um esforço igual ou maior que o dos batalhadores de Lepanto. Ele tinha sido um herói, verdadeiro herói, como foi Dom João D’Áustria e como foram os outros grandes guerreiros que venceram em Lepanto.

 

A verdadeira noção de heroísmo – Os dois maiores exemplos da História, Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora

Agora, alguém me dirá: “Isso, Dr. Plinio, eu não compreendo, porque ele não arriscou a vida, ele ficou comodamente em Roma à espera de que viesse uma notícia. Se ele não arriscou a vida e não combateu não pode ser herói”.

Este é o ponto, o prisma falso que nós devemos tirar de nossa cabeça. Por certo quem luta com as armas na mão é um herói. Mas a doutrina católica jamais admitiu a tese de que esta é a única forma de heroísmo.

O que é o heroísmo? O heroísmo não é apenas o ato pelo qual o homem enfrenta o risco da perda da vida, ou o risco da perda da integridade física. O heroísmo é o ato pelo qual o homem enfrenta qualquer grande dor, ou qualquer grande infortúnio. Isso caracteriza o herói. E há dores morais, como há dores físicas. E às vezes as dores morais atormentam incomparavelmente mais do que as dores físicas. E enfrentar uma dor moral é, muitas vezes, incomparavelmente mais do que enfrentar a dor física.

Nós temos um exemplo da heroicidade que há em enfrentar dores morais na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo divide-se claramente em duas partes. Uma é a Agonia e outra é de fato a Paixão, em que Ele é preso, torturado, e depois crucificado.

Nessa primeira parte Ele desenvolveu, na Agonia, um verdadeiro e perfeito heroísmo, no mais alto sentido da palavra. Porque todo o sofrimento moral ocasionado pelos pecados da humanidade, pela ingratidão da humanidade, pela maldade de que Ele ia ser vítima, etc., todo esse sofrimento moral Ele teve, a tal ponto que pediu a Deus que se possível fosse afastado o cálice. Quer dizer, Ele chegou a suar sangue diante da perspectiva do que ia acontecer.

É ou não é um verdadeiro heroísmo Nosso Senhor levar a aceitação antecipada da dor e do sofrimento, esta dor moral que Ele teve no Horto das Oliveiras, levar ao ponto que levou? É um verdadeiro e autentico heroísmo, embora ali não tenha combatido fisicamente com ninguém. Mas Ele deliberou aceitar a certeza do tormento e da morte. Mais do que tudo, — foi o que mais O fez sofrer —, Ele deliberou fazer isto apesar da inutilidade por causa daqueles que não corresponderiam à graça e que acabariam se perdendo.

Esta deliberação que Ele tomou de morrer, apesar disso, é uma deliberação heróica. Essa dor de alma que isso lhe causou é uma dor autêntica, embora Ele fisicamente não estivesse combatendo.

Mas ainda, os senhores dirão: “Mas Ele ofereceu o risco da vida dEle, e o risco da vida d’Ele é um elemento integrante do heroísmo.

Eu digo, é, mas Nossa Senhora não ofereceu. Em Nossa Senhora ninguém tocou. O sofrimento d’Ela foi todo, de ponta a ponta, um sofrimento moral, sem nenhum sofrimento físico. Ora, Ela é chamada, é invocada, aclamada pela Igreja como Regina Martirum. Quer dizer, Ela é a Rainha de todos os mártires. Porque apesar de Ela não ter sofrido fisicamente, ninguém depois de Nosso Senhor Jesus Cristo, em toda história do mundo sofreu o que Nossa Senhora sofreu, pela Paixão e Morte do Filho d’Ela.

Quer dizer, nós devemos ver por aí que ter a força de alma para aguentar as coisas terríveis, para aguentar as decepções, para aguentar as calúnias, para aguentar as frustrações, para aguentar, enfim, tudo aquilo que o homem pode aguentar na vida, ter essa força de alma é um verdadeiro heroísmo; e que é uma tolice uma pessoa imaginar que é apenas herói aquele que combate de armas na mão.

 

Dois extremos: a maneira de lutar de um varão verdadeiramente católico e um "heresia branca"  diante da luta

Alguém me dirá: “Mas Doutor Plinio, vamos e venhamos, na comodidade da sala do Palácio Pontifício qual era o heroísmo? Heroísmo da alma. Era enfrentar esse sofrimento, esse era o heroísmo. É ter lutado com Felipe II em condições tão difíceis, em vez de ter entregue os pontos e procurado não ver o perigo que vinha. Como isso seria normal, como isso seria fácil. Não foi o que ele fez.

A vida dele não corria perigo, porque ele sempre teria onde se refugiar. Ele já estava velho, ele morreria antes de ser pego pelos adversários. Se ele fosse um “nhonhô” era o que ele pensaria. Mas exatamente porque ele era um santo ele teve o heroísmo de se sujeitar a todas essas coisas.

Os senhores estão compreendem o seguinte: que é “heresia branca” imaginar que toda a luta moral, não é luta. A luta moral do “heresia branca” não é luta. Isso é fato. Mas a luta moral do varão verdadeiramente católico, isso é luta.

Como é que luta um “heresia branca”? “Ahh!, estou eu aqui, Papa já velhinho. Que pena! Ninguém tem pena de mim. Fulano, me traga um chocolate para tomar. Estou tão triste… Me traga também umas pantufas de um veludo bem macio para eu colocar os meus pés já trôpegos sobre essa almofada; eu estou tão velho. Tenham pena de mim. Abram essa janela. Deixe eu olhar aquela pomba que está lá fora. Eu preciso me consolar”. Isso é “heresia branca” evidentemente.

“Mandem-me vir uma rosa. Oh! rosa, tu ao menos me dizes algo que me dá alegria, Pobre de mim…”

É claro, isso não é herói. É um molenga. Esse também não vai enfrentar Felipe II. Pega a carta de Felipe II e diz para o secretário: “Monsenhor, leia e me diga depois o que é, quando eu estiver um pouco mais animado. Agora, me dê um perfume”.

Isso não é um herói. É um palhaço. Um caricato.

Mas fazer como São Pio V fez, não. Isso é verdadeiro herói.

 

O aguentar o “rio chinês”, num ziguezague contínuo, exige um ato heróico: “A promessa que Nossa Senhora me fez não falhará”

 O quê devemos entender? Que na nossa vida de todos os dias, que não é uma vida cruenta, em que não estamos diretamente arriscando a nossa vida, nessa existência de todos os dias nós temos ocasiões de praticar verdadeiramente o heroísmo. Inclusive aguentando esse rio chinês que faz com que estejamos ziguezagueando continuamente em torno de algo que nunca chega. Isso é heroísmo.

Como foi heróico o profeta Simeão esperando até a velhice, para afinal ver o Salvador que lhe tinha sido prometido. Como foi Abraão com Isaac. Isso foi heroísmo: esperar até a velhice. Afinal nasce o filho da promessa, etc. Os senhores conhecem o resto da história.

Há uma confiança heróica pela qual a gente não desiste de esperar, apesar de tudo. Essa confiança dói. E a alma às vezes fica num estado que fica em sangue. Está bem, mas ela continua a confiar. E ela diz: “A promessa interior, inefável, que Nossa Senhora me fez na alma, essa promessa não falhará, eu confiarei e eu cumprirei a minha missão. Vamos para frente. Nossa Senhora me ajude. Eu confio na palavra d’Ela”.

Qual é a palavra d’Ela? É uma voz da graça, é uma apetência que nós sentimos que nos leva a todas as virtudes, que nos leva ao amor de Deus. E que como tal nós vemos que tem origem em Deus, e que equivale portanto a uma promessa. É a isso que nós devemos nos dar, é com base nisso que nós devemos estruturar a nossa confiança. E a alma assim pode ter uma confiança heróica, ela vence a batalha.

É por isso que a oração dessa alma é uma oração que move as montanhas.

 

“A oração é vitoriosa quando inspirada pela Fé que move as montanhas”

E é por isso também que os senhores veem que Nossa Senhora só revelou a São Pio V o que tinha acontecido depois dele ter rezado um terço. Quer dizer, Ela quis mostrar que Lhe era tão agradável que ele rezasse um terço, que a oração do terço é uma devoção tão grata a Ela, que é tão grato a Ela que se reze pedindo-lhe aquilo que a gente precisa, e que se reze por meio do rosário, que Nossa Senhora resolveu esperar esta ocasião para dar a esse servo dEla esse enorme galardão.

Nós aí devemos compreender o que é a Fé que move as montanhas. Essa Fé heróica que crê apesar de todas as aparências em sentido contrário. Não desanima, não volta atrás. Continua a lutar ainda que esteja reduzido a um palito, porque sabe que tem mais do que tudo: para lutar tem um terço na mão.

Como essa frase soa “heresia branca” hein!: “Eu tenho como arma o terço”. Entretanto a frase não é “heresia branca”. A nossa principal arma é a oração. E a oração é vitoriosa quando é inspirada pela Fé que move as montanhas. É a expressão de Nosso Senhor no Evangelho: “A Fé que move as montanhas”. Aí os senhores têm bem a imagem do que é o herói.

Os senhores imaginem um santo. Passagem bloqueada para um exército católico. Um santo vai ao pé de uma montanha e começa a cavocar a montanha. Faz um túnel, e milagrosamente levanta a montanha com os dois braços. O exército passa, ele deixa baixar a montanha, abre o túnel e sai do outro lado. Esse santo nós consideraríamos um colosso. Um homem que carregou com as duas mãos uma montanha. Oh! Fantástico!

Seria admirável. Mas mais bonito é carregar uma montanha com a oração, muito mais bonito do que carregá-la com as duas mãos. Isso fez São Pio V por meio de oração. Os senhores aí percebem como é o verdadeiro heroísmo.

 

O heroísmo é a aceitação enérgica, com espírito de fé, de qualquer sofrimento, físico ou moral, que põe em risco a nossa vida ou outros bens

Nós devemos ter apetência de derramar o nosso sangue pela Igreja? Pode ser que a graça nos dê essa apetência. Será uma coisa esplêndida. O desejo de derramar o sangue pela Igreja é um desejo de doação total. É magnífico. Eu não tenho palavras suficientes para encorajá-los. Os mártires tinham esse desejo, e muitos morreram na alegria do sacrifício que eles faziam.

Porém o que eu não posso aceitar é que se entenda que essa é a única forma de heroísmo, que outras formas de lutar pela Igreja não são verdadeiro e autêntico heroísmo. Esse aspecto nós temos que tirar de nosso espírito.

Então o que é o heroísmo? É a aceitação enérgica, firme, com espírito de fé, de qualquer sofrimento extraordinário, seja esse sofrimento qual for, físico ou moral, que põe em risco a nossa vida, a nossa integridade física, ou põe em risco outros bens. Isso é heroísmo.

Os senhores todos ouviram dizer de um caso que se contava aqui no Brasil antigo. Eu creio que chegou aos ouvidos dos senhores. De um padre a quem um assassino contou que tinha morto ou acabava de matar — contou em confissão — alguém na Igreja. E pediu absolvição. Ao padre pareceu que ele estava contrito e deu absolvição a ele, mas levantou-se logo depois para ir ver na Igreja — cidadezinha do interior, muito de manhã cedinho, a Igreja ainda vazia — quem estava morto. Estava ali um homem com um punhal.

O padre começou a tirar o punhal. Entram pessoas, começam a gritar… o padre tinha morto esse homem. O padre foi processado, condenado, foi preso, e passou muitos anos na prisão, tido como um sacrílego, um padre assassino, degradado, infame. Ele sabia que era inocente. Mas como o assassino tinha fugido ele não podia acusar o assassino, ele aceitou toda essa pavorosa humilhação. Mas ele não contou quem era.

“X” anos depois disso, digamos dez anos depois disso, em certo momento ele vê chegar à cadeia onde ele cumpria a pena, música, manifestações, brados de viva ao nome dele etc.

O que era? Era o assassino que antes de morrer tinha contado que ele era o assassino e que o padre era inocente. Então o padre foi absolvido e foi reintegrado no exercício do ministério sacerdotal. Mas dez anos, ou vinte anos de uma situação moral horrorosa.

Esse padre arriscou a vida? Não. Ele sofreu pancadas? Não. Mas ele sofreu muito pior do que isso. Eu acho que vários dentre os senhores preferiam morrer a passar por isso. Ele foi ou não foi herói? Um autêntico herói. Quer dizer, heroísmo é a disposição de aguentar qualquer sofrimento enorme, por amor a Nossa Senhora. Isso foi o que São Pio V aguentou. Ele foi herói.

Então compreendamos o valor do heroísmo ainda que incruento. E admirando enormemente aqueles a quem Deus pede que deem o seu sangue na luta pela Igreja, compreendamos que Deus a muitos pede o sangue da alma, e que a esses Ele pede tudo, como pede aos que dão sangue pela Igreja, pela Civilização Cristã.

E assim, tenhamos ânimo em conduzir o sofrimento de nossa vida, desde que não seja conduzido a la nhônhô, porque então deixa de ser sofrimento.

É assim: “Eu estou sofrendo, quero sofrer isto porque não há outro meio para chegar à finalidade que eu tenho em vista a não ser sofrer isto, mas eu olho de frente tudo que estou sofrendo e meço grão por grão, milímetro por milímetro, todo o sofrimento que eu tenho que aceitar. Está bem, aceito. Nossa Senhora me ajude e me dê forças. Isto eu quero, porque o resultado vale mais do que o que eu sou”.

Isso é, quando se trata de um grande sofrimento, o sofrimento heróico.

Assim, fica essa consideração sobre o heroísmo e com ela nós podemos encerrar essa parte da reunião.

 (Plínio Corrêa de Oliveira - Santo do Dia, 7 outubro de 1975)

 Carta de São Pio V (30/4) ao rei Felipe II da Espanha em defesa de Malta, ameaçada pelos muçulmanos

 Aqui há o trecho de uma carta de São Pio V aos reis cristãos pedindo auxílio na defesa da ilha de Malta. Essa ilha era ocupada pelos Cavaleiros da Ordem de Malta, que era uma Ordem de cavalaria religiosa e militar que datava da Idade Média, o posto avançado da defesa de todo o Mediterrâneo, em relação aos navios maometanos que tinham base na Turquia e em toda a África do Norte ocupada por nações muçulmanas.

Então, o papa se dirige a todos os reis da Europa cristã, pedindo apoio para a Ilha de Malta que estava sendo objeto de ataques:

“Ao nosso caríssimo filho em Cristo, Filipe II, Rei Católico da Espanha:

“Eis que está certo e estabelecido: nosso poderosíssimo inimigo, o sultão dos turcos, prepara uma frota considerável, uma armada importantíssima como ainda não houve. Ele completa todos os preparativos que se impõem a fim de se precipitar logo contra Malta, para abater a Ordem Militar de São João, a qual ideia particularmente é submeter esta ilha que deseja muito dela se apoderar, tanto por causa das grandes vantagens que ela oferece sob o ponto de vista estratégico, como por causa da vergonha sofrida no sítio precedente.

“Como a tais forças a Ordem não pode resistir de nenhuma maneira, nosso caríssimo filho Jean de La Valette, seu Grão Mestre, é obrigado a implorar o socorro dos príncipes cristãos contra o inimigo comum, o inimigo de Cristianismo.

“Nós não duvidamos que Vossa Majestade e vosso povo venham em nosso socorro espontaneamente, ainda mais considerando que é de vosso interesse que uma ilha assim próxima da Sicília e da Itália não caia em mãos inimigas”.

Esta carta tem aspectos bonitos.  O primeiro deles é o modo pelo qual o Papa trata o rei Filipe II. Ele se dirige assim: “Ao nosso caríssimo filho em Cristo, Filipe II, Rei Católico”.

É uma beleza a gente ver como os papas daquele tempo podiam se dirigir como de pai para filho, no protocolo oficial, para todos os grandes da terra: “nosso caríssimo filho”… e é um dos maiores potentados da terra, “em cujos domínios o sol jamais se punha”, o rei Felipe II. Bonito o título, também, de “Rei Católico”.

A Santa Sé foi dando aos vários reis, ao longo dos séculos, títulos que lembravam serviços prestados à Igreja. Então, o rei da França se chamava “Rei Cristianíssimo”; o rei da Hungria era “Majestade Apostólica”; o imperador do Sacro Império Alemão era “Sua Sacra Majestade Cesárea”, porque o imperador se reputava sucessor de Carlos Magno, o césar do Ocidente; o rei de Portugal era “Sua Majestade Fidelíssima”, por causa da grande fidelidade à Sé Apostólica; os reis da Espanha eram “Majestades Católicas”, porque a Espanha era a nação fiel por excelência, a nação católica por excelência. E, assim, o “Rex Catholicus” era o rei da Espanha.

Nesta época, havia um rei que tinha um título também, mas que já não merecia: era o rei da Inglaterra, “Defensor Fidei”; tinha sido nomeado “Defensor da fé”. E assim, cada rei tinha, como adorno mais belo, algum título que celebrasse sua união com a Igreja Católica.

Isto nos traz um contraste frisante em relação aos Estados modernos. Não pensem os srs. que essas fórmulas de tratamento ficam numa ordem puramente protocolar; mas elas baixam daí para a realidade das coisas.

Aqui os srs. têm um Papa que se dirige a Filipe II como a um filho e expõe a situação: os Cavaleiros da Ordem de Malta, que me são tão diletos, que são o amparo da Cristandade, estão necessitando de apoio: apoie.

É uma atitude muito natural pois se a Igreja está precisando, ele é um rei católico, que apoie! E apoiou e ajudou a salvar os Cavaleiros da Ordem de Malta. Hoje em dia, até um Estado se mover para ajudar a Igreja Católica, que dificuldade!

É verdade que o Papa põe aqui também um argumento de ordem temporal: ele mostra que as possessões do Rei da Espanha na Itália, especialmente a ilha da Sicília, ficariam ameaçadas com a queda da Ordem de Malta. Mas isso é argumento secundário; o argumento fundamental que ele dá é a Fé ameaçada.

Os srs. veem que felizes tempos: grandes perspectivas! grande fé a iluminar a vida política daquela época! grande nostalgia de nossa parte!... Não há nostalgia mais dolorida do que a nostalgia daquilo que a gente nem sequer chegou a conhecer, mas os élans de nossa alma católica pedem por ver e pegar.

Mas há uma grande alegria: essa nostalgia é ao mesmo tempo uma grande esperança! Esta é a grande alegria com que terminamos este “Santo do Dia”.

Eu estava falando, hoje à tarde, a respeito de um assunto que se relaciona ligeiramente com esse e no qual menciono muito de passagem. Na “Reunião de Recortes” eu estava dizendo que – se não me trai a memória – deve fazer agora dez anos que foi publicada a R-CR.

A R-CR é exatamente o livro onde se condensam, se esquematizam estas noções, onde ao mesmo tempo se dá um quadro do que é ou deveria ser a Cristandade, se mostra o panorama horroroso da chaga da Revolução que nela se instaurou.

Convém, sobretudo aos mais novos, que há dez anos não estavam na TFP, que procurem ler e estudar esse nosso livro básico, onde se encontram estas ideias, nostalgias e esperanças.

E assim – baseado ou estimulado pelo perfume desses áureos tempos – fica aqui um apelo aos senhores para uma leitura e estudo da R-CR neste próximo ano que será o décimo de sua publicação.

Com isto, resta-me encorajá-los ardentemente a que vão lutar, amanhã, pela causa de Nossa Senhora expressa na Tradição, na Família e na Propriedade, nas ruas e vias de São Paulo. E que Nossa Senhora os abençoe e os ajude.

(Plínio Corrêa de Oliveira - Santo do Dia, 30 de novembro de 1968)

 

 



[1] Ludwig Pastor, posteriormente Ludwig von Pastor, Freiherr von Campersfelden (31 de janeiro de 1854 – 30 de setembro de 1928), historiador alemão e um diplomata para a Áustria. Sua obra mais famosa foi “History of the Popes”, Hstória dos Papas.

 


domingo, 17 de janeiro de 2021

O SANTO QUE VIU A VITÓRIA DA IGREJA TAMBÉM NOS DIAS ATUAIS


 

O dia da festa do grande Papa São Pio V é no dia 30 de abril, mas resolvemos relembrar hoje, no início deste ano um dos Santos do Dia do Dr. Plínio Corrêa de Oliveira sobre o santo da guerra de Lepanto:

"Hoje é festa de São Pio V (1551-1572), Papa e Confessor. Dele afirma o Martirológio que se aplicou com zelo e entusiasmo a restaurar a disciplina eclesiástica, extirpar as heresias e esmagar os inimigos do nome cristão. Ele foi inquisidor supremo, promotor da batalha de Lepanto.

Dados narrados por D. Guéranger, em L’Année Liturgique e de Rohrbacher, na sua Histoire Universelle de l’Eglise Catholique:

“Miguel Ghislieri, futuro São Pio V, foi nomeado superior de numerosos conventos, e [deplorou] logo o relaxamento, corrigindo abusos, mantendo a disciplina. Com ele pareceram ressuscitados os Pacômios... Onde se encontrasse fazia reviver o espírito de São Domingos em toda sua pureza e fervor. Era notável sua assiduidade nos exercícios do claustro. No exercício divino, destacava-se por sua humildade sincera, por seu amor à solidão, ao silêncio, à pobreza, à mortificação e seu zelo contra as heresias de seu tempo. Por isso foi feito inquisidor da fé em Como. Cumpriu seu ofício com prudência, mas foi objeto de perseguição, correndo risco de vida. Em 1557, Paulo IV o fez Cardeal. Todo o Sacro Colégio agradeceu ao Pontífice por lhe ter dado um tão digno colega. Malgrado suas numerosas ocupações, o agora cardeal Ghislieri era imensamente afável, quer com aqueles que vinham tratar de negócios sérios, quer com os que vinham importuná-lo...”

“A ninguém jamais fez recusas, nunca foi recusada uma audiência e o todo de sua conduta, como suas menores atitudes, faziam compreender que Deus o elevava dia a dia, a fim de que dessa altura ele pudesse servir, instruir, edificar o maior número de pessoas.

“Eleito Papa, Pio V reuniu todos os dignatários e domésticos de sua casa, prescreveu-lhes regras de conduta, declarou o que esperava deles, segundo seu estado, e advertiu que não aceitava nenhuma infração aos princípios de uma piedade exemplar. E ele dava exemplo. Austeríssimo consigo mesmo, não abandonava suas vestes de monge sob os trajes pontifícios, nem mesmo sobre a dura enxerga que lhe servia de leito. Todas as noites fazia uma longa visita aos sete altares da Igreja de São Pedro”.

Que cena bonita! A Igreja de São Pedro já fechada, e o papa santo, indo de altar em altar para rezar na solidão da igreja, seguido provavelmente por uma ou duas pessoas que conduziam velas, alguma coisa assim, e rezando longamente. Que cena maravilhosa!

“Em conjunturas importantes, passava noites inteiras de joelhos, consultando a Deus sobre suas decisões. Seu sêlo, no lugar do escudo, trazia esse versículo de um salmo: “Possam meus caminhos estar dirigidos a guardar a Vossa justiça”. E para não se afastar nunca do sofrimento de Cristo, tinha sempre diante de si, sobre uma mesa, uma imagem de Nosso Salvador na Cruz, ao redor da qual estavam escritas essas palavras de São Paulo: “Longe de mim gloriar-me senão na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Dirigindo-se a cardeais, notou-lhes que o meio mais seguro de apaziguar a cólera de Deus, de deter os hereges que atacavam a Igreja, os muçulmanos que estendiam seu império de barbárie, era em primeiro lugar regular suas vidas e suas casas. 'É a vós, dizia, que Cristo dirige as palavras: Vós sois a luz do mundo, vós sois o sal da terra'.

“Roma era publicamente devorada pelas cortesãs (...). Pio V publicou um edito muito rigoroso contra (...), banindo-as de Roma e dos Estados pontifícios, chamando-as as ‘pestes da república’ (res publica). (...)

“Depois de seis anos de um pontificado cheio de lutas, entre os quais destaca-se o esforço do papa contra os turcos e a obtenção da vitória de Lepanto (1571) por sua oração a Nossa Senhora do Rosário, Pio V passou a ser objeto do ódio por parte dos inimigos da Igreja. Tentaram matá-lo, empregando para isso os meios mais pérfidos. Uma vez, por um estratagema tão covarde quanto sacrílego, secundados por uma odiosa traição, passaram veneno nos pés do crucifixo que o santo tinha no seu oratório”...

Isso é uma infâmia! Matar um papa, um papa santo, matar na hora em que ele vai oscular o crucifixo, e pôr o veneno no próprio crucifixo, são requintes de infâmia...!

“...que osculava com freqüência. Como se preparasse para sua homenagem diária à sagrada imagem, eis que os pés do Crucificado destacam-se da cruz e como que se afastam do respeitoso ancião. Pio V compreendeu, então, que a malícia de seus inimigos se transformara para ele em instrumento de morte. No leito de morte, lançando um último olhar à Igreja da terra que ia deixar pela do Céu, e querendo implorar uma última vez a divina bondade em favor do rebanho que deixava exposto a tantos perigos, recitou com uma voz quase apagada essa estrofe dos hinos do tempo pascal: ‘Criador do homem, dignai-vos preservar Vosso povo dos assaltos da morte’. Tendo acabado essas palavras, dormiu suavemente no Senhor”.

*    *    *

São tão bonitos esses dados que a gente tem dificuldade em os comentar. Nós podemos em alguma coisa tomar nota da fisionomia moral dele.

Em primeiro lugar, esse aspecto que temos comentado tanto aqui: a distinção entre o briguento e o lutador.

O indivíduo lutador é aquele que luta por princípios, nunca faz uma briga por razões de caráter individual. No campo dos interesses individuais, ele tolera, ele suporta, ele perdoa, ele é magnânimo, não se incomoda com nada, mas no campo da doutrina e dos interesses da Igreja Católica é um leão e aí é verdadeiramente indomável, podendo ser considerado uma fera, porque o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo foi chamado pela Escritura “Leão de Judá”.

Sempre que alguém é muito briguento, é pouco lutador. Luta quem o faz pela Igreja; briga quem é movido meramente por seus interesses pessoais.

Os senhores estão vendo aqui São Pio V afabilíssimo, modelo de afabilidade. Aquele tempo era uma época de Renascentismo, com uma vida de corte muito desenvolvida; todos os Prelados eram importunados por um mundo de cacetes: iam fazer pedidos, faziam visitas supérfluas, atrapalhavam a vida do prelado de várias maneiras... Ele tinha uma paciência completa, recebendo todo mundo de modo edificante, maravilhoso. Mas isso é porque atrapalhava a vida dele e atrapalhando a vida dele estava em jogo ele. E estando em jogo sua pessoa, estavam em jogo interesses dele e os interesses dele não eram nada, porque nenhum de nós diante de Deus é nada. E por causa disso a nossa preocupação deve ser de sacrificar nossos interesses individuais, nossas conveniências, nossa vontade à Causa Católica.

Observem que quando se trata de moral, de doutrina, como a severidade a mais extrema, a mais infatigável, a mais contínua é o traço distintivo desse homem. De começo ao fim, numa época de relaxamento moral, de abandono de todos os princípios, de esboroamento da Cristandade, época da Renascença, como ele representa a moralidade firme! Os senhores vêem que começa por aí: ele entra no convento. Qual era sua nota característica? Destacava-se pela humildade sincera, pelo amor à solidão, ao silêncio, à pobreza e à mortificação. O lutador gosta da solidão, gosta do silêncio, gosta da pobreza e da mortificação.

Pelo contrário, o briguento não. Prestem atenção: gente briguenta nunca gosta de estar sozinha. Gosta sempre de estar perto dos outros atazanando. Diz a Escritura que é melhor a gente morar numa casa com goteiras do que com uma mulher litigiosa, porque a goteira é parada e a mulher sai atrás do homem pela casa. A pessoa briguenta tem muito disso.

O lutador se isola, o lutador se concentra, o lutador tem princípios, ele pensa. E quando chega a hora de falar, fala mesmo!

Ele já era notado por seu zelo contra as heresias, mas heresias de seu tempo. Eu conheci professores de seminário que eram exímios para refutar a heresia dos montanistas, dos donatistas. Dizia-se: “Esse aí é um monstro. Fazia aulas com uma energia contra Ario, mas uma coisa extraordinária!...” Mas era incapaz de protestar contra o vereador do bairro que propusesse uma lei imoral qualquer... Ou seja, eram corajosos retrospectivos...

Feito Cardeal, qual é sua preocupação? É da luta - foi nomeado ao mesmo tempo inquisidor –, é a luta a favor da inquisição contra os hereges.

Feito Papa, recomeça a luta contra a falta de austeridade. Primeiro chama todos os dignatários domésticos de sua casa, prescreve regras de conduta. Naquele tempo de Renascentismo era exatamente para acabar com aquelas frivolidades, porque tem que ser sério, tem que ser austero, não pode andar com carinha assim sorrindo, pimpona... Naquele tempo usava-se batina de seda preta rendada, quase como saia balão, como se fosse uma senhora... jeitos femininos, adamados, cabelinhos arranjados, dois, três anéis nos dedos, etc. Acaba com isso. Porte-se como um Ministro de Nosso Senhor Jesus Cristo que conduz consigo o porte de Cristo crucificado.

Ele mesmo usava sua batina de dominicano, sob os trajes pontificais, e dormia vestido de dominicano. O costume é observado em várias Ordens religiosas de se dormir com o hábito religioso.

Dom Duarte Leopoldo e Silva, que foi um antigo arcebispo de São Paulo, foi acometido de um ataque cardíaco durante a noite. Ele dormia de pijama. Tocou a campainha para chamar o secretário. Antes deste chegar, ele já tinha se vestido e estava deitado de batina na cama. Quer dizer, isso  é o senso eclesiástico! Nunca se apresentar, nem sequer à intimidade de seu próprio secretário, sem o traje talar. Como isso é muito diferente do espírito de hoje...

Ele atribuía toda a tristeza da Igreja no tempo dele - a devastação que o protestantismo continuava a fazer, o espírito da Renascença, o neo-paganismo, a imoralidade, os avanços dos turcos que ameaçavam a Igreja - aos pecados que eram cometidos dentro da própria Igreja. E atribuía isso particularmente aos cardeais. De onde então ele dizer aos cardeais que a reforma de vida devia começar pela reforma deles.

Os senhores dirão: “Mas Dr. Plínio, os cardeais daquele tempo eram bem parecidos com os cardeais de outros tempos, não?” Eu digo: é verdade, com uma “pequena” diferença, mas essa diferença é “pequena”  como o tamanho que vai da terra ao céu: os cardeais daquele tempo tinham uma porção de defeitos, mas quando um cardeal Ghislieri era eleito para o Sacro Colégio, eles iam agradecer ao Papa, e depois elegiam esse cardeal Papa. Não é pequena a diferença...

Os senhores viram a medida dele contra as mulheres de má vida.

Por fim, os senhores conhecem o famoso episódio quando ele viu Nossa Senhora Auxiliadora desbaratar em Lepanto as naus dos turcos. E aqui há uma relação entre a “Bagarre” e esse episódio da vida de São Pio V.  Num “sonho” (visão) que São João Bosco teve, Nossa Senhora Auxiliadora estava presidindo do alto uma batalha em que, como em Lepanto, eram completamente dispersadas as naus dos adversários.

São Pio V viu uma vitória pré-figurativa da vitória que a Cristandade terá  e da implantação do Reino de Maria.

O que podemos pedir a São Pio V hoje? Que ele faça vir quanto antes esses acontecimentos, a fim de que venha logo o Reino de Maria e  possamos ver uma Lepanto imensamente maior do que a Lepanto de seu tempo, para a glória de Nossa Senhora, que com tanto amor ele serviu”.

(Fonte: Conferência, "Santo do Dia", 4 de maio de 1966 -   http://www.pliniocorreadeoliveira.info/DIS_SD_660504_saopiov.htm#.Wue_FaQvwdU  )

 

segunda-feira, 30 de abril de 2018

SÃO PIO V VIU A PRÉ-FIGURA DA VITÓRIA DO REINO DE MARIA









Plinio Corrêa de Oliveira


Hoje é festa de São Pio V (1551-1572), Papa e Confessor. Dele afirma o Martirológio que se aplicou com zelo e entusiasmo a restaurar a disciplina eclesiástica, extirpar as heresias e esmagar os inimigos do nome cristão. Ele foi inquisidor supremo, promotor da batalha de Lepanto.

Dados narrados por D. Guéranger, em L’Année Liturgique e de Rohrbacher, na sua Histoire Universelle de l’Eglise Catholique:

“Miguel Ghislieri, futuro São Pio V, foi nomeado superior de numerosos conventos, e [deplorou] logo o relaxamento, corrigindo abusos, mantendo a disciplina. Com ele pareceram ressuscitados os Pacômios... Onde se encontrasse fazia reviver o espírito de São Domingos em toda sua pureza e fervor. Era notável sua assiduidade nos exercícios do claustro. No exercício divino, destacava-se por sua humildade sincera, por seu amor à solidão, ao silêncio, à pobreza, à mortificação e seu zelo contra as heresias de seu tempo. Por isso foi feito inquisidor da fé em Como. Cumpriu seu ofício com prudência, mas foi objeto de perseguição, correndo risco de vida. Em 1557, Paulo IV o fez Cardeal. Todo o Sacro Colégio agradeceu ao Pontífice por lhe ter dado um tão digno colega. Malgrado suas numerosas ocupações, o agora cardeal Ghislieri era imensamente afável, quer com aqueles que vinham tratar de negócios sérios, quer com os que vinham importuná-lo...”

“A ninguém jamais fez recusas, nunca foi recusada uma audiência e o todo de sua conduta, como suas menores atitudes, faziam compreender que Deus o elevava dia a dia, a fim de que dessa altura ele pudesse servir, instruir, edificar o maior número de pessoas.

“Eleito Papa, Pio V reuniu todos os dignatários e domésticos de sua casa, prescreveu-lhes regras de conduta, declarou o que esperava deles, segundo seu estado, e advertiu que não aceitava nenhuma infração aos princípios de uma piedade exemplar. E ele dava exemplo. Austeríssimo consigo mesmo, não abandonava suas vestes de monge sob os trajes pontifícios, nem mesmo sobre a dura enxerga que lhe servia de leito. Todas as noites fazia uma longa visita aos sete altares da Igreja de São Pedro”.

Que cena bonita! A Igreja de São Pedro já fechada, e o papa santo, indo de altar em altar para rezar na solidão da igreja, seguido provavelmente por uma ou duas pessoas que conduziam velas, alguma coisa assim, e rezando longamente. Que cena maravilhosa!

“Em conjunturas importantes, passava noites inteiras de joelhos, consultando a Deus sobre suas decisões. Seu sêlo, no lugar do escudo, trazia esse versículo de um salmo: “Possam meus caminhos estar dirigidos a guardar a Vossa justiça”. E para não se afastar nunca do sofrimento de Cristo, tinha sempre diante de si, sobre uma mesa, uma imagem de Nosso Salvador na Cruz, ao redor da qual estavam escritas essas palavras de São Paulo: “Longe de mim gloriar-me senão na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Dirigindo-se a cardeais, notou-lhes que o meio mais seguro de apaziguar a cólera de Deus, de deter os hereges que atacavam a Igreja, os muçulmanos que estendiam seu império de barbárie, era em primeiro lugar regular suas vidas e suas casas. 'É a vós, dizia, que Cristo dirige as palavras: Vós sois a luz do mundo, vós sois o sal da terra'.

“Roma era publicamente devorada pelas cortesãs (...). Pio V publicou um edito muito rigoroso contra (...), banindo-as de Roma e dos Estados pontifícios, chamando-as as ‘pestes da república’ (res publica). (...)

“Depois de seis anos de um pontificado cheio de lutas, entre os quais destaca-se o esforço do papa contra os turcos e a obtenção da vitória de Lepanto (1571) por sua oração a Nossa Senhora do Rosário, Pio V passou a ser objeto do ódio por parte dos inimigos da Igreja. Tentaram matá-lo, empregando para isso os meios mais pérfidos. Uma vez, por um estratagema tão covarde quanto sacrílego, secundados por uma odiosa traição, passaram veneno nos pés do crucifixo que o santo tinha no seu oratório”...

Isso é uma infâmia! Matar um papa, um papa santo, matar na hora em que ele vai oscular o crucifixo, e pôr o veneno no próprio crucifixo, são requintes de infâmia...!

“...que osculava com freqüência. Como se preparasse para sua homenagem diária à sagrada imagem, eis que os pés do Crucificado destacam-se da cruz e como que se afastam do respeitoso ancião. Pio V compreendeu, então, que a malícia de seus inimigos se transformara para ele em instrumento de morte. No leito de morte, lançando um último olhar à Igreja da terra que ia deixar pela do Céu, e querendo implorar uma última vez a divina bondade em favor do rebanho que deixava exposto a tantos perigos, recitou com uma voz quase apagada essa estrofe dos hinos do tempo pascal: ‘Criador do homem, dignai-vos preservar Vosso povo dos assaltos da morte’. Tendo acabado essas palavras, dormiu suavemente no Senhor”.

* * *

São tão bonitos esses dados que a gente tem dificuldade em os comentar. Nós podemos em alguma coisa tomar nota da fisionomia moral dele.

Em primeiro lugar, esse aspecto que temos comentado tanto aqui: a distinção entre o briguento e o lutador.

O indivíduo lutador é aquele que luta por princípios, nunca faz uma briga por razões de caráter individual. No campo dos interesses individuais, ele tolera, ele suporta, ele perdoa, ele é magnânimo, não se incomoda com nada, mas no campo da doutrina e dos interesses da Igreja Católica é um leão e aí é verdadeiramente indomável, podendo ser considerado uma fera, porque o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo foi chamado pela Escritura “Leão de Judá”.

Sempre que alguém é muito briguento, é pouco lutador. Luta quem o faz pela Igreja; briga quem é movido meramente por seus interesses pessoais.

Os senhores estão vendo aqui São Pio V afabilíssimo, modelo de afabilidade. Aquele tempo era uma época de Renascentismo, com uma vida de corte muito desenvolvida; todos os Prelados eram importunados por um mundo de cacetes: iam fazer pedidos, faziam visitas supérfluas, atrapalhavam a vida do prelado de várias maneiras... Ele tinha uma paciência completa, recebendo todo mundo de modo edificante, maravilhoso. Mas isso é porque atrapalhava a vida dele e atrapalhando a vida dele estava em jogo ele. E estando em jogo sua pessoa, estavam em jogo interesses dele e os interesses dele não eram nada, porque nenhum de nós diante de Deus é nada. E por causa disso a nossa preocupação deve ser de sacrificar nossos interesses individuais, nossas conveniências, nossa vontade à Causa Católica.

Observem que quando se trata de moral, de doutrina, como a severidade a mais extrema, a mais infatigável, a mais contínua é o traço distintivo desse homem. De começo ao fim, numa época de relaxamento moral, de abandono de todos os princípios, de esboroamento da Cristandade, época da Renascença, como ele representa a moralidade firme! Os senhores vêem que começa por aí: ele entra no convento. Qual era sua nota característica? Destacava-se pela humildade sincera, pelo amor à solidão, ao silêncio, à pobreza e à mortificação. O lutador gosta da solidão, gosta do silêncio, gosta da pobreza e da mortificação.

Pelo contrário, o briguento não. Prestem atenção: gente briguenta nunca gosta de estar sozinha. Gosta sempre de estar perto dos outros atazanando. Diz a Escritura que é melhor a gente morar numa casa com goteiras do que com uma mulher litigiosa, porque a goteira é parada e a mulher sai atrás do homem pela casa. A pessoa briguenta tem muito disso.

O lutador se isola, o lutador se concentra, o lutador tem princípios, ele pensa. E quando chega a hora de falar, fala mesmo!

Ele já era notado por seu zelo contra as heresias, mas heresias de seu tempo. Eu conheci professores de seminário que eram exímios para refutar a heresia dos montanistas, dos donatistas. Dizia-se: “Esse aí é um monstro. Fazia aulas com uma energia contra Ario, mas uma coisa extraordinária!...” Mas era incapaz de protestar contra o vereador do bairro que propusesse uma lei imoral qualquer... Ou seja, eram corajosos retrospectivos...

Feito Cardeal, qual é sua preocupação? É da luta - foi nomeado ao mesmo tempo inquisidor –, é a luta a favor da inquisição contra os hereges.

Feito Papa, recomeça a luta contra a falta de austeridade. Primeiro chama todos os dignatários domésticos de sua casa, prescreve regras de conduta. Naquele tempo de Renascentismo era exatamente para acabar com aquelas frivolidades, porque tem que ser sério, tem que ser austero, não pode andar com carinha assim sorrindo, pimpona... Naquele tempo usava-se batina de seda preta rendada, quase como saia balão, como se fosse uma senhora... jeitos femininos, adamados, cabelinhos arranjados, dois, três anéis nos dedos, etc. Acaba com isso. Porte-se como um Ministro de Nosso Senhor Jesus Cristo que conduz consigo o porte de Cristo crucificado.

Ele mesmo usava sua batina de dominicano, sob os trajes pontificais, e dormia vestido de dominicano. O costume é observado em várias Ordens religiosas de se dormir com o hábito religioso.

Dom Duarte Leopoldo e Silva, que foi um antigo arcebispo de São Paulo, foi acometido de um ataque cardíaco durante a noite. Ele dormia de pijama. Tocou a campainha para chamar o secretário. Antes deste chegar, ele já tinha se vestido e estava deitado de batina na cama. Quer dizer, isso é o senso eclesiástico! Nunca se apresentar, nem sequer à intimidade de seu próprio secretário, sem o traje talar. Como isso é muito diferente do espírito de hoje...

Ele atribuía toda a tristeza da Igreja no tempo dele - a devastação que o protestantismo continuava a fazer, o espírito da Renascença, o neo-paganismo, a imoralidade, os avanços dos turcos que ameaçavam a Igreja - aos pecados que eram cometidos dentro da própria Igreja. E atribuía isso particularmente aos cardeais. De onde então ele dizer aos cardeais que a reforma de vida devia começar pela reforma deles.

Os senhores dirão: “Mas Dr. Plínio, os cardeais daquele tempo eram bem parecidos com os cardeais de outros tempos, não?” Eu digo: é verdade, com uma “pequena” diferença, mas essa diferença é “pequena” como o tamanho que vai da terra ao céu: os cardeais daquele tempo tinham uma porção de defeitos, mas quando um cardeal Ghislieri era eleito para o Sacro Colégio, eles iam agradecer ao Papa, e depois elegiam esse cardeal Papa. Não é pequena a diferença...

Os senhores viram a medida dele contra as mulheres de má vida.

Por fim, os senhores conhecem o famoso episódio quando ele viu Nossa Senhora Auxiliadora desbaratar em Lepanto as naus dos turcos. E aqui há uma relação entre a “Bagarre” e esse episódio da vida de São Pio V. Num “sonho” (visão) que São João Bosco teve, Nossa Senhora Auxiliadora estava presidindo do alto uma batalha em que, como em Lepanto, eram completamente dispersadas as naus dos adversários.

São Pio V viu uma vitória pré-figurativa da vitória que a Cristandade terá e da implantação do Reino de Maria.

O que podemos pedir a São Pio V hoje? Que ele faça vir quanto antes esses acontecimentos, a fim de que venha logo o Reino de Maria e possamos ver uma Lepanto imensamente maior do que a Lepanto de seu tempo, para a glória de Nossa Senhora, que com tanto amor ele serviu”.

(Fonte: Conferência, "Santo do Dia", 4 de maio de 1966 - http://www.pliniocorreadeoliveira.info/DIS_SD_660504_saopiov.htm#.Wue_FaQvwdU )