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terça-feira, 17 de junho de 2025

O CARÁTER PROFÉTICO DE DR. PLÍNIO CORRÊA DE OLIVEIRA

 



 

O profetismo voltou a ser um tema muito debatido nos últimos tempos. É preciso, pois, esclarecer alguns pontos que a opinião geral não entende bem sobre vocação tão grandiosa.  De modo geral, pensa-se que tal vocação só existiu no Antigo Testamento, quando os profetas profetizaram sobre a vinda do Messias e, alguns deles, sobre o povo eleito e o futuro da humanidade. A missão principal de um profeta é conduzir seu povo. Com a vinda do Messias tal vocação ficou presente apenas na Igreja, a condutora do povo de Deus para o Reino de Cristo, mas é através de seus membros, o Corpo Místico de Cristo, que ela cumpre tal missão.  

 

O Profetismo é inerente à vida consagrada

O Profetismo em nossos dias é estimulado pela Igreja como uma grande graça divina para a condução dos destinos d’Ela própria. Na Exortação Apostólica Pós-Sinodal de João Paulo II, sobre a Vida Consagrada dos Institutos Seculares, publicada em 25 de março de 1996, há o seguinte texto sobre o Profetismo:

"O profetismo da vida consagrada

“84. O caráter profético da vida consagrada foi posto em grande relevo pelos Padres sinodais. Apresenta-se como uma forma especial de participação na função profética de Cristo, comunicada pelo Espírito a todo o Povo de Deus. De fato, o profetismo é inerente à vida consagrada enquanto tal, devido ao radicalismo do seguimento de Cristo e da consequente dedicação à missão que o caracteriza. A função de sinal, que o Concílio Vaticano II atribui à vida consagrada, exprime-se no testemunho profético da primazia que Deus e os valores do Evangelho têm na vida cristã. Em virtude desta primazia, nada pode ser preferido ao amor pessoal por Cristo e pelos pobres, nos quais Ele vive. A tradição patrística viu um modelo da vida religiosa monástica em Elias, profeta audaz e amigo de Deus. Vivia na sua presença e contemplava no silêncio a sua passagem, intercedia pelo povo e proclamava com coragem a sua vontade, defendia os direitos de Deus e levantava-se em defesa dos pobres contra os poderosos do mundo (cf. 1 Rs 18-19; 21). Na história da Igreja, juntamente com outros cristãos, não faltaram homens e mulheres consagrados a Deus que exerceram, por dom particular do Espírito, um autêntico ministério profético, falando em nome de Deus a todos, também aos Pastores da Igreja. A verdadeira profecia nasce de Deus, da amizade com Ele, da escuta diligente da sua Palavra nas diversas circunstâncias da história. O profeta sente arder no coração a paixão pela santidade de Deus e, depois de ter acolhido a palavra no diálogo da oração, proclama-a com a vida, com os lábios e com os gestos, fazendo-se porta-voz de Deus contra o mal e o pecado. O testemunho profético requer a busca constante e apaixonada da vontade de Deus, uma comunhão eclesial generosa e imprescindível, o exercício do discernimento espiritual, o amor pela verdade. O referido testemunho exprime-se ainda mediante a denúncia do que é contrário à vontade divina e a busca de novos caminhos para atuar o Evangelho na história, na perspectiva do Reino de Deus.

 

A sua importância para o mundo contemporâneo

“85. No nosso mundo, onde frequentemente parecem ter-se perdido os vestígios de Deus, torna-se urgente um vigoroso testemunho profético por parte das pessoas consagradas. Tal testemunho versará, primariamente, sobre a afirmação da primazia de Deus e dos bens futuros, como transparece do seguimento e imitação de Cristo casto, pobre e obediente, votado completamente à glória do Pai e ao amor dos irmãos e irmãs. A própria vida fraterna é já profecia em ato, numa sociedade que, às vezes sem se dar conta, anela profundamente por uma fraternidade sem fronteiras. Às pessoas consagradas é pedido que ofereçam o seu testemunho, com a ousadia do profeta que não tem medo de arriscar a própria vida.

Uma íntima força persuasiva da profecia vem-lhe da coerência entre o anúncio e a vida. As pessoas consagradas serão fiéis à sua missão na Igreja e no mundo, se forem capazes de se reverem continuamente a si próprias à luz da Palavra de Deus. Poderão assim enriquecer os outros fiéis com os dons carismáticos recebidos, deixando-se por sua vez interpelar pelas provocações proféticas vindas dos outros elementos eclesiais. Nesta permuta de dons, garantida por uma plena sintonia com o Magistério e a disciplina da Igreja, resplandecerá a Ação do Espírito, que « conduz [a Igreja] à verdade total e unifica-a na comunhão e no ministério, enriquece-a e guia-a com diversos dons hierárquicos e carismáticos”.

Há outros pontos a destacar no documento acima, mas julgamos importante apenas o que destacamos acima a fim de realçar o papel do profetismo em nossos dias.

 

O profetismo de Dr. Plínio Corrêa de Oliveira

Vejamos o que diz sobre o profetismo pliniano Monsenhor João S. Clá Dias, EP:

“Contudo, podemos afirmar que Plínio foi um profeta? Terá sido ele, de fato, galardoado pela Divina Providência com os predicados do profetismo? Já na infância vislumbrava diante de si uma missão excelsa, como atestam suas palavras: “Eu sentia muitíssimo, desde menino, a predestinação para uma grandiosa vocação”. [1] Entretanto, a noção de profetismo ainda não se apresentava ao seu espírito, uma vez que, segundo suas jovens impressões, profeta deveria ser chamado aquele homem que executasse ações portentosas e terríveis, dividindo as águas do mar ao levantar o braço ou, então, a cujas ordens baixasse fogo do céu. “Eu não tinha a ideia de ser profeta, pois para mim profeta era, por exemplo, Elias fazendo milagres”.[2]

“Assim, antes de responder de modo categórico à pergunta acima formulada, torna-se indispensável lançar um olhar sobre alguns dons de intuição que Plínio manifestou possuir desde o amanhecer da razão. Dentre eles, dignas de especial atenção são as inusitadas visões desse menino pelas quais chegava a contemplar cenas de episódios ocorridos fora do alcance de sua vista, a pequena ou grande distância, bem como a predizer acontecimentos que se passariam num futuro próximo. Plínio lembraria alguns desses fatos até o fim de sua existência, enquanto outros, por ele olvidados, seriam transmitidos a diversos familiares ou amigos por Da. Lucília. Além desses, quantos ter-se-ão dado, talvez na ausência dela e, por isso, perderam-se para a História?”[3]

Os dons e carismas próprios do profetismo foram se manifestando no decorrer da vida de Plínio Corrêa de Oliveira, sendo fartamente comentados e divulgados por seus discípulos, especialmente Monsenhor João Clá na obra que ora citamos. Dentre tais carismas o mais comum era o do discernimento dos espíritos, o que fazia com que ele analizasse com incrível acerto o interior das almas muitas vezes pelo simples olhado dado à pessoa. Tudo isso ficou comprovado em várias ocasiões e testemunhado por vários de seus seguidores ao longo dos anos.

 

Prenúncios do profetismo

O profetismo de Dr. Plínio já se manifestou através de tal discernimento desde sua infância ou pré-adolescência, conforme narra Monsenhor João S. Clá Dias, EP:

“Estaria relacionada com esse dom inicial a aptidão de que ele se utilizou aos doze anos, ainda nos bancos do Colégio São Luís?

Em algumas aulas o professor nomeava dois alunos para realizarem um torneio de perguntas e respostas sobre a matéria lecionada. Chamado para esse exercício, denominado desafio, Plinio era quase sempre confrontado a um menino de excelente memória e muito sucesso nos estudos, Francisco Antonio de Queirós Teles Neto, o qual lhe apresentava difíceis questões. Então, vendo-se apertado pela necessidade, Plínio lançava mão de um recurso especial: olhava com atenção a fisionomia do antagonista e tentava adivinhar sua próxima pergunta, obtendo resultado imediato: “Coisa curiosa! À força de olhar, com frequência descobria o que ele ia me perguntar. Assim, lia o necessário, preparava-se com antecedência e, quando ele terminava, dava-lhe imediatamente a resposta. Olhando-o eu não via somente a pergunta que iria me fazer, mas também o que ele não sabia. E, chegada a minha hora, fazia-lhe perguntas inesperadas, que ele respondia apenas em parte. Com isso, eu ganhava facilmente os desafios”[4]

Numa das suas reuniões a seus discípulos, Dr. Plínio comentou sobre um fato que demonstra a aplicação de tal carisma em seu apostolado:

“Eu me lembro que uma vez, quando a TFP era novinha, funcionava na Rua Vieira de Carvalho, fizemos uma semana de estudos onde vieram pessoas de vários estados, de várias origens, para participar, mas um bom número deles era novato que nunca tinha estado conosco. Havia uma sala lá que servia de biblioteca e na qual eu atendia aqueles que queriam falar comigo em particular.

Entrou um, do qual eu me lembro até agora. Mas bem magro, uma altura entre estatura média e pequena, muito moreno, os cabelos mais bem escassos, mas que ele encheu de brilhantina ou de qualquer desses cosméticos, ele estava um espelho reluzente dessa história. Colarinho sujo, se eu me lembro bem unhas sujas também e ele todo pouco banhado. Olhar espertíssimo, olhos pequenos, pretos e que se deslocavam de um lado para outro sem ele mover a cabeça, percebendo tudo o que ele queria perceber.

 

 

A falta do jeitinho

Ele sentou-se e me disse pouco mais ou menos isto:

- O senhor quereria me dizer o que é que tem a dizer a meu respeito?

- Você diga o que você quer dizer.

- Não, eu preferia que o senhor dissesse.

Era a primeira vez que eu estava vendo o palmípede e não sabia bem como resolver o caso dele.

Olhei para ele e disse:

- Olhe, você tem tais qualidades e tais defeitos.

Eu julguei que o meu homem ficasse satisfeito, pois estava me pedindo para eu falar com ele sobre ele.

Mas eu verifiquei que ele, de fato, não queria que eu dissesse a verdade sobre ele, ele esperava de minha parte um diagnóstico errado que desse a ele a alegria de que ele me tinha driblado.

Como ele viu que eu disse exatamente o que era, ele não fez outra coisa senão levantar-se, me estender a mão e dizer:

- Dr. Plinio, até logo.

- Ué? Você não continua essa conversa?

- Não, senhor. Eu não vou entrar na TFP.

- Mas, por quê?

- Porque não tem propósito o senhor me dizer o que disse.

- Por quê, eu errei?

- Não, porque o senhor acertou. Se o senhor é capaz de ver tão bem o que se passa em mim, eu prefiro não ter trato com o senhor.

É um horror, mas é um certo gênero de coisa e que o jeitinho está ausente.

Os jeitinhos como são há tantos, a todo o momento, a toda hora que a gente observa jeitinhos, e depois tantas aplicações diferentes, que eu nem sei o que dizer.”[5]

 

Guia da sociedade para os dias futuros

Além dos carismas acima citados, o profetismo também possui o dom de preparar e guiar a sociedade para os dias futuros, não somente dando segura orientação religiosa, mas, principalmente formando um grupo de seguidores que serão os construtores de uma nova sociedade. Nessa formação, a orientação dada por Dr. Plínio não se atinha somente ao âmbito religioso, mas incluía sociabilidade, educação cívica, artística, etc., dando aos jovens um novo conceito de sua própria vida. Ocorreu o mesmo com os antigos profetas, como Santo Elias, o qual tinha centenas de seguidores que também eram chamados de profetas.

Nesse sentido, os Arautos do Evangelho revelam exímia arte nessa construção, pois, além de dar segura orientação doutrinária a seus seguidores e amigos, vai, ao mesmo tempo, erigindo templos e castelos para recolhimentos de religiosos (brevemente, até cidades) onde se manifesta de forma exuberante a beleza e sacralidade de tais obras. Tudo isso foi preparado e orientado por Dr. Plínio enquanto vivia, pois dava ele os princípios de como será uma sociedade sacral no Reino de Maria. Hoje temos entre os Arautos do Evangelho excelentes artistas, tanto da arte escultural e construtiva quanto da música, da pintura, etc, anônimos para que se saiba que o importante é o reino que constroem e não suas famas. Nesse sentido, o profetismo dele não se atinha ao fato de prever e denunciar, mas também de construir já uma sociedade que tornar-se-á o Reino de Maria.

Assim se expressou ele sobre tal aspecto:

“A Contra-Revolução é um movimento que não visa apenas frear a Revolução, mas derrota-la, extermina-la e implantar o Reino de Maria, quer dizer, a instauração, nesta terra, de uma ordem temporal e, mais, de uma cultura, de uma civilização, de um estado espiritual que sejam marcados predominantemente pelos princípios que a Revolução tentou eliminar, de tal maneira que estes sejam levados até as suas últimas consequências, até o seu maior brilho e até o seu apogeu, e que da noite profunda da Revolução, pelos esforços da Contra-Revolução, saia a maior luz, o maior esplendor da Civilização Cristã, o estado mais radioso da Santa Igreja Católica Apostólica Romana”[6]

 

A RCR é a base do profetismo pliniano

O texto a seguir foi extraído da Carta Circular Pe. Anchieta, n. 49, de 14 de novembro de 1995, a partir da página 5. Colocamos os comentários do Sr. João Clá apenas no início:

“Alguém dirá: “Espere um pouco. Isso foi o que Nosso Senhor Jesus Cristo disse aos Apóstolos. Mas o que nosso Pai e Fundador terá dito a nosso respeito, o que ele diz que nós somos? Depois, me explique: como e que nós vamos continuar, se ele não está orientando? Se não é ele que está vivo aqui, dizendo: Façam isto, façam aquilo. Como é que isto vai acontecer?

Não há dúvida. Vamos às palavras deles. Em meados da década de 60 – portanto, há trinta anos atrás – ele já definia o que é que nós somos e o que é que vai acontecer conosco. É um simpósio sobre o que nós somos propriamente. Depois de explicar como nasceu o termo “profetismo” naquela conversa com o Bispo, o Sr. Dr. Plínio diz:

“Quando o Prof. Furquim fez uma saudação aos que partiam para o Concílio em 1962, ele teve esta expressão que me pareceu muito feliz. Ele disse: “Bastaria que o Concílio tomasse a RCR como centro das cogitações a partir das quais ele vai doutrinar e legislar para a situação do mundo estar salva”.

[...] Mas se esse caráter profético é da RCR, seria difícil negar que ele é também de quem fez a RCR. E seria difícil negar que ele é por participação daqueles para quem a RCR foi feita e a quem incumbe sob a direção de homem da RCR fazer a Contra-Revolução contra a Revolução.  Portanto, o profetismo assim visto é um carisma que, é evidente, continuou na Igreja e não foi apenas privilégio da Sinagoga.

Ao longo de minha vida, ao longo da pré-história do Grupo, apesar de parecer que a Providência nos tinha abandonado várias vezes, apesar de parecer que Ela não nos dava importância, que Ela não nos endossava, Ela nos ia dando uma porção de dados, de elementos, que foram constituindo para nós as possibilidades de ser o Grupo dotado de carismas numa determinada hora. É só questão de refazer a história do Grupo.

Depois, Ela permitiu que longamente houvesse uma prova. Uma prova de desinteresse pessoal e de confiança levada aos maiores sacrifícios, ao verdadeiro absurdo, que é o que caracteriza o verdadeiro profeta. O profeta tem que dar prova de confiança na Providência. A ação dele tem que ser absurda, salvo um auxílio d’Ela, do contrário não é profeta. Ele tem de ser desinteressado, ele tem de ser mártir de sua própria missão, senão não é profeta. Essa prova foi de algum modo o pior dos martírios. Mas foi uma espera que Deus quis que eu tivesse, como quis que Noé tivesse, que Abraão tivesse, que Nosso Senhor Jesus Cristo tivesse – poder-se-ia montar uma teologia a respeito disso – para afinal chegar a um determinado momento em que inexplicavelmente aquilo que a gente pensava que não frutificava começa a frutificar... na última hora.

Houve algo para dizer ao mundo sobre seu pecado, que os santos não previram, que a Igreja não previu por nenhum documento Pontifício, que Fátima não previu, mas cuja plenitude deveria ser predita por nós.

E isto corresponde completamente à nossa doutrina do Profetismo.

[...] As harmonias da história pedem que Deus tenha instituído profetas, ao menos em determinado momento, para serem os profetas da Causa da fidelidade. O combate à Revolução pela Contra-Revolução nunca teria atingido toda a radicalização necessária enquanto não fosse um combate de Profeta contra profetas.

 

Não são qualidades exclusivas minhas

Pelo que ficou atrás torna-se evidente que o Grupo tem uma concentração magnífica de carismas. Que esses carismas se transmitem basta examinar um pouco mais de perto o seguinte fato. Eu tenho uma tal ou qual facilidade para perceber a psicologia das pessoas através da fisionomia[7]. Essa facilidade nós podemos dizer que tem qualquer coisa de carismático. Agora, é uma qualidade exclusivamente minha ou não?

Chama-se muito atenção que isto, sem ser nestes termos, com essa precisão, porque o Grupo recebe isto bem, porque gosta que isto seja assim, porque acredita nisso, porque faz uso disto, o Grupo de algum modo participa da coisa, no seguinte sentido que os grupos não me dão trabalho praticamente nenhum no selecionar os seus próprios membros. É muito raro, é muito excepcional eu ter que intervir para conseguir que algum grupo expulse alguma pessoa que já não está prestando. É muito raro.

Na quase totalidade dos casos, os grupos pensam exatamente como eu a respeito das pessoas até sem me consultar, e, de um modo geral, quando eu tenho que intervir é apenas para determinar uma moção, um movimento que já estava a pique de se pronunciar naquele sentido. Não que haja pessoas no Grupo com tanta facilidade para discernir os espíritos, mas há, em todo caso, uma espécie de transmissão por onde, na medida em que são unidos a mim, os grupos de fato evitam coisas dessas. Qual seja a importância prática disso, é simplesmente indizível, porque se o Grupo admitisse abacaxis, ou se o Grupo não quisesse expulsar abacaxis, o Grupo se intoxicava, se dividia e deixava de existir. Uma das condições de existência do Grupo é essa espécie de discernimento dos espíritos que se apresenta em mim de um modo mais agudo, mas que por participação existe de um modo difuso no Grupo.

Por que é que o Senhor diz que isso é uma comunicação que o Senhor tem? Não poderia ser uma coisa nossa obtida sem a comunicação com o Senhor?

É só imaginar um membro do Grupo ande mal e eu garanto que ele começa a ratear nesse ponto. Quer dizer, é realmente uma comunicação. As pessoas que entram no Grupo não têm isso, mas na atmosfera de seus grupos locais essa coisa vai se acentuando e ao se acentuar há uma espécie de transfusão de alguma coisa que estava em mim – vamos dizer do discernimento dos espíritos, que é um carisma, há outros – de alguma coisa que estava em mim e que de um modo mais difuso passa para o Grupo inteiro.

 

O exemplo de Elias com Eliseu

Mas não existem apenas os carismas. Existe também uma coisa que se chama espírito do Grupo e que se apresenta como uma coisa misteriosa de Nossa Senhora. Eu pergunto se não é verdade que isto que tem uma espécie de elemento meio misterioso e interno da devoção a Nossa Senhora – que é o ponto de partida de tudo – se isto não tem alguma relação com o mistério da transmissão do espírito de Santo Elias?

O espírito de Santo Elias podia ser uma coisa diferente desta? Evidentemente não podia. Podia ser uma coisa mais rudimentar, assim mesmo eu duvido, dada a incomparável grandeza do personagem.  Mas, enfim, digamos, uma coisa rudimentar poderia ser, mas era o mesmo espírito.

Nós vemos que esse espírito, que tem qualquer coisa de manifestamente carismático pelo modo de a Escritura se referir a ele, foi objeto de uma transmissão misteriosa por meio de um manto, como condição para o cumprimento de uma missão. Não se daria que isto que é o espírito do Grupo é, então, uma graça que nasceu como Santo Elias, que Santo Elias no fim dos tempos fará brilhar de um modo incomparável?

Se Santo Elias é a antítese do anticristo, se é verdade, como dizem todos os teólogos, que o anticristo teve prefiguras, Santo Elias não teria também prefiguras? Não é normal que tenha, não é uma conjectura, não é uma coisa inteiramente judiciosa? Post-figuras e prefiguras? Post em relação a ele como fundador, “pré” em relação à volta dele? E destas pré e post-figuras, uma delas não teria sido o Grupo?[8] É uma coisa que a gente pode se perguntar, mas pode perguntar com importantes avisos de admitir que seja verdade, pois se quem fizesse para o mal aquilo que nós fazemos para o bem, seria uma verdadeira figura do anticristo, então é lógico, apesar de nossa vacuidade, apesar de tudo, é lógico admitir que haja em nós uma prefigura de Santo Elias. Aí está, em toda a sua enorme grandeza, a vocação que nós temos”.[9]

A partir de agora, Monsenhor João deixa de ler o restante dessa reunião e passa a comentar sobre o panorama deixado pelo Sr. Dr. Plínio após sua morte e a missão de seus seguidores a fim de cumprir suas palavras e exemplos. Ficou bem claro que somos a prefigura de Santo Elias, inclusive portador de seus carismas, dentre eles o da profecia, completamente atuante em sua plenitude no Sr..Dr. Plínio.

Será necessário um levantamento circunstanciado e trabalhoso para enumerar toda a obra realizada pelos seguidores de Dr. Plínio, após seu falecimento e seguindo rigorosamente todos os princípios de orientação deixados por ele em seu Grupo, hoje constante de várias organizações, dentre as quais destaca-se os Arautos do Evangelho, existente em quase 80 países. Surge, assim, os alicerces de uma nova Civilização que vai delinear o futuro da humanidade implantando o Reino de Maria na terra. Este é um dos aspectos mais salientes de seu profetismo: construir a Cidade de Deus.

 

Como eram as revelações divinas no profetismo pliniano

Supõe-se que todo profeta tem que receber revelações divinas para exercer sua missão. De modo geral, admite-se que tais revelações ocorram através de visões, sonhos ou locuções verbais ou interiores. Segundo Santa Teresa de Jesus[10], em sua obra “Castelos Interiores”, as revelações divinas mais perfeitas não são as feitas través de visões ou sonhos, mas as chamadas “locuções interiores”, pois Deus usa como recurso unicamente a alma da pessoa, sem necessidade dos sentidos naturais que possuímos. Um exemplo foi aquela revelação feita a São Pedro, que reconheceu Nosso Senhor Jesus Cristo como o Messias, feita não pela carne ou pelo sangue (quer dizer pelos sentidos ou por alguém) mas diretamente pelo Pai.

Doutor Plínio Corrêa de Oliveira chegou a declarar publicamente que nunca teve nenhuma revelação através de sonho ou visões. No entanto, percebe-se que pela virtude da sabedoria e do discernimento dos espíritos houve em seu interior todo um universo de revelações divinas, feitas para que ele pudesse cumprir sua missão profética. Um exemplo foi a inspiração para escrever o livro “Revolução e Contra-Revolução”, além de muitos outros.

A esse respeito, escreveu Monsenhor João Scognamíglio Clá Dias: “Em Dr. Plínio existia um dom do Espírito Santo pelo qual tudo quanto lhe era mostrado em seu interior ia além da acuidade da mera inteligência humana, com uma abrangência surpreendente e sem interrupção. Essa contemplação equivale, de certo modo, a participar do próprio conhecimento de Deus a respeito de toda a criação, pois é ver um fato, uma circunstância, um personagem ou um quadro histórico como espelhado n’Ele! Em Deus, isso existe de uma forma determinada e passava a ser experimentado por Dr. Plínio! É um dom que ele possuía de “voar” até Deus e, dentro dos olhos d’Ele, analisar os acontecimentos”[11]

A forma mais perfeita com que Deus faz suas revelações é, portanto, através das locuções verbais, pois inspira na alma um amor mais perfeito às coisas celestes, já que elas nascem e como que “brilham” dentro do coração do homem. No entanto, Deus poderá usar de outros recursos para “falar” ao interior do homem. Santa Teresa fala de uma maneira intelectual, que, no entanto, pode ser interpretada também como um tipo de locução verbal. Quanto à certeza de ser coisas divinas e não satânicas se saberá depois, “com as operações que produz e mesma visão”, pois, segundo o Evangelho, é pelos frutos que se conhece a árvore.

 

Também através de conselhos, a Providência faz revelações interiores

Estas revelações interiores podem ser feitas de vária formas, e uma delas é através de conselhos, especialmente destinadas a orientar principalmente que tipo de ação tomar, segundo explica Dr. Plínio ao falar de Nossa Senhora do Bom Conselho:

 

Como são os conselhos d’Ela?

“Ora, Nossa Senhora é a intermediária de todas as graças; é Ela quem leva a Deus Nosso Senhor os nossos pedidos e é Ela quem traz para nós a graça do bom conselho, aquilo que Espírito Santo comunica a Ela e que nós devemos saber para nossa orientação.

Como Nossa Senhora aconselha o íntimo de nossas almas? Ela o faz pela voz da graça, por meio de uma iluminação interior, de um discernimento especial, de uma palavra que vem de um bom amigo ou de um bom diretor, enfim, de um livro que encontramos. Foi, por  exemplo, o que aconteceu comigo com O Livro da Confiança do Abbé Saint-Laurent, que tanto me ajudou nas vias da confiança. Eu o comprei apenas para agradar a um vigário amigo e gentil que me tinha convidado para ir a uma feira de livros.

De um modo ou de outro, Nossa Senhora nos faz chegar o conselho que nós queríamos.

Em todas as ocasiões é sumamente importante a invocação de Nossa Senhora enquanto Conselheira, enquanto Padroeira que pede a Deus que os montes se movam e os rios alterem o seu curso para que a axiologia do coração de seus filhos se desenvolva de um modo reto e satisfatório.

 

Conselhos vindos pela união de almas

Os bons conselhos aparecem na alma sobretudo pela voz da vocação. Sempre que ouvirmos algo em nosso interior ou fora de nós que está na linha da vocação; sempre que sentimos um movimento que nos dá, de repente, apetência de algum bem; sempre que a graça inspire dentro de nós apreensão diante de algum mal; sempre que recebamos uma influência que nos santifica, devemos tomar isso como um bom conselho.

O modo pelo qual nós recebemos de Nossa Senhora, permanentemente, bons conselhos, é nos unindo àqueles que devem ser os planetas em torno dos quais nós devemos gravitar como satélites. O satélite não sai da órbita porque ele gira em torno de seu planeta. Assim também nós não saímos da órbita se estamos unidos interiormente com os que devem nos aconselhar.

Não se trata apenas de pedir um conselho, mas de ter uma tal união de almas, que, por assim dizer, ambos tenham o mesmo espírito, a mesma mentalidade, a mesma vontade; seguir o que o planeta deseja, antes mesmo de o ter manifestado.[12]

  [1] Conversa de Sábado à Noite, 12/3/1994.

[2] Idem.

[3] “O DOM DA SABEDORIA NA MENTE, VIDA E OBRA DE PLINIO CORREA DE OLIVEIRA” – de Mons. João Scognamíglio Clá Dias, EP – Librerie Edtrice Vaticana – pág. 198/199

[4] “CORREA DE OLIVEIRA, Plínio. Notas Autobiográficas – São Paulo, Retornarei, 2012 v. III, p. 408

[5] Extraído da Carta-Circular Pe. Anchieta, n. 24, de 27 de outubro de 1994 – páginas 11/12 – Santo do Dia de 19/10/1994

[6] PLÍNIO CORRÊA DE OLIVEIRA, Um profeta para nossos dias – Mons. João Scognamíglio Clá Dias, EP – Instituto Lumen Sapientiae e Arautos do Evangelho – 2017 – pág. 158

[7] Todos os que conviveram com o Dr. Plínio são testemunhas de que essa qualidade, esse carisma, ele possuía em grau elevado: era costume ele ver a psicologia das pessoas analisando suas fisionomias, muitas vezes através de fotos. Houve casos dessa análise ter sido feita simplesmente ao ouvir a voz da pessoa.

[8] Por humildade, Dr. Plínio não diz ser ele mesmo essa prefigura, afirmando ser o Grupo. Em outras oportunidades, quando ele vai falar de uma qualidade excepcional também diz ser da TFP e não dele. São assim os santos, não gostam de falar de si mesmos.

[9] Poderia ter dito: “a vocação que eu tenho”, etc.

[10] V. Obras Completas – Santa Teresa de Jesus – Carmelo do Coração Imaculado de Maria – Porto – pág. 650 em diante

[11] “PLÍNIO CORRÊA DE OLIVEIRA – Um Profeta para os nossos dias” – Mons. João Scognamíglio Clá Dias, EP, pág. 223

[12] Extraído da revista “Dr. Plínio”, n. 326, maio de 2025, págs. 20/24


quinta-feira, 24 de abril de 2025

DOUTOR, PROFETA E APÓSTOLO NA CRISE CONTEMPORÂNEA

 



 

Plinio Corrêa de Oliveira

 

Se alguém me pedisse para indicar um apóstolo-tipo para nossos tempos, eu responderia sem vacilação, mencionando o nome de um missionário... falecido há precisamente 239 anos! E, dando tão desconcertante resposta, teria a sensação de estar fazendo algo de perfeitamente natural. Pois certos homens, colocados na linha do profético, estão acima das circunstâncias temporais.

Basta exemplificar com Elias. Dentro de cem anos, os que hoje vivemos teremos sido superados pela marcha do tempo como estão hoje os homens de há cem anos atrás. Seremos atrasados, anacrônicos, mofados. Daí a duzentos, a trezentos anos, estaremos mais ou menos tão incrustados no reino da morte, das sombras e da História, quando as múmias egípcias que aguardam nas salas do British Museum o dia do Juízo Final. E o que dizer de nossa "situação" daqui a mil anos? Pois alguém há, vivo, vivíssimo, e que será a última palavra do apóstolo moderno, não hoje, mas no fim do mundo quando nós estivermos imersos na mais total anacronicidade. Alguém que viu dias muito anteriores aos de D. Pedro II, Pio IX e Napoleão III. Anteriores até a S. Luiz, a Carlos Magno, a Átila, o que direi, a Augusto e a Jesus Cristo. É o Profeta Elias! Apóstolo moderno, sim, e moderníssimo, não porque esteja escrito dele que participará do espírito e das tendências dos homens que então viverem, mas porque será mandado por Deus como o varão idealmente adequado a combater de frente a corrupção do século em que voltará a esta terra. Elias será moderno, não por ter tomado o espírito e a forma dos derradeiros anos da História - não vos conformeis com este século, adverte S. Paulo - mas porque será adaptado e adequado ao tempo. Adaptado, no sentido de que será "apto" a fazer-lhe bem. Adequado, sim, no sentido de que disporá dos meios adequados a corrigi-lo. E por isto mesmo moderníssimo. Pois ser moderno não é necessariamente parecer-se com os tempos, e muitas vezes pode até ser o contrário. Mas, para um apóstolo, ser moderno é estar em condições de fazer o bem no século em que vive...

Sem equiparar a Elias, Profeta incumbido de uma missão oficial, S. Luiz Maria Grignion de Montfort, em cujos escritos há luzes proféticas impressionantes, mas de um valor meramente privado, certa analogia existe entre um e outro. E é nos termos desta analogia que o Santo francês é um modelo de apóstolo para nossos dias, e os séculos vindouros.

*   *   *

São Luiz Maria Grignion de Montfort nasceu em Montfort-la-Canne, França, em 1678. De família pobre, faltavam-lhe recursos para custear os estudos necessários ao Sacerdócio, ao qual desde cedo aspirava. Dirigiu-se a Paris, onde exerceu o ofício de velar cadáveres na Paróquia de S. Sulpício em certas noites da semana, para pagar sua pensão no Seminário. Depois de um curso brilhante, foi ordenado Sacerdote em 1700.

Dado o vulto das dificuldades que se depararam a seu apostolado na França, e movido pelo desejo de anunciar o Evangelho aos gentios, S. Luiz Maria dirigiu-se a Roma para pedir uma diretriz ao Papa Clemente XI. Este determinou-lhe que retornasse à sua pátria, a fim de se dedicar a pregar à população católica necessitada de catequese e edificação. Entregando-se inteiramente a essa atividade durante os dez anos que ainda viveu, o Santo insistia particularmente sobre a renúncia à sensualidade e ao mundanismo, o amor à mortificação e à Cruz, e a devoção filial a Nossa Senhora. Como terceiro dominicano que era, difundiu largamente o Rosário.

Vítima dos ataques enfurecidos dos calvinistas e dos jansenistas, foi objeto de severas medidas da parte de um número não pequeno de Bispos franceses, que não o queriam por missionário em suas Dioceses.

A morte lhe veio quando ele contava apenas 43 anos de idade.

Fundou duas Congregações Religiosas a Companhia de Maria e as Filhas da Sabedoria.

Entre seus escritos, assinala-se o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, uma das mais altas obras da mariologia em todos os tempos, e talvez a mais alta delas. Este livro admirável foi deixado por ele em manuscrito, e desapareceu misteriosamente depois de sua morte, reaparecendo de maneira providencial em nossos tempos.

Leão XIII o beatificou em 1888. Pio XII, gloriosamente reinante, o inscreveu no catálogo dos Santos.

Esta é uma visão a "vol d’oiseau" da vida deste grande Santo.

Quanta riqueza se nos depara num exame mais atento dos principais aspectos dessa vida.

*   *   *

A Renascença desencadeou na Europa uma sede de diversões, de opulência, de prazeres sensuais, que impeliu fortemente os espíritos a subestimar as coisas do Céu, para se ocupar muito mais com as da terra. Daí, nos séculos XV e XVI, um declínio sensível da influência da Religião na mentalidade dos indivíduos e das sociedades. A esse indiferentismo nascente, somou-se não raras vezes uma antipatia contra a Igreja, discreta e apenas perceptível em uns, mais pronunciada em outros, e levada em alguns ao extremo de uma hostilidade militante. Tal estado de espírito concorreu sensivelmente para a eclosão do protestantismo, e para as manifestações de racionalismo e cepticismo tão freqüentes entre os humanistas. Do indiferentismo nascia naturalmente o livre pensamento.

Mas estes fermentos não atacaram desde logo toda a sociedade. De início, dominaram apenas certos elementos de alta influência na vida intelectual, na nobreza e no Clero, com o apoio de um certo número de soberanos. Aos poucos, entretanto, foram alcançando os tecidos mais profundos do corpo social. Ao tempo de S. Luiz Grignion, pode-se afirmar que sua influência se notava em todos os campos: a política se laicizara, a antiga sociedade orgânica e cristã fora semi-deglutida pelo absolutismo do Estado neo-cesáreo e neo-pagão, minguara a influência da Religião na vida de todas as classes sociais, principalmente nas elites, uma tendência geral para costumes mais frouxos, mais "livres", mais fáceis ganhava todos os ambientes, a sede de prazer e de lucro crescia, o mundanismo pompeava até em certo número de casas religiosas, o mercantilismo estendia seus tentáculos para dominar toda a existência. Em linhas gerais, o quadro era bastante parecido com o de nossos dias.

 

DIFERENÇAS CONSIDERÁVEIS

Entretanto, se a analogia é profunda, evidente, indiscutível, seria impossível passar-se daí para uma equiparação absoluta. O corpo no qual os fermentos agiam nos séculos XV, XVI e mesmo XVII, era ainda o corpo robusto da velha Cristandade gerada pela Idade Média. Um sem número de instituições, de hábitos mentais, de tradições, de usos, de leis refletia ainda o espírito da sociedade orgânica e cristã de outrora. Se a monarquia absoluta pressagiava o socialismo hodierno, ela se personificava contudo nos Reis pela graça de Deus, que ainda se consideravam Pais de seus povos no bom e velho estilo de S. Luiz IX. Se a vida internacional fora secularizada com os tratados de Westphalia, ainda existiam tais ou quais vestígios da Cristandade, uma família de Reis e povos cristãos dotados da consciência de formar um todo à parte, face ao mundo gentílico. Se a sociedade era mundana, as disputas religiosas - como as que se travaram entre Jesuítas e jansenistas - encontravam nela uma ressonância que jamais teriam em nossos dias. Se os costumes eram frouxos na corte e nas cidades, havia a isto numerosas e retumbantes exceções. Nos degraus do trono, no próprio trono o escândalo de um Luiz XIV, por exemplo, era de algum modo reparado por sua emenda e sua vida modelar depois do casamento com Mme. de Maintenon e a queda de Mlle. de La Vallière o era por sua penitência exemplar no Carmelo. Mme. de Montespan por sua vez morria cristãmente, o Duque de Borgonha, neto de Luiz XIV, se destacava por sua piedade, e a família real ainda teria no século XVIII ao lado da vergonha da vida de Luiz XV, a ilustração das virtudes pouco comuns do Delfim Luiz, da Carmelita Madame Louise de France, e da Princesa Clotilde de Sabóia, ambas filhas do Rei, e falecidas em odor de santidade. Assim, por mais rigorosas que sejam as analogias entre o século XVI e o século XX, haveria manifesto exagero em afirmar que a vida política e social já se encontrava então inteira ou quase inteiramente laicizada e paganizada.

Entretanto, na história dos Tempos Modernos, isto é, nos séculos XVI, XVII e XVIII, é fora de dúvida que os fermentos nascidos do neo-paganismo renascentista se revelaram cada vez mais vigorosos, e isto trouxe a imensa explosão de 1789.

 

TEMPOS PRECURSORES DOS NOSSOS

Considerando-se estes fatos do ponto de vista do Santo Padre Leão XIII na Encíclica "Parvenu à la 25.ème Année", a Revolução Francesa foi uma conseqüência do protestantismo. E por sua vez produziu o comunismo. Ao igualitarismo e liberalismo religioso do frade apóstata de Witemberg, sucedeu o igualitarismo e liberalismo político-social dos sonhadores, dos conspiradores e dos facínoras de 1789. E a este segue-se o igualitarismo totalitário, social e econômico, de Marx.

A revolução protestante foi uma forma ancestral da Revolução Francesa, como esta o foi do comunismo hodierno. E cada uma destas formas ancestrais já tinha em si todas as toxinas da que se lhe seguiu. São três moléstias, sucessivamente mais graves, provocadas pelo mesmo vírus. Ou são três fases sucessivamente mais graves da mesma moléstia. Ou três etapas de uma omnímoda e universal Revolução.

 

UM PROFETA APARECE NO CURSO DA REVOLUÇÃO

Ora, S. Luiz Grignion de Montfort foi, neste processus histórico, um verdadeiro profeta. No momento em que tantos espíritos ilustres se sentiam inteiramente tranqüilos quanto à situação da Igreja, embalados num otimismo displicente, tíbio, sistemático, ele sondou com olhar de águia as profundezas do presente, e predisse uma crise religiosa futura, em termos que fazem pensar nas desgraças que a Igreja sofreu durante a Revolução, isto é, a implantação do laicismo de Estado, o estabelecimento da "Igreja Constitucional", a proscrição do culto católico, a adoração da deusa razão, o cativeiro e morte do Papa Pio VI, os massacres ou deportações de Sacerdotes e Religiosas, a introdução do divórcio, o confisco dos bens eclesiásticos, etc.. Mais ainda. Para alento e alegria nossa, o Santo profetizou uma grande e universal vitória da Religião Católica em dias vindouros.

 

MARTELO DA REVOLUÇÃO

Mas além de profeta, S. Luiz Grignion de Montfort foi missionário e guerreiro. Missionário, causticou ele implacavelmente o espírito neo-pagão, fazendo quanto podia para afastar o povo fiel do mundanismo e de tudo quanto constituía o mau espírito nascido da Renascença. A região evangelizada por ele foi tão profundamente imunizada contra o vírus da Revolução, que se levantou de armas na mão contra o governo republicano e anti-católico de Paris. Foi a Chouannerie. Se S. Luiz Grignion tivesse estendido sua ação missionária a toda a França, provavelmente teria sido outra a sua História, e a História do mundo.

Ora, porque não a evangelizou inteira?

Orador sacro eficientíssimo, pregava a palavra de Deus com um desassombro extraordinário. Isto lhe valeu o ódio, não só dos calvinistas, mas de uma das seitas mais detestáveis e mais influentes que até hoje tenham existido infiltradas na Igreja, isto é, os jansenistas. Seria longo enunciar as múltiplas e complexas razões por que o jansenismo, com suas aparências de austeridade embora, é legitimo produto da crise religiosa do século XVI. O certo é que esta seita, dispondo de deplorável influência sobre muitos fiéis, Sacerdotes e até Bispos, Arcebispos, Cardeais, seguia uma linha de pensamento e de ação nociva a toda restauração da vida religiosa, afastava as almas dos Sacramentos, e combatia vivamente a devoção a Nossa Senhora.

S. Luiz Grignion de Montfort, pelo contrário, tinha à SSma. Virgem a devoção mais ardente, e até compôs em louvor dela o "Tratado da Verdadeira Devoção", que constitui hoje o fundamento mais forte de toda a piedade mariana profunda. De outro lado, por suas missões, aproximava o povo dos Sacramentos, afervorava-o no Rosário, em uma palavra fazia obra diametralmente oposta às intenções dos jansenistas.

Isto lhe trouxe, nos próprios meios católicos, uma perseguição aberta, que lhe valeu as maiores humilhações. Causa pasmo que, enquanto tantos Prelados, clérigos, e leigos, em nome da caridade se mostravam irritados ou apreensivos com a justa severidade da Santa Sé em relação aos jansenistas, não tivessem penalidades, atos de hostilidade, nem humilhações que bastassem contra S. Luiz Maria. Pode-se dizer que foi um dos Santos mais desprezados e humilhados que houve nestes vinte séculos de vida da Igreja. Por fim, só em duas Dioceses lhe foi permitido exercer seu ministério. Mas, novo Inácio de Loyola, sentindo com serenidade o ímpeto contra sua pessoa, dos vagalhões do ódio anti-católico disfarçado com ares de piedade, não se perturbou. E, humilhado até o fim, até o fim lutou.

Ora, este Santo extraordinário deixou uma prece admirável, contendo ensinamentos e luzes especiais para nossa época. É a que compôs pedindo Missionários para a sua Congregação. Neste mês de maio nos é útil lembrar a figura angélica deste sumo paladino da Virgem. No mês de junho, consagrado ao Coração de Jesus, pensamos expor e comentar sua admirável oração.

Nesta oração, como esperamos mostrar no próximo número, vê-se que para S. Luiz Maria seus tempos eram precursores de uma imensa crise que se estende até hoje, e irá até a instauração do Reino de Maria. E ele próprio se nos afigura como o modelo, a prefigura dos apóstolos suscitados para lutar nessa crise, e vencer a batalha por Maria Santíssima. É esta a sublime e profunda atualidade de S. Luiz Maria Grignion de Montfort para os apóstolos de nossos dias.

Tema de meditação fecundo neste mês em que a Santa Igreja celebrará pela primeira vez - no dia 31 - a festa tão grata às almas forte e profundamente piedosas, da Realeza de Maria.

 

(“Catolicismo” Nº 53 - Maio de 1955)

 

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

ANALISANDO A REVOLUÇÃO APÓS PUBLICAR A RCR

 


  

No ano de 1959 Dr. Plínio publicou no mensário “Catolicismo” o livro “Revolução e Contra-Revolução”. Em janeiro do ano seguinte publica uma análise profética sobre a Revolução no mesmo mensário.

Profética por quê? Porque sua análise contém previsões de fatos futuros que ninguém pensaria que fosse possível tê-las naquele ano.

Um exemplo é sobre a China. Somente na década seguinte, a partir dos anos 1970, a China foi oficialmente promovida pela Revolução a ocupar lugar de destaque junto à URSS, tendo sido o governo Nixon o primeiro a reconhece-la e promover em consequência emigração em massa de capitais ocidentais para manter o regime de lá. Sobre a URSS, tudo o que ocorreu na década de 80 com Gorbachev foi antevisto no presente artigo.

Outros prognósticos e análises feitos neste artigo merecem ser considerados como feitos sob uma visão profética do andamento da Revolução no mundo.

 

“A REVOLUÇÃO EM 1960 - Plínio Corrêa de Oliveira

 Tornou-se tradição desta folha publicar em sua edição de janeiro um retrospecto dos acontecimentos do na o findo. Em lugar disto, pareceu-nos mais adequado, desta vez, fazer uma análise dos problemas que, neste voltar de página da história do século XX, se apresentam como mais importantes e candentes.


Dupla face

Em muitas polícias existe o hábito de "tratar" os depoentes recalcitrantes por um sistema que se poderia chamar da ducha fria e da ducha quente. A pessoa de quem se procura extorquir uma informação é argüida por um agente tremendamente furioso. Se, esgotada toda a pirotecnia das táticas de intimidação, o interrogado não faz a revelação desejada, o agente se torna subitamente afável, carinhoso, "compreensivo". Elogia a nobre constância de sua vítima, manifesta sua compaixão pelos sofrimentos que ela arrosta, oferece-lhe seus préstimos comovidos para tirá-la da situação em que está. Só pede uma coisa, uma coisinha pequena e fácil: que em justa retribuição a tanta bondade, ela conte ao policial – oh, a ele só, é bem claro – o segredo tão obstinadamente guardado. Se a vítima resiste, volta-se ao sistema de berros. Ou, mais drasticamente, passa-se para os soros da verdade ou as salas de tortura...

Quando o assunto que ser quer conhecer importa muito, costuma haver um desdobramento de papéis. Um policial faz o papel de fera, e outro o de "bonzinho". Ao que parece, a maior parte das pessoas se mostra muito "sensível" a esse "tratamento", e acaba deitando no coração do "bonzinho" o segredo que a "fera" não lograra extorquir.

A dupla face comunista

Este sistema, em que o terror induz a vítima a considerar com pusilânime otimismo o "agente bom" que é sua tábua de salvação contra o "agente mau", não se emprega apenas para obter confissões policiais. Ele é utilizado também em política. Põe-se o adversário diante da ameaça de um terrível perigo que ruirá sobre ele caso não ceda neste ou naquele ponto. Após um longo período de guerra de nervos, a vítima transigirá com algum representante de seu opositor, no gênero "bonzinho". Concederá apenas uma parte do que se lhe pediu, e julgará fazer assim um bom negócio. Depois de uma pausa, o representante "bonzinho" será posto de lado e voltar-se-á à ameaça. Em seguida, virão novo "bonzinho", nova concessão, nova pausa e nova ofensiva de ameaças, até final liquidação do adversário.

Ora, todo o ano de 1959, como os anteriores, foi utilizado pelo comunismo internacional para depauperar por este processo a vitalidade da reação anticomunista no mundo inteiro. Só que, em 1959, a ação política da União Soviética entrou francamente na fase correspondente ao policial "bonzinho" e na operação "sorriso".

Em edição recente, já nos referimos, com toda a extensão desejável, à manobra pela qual o comunismo russo foi mudando gradualmente de atitude, até chegar à risonhíssima visita do risonhíssimo K. aos Estados Unidos. Entretanto, nossas referências ao papel da China nesse jogo foram menos pormenorizadas. É o caso, pois, de voltar ao assunto neste mudar de ano. 

A Revolução tem por ponto de mira eliminar toda influência cristã no mundo. Ora, desde o declínio do poderio muçulmano nos Tempos Modernos, pode-se dizer que os povos-líderes da terra foram sempre cristãos. O império da Casa d’Áustria, a hegemonia política e cultural francesa, a dominação inglesa no século XIX, o poderio dos Estados Unidos, que se tornou há algumas décadas verdadeiramente dominante em boa parte do globo, por fim a ascensão da terrível influência da URSS não alteraram essa constante. Com efeito, cristãos em situação correta, saudável e normal só os católicos, apostólicos, romanos, filhos a única Igreja verdadeira de Nosso Senhor Jesus Cristo. O cisma e a heresia constituem para o cristão situações revolucionárias, enfermiças e anormais. Contudo não se pode negar que o povo inglês, o americano ou o russo, em sua maioria, é constituído de cristãos. O fato pareceria à primeira vista, particularmente sem importância no que diz respeito à infeliz Rússia, dominada por uma malta de ateus. Na realidade, quanto seria pior a situação do mundo se não fosse notório que a aplicação integral do comunismo naquele país tem esbarrado em toda uma série de resistências – passivas, aliás – decorrentes da índole e da tradição cristã do povo; e se os dominadores desse mesmo povo não encontrassem dentro de casa toda espécie de obstáculos, e pudessem agir com as mãos livres no exterior!


China, "a outra face"

Ora, a China é precisamente uma nação que em sua imensa maioria jamais foi cristã. Se bem que de seu glorioso passado imperial lhe advenham muitas tradições formalmente opostas ao comunismo, é preciso lembrar que o processo de ocidentalização a que ela já está sujeita há um século – arredondamos um tanto a cifra –, a proclamação da república, a penetração dos germes terríveis da Revolução que grassa no Ocidente, o espírito igualitário, laicista e sensual que infelizmente impregna quase tudo quanto a China vem importando, o prolongado período de guerras internas que abalaram todos os seus quadros sociais até a queda de Chang-Kai-Chec e o advento do comunismo, tudo enfim vem concorrendo de há muito para debilitar a resistência oposta pelas estruturas e tradições chinesas ao comunismo. Ademais, se é verdade que a Igreja tem prosperado muitas vezes (e nem sempre, note-se de passagem ) com as perseguições, também é verdade que estas costuma destroçar tudo quanto não é católico. O protestantismo, por exemplo, sofreu um tremendo retrocesso com o nazismo, a igreja cismática foi quase aniquilada na Rússia bolchevista. Pois o que ali se encontra com esse nome é mais um fantasma suscitado pelos maquiavéis do Kremlin para efeitos de propaganda, do que propriamente uma seita religiosa.

Assim, o marxismo encontra, numa China em que sobre o velho tronco pagão se insere o venenoso enxerto neopagão, verdadeiramente uma terra de eleição.

De onde, engrandecer a China às expensas da Rússia é transferir gradualmente a preponderância para o pior dos elementos do mundo comunista.

Ora, é neste processo que está em curso no presente momento. Constitui ele o verso da medalha da "aproximação" da União Soviética com o Ocidente. A China comunista vai ocupando lentamente a Ásia. Infiltrou-se rumo ao sul, até fazer estremecer Singapura e a Austrália. Deglutiu o Tibet com uma selvageria de canibal. A Índia estremece diante dela. Em palavras mais breves, um continente quase inteiro está ameaçado com o crescer deste polvo. E o Micado, o Xá, o Rei da Jordânia ou o Generalíssimo Chang-Kai-Chec sentem que em breve estarão passando pelas mesmas aperturas de Nehru, senão do Dalai Lama.

Os fracos e amáveis camaradas soviéticos

Faça-se o balanço. Enquanto os "duros" de Pequim vão ganhando a Ásia, o que vai ganhando a URSS? Ela mantém a custo seus satélites. A Hungria continua uma chaga viva. A Tcheco-Eslováquia permanece esmagada sob o tacão soviético, suspirando pela libertação. Na Polônia, a política "distensiva" de Gomulka cessou. Quanto mais se vai tornando fácil à Rússia lançar satélites em torno da lua, tanto mais lhe vai ficando difícil conservar reunidos em torno de si os seus próprios "satélites".

Assim se vai acentuando a bicefalia do mundo comunista: uma cabeça está em Moscou e outra em Pequim.

E essas cabeças têm fisionomia e linguagem diversa. Uma olha gentil, sorri, e começa a parecer fraca. A outra carrega o olho, ameaça e vai-se tornando sempre mais forte.

Perspectivas para 1960

Afigura-se-nos que, salvas as mutações imprevistas, tão frequentes nestes dias de caos, o ano de 1960 vai ser marcado por um paulatino desenvolvimento dessa manobra. Na União Soviética a Revolução entrará, ao que parece, em sua fase "pós-termidoriana", isto é, numa fase recessiva e moderantista, análoga à que a Revolução Francesa percorreu depois da queda de Robespierre: liberdade para os perseguidos da véspera, abrandamento na aplicação dos princípios revolucionários, boas relações com os povos vizinhos, reabertura das fronteiras para o que era uma forma ancestral do turismo de hoje. Na aparência, a Revolução era um dragão exausto e malferido, que, por falta de melhor, se punha a sorrir. Ninguém ousava atacar o dragão, com receio de que ele recobrasse na lutar seu antigo vigor. Em consequência, todos começaram a corresponder ao seu sorriso. Entrou-se em regime de convívio sem barreiras. E o resultado, para abreviar a história, foi que, cem anos depois, a Revolução já era virtualmente senhora da Europa e do mundo.
Da mesma forma, a Rússia tentará anestesiar e dividir o Ocidente cada vez mais, enquanto a China irá tomando paulatinamente ares de flagelo mundial. Parecerá necessário aceitar o amplexo russo, a aliança do Kremlin, para fazer face ao monstro chinês. Nesse amplexo com a lepra, esta nos contagiará. Teremos para com o novo aliado todas as fraquezas, as condescendências, as imprudências que tivemos para com Tito. E assim a hidra comunista irá progredindo.

Venenosas primícias da política de dupla face

Falamos de cisão. É preciso dizer algo a respeito.

A boa harmonia entre a França e a Alemanha é, segundo nos parece, um dos melhores elementos para defender a Europa contra os soviéts. Ora, precisamente em razão da "operação sorriso", tal harmonia se quebrou.
Com efeito, a URSS retirou todo o apoio que dava aos argelinos insurretos. De Gaulle parece ter vislumbrado aí uma prova da sinceridade russa em Camp David, e está se aproximando do Kremlin. Está até programando uma visita de K. a Paris.

Ora, o velho e astuto Adenauer não concorda com essa concepção. Para ele, não há sinceridade nos soviéticos, e tudo não passa de manobra.
E é o Chanceler que tem razão. Enquanto a Rússia parece retirar-se do campo de ação argelino e, de modo geral, esfriar suas relações com o mundo árabe, a China lhe vai sucedendo nesse terreno, e já é hoje uma da melhores aliadas do pan-arabismo e da FLN.

Em consequência, no fundo, o comunismo lucra de um modo e de outro. Aparentando "sair" da Argélia, ganha um crédito de confiança em Paris, e cinde de Gaulle e Adenauer. "Entrando" na Argélia pela outra porta, continua a trabalhar para expulsar da África do Norte a influência francesa, e a captar as simpatias do mundo árabe.

O papel das minorias sãs

A China, dizíamos, vai lentamente começando a intimidar e a imobilizar os poltrões do Ocidente. A Rússia, cada vez mais, agrada, ilude e atrai os tolos. Uns e outros, poltrões e tolos, tendem a recuar, transigir, conciliar a todo custo. E, francamente, quando alguém tem de seu lado todos os tolos e todos os poltrões, pode jactar-se de dispor de uma esplêndida maioria...
Estamos perdidos? Não, porque as vitórias de Deus nunca foram ganhas pelas incontáveis maiorias de tolos e poltrões, mas pelas minorias cheias de fé, de abnegação e de coragem.

Mais do que nunca, neste limiar de 1960, torna-se patente a importância dessas minorias para abater o monstro de duas cabeças que se levanta no horizonte. Sem elas, nada se pode fazer de útil em prol das multidões desnorteadas, anestesiadas, apavoradas... Nada se pode fazer pela massa, senão com fermento ativo e pujante. Há vinte séculos o disse Nosso Senhor ( cf. Mt. 13, 33 ), mas os homens tendem sempre a esquecê-lo. Entretanto, como é fácil compreender a lição do Mestre Divino, nestes primeiro dias de 1960!
O revigoramento do bom fermento parece-nos ser o sentido mais profundo do Concílio Universal que em tão boa hora João XXIII resolveu convocar.
Dizemo-lo agora só de passagem, pois mais adiante pretendemos voltar a tratar desse santo e nobre assunto.

Cuba, paiol da América

Lemos há pouco a vida de Santo Antônio Maria Claret, fundador da benemérita Congregação dos Filhos do Coração de Maria. Esse grande varão de Deus foi Arcebispo de Santiago de Cuba de 1850 a 1857. Considerando os numerosos pecados dos espanhóis na colônia, predisse que, como castigo, a ilha se tornaria independente. O fato se deu pouco depois, como é notório. Castigo para a Espanha, por certo. Mas, em medida não pequena, castigo para Cuba também, pois como mostra sua biografia, o Santo foi de certo modo rejeitado pelos cubanos. A independência foi mais ilusória do que real. O domínio norte-americano ali se implantou mais ou menos veladamente. E, se trouxe benefícios temporais (grandes para os Estados Unidos, medíocres para Cuba), é fora de dúvida que para a preservação dos valores religiosos e espirituais foi sob vários aspectos um mal.

Parece agora repetir-se a história. Cuba sacode o jugo norte-americano, o que é explicável castigo para o mal que os ianques ali fizeram. Mas esse sacudir de jugo não é, infelizmente, um passo para uma justa e louvável independência, mas para a troca de senhores. E uma troca por um senhor mil vezes pior, pois que só um demente poderá achar que o jugo norte-americano é comparável ao comunista, tão completo, tão cruel, tão degradante. Ora, é positivamente uma violenta e trágica penetração comunista que em Cuba se vai operando.

Em Cuba só? É inegável que o movimento fidel-castrista teve uma influência terrivelmente contagiante nas Antilhas, na América Central e na parte setentrional da América do Sul. De outro lado, produziu ele algumas reações de simpatia em todas as outras áreas do mundo ibero-americano.
Dado que a pavorosa crise econômica por que passa boa parte da América Latina produz reflexos políticos e sociais tendentes à revolta e ao desespero, é de se compreender que as fagulhas cubanas encontrem por aqui um ambiente propício à combustão. Tanto mais que o mimetismo é um triste vício da gente deste hemisfério.

E, assim, vale a pena tratar detidamente da questão.


"Não é comunista"

O ponto capital de todo o assunto cubano consiste em saber se Fidel Castro é comunista e está a serviço dos agentes soviéticos.

Se fosse possível documentar a resposta afirmativa, é certo que duas consequências da maior importância se produziriam:

a. o contágio do clima, do estado de espírito e dos estilos fidel-castristas na América Latina, tão católica, estaria praticamente impedido;

b. a opinião americana perderia qualquer ilusão sobre a sinceridade dos soviéticos na "operação sorriso".

Por isto se compreende que, caso o Kremlin seja o mandante do atual ditador cubano, a primeira recomendação que terá feito a este é que esconda tal ligação.

De onde, o fato de Fidel Castro dizer que não é comunista, e até dar certas manifestações de apoio à Igreja, em si mesmo nada prova. Apesar disto, a dúvida continua. E o importante é saber se realmente o jovem líder revolucionário é ou não agente de Moscou.

P.C., armazém de pancadas

Um modo muito fácil para um assecla do Kremlin disfarçar suas intenções, e ao mesmo tempo agir livremente, consiste em entrar em luta contra o partido comunista, enquanto vai preparando tudo para que o comunismo triunfe. Isto embai os incautos, que julgam impossível que um agente de Moscou ataque o próprio partido de Moscou. E, protegido por esse álibi, o agente poderá fazer o que quiser em benefício do comunismo.
Fidel Castro, neste ponto, tem sido dos mais ambíguos. Namora o P.C. Mas briga um pouco com ele. E, sobretudo, tem a astúcia de não deixar transparecer nada de claro sobre suas ligações com o Kremlin.
As pessoas bem intencionadas, que intuem que tais ligações existem, procuram, à falta de melhor, provar com os indícios de que dispõem, a realidade profunda dos fatos. Mas, para impressionar o homem simplista e irrefletido de hoje, só servem provas palpáveis, de uma clareza elementar e quase brutal. Provas dessas, ao que parece, não existem. E, assim, Castro continua calmamente seu jogo.
 

Argumento baseado no evolucionismo

Seria muito mais fácil esclarecer pelo menos as elites, se se lhes lembrasse antes de tudo que, segundo a doutrina marxista, o advento do comunismo em um país pressupõe que toda a evolução social o tenha "maturado" para tal.

Assim, em uma nação dada, ainda que o partido comunista tivesse meios materiais para conquistar o poder, não o faria se o estado dos espíritos, das instituições e dos costumes não o comportasse. Os bolchevistas em tal caso favoreceriam a ascensão de um partido de esquerda que acelerasse a evolução social, e só depois de levada assim a cabo tal evolução, eles se instalariam direta e ostensivamente no governo. Nem outra coisa se compreenderia numa corrente fundamentalmente evolucionista, como é o marxismo. Para responder se o primeiro-ministro cubano é ou não um agente soviético, o que importa, pois é saber se sua ação acelera a evolução para o comunismo. Neste sentido, pode-se dizer que a resposta afirmativa se impõe com uma clareza solar.

Se Fidel Castro é tão útil ao comunismo, será que este não o suscitou, ou pelo menos não lhe ofereceu apoio? E se ofereceu, será que o interessado não aceitou? E se aceitou, será que a Rússia já não tem tudo preparado para colher o fruto, quando maduro?

Só um ingênuo poderá responder "não" a todas estas perguntas.
Cuba não é o único fruto

Claro está que Cuba só pode ser vista como cabeça de ponte, como estopim.

Então, qual é o termo último? Evidentemente a América Latina, que já é a melhor reserva para a Igreja em nossos dias, e humanamente constitui sua melhor esperança para o século XXI.

Até que ponto essa misteriosa, longa e desalentadora crise econômica por que passamos é uma preparação do fidel-castrismo? Só no Juízo Final, provavelmente, isto se patenteará com uma clareza inteira. Mas o certo é que a hora é, para nós, mais do que nunca, de oração, vigília e luta.

Auxilie-no Nossa Senhora a caminhar com confiança e fidelidade sob estas brumas e na perspectiva destas borrascas.

Ouviremos em 1960 a Voz de Maria

O segredo de Fátima será manifestado ao mundo em 1960, segundo decidiu seu depositário, o Episcopado Português. Não é, por certo, sem uma especial intenção da Providência que ouviremos nessa ocasião a confidência celestial. E essa é uma de nossas razões de alegria nesta passagem de ano.

O que nos dirá a Virgem Santíssima? É prematuro responder. Mas é possível prognosticar o que Ela não dirá.

Por exemplo, achamos sumamente duvidoso que, como em certos círculos se tem propagado, o segredo contenha um mero resumo do que já se sabe que foi dito na Cova da Iria. Pois parece inverossímil que alguém guarde sob segredo pensamentos ou conselhos que já comunicou a todo o mundo.
De qualquer forma, peçamos a Nossa Senhora que disponha nossos corações para ouvir com amor e obediência suas palavras maternas.

Um papa providencial

O ano de 1959 foi suficiente para fazer ver ao mundo que a Providência entregou a um Pontífice sábio, justo e paterno a sucessão do inesquecível Pio XII.

Nestas condições, encaramos o porvir com particular confiança. Pois a ovelha caminha tranquila em qualquer terreno, e ainda que sinta de longe e de perto o uivar dos lobos, quando sabe que está protegida por seu Pastor.

O Concílio Universal

As esperanças com que atravessamos o limiar do ano vão além de 1960. Elas se voltam para esses dias de verdadeira aurora que serão os do Concílio Universal. Pode-se quase dizer, aplicando as palavras de São Paulo (Rom. 8,22), que na desordem, nos entrechoques, nas vacilações e nos desatinos destas horas torvas, "todas as criaturas gemem" à espera do Concílio Ecumênico.

E é nestas imensas perspectivas que, com os olhos postos no Coração Imaculado de Maria, transpomos, com o passo leve e a alma serena, os últimos minutos de 1959, e penetramos resolutamente em 1960.

Os versos do hino mariano vibram em nosso ouvido e aquecem nosso coração:

"De mil soldados não teme a espada

Quem pugna à sombra da Imaculada"

 (“Catolicismo” N. 109, janeiro de 1960)