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sábado, 18 de julho de 2026

Mensagem à Soror Consolata

 



“Sim. Salvarei o mundo com o Amor misericordioso; escreve isto....
... Olha: estes rapazes (os soldados), a maior parte, nas suas casas apodreciam em meio dos vícios. Ao passo que na guerra, longe das ocasiões, com a assistência do Capelão, morrerão e serão salvos eternamente...
“A própria miséria atual que reina no mundo não é obra de minha justiça, mas da minha misericórdia.
“Quantas culpas a menos, por falta de dinheiro! Quantas orações a mais não sobem ao céu nos apertos financeiros!
“Oh! Ninguém creia que as dores da terra Me não comovem; mas Eu amo as almas, quero salvá-las, e, para atingir o meu fim, sou constrangido a usar de rigor. Mas, acredite, é para fazer misericórdia.
“Na abundância, as almas esquecem-Me e perdem-se; na miséria, voltam a Mim e salvam-se. É assim, sabes!”
E então, durante e tremenda conflagração mundial, e precisamente a 8 de setembro de 1940, entre Jesus e Soror Consolata, que chorava e suplicava pela paz, desenrolava-se o seguinte diálogo:
"-Olha, Consolata, se Eu concedo hoje a paz, o mundo volta à lama... a prova não seria suficiente.
"- Mas, ó Jesus, nem todos são maus!
"- Pois bem, os bons aumentarão os seus méritos. Não, não deites a culpa aos Chefes das nações, eles são simples instrumentos nas minhas mãos. Para poder salvar o mundo, hoje é preciso assim. Oh! Que multidão de jovens não agradecerão na eternidade a Deus por terem morrido nesta guerra, que os salvou eternamente! Entendeste?
"Eu salvo os soldados na guerra e o mundo com a miséria e com a fome. Mas tantos corações desesperam... Reza tu, agora, não só pelos corações que sofrem no mundo, mas também pelos que desesperam, para que Eu seja para eles conforto e esperança.
"Eu quero salvar a pobre humanidade que corre para a lama, como o sedento para a água fresca; e para salvá-la não há outro caminho senão a miséria e a fome. Mas ela desespera..."
(Extraído de "O Coração de Jesus ao Mundo", Pe. Lourenço Sales, Ed. Loyola, 1983, pp. 29/31)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Revelações de Nossa Senhora do Bom Sucesso (século XVII)

 

 



 

Em 1634, no Mosteiro da Conceição da cidade de Quito, no Equador, quando Soror Mariana de Jesus Torres rezava diante do Santíssimo Sacramento, apagou-se subitamente a lâmpada que ardia no altar. Ao procurar reacendê-la, uma luz sobrenatural inundou a igreja e uma voz se fez ouvir:

“Filha querida de meu Coração, sou Maria do Bom Sucesso, tua Mãe e Protetora. A lâmpada que viste apagar-se tem muito significado...

“No século XIX – em seu término – e em grande parte do século XX, várias heresias se propagarão por estas terras, então república livre. Apagar-se-á a luz preciosa da Fé, por causa da corrupção total dos costumes. Nesse tempo haverá grandes calamidades, físicas e morais, públicas e privadas. O restrito número de almas nas quais se conservará o culto da Fé e das virtudes sofrerá um cruel e indizível padecimento, a par de prolongado martírio...

“Nesses tempos, a atmosfera estará saturada do espírito de impureza, o qual, à maneira de um mar imundo, correrá pelas ruas, praças e lugares públicos, numa liberdade assustadora, de tal modo que não haverá no mundo almas virgens...

“Os sacerdotes se descuidarão de seu sagrado dever; perdida a Bússola Divina, se desviarão do caminho traçado por Deus...

“Para libertar da escravidão dessas heresias, aqueles a quem o amor misericordioso de meu Filho Santíssimo destinar para esta restauração precisarão ter grande força de vontade, perseverança, coragem e muita confiança em Deus. Para pôr à prova, nos justos, esta Fé e confiança, haverá momentos em que tudo parecerá perdido e sem possibilidade de andar. Então será o princípio feliz da restauração completa...  Terá chegado a minha hora, na qual, de maneira magnífica e impressionante, destronarei o soberbo satanás, colocando-o sob meus pés, acorrentando-o no abismo infernal, e libertando por fim a Igreja e a Pátria dessa cruel tirania”.[1]

 

Comentários de Dr. Plínio sobre as profecias de Nossa Senhora do Bom Sucesso

Dr. Plínio fez os seguintes comentários sobre Nossa Senhora do Bom Sucesso e a irmã Mariana de Jesus Torres:

“Bem, meus caros, Nossa Senhora do Bom Sucesso: que relação tem esta invocação com os acontecimentos previstos em Fátima? Precisamente a Sóror Mariana de Jesus Torres Ela apareceu fazendo impressionantes revelações que mantém uma notável proximidade com as de Fátima.

Um dia se falará a respeito disso, não é este o momento. Mas são admiráveis e impressionantes revelações.

Quanta coisa linda os senhores são chamados a ver, se perseverarem. Coisas terríveis também. Pensem nos castigos de Fátima e os senhores compreenderão. Pensem no acontecido na Venezuela recentemente e os senhores terão um antegosto destes castigos. Um amargo antegosto destes castigos, o admirável antegosto dos castigos.

(...)

...Então, nesta festa peçamos a Ela que nos dê a graça de trabalhar e lutar pela implantação do Reino de Maria. E nas horas mais difíceis nós poderemos dizer a Ela: – “Minha Mãe, venha a nós o vosso reino, seja feita a Vossa vontade assim na terra como no Céu!” É o reino d’Ela! É o reino de Nosso Senhor Jesus Cristo na sua expressão mais perfeita, mais quintessenciada: o Reino de Maria! 

Sóror Mariana de Jesus Torres para ser fiel à vocação dela, — uma espécie de profetiza do Bom Sucesso de Nossa Senhora, do Reino de Maria, — teve que passar por provações terríveis. Eu não resisto ao desejo de vos contar uma.

Havia no mosteiro dela, — em pleno tempo, do Brasil como da América hispânica, das colônias respectivamente, de Portugal e da Espanha, — sete fundadoras. Ela era a fundadora junto com 7 outras que receberam as vocações na Espanha, creio, mas também muitas outras do lugar. Eram mestiças de índias que elas aceitaram como freiras.

Uma freira péssima (Judas os há por toda a parte, e os há nos dois sexos), índia ou mestiça de índia, chefiou a revolta das índias contra as espanholas, que eram umas santas. E nessa revolta Madre Mariana de Jesus Torres chegou a ser presa na cadeia do convento, etc. Uma perseguição medonha. Ela rezou continuamente pela perseguidora.

Em determinado momento ficou claro que a perseguidora não tinha razão, que era ela quem tinha razão, e foi eleita como abadessa. A perseguidora daí a algum tempo adoeceu, entrou em agonia e ia morrer. E Sóror Mariana de Jesus Torres, que tinha cumulado esta revolucionária de bondades durante a sua doença, depois durante a sua agonia, pediu durante a agonia especialmente a Deus, por meio de Nossa Senhora, que salvasse aquela alma. A resposta que veio foi esta: “poderá ser salva, se por amor à tua perseguidora consentires em que tua alma passe cinco anos no Inferno.”

Ela consentiu e a freira se salvou. Passou por um purgatório não pequeno, mas salvou-se. A alma de Sóror Mariana de Jesus foi posta no Inferno. O que ela sofreu durante esses cinco anos é uma coisa tremenda, inclusive — as memórias dela não me pareceram muito claras a esse respeito — parece que ela tinha se esquecido que tinha feito esse oferecimento e passou cinco anos com o pavor da ideia de ter sido condenada, e que ela sofreria o Inferno por toda a eternidade. E só pedia uma coisa a Deus: que nunca permitisse que ela deixasse de amá-lo.

Passados os cinco anos, passou o tormento. Foi revelado a ela o que era o tormento e cessou. Ela que era uma pessoa de uma grande beleza, — era um prodígio de beleza; muito rosada, corada, com cores muito saudáveis que ela conservou até o fim da vida, — durante esse tempo emagreceu, decaiu; depois do tormento refloresceu completamente! Por aqueles claustros que os senhores viram passou penando, por uma inimiga, Sóror Mariana de Jesus Torres. Com a alma sofrendo os tormentos do inferno. Ela ali conversou com Nossa Senhora do Bom Sucesso. Que conversas..., parecidas com as de Adão com Deus no Paraíso. Que penas e que tormentos..., que alegria quando ela voltou à luz e compreendeu que diante dela estava mais um tanto de vida e o Céu que se abria.

Meus caros, os castigos de Fátima vão ser assim.

Haverá momentos em que teremos a impressão: não será o Inferno? Nossa Senhora do Bom Sucesso rogai por nós!

Haverá momentos de tanta alegria interior que diremos: já não é o Céu entre nós? Nossa Senhora do Bom Sucesso rogai por nós!

Haverá afinal o momento em que toda a obra da iniquidade cairá por terra, e não passará de casca vil de uma cobra moribunda. Começa o Reino de Maria e nós cantaremos o cântico do Bom Sucesso!

É assim que eu imagino os castigos de Fátima. Eu não estou prevendo esses castigos. Eu estou imaginando-os.” ("Conferência" de 02 de fevereiro 1985)[2]

 



[1] Transcrito do jornal “El Ecuatoriano”, de 04-04-1951

[2] Um resumo dessa conferência foi publicada na Revista “Dr. Plínio”, de março de 2010, sob o título de “O Mais Doloroso Adeus”.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

O PODER DE REGÊNCIA DADO A UM SANTO TRANSFORMA-O NUM ANJO?

 



A propósito da afirmação de que alguns Anjos do Apocalipse na realidade são Santos da Igreja, Dionísio, o Areopagita, põe a seguinte pergunta: por que a nosso hierarca humano nas Escrituras lhe chamam “anjo do Senhor onipotente? ”O Profeta Malaquias disse: “Porque os lábios dos sacerdotes serão os guardas da ciência; da sua boca se há de aprender a lei, porque ele é o anjo do Senhor dos exércitos”  (Mal 2, 7).  Mais adiante, o Profeta disserta mais longamente sobre isto: “Eis que mando eu o meu anjo, o qual preparará o caminho, etc.” Que anjo será este? Será aquele que “sentar-se-á como um homem que se senta para fundir e refinar a prata; purificará os filhos de Levi”, etc. (Mal 3, 1). Ele está se referindo a São João Batista, o profeta mensageiro que preparou o caminho para o Messias. 

 São Paulo a si mesmo se compara com um Anjo de Deus: “...antes me recebestes como um anjo de Deus...” (Gál 4, 14).  Conclui o Areopagita: “...Não vejo nenhum inconveniente em que as Escrituras chamem “anjo” inclusive a nosso hierarca (bispo). Tem a propriedade de ser, dentro do possível, como os anjos, um mensageiro. Tem, ademais, a missão de imitar, segundo suas possibilidades, o poder revelador dos anjos”. [1]


SÃO JOÃO BATISTA NÃO ERA SOMENTE ANJO, MAS CHEIO DE TODOS OS ATRIBUTOS DOS COROS ANGÉLICOS

 

Eis o que diz a respeito, a Legenda Dourada:

 

“Terceira causa, os costumes de sua vida foram de grande santidade, sobre os quais fala Crisóstomo: “O comportamento de João foi tão perfeito, que todas as outras vidas parecem culposas, da mesma forma que quando se vê uma roupa que parece branca, e ao ser colocada ao lado da neve parece suja, mesmo que não esteja, assim também comparado com João qualquer homem parece imundo”. Há três testemunhas de sua santidade:

Primeiro deles, dado por aqueles que estão acima do Céu, isto é, pelas Pessoas da Trindade.

O Pai chama-o de anjo, conforme Malaquias, 3: “Eis que envio meu anjo, que preparará meu caminho diante de mim”. Ele recebeu o nome de anjo para indicar que exerceu o ministério de todos os anjos”. Exerceu o dos Serafins, porque serafim quer dizer “ardente”, já que eles nos tornam ardentes e queimam mais que outros de amor a Deus. Por isso está dito no Eclesiástico que “Elias elevou-se como um fogo, etc.”, o que se aplica a João que veio com o espírito e a virtude de Elias. Exerceu o ministério dos Querubins, porque querubim quer dizer “plenitude de ciência”, e João é chamado estrela da manhã porque foi o anoitecer da ignorância e o amanhecer da luz da graça. Exerceu o ministério dos Tronos, que têm a missão de julgar, o que João fez com Herodes ao dizer: “Você não pode tomar a mulher de seu irmão” (Mc 6, 18). Exerceu o ministério das Dominações, que nos ensinam a governar, e João era amado por seus inferiores e temido pelos reis. Exerceu o ministério dos Principados, que nos ensinam a  respeitar nossos superiores, e João dizia falando de si próprio: “Quem tem suas origens na terra é da terra, e suas palavras são da terra”, e falando de Cristo acrescentou: “Quem veio do Céu está acima de todos”. Afirmou ainda que: “Não sou digno de desamarrar os cordões de seu calçado” (Jo 3,31; Mt 3,11;  Mc 1, 7; Jo 1,27). Exerceu o ministério das Potências, que são encarregadas de afastar as forças malignas que podem comprometer a santidade, pois ele manteve-as afastadas de nós, estimulando-nos a receber o batismo da penitência. Exerceu o ministério das Virtudes, pelas quais se realizam os milagres, pois o bem-aventurado João realizou muitas maravilhas, como comer mel selvagem e gafanhotos, cobrir-se com pele de camelo e outras semelhantes. Exerceu o ministério dos Arcanjos, revelando mistérios que não se podia alcançar, por exemplo o concernente à nossa redenção, quando disse: “Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira os pecados do mundo”.(Jo 1, 29). Exerceu o ministério dos Anjos, ao anunciar coisas de importância menor, como as concernentes aos costumes, como: “Façam penitência” ou “Não pratiquem violência nem fraude com ninguém”.(Lc 3, 14). 

LEGENDA ÁUREA – VIDAS DE SANTOS – Jacopo de Varazze – Companhia das Letras – 2020, pág, 488


Sentido e significado da palavra Anjo

O Catecismo da Igreja Católica assim se expressa sobre os anjos na questão 329:

“Santo Agostinho diz a respeito deles: “Angelus officii  nomen est, non nature. Quaeris nomen huius naturae, spiritus est; quaeris  officium, angelus est; quaeris officium, angelus est, ex eo quod est, spiritus est, ex eo quod agit, angelus” – Anjo (mensageiro) é designação de encargo, não de natureza. Se perguntares pela designação da natureza, é um espírito; se perguntares pelo encargo, é um anjo: é espírito por aquilo que é, é anjo por aquilo que faz. Por todo o seu ser, os anjos são servidores e mensageiros de Deus. Porque contemplam “constantemente a face de meu Pai que está nos céus” (Mt 18, 10), são “poderosos executores de sua palavra, obedientes ao som de sua palavra” (Sl 103, 20).

A doutrina de Santo Agostinho, que diz que anjo é encargo, baseia-se também no texto de São Paulo aos hebreus: “Acerca dos anjos diz: “Ele faz os seus anjos espíritos, e os seus ministros chamas de fogo”. (Hb 1, 7). Quer dizer, são criados como espíritos e investidos do encargo de ministros, e por isso são anjos. Deste modo, vários enviados divinos, sejam Profetas, sacerdotes ou os próprios espíritos celestes, que alguns tradutores designam com o título de mensageiros e outros de anjos, são anjos não só quanto á natureza mas quanto ao encargo. 

São Vicente Ferrer, o "Anjo do Apocalipse"

São Vicente Ferrer, cognominado de “Anjo do Apocalipse”, teve o seguinte comentário do Dr. Plínio:

“Tenho a impressão de que poucas coisas são tão bonitas na hagiografia quanto o nós situarmos a missão do santo no panorama proposto pela RCR (Revolução e Contra-Revolução). Segundo tal panorama, no século XIV, a Cristandade começava a decair. Era uma decadência eclesiástica tremenda que se atestava pelo fato de haver ao mesmo tempo papas exilados em Avinhão, que estavam sob a férula dos reis de França. E um cisma tremendo: três papas que se combatiam reciprocamente, dos quais, naturalmente, um só era válido. Mas estava de tal maneira a confusão na Cristandade, que para cada pseudo-papa ou papa, havia santos que estavam do seu lado. Os senhores compreendem o que significava, para isso ser possível, a putrefação toda do clero. Mas esta acarretava, por sua vez, como conseqüência, a degenerescência dos fiéis. E era toda a Idade Média que entrava em decomposição, de caráter mais moral do que intelectual; era uma explosão de orgulho e de sensualidade que começava, a qual devia depois gerar os desvios intelectuais que são os erros da Revolução.

Então a Providência manda, muito adequadamente, para essa época, um santo que foi grande na sua Ordem como, por exemplo, foi grande na sua esfera própria, São Tomás de Aquino. Porque se se pode dizer, de um lado, que São Tomás de Aquino foi Doutor Comum, o filósofo dos filósofos, o teólogo dos teólogos, pode-se dizer que como pregador popular – depois dos Apóstolos – ninguém excedeu provavelmente São Vicente Ferrer, nem mesmo, no século XIX, Santo Antônio Maria Claret, que foi um pregador assombroso.

São Vicente Ferrer dizia de si mesmo que era o “Anjo do Apocalipse”, que tinha vindo para anunciar a derrocada da Civilização Cristã e o começo do fim do mundo. E de fato ele lutou enormemente para a moralização dos costumes, lutou para que exatamente essa decadência moral se sustasse”. (Plínio Corrêa de Oliveira - Santo do Dia, 04 de abril de 1966)


O Grande ou Poderoso Monarca, também chamado de “Anjo”

É assim que o Padre Holzhauser se refere a esse personagem:

"Queira Deus que venha o mais cedo possível este poderoso Monarca[2] que deve eliminar as repúblicas, abater as brechas das cidades imperiais e marítimas que não são outra coisa senão ninho de víboras, sufocar os gritos e os sopros desses pregadores e dessas serpentes, que depois de serem humilhados os hereges e os cismáticos, fará cessar todo erro”

Baseia-se no que diz o Apocalipse:

"Depois vi outro anjo forte, que descia do céu, vestido de uma nuvem e com o arco-iris sobre a cabeça, e o seu rosto era como um sol, e os seus pés eram como colunas de fogo; e tinha na sua mão um livrinho aberto; e pôs o pé direito sobre o mar, e o esquerdo sobre a terra, e gritou em alta voz, como um leão que ruge, e depois que gritou, sete trovões fizeram ouvir as vozes (Apoc. 10, 1-3)".

"Este anjo representa o grande monarca que está por vir.

"...São João atribui a este anjo a qualidade especial de ser forte e poderoso. "Eu vi outro anjo pleno de força". Ele será poderoso na guerra e quebrará tudo como um leão. Ele se tornará grandíssimo por suas vitórias e não haverá nada que esteja mais solidamente estabelecido do que o que está baseado sob o trono do seu império. Ele reinará muitos anos, e durante o curso do seu reinado, ele humilhará os hereges e as repúblicas e submeterá todas as nações a seu império e o da Igreja latina. Mais ainda, após ter relegado ao inferno a seita de Maomé, ele destruirá o império turco, e não deixará subsistir senão um pequeno estado sem poder e sem força o qual se manterá, entretanto, até a vinda do filho da perdição, que não temerá o Deus de seus pais, e não dará satisfação a nenhum Deus (Dan. 11,37).

"Eu vi um outro anjo cheio de força e descendo do céu". O profeta diz que esse anjo descerá do céu porque ele nascerá no seio da Igreja católica[3], tomada aqui no sentido do céu, e ele será especialmente enviado de Deus, segundo os decretos da Divina Providência que terá escolhido para consolação e exaltação da Igreja latina, no meio mesmo de sua grande aflição e sua humilhação profunda.

"...Ele terá na mão um livro aberto".  Este pequeno livro simboliza um Concílio geral, que será o maior e mais célebre de todos. O profeta diz: "Este anjo tem este pequeno livro na mão", porque é pela obra e poder deste Monarca que este Concílio será reunido, protegido e chegará a bom termo; e também porque ele empregará todo o seu poder para fazer executar as sentenças e decretos (deste concílio). O Deus do céu o abençoará e colocará todas as coisas em suas mãos e sob seu poder. E está dito que este pequeno livro será aberto, por causa da clareza com a qual este concílio explicará o sentido da Sagrada Escritura e por causa da pureza dos dogmas da Fé que então se proclamará.

“...E ele gritará em alta voz como um leão que ruge”. Este estrondo de voz comparado com o do leão, nos faz compreender o terror imenso que ele inspirará a todos os povos da terra e aos habitantes das ilhas[4].  Pois, quando o leão ruge ele manifesta sua força e todos os outros animais ficam tomados de terror. É por isto que está dito nos provérbios: “Como o rugido do leão, assim o terror do rei” (Prov 20,2).

“Os gritos de sua voz serão também seus editos imperiais, pelos quais ele ordenará de executar em todo o rigor em favor da fé ortodoxa as ordens do Concílio; e seus editos chegarão a todas as nações da terra e às ilhas.

“E após ter gritado, sete trovões fizeram ecoar suas vozes”.  Esses trovões que se farão ouvir a voz deste anjo, serão os murmúrios e os gritos de todos aqueles que quererão resistir à vontade deste Monarca e quererão fulminá-lo, pois levantar-se-á neste tempo uma grande tempestade. Mas porque eles não poderão resistir-lhe e ainda menos fazer-lhe mal, está ordenado a São João de não escrever aquilo que viu nesta circunstância; porque toda esta tempestade será sem efeito. Jesus Cristo quer unicamente prevenir São João em sua qualidade de representante da Igreja, para nos fazer saber que o império deste Monarca e a propagação da verdadeira Fé sobre a Terra, não se obterão sem muito trabalho e sem muita tempestade.  Por isso porque está disto: “E depois que ele gritou, sete trovões ecoaram suas vozes”.  Somente quando o trovão faz ouvir sua voz, é que a faísca não ferirá mais porque a nuvem terá iluminado o ar. Mas a tempestade produzirá um efeito, algumas vezes tão nocivo, segundo as faíscas caiam sobre os homens, sobre os animais, sobre as árvores ou sobre os edifícios. Ora, a tempestade que foi mostrada a São João sob a figura de uma trovoada, era uma tempestade sem outro efeito senão aquele da voz do trovão.

“Sete trovões farão estalar suas vozes”.  Quer dizer que os príncipes e os grandes se insurgirão contra este Monarca e murmurarão. Eles farão ouvir suas vozes na ocasião deste Concílio, para lhe resistir e para fulminar seus decretos; mas porque este Monarca estará sob a proteção de Deus, todos os seus esforços serão vãos e inúteis.

Isto se conforma com São Boaventura, ao comentar outra passagem do Apocalipse, quando diz: “Desta forma, se pode crer com fundamento que Francisco foi prefigurado naquele Anjo que subia do oriente levando impresso o selo de Deus vivo, segundo se descreve na verídica profecia do outro amigo do Esposo: São João, Apóstolo e evangelista. Com efeito, ao abrir-se o sexto selo – disse São João no Apocalipse - ”vi outro Anjo que subia do oriente levando o selo de Deus vivo”. Como São Francisco recebeu os estigmas da Paixão de Cristo, estaria “levando o selo de Deus vivo”.

Há também um simbolismo com relação à nuvem, ao arco-íris, ao rosto como o sol, aos pés como colunas de fogo e ao livrinho na sua mão. O Anjo, ou Varão angélico, estava vestido por uma nuvem, isto é, vinha trazendo aos homens o que as nuvens trazem, chuvas ou tempestades; mas também o estar vestido numa nuvem pode significar que sua presença estava um pouco esmaecida e não percebida pelos homens por causa da nuvem, sua vestimenta. O arco-íris sobre sua cabeça quer dizer que ele é um intercessor entre Deus e os homens, pois o arco-íris significa os armistícios entre Deus e os homens feitos com Noé e outros Patriarcas.  Seu rosto brilha como o sol, querendo significar sua pureza e esplendor como reflexo de Deus. Seus pés são como colunas de fogo porque por onde ele andou pregou a guerra contra o pecado, os demônios e os vícios. Finalmente, o Anjo “que desceu do céu” está trazendo um livrinho na mão, aberto, significando a Doutrina que o Santo andou pregando aos homens, sem nada haver de oculto.[5]

Abandonando o texto da sexta trombeta o Venerável Holzhauser passa a comentar o capítulo 14 do Apocalipse, aquele do sexto sinal, que corresponde, segundo ele, a Sexta Igreja:

“Isto que acaba de ser dito de Jesus Cristo, nesta profecia, pode-se aplicar, de algum modo, por analogia, a este Monarca poderoso do qual São João diz que será semelhante ao Filho do Homem, tendo sobre a cabeça uma coroa de ouro (Apoc. 14,14)”.

Conforme já vimos, São Tomás de Aquino afirma que o termo “Filho do Homem”, como o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo se autoproclamava, significa que era nesta qualidade que Ele julgaria os homens, trata-se portanto de um título de Juiz. Assim, será também com a missão de Juiz dos povos que o Grande Monarca aparecerá, já que ele será “semelhante ao Filho do Homem”.

“Quer dizer que ele será um Grande Monarca, rico e poderoso, e o dominador dos dominadores. Ele vencerá os reis das nações e será cheio da caridade de Deus.

“E tinha em sua mão uma foice cortante”.  (Apoc 14,14). Esta foice que o Grande Monarca terá em sua mão é o grande e forte exército com o qual ele atravessará os reinos e as nações, e as repúblicas e as praças fortes, que ele perpassará de ponta a ponta. Está dito que esta foice é cortante porque ele não empreenderá nenhum combate que não resulte em vitória para suas armas, ou de grandes perdas e grandes carnificinas para o inimigo.

“...E um outro anjo saído do Templo, gritava em alta voz àquele que estava sentado sobre a nuvem: Lançai vossa foice e segai, porque é chegada a hora de segar” (Apoc. 14, 15).  Esta voz é aquela de alguém que exorta com a guerra, veementemente, à colheita da cizânia dos hereges e dos Turcos. Este anjo que sairá do Templo e dirá assim, é o Grande e Santo Pontífice do qual já falei, que Deus suscitará nestes dias. E este Pontífice exortará e engajará este Monarca de empreender esta guerra sagrada. “Jetez votre faulx” (lançai vossa foice), lhe dirá ele, quer dizer, vosso exército poderoso, e cortai, arrasai, erradicai os hereges e os bárbaros.

“E Deus disporá os corações dos soldados de maneira que eles adiram de espírito e de coração à empresa de seu Monarca poderoso...

“E aquele que estava sentado sobre a nuvem lançou sua foice sobre a terra e foi feita a colheita” (Apoc 14, 16).  Todas estas palavras exprimem o feliz sucesso obtido segundo as palavras do Santo Pontífice: “E a Terra foi ceifada”,porque o Grande Monarca exterminará e submeterá a seu poder as nações dos Turcos e dos hereges, e ocupará suas terras.

“E um outro anjo saído do templo que está no céu, tendo também ele mesmo uma aguda foice... ( Apoc. 14, 17).

“Esta foice é um grande exército que os Estados da Igreja e seus aliados, estreita e fortemente unidos reunirão em torno do Grande Monarca. Por isso está dito que este outro anjo sairá de dentro do templo, quer dizer, dos estados da Igreja, cujo templo é figura. “Que está no céu”, quer dizer na Igreja militante, representada aqui pela palavra céu. Aquilo do qual está escrito: “E um outro anjo sairá do templo”, será um grande general em chefe que este Santo Pontífice, do qual já falei, constituirá e designará para comandar este forte exército que empregará em arruinar e aniquilar o poderio dos Turcos e dos hereges. [6]

Segundo o entendimento do Venerável Holzhauser, três grandes personagens surgirão no final do quinto período da Igreja e começo do sexto: o Grande Monarca, o Santo Pontífice e um grande general. Lembremo-nos de que, na regência perfeita, três são aqueles que transmitem o poder régio: um pontífice, um magistrado e um general. O Pontífice para como que selar a aliança entre Deus e os homens; o Magistrado para interpretar o cumprimento das leis divinas e, finalmente, o general para a conquista e adesão dos que vão ser regidos doravante. É natural, pois, que sejam eles, também no mundo atual, os restauradores da regência divina e da Igreja sobre os homens. No Antigo Testamento era mais ou menos assim, havia o cumprimento de um ritual de entronização da regência, às vezes com quatro personagens como os que foram escolhidos para transmitir o trono a Salomão, um rei (Davi que ainda vivia, fazendo o papel de magistrado), um pontífice (Sadoc), um profeta (Natan) e um general (Bananias) (ver I Rs 1, 36-37). 

Então, esse “Grande Monarca” poderia ser uma espécie de “magistrado” das leis divinas, da regência universal, que confunde-se também com a de Juiz, elemento que exerce principal função na regência, que é o ato de julgar.

Alguns Santos e Profetas também chamados de “Anjos”

São João Batista, por exemplo, pode ter sido antevisto nas profecias de São Malaquias como um “Anjo do Senhor” (Mal 3. 1), chamado de mensageiro por São Mateus (Mt 11.10), ou, se desejar, de anjo mensageiro, conforme essa terminologia de Santo Agostinho. Alguns estudiosos dizem o termo “anjo” era utilizado antigamente apenas para designar qualquer mensageiro de Deus, passando a também significar os de natureza espiritual por causa de suas constantes presenças como mensageiros ou enviados.

De onde virá o Grande Monarca?

Nosso Senhor Jesus Cristo apareceu a Afonso Henriques, antes da batalha de Ourique, quando profetizou sobre o futuro de Portugal e de “terras muito remotas”, fato atestado pelo próprio rei numa escritura que se encontra no cartório real do mosteiro de Alcobaça, e cujo teor é o seguinte:

“Eu, Afonso, Rei de Portugal, juro em esta cruz de metal e neste livro dos Santos Evangelhos, em que ponho minhas mãos, que eu, miserável pecador, vi com estes olhos indignos a Nosso Senhor Jesus Cristo estendido na cruz, no modo seguinte: Eu estava com meu exército nas terras de Alentejo, no campo de Ourique, para dar batalha a Ismael e a outros quatro reis mouros que tinham consigo infinitos milhares de homens. E minha gente, temerosa de sua multidão, estava atribulada e triste sobremaneira. Em tanto que publicamente, diziam alguns ser temeridade acometer tal jornada. E eu, enfadado do que ouvia, comecei a cuidar comigo o que faria. E como estivesse na minha tenda um livro em que estava escrito o Testamento Velho e o de Jesus Cristo, abri-o e li nele a vitória de Gedeão, e disse entre mim mesmo: mui bem sabeis Vós, Senhor Jesus Cristo, que por amor vosso tomei sobre mim essa guerra contra vossos adversários. Em vossa mão estás dar a mim e aos meus a fortaleza para vencer esses blasfemadores de vosso nome.

“Ditas essas palavras, adormeci sobre o livro e comecei a sonhar que via um homem velho vir para onde eu estava e que me dizia: Afonso, tem confiança porque vencerás e destruirás esses reis infiéis e desfarás sua potência e o Senhor se te mostrará. Estando nesta visão, chegou João Fernandes de Souza, meu camareiro, dizendo: acordai, senhor meu, porque está aqui um homem velho que vos quer falar. Entre, lhe respondi, se é católico. E tanto que entrou, conheci ser aquele que no sonho vira, o qual me disse: senhor, tende bom coração, vencereis e não sereis vencido. Sois amado do Senhor, porque sem dúvida pôs sobre vós, e sobre vossa geração depois de vossos dias, os olhos de sua misericórdia, até a décima sexta descendência, na qual se diminuirá a sucessão, mas nela assim diminuída, Ele tornará a pôr os olhos e verá.  Ele manda dizer-vos que quando na seguinte noite ouvirdes a campainha de minha ermida, na qual vivo a sessenta e seis anos guardado no meio dos infiéis com o favor do mui alto, saiais fora do real, sem nenhum criado, porque vos quer mostrar sua grande piedade.

“Obedeci e, prostrado em terra, com muita reverência, venerei o embaixador e Quem o mandava. E como posto em oração, aguardo o som, na segunda vela da noite ouvi a campainha, e armado de espada e rodela saí fora dos reais, e subitamente vi à parte direita, contra o nascente, um raio resplandecente indo-se pouco a pouco clareando, cada hora se fazia maior. E pondo de propósito os olhos para aquela parte, vi de repente, no próprio raio, o sinal da Cruz, mais resplandecente que o sol, e um grupo grande de mancebos resplandecentes, os quais creio que seriam os santos anjos. Vendo esta visão, pondo à parte o escudo e a espada, me lancei de bruços e desfeito em lágrimas comecei a rogar pela consolação de meus vassalos, e disse sem nenhum temor:

“A que fim me apareceis, Senhor? Quereis porventura acrescentar fé a quem tem tanta? Melhor é por certo que Vos vejam os inimigos e creiam em Vós que eu, que desde a fonte do batismo Vos conheci por meu Deus verdadeiro, filho da Virgem e do Padre Eterno e assim Vos conheço agora.

“A cruz era de maravilhosa grandeza, levantada da terra quase dez côvados. O Senhor, com tom de voz suave que minhas orelhas indignas ouviram, me disse: Não te apareci deste modo para acrescentar tua fé, mas para fortalecer teu coração neste conflito, e fundar os princípios de teu reino sobre pedra firme. Confia, Afonso, porque não só vencerás esta batalha mas todas as outras em que pelejares contra os inimigos de minha cruz[7]. Acharás tua gente alegre e esforçada para a peleja, e te pedirá que entre na batalha com o título de rei. Não ponhas dúvida, mas tudo quanto te pedirem lhes concede facilmente. Eu sou o fundador e destruidor de reinos e impérios, e quero em ti e em teus descendentes fundar para Mim um império, por cujo meio seja Meu nome publicado entre as nações mais estranhas. E para que teus descendentes conheçam Quem lhes dá o reino, comporás o escudo de tuas armas do preço com que Eu remi o gênero humano, e daquele por que Fui comprado pelos judeus, e ser-Me-á reino santificado, puro na fé e amado da minha piedade.

“Eu, tanto que ouvi estas coisas, prostrado em terra, O adorei dizendo: Por que méritos, Senhor, me mostrais tão grande misericórdia? Ponde, pois, vossos benignos olhos nos sucessores que me prometeis e guardais salva a gente portuguesa. E se acontecer que tenhais contra ela algum castigo aparelhado, executai-o antes em mim e livrai este povo que amo como a um único filho.

“Consentindo nisso, o Senhor me disse:  Não se apartará deles nem de ti, nunca, minha misericórdia, porque por sua vinha tenho aparelhado grandes searas, e a eles escolhidos por meus segadores em terras muito remotas.

“Ditas estas palavras, desapareceu. E eu, cheio de confiança e suavidade, me tornei para o real. E para que isso ficasse na verdade, juro eu, Dom Afonso, pelos Santos Evangelhos de Jesus Cristo tocados com estas mãos. E, portanto, mando aos meus descendentes que para sempre sucederem, que em honra da Cruz e cinco chagas de Jesus Cristo, tragam em seu escudo os cinco escudos partidos em cruz[8], e em cada um deles os trinta dinheiros, e por timbre a serpente de Moisés, por ser figura de Cristo, e este seja o troféu de nossa geração. E se alguém intentar o contrário, seja maldito do Senhor e atormentado no inferno com judas, o traidor.

“Foi feita a presente carta em Coimbra, aos vinte e nove de outubro, era de 1152, eu, el-rei Dom Afonso”. [9]

Nossas origens podem ter sido faladas na Sagrada Escritura

Portugal foi o país que catequizou, cristianizou o nosso Brasil, que fica realmente em “terras muito remotas”. Vejamos abaixo outros textos do Pe. Vieira onde se fala sobre o Brasil como terras profetizadas para um grande futuro da Igreja:

“Destes mesmos fins da terra diz Isaías que há de vir um glorioso restaurador das ruínas do Mundo (por sobrenome o justo) e que seus companheiros e soldados hão de levantar a voz e que seus cavalos (que devem ser os de madeira) hão de rinchar no mar; e conclui o Profeta com dizer que isto é um grande segredo, que ele guarda só para si. As palavras de todo o texto, no capítulo 24, são estas: “Hi levabunt vocem suam, atque laudabunt, cum glorificatus fuerit Dominus hinnient de mari. Propter hoc in doctrinis glorificante Dominum in insulis maris nomen Domini Dei Israel. A finibus terrae laudes audivimus gloriam justi, et dixi: Secretum meum mihi; secretum meum mihi”.[10]  E note-se que convida e convoca o Profeta as doutrinas e as ilhas do mar, para que louvem e glorifiquem a Deus, pelo que há de obrar o justo nos fins da terra. Porque as terras ultramarinas chamam-se propriamente ilhas, ainda que sejam continentes, e os lugares onde se convertem, ensinam e catequizam os gentios (como então se há de fazer geralmente) chamam-se com a mesma propriedade doutrinas: Propter hoc in doctrinis glorificate Dominum in insulis maris nomen Dei Israel. [11]

No livro “História do Futuro” o padre Vieira discorre mais demoradamente sobre a importância do Brasil nas Profecias.  A respeito do texto de Isaías, que diz: “Ai da terra em que ressoa o ruído de asas, que está além dos rios da Etiópia, a qual envia embaixadores por mar e em barcos de junco sobre as águas, de mensageiros velozes, a uma nação dividida e despedaçada; a um povo terrível, o mais terrível de todos, a uma nação que está esperando, e que é calcada aos pés, cuja terra é cortada pelos rios”  (Is 18, 1-2), comenta o padre Vieira:

“Trabalharam sempre muito os intérpretes antigos por acharem a verdadeira explicação e aplicação deste texto; mas não atinaram nem podiam atinar com ela, porque não tiveram notícia nem da terra, nem das gentes de que falava o Profeta.  Os comentadores modernos acertaram em comum com o entendimento da profecia, dizendo que se entende da nova conversão à Fé daquelas terras e gentes também novas, que ultimamente se conheceram no Mundo com o descobrimento dos Antípodas; e notaram alguns com agudeza e propriedade, que isso quer dizer a energia da palavra: ad gentem conculcatam”: “gente pisada dos pés”,  porque os antípodas, que ficaram debaixo de nós, parece que os trazemos debaixo dos pés e que os pisamos; mas chegando mais de perto à gente e terra ou província de que se tende a profecia, também os modernos não acertaram até agora com o sentido próprio, germano e natural dela, e este é o que nós havemos  de descobrir ou escrever aqui, pelo havermos recebido de pessoa douta e versada nas Escrituras, que, havendo visto as gentes, pisado as terras e navegado as águas de que fala este texto, acabou de o entender, e verdadeiramente o entendeu, como veremos e verão melhor os que tiverem lido as exposições antigas e modernas dele.

“Cornélio [a Lápide] teve para si que fala o profeta de Etiópia e do Preste João; mas Etiópia não está além de Etiópia, como diz o texto. Malvenda, com os outros que cita, o entende dos Chinas e Japões...

“Mas esta exposição e a de Mendonça e Rebelo (que entendem o texto geralmente da Índia Oriental), têm contra si tudo o que logo diremos. José da Costa, tão versado nas Escrituras como na geografia e na história natural das Índias Ocidentais, Ludovico Legionense, Tomás Bózio, Árias Montano, Frederico Lúmnio, Martim del Rio e outros dizem (e bem), que falou Isaías da América e Novo Mundo, e se prova fácil e claramente. Porque esta terra que descreve o Profeta está além da Etiópia: trans flumina Aetiopiae: e é terra depois da qual não há outra: ad populum post quem non est alius.  Estes dois sinais tão manifestos só se podem verificar nas Américas, que é a terra que fica da outra banda da Etiópia, e que não tem depois de si outra terra senão o vastíssimo mar do Sul.   Mas porque Isaías nesta sua descrição põe tantos sinais particulares e tantas diferenças individuantes, que claramente estão mostrando que não fala de toda a América ou Mundo Novo em comum, senão de alguma província particular dele; e os autores alegados nos não dizem que província este seja, será necessário que nós o digamos, e isto é o que agora hei de mostrar.

“Digo, primeiramente, que o texto de Isaías se entende do Brasil, porque o Brasil é a terra que diretamente está além da outra banda da Etiópia, como diz o Profeta: quae est trans flumina Aethiopiae, ou como verte e comenta Vatablo: terra, quae est sita ultra Aethiopiae quae Aethiopiae scatet fluminibus, e o hebreu ao pé da letra tem de trans flumina Aethiopiae.  A qual palavra – de trans – como notou Malvenda, é hebraísmo, semelhante ao de nossa língua. Os Hebreus dizem – de trans – e nós dizemos, detrás; e assim é na geografia destas terras, que em respeito de Jerusalém, considerado o círculo que faz o globo terrestre, o Brasil fica imediatamente detrás da Etiópia.

“Diz mais o Profeta que a gente desta terra é terrível: ad populum terribilem; e não pode haver gente mais terrível entre todas as que têm figura humana, que aquela (quais são os Brasis) que não só matam seus inimigos, mas depois de mortos os despedaçam e os comem e os assam, e os cozem a este fim, sendo as próprias mulheres as que guisam e convidam hóspedes a se regalarem com estas inumanas iguarias... Em lugar de gentem conculcatam, lê o Sírio – gentem depilatam: gente sem pêlo; e tais são também os Brasis, que pela maior parte não têm barba, e no peito e pelo corpo têm a pele lisa e sem cabelo, com grande diferença dos Europeus.

“Diz pois o Profeta, que são estes homens uma gente a quem os rios lhe roubaram a sua terra: Cujus diripuerunt flumina terram ejus.  E é admirável a propriedade desta diferença, porque em toda aquela terra, em que todos os rios são infinitos e os maiores e mais caudalosos do Mundo, quase todos os campos estão alagados e cobertos de água doce, não se vendo em muitas jornadas mais que bosques, palmares e arvoredos altíssimos, todos com as raízes e troncos metidos na água, sendo raríssimos os lugares por espaço de cento, duzentas e mais léguas, em que se possa tomar porto, navegando-se sempre por entre árvores espessíssimas de uma e outra parte...

“Continua Isaías a sua descrição, e diz que os habitantes desta província são gente arrancada e despedaçada; e só o Espírito Santo poderá recopilar em duas palavras a história e última fortuna daquela gente.

“...Diz pois Isaías que esta gente de que fala é um povo; Quae mittit in mare legatos et in vasis papyri super aquas: “Que manda de uma parte para outra seus negociantes em vasos de cascas de árvores sobre as águas”.

“Do que temos dito até aqui ficará mais fácil de entender aquele grande enigma do Profeta, que está nas primeiras palavras deste texto: Vae terrae cymbalo alarum;  o qual foi sempre o que maior trabalho deu aos intérpretes e os obrigou a dizerem cousas mui violentas e impróprias, como aqueles que falavam a adivinhar, e não adivinhavam nem podiam. Os Setenta Intérpretes, em lugar de terrae cymbalo alarum, leram terrae navium alis e uma e outra cousa significam as palavras de Isaías; porque os nomes hebreus de que estas versões foram tiradas, têm ambas as significações e querem dizer: Ai da terra que tem navios com asas; ou, ai da terra que tem sinos com asas. Se são sinos, como são navios? E se são navios, como são sinos?

“...Isto suposto, o expositor que mais foi rastejando o sentido verdadeiro que podia ter este enigma, foi Gabriel Palácio, o qual, no comentário literal deste lugar de Isaías, diz assim: Fortasse indicus usus nominis cymbali antiquitas inolevit apud Hebraeos tempore Isaiae:  “Porventura – diz ele – que no tempo de Isaías as embarcações dos Índios se chamariam entre os hebreus sinos”.  E porque não seria antes, digo eu, que se chamassem sinos, ou tomassem nome de sinos as embarcações dos Índios, de que Isaías falava, não porque este nome fosse usado entre os Hebreus, senão entre os mesmos Índios? [12]

Vê-se pelo texto acima que o Grande Monarca, o Restaurador, o Moisés da Lei da Graça, viria de “terras ultramarinas”, isto é, do Brasil. 



[1]  “Obras Completas del Seudo Dionísio Areopagita” – BAC – Madri, 1990 – págs. 167/168.

[2] Como vimos anteriormente, este “poderoso monarca” não será um rei ou soberano de alguma nação, mas um santo com poderes para reger as leis do Universo.

[3] Mais uma imagem simbólica: o anjo é um mensageiro, podendo ser também um homem, um santo, pois somente um ser humano poderá ter nascido no seio da Igreja. A visão pode, também, se referir ao anjo custódio deste santo, mas, geralmente o termo “anjo” nestas profecias refere-se também a algum homem com poderes proféticos e enviado por Deus.

[4] Ilhas, ou habitantes das ilhas, foi uma expressão usada por alguns profetas, como Isaías, sem definir que povos eram estes.  Alguns estudiosos, segundo o Padre Vieira, julgam que se tratava dos povos americanos que, desconhecidos dos povos em geral naquele tempo, no entanto eram conhecidos misteriosamente pelos profetas.

[5] Essa imagem de um “livrinho” pode nos levar à obra mestra de Dr. Plínio, “Revolução e Contra-Revolução”.

[6] “Bénédictions et malédictions – Prophéties de la révelation privée”, de Jean Vaquié, Paris, 3a. Edição revista e ampliada, págs. 47 a 76).

[7] Importante notar que Portugal conseguiu expulsar os mouros de seus territórios (séc. XII) muitos anos do que a Espanha (final do séc. XV).

[8] A partir de então o Rei Afonso mandou colocar nos escudos e bandeira de Portugal as cinco chagas de Cristo, símbolos que até hoje permanecem naquele país, apesar dos governos republicanos e maçons de nossos tempos.

[9] O texto desta escritura acha-se transcrito no livro “A Batalha de Ourique”, de Frei Antonio Brandão, Livraria Civilização Editora, Porto, 1945

[10] Estes levantarão a sua voz e cantarão louvores; soltarão gritos de alegria do lado do mar, quando o Senhor for glorificado. Por esta causa, com as verdadeiras máximas de doutrina, glorificai ao Senhor; nas ilhas do mar (celebrai) o nome do Senhor Deus de Israel. Desde as extremidades da terra nós ouvimos os louvores, a glória do justo. E eu disse: O meu segredo para mim, o meu segredo para mim. (Isaías 24, 14-16)

[11]  “Defesa Perante o Tribunal do Santo Ofício” – Pe. Antonio Vieira – Liv. Progresso Editora – tomo II – pág. 266

[12] “História do Futuro”, - Biblioteca de Autores Portugueses - págs. 215/222).

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

ALGUMAS REVELAÇÕES DA BEATA ANA CATARINA DE EMMERICH SOBRE A CRISE NA IGREJA

 

A Beata Anna Catalina Emerich[1] não só previu, mas viu a crise dentro da Igreja. Viu ela que um terço dos demônios que estavam no inferno seriam soltos em torno de cinqüenta ou sessenta anos antes do ano 2000, aos quais Deus daria certo tempo para agir na terra, mas findo este tempo seriam novamente sepultados no inferno. Quer dizer, seriam exorcizados de uma forma que não permaneceriam nos “ares”, fazendo algum mal aos homens, mas seriam projetados de volta para o inferno.

Monsenhor Delassus, que publica tais visões, comenta:

“Várias vezes Anna Catharina fala da igreja dos apóstatas, que também chama de igreja das trevas e cujos progressos ela mostra. Ela também assinala nessa igreja a presença e a influência de certos cúmplices dos principais chefes da franco-maçonaria. Que igreja é essa? Ela não o precisa, senão pela frase que lemos acima: “Aqui tudo é mais natural”, e que parece indicar que com isso ela compreendia os propósitos daqueles que desertam da ordem sobrenatural para se porem mais à vontade no naturalismo”.

Mas a construção deste maldito templo satânico, que era o corpo místico do demônio e sua falsa igreja, só seria possível com a destruição da Igreja de Cristo. Daí a atuação constante dos demolidores:

 

“Fileiras de trabalhadores ocupados no trabalho de destruição estendiam-se através do mundo inteiro, e fiquei espantada com a coordenação com que tudo era feito. Os demolidores destacavam grandes pedaços do edifício. Esses sectários são numerosos e entre eles há apóstatas. Realizando o trabalho de destruição eles precisam seguir certas prescrições e certas regras. Usavam aventais brancos, debruados com uma faixa azul e guarnecido de bolsos. Tinham colheres de pedreiro fixadas na cintura. Ademais, têm vestimentas de toda espécie. Entre eles existem personagens distintos dos outros, grandes e corpulentos, com uniformes e cruzes, os quais, contudo, não trabalhavam diretamente, mas marcavam nas paredes das igrejas, com a colher de pedreiro, o que era preciso demolir. Vi com horror que havia entre eles padres católicos. Freqüentemente, quando os demolidores não sabiam bem como agir, eles se aproximavam, para se instruírem a respeito, de um dos seus, que tinha um grande livro no qual estava traçado todo o plano a seguir para as destruições, e este marcava exatamente, com a colher de pedreiro, o ponto que devia ser atacado; e logo um pedaço caía sob as marteladas. A operação prosseguia tranqüilamente seu ritmo e caminhava infalivelmente, mas sem despertar atenção e sem ruído, tendo os demolidores os olhos à espreita”.

 

Em suas visões, a Bem-Aventurada via que o objetivo principal dos demolidores era Roma, era o Papado:

 

“Vi, um dia, o Papa em oração. Ele estava rodeado de falsos amigos. Vi sobretudo um homem-negro trabalhar para a ruína da Igreja com grande atividade. Ele diligenciava em cativar os cardeais através de adulações hipócritas”.

 

As visões da Bem-Aventurada Catharina Emmerich abarcam toda a História do Universo e a Obra divina. Desde a criação do mundo até a vinda do Anticristo.  Sobre os dias que viriam após sua época, viu de uma forma simbólica o crescimento do corpo místico de satanás da seguinte forma:

 

“Eu vejo as trevas se adensarem. Ameaça uma grande tempestade, o céu está coberto de um modo apavorante. Há poucas pessoas que rezam e a aflição dos bons é grande. Vejo por toda a parte as comunidades católicas oprimidas, humilhadas, arruinadas e privadas de liberdade. Vejo muitas igrejas fechadas. Vejo grandes misérias se produzirem em todos os lugares. Vejo guerras e sangue derramado.

“Tive a visão de uma imensa batalha. Toda a planície estava coberta por uma espessa fumaça.  Vinhas estavam cheias de soldados, de onde atiravam continuamente. Era um lugar baixo; viam-se grandes cidades ao longe.  Vi São Miguel descer com numerosa tropa de anjos e separar os combatentes. Mas isso só acontecerá quando tudo estiver perdido.  Um chefe invocará São Miguel e então a vitória descerá”.

“Vi São Miguel pairando sobre a igreja de São Pedro, brilhante de luz, usando uma vestimenta vermelho-sangue e segurando na mão um grande estandarte de guerra. Verdes e azuis combatiam contra os brancos, que pareciam sofrer a derrota. Todos ignoravam porque combatiam. Entretanto, o anjo desceu, foi aos brancos e eu o vi várias vezes à frente de todas as suas coortes. Então eles ficaram animados de uma coragem maravilhosa, sem que soubessem de onde isso lhes vinha.  O anjo multiplicava seus golpes entre os inimigos, as tropas inimigas passavam para o lado dos brancos, outros fugiam para todos os lados”.

 

Sobre a demolição da Igreja a Bem-Aventurada teve diversas visões, chegando ao ponto de vê-La a tal ponto destruída que só restava de pé o Santíssimo Sacramento.  Nisto ela viu um homem que defendia a Igreja:

 

“Eu estava acabrunhada de tristeza e me perguntava onde estava aquele homem que eu tinha visto outrora permanecer sobre a Igreja para defendê-la, usando uma vestimenta vermelha e segurando uma bandeira branca”. 

 

Se ela não via neste momento o homem que “outrora” defendia a Igreja é porque este já havia entrado na glória, pois em seguida é Nossa Senhora em pessoa que luta pela igreja:

 

“Então vi uma mulher cheia de majestade avançar pela grande praça que fica diante da igreja. Ela tinha seu amplo manto erguido sobre os dois braços, e ela se levantou suavemente no ar. Ela se postou sobre a cúpula e estendeu sobre a Igreja, em toda a sua extensão, o manto que parecia faiscar de ouro”.  “Os demônios acabavam de tomar um instante de repouso; mas quando quiseram voltar ao trabalho foi-lhes absolutamente impossível aproximar-se do espaço coberto pelo manto virginal”. 

 

Os anjos bons agora ocupavam tais espaços, preparando o ambiente para a vinda do Reino de Maria.

É chegado a hora em que, após o Varão da Destra de Nossa Senhora ter subido aos céus[2], com o seu holocausto  como que “comprou” de Deus um mais poderoso auxílio angélico para os bons que combatiam:

Na descrição a seguir há uma referência a um movimento dentro da Igreja para a restauração de tudo:

 

“Vieram homens muito velhos, impotentes, esquecidos, depois muitos jovens fortes e vigorosos, mulheres e crianças, eclesiásticos e seculares; e o edifício foi logo inteiramente restaurado”. 

 

Depois de tudo isso, o Reino de Maria:

 

“Vi tudo se renovar e uma igreja que se erguia até o céu”. Em outra visão: “Vi uma imagem desse tempo distante que não posso descrever. Mas vi sobre a terra a noite se retirar e a luz e o amor retomarem uma nova vida. Tive nessa ocasião visões de toda espécie sobre o renascimento das Ordens religiosas. O tempo do Anticristo não está tão próximo como alguns crêem. Haverá ainda precursores, e vi em duas cidades doutores de escola dos quais poderiam sair esses precursores”.[3]

 


[1] Vidente alemã nascida em 8 de setembro de 1774 e falecida a 09 de fevereiro de 1824

[2] Refiro-me ao Grande Monarca, do qual fala mais detalhadamente o Beato Palau em suas revelações .

[3] Os textos da Beata foram extraídos da obra “La Conjuration Antichrétienne”, de Monsenhor Henri Delassus, publicada em 1910, no pontificado de São Pio X.