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domingo, 3 de dezembro de 2023

A TENTAÇÃO E NOSSA CONFIANÇA EM DEUS

 



   SÃO FRANCISCO XAVIER

 

Entre os preciosos escritos que nos deixou, ditados pela profunda sabedoria e senso apostólico que o distinguia, São Francisco Xavier assim se refere à luta contra as tentações, pela qual todos passamos em nossa vida espiritual:

“O meio mais seguro para triunfar do inimigo é ter uma grande coragem, desconfiando de si mesmo e se apoiando em Deus, de sorte que, após ter colocado toda vossa esperança n’Ele, e só n’Ele, nada mais temereis e nem duvidareis da vitória.

“E como o demônio não tem poder senão sobre aqueles que Deus lho permite, quanto mais seus assaltos são terríveis, mais é preciso redobrar de confiança na Divina Providência, porque Ela permite ao inimigo assaltar e atormentar só os seres fracos que n’Ela não confiam, que desdenham de se amparar n’Ela e colocam em outros as suas esperanças.  É esta fraqueza que gangrena os corpos e faz com que tantas pessoas que começam a servir a Deus terminem por levar uma vida cheia de tristezas e angústias”.

Para bem aproveitarmos esse pensamento de São Francisco Xavier, devemos antes de tudo considerar que a tentação pode ter causa natural ou preternatural (isto é, proveniente do demônio).

Por exemplo, o impulso de se irritar contra alguém ser tão talvez motivado por uma disposição natural, explicável se aquele faz algo que nos desagrada; inexplicável, se se tratar de uma mera susceptibilidade de nossa parte. Porém, esse ímpeto para se agastar pode ter uma causa preternatural se, de repente, somos tomados por um acesso de irritação, injustificável e insensato, em relação a uma pessoa que em nada nos incomodou.

Entretanto, coexistem. Assim, ao sermos assaltados por um mau desejo de cunho natural, haverá um concurso do demônio, secundando-o. Por outro lado, quando nos assedia com sua ação maléfica, este último em geral cria ou explora uma circunstância natural, para então entrar com sua influência preternatural.

 

Duas categorias de tentações

Isso posto, as tentações podem ser classificadas pelo menos em duas categorias. Umas são tentações-castigos; outras serão apenas provações e até estímulos para progredirmos na vida espiritual.

Esse ponto merece insistência, pois não é raro ouvirmos queixas como estas: “Ando tão mal que me sinto tentado a querer tal coisa péssima”. Ou: “A tentação é um castigo para os que não se comportam bem, e Deus me puniu com uma. Se estou tentado, é porque fiz alguma coisa errada”.

Importa compreender que esse raciocínio não se aplica a todos os casos de tentação.

Certo, quando alguém se deixa levar por determinada atitude espiritual ruim, abre o flanco para a investida do demônio. O próprio São Francisco Xavier nos cita exemplos dessas perigosas disposições de alma. Ele adverte as pessoas que não se dedicam nos serviços a elas confiados e que arrastam a obrigação preguiçosamente. Essa preguiça já constitui uma meia guarda desamparada para que o inimigo se apresente e as incite a abandonar o dever. Risco análogo corre o religioso que cumpre uma obediência cheio de cismas e de ressalvas interiores, mais ou menos arbitrárias. É óbvio que, de um momento para outro, será tentado pelo demônio a não seguir as ordens de seu superior. Em ambos os casos, a tentação pode ser vista como um castigo pela má predisposição de espírito dessas pessoas.

Contudo, muitas vezes é outra a razão de sermos tentados. Vamos muito bem na vida espiritual, e por isso mesmo Deus permite travarmos um combate com o adversário d’Ele, para que vençamos e alcancemos um incremento de glórias na nossa piedade.

 

Motivo para confiar em Deus

Em outras ocasiões, verificar-se-á o fato de não estarmos num bom momento espiritual, e Deus então dispõe que sejamos tentados para que a luta nos estimule a melhorar. Assim, muitas tentações são permitidas por Ele, pois constituem um verdadeiro tônico para os necessitados de incentivo.

Mais ainda. Na vida espiritual, o perigo consiste, não tanto em ser tentado, mas em não sofrer os ataques do demônio. Com efeito, não é sinal favorável que uma pessoa passe anos sem tentações, pois provavelmente será do número daquelas almas às quais o demônio logrou paralisar no caminho da perfeição. Elas se deixaram cair na modorra, na indolência e mediocridade, embora conservem um resto de consciência de seu estado lamentável: se forem tentadas, começam a se erguer e a reagir. Por isso o demônio não as provoca, para que continuem a se decompor de modo imperceptível ao longo dos tempos.

Por tudo quanto foi dito, vê-se que este raciocínio:”Estou tentado; logo, vou mal espiritualmente e estou sendo castigado” – é uma imensa simplificação e mutila o panorama da nossa vida de piedade. Até mesmo para alguém que sofre tentações porque abriu o flanco ao demônio, a reação contra elas pode colocá-lo numa posição melhor do que antes das investidas diabólicas, humilhando e rechaçando o seu inimigo.

A tentação não nos deve, pois, levar ao desânimo ou ao semi-pânico, mas, como diz São Francisco Xavier, a um aumento de nossa confiança em Deus. Ainda que tenhamos sido culpados e, portanto, tentados por castigo, Deus continua sendo nosso Pai, e Maria Santíssima, nossa Mãe. Ela é o Refúgio dos Pecadores: qualquer um que tenha cometido uma falta e se refugie junto a Ele, recebe sua materna proteção, seu infalível auxílio e incansável assistência.

 

A oração da confiança

Nesse sentido, devemos ponderar muito as palavras magníficas do “Lembrai-Vos”, essa tocante oração atribuída a São Bernardo de Claraval, o Doutor Melífluo. Diz ela:

“Lembrai-Vos ó Piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que têm recorrido à vossa proteção, implorado vossa assistência e reclamado o vosso socorro fosse por Vós desamparado”.

Como se vê, nessa prece se fala de proteção, assistência e socorro. Proteção para evitar que cedamos ás tentações; assistência, ou seja, auxílio em nossa dificuldades; socorro, quando estivermos periclitando e afundando. Pois bem, nunca alguém que tenha pedido a Ela socorro, assistência e proteção, foi desamparado. Cumpre salientar que a palavra “nunca” é muito categórica: não houve um só caso de alguém que recorreu a Nossa Senhora e não foi atendido.

“Animado eu, pois, com igual confiança, a Vós, ó Virgem entre todas singular, como a Mãe recorro, de Vós me valho”.

Quer dizer, “se Vós jamais deixastes de proteger alguém, aqui estou eu, homem batizado na Igreja Católica e filho vosso, que venho Vos pedir auxílio. Estou tentado, tive culpa na causa da tentação e, lamentavelmente, até cedi a ela. Mas, eu existo e vossa clemência me mantém nesta vida. Estando vivo, tenho o direito e o dever de Vos dirigir essa oração. Por isso me apresento diante de Vós, cheio de confiança”.

“E gemendo sob o peso dos meus pecados me prostro a vossos pés.”

Note-se como essa expressão é animadora. Não está dito: “Eu, o inocente, o puro, o límpido, o homem sem mancha me dirijo a Vós e peço socorro. A minha inocência me dá garantias de vosso auxílio”. Afirma-se o contrário: “Gemendo sob o peso dos meus pecados...”

Ou seja, tantas são as faltas cometidas que até me prostraram no chão. Acho-me deitado sob o peso delas. E, no solo, eles me oprimem de tal forma que me arrancam gemidos. Pois bem, “amargando a dor dos meus pecados, eu venho para junto de Vós e me arrojo aos vossos pés”.

“Não desprezeis  as minhas súplicas, ó Mãe do Verbo de Deus humanado, mas dignai-Vos de as ouvir propícia e de me alcançar o que Vos rogo. Assim seja.”

O pensamento não podia ser mais belo. O pecador pede à Santíssima Virgem que o ouça com benignidade, com bondade, pois espera da parte d’Ela um sorriso, que lhe alcance a graça implorada.

É a oração da confiança. Qualquer alma, em qualquer estado ou situação em que se encontre, sobretudo nas tentações e na tibieza, deve se voltar para Nossa Senhora e dizer: “Rogo-Vos a vossa assistência; tende pena de mim e auxiliai-me”.

E o raciocínio que justifica essa confiança é simplíssimo: “Vós nunca abandonastes alguém. Ora, eu sou alguém. Logo, não me abandonareis”. Não podia ser mais lógico, mais concludente, mais convincente, mais singelo na sua esquematização e mais irresistível. Um raciocínio expresso numa linguagem de fogo e muito bela, como é a de São Bernardo, mas encerrando um verdadeiro conteúdo teológico: “Nossa Senhora é Mãe de cada homem; portanto, não me abandonará”.

Voltamos, então, ao ensinamento de São Francisco Xavier. Ele nos deixa claro que a alma tentada deve, mais do que tudo, confiar, rezar e não ter medo. E não só nas horas das tentações, mas em todas as dificuldades, grandes ou pequenas, da vida espiritual ou da nossa existência quotidiana, devemos sempre cultivar essa firme confiança no auxílio de Maria Santíssima, nossa Mãe e onipotente intercessora junto ao Sagrado Coração de Jesus.

 

(Revista “Dr. Plínio”, nº 69, dezembro de 2003).

 

 


terça-feira, 3 de dezembro de 2019

SÃO FRANCISCO XAVIER E SEU CARÁTER GUERREIRO






Os episódios narrados a seguir mostram uma característica peculiar de São Francisco Xavier, o Apóstolo das Índias: seu caráter guerreiro.

As conquistas cristãs despertam perseguição muçulmana
Decorrido algum tempo após a conquista de Malaca, na Índia, e o crescente avanço do cristianismo, logo surgiu um déspota muçulmano tentando destruir o bom andamento da catequese e de nova cristandade que ali se desenvolvia. No dia 9 de outubro de 1547 uma armada islâmica atacou o porto da cidade e destruiu os navios que estavam ancorados. 
Produziu um geral terror nos habitantes e todos correram às armas; eram duas horas da manhã. O tempo estava quente, um luar sinistro iluminava a cidade inteira; gritos longínquos, alegres e prolongados como os gritos de vitória, e multiplicados por numerosos ecos, misturavam-se com o estrondo das descargas sucessivas de uma formidável artilharia.
Homens, mulheres, crianças, índios, portugueses, toda a população, enfim, está de pé em um instante. Cada um procura conhecer o perigo de que é ameaçado; dirigem-se ao porto... Está em fogo!
Todos os navios ancorados são presa das chamas, o incêndio que devora aquele rico meio de defesa deixa a cidade à mercê dos bárbaros que a atacam tão traiçoeiramente! Contudo ela procura defender-se do interior pelo maior tempo possível, e consegue repelir os assaltantes que investem ferozmente e contam ocupar a fortaleza antes do dia.

O terror islâmico como arma de conquista
Ao nascer do sol, sete pobres pescadores entram na cidade; tinham sido surpreendidos pelo inimigo,  que depois de lhes cortar os narizes e as orelhas os enviava, assim mutilados, com uma carta do general em chefe do exército muçulmano a Dom Francisco de Melo, governador de Malaca.
Pelo teor da carta, abaixo transcrita, vê-se que tipo de mentalidade predomina entre os adeptos de Maomé:
 “Bajaja Soora, que tem a honra de levar em vasos de oiro o arroz do grande sultão Alaradim, rei de Achém e das terras que são banhadas pelos dois mares, te ordena que escrevas ao teu rei dizendo-lhe que estou aqui, mau grado seu, lançando o terror na sua fortaleza pelo meu feroz rugido, e que estarei quanto tempo me parecer. Eu tomo por testemunha não somente a gente que a habita mas todos os elementos até o céu e a lua, e lhes declaro pela minha própria boca, que o teu rei é sem valor e sem nome, que os seus estandartes abatidos não poderão jamais levantar-se sem permissão daquele que lhos vence hoje; que, pela vitória que alcançamos, o meu rei tem debaixo dos seus pés a cabeça do teu, que é deste momento seu vassalo e seu escravo; e a fim de que tu próprio confesses esta verdade, te provoco e desafio ao combate no local  em que me acho, se te sentes como coragem de ousar resistir-me”.

O governador não se inquietaria absolutamente com aquela carta se pudesse  dispor da sua marinha; porém todos os navios portugueses se achavam destruídos pelo inimigo; e não podia aceitar o combate naval; a situação era, portanto, embaraçosa; mandou pedir ao Padre Xavier que viesse auxiliar com o seu parecer o conselho reunido em sua casa.

Um santo com sangue de fidalgo nas veias aceita o desafio da guerra
Não contavam os invasores que na cidade havia um grande santo, São Francisco Xavier. Havia acabado de celebrar a Santa Missa na igreja de Nossa Senhora do Monte, quando foi chamado à presença de D. Francisco de Melo, que lhe dá a ler a carta de Soora, e lhe pede a sua opinião. Xavier que, segundo a expressão de M. Crétineau-Joly, - “tinha o velho sangue de fidalgo nas veias – respondeu-lhe:
- Senhor, o sultão é muito mais inimigo do Cristianismo do que de Portugal. Por honra da religião cristã é necessário aceitar-lhe o combate; um insulto semelhante não pode ficar impune! Se vós suportais aquela injúria deste rei muçulmano, a que se não atreverão todos os outros? Não! Não! É necessário aceitar o desafio, e provar aos infiéis que o Criador do Céu e da terra é muito mais poderoso que o seu rei Alaradim.

Primeiros sinais de fraqueza dos cristãos
A partir daquele momento, São Francisco Xavier começou a sentir o quanto os cristãos daquele lugar eram dominados pelo espírito da moleza e falta de espírito guerreiro. O primeiro a manifesta isso foi o próprio governador:
- Mas, meu Padre, como quereis vós que vamos para o mar? Em que navios quereis que embarquemos? Dos oito que existiam no ancoradouro, só nos restam quatro cascos de fustas arruinadas! E poderiam elas prestar-nos algum serviço contra uma esquadra tão numerosa?
- Quando os infiéis tivessem um número de navios muito mais considerável ainda, respondeu Xavier, não seríamos nós os mais fortes, tendo o Céu por nós? E se Deus está por nós, quem contra nós? Poderemos porventura ser vencidos combatendo em nome de Jesus Nosso Senhor?
O grande Xavier pronunciara aquelas palavras com um acento tão inspirado, que não deixava hesitação por um só momento sobre o partido a tomar. Dirigem-se todos ao arsenal; Francisco Xavier guia e anima a todos em geral e a cada um em particular: descobrem uma barca chamada “Catur”, em bom estado e destinam-na para o combate. Existiam sete fustas fora do serviço e ele julga que podem ser reparadas; porém Eduardo Barreto, capitão e diretor dos armamentos, declara a empresa impossível:
- Aos armazéns do estado, diz ele, falta neste momento tudo que é necessário para a obra da reparação e equipamento; demais, o cofre de reserva está absolutamente sem dinheiro.
Xavier agarra-se então aos sete capitães dos navios, membros do conselho; abraça-os e suplica-lhes que se encarregue cada um da reparação e do  armamento duma fusta, e sem lhes dar tempo para responder, designa a cada um a sua, com tanta viveza nos movimentos, tanta graça na sua exigência e atração nas suas palavras, que todos aceitam com entusiasmo e empregam imediatamente naqueles trabalhos mais de cem operários, à sua custa, em cada embarcação. Em cinco dias ficaram elas em estado de serem lançadas ao mar. Andréa Toscano, um dos mais distintos marinheiros, tomou o comando da “Catur”. Cada capitão vai comandar o barco que reparara, e recebe a seu bordo cento e oitenta soldados. D. Francisco Deza toma o comando da frota.

Um guia espiritual seguro tanto na batalha quanto nas orações
São Francisco Xavier agora irá enfrentar o espirito de moleza de toda a população, e vai tentar reanimar a todos com coragem e determinação.
O heroico Xavier pediu para acompanhar a armada naval; os habitantes de Malaca opuseram-se tenazmente, considerando-se abandonados por Deus se o santo Padre os deixasse num momento de tão grande ansiedade para eles. Dirigiram-se em massa à casa do governador para lhe suplicarem que retivesse o santo Padre; D. Francisco de Melo prometeu-lhes pedir aquele favor ao seu apóstolo deixando-lhe, contudo, a decisão:
-“Vamos para ali todos! Exclamaram eles imediatamente; vamos procurar o santo Padre! Ele terá piedade de nós; não nos poderá recusar!”
Efetivamente, Xavier não pôde resistir às suas solicitações e às suas lágrimas:
- Sim, meus queridos irmãos, lhes respondeu ele, eu ficarei entre vós durante todo o tempo desta guerra; orarei convosco pelo triunfo da nossa valente armada, e espero que Deus, combatendo por ela, no-la restituirá vitoriosa.
Aquelas singelas palavras bastaram para acalmar a grande consternação do povo.
Na véspera do embarque da expedição, Xavier reuniu na igreja os oficiais e os soldados da armada naval:
- Eu vos acompanharia, lhes disse ele, de alma e coração. Vossas famílias pediram-me com tantas lágrimas que ficasse com elas para as consolar e amparar durante a vossa ausência, que não pude resistir às suas instâncias e à sua dor; mas seguir-vos-ei com os meus votos e as minhas orações. Elevarei as mãos para o Deus dos exércitos, enquanto vós arremeteis o inimigo do nome cristão. Combatei com valor, não para adquirir uma glória vã e transitória, mas uma glória sólida e imortal!
No calor do combate, dirigi a vista para o Divino Salvador crucificado cuja causa defendeis e sustentais, e em vista das suas veneráveis chagas,  não temais as feridas e a morte!  Bem felizes vos devereis julgar se vos fosse permitido dar vida por vida...

Soldados cristãos juram fidelidade até á morte
Ao ouvir o fervoroso discurso do Santo, todos se animaram e fizeram um juramento, o qual é consagrado com a confissão e comunhão de todos. Era um costume cristão que nas vésperas dos combates os soldados se ajoelhassem nos confessionários e, após assistirem missa, todos comungarem. Estavam assim preparados de corpo e alma, tanto para a vida quanto para a morte.
- Meu Padre, exclamaram a voz todos aqueles bravos guerreiros, meu Padre, nós juramos aqui, perante Deus e perante vós, combater os infiéis até à morte! Juramos dar o nosso sangue até á última gota pela causa de Jesus Cristo!
- Este juramento impressiona-me profundamente, replicou Xavier, cujas lágrimas traíam a comoção que o dominava. Jesus Cristo ouviu-o, aceitou-os; vós sois de  hoje em diante “a falange de Jesus Cristo”! e eu vou abençoar-vos em seu nome.
No mesmo instante, todos aqueles bravos guerreiros caem de joelhos, o grande apóstolo implora para eles as bênçãos celestes, depois, ouve em confissão a cada um e administra-lhes a sagrada comunhão.

Primeira tentação de desalento no momento do embarque
A expedição embarcaria na manhã seguinte com um entusiasmo que parece pressagiar a vitória. Levantam-se ferros... O navio almirante faz ouvir um ruído medonho!... Abre-se uma veia de água que deixa apenas o tempo necessário para salvar a equipagem, e o navio submerge-se!... O povo cobria a praia; grita vigorosamente contra a partida da frota, pede que se renuncie àquela expedição, revolta-se contra o santo Padre, não obstante toda a veneração, todo o amor que lhe inspira.
A equipagem do navio almirante estivera em tamanho perigo e tão próxima da morte, que aquele povo exasperado pelo receio duma nova desgraça, perdendo a consciência do que diz e do que faz, acusa de imprudente aquele de quem  recusava separar-se dois dias antes.
O governador manda chamar o santo Padre, que o enviado encontra no altar quase no fim da missa; ele aproxima-se para lhe falar; o Santo acena-lhe que espere. Depois da missa, Xavier diz ao enviado do governador, sem dar tempo de falar:
-“Ide dizer a vosso amo, da minha parte, que não nos devemos desanimar pela perda dum navio”.
Conservou-se ainda por algum tempo em ação de graças aos pés do altar da Santíssima Virgem, e ouviram-lhe exclamar com todo o ardor de sua alma, antes de se retirar:
-“Meu Jesus, amor do meu coração! Olhai-me dum modo favorável! Considerai vossas adoráveis chagas! Lembrai-vos que elas nos dão o direito de pedir-vos o que desejamos! E vós, Virgem Santa, sede-me propício!”
E, erguendo-se, corre à fortaleza, onde o conselho reunido o aguardava:
- Que é isto, pois! Vós perdeis a coragem por tão pouco? - Diz ele ao governador.
- Mas, meu Padre, o povo está exaltado! Fostes vós que provocastes esta triste crise...
- Vamos ao porto, senhor, tudo isto vai arranjar-se, eu vo-lo prometo.
A gente que acabava de escapar da morte estava consternada. Xavier enche-se de toda a sua coragem para lhes dizer:
- Sede firmes na vossa resolução, não obstante esta desgraça que Deus não permitiu senão para experimentar a vossa fidelidade. Ele vos salvou do naufrágio, como fim de vos obrigar a cumprir a promessa  que lhe fizeste sob juramento!
São Francisco Xavier chamou a atenção para um detalhe importante, esquecido na aflição desesperadora em que eram tentados: o incidente ocorrido na hora do embarque foi obra de Deus, que assim evitou algo pior que iria ocorrer em pleno mar, ou em combate, onde muitos morreriam.
Ouvindo isto, mudaram de opinião:
- Sim, sim, meu Padre! Nós sustentaremos e cumpriremos o nosso juramento!
Tal foi o grito de expansão unânime da guarnição do navio almirante, ao qual todas as outras responderam com o mesmo entusiasmo da véspera.

Continua a tentação do desânimo
Apesar disso, o governador, deixando-se influenciar pela oposição dos habitantes, persiste em declara a guerra impossível... Eleva-se então um brado formidável das fileiras do exército; os capitães encarregam-se de pedir a palavra em nome das equipagens, e anunciam ao governador que os soldados preferem a morte à inação; que eles juraram solenemente a Jesus Cristo combater os infiéis até à última gota do seu sangue, e não cessam de repetir:
“Nós devemos esperar tudo das orações e das promessas do santo Padre Francisco!”
A esta  última palavra, Francisco Xavier ergue-se com tom inspirado que dominava todos os espíritos e diz ao governador e ao conselho:
- A fusta perdida será bem depressa substituída; antes do pôr do sol nos chegarão melhores navios: eu vos anuncio isto em nome de Deus!
Seguiu-se um momento de silêncio, depois do qual ficou convencionado que se adiasse a resolução para a manhã seguinte.

Chegam reforços previstos pelo Santo
O dia correu longo para todos!... O sol estava quase a desaparecer quando vieram anunciar que do campanário da igreja de Nossa Senhora do Monte se descobriram duas velas na direção do norte.  O governador manda-se reconhecer por um bote: eram dois navios portugueses que vinham de Patana, masque não deviam tocar em Malaca; pertenciam eles a Soares Galega e a seu filho Baltazar, e cada um comandava o seu.
Achava-se então o padre Xavier em oração na igreja de Nossa Senhora do Monte; foram ter com ele e disseram-lhe:
- Meu Padre, os capitães dos navios não quere ancorar e a vossa predição não se cumprirá!
Xavier mete-se no bote que havia reconhecido os navios portugueses e dirige-se para bordo deles. Os capitães apenas descobriram o santo Padre, viraram de bordo, aproaram para o bote, recebem-no com veneração e põem-se à sua disposição, eles, seus navios e suas equipagens, para o serviço de Deus e do rei.
Foram recebidos com entusiásticas aclamações do povo, e no seguinte dia de manhã, 25 de outubro, logo que Xavier enviou ao almirante Deza o estandarte que havia benzido, a esquadrilha levantou ferro e partiu.

Ânimo forte mantido pelas orações
Um mês depois da partida da esquadra não se tinham recebido senão notícias indiretas, umas mais assustadoras do que outras; o nosso santo animava a todos e prometia o mais feliz resultado. Contudo, os dias sucediam-se naquela mortal incerteza para as famílias, e aquele povo, sempre pronto a voltar-se para qualquer lado, começava a queixar-se de Xavier; muitos portugueses foram até fazer em sua presença insultantes censuras; porém o angélico Padre respondia àqueles insultos com as mais suaves e humildes palavras, acrescentando:
- Eu vos repito, porque tenho a certeza, que a esquadra voltará triunfante.
Decorreram ainda alguns dias e mesmo algumas semanas na desconsoladora incerteza da sorte da expedição! Num dia dos fins de dezembro, um domingo, pregava o santo apóstolo na catedral, entre as nove e as dez da manhã. Pára de repente... os músculos do seu belo rosto contraídos pela dor e pelo sofrimento; os olhos abertos; o olhar elevado e fixo; tinha uma expressão seráfica. Depois de alguns instantes volta-se para o auditório; mas fala-lhes em termos enigmáticos e tudo quanto se pode compreender é que ele vê duas armadas em combate e cujos movimentos e manobras segue com uma agitação que se manifesta em toda a sua pessoa. Finalmente, dirigindo o seu celeste olhar para o crucifixo que tinha diante de si, exclama em voz suplicante:
- “Ó Jesus , Deus da minha alma! Pai de misericórdia! Eu vos rogo humildemente pelos merecimentos da vossa santa Paixão, para que não abandoneis os vossos soldados!”
Depois abaixa a cabeça, apoia-se sobre o púlpito, conserva-se assim, como abismado pela dor, durante alguns momentos, e levantando-se em seguida todo radiante, exclama:
-“Meus irmãos! Jesus Cristo venceu por nós! Neste mesmo momento, os soldados do seu Santo Nome acabam de pôr em derrota a armada inimiga. Fizeram uma carnificina horrorosa! Nós não perdemos senão quatro dos nossos bravos soldados; na sexta-feira próxima recebereis notícias, e pouco depois tornaremos a ver a nossa esquadra.”
O governador e as principais pessoas da cidade não duvidaram da visão do santo Padre; mas não aconteceu o mesmo com as mulheres e mães dos marinheiros e dos soldados. E o suave e caridoso Xavier, que tinha empenho de beneficiar tanto os corações como as almas, reuniu todas aquelas pobres desconsoladas ao meio dia, e repetiu-lhes tudo quanto tinha dito de manhã, consolou-as, fortificou-as por tal modo que elas o deixaram convencidas.
Na sexta-feira imediata o navio comandado por D. Manuel Godinho trouxe a notícia duma brilhante vitória; a esquadra seguiu-o de perto.
O nosso Santo conduziu o povo para o porto a fim de receber e expedição, e tendo o seu crucifixo levantado, fez entoar durante o desembarque cânticos de ações de graças, aos quais todos os vencedores misturavam suas vozes com alegria.
A presença do santo Padre fazia crescer a exaltação geral, porque, se eles atribuíam a iniciativa da guerra ao poder da sua influência, atribuíam igualmente o resultado ao poder de sua oração, e não se poupavam e lho patentear com o testemunho do mais vivo reconhecimento.
Tantos elogios, tantos aplausos, apressaram a partida de Francisco Xavier, que, além disso, já se demorara quatro meses em Malaca. Fez embarcar no Navio de Jorge Álvares três japoneses, dos quais falaremos mais tarde; os trinta jovens que trouxera das Molucas partiram no navio de Gonçalo Fernandes; uns e outros foram com o maior interesse recomendados ao reitor do colégio de Goa, que os esperava.
Xavier, tendo que demorar-se na Costa da Pescaria, com o fim de visitar as suas cristandades, embarcou em um outro navio que se fazia à vela para Cochim.

(Extraído com adaptações, da obra “S. FRANCISCO XAVIER”, de Daurignac. págs. 254/262).


1.    Com espírito de Santo Elias, como São Francisco Xavier conduz os cristãos na guerra contra os infiéis

No episódio a seguir o que se destaca é o espírito de fogo de Santo Elias.
A ilha de Celebes, completamente infiel e muito considerável pela sua extensão e população, atraía o zelo apostólico do nosso Santo; para lá foi, evangelizando em primeiro lugar acidade de Tolo, a mais importante, e bem depressa conseguiu batizar mais de vinte e cinco mil habitantes. Ali, como em toda parte, fez erigir igrejas e levantar cruzes, e deixando as suas instruções para a manutenção da fé, internou-se pela ilha...
Enquanto o apóstolo ampliava o reino de Jesus Cristo nas principais cidades daquela ilha, vieram comunicar-lhe que o rei de Tolo, que recusara renunciar aos seus deuses para viver mais comodamente no gozo de suas paixões, fazia destruir as igrejas e derrubar as cruzes; acrescentava-se que ele obrigava os neófitos a calcar aos pés as cruzes abatidas, e que o terror dominava tudo.
A esta nova, exalta-se o zelo de Xavier. Reúne os seus amigos portugueses, em número tão somente de oito, e diz-lhes:
- Deixaremos impune um tal atentado à Majestade divina? Mereceremos o glorioso título de soldados de Jesus Cristo se não acudirmos em sua defesa, se não soubermos fazer respeitar a sua lei e castigar os revoltosos do seu império? Partamos! Tomemos quatrocentos cristãos indígenas que nos cercam, vamos atacar o rei na sua praça-forte de Tolo, sem nos importar com o número avultado dos seus guerreiros! Que nos importa o número! Deus está por nós; e eu vos prometo a vitória!...
- Marchemos, meu Padre! Respondem todos os portugueses; estamos prontos a dar o nosso sangue e a nossa vida, se necessário for, por uma só de vossas ordens!
O santo apóstolo abraça-os, aperta-os ao coração, assegura-lhes sobretudo a mais brilhante vitória e enche-os de entusiasmo. Prontamente se organiza o pequenino exército, marcha-se sobre Tolo e quando se achavam já a pouca distância, o grande Xavier detém-se e prostra-se para orar. A sua gente também se detém e ora a seu exemplo, feliz e orgulhosa por se ver comandada por um tal chefe. Ouve-se no mesmo instante uma horrorosa detonação... e as chamas do mais violento incêndio cobrem a cidade e a devoram!
Tolo era dominada por uma montanha... Aquela montanha acabava de abrir-se repentinamente, e lançava, com a mais desesperadora impetuosidade, pedras, cinza, a lava incendiária e enxofre inflamado! Os estilhaços das rochas  voam em bocados incandescentes e caem sobre as habitações que abatem e consomem! A terra treme, o solo parece faltar sob os pés dos habitantes que fogem e vão buscar um abrigo nas florestas. O montão de pedras e lava, que não cessa de cair do vulcão, excede bem depressa a altura das muralhas da cidade, onde não fica nem um só indígena!...
Finalmente, cessa o flagelo,  o Padre Xavier e os seus soldados entram na praça e tornam-se facilmente senhores dela. Então os culpados correm a cair aos pés do grande apóstolo, confessa publicamente os seus crimes, obtêm perdão, e a penitência a que se sujeitam prova a sinceridade do seu arrependimento.
Celebes estava conquistada; a fé veio a ser ali viva e ardente; Xavier embarcou para voltar a Termite, com disposição de levar mais longe o nome de Jesus Cristo...

(Extraído de S. FRANCISCO XAVIER, de Daurignac, págs. 238/240)

Narram fato semelhante ao ocorrido em Celebes, ou então o mesmo sendo visto por outros cronistas. Um rei pagão dirigia-se com seu exército a fim de atacar uma localidade cristã, fato que já vinha ocorrendo quando o mesmo destruída tudo a seu redor e matava cruelmente as pobres vítimas indefesas. Correram a São Francisco Xavier pedindo ajuda. Postado a certa altura, viu o Santo ao longe o exército que se aproximava. Rezou um pouco e depois, voltando-se para os cristãos que estavam em sua volta, disse:
- Jesus Cristo disse que quem tem fé pode mover montanhas. Vocês acreditam nisso?
- Sim, responderam todos.
- Então, se temos fé, peçamos àquela montanha que se mova em cima daquele exército e o destrua.
- Montanha, pela fé em Cristo, saia daí e caia sobre aquele exército -disseram todos.
Em seguida a montanha elevou-se no ar e desabou sobre o exército matando todos aqueles soldados e o próprio rei.