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quarta-feira, 26 de julho de 2023

A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL E O FEMINISMO

 


Enquanto a Revolução na política e nos costumes se propagava por golpes e revoltas sangrentas na França por cerca de 100 anos (1789 a 1870), nascia na Inglaterra o que se denominou de “Revolução Industrial”, a qual teve maior desenvolvimento no decorrer do século XIX. A única revolução dita política (depois da revolta anglicana do século XVI) havida naquele país no período foi a ampliação e reforma do Parlamento com a criação da Câmara dos Comuns  (que seria eleita pelo povo) em confronto com a Câmara dos Lordes (nomeada pelo rei). Tendo boas reservas minerais, muito dinheiro e com a mecanização bem sucedida, a Inglaterra tomou a dianteira na disputa pela industrialização. Na primeira fase da chamada “Revolução Industrial” (mais ou menos de 1760 a 1870), o Império Britânico quase não encontrou rival e pôde se consolidar como o principal centro da economia capitalista mundial. 

A Revolução Industrial e a mulher européia

A burguesia mercantilista escolheu a Inglaterra, o “paraíso” dos negócios de então, para aplicar seus altos capitais na “Revolução Industrial”.  Assim, a soldo de tanto dinheiro, surgiram logo novas técnicas e novas fontes de energia para que a idéia daquela Revolução fosse adiante. Em busca de riqueza e fama, tivemos no século XIX uma verdadeira “febre”  de invenções, como a do motor a vapor, dos trens, dos bondes, dos teares mecânicos, etc. Inicialmente, o “front” revolucionário do enriquecimento da burguesia mercantilista do mundo todo era a indústria de tecelagem e algodoeira. Aperfeiçoaram-se as máquinas de cardar, bater, fiar, tecer, todas movidas ainda a vapor. As novas máquinas permitiam produzir mais com menos gente. Desta forma, poder-se-ia contratar mulheres e crianças (mão-de-obra mais barata) em vez dos homens. Temia-se que o desemprego entre os homens causasse algum transtorno social no país, mas nem por isso deixaram de pôr em prática seus planos. A única coisa em que se pensava era que com a redução dos custos haveria mais produção e se poderia criar mais fábricas e gerar novos empregos. Foi isso que deu a famosa “arrancada”  industrial à Inglaterra de então.

Foi seguindo o curso da “Revolução Industrial” que também surgiram as revoltas sindicais, as lutas por direitos de voto, pela “democratização” da política, por menos carga horária dos trabalhadores, e pela liberdade da mulher... Isso porque aquela burguesia, no afã de um rápido enriquecimento, não dava aos seus operários o valor humano que eles mereciam. Utilizava em suas fábricas uma mão-de-obra barata e sem qualquer qualificação, geralmente composta em sua maioria de mulheres e crianças. Lá, os pioneiros dos movimentos que a esquerda chama de “sociais” foram os sindicalistas denominados de “cartistas”: defendiam na Inglaterra a aprovação dos princípios da “Carta do Povo”, através do sufrágio universal (somente masculino ainda), do voto secreto, da renovação anual do Parlamento e de outros princípios democráticos.

 Palácios fascinantes

Como chamar a atenção de investidores de outros países?  Como propagar a toda a sociedade que a “Revolução Industrial” traria prosperidade e felicidade para todos? Pelo fascínio. Em meados do século XIX, idealizou-se uma grande exposição industrial em Londres, destinada a todos os povos da terra, realizada num luxuoso palácio cheio de maravilhosos espelhos de cristais. Dizia-se que o homem encontrava-se perante o “espelho do futuro” ante aqueles fulgurantes espelhos.  Diante de um “chafariz”  de puro cristal, com dez metros de altura, situado no centro do pavilhão principal, a rainha Vitória inaugurou solenemente a feira industrial das nações: lá estavam expostos milhares de artigos e artefatos industriais, teares, guindastes, máquinas agrícolas (especialmente destinadas ao plantio de algodão), em curioso contraste com o luxo dos cristais. Entre os expositores havia estrangeiros, mas os ingleses, é claro, eram maioria.

Os visitantes ficavam fascinados com tanto luxo e deslumbramento, destinados no entanto para acomodar simples “stands” de exposições de máquinas e engenhos mecânicos dos mais variados tipos. O público exclamava admirado que ali havia um palácio de sonhos! Era o futuro fulgurante e maravilhoso que se descortinava por detrás do brilho dos cristais.  Milhares de pessoas, inclusive vindas de outros países, pagaram ingressos para ver aquela maravilha. Lá estavam também banqueiros, comerciantes e industriais (de onde viriam as fortunas para o novo investimento), além de artesãos (simples mão-de-obra ou os que queriam crescer na nova atividade), ricos ou pobres, pois a todos era destinada aquela fascinação. Principalmente mulheres, muitas mulheres, que levavam com elas seus esposos, filhos,etc. Muitos daqueles que foram lá admirar o palácio de cristal, apesar de passar por certa crise financeira pelo desemprego, sentiram-se momentaneamente esquecidos de seus problemas e passaram a sonhar no futuro.  De repente, sentiram-se estar penetrando numa nova era de paz, prosperidade e felicidade... Era o poder do fascínio pela teconologia e pelo progresso industrial.

Alguns anos depois a cena se repete, desta vez em Paris: no ano 1900 (passagem do milênio, quando os homens são tentados pela miragem do futuro risonho e feliz) era inaugurado o “Palácio da Eletricidade”, um suntuoso prédio, feericamente iluminado, que abrigava uma esplendorosa exposição de produtos elétricos, onde se mostrava as novidades de lâmpadas, dínamos, fusíveis, soquetes, interruptores, disjuntores e todos os recentes inventos que faziam da eletricidade o novo “glamour” da humanidade. Um jornal da época comentou: “Sem eletricidade a exposição não passa de uma massa inerte, sem o menor sinal de vida...  um simples toque de dedo no interruptor e o fluido mágico brota. Por toda parte, a alma do Palácio da Eletricidade dá luz e vida a tudo”.   Era a modernidade do progresso tecnológico que encantava a milhões, fato repetido pela TV e pelo computador dos dias de hoje. Naquele tempo, porém, era necessário que os “Palácios”, seja de cristal ou de luz, dessem “glamour” a tais engenhos a fim de levar o fascínio às multidões. No advento da TV, dos jatos de luxo e do computador e do celular, a Revolução não precisa mais de “palácios” , seja de cristal ou de luzes elétricas, pois o fascínio pelo progresso tecnológico já havia sido enclausurado no coração do homem.

O ambiente pós-Revolução Industrial

Lançadas as bases da concepção da Revolução Industrial e vitoriosa esta, principalmente na Europa, ficava no subconsciente das multidões a idéia de que o homem finalmente estava caminhando para resolver vários problemas sociais através do progresso tecnológico e industrial. Era a felicidade baseada no gozo da vida e dos prazeres terrenos. Esta concepção cresceu nas pessoas como um verdadeiro fascínio, mas deixando em aberto muitas das questões sociais, como o problema do trabalho feminino e infantil nas fábricas, a carga máxima de trabalho por dia, os dias de descanso remunerado, o auxílio previdenciário e de saúde, etc. Estas questões sempre foram levantadas pela esquerda, mas só para desviar de seu rumo as verdadeiras soluções, as quais só viriam a ser conhecidas quando a Igreja começou a lançar as chamadas Encíclicas sociais, principalmente a partir do Papa Leão XIII. A esquerda sempre apontava como solução o Estado totalitário, a comunidade de bens e a ditadura do proletariado (havia também as soluções “democráticas”, partidas de grupos ditos capitalistas ou “direitistas”), enquanto a Igreja apontava a sociedade orgânica, sacral e estruturada com base nos princípios cristãos como a verdadeira solução para todos os problemas sociais.

Assim, mesmo sem ainda haver solucionado tais questões na sua vida real, encontramos o início da século XX com toda a Europa nadando na mais estonteante riqueza, onde cidades como Londres, Viena, Berlim e Paris apresentavam um aspecto verdadeiramente paradisíaco em seu traçado urbanístico, em seus palácios exuberantes e em diversas instituições estuantes de vitalidade e progresso tecnológico. O Palácio da Eletricidade fez com que se irradiasse por toda a Europa o encanto pela luz elétrica. Os teatros e as óperas de luxo (agora um luxo cheio de brilho elétrico)  não eram mais exclusividade de Paris. Nem tampouco as belíssimas iluminações elétricas das ruas.

É característica desta época a busca do arrojo tecnológico que fascinasse as multidões, surgindo várias indústrias de peso como a automobilística, a de bondes, de trens e a de navios, culminando com a construção do transatlântico “Titanic”, um modelo de perfeição da técnica, do luxo e de gozo, um desafio que o homem lançava ao seu próprio futuro, afundado por um iceberg na década de 1910.  Era para lá que caminhava a humanidade, isto é, o afundamento, e não a plenitude do gozo desta vida como queriam alguns.

Essa falsa “paz”[1] e uma prosperidade superficial logo levaram os europeus a uma vida cheia de deleites e até de extravagâncias: a última moda se apresentava agora tanto em Paris quanto no Hyde Park de Londres, ou até mesmo nas Américas; o exibicionismo social se mostrava presente também nas calçadas de cidades conservadoras como Viena; foliões de vários países podiam agora ir ao baile de máscaras da Ópera de Paris; o resto da aristocracia havia sido destroçada por Napoleão, mas havia ainda alguns (burgueses “aristocratas”) que participavam de uma vida social mais requintada e isolada, embora com algumas excentricidades, com fins de semana no campo, cavalgadas, caçadas e esportes mais elitizados.  Logo, logo, a época que se eclipsava sob o luxo e a riqueza tomou um nome atraente: “La Belle Époque”.

 Quando a Primeira Grande Guerra explodiu em 1914, ninguém entendeu qual a sua causa, um conflito inexplicável diante de uma Europa rica e “feliz”... Para muitos ainda é inexplicável que tenham se engalfinhado num conflito mundial dezenas de nações “felizes” e ricas, supostamente por causa apenas de um atentado cometido contra um estadista austríaco. Três das grandes dinastias centenárias, que sobreviveram à Revolução Francesa e seus desdobramentos, foram destroçadas após a Guerra: a dos Romanov, na Rússia, a do Kaiser, na Alemanha, e a dos Habsburgo, na Áustria. A Revolução implantaria a ferro e fogo,  neste início de século, a sua terceira fase, a Comunista (cuja ideologia  nascera no século anterior, também em país de maioria protestante, a Alemanha), enquanto de outro lado propagava o sonho adormecedor da felicidade pelo progresso industrial e tecnológico, o qual, aliás, só era acessível naquele tempo aos mais ricos...

Surge a “questão”  feminina

No decorrer da Revolução Industrial a chamada “questão feminina”  havia sido levantada por alguns “pioneiros”, mas ao lado de diversos outros problemas sociais próprios da esquerda, como o trabalho infantil, o direito do voto, etc. Foi nas primeiras décadas do século XX que essa questão foi tomando um aspecto mais peculiar e diferenciado dos demais problemas sociais.

A mulher havia sido incorporada ao contingente de trabalhadores fabris, mas nada se contestou contra a sua presença naquele setor. Isso talvez porque as operárias eram constituídas de pessoas da classe pobre e sem representatividade. Para os ideólogos das chamadas “causas sociais” o mais importante, na época, era propagar a Revolução Industrial, mesmo em prejuízo da formação da mulher. Esta tinha sido virtualmente arrancada de seu lar para exercer um trabalho que, além de ser mais apropriado ao homem quanto ao modo de executá-lo, não o era para a mulher pelo fato de afastá-la do lar e dos filhos. Com o desemprego crescente entre os homens houve vários casos de mulheres que iam trabalhar enquanto os maridos ficavam em casa (como já é comum no mundo moderno).  Não era esta a questão levantada pelas feministas do tempo, mas sim o direito que as mulheres deveriam ter para participar de passeatas, obter melhores salários, votar em seus candidatos e serem mais ativas na política. O feminismo sempre foi um movimento de elite e dirigido a pessoas da alta sociedade.  Aliás, quanto à participação feminina nos parques fabris, ou em qualquer outro trabalho semelhante, mesmo que fosse indigno, era ferreamente defendido como um direito da mulher e não um abuso de sua condição. “Direito”, aliás, só acessível às pobres e utilizado em prol da Revolução Industrial e da emergente burguesia industrial.



[1] A Paz, segundo Santo Agostinho, é a tranqüilidade da ordem.


terça-feira, 8 de março de 2022

AS MULHERES FORAM PIONEIRAS NA EXPANSÃO DO CRISTIANISMO

 


O Apóstolo São Paulo fala sobre as mulheres

“Porém quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher, e Deus a cabeça de Cristo. Todo o homem que faz oração ou que profetiza com a cabeça coberta, desonra a sua cabeça. E toda a mulher, que faz oração ou que profetiza, não tendo coberta a cabeça, desonra a sua cabeça, porque é como se estivesse rapada. Portanto, se a mulher se não cobre, corte o cabelo. E, se é vergonhoso para a mulher cortar ou rapar o cabelo, cubra a sua cabeça.  O homem, na verdade, não deve cobrir a sua cabeça, porque é a imagem e a glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem. De fato, o homem não foi feito da mulher, mas a mulher do homem. E o homem não foi criado por causa da mulher, mas sim a mulher por causa do homem. Por isso a mulher deve trazer sobre a cabeça  (o sinal do) poder por causa dos anjos. Contudo nem o homem existe sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor. Porque, se a mulher foi tirada do homem, também o homem é concebido pela mulher e todas as coisas vêm de Deus. Julgai vós mesmos, é decente que uma mulher faça oração a Deus, não tendo véu?  Não vos ensina a própria natureza que é desonroso para o homem deixar crescer os cabelos? Pelo contrário, é glória para a mulher deixá-los crescer, porque os cabelos foram-lhes dados como véu”.  (I Cor 11, 3-15).

"Do mesmo modo orem também as mulheres em traje honesto, ataviando-se com modéstia e sobriedade, e não com cabelos frisados, nem com ouro, nem pérolas ou vestidos custosos, mas sim como convém a mulheres que fazem profissão de piedade.

"A mulher aprenda, em silêncio, com toda a sujeição. Não permito à mulher que ensine, nem que tenha domínio sobre o homem, mas esteja em silêncio, porque Adão foi formado primeiro, e depois, Eva. Adão não foi seduzido, mas a mulher (é que, sendo) seduzida, prevaricou. Contudo, salvar-se-á pela educação dos filhos, se permanecer na fé, na caridade e na santidade, unidas á modéstia" (I Tim 2, 9-15).

Quem está sem mulher, está cuidando das coisas que são do Senhor, como há de agradar a Deus... E a mulher solteira e virgem cuida das coisas que são do Senhor, para ser santa de corpo e de espírito"  (I Cor 7, 32-34).

 

O apostolado das mulheres nas missões de São Paulo

Não era diferente das palavras como o Apóstolo considerava a presença feminina em seu apostolado. Eis um relato de um respeitado biógrafo de São Paulo:

“Quem haveria de pensar que o Evangelho faria sua entrada na Europa tão calada e ocultamente? Não solenemente como no Areópago ante os filósofos, não dramaticamente como em Chipre ante o homem de Estado, mas em forma de idílio como uma manhã de verão fresca pelo rocio ou como uma deliciosa aurora no Oriente. Estes suaves e contudo vigorosos tons de sentimento introduziu a mulher no Evangelho já no tempo de Jesus. E em Filipos continua ecoando. Quando o Evangelho veio para a Europa, chegou primeiramente para as mulheres, porque os homens não estavam presentes, como também entre os samaritanos foi uma mulher a que Jesus iniciou no mistério do reino de Deus. As mulheres foram as últimas ao pé da cruz, na sepultura, assim as primeiras junto ao sepulcro vazio. Nas tristes histórias de hipocrisias, ódios, perseguições, injúrias, deserções e covardes fugas não encontramos no Evangelho mulher alguma. Os homens, como mensageiros da fé,e missionários e defensores dos interesses religiosos estão, na verdade, mais na luz do reverbero; porém, onde estaria a Europa cristã sem a mulher cristã em casa como mãe, esposa, irmã, como auxiliadora virginal-maternal da miséria de todas as classes? São Paulo teve para este lado da feminilidade uma profunda compreensão e foi o primeiro em empregar a mulher ativamente na missão. Ele aprecia a mulher dotada de gênio, como Priscila que instrui ao douto Apolo. Em qualquer de suas cartas dispensa saudações e reconhecimento para as mulheres. Reconhece os serviços de Cloe em Corinto, de Febe em Cencreas, a quem confia sua carta aos romanos, e o ser pequena mulher a mãe de Rufo que foi também para ele uma mãe. Quando escreve ao rico comerciante Filemon não esquece de saudar sua esposa Apfia. Aprecia especialmente o trabalho da mulher de família e a educação dos filhos, pela qual a mulher adquire o céu; aprecia as filhas virgens de Filipe de Cesarea, dotadas de profecia; seu cuidado se dirige também às boas viúvas, que se destacavam no campo da caridade e por isso eram mantidas pela comunidade (I Tim 5, 3-16). Como profundo conhecedor do gênero humano tem uma olhada para todos os bons lados do caráter feminino. As nobres mulheres de Filipos como santas figuras estão às portas da Europa, como se quisessem recordar a todas suas irmãs desta parte do mundo que as mulheres da Europa têm na Igreja cristã um santo destino, de ser sacerdotisas, às quais se confiou em primeiro lugar o sagrado fogo que fez feliz e grande a nossa parte do mundo.

Mas tampouco devemos esquecer àqueles nobres varões, como Epafrodito, a quem São Paulo chama seu “companheiro de armas, co-militante e colaborador”, que visita o Apóstolo preso em Roma e lhe traz presentes. Também Clemente e Sicigo (se realmente esta última palavra é um nobre mesmo) e muitos outros.estão ao lado daquelas mulheres, e em verdade com tal constância que São Paulo sabe estar escritos seus nomes no livro da vida (Fil. 4, 3)[1]

 



[1] “San Pablo – Heraldo de Cristo” – de Josef Holzner – Editorial Herder, Barcelona, 1956 – págs. 180/185

domingo, 27 de junho de 2021

DOUTRINA DA IGREJA SOBRE O FEMINISMO

 


 

Transcrevemos abaixo a doutrina da Igreja sobre o movimento feminista, exposta de forma ortodoxa e coerente pelo teólogo Pe. Antonio Royo Marin: O feminismo e a emancipação da mulher. “Modernamente se insiste muito no chamado “feminismo e a emancipação da mulher”, à qual se pretende conceder os mesmos direitos que ao varão na ordem individual, familiar, social e econômica. Para orientação do leitor recordamos aqui os princípios fundamentais da doutrina católica em torno desta questão, tomando-os das encíclicas “Casti connubi” e “Quadragésimo anno”, de Sua Santidade o Papa Pio XII.

 1º. – As teorias feministas que tendem a equiparar omnimodamente a mulher com o varão em toda classe de direitos e deveres, inclusive familiares, sociais e econômicos, são inteiramente contrárias ao direito natural e às máximas do Evangelho.  

“Todos os que empanam o brilho da fidelidade e castidade conjugal, como mestres que são do erro, deitam por terra também facilmente a obediência confiada e honesta que há de ter a mulher a seu esposo; e muitos deles se atrevem todavia a dizer, com maior audácia, que é uma indignidade a servidão de um cônjuge para com o outro; que são iguais os direitos de ambos os cônjuges, defendendo presunçosíssimamente que por violar-se estes direitos, por causa da sujeição de um cônjuge ao outro, se há conseguido ou se deve chegar a conseguir uma certa “emancipação” da mulher. Distinguem três classes de emancipação, segundo tenha por objeto o governo da sociedade doméstica, a administração do patrimônio familiar ou a vida da prole, que há que evitar ou extinguir, chamando-lhes com o nome de emancipação social, econômica e fisiológica; fisiológica, porque querem que as mulheres, a seu arbítrio, estejam livres ou se as livres de ônus conjugais ou maternais próprios de uma esposa (emancipação esta que já dissemos suficientemente não ser tal, senão um crime horrendo); econômica, porque pretendem que a mulher possa, ainda sem sabê-lo o marido ou não o querendo, encarregar-se de seus assuntos, dirigi-los e administrá-los fazendo caso omisso do marido, dos filhos e de toda a família; social, finalmente, enquanto apartam a mulher dos cuidados que no lar requerem sua família ou seus filhos, para que possa entregar-se a suas inclinações sem preocupar-se daqueles e dedicar-se a ocupações e negócios ainda que sejam públicos” (Casti n. 45)

 2º. – Este feminismo exorbitado é inteiramente contrário ao direito natural, prejudicial à mulher e altamente nocivo à sociedade.

“Não é esta, sem embargo, a verdadeira emancipação da mulher nem a liberdade digníssima e tão conforme com a razão que compete ao cristão e nobre ofício de esposas; antes bem, é a corrupção do caráter próprio da mulher e de sua dignidade de mãe; é o transtorno de toda a sociedade familiar, com o qual ao marido se lhe priva da esposa; aos filhos, da mãe, e a todo o lar doméstico, da proteção que vigia sempre. Mais ainda: tal liberdade falsa e igualdade antinatural da mulher com o marido torna-se um dano para ela mesma, pois se a mulher, descende da sede verdadeiramente régia a que o Evangelho a tem levantado dentro dos muros do lar, bem pronto cairá na servidão, muito real, ainda que não o pareça, da antiguidade, e se verá reduzida a um mero instrumento nas mãos do homem, como ocorria entre os pagãos”. (Casti n. 46)

  3º. – Sem embargo, o varão e a mulher têm os mesmos direitos naturais inerentes à pessoa humana, com todas as suas conseqüências.

“A igualdade de direitos, que tanto se amplia a se exagera, deve, sem dúvida alguma, admitir-se enquanto corresponde à pessoa e dignidade humanas e nas coisas que se derivam do pacto nupcial e vão anexas ao matrimônio; porque neste campo ambos os cônjuges gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos às mesmas obrigações. No mais há de reinar certa desigualdade e moderação, como o exigem o bem-estar da família e a devida unidade e firmeza da ordem e sociedade doméstica” (Casti n. 47).

 4º. Não há inconveniente em que a mulher suficientemente apta para isso exerça certas profissões liberais que antigamente pareciam reservadas aos homens, tais como as de médico, advogado, etc, sobretudo se podem exercê-la no próprio lar (a de farmacêutica, professora, etc.), ao qual há de atender sempre em primeiro lugar.

“Em casa principalmente, ou em seus arredores, as mães de família podem dedicar-se a seus afazeres sem deixar as atenções do lar. Po-rém é gravíssimo abuso, e com todo o empenho há de ser extirpado, que a mãe, por causa da escassez do salário do pai, se veja obrigada a exercer uma arte lucrativa, deixando abandonados em casa seus peculiares cuidados e trabalhos domésticos, e sobretudo a educação das crianças” (Quadragésimo n. 32).

 5º. Nada se opõe, finalmente, a que a mulher intervenha moderadamente na vida social, concedendo-lhe o direito de voto e até o de exercer cargos públicos (prefeito, deputado, ministro, etc.), com tal que isto não venha em detrimento de suas principais obrigações naturais de esposa e mãe.   

“E se em alguma parte, por razão das mudanças experimentadas nos usos e costumes do comércio humano, devem mudar-se algum tanto as condições sociais e econômicas da mulher casada, compete à autoridade pública acomodar os direitos civis da mulher ás necessidades e exigências destes tempos, tendo sempre em conta o que reclamam a natural e diversa índole do sexo feminino, a pureza dos costumes e o bem comum da família; e isto contando sempre com que fique a salvo a ordem essencial da sociedade doméstica, a qual tem sido estabelecida por autoridade mais excelsa que a humana, isto é, pela divina, não podendo, conseqüentemente, ser modificada nem por leis públicas nem por gostos privados” (Csti n. 48).

 (Teologia Moral para Seglares – Antonio Royo Marin – BAC – vol. I, págs. 788/790)


domingo, 9 de outubro de 2016

VALENTE RESISTÊNCIA DAS MULHERES CATÓLICAS AOS HOLANDESES NO NORDESTE





Os piratas protestantes que invadiram e dominaram o Nordeste brasileiro no século XVII enfrentaram forte resistência de nossas mulheres.
Para fugir da terrível perseguição e das crueldades que os holandeses vinham praticando no litoral do Nordeste, a população se sujeitava a tudo. De Alagoas, da Bahia ou de Pernambuco corriam pelos matagais e serranias multidões de trânsfugas, algumas vezes protegidas pelos nossos guerreiros, com grandes sofrimentos, como relata o Padre Manoel Calado:
"Aqui os tristes ais dos meninos, os suspiros das mães, o desamparo das donzelas descalças, e metidas por a lamas, e passarem os rios com pouca compostura de seus corpos, alheios da honestidade, e recolhimento em que haviam sido criadas (o que sentiam mais que perder as vidas) aqui umas desmaiadas, outras com os pés abertos, porque o descostume de andar não as deixava dar um passo adiante; as pragas que rogavam ao Conde de Banholo (o qual depois que entrou em Pernambuco tudo foi de mal a pior) o ver os amancebados levar a cavalo as mancebas brancas, mulatas e negras, e deixarem ir suas mulheres a pé, e sem saberem parte delas, a fome que todos iam padecendo, o dormirem por os pés das árvores, sem amparo, nem abrigo; não é coisa que se pode escrever, porque muitos dos que o viram com os olhos, como eu, tendo os corações férreos, não se podiam refrear sem derramar grande cópia de lágrimas" 
Em outro episódio, D. Jerônima de Almeida, esposa de Rodrigo de Barros Pimentel (o qual fugira para a Bahia), foi presa em Porto Calvo e levada para Recife por haver agasalhado em sua casa e dado comida a uma tropa de soldados brasileiros que vinham da Bahia em direção de Pernambuco para combater os invasores. Colocaram-na em uma prisão juntamente com seus nove filhos, incomunicável com quem quer que fosse, e, depois de iníquo julgamento, foi condenada a morrer degolada. Sabedoras da notícia, várias mulheres de homens nobres foram até Maurício de Nassau pedir que lhe poupasse a vida. Fazendo-se passar por compassivo, o conde atendeu o pedido das mulheres e deu ordens que D. Jerônima fosse indultada
Quando a situação dos hereges invasores holandeses era quase insustentável, utilizaram-se de mais um artifício diabólico para sobrepujar os nossos. Publicaram um edital, pelo qual ordenavam que "todas as mulheres dos moradores que se haviam retirado com João Fernandes Vieira para os matos, fossem em cinco dias naturais próximo seguintes em busca de seus maridos com seus filhos, e filhas, sob pena de morte, a fogo, e sangue, e perdimento de seus bens, e que passado este termo de cinco dias, senão usaria de clemência, nem piedade com aquelas que tendo seus maridos, irmãos, ou filhos ausentes, se achassem em suas casas". 
Houve grande clamor entre as moradoras de Recife: "Umas se prostravam de joelhos, e com as mãos levantadas ao Céu, e os olhos arrasados em lágrimas, pediam a Deus perdão, e misericórdia, outras com os Rosários da Virgem Maria nas mãos, os passavam uma, e muitas vezes, outras se abraçavam com os inocentes filhinhos, e com soluços, e gemidos se despediam deles, outras caiam desmaiadas em terra sem dar acordo de si, outras que nunca haviam saído de suas casas, se não era no tempo da Quaresma, ou nos dias das festas principais à Igreja, e ainda então arrimadas em pajens, por não caírem; vendo-se neste aperto, e estreitura arremetiam com súbito temor a entrar por entre os matos, e ali se punham aos pés das primeiras árvores que achavam, pedindo a misericórdia a Deus, e a proteção, e amparo à Virgem Maria, e aos Santos, de quem eram mais devotas; porque de outra parte não esperavam que lhes pudesse vir socorro, nem remédio". 
Mais tarde, os holandeses começaram a cumprir suas ameaças. Estavam os insurrectos aquartelados pelas matas do interior pernambucano, sob o comando de João Fernandes Vieira, quando lhes chegou o aviso: já tinham sido levadas prisioneiras a mulher de Francisco Berenguer, D. Antonia Bezerra, a de Antonio Bezerra, D. Isabel de Góis e a de Amaro Lopes de Madeira, D. Luzia de Oliveira. E a notícia dizia que os inimigos estavam em busca de prender outras mulheres. Sabedor disto, levantou-se Fernandes Vieira e gritou para seus homens: "Vamos acudir por nossa honra, e por nossas mulheres, e filhos, morramos na demanda, pois mais vale uma morte honrada, que mil vidas com afronta. Porventura não somos nós Portugueses, filhos, e netos de nossos pais, e avós, que em outro tempo foram assombros do mundo? Que fazemos? Como não caminhamos? ". Tal foi o entusiasmo de sua tropa que, ao grito de "vamos! Vamos!" todos partiram com seu general para dar combate ao inimigo.
Quando estavam a caminho, resolveu Fernandes Vieira descansar numa fazenda, porque chovia muito e estavam todos enlameados. Quando dormia, teve um sonho, no qual lhe aparecia Santo Antonio repreendendo-o de descuidado, "e pouco zeloso do serviço de Deus, e das necessidades, e aflições de seus próximos, e que lhe mandava que se levantasse com pressa, e fosse a buscar o inimigo, porque lhe daria seu favor, e adjutório em paga dos serviços que nas suas confrarias havia feito". 
Ao se acordar, vendo naquele sonho alguma inspiração divina, o comandante mandou acordar toda a tropa e partir imediatamente. Quando chegaram ao acampamento holandês onde as mulheres estavam cativas, que era apenas uma fazenda, as sentinelas que lá restavam disseram que o inimigo já havia saído em direção de Recife com suas presas. Alguns quilômetros adiante o grupo de Fernandes Vieira se encontra com dois sentinelas inimigos, com os quais trocam tiros, matando um deles. Mais adiante estavam os holandeses aquartelados numa fazenda, já prestes a montar de novo, quando ouvem os tiros e voltam para dentro da casa. Neste local houve uma renhida batalha.
Desesperados, colocaram os hereges as três mulheres prisioneiras numa das janelas da casa da fazenda, juntamente com uma criança de quatro meses de nascida nos braços de uma delas, ameaçando matá-las se os portugueses não parassem de atirar. João Fernandes Vieira, sensatamente, mandou suspender o fogo. Teria que haver negociações. Mandou uma pessoa negociar, com a bandeira branca em sinal de paz, mas os holandeses traiçoeiramente mataram o emissário. Cheios de ódio por causa desta traição covarde, os nossos invadem a casa da fazenda, atirando e matando, livrando da morte as três mulheres e a criança e ainda matando todos os holandeses que estavam ali aquartelados. 
Bem diferente era o tratamento que as mulheres prisioneiras tinham nas mãos de João Fernandes Vieira ou dos portugueses, brasileiros ou negros de modo geral. Logo após o episódio acima, tiveram outro entrechoque no lugar chamado Afogados, onde fizeram prisioneiros dois holandeses e uma mulher que andava com eles. Os dois homens foram postos na prisão para serem interrogados, mas a mulher foi remetida a Recife, com um recado de Fernandes Vieira: que estava devolvendo a mulher para a liberdade e de volta para seus amigos, os holandeses, para demonstrar o cavalheirismo e cortesia com que os portugueses sabiam lidar com as mulheres, tratadas com respeito e sem lhes fazer qualquer agravo como os holandeses costumavam fazer com as nossas mulheres. 
João Fernandes Vieira era um rico comerciante de Recife, outrora amigo dos holandeses, que resolveu apoiar o levante popular para expulsar os invasores. Soube este que dois grandes senhores de engenho haviam perdido quase toda sua riqueza na guerra contra os batavos: os senhores Antonio Cavalcanti e Francisco Berenguer de Andrada, que já pensavam em desertar de tão nobre causa. Chamou-os João Fernandes Vieira para um acordo. Tanto Antonio Cavalcanti quanto Francisco Berenguer tinham dois filhos, um casal de cada um. Que fez Fernandes Vieira? Tratou que se casassem os dois filhos homens com as duas filhas mulheres, sendo que ele, Fernandes Vieira, seria o padrinho e lhes daria como dote engenhos e bens que possuía. Com este presente de padrinho os filhos de ambos os senhores de engenho (quase falidos) ficariam ricos. Perante tal oferta, os dois comandantes voltaram com redobrada coragem para o campo de batalha...


terça-feira, 8 de março de 2016

UMA GRANDE REVOLUÇÃO NO MUNDO FEMININO (III)



Concluímos a transcrição do texto de Dr. Plínio sobre a revolução feminista, extraído da obra "Notas Autobiográficas" (Editora Retornarei, págs. 163/192, vol II)

Outros aspectos de uma decadência
Além dessas modas, as senhoras começaram a usar dois novos tipos de chapéu: o canotier[1] e o chapeau cloche[2]. Este último era de feltro, em forma de sino, assumindo exatamente o formato da cabeça. Ambos os chapéus eram simples cuias com pequenas abas, muito diferentes dos chapéus do avant-guerre, os quais eram verdadeiras bandejas onde se representavam os reinos vegetal e animal: jardins zoológicos e botânicos de borracha, com fitas de veludo, cabeças da passarinhos, cachos de cerejas, flores, plumas e algumas figuras mitológicas, o que era passavelmente ridículo e, de fato, não podia durar mais.
Entretanto, quando as damas aderiram à moda dos chapéus canotier e cloche, passaram de um ridículo para o outro.
Elas também deixavam de usar adornos bonitos. Por exemplo, sumiram de repente as aigrettes[3] e também algo que era muito freqüente em grandes recepções: diademas feitos de casco de tartaruga, de uma cor marrom, semelhante ao âmbar. Esse enfeite circundava a cabeça das senhoras e tinha um dispositivo no qual se prendiam penas de garças muito delicadas, o que formava uma espécie de chafariz seco, de mil gotas de água, de um branco éclatant[4]. Era estupendo!
Ao mesmo tempo, o cumprimento às senhoras começou a mudar. Muitas pessoas, que costumavam despedir-se dos conhecidos apenas com um gesto de mão, quando encontravam senhoras idosas – ou simplesmente de idade madura – ainda lhes osculavam a mão para cumprimentá-las, mesmo se fossem da parentela íntima. Nessa nova fase, os mais modernizados, pelo contrário, davam um handshake[5], sacudindo a mão da senhora. Era o respeito às damas, valor da cultura ocidental e européia, que minguava diante do igualitarismo invasor. A senhora tradicional cumprimentava sorrindo e dando a mão a beijar, enquanto a moderna apertava a mão do homem e olhava-o bem nos olhos. A senhora moderna começava a fumar, enquanto muitas damas tradicionais consideravam isso um desdouro. O modo de rir, de vestir, de andar, de falar, de comer, de pensar e de ser começava a variar de matizes, de uma dama para outra.

As jóias falsas
No período anterior à Primeira Guerra Mundial, as senhoras de São Paulo possuíam boas jóias, luxuosas ou modestas, mas não existia propriamente bijuteria.
Era freqüente ver alguma mulher do povo usando grossos brincos de ouro, constituídos por simples argolas. Ela os trouxera de sua terra natal – algum lugar da Itália, de Portugal ou da Espanha – onde já os utilizara enquanto camponesa e chegara ao Brasil com eles. Era a sua pequena jóia.
Entretanto, acabada a guerra, tudo começou a mudar e entrou a indústria das jóias falsas na cidade. Eu assisti a essa “invasão”, a qual foi simultânea à influência norte-americana e teve seus primórdios do seguinte modo:
Houve no século XIX uma difusão de grandes e verdadeiras jóias, maior do que havia sido nos períodos anteriores. O contato com o Oriente e a África, favorecido pelas navegações, tornou mais fácil, por exemplo, para uma lady inglesa de 1850, obter um belo colar de brilhantes, do que o fora no século XVI. O resultado foi que algumas jóias suntuosas tornaram-se mais freqüentes.
Depois, a indústria e o comércio tornaram possíveis as imensas fortunas, cujos proprietários se permitiam tais aquisições: mandavam vir essas pedrarias e enfeitavam-se com elas. Então, os donos das jóias médias sentiram uma espécie de vazio e um desejo de se ornarem com os objetos imponentes e belíssimos, que os recursos da grande classe permitiam. Ora, isso não sendo possível, apareceu o bluff[6]: a jóia industrial.
Ela começou a fazer-se presente no Brasil poucos anos depois da Grande Guerra. Havia em São Paulo uma loja famosa – provavelmente norte-americana – com o nome de uma empresa que comercializava essas jóias em vários países do mundo: a Casa Sloper.
Nela não se vendiam propriamente jóias falsificadas, que dessem a impressão de serem verdadeiras, mas jóias-fantasia, sem a dignidade das jóias reais. Ou seja: bijuteria ordinária, ostensivamente inautêntica e não-preciosa, com aspectos que não existem na natureza.
O colar de “pérolas” marca Sloper, por exemplo, era escandalosamente falso, pois nem sequer visava imitar pérolas autênticas, mas era constituído por enormes bolotas brancas, de um tamanho que nem o Xá da Pérsia possuía... Esses enfeites eram fabricados com matéria muito barata, produzida para dar lucro, e procurando disfarçar pelo volume a ausência de qualidade.
Havia na loja inúmeros objetos desse gênero: colares de uma tonalidade fosca, feitos de pequenas pedras extraídas das Cataratas do Niágara; grandes anéis verdes, de certa massa antecessora do plástico; colossais “brilhantes” e vistosas “ametistas”, elaborados com cacos de vidro, ou ainda objetos de certa matéria amarelada, que lembrava o âmbar sem imitá-lo, e de outra substância vermelha, semelhante a uma bala ordinária lambida por alguma criança...
Uma dama de olhos azuis ou verdes comprava uma bagatela dessas, com cores semelhantes para combinar com sua fisionomia, enfeitava-se para realçar a própria beleza e saía à rua, toda jactanciosa, como se fosse possuidora de um grande adorno. Assim, várias senhoras que não tinham as superjoias riquíssimas vindas da Pérsia ou da Índia, começaram a tomar certo ar de alegria, de despreocupação e de saliência, num estado de espírito em que a ilusão substituía a autenticidade.
Essa indústria das pseudojoias tornava possível a qualquer pessoa cobrir-se de bijuterias baratas, e a jóia autêntica perdeu muito de seu poder de destaque. Então, essas peças falsas começaram a ser usadas também pelas senhoras que possuíam jóias verdadeiras. E, com o passar dos anos, mesmo as mais ricas, se não comprassem jóias de marca Sloper, sentiam-se fora da moda.
As abotoaduras para os homens e meninos, as quais eram, com freqüência, feitas de ouro e pedras preciosas, também passaram a ser “falsificadas” pela Casa Sloper, apresentando enormes “safiras” e “rubis” de aspecto cafajeste.
Lembro-me do choque de algumas poucas senhoras, vendo aparecer essas jóias espalhafatosas na atmosfera da vida social distinta. Apesar de não dizê-lo, elas tinham a seguinte idéia, ditada pelo bom senso: quem faz tal espalhafato quer chamar a atenção sobre si e, no fundo, é capaz de indiscrições, frivolidades, vaidades e traições. Alguém que utilize essas jóias, deu um passo no caminho que as pessoas de má reputação percorrem até o fim.
Certa vez, compareci a um jantar no qual estava presente uma senhora distinta e educada, com uma jóia colossal. Era um colar representando grandes argolas de ouro, com uma espécie de disco feito de alguma matéria de cor creme, contendo uma série de pequenos traços verdes.
Ela parecia contentíssima, não por aquilo ser bonito, mas pelo simples fato de tratar-se de uma novidade. Sentou-se no meio das outras, esperando que todas comentassem o enfeite, mas desde logo ninguém se pronunciou. Eu estava sentado bem em frente a ela e observei o colar, que à primeira vista me pareceu lindo. Conhecendo bem a pessoa, sabia que, pelos seus recursos, não poderia comprar uma jóia que parecia de tão alto valor para os meus olhos de criança inexperiente, mas depois comecei a perceber que o objeto tinha uma cor de gema de ovo muito decepcionante. Em certo momento alguém perguntou a ela:
- Diga-me, onde você comprou esse pendetif[7] tão vistoso?
Ela disse:
- Quanto você acha que paguei por isto?
O interlocutor, para ser amável, atribuiu um alto preço ao pendetif. Ela respondeu:
- Nunca! Comprei-o apenas por tanto na Casa Sloper.
- Mas... Você tem boas jóias! Por que colocou isso no pescoço?
- Ha-ha-ha! Nestes tempos novos não se faz questão de objetos tão caros. Pode-se aplicar o preço da jóia em negócios e utilizar uma destas simples, mas bonita e atraente! Com isso eu fico mais moça e mais elegante do que vocês! Para que gastar dinheiro com as jóias pequenas, quando é possível possuir uma grande? Vocês todos deveriam comprar jóias na Sloper!
Essa senhora se admirava enormemente a si própria, por julgar-se esperta, mas não percebia que ela tinha sido “pato” da Casa Sloper.
Percebi ser aquilo um sintoma de um movimento que tomava conta do mundo, banalizando e vulgarizando tudo, inclusive as pessoas que me eram chegadas. Com indiferença e menosprezo, elas largavam aquilo que na véspera haviam amado...
Certo dia, andando pela Rua Direita, de repente dei com a vitrine dessa loja e parei para examiná-la. Havia ali toda espécie de penduricalhos: tudo vistoso, chamejante e ordinário! Pensei: “Aqui está a praça dos horrores. Soou um gongo na história do pensamento humano! O que há no fundo de tudo isso é igualitarismo! Essa é uma moda pregada por aqueles que desejam acabar com as jóias verdadeiras, para fazer cessar o adorno da riqueza. A partir de agora, o homem ou a senhora não brilharão mais pelas suas jóias, mas por possuírem uma fábrica ou um banco...
E notei que o uso das jóias começava a ser abolido, não para promover a humildade, mas para enfear tudo e banir os reflexos de Deus na sociedade humana.

A possível atitude daquelas que possuíam a chave da situação
Lembro-me de uma cena que presenciei aos onze ou doze anos de idade, em certa casa de São Paulo, cujos donos celebravam as suas bodas de prata.
Compareci com minha irmã à comemoração, que se realizava numa sala de visitas, de bom nível, com bonitos móveis, um piano de cauda e alguns assentos que chamavam de pouf, nos quais habitualmente sentavam-se as pessoas mais jovens e modernizadas. A noite já vinha caindo, as janelas estavam fechadas, havia alguns abajures acesos e reinava uma discreta penumbra naquele ambiente, onde a dona da casa recebia as amigas, conquanto os homens permaneciam no escritório do marido dela.
Entramos falando e dando risadas, como fazem as crianças, e encontramos todas aquelas senhoras vestidas com dignidade, decência e compostura, usando leques, mas sem movimentá-los muito, e conversando baixinho, como convinha num salão de tanta categoria.
Tive uma enorme impressão de tédio e de frustração. Elas próprias não encontravam graça nem davam importância nenhuma à conversa. Estavam lá por mera obrigação, desejando, no fundo, abandonar aquele ambiente conservador e espalhar-se pela rua. Imediatamente veio-me a seguinte idéia: “Se essas senhoras deixassem a dormideira, cessassem de cochichar por trás dos leques e, junto às suas respectivas famílias, falassem contra a modernidade, atacando o que deve ser atacado; se elas se pronunciassem contra o espírito revolucionário que Hollywood espalha pelo mundo; se fizessem isso no Brasil inteiro, elas ainda poderiam dar à sociedade um bom impulso que dificilmente não seria vitorioso, desde que as técnicas adequadas fossem empregadas.
“Na realidade, elas não percebem que possuem a chave da situação e têm as cartas na mão para ganhar a partida, pois, apesar de tudo, se agissem com energia, seriam ouvidas e teriam peso nos acontecimentos.  Mas... haverá um meio de fazer com que elas se movam nesse sentido?”
A minha resposta era a seguinte: “Elas não se movem, pois vêem o mundo da mocidade e da adolescência caminhar, como imenso rebanho sem pastor, na direção de Hollywood. Então, permanecem amedrontadas e deixam o mal avançar”.









[1] Chapéu de palha.
[2] “Chapéu-sino”.
[3] Penachos utilizados para adornar chapéus e capacetes.
[4] Fulgurante.
[5] Aperto de mão.
[6] Engano, logro.
[7] Jóia suspensa a uma corrente.

UMA GRANDE REVOLUÇÃO NO MUNDO FEMININO (II)




Damos continuidade ao  texto publicado no Capítulo VIII de “Notas Autobiográficas”, de Plínio Corrêa de Oliveira  (Vol II, Editora Retornarei, pág. 163/192)



Mais transformações
Em meio a esse ambiente, arrebentou a Primeira Guerra Mundial e a vida social passou por um eclipse, inclusive no Brasil.
Paris entrou no estado de guerra, e cessou o impulso da frivolidade no mundo. Entretanto, durante esse tempo, as senhoras parisienses sofreram uma profunda transformação: elas começaram a dar auxílios em hospitais de sangue, a trabalhar em repartições de guerra no meio dos homens, a dar entrevistas de imprensa, a atravessar ruas e praças a sós, para comprarem objetos triviais e não mais as rendas e sedas, que as senhoras do romantismo costumavam adquirir quando saíam de casa.
Então, as modas se simplificaram enormemente. Antes, todos os vestidos femininos se abriam numa espécie de roda e desciam até os pés, comportando inclusive uma cauda, nos dias de festa. Mas a semimasculinização brusca da mulher durante a guerra tornou necessário dar à saía uma forma de tubo, que, no começo, também descia até os pés, mas depois começou a subir, sob o pretexto de facilitar o acesso aos bondes.
Terminada a guerra, dois fatos acentuaram essa simplificação. Em primeiro lugar, a queda das principais monarquias da Europa ocasionou uma diminuição do prestígio da aristocracia, a qual, por natureza, tendia para as modas não meramente funcionais.
Em segundo lugar, a vitória alcançada pelos Estados Unidos conferiu enorme prestígio ao estilo de vida norte-americano, influenciando profundamente as mentalidades e os costumes. Ora, entre essas novidades estava o modelo da moça norte-americana, a qual era a mesma jovem alegre e moderna do período anterior à guerra, mas multiplicada por si mesma.
O resultado dessas mudanças foi um desprestígio da influência materna ao longo dos anos: as “senhoras-santuário” se tornaram senhoras de administração, e de verdadeiras donas de casa passaram a ser meras governantas...
Isso produziu modificações sensíveis na ordem material.

O penteado das senhoras
Outrora, era considerado bonito para uma senhora possuir uma cabeleira abundante.
Eu conheci uma, a qual se gabava de ter tanto cabelo, que este lhe descia quase até os pés. E ela o enrolava todo por cima da cabeça, enfeitando-o com objetos que representavam passarinhos e flores, o que me dava a impressão de um bazar... Em algumas revistas, era freqüente ver figuras de senhoras do povo, muito honestas, as quais se deixavam fotografar mostrando o cabelo solto, que às vezes lhes chegava até os joelhos ou até os calcanhares.
A arte de pentear consistia em equilibrar todos aqueles cabelos no alto da cabeça. E a profissão dos penteadores era muito apreciada, pois eles estudavam as fisionomias e, de acordo com estas, construíam verdadeiros castelos capilares, para o que era preciso calcular uma série de fatores. As senhoras mudavam muito de penteado, conforme a moda. Discutiam, conversavam, consultavam as revistas que mostravam novos estilos e o tema era objeto de longas conversas.
Ora, durante o conflito mundial, as cabeleiras grandes e solenes começaram a diminuir, pois não era possível para uma senhora andar de um lado para o outro com aquele “edifício” capilar.
E, de repente, pouco depois da guerra, foi lançada na França uma moda de cabelo muito curto, quase à maneira dos homens: uma espécie de balaio cortado, com franjas que desciam até as maçãs do rosto, tendo dois chumaços presos sobre as faces, de maneira a formar duas pontas. O novo estilo consistia em fazer aparecer o cabelo dentro da linha geral do rosto, e não mais como uma construção em cima da cabeça. Esse modo de pentear-se era chamado “à la garçonne”.
Garçon, em Francês, significa rapaz. “À la garçonne” equivaleria a dizer “estilo rapariga”, mas, uma vez que a palavra garçonne não existia – pois foi criada na ocasião para indicar o feminino de garçon -, ela indicava a moça que tomava ares de homem.
Essa moda alterou o perfil psicológico da mulher.
Até então, considerava-se que a senhora deveria ser a mais feminina possível, mas, a partir dessa transformação, passou a ser bem vista a mulher masculinizada. Discretamente, essa moda igualitária dava a idéia de que o verdadeiro encanto não estava em que a mulher fosse muito delicada e o homem muito másculo, mas, pelo contrário, numa espécie de fusão entre o homem e a mulher: ele um tanto afeminado e ela um pouco máscula, constituiriam uma boa harmonia.
Na realidade, era uma grande deformação.

Atitudes da sociedade face à nova moda
Em pouco tempo, a moda “à la garçonne” chegou ao Brasil[1], e lembro-me do escândalo que ela causou inicialmente. As moças foram as primeiras a cortarem seus cabelos, ocasionando nas famílias uma enorme surpresa, e a reação de algumas senhoras:
- Fulana cortou o cabelo?! Não diga! Isso é uma loucura! Não vamos fazer o mesmo!
Mas, logo depois, muitas damas de trinta, quarenta ou cinqüenta anos, com a esperança de parecerem jovens, abandonaram os cabelos compridos que lhes davam ares muito dignos, próprios de mães de família, e passaram a usar a nova moda, perdendo o aspecto de recato e deixando de inspirar aquele respeito que era uma proteção para a própria reputação da pureza delas. Mais tarde, o cabelo “à la garçonne” começou a “despratear” também as matriarcas de cabelos brancos.
Por outro lado, até então, as desigualdades sociais se notavam muito pela diferença dos penteados. Uma pessoa mais modesta tinha menos recursos, menos gosto e menos tempo para pentear-se com esmero, enquanto que alguém de uma classe abastada dispunha desses meios. Entretanto, a moda “à la garçonne” nivelava todos os penteados. Um rubicão[2] tinha sido cruzado, dando a entender que as grandes senhoras não queriam mais ser as respeitáveis aristocratas que outrora foram, mas desejavam apresentar-se como meninotas quaisquer.
Com tudo isso, os próprios contrafortes da instituição da família foram prejudicados.
Além do mais, depois do escândalo inicial apareceram as damas medíocres, que não cortavam seus cabelos, mas davam risadas da surpresa que outros tinham, ao saberem que alguma senhora havia cortado os seus:
- Ha-ha-ha! Não tomemos isso a sério! Não tem nada! Ela? É respeitável, fiel ao marido, modelo de mãe de família! O que vai acontecer? Isso jamais abalará a pureza dela, nem a seriedade de seu lar. Não vamos confundir cabelo com moralidade, pois são coisas completamente diferentes! Não sejamos loucos! Sabe? Vejamos os lados positivos da coisa: ela é moderna, engraçada... Um espírito generoso, que gosta das coisas Novas. Não quer permanecer amarrada na rotina do passado. Deixem-na divertir-se e ir para a frente! É o futuro que entra...
Passou a ser malvisto quem se declarasse contra aquelas que cortavam o cabelo “à la garçonne”.
Então, apesar de não adotarem ainda o novo estilo, essas pessoas medíocres faziam o papel de uma retaguarda para proteger as que o faziam. E, por terem todos os ares de boas senhoras, a proteção delas dava garantia à propagação da moda.
No primeiro e no segundo ano, elas defenderam aquelas que cortavam seus cabelos. No terceiro, quando todo o mundo estava habituado à moda, elas fizeram cortar os seus. No quarto ano, começaram a zombar das que não o tinham feito ainda, organizando a detração contra elas. No quinto ano, todo o elemento feminino das melhores famílias estava penteado “à la garçonne”.
Conheci incontáveis casos de mães de família que cortaram seus cabelos, mas continuaram a ser muito dignas. Entretanto, o exemplo que elas transmitiam para as suas filhas ou netas era no rumo da desagregação da família.
Quem havia contribuído mais, para lançar as senhoras e moças nesse passo perigoso? A mulher medíocre.



[1] Essa moda chegou ao Brasil em 1920.
[2] Obstáculo, dificuldade.

UMA GRANDE REVOLUÇÃO NO MUNDO FEMININO






O movimento feminista data de eras bem remotas, mas teve grande impulso no Brasil no século XIX. Transcrevo abaixo, parte do Capítulo VIII de “Notas Autobiográficas”, de Plínio Corrêa de Oliveira [1], onde o Autor faz profunda análise psicológica sobre as mudanças ocorridas no mundo feminino após o fim da “Bélle Epoque”, isto é, após a Primeira Guerra Mundial.

“Se alguém quisesse estudar a histórias dessas grandes mudanças no Brasil, verificaria que, na realidade, as primeiras transformações tiveram início antes da Primeira Guerra Mundial, quando os eflúvios do movimento feminista europeu chegaram ao País. Houvera então uma primeira quebra na estrutura da sociedade, com enorme importância na evolução do pensamento das classes dirigentes.

Ausência do espírito de Cavalaria
Em via de regra, o homem do século XIX, inclusive o nobre europeu, já havia perdido o espírito da Cavalaria medieval.
Ora, esse espírito constituía uma das mais altas posturas do modo de ser masculino, a qual também se refletia nas senhoras, de algum modo. Ou seja, a dama de outrora não era propriamente uma “cavaleira”, mas, por admirar o ideal da Cavalaria, nela surgia uma nobreza de alma que a elevava acima da própria debilidade feminina, sem tirar-lhe a delicadeza.
Entretanto, no período do romantismo, com a ausência desse ideal, as senhoras manifestaram uma fragilidade excessiva, a qual causou ume espécie de saturação e uma sede do contrário, que a Revolução soube explorar posteriormente através do movimento feminista, procurando completar a figura feminina com certa nota de força que a dama do século XIX evidentemente não possuía.
Então, os impulsionadores desse movimento disseram à mulher do século XX: “Você não percebe que é uma fracalhona, e que alguma coisa falta à impostação de sua alma?”
Muitas se deixaram iludir.
Impossibilitadas de se voltarem para a tradição, porque desta havia sido arrancado um elemento integrante, fundamental, passaram a admirar apenas os homens que realizavam o ideal dos personagens de cinema, apresentando certas formas de heroísmo – já não cavalheiresco, mas cavalar – e parecendo ter algo daquela fortaleza de espírito que os românticos haviam perdido. Em última análise, grande parte da modernização do elemento feminino decorreu de que a admiração à Cavalaria lhe foi tirada.
Assim, a vingança da realidade contra a ablação do espírito de Cavalaria foi a mentalidade cowboy e self-made man para os homens, nos estilos norte-americanos, e para as mulheres, o movimento feminista.

As senhoras da Belle Époque e o prestígio materno
Como se apresentava o elemento feminino da alta sociedade de São Paulo, antes da Guerra de 1914?
Elas ainda possuíam algo da dama romântica do século XIX, para a qual era bonito ser melancólica, dolorida, sofredora, langorosa e um pouco doente; a mulher que afirmasse possuir uma saúde de ferro rebaixar-se-ia imediatamente para a categoria das sentimentalidades vulgares. Inclusive para as moças desse século, ficava bem ter alguma doença do fígado ou aquilo que chamavam de “migrânea”: uma forma elaborada de enxaqueca.
E, como era próprio à Belle Époque, essa indisposição se curava com sais lindos, vindos da França, cheios de valor simbólico. Então, existiam grandes vidros com tampas de cristal facetado – o que exercia sobre mim uma verdadeira fascinação, por ter sido sempre entusiasta das policromias -, os quais continham uma série de quadradinhos, com cores diferentes e virtudes próprias, dentro de um líquido que parecia possuir a síntese transparente de todos aqueles coloridos.
A senhora tirava a tampa com certo esforço, mas com um gesto muito bonito, depositava aquele cristal grosso  e prestigioso sobre uma mesinha e, com um lenço comprido na mão, dizia:
- Estou passando muito mal.
Então, revestida de uma bela robe de chambre de tecido leve, gola grande e mangas largas, ela se deitava num canapé, apoiava um braço no encosto e aspirava os perfumes. Os filhos estremeciam de ternura, o marido de sentia altamente orgulhoso de ter como esposa uma dama tão requintada e a velha avó temia pela vida de sua filha.
Era o rito da doença e da tristeza, o qual fazia parte do prestígio materno. Uma senhora que não tivesse de vez em quando uma “migrânea”, se degradaria algum tanto.
Alguém poderá objetar que, desse modo, uma senhora é pouco útil. Respondo: para os assuntos administrativos, é verdade. Porém ela é útil para certas coisas tidas como inúteis, mas que são, na realidade, de um importância muito maior: os imponderáveis da vida do lar. Compreendo que, com uma mãe assim, a despensa esteja menos guarnecida e as refeições possam padecer um pouco, mas, afinal de contas, uma casa de família não é um restaurante de estação, no qual é preciso almoçar na hora certa, pois o trem vai partir: ela é antes de tudo um santuário.
De fato, essas senhoras tinham algo de bonecas e muito de oco, mas eram verdadeiras e simbólicas “damas-santuário”, que sabiam utilizar-se de maravilhosas técnicas para a produção de prestígio, o que era uma obra-prima da civilização. Um dos melhores benefícios que os pais podem dar aos filhos – ou os superiores aos súditos – é exatamente esse dom do prestígio, pois está na ordem das qualidades morais e incute o senso religioso da vida
.
A dama infeliz, nos estilos do século XIX
Também fazia parte desse rito a tristeza da vida familiar infeliz. Se um matrimônio fosse inteiramente bem sucedido, no estilo do happy end, ele se desmoronaria.
Em geral, as moças eram educadas em colégios de freiras e se casavam eximiamente puras e inocentes. Quando contraíam núpcias, havia uma grande festa com o aspecto clássico do casamento feliz, com grande amor recíproco entre os esposos, e ambos partiam para a lua-de-mel. Ao voltarem, iam morar numa bonita casa, e transcorriam um ou dois anos até ocorrer algum episódio, pelo qual começava para ela a tragédia:
- Meu marido não é que eu pensava! A vida não é mais nada para mim!
Logo ia pedir conselho à freira que a educara – quase sempre francesa -, a qual dizia:
- Mon enfant, Il faut souffrir.[2]
Às vezes, a jovem esposa ia falar com algum padre ou, inclusive, com os próprios pais. E, como o pai era muito esquivo na matéria, ela pedia o apoio dos irmãos:
- Falem com meu marido!
Mas os irmãos eram também esquivos, pois, naquelas cidades pequenas, onde cada um conhecia os costumes de todos, eles não ousavam interpelar o cunhado...
Então, começava a longa vida da esposa abandonada, corretíssima e sublime, mas sempre sofredora e com ar de desilusão. Essa situação, entretanto, era cultivada também de modo bonito. Em certas ocasiões, por exemplo, a família estava reunida e todos conversavam, mas a senhora tinha uma atitude característica: o seu riso era mais discreto e ela mantinha longos silêncios em que permanecia olhando para o infinito, sem divertir-se com nada. Perto dela estava o marido, com cabelos frisados, bigode à la Kaiser, colarinho alto e punho duro. Ele não se incomodava com o drama dela e, pelo contrário, mostrava-se sempre animado e satisfeito.
Era esse o adorno da mulher, até o fim de sua vida. Isso não excluía que, quando o marido morresse, ela vestisse um luto pesado e manifestasse grande tristeza. Quando a alguém a questionava sobre o defunto, ela dizia, influenciada pela educação da freira francesa:
- Coitado! Apesar de tudo, ele era o pai de meus filhos e eu senti muito a sua morte.
Em algumas ocasiões, ele chamava a esposa na última hora e pedia-lhe perdão. Ela o perdoava de todo o coração, e a reconciliação era completa.
Entretanto, nomeio de mil casais existia um ou outro muito bem sucedido. Mesmo assim, quando isso acontecia, a senhora não se dava por feliz e, então, insistia no assunto das doenças e mal-estares nervosos, pois a dama perfeitamente contente e bem-disposta era uma raridade que não quadrava bem com a época. O normal era a posição romântica diante da dor, a qual era considerada bonita no século XIX e prolongou-se de algum modo pelo século XX adentro.

Fragilidade e choramingo
Em minha época de jovem existiam ainda mulheres “retardadas”, no padrão da sofredora do século XIX, cujo sentimentalismo era representado pelas valsas da Áustria e da França. Até o início dos anos 20, inclusive, era apreciado o tipo de moça muito feminina, graciosa, etérea, com uma voz cândida e comparável a uma flor. Assim, eram freqüentes os nomes como Dália, Rosa ou Margarida.
Lembro-me, por exemplo, de alguns trechos de uma canção que se ouvia por toda parte, a qual todo mundo sabia cantar:
“Mimosa, tão delicada e melindrosa...
Tens o perfume de uma rosa...
Mimosa...”[3]
Eu também a aprendi, de tanto ouvi-la, e cantava a “Mimosa” a plenos pulmões, com voz de estentor e sem malícia nenhuma. Entretanto, analisando o estado de espírito que essa música representava, pensava: “Isso parece razoável, pois está de acordo com a natureza feminina, mas, no fundo, de que serve toda essa fragilidade? Uma mulher tão delicada, se tiver uma grande dificuldade na vida, se desfará em poeira, pois ela só sabe choramingar e cantar canções chorosas! É necessário ter força, energia, ênfase e resolução!”

Mulheres inconformadas
Então, a dama dos primórdios do século XX era uma pessoa hesitante entre duas correntes: tinha algo da senhora simbólica do período do romantismo, mas, por outro lado, também possuía aspectos da jovem moderna e esportiva que começava a aparecer, modelada pela Paris do avant-guerre.[4]
Esta não era mais a cidade solene, aristocrática e romântica, mas era a Paris da opereta e do chamado Vaudeville: teatrinho ligeiro com temas engraçados; a Paris em que já haviam entrado o automobilismo, a luz elétrica, o futebol e sobretudo a bicicleta, em especial uma delas, de forma ridícula, com uma roda enorme e outra pequena.
Muitos desses inventos haviam nascido no século XIX, mas eles só começaram a impregnar largamente as mentalidades no começo do século XX. Nesse sentido, a Exposição Mundial de 1900, na própria Paris, havia apresentado mil atrações exóticas, que causaram um interesse fabuloso.
Tudo isso produziu um novo tipo de moça: contente, saudável, atraindo não mais pela beleza e pelo prestígio como a antiga, mas pela leveza, pela movimentação e pelas gargalhadas sonoras. Enquanto as senhoras do romantismo quase não riam, a nova geração se utilizava das grandes risadas como meio de impressionar. Jovens engraçadas, repetindo pequenos ditos e muito mais iniciadas nos problemas da vida, por meio de números condutos: governantas pouco recomendáveis, romances, teatros e cinemas, bem como por conselhos das próprias mães, que não queriam sujeitar as filhas aos desgostos que elas mesmas haviam sofrido. Eram, sobretudo, moças muito pouco dispostas a assumir o papel da esposa infeliz.
Nascia uma inconformidade da mulher em relação a certos estilos de vida do romantismo, nos quais ela ainda vivia: a proibição de sair a sós, o noivado acompanhado por uma velha senhora que chamavam de pau-de-cabeleira e mil outros costumes que não morreram tão depressa, mas que, sobretudo no Brasil, sobreviveram por algum tempo e levaram decênios para desaparecer.
Assim como existe a explosão da bomba atômica e a sua posterior radioatividade, desse modo houve a “explosão” feminista e depois as suas conseqüências, as quais foram se desdobrando indefinidamente.





[1] Vol. II – (Editora Retornarei – páginas 163/192)
[2] Minha filha, é preciso sofrer.
[3] Peça musical composta em 1921 por Leopoldo Fróes.
[4] “Antes da guerra”, período
anterior à Primeira Guerra Mundial.