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quinta-feira, 9 de maio de 2024

O profetismo no Novo Testamento

 




 

Quase todas as profecias do Antigo Testamento visavam o prenúncio da vinda do Messias e preparar o povo para tal eventualidade. Da mesma forma, alguns previram também o fim dos tempos, como Isaías e Daniel. Outros, porém, como Jonas, apenas previram acontecimentos próximos para determinado povo. Com o Novo Testamento, as profecias já passam a prenunciar o fim do mundo (Apocalipse, de São João Evangelista) ou mesmo o futuro da Igreja, Corpo Místico de Cristo, e assim preparar os católicos para os acontecimentos vindouros que ocorrerão com a Igreja.

O Apóstolo São Paulo foi o que mais incentivou o profetismo, tema por ele abordado na primeira Epístola aos Coríntios: “Segui a caridade, aspirai aos dons espirituais e, sobre todos, ao da profecia. A razão é que, o que fala uma língua (desconhecida), não fala aos homens, mas a Deus, porque ninguém o ouve, e pelo espírito fala coisas misteriosas, mas o que profetiza, fala aos homens para sua edificação, exortação e consolação. O que fala uma língua desconhecida, edifica-se a si mesmo; porém, o que profetiza, edifica a Igreja de Deus. Desejo que todos vós tenhais o Dom das línguas; porém, muito mais que profetizeis. De fato, é maior o que profetiza, que o que fala diversas línguas...”   No final, torna São Paulo a exortar o profetismo: “Se alguém crê ser profeta ou (pessoa) espiritual, reconheça que as coisas que eu escrevo são mandamentos do Senhor. Se algum, porém,  o ignorar, será ignorado. Por isso, irmãos, desejai ardentemente o Dom de profecia e não proibais o uso do Dom das línguas...”  (I Cor 14)

Com o surgimento da Igreja Católica, o novo profetismo consiste em coadjuvar o Magistério infalível da mesma Igreja na condução dos fiéis. Assim, o novo profetismo não nasceu na Hierarquia e nem dentro d’Ela. Nunca foi criada uma Ordem, tipo Carmelo, com tal finalidade.  A Providência, por exemplo, inspirou São Pio X a escrever as teses contrárias aos erros modernistas, enunciando-as numa Encíclica em forma de denúncia do tipo profético. Da mesma forma, outras denúncias proféticas foram feitas ao longo da História sem que tenha sido necessário que a Igreja lhes desse o título de “profecias”. As previsões de Fátima são tidas por muitos como profecias, mas não foram enunciadas por um ser humano mas pela própria Mãe de Deus.

São Paulo afirma que a profecia é um sinal para os católicos e não para os infiéis (I Cor. 14, 22). Trata-se de um Dom concedido a todos os fiéis (I Cor. 14, 5), Dom que entretanto é inferior à Caridade e à graça santificante  (I Cor. 13, 8-9). Nesta Epístola São Paulo distingue nove dons ou graças,  que ele chama de carismas, dadas pelo Espírito Santo a todos os fiéis, quais sejam: 1) a palavra de sabedoria, sermo sapientiae, que nos ajuda a tirar das verdades de fé, conclusões que enriquecem o dogma; 2) a palavra de ciência que nos faz utilizar as ciências humanas para explicar as verdades de fé; 3) o Dom da fé; 4) o Dom das curas; 5) o poder de operar milagres;  6) o Dom de profecia, ou o Dom de ensinar em nome de Deus e, se preciso for, confirmar o ensino com predições proféticas; 7) o discernimento dos espíritos; 8) o Dom das línguas, e, 9) o Dom da interpretação.

No início do Cristianismo existiam duas coisas com que os católicos se baseavam para suas condutas: o Símbolo dos Apóstolos (hoje, o Credo) e o “Didaquê”. Constituíam, o primeiro o conjunto de crenças de todo Cristão, e o segundo o conjunto de normas de procedimento. Dando normas para os cristãos assim se referia o “Didaquê” sobre os profetas: “Elegei, pois, inspetores e ministros dignos do Senhor, que sejam homens mansos, desinteressados, verdadeiros e provados, porque também eles administram o ministério dos profetas e mestres. Não os desprezeis, pois, porque eles são os honrados entre vós, juntamente com os profetas e doutores”.

Ágabo, por exemplo, foi um profeta que viveu entre os primeiros cristãos, no tempo dos Apóstolos, ocasião em que predisse uma grande fome (At 11, 28). No império de Cláudio, realmente, grandes fomes assolaram os romanos. Ágabo é um dos pontos de referência para se determinar a cronologia dos Atos dos Apóstolos. Quando, no ano 58, São Paulo andava no caminho entre Cesaréia e Jerusalém, Ágabo tomou-lhe o cinto, amarrou-se mãos e pés, profetizando em seguida que seria daquela forma que São Paulo seria entregue pelos judeus aos pagãos (At 21, 10-11). 

Assim, após a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, o profetismo continuou, não como era no Antigo Testamento, pois agora já havia Ele fundado Sua Igreja para guiar os povos, mas como guia da própria Igreja. Desde que São João Evangelista fez o Apocalipse até nossos dias nunca deixou de existir na Igreja santos que previssem o futuro e alertassem as Autoridades eclesiásticas e o povo em geral. Assim, vários santos tiveram visões ou revelações proféticas, como Santo Agostinho, São Malaquias, São Jerônimo, Santa Catarina de Sena (que chegou a orientar o Papa), São Vicente Ferrer, Santo Odilon, e São Luís Grignion de Montfort . Mais atuais quanto ao tempo, tivemos as revelações proféticas do Beato espanhol Padre Francisco Palau e da polonesa Santa Faustina Kowalska, ambos sagrados por João Paulo II no final do século XX.


segunda-feira, 6 de maio de 2024

O PODER DE REGÊNCIA DADO A UM SANTO TRANSFORMA-O NUM ANJO?

 



A propósito da afirmação de que alguns Anjos do Apocalipse na realidade são Santos da Igreja, Dionísio, o Areopagita, põe a seguinte pergunta: por que a nosso hierarca humano nas Escrituras lhe chamam “anjo do Senhor onipotente? ”O Profeta Malaquias disse: “Porque os lábios dos sacerdotes serão os guardas da ciência; da sua boca se há de aprender a lei, porque ele é o anjo do Senhor dos exércitos”  (Mal 2, 7).  Mais adiante, o Profeta disserta mais longamente sobre isto: “Eis que mando eu o meu anjo, o qual preparará o caminho, etc.” Que anjo será este? Será aquele que “sentar-se-á como um homem que se senta para fundir e refinar a prata; purificará os filhos de Levi”, etc. (Mal 3, 1). Ele está se referindo a São João Batista, o profeta mensageiro que preparou o caminho para o Messias. 

 São Paulo a si mesmo se compara com um Anjo de Deus: “...antes me recebestes como um anjo de Deus...” (Gál 4, 14).  Conclui o Areopagita: “...Não vejo nenhum inconveniente em que as Escrituras chamem “anjo” inclusive a nosso hierarca (bispo). Tem a propriedade de ser, dentro do possível, como os anjos, um mensageiro. Tem, ademais, a missão de imitar, segundo suas possibilidades, o poder revelador dos anjos”. [1]


SÃO JOÃO BATISTA NÃO ERA SOMENTE ANJO, MAS CHEIO DE TODOS OS ATRIBUTOS DOS COROS ANGÉLICOS

 

Eis o que diz a respeito, a Legenda Dourada:

 

“Terceira causa, os costumes de sua vida foram de grande santidade, sobre os quais fala Crisóstomo: “O comportamento de João foi tão perfeito, que todas as outras vidas parecem culposas, da mesma forma que quando se vê uma roupa que parece branca, e ao ser colocada ao lado da neve parece suja, mesmo que não esteja, assim também comparado com João qualquer homem parece imundo”. Há três testemunhas de sua santidade:

Primeiro deles, dado por aqueles que estão acima do Céu, isto é, pelas Pessoas da Trindade.

O Pai chama-o de anjo, conforme Malaquias, 3: “Eis que envio meu anjo, que preparará meu caminho diante de mim”. Ele recebeu o nome de anjo para indicar que exerceu o ministério de todos os anjos”. Exerceu o dos Serafins, porque serafim quer dizer “ardente”, já que eles nos tornam ardentes e queimam mais que outros de amor a Deus. Por isso está dito no Eclesiástico que “Elias elevou-se como um fogo, etc.”, o que se aplica a João que veio com o espírito e a virtude de Elias. Exerceu o ministério dos Querubins, porque querubim quer dizer “plenitude de ciência”, e João é chamado estrela da manhã porque foi o anoitecer da ignorância e o amanhecer da luz da graça. Exerceu o ministério dos Tronos, que têm a missão de julgar, o que João fez com Herodes ao dizer: “Você não pode tomar a mulher de seu irmão” (Mc 6, 18). Exerceu o ministério das Dominações, que nos ensinam a governar, e João era amado por seus inferiores e temido pelos reis. Exerceu o ministério dos Principados, que nos ensinam a  respeitar nossos superiores, e João dizia falando de si próprio: “Quem tem suas origens na terra é da terra, e suas palavras são da terra”, e falando de Cristo acrescentou: “Quem veio do Céu está acima de todos”. Afirmou ainda que: “Não sou digno de desamarrar os cordões de seu calçado” (Jo 3,31; Mt 3,11;  Mc 1, 7; Jo 1,27). Exerceu o ministério das Potências, que são encarregadas de afastar as forças malignas que podem comprometer a santidade, pois ele manteve-as afastadas de nós, estimulando-nos a receber o batismo da penitência. Exerceu o ministério das Virtudes, pelas quais se realizam os milagres, pois o bem-aventurado João realizou muitas maravilhas, como comer mel selvagem e gafanhotos, cobrir-se com pele de camelo e outras semelhantes. Exerceu o ministério dos Arcanjos, revelando mistérios que não se podia alcançar, por exemplo o concernente à nossa redenção, quando disse: “Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira os pecados do mundo”.(Jo 1, 29). Exerceu o ministério dos Anjos, ao anunciar coisas de importância menor, como as concernentes aos costumes, como: “Façam penitência” ou “Não pratiquem violência nem fraude com ninguém”.(Lc 3, 14). 

LEGENDA ÁUREA – VIDAS DE SANTOS – Jacopo de Varazze – Companhia das Letras – 2020, pág, 488


Sentido e significado da palavra Anjo

O Catecismo da Igreja Católica assim se expressa sobre os anjos na questão 329:

“Santo Agostinho diz a respeito deles: “Angelus officii  nomen est, non nature. Quaeris nomen huius naturae, spiritus est; quaeris  officium, angelus est; quaeris officium, angelus est, ex eo quod est, spiritus est, ex eo quod agit, angelus” – Anjo (mensageiro) é designação de encargo, não de natureza. Se perguntares pela designação da natureza, é um espírito; se perguntares pelo encargo, é um anjo: é espírito por aquilo que é, é anjo por aquilo que faz. Por todo o seu ser, os anjos são servidores e mensageiros de Deus. Porque contemplam “constantemente a face de meu Pai que está nos céus” (Mt 18, 10), são “poderosos executores de sua palavra, obedientes ao som de sua palavra” (Sl 103, 20).

A doutrina de Santo Agostinho, que diz que anjo é encargo, baseia-se também no texto de São Paulo aos hebreus: “Acerca dos anjos diz: “Ele faz os seus anjos espíritos, e os seus ministros chamas de fogo”. (Hb 1, 7). Quer dizer, são criados como espíritos e investidos do encargo de ministros, e por isso são anjos. Deste modo, vários enviados divinos, sejam Profetas, sacerdotes ou os próprios espíritos celestes, que alguns tradutores designam com o título de mensageiros e outros de anjos, são anjos não só quanto á natureza mas quanto ao encargo. 

São Vicente Ferrer, o "Anjo do Apocalipse"

São Vicente Ferrer, cognominado de “Anjo do Apocalipse”, teve o seguinte comentário do Dr. Plínio:

“Tenho a impressão de que poucas coisas são tão bonitas na hagiografia quanto o nós situarmos a missão do santo no panorama proposto pela RCR (Revolução e Contra-Revolução). Segundo tal panorama, no século XIV, a Cristandade começava a decair. Era uma decadência eclesiástica tremenda que se atestava pelo fato de haver ao mesmo tempo papas exilados em Avinhão, que estavam sob a férula dos reis de França. E um cisma tremendo: três papas que se combatiam reciprocamente, dos quais, naturalmente, um só era válido. Mas estava de tal maneira a confusão na Cristandade, que para cada pseudo-papa ou papa, havia santos que estavam do seu lado. Os senhores compreendem o que significava, para isso ser possível, a putrefação toda do clero. Mas esta acarretava, por sua vez, como conseqüência, a degenerescência dos fiéis. E era toda a Idade Média que entrava em decomposição, de caráter mais moral do que intelectual; era uma explosão de orgulho e de sensualidade que começava, a qual devia depois gerar os desvios intelectuais que são os erros da Revolução.

Então a Providência manda, muito adequadamente, para essa época, um santo que foi grande na sua Ordem como, por exemplo, foi grande na sua esfera própria, São Tomás de Aquino. Porque se se pode dizer, de um lado, que São Tomás de Aquino foi Doutor Comum, o filósofo dos filósofos, o teólogo dos teólogos, pode-se dizer que como pregador popular – depois dos Apóstolos – ninguém excedeu provavelmente São Vicente Ferrer, nem mesmo, no século XIX, Santo Antônio Maria Claret, que foi um pregador assombroso.

São Vicente Ferrer dizia de si mesmo que era o “Anjo do Apocalipse”, que tinha vindo para anunciar a derrocada da Civilização Cristã e o começo do fim do mundo. E de fato ele lutou enormemente para a moralização dos costumes, lutou para que exatamente essa decadência moral se sustasse”. (Plínio Corrêa de Oliveira - Santo do Dia, 04 de abril de 1966)


O Grande ou Poderoso Monarca, também chamado de “Anjo”

É assim que o Padre Holzhauser se refere a esse personagem:

"Queira Deus que venha o mais cedo possível este poderoso Monarca[2] que deve eliminar as repúblicas, abater as brechas das cidades imperiais e marítimas que não são outra coisa senão ninho de víboras, sufocar os gritos e os sopros desses pregadores e dessas serpentes, que depois de serem humilhados os hereges e os cismáticos, fará cessar todo erro”

Baseia-se no que diz o Apocalipse:

"Depois vi outro anjo forte, que descia do céu, vestido de uma nuvem e com o arco-iris sobre a cabeça, e o seu rosto era como um sol, e os seus pés eram como colunas de fogo; e tinha na sua mão um livrinho aberto; e pôs o pé direito sobre o mar, e o esquerdo sobre a terra, e gritou em alta voz, como um leão que ruge, e depois que gritou, sete trovões fizeram ouvir as vozes (Apoc. 10, 1-3)".

"Este anjo representa o grande monarca que está por vir.

"...São João atribui a este anjo a qualidade especial de ser forte e poderoso. "Eu vi outro anjo pleno de força". Ele será poderoso na guerra e quebrará tudo como um leão. Ele se tornará grandíssimo por suas vitórias e não haverá nada que esteja mais solidamente estabelecido do que o que está baseado sob o trono do seu império. Ele reinará muitos anos, e durante o curso do seu reinado, ele humilhará os hereges e as repúblicas e submeterá todas as nações a seu império e o da Igreja latina. Mais ainda, após ter relegado ao inferno a seita de Maomé, ele destruirá o império turco, e não deixará subsistir senão um pequeno estado sem poder e sem força o qual se manterá, entretanto, até a vinda do filho da perdição, que não temerá o Deus de seus pais, e não dará satisfação a nenhum Deus (Dan. 11,37).

"Eu vi um outro anjo cheio de força e descendo do céu". O profeta diz que esse anjo descerá do céu porque ele nascerá no seio da Igreja católica[3], tomada aqui no sentido do céu, e ele será especialmente enviado de Deus, segundo os decretos da Divina Providência que terá escolhido para consolação e exaltação da Igreja latina, no meio mesmo de sua grande aflição e sua humilhação profunda.

"...Ele terá na mão um livro aberto".  Este pequeno livro simboliza um Concílio geral, que será o maior e mais célebre de todos. O profeta diz: "Este anjo tem este pequeno livro na mão", porque é pela obra e poder deste Monarca que este Concílio será reunido, protegido e chegará a bom termo; e também porque ele empregará todo o seu poder para fazer executar as sentenças e decretos (deste concílio). O Deus do céu o abençoará e colocará todas as coisas em suas mãos e sob seu poder. E está dito que este pequeno livro será aberto, por causa da clareza com a qual este concílio explicará o sentido da Sagrada Escritura e por causa da pureza dos dogmas da Fé que então se proclamará.

“...E ele gritará em alta voz como um leão que ruge”. Este estrondo de voz comparado com o do leão, nos faz compreender o terror imenso que ele inspirará a todos os povos da terra e aos habitantes das ilhas[4].  Pois, quando o leão ruge ele manifesta sua força e todos os outros animais ficam tomados de terror. É por isto que está dito nos provérbios: “Como o rugido do leão, assim o terror do rei” (Prov 20,2).

“Os gritos de sua voz serão também seus editos imperiais, pelos quais ele ordenará de executar em todo o rigor em favor da fé ortodoxa as ordens do Concílio; e seus editos chegarão a todas as nações da terra e às ilhas.

“E após ter gritado, sete trovões fizeram ecoar suas vozes”.  Esses trovões que se farão ouvir a voz deste anjo, serão os murmúrios e os gritos de todos aqueles que quererão resistir à vontade deste Monarca e quererão fulminá-lo, pois levantar-se-á neste tempo uma grande tempestade. Mas porque eles não poderão resistir-lhe e ainda menos fazer-lhe mal, está ordenado a São João de não escrever aquilo que viu nesta circunstância; porque toda esta tempestade será sem efeito. Jesus Cristo quer unicamente prevenir São João em sua qualidade de representante da Igreja, para nos fazer saber que o império deste Monarca e a propagação da verdadeira Fé sobre a Terra, não se obterão sem muito trabalho e sem muita tempestade.  Por isso porque está disto: “E depois que ele gritou, sete trovões ecoaram suas vozes”.  Somente quando o trovão faz ouvir sua voz, é que a faísca não ferirá mais porque a nuvem terá iluminado o ar. Mas a tempestade produzirá um efeito, algumas vezes tão nocivo, segundo as faíscas caiam sobre os homens, sobre os animais, sobre as árvores ou sobre os edifícios. Ora, a tempestade que foi mostrada a São João sob a figura de uma trovoada, era uma tempestade sem outro efeito senão aquele da voz do trovão.

“Sete trovões farão estalar suas vozes”.  Quer dizer que os príncipes e os grandes se insurgirão contra este Monarca e murmurarão. Eles farão ouvir suas vozes na ocasião deste Concílio, para lhe resistir e para fulminar seus decretos; mas porque este Monarca estará sob a proteção de Deus, todos os seus esforços serão vãos e inúteis.

Isto se conforma com São Boaventura, ao comentar outra passagem do Apocalipse, quando diz: “Desta forma, se pode crer com fundamento que Francisco foi prefigurado naquele Anjo que subia do oriente levando impresso o selo de Deus vivo, segundo se descreve na verídica profecia do outro amigo do Esposo: São João, Apóstolo e evangelista. Com efeito, ao abrir-se o sexto selo – disse São João no Apocalipse - ”vi outro Anjo que subia do oriente levando o selo de Deus vivo”. Como São Francisco recebeu os estigmas da Paixão de Cristo, estaria “levando o selo de Deus vivo”.

Há também um simbolismo com relação à nuvem, ao arco-íris, ao rosto como o sol, aos pés como colunas de fogo e ao livrinho na sua mão. O Anjo, ou Varão angélico, estava vestido por uma nuvem, isto é, vinha trazendo aos homens o que as nuvens trazem, chuvas ou tempestades; mas também o estar vestido numa nuvem pode significar que sua presença estava um pouco esmaecida e não percebida pelos homens por causa da nuvem, sua vestimenta. O arco-íris sobre sua cabeça quer dizer que ele é um intercessor entre Deus e os homens, pois o arco-íris significa os armistícios entre Deus e os homens feitos com Noé e outros Patriarcas.  Seu rosto brilha como o sol, querendo significar sua pureza e esplendor como reflexo de Deus. Seus pés são como colunas de fogo porque por onde ele andou pregou a guerra contra o pecado, os demônios e os vícios. Finalmente, o Anjo “que desceu do céu” está trazendo um livrinho na mão, aberto, significando a Doutrina que o Santo andou pregando aos homens, sem nada haver de oculto.[5]

Abandonando o texto da sexta trombeta o Venerável Holzhauser passa a comentar o capítulo 14 do Apocalipse, aquele do sexto sinal, que corresponde, segundo ele, a Sexta Igreja:

“Isto que acaba de ser dito de Jesus Cristo, nesta profecia, pode-se aplicar, de algum modo, por analogia, a este Monarca poderoso do qual São João diz que será semelhante ao Filho do Homem, tendo sobre a cabeça uma coroa de ouro (Apoc. 14,14)”.

Conforme já vimos, São Tomás de Aquino afirma que o termo “Filho do Homem”, como o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo se autoproclamava, significa que era nesta qualidade que Ele julgaria os homens, trata-se portanto de um título de Juiz. Assim, será também com a missão de Juiz dos povos que o Grande Monarca aparecerá, já que ele será “semelhante ao Filho do Homem”.

“Quer dizer que ele será um Grande Monarca, rico e poderoso, e o dominador dos dominadores. Ele vencerá os reis das nações e será cheio da caridade de Deus.

“E tinha em sua mão uma foice cortante”.  (Apoc 14,14). Esta foice que o Grande Monarca terá em sua mão é o grande e forte exército com o qual ele atravessará os reinos e as nações, e as repúblicas e as praças fortes, que ele perpassará de ponta a ponta. Está dito que esta foice é cortante porque ele não empreenderá nenhum combate que não resulte em vitória para suas armas, ou de grandes perdas e grandes carnificinas para o inimigo.

“...E um outro anjo saído do Templo, gritava em alta voz àquele que estava sentado sobre a nuvem: Lançai vossa foice e segai, porque é chegada a hora de segar” (Apoc. 14, 15).  Esta voz é aquela de alguém que exorta com a guerra, veementemente, à colheita da cizânia dos hereges e dos Turcos. Este anjo que sairá do Templo e dirá assim, é o Grande e Santo Pontífice do qual já falei, que Deus suscitará nestes dias. E este Pontífice exortará e engajará este Monarca de empreender esta guerra sagrada. “Jetez votre faulx” (lançai vossa foice), lhe dirá ele, quer dizer, vosso exército poderoso, e cortai, arrasai, erradicai os hereges e os bárbaros.

“E Deus disporá os corações dos soldados de maneira que eles adiram de espírito e de coração à empresa de seu Monarca poderoso...

“E aquele que estava sentado sobre a nuvem lançou sua foice sobre a terra e foi feita a colheita” (Apoc 14, 16).  Todas estas palavras exprimem o feliz sucesso obtido segundo as palavras do Santo Pontífice: “E a Terra foi ceifada”,porque o Grande Monarca exterminará e submeterá a seu poder as nações dos Turcos e dos hereges, e ocupará suas terras.

“E um outro anjo saído do templo que está no céu, tendo também ele mesmo uma aguda foice... ( Apoc. 14, 17).

“Esta foice é um grande exército que os Estados da Igreja e seus aliados, estreita e fortemente unidos reunirão em torno do Grande Monarca. Por isso está dito que este outro anjo sairá de dentro do templo, quer dizer, dos estados da Igreja, cujo templo é figura. “Que está no céu”, quer dizer na Igreja militante, representada aqui pela palavra céu. Aquilo do qual está escrito: “E um outro anjo sairá do templo”, será um grande general em chefe que este Santo Pontífice, do qual já falei, constituirá e designará para comandar este forte exército que empregará em arruinar e aniquilar o poderio dos Turcos e dos hereges. [6]

Segundo o entendimento do Venerável Holzhauser, três grandes personagens surgirão no final do quinto período da Igreja e começo do sexto: o Grande Monarca, o Santo Pontífice e um grande general. Lembremo-nos de que, na regência perfeita, três são aqueles que transmitem o poder régio: um pontífice, um magistrado e um general. O Pontífice para como que selar a aliança entre Deus e os homens; o Magistrado para interpretar o cumprimento das leis divinas e, finalmente, o general para a conquista e adesão dos que vão ser regidos doravante. É natural, pois, que sejam eles, também no mundo atual, os restauradores da regência divina e da Igreja sobre os homens. No Antigo Testamento era mais ou menos assim, havia o cumprimento de um ritual de entronização da regência, às vezes com quatro personagens como os que foram escolhidos para transmitir o trono a Salomão, um rei (Davi que ainda vivia, fazendo o papel de magistrado), um pontífice (Sadoc), um profeta (Natan) e um general (Bananias) (ver I Rs 1, 36-37). 

Então, esse “Grande Monarca” poderia ser uma espécie de “magistrado” das leis divinas, da regência universal, que confunde-se também com a de Juiz, elemento que exerce principal função na regência, que é o ato de julgar.

Alguns Santos e Profetas também chamados de “Anjos”

São João Batista, por exemplo, pode ter sido antevisto nas profecias de São Malaquias como um “Anjo do Senhor” (Mal 3. 1), chamado de mensageiro por São Mateus (Mt 11.10), ou, se desejar, de anjo mensageiro, conforme essa terminologia de Santo Agostinho. Alguns estudiosos dizem o termo “anjo” era utilizado antigamente apenas para designar qualquer mensageiro de Deus, passando a também significar os de natureza espiritual por causa de suas constantes presenças como mensageiros ou enviados.

De onde virá o Grande Monarca?

Nosso Senhor Jesus Cristo apareceu a Afonso Henriques, antes da batalha de Ourique, quando profetizou sobre o futuro de Portugal e de “terras muito remotas”, fato atestado pelo próprio rei numa escritura que se encontra no cartório real do mosteiro de Alcobaça, e cujo teor é o seguinte:

“Eu, Afonso, Rei de Portugal, juro em esta cruz de metal e neste livro dos Santos Evangelhos, em que ponho minhas mãos, que eu, miserável pecador, vi com estes olhos indignos a Nosso Senhor Jesus Cristo estendido na cruz, no modo seguinte: Eu estava com meu exército nas terras de Alentejo, no campo de Ourique, para dar batalha a Ismael e a outros quatro reis mouros que tinham consigo infinitos milhares de homens. E minha gente, temerosa de sua multidão, estava atribulada e triste sobremaneira. Em tanto que publicamente, diziam alguns ser temeridade acometer tal jornada. E eu, enfadado do que ouvia, comecei a cuidar comigo o que faria. E como estivesse na minha tenda um livro em que estava escrito o Testamento Velho e o de Jesus Cristo, abri-o e li nele a vitória de Gedeão, e disse entre mim mesmo: mui bem sabeis Vós, Senhor Jesus Cristo, que por amor vosso tomei sobre mim essa guerra contra vossos adversários. Em vossa mão estás dar a mim e aos meus a fortaleza para vencer esses blasfemadores de vosso nome.

“Ditas essas palavras, adormeci sobre o livro e comecei a sonhar que via um homem velho vir para onde eu estava e que me dizia: Afonso, tem confiança porque vencerás e destruirás esses reis infiéis e desfarás sua potência e o Senhor se te mostrará. Estando nesta visão, chegou João Fernandes de Souza, meu camareiro, dizendo: acordai, senhor meu, porque está aqui um homem velho que vos quer falar. Entre, lhe respondi, se é católico. E tanto que entrou, conheci ser aquele que no sonho vira, o qual me disse: senhor, tende bom coração, vencereis e não sereis vencido. Sois amado do Senhor, porque sem dúvida pôs sobre vós, e sobre vossa geração depois de vossos dias, os olhos de sua misericórdia, até a décima sexta descendência, na qual se diminuirá a sucessão, mas nela assim diminuída, Ele tornará a pôr os olhos e verá.  Ele manda dizer-vos que quando na seguinte noite ouvirdes a campainha de minha ermida, na qual vivo a sessenta e seis anos guardado no meio dos infiéis com o favor do mui alto, saiais fora do real, sem nenhum criado, porque vos quer mostrar sua grande piedade.

“Obedeci e, prostrado em terra, com muita reverência, venerei o embaixador e Quem o mandava. E como posto em oração, aguardo o som, na segunda vela da noite ouvi a campainha, e armado de espada e rodela saí fora dos reais, e subitamente vi à parte direita, contra o nascente, um raio resplandecente indo-se pouco a pouco clareando, cada hora se fazia maior. E pondo de propósito os olhos para aquela parte, vi de repente, no próprio raio, o sinal da Cruz, mais resplandecente que o sol, e um grupo grande de mancebos resplandecentes, os quais creio que seriam os santos anjos. Vendo esta visão, pondo à parte o escudo e a espada, me lancei de bruços e desfeito em lágrimas comecei a rogar pela consolação de meus vassalos, e disse sem nenhum temor:

“A que fim me apareceis, Senhor? Quereis porventura acrescentar fé a quem tem tanta? Melhor é por certo que Vos vejam os inimigos e creiam em Vós que eu, que desde a fonte do batismo Vos conheci por meu Deus verdadeiro, filho da Virgem e do Padre Eterno e assim Vos conheço agora.

“A cruz era de maravilhosa grandeza, levantada da terra quase dez côvados. O Senhor, com tom de voz suave que minhas orelhas indignas ouviram, me disse: Não te apareci deste modo para acrescentar tua fé, mas para fortalecer teu coração neste conflito, e fundar os princípios de teu reino sobre pedra firme. Confia, Afonso, porque não só vencerás esta batalha mas todas as outras em que pelejares contra os inimigos de minha cruz[7]. Acharás tua gente alegre e esforçada para a peleja, e te pedirá que entre na batalha com o título de rei. Não ponhas dúvida, mas tudo quanto te pedirem lhes concede facilmente. Eu sou o fundador e destruidor de reinos e impérios, e quero em ti e em teus descendentes fundar para Mim um império, por cujo meio seja Meu nome publicado entre as nações mais estranhas. E para que teus descendentes conheçam Quem lhes dá o reino, comporás o escudo de tuas armas do preço com que Eu remi o gênero humano, e daquele por que Fui comprado pelos judeus, e ser-Me-á reino santificado, puro na fé e amado da minha piedade.

“Eu, tanto que ouvi estas coisas, prostrado em terra, O adorei dizendo: Por que méritos, Senhor, me mostrais tão grande misericórdia? Ponde, pois, vossos benignos olhos nos sucessores que me prometeis e guardais salva a gente portuguesa. E se acontecer que tenhais contra ela algum castigo aparelhado, executai-o antes em mim e livrai este povo que amo como a um único filho.

“Consentindo nisso, o Senhor me disse:  Não se apartará deles nem de ti, nunca, minha misericórdia, porque por sua vinha tenho aparelhado grandes searas, e a eles escolhidos por meus segadores em terras muito remotas.

“Ditas estas palavras, desapareceu. E eu, cheio de confiança e suavidade, me tornei para o real. E para que isso ficasse na verdade, juro eu, Dom Afonso, pelos Santos Evangelhos de Jesus Cristo tocados com estas mãos. E, portanto, mando aos meus descendentes que para sempre sucederem, que em honra da Cruz e cinco chagas de Jesus Cristo, tragam em seu escudo os cinco escudos partidos em cruz[8], e em cada um deles os trinta dinheiros, e por timbre a serpente de Moisés, por ser figura de Cristo, e este seja o troféu de nossa geração. E se alguém intentar o contrário, seja maldito do Senhor e atormentado no inferno com judas, o traidor.

“Foi feita a presente carta em Coimbra, aos vinte e nove de outubro, era de 1152, eu, el-rei Dom Afonso”. [9]

Nossas origens podem ter sido faladas na Sagrada Escritura

Portugal foi o país que catequizou, cristianizou o nosso Brasil, que fica realmente em “terras muito remotas”. Vejamos abaixo outros textos do Pe. Vieira onde se fala sobre o Brasil como terras profetizadas para um grande futuro da Igreja:

“Destes mesmos fins da terra diz Isaías que há de vir um glorioso restaurador das ruínas do Mundo (por sobrenome o justo) e que seus companheiros e soldados hão de levantar a voz e que seus cavalos (que devem ser os de madeira) hão de rinchar no mar; e conclui o Profeta com dizer que isto é um grande segredo, que ele guarda só para si. As palavras de todo o texto, no capítulo 24, são estas: “Hi levabunt vocem suam, atque laudabunt, cum glorificatus fuerit Dominus hinnient de mari. Propter hoc in doctrinis glorificante Dominum in insulis maris nomen Domini Dei Israel. A finibus terrae laudes audivimus gloriam justi, et dixi: Secretum meum mihi; secretum meum mihi”.[10]  E note-se que convida e convoca o Profeta as doutrinas e as ilhas do mar, para que louvem e glorifiquem a Deus, pelo que há de obrar o justo nos fins da terra. Porque as terras ultramarinas chamam-se propriamente ilhas, ainda que sejam continentes, e os lugares onde se convertem, ensinam e catequizam os gentios (como então se há de fazer geralmente) chamam-se com a mesma propriedade doutrinas: Propter hoc in doctrinis glorificate Dominum in insulis maris nomen Dei Israel. [11]

No livro “História do Futuro” o padre Vieira discorre mais demoradamente sobre a importância do Brasil nas Profecias.  A respeito do texto de Isaías, que diz: “Ai da terra em que ressoa o ruído de asas, que está além dos rios da Etiópia, a qual envia embaixadores por mar e em barcos de junco sobre as águas, de mensageiros velozes, a uma nação dividida e despedaçada; a um povo terrível, o mais terrível de todos, a uma nação que está esperando, e que é calcada aos pés, cuja terra é cortada pelos rios”  (Is 18, 1-2), comenta o padre Vieira:

“Trabalharam sempre muito os intérpretes antigos por acharem a verdadeira explicação e aplicação deste texto; mas não atinaram nem podiam atinar com ela, porque não tiveram notícia nem da terra, nem das gentes de que falava o Profeta.  Os comentadores modernos acertaram em comum com o entendimento da profecia, dizendo que se entende da nova conversão à Fé daquelas terras e gentes também novas, que ultimamente se conheceram no Mundo com o descobrimento dos Antípodas; e notaram alguns com agudeza e propriedade, que isso quer dizer a energia da palavra: ad gentem conculcatam”: “gente pisada dos pés”,  porque os antípodas, que ficaram debaixo de nós, parece que os trazemos debaixo dos pés e que os pisamos; mas chegando mais de perto à gente e terra ou província de que se tende a profecia, também os modernos não acertaram até agora com o sentido próprio, germano e natural dela, e este é o que nós havemos  de descobrir ou escrever aqui, pelo havermos recebido de pessoa douta e versada nas Escrituras, que, havendo visto as gentes, pisado as terras e navegado as águas de que fala este texto, acabou de o entender, e verdadeiramente o entendeu, como veremos e verão melhor os que tiverem lido as exposições antigas e modernas dele.

“Cornélio [a Lápide] teve para si que fala o profeta de Etiópia e do Preste João; mas Etiópia não está além de Etiópia, como diz o texto. Malvenda, com os outros que cita, o entende dos Chinas e Japões...

“Mas esta exposição e a de Mendonça e Rebelo (que entendem o texto geralmente da Índia Oriental), têm contra si tudo o que logo diremos. José da Costa, tão versado nas Escrituras como na geografia e na história natural das Índias Ocidentais, Ludovico Legionense, Tomás Bózio, Árias Montano, Frederico Lúmnio, Martim del Rio e outros dizem (e bem), que falou Isaías da América e Novo Mundo, e se prova fácil e claramente. Porque esta terra que descreve o Profeta está além da Etiópia: trans flumina Aetiopiae: e é terra depois da qual não há outra: ad populum post quem non est alius.  Estes dois sinais tão manifestos só se podem verificar nas Américas, que é a terra que fica da outra banda da Etiópia, e que não tem depois de si outra terra senão o vastíssimo mar do Sul.   Mas porque Isaías nesta sua descrição põe tantos sinais particulares e tantas diferenças individuantes, que claramente estão mostrando que não fala de toda a América ou Mundo Novo em comum, senão de alguma província particular dele; e os autores alegados nos não dizem que província este seja, será necessário que nós o digamos, e isto é o que agora hei de mostrar.

“Digo, primeiramente, que o texto de Isaías se entende do Brasil, porque o Brasil é a terra que diretamente está além da outra banda da Etiópia, como diz o Profeta: quae est trans flumina Aethiopiae, ou como verte e comenta Vatablo: terra, quae est sita ultra Aethiopiae quae Aethiopiae scatet fluminibus, e o hebreu ao pé da letra tem de trans flumina Aethiopiae.  A qual palavra – de trans – como notou Malvenda, é hebraísmo, semelhante ao de nossa língua. Os Hebreus dizem – de trans – e nós dizemos, detrás; e assim é na geografia destas terras, que em respeito de Jerusalém, considerado o círculo que faz o globo terrestre, o Brasil fica imediatamente detrás da Etiópia.

“Diz mais o Profeta que a gente desta terra é terrível: ad populum terribilem; e não pode haver gente mais terrível entre todas as que têm figura humana, que aquela (quais são os Brasis) que não só matam seus inimigos, mas depois de mortos os despedaçam e os comem e os assam, e os cozem a este fim, sendo as próprias mulheres as que guisam e convidam hóspedes a se regalarem com estas inumanas iguarias... Em lugar de gentem conculcatam, lê o Sírio – gentem depilatam: gente sem pêlo; e tais são também os Brasis, que pela maior parte não têm barba, e no peito e pelo corpo têm a pele lisa e sem cabelo, com grande diferença dos Europeus.

“Diz pois o Profeta, que são estes homens uma gente a quem os rios lhe roubaram a sua terra: Cujus diripuerunt flumina terram ejus.  E é admirável a propriedade desta diferença, porque em toda aquela terra, em que todos os rios são infinitos e os maiores e mais caudalosos do Mundo, quase todos os campos estão alagados e cobertos de água doce, não se vendo em muitas jornadas mais que bosques, palmares e arvoredos altíssimos, todos com as raízes e troncos metidos na água, sendo raríssimos os lugares por espaço de cento, duzentas e mais léguas, em que se possa tomar porto, navegando-se sempre por entre árvores espessíssimas de uma e outra parte...

“Continua Isaías a sua descrição, e diz que os habitantes desta província são gente arrancada e despedaçada; e só o Espírito Santo poderá recopilar em duas palavras a história e última fortuna daquela gente.

“...Diz pois Isaías que esta gente de que fala é um povo; Quae mittit in mare legatos et in vasis papyri super aquas: “Que manda de uma parte para outra seus negociantes em vasos de cascas de árvores sobre as águas”.

“Do que temos dito até aqui ficará mais fácil de entender aquele grande enigma do Profeta, que está nas primeiras palavras deste texto: Vae terrae cymbalo alarum;  o qual foi sempre o que maior trabalho deu aos intérpretes e os obrigou a dizerem cousas mui violentas e impróprias, como aqueles que falavam a adivinhar, e não adivinhavam nem podiam. Os Setenta Intérpretes, em lugar de terrae cymbalo alarum, leram terrae navium alis e uma e outra cousa significam as palavras de Isaías; porque os nomes hebreus de que estas versões foram tiradas, têm ambas as significações e querem dizer: Ai da terra que tem navios com asas; ou, ai da terra que tem sinos com asas. Se são sinos, como são navios? E se são navios, como são sinos?

“...Isto suposto, o expositor que mais foi rastejando o sentido verdadeiro que podia ter este enigma, foi Gabriel Palácio, o qual, no comentário literal deste lugar de Isaías, diz assim: Fortasse indicus usus nominis cymbali antiquitas inolevit apud Hebraeos tempore Isaiae:  “Porventura – diz ele – que no tempo de Isaías as embarcações dos Índios se chamariam entre os hebreus sinos”.  E porque não seria antes, digo eu, que se chamassem sinos, ou tomassem nome de sinos as embarcações dos Índios, de que Isaías falava, não porque este nome fosse usado entre os Hebreus, senão entre os mesmos Índios? [12]

Vê-se pelo texto acima que o Grande Monarca, o Restaurador, o Moisés da Lei da Graça, viria de “terras ultramarinas”, isto é, do Brasil. 



[1]  “Obras Completas del Seudo Dionísio Areopagita” – BAC – Madri, 1990 – págs. 167/168.

[2] Como vimos anteriormente, este “poderoso monarca” não será um rei ou soberano de alguma nação, mas um santo com poderes para reger as leis do Universo.

[3] Mais uma imagem simbólica: o anjo é um mensageiro, podendo ser também um homem, um santo, pois somente um ser humano poderá ter nascido no seio da Igreja. A visão pode, também, se referir ao anjo custódio deste santo, mas, geralmente o termo “anjo” nestas profecias refere-se também a algum homem com poderes proféticos e enviado por Deus.

[4] Ilhas, ou habitantes das ilhas, foi uma expressão usada por alguns profetas, como Isaías, sem definir que povos eram estes.  Alguns estudiosos, segundo o Padre Vieira, julgam que se tratava dos povos americanos que, desconhecidos dos povos em geral naquele tempo, no entanto eram conhecidos misteriosamente pelos profetas.

[5] Essa imagem de um “livrinho” pode nos levar à obra mestra de Dr. Plínio, “Revolução e Contra-Revolução”.

[6] “Bénédictions et malédictions – Prophéties de la révelation privée”, de Jean Vaquié, Paris, 3a. Edição revista e ampliada, págs. 47 a 76).

[7] Importante notar que Portugal conseguiu expulsar os mouros de seus territórios (séc. XII) muitos anos do que a Espanha (final do séc. XV).

[8] A partir de então o Rei Afonso mandou colocar nos escudos e bandeira de Portugal as cinco chagas de Cristo, símbolos que até hoje permanecem naquele país, apesar dos governos republicanos e maçons de nossos tempos.

[9] O texto desta escritura acha-se transcrito no livro “A Batalha de Ourique”, de Frei Antonio Brandão, Livraria Civilização Editora, Porto, 1945

[10] Estes levantarão a sua voz e cantarão louvores; soltarão gritos de alegria do lado do mar, quando o Senhor for glorificado. Por esta causa, com as verdadeiras máximas de doutrina, glorificai ao Senhor; nas ilhas do mar (celebrai) o nome do Senhor Deus de Israel. Desde as extremidades da terra nós ouvimos os louvores, a glória do justo. E eu disse: O meu segredo para mim, o meu segredo para mim. (Isaías 24, 14-16)

[11]  “Defesa Perante o Tribunal do Santo Ofício” – Pe. Antonio Vieira – Liv. Progresso Editora – tomo II – pág. 266

[12] “História do Futuro”, - Biblioteca de Autores Portugueses - págs. 215/222).

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

É FALSA PROFECIA PREGAR A PAZ A UM POVO PECADOR

 



Seria autêntica a pregação moderna da paz a um povo que vive mergulhado no pecado e na ofensa a Deus? Vejamos o que diz a Sagrada Escritura.

“Então eu disse: Ah! Ah! Ah!  Senhor Deus, os profetas dizem-lhe: Não vereis espada, e não haverá fome entre vós, mas ele vos dará paz verdadeira neste lugar. E o Senhor disse-me: Esses profetas falsamente vaticinam em meu nome; não os enviei, nem lho mandei, nem lhes falei; tudo o que vos profetizam é uma visão mentirosa, uma adivinhação, impostura, engano do seu coração. Portanto isto diz o Senhor: Acerca dos profetas, que profetizam em meu nome, sem terem sido enviados por mim, dizendo: A espada e a fome não afligirão esta terra; estes profetas hão de perecer à espada e à fome. Os povos, a quem profetizam, serão lançados nas ruas de Jerusalém, vítimas da fome e da espada, e não haverá quem os sepulte, a eles e suas mulheres, a seus filhos e filhas; e derramarei (o castigo) da sua maldade sobre eles”  (Jer 14, 13-16).

 Mentem os profetas que apregoam a paz

“Aos profetas; o meu coração está feito em pedaços dentro de mim mesmo, todos os meus ossos se abalaram, tornei-me como um homem ébrio, como um homem cheio de vinho, contemplando a face do Senhor, e à vista das suas santas palavras. Porque a terra está cheia de adúlteros, porque a terra chora à vista da maldição; secaram-se os campos dos desertos, a sua carreira tornou-se má, a sua fortaleza já não é a mesma. Porque o profeta e o sacerdote se corromperam e na minha casa encontrei os males que eles lá cometeram, diz o Senhor. Por isso o seu caminho será como um caminho escorregadio nas trevas; serão impelidos e cairão nele; porque farei vir sobre eles males no tempo em que eu os visitar, diz o Senhor.

“Nos profetas da Samaria vi extravagância; profetizavam em nome de Baal, seduziam o meu povo, povo de Israel. Aos profetas de Jerusalém vi imitar os adúlteros e ir após a mentira; fortificaram as mãos dos malvados, para que nenhum se convertesse da sua malícia; tornaram-se todos para mim como Sodoma, e os moradores de Jerusalém como Gomorra.  Portanto isto diz o Senhor dos exércitos aos profetas: Eis que os alimentarei com absinto e lhes darei a beber fel; porque dos profetas de Jerusalém é que se derramou a corrupção sobre toda a terra”.

“Isto diz o Senhor dos exércitos: Não queirais ouvir as palavras dos profetas, que vos profetizam e vos enganam; contam as visões do seu coração, e não (a que sai) da boca do Senhor. Dizem àqueles que blasfemam: O Senhor disse: Vós tereis a paz; e todos aqueles que seguem a perversidade do seu coração disseram: Não virá sobre nós mal algum. Mas qual deles assistiu ao conselho do Senhor, viu e ouviu a sua palavra? Quem considerou a sua palavra e a ouviu?  Eis que se levantará o redemoinho  da indignação do Senhor, e a tempestade desencadeada cairá sobre a cabeça dos ímpios.  O furor do Senhor não retrocederá até que efetua e cumpra o desígnio do seu coração; nos últimos dias entendereis o seu desígnio.  Eu não enviava estes profetas e eles corriam; não lhes dizia nada, e eles profetizavam. Se tivessem assistido ao meu conselho, e tivessem feito saber as minhas palavras ao meu povo, eu os teria certamente desviado do seu mau caminho e dos seus tão depravados pensamentos

“...Eu ouvi o que disseram os profetas, que em meu nome profetizam a mentira, e dizem: Tive um sonho, tive um sonho.  Até quando há de durar isto no coração dos profetas que vaticinam a mentira e que profetizam as ilusões do seu coração?...

“Por esta causa eis que venho contra esses profetas, diz o Senhor, que roubam as minhas palavras cada um ao seu vizinho. Eis que venho contra os profetas, diz o Senhor, que tomam em suas línguas estas palavras e dizem: Oráculo do Senhor. Eis que venho contra os profetas que sonham mentiras, diz o Senhor, que as contam e enganam o meu povo com suas mentiras e os seus milagres, não os tendo eu enviado, nem dado ordem alguma a esses (homens),que nenhum bem têm feito a este povo, diz o Senhor”   (Jer 23, 9-32).

“Isto diz o Senhor dos exércitos, o Deus de Israel, a Acab, filho de Colias, e a Sedecias, filho de Massias, que vos profetizam falsamente em meu nome: Eis que os entregarei nas mãos de Nabucodonosor, rei de Babilônia, o qual os mandará matar diante dos vossos olhos. Todo o cativo de Judá, que está em Babilônia, se servirá deles para maldizer, dizendo: O Senhor te trate como tratou Sedecias e Acab, que o rei de Babilônia mandou frigir no fogo, por causa de terem feito loucuras em Israel, e adulterado com as mulheres de seus amigos, e pronunciado falsamente em meu nome palavras que eu lhes não tinha mandado dizer  (Jer 29, 21-23).

“Manda dizer a todos os deportados: Isto diz o Senhor a Semeias, neelamita: Porque vos profetizou Semeias, e eu não o enviei; e ele fez com que vós confiásseis na mentira; portanto isto diz o Senhor: Eis que castigarei Semeias, neelamita, e a sua geração; não haverá dele descendente que viva no meio deste povo, e não verá o bem que eu faço ao meu povo, diz o Senhor, porque profetizou a revolta contra o Senhor”  (Jer 29, 31-32).

“Os teus profetas vaticinaram-te coisas falsas e insensatas, e não te manifestavam a tua iniqüidade, para te excitarem à penitência; mas profetizaram-te falsamente sucessos e a expulsão”.  (Lam 2, 14-15).



sábado, 21 de março de 2020

PREVISÕES MODERNAS MERECEM CREDIBILIDADE COMO PROFÉTICAS?



Está sendo veiculado pela internet que o escritor americano Dean Koontz, romancista de suspense e terror,  escreveu em 1981 o livro “The eyes of darknes (“Os olhos da escuridão”), onde o mesmo cita uma arma biológica que se chama “Wuhan-400”, um micro-organismo desenvolvido num laboratório próximo da cidade de Wuhan, exatamente a mesma onde se originou a pandemia do coronavirus denominada COVID 19. Estão vendo isso como uma previsão dos acontecimentos atuais, visto há 29 anos!
Tornou-se comum no decorrer do século passado e no início deste se ouvir o pronunciamento de algum "especialista" sobre temas da atualidade. Em geral a mídia não dá a tais elementos o título de "profeta", talvez por achá-lo anacrônico. O termo mais comum é o de "guru", filósofo, pensador, analista, cientista, ou simplesmente “especialista” ,etc.
Um exemplo temos no italiano "Toni" (ou Antonio) Negri, tido como filósofo e "o mais debatido pensador da esquerda européia". Trata-se de um criminoso, preso desde 1997, acusado de ter sido o mentor do grupo terrorista "Brigadas Vermelhas" que assassinou o primeiro-ministro Aldo Moro em 1978. Pois bem, tal "pensador"  publicou um livro em 2000, com o título de "Império", no qual o autor diz estabelecer nova terminologia para aquela palavra, pela qual não mais são denominadas as nações que estabelecem o império, mas uma "nova ordem" (diríamos um caos) em que são eliminados os conceitos de nação, fronteira, raça, etnia, povo, etc.
Tal livro foi descrito pelo jornal "New York Times" como a "primeira grande síntese teórica do novo milênio", pois trata da estrutura política que sustenta o chamado mundo globalizado numa organização inteiramente indiferente a nações, fronteiras, povos, raças, etc. Nesta perspectiva, os Estados-nações não têm mais controle sobre movimentos de capital ou lutas sociais. Nesta nova configuração o "império" não tem mais limites e nem se circunscreve a um povo ou país.
No texto o autor insinua que o mundo capitalista ruiria após o comunista, os EUA atacariam os países árabes, que lhe suscitaria maior ódio em todo o mundo e terminaria por causar-lhe uma bancarrota financeira e política. Segundo o autor, os americanos não têm recursos suficientes para manter a guerra contra o Iraque, e isto está sendo feito pelas organizações deste imaginado "império" extra-nacionalista e globalizado...  (v. "Folha de São Paulo", 30.3.2003 - fl. A 26)
Como se sabe, a URSS sucumbiu e caiu o muro de Berlim, símbolo da divisão dos dois mundos, capitalista e comunista. Faltou cair o mundo capitalista, representado pelos EUA, e para tanto teria de haver uma catastrófica recessão.
Vários “profetas” passaram então a prever o que viria depois, que tipos de sociedades os homens construiriam após o fim da "guerra fria” e do suposto fim do comunismo. O americano James Dale Davidson e o inglês William Reesmogg, ambos financistas, publicam o livro “The great reckoning”  (O grande ajuste de contas), onde afirmam que o mundo estaria a caminho de uma grande recessão, uma catástrofe social como poucas já registradas na história. Grandes companhias, bancos e instituições poderosas, vão falir uma após outra. O desemprego será maior do que em qualquer outra época, e os mais privilegiados terão de abandonar as grandes metrópoles em busca de segurança. O uso de certas drogas será legalizado para conter a explosão social, e o islamismo substituirá o marxismo como desafio ideológico. “O Grande ajuste de contas”  prevê, ao final de tudo, um mundo melhor do que o atual para os sobreviventes da catástrofe.
Outro “profeta”  é o francês Pierre Lellouche, conselheiro do ex-prefeito de Paris, Jacques Chirac, especialista em questões estratégicas. Segundo ele, com o fim da “guerra fria”, não prevalecerá uma nova ordem Norte-Sul, mas uma desordem mundial que poderá durar até três décadas. Revoluções nas antigas repúblicas soviéticas, ameaça nuclear de países islâmicos contra a Europa, etc. Enquanto isto, prolifera nos Estados Unidos a construção de residências subterrâneas, dando a impressão a muitos de que o futuro será a volta para as cavernas e ao nomadismo. Tudo isto indica que estaríamos caminhando para o caos.
O jornal “L’Express”, de 13.11.91, publica entrevista de Jacques Séguela, presidente de instituto de pesquisa dos costumes, no qual o mesmo prevê brevemente o fim da chamada “sociedade de consumo”, fruto da ecologia e da preocupação de preservação do meio ambiente.
O grego Cornelius Castoriadis, filósofo radicado na França desde 1945, também faz suas previsões. Seu pensamento está contido nos livros “Socialismo ou Barbárie”, “Os Destinos do Totalitarismo”, “A Instituição Imaginária da Sociedade” e “As Encruzilhadas do Labirinto”, mas pode-se resumir no seguinte: com o agravamento do caos na URSS e no Ocidente, surgirá então um mundo autogovernado de coletividades autônomas. O filósofo disse que há uma minoria que já trabalha neste sentido, e que a palavra-chave é despertar o público da apatia e esperar que cresça a saturação pela sociedade de consumo. Está proclamado que o futuro da humanidade é a autogestão, e isto caminha para as conclusões filosóficas do indigenismo, do autoctonismo, conforme apregoam os estruturalistas.
Depois da segunda guerra contra o Iraque, a mídia deu ênfase ao escritor francês Emmanuel Todd. Ocorre que referido historiador e demógrafo havia publicado um livro na década de 70, "La Chute Finale" (A Queda Final), onde o mesmo previra a previsível ruína do império soviético. Decorridos mais de 30 anos, o Autor publica outra obra: "Após o Império: Ensaio sobre a Decomposição do Sistema Americano", que conquistou a lista dos mais vendidos em vários países europeus, editado em 2002. Seguindo a corrente de "profetas" modernos, ele também prevê a ruína do império econômico dos Estados Unidos.
Emmanuel Todd especializou-se em previsões. Nos anos 90 havia publicado outro livro profético, intitulado "A Ilusão Econômica", onde critica a globalização da economia e a União Européia, prevendo o fracasso desta última. Isto vem lhe aumentando o prestígio como analista seguro de eventos futuros no mundo. (v. "Folha de São Paulo", 13.07.2003).
Assim como existem os que prevêem o futuro da sociedade humana em sua forma política e social, há também aqueles que falam sobre mudanças na própria estrutura genética, como o cientista britânico Martin Rees. Dedicado à astronomia, pertencente à Royal Society e do King's College da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, publicou um livro com o título "Our Final Hour" (Nossa Hora Final). O autor critica no livro os perigos que a alta tecnologia pode causar ao mundo contemporâneo. Se sobrevivermos a nós mesmos e às nossas máquinas cada vez menores e mais perigosas, temos um encontro marcado com um sombrio futuro "pós-humano".  No subtítulo de capa o autor deixa entrever qual o objetivo de seu livro: "Alerta de um cientista: como terror, erro e desastre ambiental ameaçam o futuro da humanidade neste século - na Terra e além".
O maior perigo que o Autor chama a atenção é para a guerra biotecnológica e o que ele chama de "nanotecnologia"  (o que seria o mesmo que pequenas tecnologias ou microtecnologias). Desta forma seria possível se construir armas de pequeno porte tão letais quanto às nucleares instaladas nas ogivas de foguetes. As novas tecnologias poderão concentrar poderes excepcionais não somente em pequenas nações mas até mesmo em um só indivíduo, conduzindo à derrocada da civilização.
Caso o homem consiga suplantar todas estas ameaças e sobreviva, estarão abertas as portas para a transmutação da espécie. A seleção natural daria lugar à manipulação genética artificial. Implantes biônicos conectados ao cérebro humano poderiam, em tese, ampliar as habilidades existentes e até mesmo favorecer novas faculdades. Seriam novas características genéticas que o homem adquiria na era "pós-humanidade", talvez adquiridas até mesmo em colônias espalhadas pelo espaço cósmico, caso a terra fique inabitável.
O Autor resume o início deste processo com a possibilidade de 50%, admitida por ele, de haver ainda neste século uma hecatombe de destruição em massa. ("Folha de São Paulo", 25.05.2003, caderno "Mais!"). 
O pior é que, realmente, muito do que falam tais “profetas” pode acontecer.

Que tipo de profetas são estes?
Muitas outras previsões semelhantes são anunciadas nos dias atuais.  Podemos dar crédito a tais previsões? São profetas de verdade?
A palavra “profeta” vem do grego profétés, (intérprete), e era quem interpretava o que queriam os deuses pagãos e predizia o futuro.
Em sentido lato, profeta (em hebraico nábi), significa também intérprete. Na Bíblia a palavra profeta é empregada para designar o homem que exalta os louvores de Deus e que cumpre uma missão divina de conduzir um povo prevendo-lhe o futuro. De um certo modo, podem ser classificados também como “profetas” aqueles que preveem o futuro por intermédio de meios naturais, como os que anunciam os eclipses e outras coisas naturais. São Tomás discorre sobre a capacidade do homem de prever o futuro pelo seu intelecto, através de causas naturais (Summa Q LXXXVI, Art IV). Esta capacidade, porém, está limitada pelas causas naturais, isto é, somente aquilo que a própria natureza humana naturalmente pode prever. Existe,  portanto, um dom “profético”  dado aos homens de uma maneira natural e um outro de forma milagrosa.
No sentido estrito Profeta era aquele a quem Deus revelava o futuro e lhe confiava a missão de o transmitir aos outros homens. Segundo São Tomás de Aquino a profecia, neste sentido, é uma “previsão certa e o anúncio de coisas futuras, que não podem ser conhecidas pelas causas naturais”.
Os Profetas eram, portanto, intérpretes de Deus, reveladores dos planos divinos quanto ao futuro e tinham a missão de guiar os povos para se converterem e voltarem-se para Deus. A Profecia, neste caso, é um milagre propriamente dito, pois somente Deus conhece os acontecimentos futuros e pode revelá-los aos homens com o objetivo de guia-los. Quais os homens que Deus escolhe para ser seus profetas somente os fatos ocorridos depois que confirmam suas revelações o comprovam.
Mas, os falsos profetas realmente possuem um dom dado por Deus? Sim, pode-se dizer que receberam o dom natural da previsão, muitas vezes utilizado de uma forma errônea. Para se avaliar se uma profecia é autêntica temos que meditar sobre o seu fim, se ela procura guiar o povo em busca de Deus ou não. Se apenas procura exaltar o profeta ou o grupo a qual pertence é uma falsa profecia, embora às vezes acerte as previsões pelo dom natural que possui. .

 Falsos profetas

A falsa profecia provém de um pecado que se origina da magia, dos supersticiosos e visionários gnósticos dos povos pagãos.  Trata-se da intervenção diabólica com intenção de confundir os homens, vem de um espírito maligno especialmente dotado da arte da mentira. Esta intervenção diabólica é contada pelo profeta Miquéias da seguinte forma:
“Eu vi o Senhor sentado sobre o seu trono e todo o exército do céu ao redor dele, à direita e à esquerda. O Senhor disse: Quem enganará Acab, rei de Israel, para que ele marche e pereça em Ramot de Galaad? Um disse uma coisa, outro outra. Mas um espírito maligno adiantou-se, apresentou-se diante do Senhor e disse: Eu o enganarei. O Senhor disse-lhe: de que modo? Ele respondeu: Irei e serei um espírito mentiroso na boca de todos os seus profetas. O Senhor disse: Tu o enganarás e prevalecerás; sai e faze assim” (I Reis 22, 19-23).
O Apóstolo São Paulo o confirma: “Ideo mittet illis Deus operationem erroris, ut credant mendacio” – Por isso enviará Deus a estes o artifício do erro, de sorte que acreditarão na mentira. (2 Tes 2, 10).

Os demônios são incapazes de verdadeiras profecias

Mas, tais profecias não são consideradas verdadeiras, como nos explica Santo Antão:.  
“Igualmente, a respeito das águas do rio, falam a torto e a direito. Tendo constatado chuvas abundantes nas regiões da Etiópia, e vendo que essa é a causa da cheia do rio, antes que a água chegue ao Egito, correm na frente e o dizem. Os homens também o diriam, se pudessem correr como eles. Do mesmo modo como o vigia de Davi, postado em lugar elevado, via mais facilmente que um homem vinha do que quem estava embaixo, e como o corredor anuncia a outros não o que não existe, mas as coisas que estão em via de se realizar e já realizando-se, assim vão anunciar e indicar aos outros coisas futuras, mas é com a única finalidade de enganá-los. Nesse meio tempo, se a providência dispuser outra coisa a respeito das águas e dos viajantes, o que ela pode fazer, os demônios mentiram, e aqueles que neles creram foram enganados.
“Foi assim que se deram as adivinhações dos helenos e que foram enganados outrora pelos demônios, depois a ilusão se acabou. Porque o Senhor veio e reduziu à impotência os demônios com seus artifícios. Por si mesmos nada sabem, mas, semelhante a ladrões, exibem o que veem nos outros. Deve-se dizer que mais conjeturam que preveem. Aliás, quando dizem a verdade, que ninguém os admira muito. Também os médicos, da experiência que têm com os doentes, e tendo em vista a mesma doença em vários, muitas vezes predizem mediante conjetura, em virtude do hábito. Ninguém dirá por isso que predizem mediante inspiração divina, mas mediante a experiência e o hábito. Portanto, quando os demônios falam por conjetura, que ninguém os admire, nem dê atenção ao que dizem. Qual é a utilidade em ficar sabendo por eles as coisas futuras alguns dias antes que se realizem? Qual a necessidade de sabê-las, ainda que possam verdadeiramente conhecê-las? Esse conhecimento não é nenhum instrumento de virtude nem de bons costumes. Ninguém de nós será julgado por não saber essas coisas, e nenhum se torna feliz por tê-las conhecido e por sabê-las. Cada um será julgado a respeito destes pontos: conservou a fé, guardou fielmente os mandamentos?” [1]
Legiões de falsos profetas surgiram no Antigo Testamento. Santo Elias combateu 850 deles de uma só vez, tendo matado 450 adeptos de Baal e deixados vivos outros 400 chamados profetas dos bosques. O termo “profeta”, aqui, pode significar apenas sacerdotes pagãos, mas indica que tinham o mesmo fim profético, isto é, trata-se de pretensos previdentes e orientadores do povo. Estes, no entanto, foram vencidos e mortos pelo profeta Jeú.  (I Reis 18,19 e II Reis 10, 24). Diz São Jerônimo que havia entre os hebreus sacerdotes com um carisma especial, o privilégio de poder distinguir os profetas verdadeiros dos falsos, reconhecendo se era o Espírito Divino, o diabólico ou o humano que os inspirava. Tratava-se de um dom que lhes permitia perscrutar o íntimo de tais profetas, um alto discernimento dos espíritos.
No entanto, tais profetas eram denunciados constantemente pelos Profetas verdadeiros:
“Os depositários da lei não me conheceram, os pastores prevaricaram contra mim, os profetas profetizaram em nome de Baal e seguiram os ídolos” (Jer 2, 8)
“Os profetas profetizaram a mentira, e os sacerdotes aplaudiram-nos com as suas mãos; e o meu povo amou estas coisas. Que castigo não virá, pois, sobre esta gente no fim de tudo isto?” (Jer 5, 31).

BALAÃO, EXEMPLO DE UM FALSO PROFETA QUE FAZ PREVISÕES CERTAS

Nos tempos em que Moisés ainda andava com o povo hebreu em busca da Palestina, encontraram-se, ele e seu povo, com Balaão. Tratava-se de um falso profeta, sacerdote de Baal, que foi chamado por Balac, rei dos madianitas, a fim de amaldiçoar o povo hebreu, mas, por intervenção angélica, inverteu a maldição em bênção e tornou-se um profeta autêntico, chegando a profetizar até mesmo a vinda do Messias. O Anjo de Deus apareceu diversas vezes à Balaão, o que indica que sobre este homem, apesar de seu coração duro, Deus tinha desígnios proféticos extraordinários.
Após receber os embaixadores do rei Balac, respondeu Balaão: “Ficai aqui esta noite e eu vos responderei tudo o que o Senhor me disser. Estando eles na casa de Balaão, veio Deus e disse-lhe”. Quer dizer, Balaão já vinha tendo aparições angélicas, pois do contrário não teria dito “eu vos responderei tudo o que o Senhor me disser”. Depois, através de um Anjo, num diálogo que demonstra certa intimidade, Deus disse-lhe: “Que querem estes homens que estão junto de ti?”. Balaão conta para o Anjo o motivo daquela embaixada, ao que o Anjo responde: “Não vás com eles, nem amaldiçoes o povo, porque é bendito”. Ao levantar-se, pela manhã, Balaão conta aos embaixadores de Balac a resposta do Senhor: “Tornai para a vossa terra, porque o Senhor me proibiu ir convosco”.  Pela resposta vê-se que Balaão ainda era obediente a Deus.
Os embaixadores voltaram para Balac e lhe informaram que o profeta não aceitou lançar a maldição sobre o povo de Israel. O rei, teimoso, manda novo grupo de embaixadores, desta vez mais numeroso. Ao receber a nova embaixada, Balaão responde: “Ainda que Balac me desse a sua casa cheia de prata e de ouro eu não poderei alterar a palavra do Senhor meu Deus, para dizer de mais ou de menos. Rogo-vos que fiqueis aqui ainda esta noite, para que eu possa saber o que é que o Senhor me responderá de novo”. Como se vê, Balaão mantém-se firme na obediência a Deus e, educadamente, manda os embaixadores esperar para ouvirem o que o Senhor tem a dizer. Mas Deus tinha seus desígnios e responde a Balaão: “Se estes homens te vieram chamar, levanta-te e vai com eles, mas com a condição de que faças o que eu te mandar”.  O profeta, logo cedo, manda preparar sua jumenta e diz que vai seguir os embaixadores até onde o rei Balac o chamava.
Alguma coisa saiu errada, pois Deus logo irou-se. “Mas Deus irou-se. E o Anjo do Senhor pôs-se no caminho diante de Balaão, que ia montado na jumenta, e tinha consigo dois criados. A jumenta, vendo o Anjo que estava no caminho com uma espada desembainhada, afastou-se do caminho e ia pelo campo. Como Balaão a fustigasse e a quisesse fazer voltar à estrada, o Anjo pôs-se numa passagem estreita entre dois muros, com que estavam cercadas as vinhas. A jumenta, vendo-o, coseu-se com a parede e apertou o pé do que ia montado nela. Porém ele tornou a fustigá-la.  Mas o Anjo, passando a um lugar ainda mais apertado, onde não era possível desviar-se nem para a direita nem para a esquerda, parou diante. A jumenta, vendo o Anjo parado, caiu debaixo dos pés do que ia montado, o qual irado a fustigava mais fortemente com uma vara pelas ilhargas. O Senhor abriu a boca da jumenta e ela disse: Que fiz eu? Por que me feres? Esta é já a terceira vez! Balaão respondeu: Porque tu o mereceste, e me escarneceste; oh! Se eu tivesse uma espada para te matar! A jumenta disse: Acaso não sou eu a tua besta, em que tu sempre costumaste cavalgar até hoje? Dize-me se te fiz jamais coisa semelhante. E ele respondeu-lhe: Jamais.
“De repente abriu o Senhor os olhos de Balaão, e ele viu o Anjo que estava no caminho com a espada desembainhada, e, prostrado por terra, o adorou. E o Anjo disse-lhe: Por que castigas tu pela terceira vez a tua jumenta? Eu vim opor-me a ti, porque o teu caminho é perverso e contrário a mim; e se a jumenta se não tivesse desviado do caminho, cedendo o lugar a quem se opunha (à tua passagem), eu ter-te-ia matado, e ela ficaria viva. Balaão respondeu: Eu pequei, não sabendo que tu te opunhas a mim, mas agora, se não te apraz que eu vá, voltarei. Disse-lhe o Anjo: Vai com estes, mas vê, não digas senão o que eu te mandar. Ele, pois, foi com os príncipes”  (Num 22, 20-35).
Mais uma vez fica demonstrado, pelo texto acima, que o Anjo mantinha alguma familiaridade com o profeta.  Finalmente, Balaão chega até o lugar onde estava Balac. Manda que o rei construa sete altares num alto onde Baal era cuiltuado, para ali fazer sacrifícios a Deus. Em seguida, o sacerdote se afasta e diz que vai ver se Deus virá a seu encontro, o que de fato ocorre: “Balaão disse-lhe: Eu levantei sete altares, e pus um novilho e um carneiro sobre cada um. O Senhor pôs a palavra na sua boca e disse: Tornara para Balac, e dize-lhe isto e isto”. Mas Balaão, sacerdote de Baal, que havia sido chamado para amaldiçoar o povo hebreu, por intervenção angélica muda tudo e, na hora e na presença de todos abençoa aquele povo por inspiração divina. Após a bênção, Balaão profetizou a vinda do Messias:
“Eu verei, mas não agora; eu o contemplarei, mas não de perto; nascerá uma estrela de Jacó, levantar-se-á uma vara de Israel, ferirá os capitães de Moab e destruirá todos os filhos de Set. E a Iduméia será sua possessão; a herança de Seir passará para os seus inimigos; mas Israel procederá valorosamente. De Jacó sairá um dominador, que arruinará os restos da cidade” (Num 24, 17-19).
Mesmo tendo abençoado o povo hebreu e profetizado a vinda do Messias, Balaão não escapou dos castigos divinos, pois tudo indica que ele prevaricou e promoveu ou inspirou o culto pagão de Fegor, não se converteu e foi morto pelos soldados de Moisés: “mataram também com a espada a Balaão, filho de Boer” (Num 31, 8). Quando os hebreus chegaram ao acampamento e deram conta a Moisés do resultado da carnificina, este os repreendeu desta forma: “Por que poupastes as mulheres? Não são elas que, por sugestão de Balaão, seduziram os filhos de Israel e vos fizeram prevaricar contra o Senhor com o pecado de Fegor, pelo qual também o povo foi castigado?” (Num 31, 15-16).
Segundo a vidente Anna Catharina Emmerich, a profecia de Balaão ficou muito conhecida entre o povo de onde se originaram os Reis Magos:
“Os antepassados dos três Reis Magos descendiam de Jó, que outrora vivera no Cáucaso. Um discípulo de Balaão anunciara ali a profecia deste, de que aparecia uma estrela de Jacó. Essa profecia achou larga aceitação. Construiu-se uma torre alta, numa montanha. Muitos sábios e astrônomos viveram ali alternadamente; tudo que notavam nos astros, escreviam e ensinavam a todos”. (‘Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus” – Anna Catharina Emmerich – Editora Mir, São Paulo – 1999 – pág. 46).

CAIFÁS

Caifás pode ser considerado um falso profeta que previu o martírio de Jesus, embora sem o desejar como foi o caso de Balaão.
Quando se fez necessário a prisão de Jesus Cristo, Caifás afirmou aos judeus reunidos em conselho: "Convém que um só homem morra pelo povo"  (Jo 18, 14). Sem querer, aquele ímpio pontífice pronunciou uma frase profética: realmente era necessário que um só homem, o Homem-Deus, morresse como vítima expiatória para libertar os homens do pecado e abrir as portas do céu. Que queria ele dizer ele com a expressão "morrer pelo povo"? Ora, é claro que Caifás não acreditava que Jesus Cristo fosse capaz de se oferecer em sacrifício do povo judeu, libertando-o materialmente do jugo romano. Se era esta a intenção ao pronunciar estas palavras, num plano meramente humano e provinciano, não se compreende como isto seria possível.
Mas, poderia ser que o pontífice estivesse pensando de outra forma. Isto é, que para agradar aos seus senhores romanos poderiam oferecer um homem para ser castigado como revoltoso, mas um falso revoltoso a fim de encobrir o verdadeiro. Entregue ao castigo este homem, os romanos os deixariam em paz. Mas, se fosse assim porque não entregar então Barrabás? Será que este seria o verdadeiro revolucionário que lutava contra Roma e que os membros do Sinédrio queriam deixar a salvo? Para quem ver as coisas no plano meramente natural, funcionam desta forma.
No entanto, não foi bem assim que dispôs a Divina Providência. Era necessário que um só homem, Nosso Senhor Jesus Cristo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo Encarnado, morresse e comprasse com o seu sangue a salvação de toda a Humanidade. Não há profecia mais importante do que esta, dita, saída no entanto da boca de um homem maldito e inimigo de Deus...

Nosso Senhor nos preveniu contra os falsos profetas

“...Vede que ninguém vos engane. Porque virão muitos em meu nome, dizendo: eu sou o Cristo, e seduzirão muitos. Porque ouvireis falar de guerras e de rumores de guerras. Olhai não vos turbeis: porque importa que estas coisas aconteçam, mas não é ainda o fim. Porque se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, pestilências e terremotos em diversos lugares. Todas estas coisas são o princípio das dores. Então sereis sujeitos às tribulações e vos matarão, e sereis odiados por todas as gentes por causa do meu nome. E muitos se escandalizarão, e uns aos outros se entregarão e se odiarão. Levantar-se-ão muitos falsos profetas, e seduzirão a muitos. Por causa de se multiplicar a iniqüidade, se resfriará a caridade de muitos. Mas o que perseverar até o fim, este será salvo. Será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, em testemunho de todas as gentes; e então chegará o fim”.  (Mat. 24, 4-14).
Nosso Senhor profetiza neste discurso que haverão no futuro falsos profetas, e não só isto, mas “muitos falsos profetas”,  indicando com isto que a época do profetismo voltaria para a Igreja. Sempre que os verdadeiros profetas surgem, inspirados por Deus, os falsos profetas aparecem em profusão para atrapalhar e confundir os fiéis. No Antigo Testamento, os falsos profetas atuavam e às vezes profetizavam coisas verdadeiras, como foi o caso de Balaão, que não era profeta de Deus e profetizou coisas verdadeiros sobre os judeus. Outros, Deus permite que saibam algo sobre o futuro e o profetizem ao povo, com isto criando confusão e servindo de prova aos fiéis. Daí ser necessário o “discernimento dos espíritos” para aplicar os critérios acima descritos e com isto se identificar os verdadeiros profetas.
“E se não se abreviarem aqueles dias, não se salvaria pessoa alguma; porém, serão abreviados aqueles dias em atenção aos escolhidos. Então, se alguém vos disser: Eis aqui está o Cristo, ou ei-lo acolá, não deis crédito, porque se levantarão falsos cristos, e falsos profetas, e farão grandes milagres e prodígios, de tal modo que (se fosse possível)  até os escolhidos seriam enganados”.  (Mt. 24, 22-24)
Não só haverão muitos falsos profetas, mas estes terão poder de fazer prodígios, de fazer até milagres. Mas isto conseguirá enganar apenas as pessoas que não estiverem em comunhão com a Igreja e não souberem, portanto, usar o critério do discernimento dos espíritos.
O texto citado (Mt 24, 14) acima indica que Nosso Senhor está falando de uma época que coincide com o final do quinto período da Igreja (referido por Bartolomeu de Holzhauser) e o começo do sexto, pois diz que “será pregado este Evangelho do reino por tudo mundo, em testemunho a todas as gentes. E então chegará o fim” (quer dizer, e então chegará o fim do mundo), que será depois destes castigos e de uma era posterior em que o Evangelho será pregado em toda a Terra, quer dizer, o Reino de Maria.
Por mais de quatro séculos (mais ou menos 435 anos) não surgiram verdadeiros profetas em Israel. No entanto, como aquele povo era acostumado a profetizar se formou durante este tempo uma escola de falsos profetas. No tempo de Nosso Senhor os falsos profetas já eram em grande quantidade. Havia, por exemplo, a seita dos herodianos, que profetiza que tal monstro (Herodes) seria o esperado Messias. “Ora Herodes estava em conflito com os de Tiro e de Sidônia. Mas estes, de comum acordo, foram ter com ele, e com o favor de Blasto, camareiro do rei, pediram paz, porque das terras do rei é que o seu país recebia a subsistência. No dia marcado, Herodes, vestido de traje real, sentou-se no trono e arengava-lhes. O povo o aplaudia, dizendo: É voz de um deus e não de um homem! Porém subitamente o anjo do Senhor o feriu, porque não tinha dado glória a Deus; e, roído de vermes, expirou”  (At 12, 20-23).
Tanto os fariseus, quanto os saduceus profetizavam também um rei material e cheio de glórias terrenas para o povo judeu. Outros diziam que o Messias seria São João Batista, com intuito talvez de causar confusão. Os samaritanos profetizavam dois messias para suas seitas: Dositeo e Simão Mago. Este último teve um discípulo chamado Menandro, também tido como messias.   Os mais terríveis de tais “profetas” eram os chamados zelotas ou zelotes, membros de uma seita judaica composta apenas da elite e que tinham por escopo defender o templo sagrado e “zelavam” pela Lei mosaica. O messias para tais zelotas não seria um homem mas toda a sua seita, pronta para levar o povo judeu a dominar o mundo e subjugar todos os povos da terra.  Foram eles os mais encarniçados defensores de Jerusalém que obrigaram os invasores à destruir a cidade no ano 79.
Mesmo depois da morte de Nosso Senhor os falsos profetas ainda proliferam.  Conta Bossuet que mesmo depois da destruição de Jerusalém surgiu um falso profeta chamado Barchochebas, um bandido que, se utilizando do significado de seu nome (“filho da estrela”) dizia ser ele a estrela de Jacó profetizada no Livro dos Números e ser o próprio messias. Foi seguido pelo rabino mais famoso da época, Akibas,  fazendo com que entrassem no seu partido os maiores “sábios” judeus. Tantos eram seus adeptos que o imperador romano, Adriano, matou 600 mil deles na guerra que lhes moveu




[1]               “Vida e Conduta de Santo Antão – de Santo Atanásio, Ed.Paulinas Págs. 55/56..