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domingo, 3 de maio de 2020

MÊS DE MARIA






Não é sem tristeza que sentimos aproximar-se o fim deste mês de Maria! Com efeito, durante o mês de maio sentimos uma proteção especial de Nossa Senhora estender-se sobre todos os fiéis, e a alegria que brilha em nossos templos e ilumina nossos corações exprime a universal certeza dos católicos de que o indispensável patrocínio de nossa Mãe celestial se torna, durante o mês de maio, ainda mais solícito, mais amoroso, mais cheio de visível misericórdia e exorável condescendência.
Entretanto, depois de cada mês de maio, alguma coisa fica, se tivermos sabido viver convenientemente estes trinta dias especialmente consagrados a Nossa Senhora. O que nos fica é uma devoção maior, uma confiança mais especial, e, por assim dizer, uma intimidade tão mais acentuada com Nossa Senhora, que em todas as vicissitudes da vida saberemos pedir com mais respeitosa insistência, esperar com mais invencível confiança, e agradecer com mais humilde carinho todo o bem que Ela nos faça.
Nossa Senhora é a Rainha do Céu e da Terra, e, ao mesmo tempo, nossa Mãe. É esta a convicção com que entramos sempre no mês de maio, e tal convicção se radica cada vez mais em nós, lança claridades e fortaleza sempre maior, quando o mês de maio se encerra. Maio nos ensina a amar a Maria Santíssima por sua própria glória, por tudo quanto Ela representa nos planos da Providência. E nos ensina também a viver de modo mais constante nossa vida de união filial a Maria.
Os filhos nunca são mais seguros da vigilância amorosa de suas mães do que quando sofrem. A humanidade inteira sofre hoje em dia. E não só todos os povos sofrem, mas quase poderia dizer-se que sofrem de todos os modos por que podem sofrer. As inteligências são varridas pelo vendaval da impiedade e do ceticismo. Tufões loucos de messianismos de toda ordem devastam os espíritos. Idéias nebulosas, confusas, audaciosas, esgueiram-se em todos os ambientes, e arrastam consigo, não só os maus e os tíbios, mas até por vezes aqueles de quem se esperaria maior constância na Fé. Sofrem as vontades obstinadamente apegadas ao cumprimento do dever, com todas as contrariedades que lhes vem de sua fidelidade à lei de Cristo. Sofrem os que transgridem essa lei, pois que longe de Cristo todo prazer não é no fundo senão amargura, e toda a alegria uma mentira. Sofrem os corações, dilacerados pelos horrores das guerras que se alastram, das famílias que se dissolvem, das lutas que armam por toda parte irmãos contra irmãos. Sofrem os corpos, dizimados pela metralhadora, depauperados pelo trabalho, minados pela moléstia, acabrunhados pelas necessidades de toda ordem. Pode-se dizer que o mundo contemporâneo, semelhante ao que vivia no tempo em que Nosso Senhor nasceu em Belém, enche os ares de um grande e clamoroso gemido, que é o gemido dos maus que vivem longe de Deus, e dos justos que vivem atormentados pelos maus.
Quanto mais sombrias se tornarem as circunstâncias, quanto mais lancinante as dores de toda ordem, tanto mais devemos pedir a Nossa Senhora que ponha termo a tanto sofrimento, não só para fazer cessar assim nossa dor, mas para maior proveito de nossa alma. Diz a Sagrada Teologia que a oração de Nossa Senhora antecipou o momento em que o mundo deveria ser redimido pelo Messias. Neste momento cheios de angústias, volvamos confiantes nossos olhos a Nossa Senhora, pedindo-Lhe que abrevie o grande momento em que todos esperamos, em que uma nova Pentecostes abra clarões de luz e de esperanças nestas trevas, e restaure por toda a parte o Reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Devemos ser como Daniel, de quem diz a Escritura que era desideriorum vir, isto é, homem que desejava grandes e muitas coisas. Para a glória de Deus, desejemos grandes e muitas coisas. Peçamos a Nossa Senhora muito, e sempre. E o que sobretudo Lhe devemos pedir é aquilo que a Sagrada Liturgia suplica a Deus: Emitte Spiritum tuum et creabuntur, et renovabis faciem terrae. Devemos pedir pelo intermédio de Nossa Senhora que Deus nos envie novamente em abundância o Espírito Santo, para que as coisas sejam novamente criadas, e purificada por uma renovação a face da terra.
Diz Dante na Divina Comédia que rezar sem o patrocínio de Nossa Senhora é a mesma coisa que querer voar sem asas. Confiemos a Nossa Senhora este anelo em que vai todo o nosso coração. As mãos de Maria serão para nossa prece um par de asas puríssimas por meio das quais chegará certamente ao trono de Deus.
Como conclusão deste mês de Maria, façamos nossas duas súplicas da ladainha das Rogações, referentes às necessidades mundiais da Santa Madre Igreja:
"Para que vos digneis humilhar os inimigos da Santa Igreja, vos rogamos, Senhor!
Para que vos digneis exaltar a Santa Igreja, vos rogamos, Senhor!"

 

(Plínio Corrêa de Oliveira - "Legionário" N.o 563, 23 de maio de 1943;”Última Hora”, 7/5/1984 e Revista “Dr. Plínio”, nº 50, maio de 2002)





sexta-feira, 1 de maio de 2020

A ATITUDE DE ALMA DURANTE O MÊS DE MARIA






Como não há ficha para hoje de Conferência, a Comissão pede para eu dizer algo sobre como se aproveitar esse mês, todo ele dedicado a Nossa Senhora, principalmente na linha da reparação como tenho insistido.
É realmente uma muito boa idéia e eu poderia indicar o modo seguinte: este mês é dedicado a Nossa Senhora e é um mês de festas. E naturalmente pelo hábito e pela propriedade do assunto, nosso espírito se volta para festejar Nossa Senhora durante esse mês. Acontece que há um princípio de bom senso, pelo qual não se festeja uma pessoa que está passando por um pesar muito grande. Por exemplo, a uma mãe que está com seu filho muito doente, não se vai, durante a doença do filho, fazer para ela uma festa de aniversário. Porque o ânimo d’Ela não dá para isso.
Então é a ocasião de se testemunhar a ela veneração, carinho etc., mas testemunhar por outra forma, quer dizer, solidarizando-se com a dor d’Ela. Dizer duas coisas: eu me lembro que é o seu aniversário, compreendo que boas disposições essa data evoca em mim, mas considerando seu estado, sua situação, eu queria lhe dizer também quanto me pesa vê-la passar por essa provação, e faço votos para a melhora de seu filho. É o que qualquer pessoa sensata diria.
Bem, é o que nós também devemos dizer a Nossa Senhora. Devemos dizer que nos lembramos de todas as razões perenes de alegria que Ela é para todos os católicos, em todas as circunstâncias. Nossa Senhora é de tal maneira causa nostrae laetitiae, como se diz na ladainha Lauretana, que Ela foi razão de alegria para nós, até mesmo na mais triste das situações, que foi quando Nosso Senhor Jesus Cristo morreu. Até nessa ocasião, a presença d’Ela era um elemento de alegria e de satisfação para nós.
De outro lado, por causa disso, compreender que uma atitude de mera comemoração festiva não tem propósito, e que nós devemos, à rememoração de toda alegria que Ela nos dá, juntar a consideração de toda a tristeza que Ela tem nas circunstâncias atuais, e vivermos nessa tristeza. Ter essa tristeza em vista. Ter essa tristeza em vista não é apenas comparecer ao Conferência, ou a uma cerimônia e compungir-se com aquilo naquele momento. Mas é saber na ponta da língua as razões da tristeza d’Ela. E a qualquer momento podermos rememorar isso.
E isto é tão fácil de lembrar: uma conjuração que tenta perpetrar o pior dos crimes, depois do deicídio, que é de fazer cair em erro e, portanto, tentar aniquilar a Igreja Católica Apostólica Romana. Isso é um crime terrível, porque contra a glória de Deus nada se pode planejar de mais nefando, contra a salvação das almas não se pode fazer nada de mais eficaz; para realizar o tentame do demônio não se pode fazer nada que mais lhe convenha porque essa é a substância do tentame do demônio. Liquidar a Igreja Católica é claro que ele não poderá, porque a Igreja é imortal. Mas pode, pelo menos, levar as coisas tão longe quanto nessa linha ir possam. E é preciso dizer que elas são susceptíveis de ir mais longe do que nós imaginávamos.
Ora, esse crime enunciado por essa forma deve nos causar uma indignação sem nome, deve nos causar um protesto de todo nosso ser. Porque nós amaremos a Deus na medida em que odiarmos esse crime. Nós podemos fazer o teste de nosso amor de Deus através da atitude da reação de nossa alma diante desse crime. Se na hora em que tentam matar o Corpo Místico de Cristo minha indignação é pequena, não tem dúvida que o meu amor é pequeno.
Imaginem que uma pessoa vem me matar e eu tenho um amigo que olha: “Ahhn, coitado do Dr.  Plínio! Mau bocado que está passando agora! Enfim, vamos ver como é que ele se sairá disso. Eu agora preciso fazer minha barba”. Eu saro, vem ele de encontro a mim: “Oh! amigo, como eu o estimo!” - Tenha a santa paciência! Eu há pouco estive no pior dos apuros, você foi fazer sua barba. Você teve uma babugem de comiseração a meu respeito e você vem dizer que é meu amigo? Onde é que está a coerência disso? Essa sua amizade que você ostenta a mim, essa amizade é uma caçoada, é um escárnio. Saia com essa sua amizade, não a quero para mim. Amizade de fariseu!
Então, a atitude que nós temos em relação aos inimigos da Igreja é o termômetro de nosso amor à Igreja. E o ódio que nós temos ao crime que se está praticando é o termômetro de nosso amor a Nossa Senhora.

 Pedirmos a Nossa Senhora que não se percam - por nossa culpa - graças que Ela nos conceda

Já passamos da idéia da reparação para uma outra idéia. Essa consideração certamente mostra quanto a reparação é necessária. Mas ela também pode ser que nos mostre que nosso amor é débil, que nosso amor é fraco. Então deveríamos fazer o seguinte pedido a Nossa Senhora - alguém no Grupo fez esse pedido e eu achei muito bonito; eu não vou dar o pedido exatamente como foi formulado, mas eu vou dar em linhas gerais.
E o pedido é esse, nas linhas que eu quero apresentar: Nossa Senhora está continuamente fazendo chover sobre o Grupo graças de amor a Ela; mas também de ódio e combatividade à obra que as forças das trevas fazem contra Ela. Bem, essas graças não são recolhidas tão amplamente como deveriam ser. Muitas delas caem no chão.
Então devemos - os que sejamos sensíveis ao apelo que estou aqui fazendo - dirigir a Nossa Senhora a seguinte súplica: que Ela nos dê todas as graças que os outros não aproveitam; que Ela encha nossas almas com todas as graças dadas e que os outros não aceitam, para reparar assim a tristeza que há nesse caudal de graças que fica sem aproveitamento; e para que ao menos em nós resplandeça o dom feito ao Grupo.
E essa é uma linda súplica que eu recomendo aos que se sentirem movidos interiormente a isso, que façam todos os dias do mês de Maio. Por exemplo, por ocasião da Comunhão. Dizer a Nosso Senhor, por meio de Nossa Senhora, que essas graças se ponham em nossa alma, que nós sejamos o receptáculo de toda combatividade, de todo espírito de intransigência, de toda incompatibilidade com o mal que deve caracterizar o verdadeiro membro do Grupo de "Catolicismo". Os senhores vêem que essa é uma súplica esplêndida e que nós poderíamos, portanto, tomar para nós, fazer nossa.
Parece-me também que seria interessante mudar essa devoção ao longo dos dias. Quer dizer, conservar essa intenção, mas em cada dia do mês de Maio consagrar esse dia a alguma reflexão sobre Nossa Senhora. Como  aqui vamos dar, em cada dia, uma reflexão sobre Nossa Senhora, uma notícia sobre uma devoção a Nossa Senhora; podia se tirar daí, se me lembrarem, diariamente, uma reflexão válida para o dia seguinte, que alimente nosso Rosário, nossa piedade, nesse resto de dia ou no dia seguinte, e que seria um modo de aproveitarmos utilmente o mês de Maio, numa visão verdadeiramente ultramontana.
Em cada dia desse mês eu autorizei que por ocasião do alardo se colocasse, se expusesse à veneração especial de todos uma imagem ou um quadro de Nossa Senhora, dos existentes em nossas sedes. Hoje vai começar pela mais venerável das nossas imagens, que é a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora que vem acompanhando o Grupo, de algum modo desde as suas nascentes. É uma imagem de minha propriedade particular, mas que eu pus na sala da Junta Arquidiocesana da Ação Católica, quando tínhamos a direção da Ação Católica. Quando nós nos retiramos, retirei a imagem que era de nossa propriedade e que passou para o altar de nossa capela e de lá para cá nós a vimos acompanhando até o dia de hoje. Então, essa vai ser a primeira imagem a ser venerada especialmente durante o mês de Maria.

Imagem da Virgem que pediu - milagrosamente - que a levassem do local ante o perigo de profanação

Restar-me-ia, antes de passar aos avisos, fazer um comentário a respeito de uma manifestação de Nossa Senhora, na cidade de Kiev, na Rússia. Estando a cidade assaltada pelos Tártaros e não podendo mais resistir, todos fugiam abandonando tudo. São Jacinto de Cracóvia, digno filho de São Domingos, ardentíssimo devoto de Nossa Senhora, foi despedir-se da imagem antes d’Ele mesmo fugir. Quando se recomendava a Ela, ouviu distintamente a imagem de alabastro murmurar: "E eu? Tu me abandonas? Leva-me". O santo não sabia o que fazer por ser a imagem pesadíssima e ele não poder carregá-la sozinho. Mas apenas a tomou em seus braços, a sente leve como uma pena. A imagem perde todo o seu peso, por um milagre da poderosíssima Mãe de Deus. E naturalmente ele fugiu com ela .

As manifestações de Nossa Senhora através de suas imagens e seu simbolismo

Os senhores vêem aqui neste fato, como Nossa Senhora preza suas imagens, como Ela se sente representada dignamente por suas imagens, e como Ela não deseja que se façam com suas imagens o que não é nem digno nem correto fazer-se a Ela. Ela obrou um prodígio para que sua imagem fosse levada embora de um local onde provavelmente seria profanada etc., por hereges ou outros quaisquer que estariam ameaçando o lugar.
De outro lado, entretanto, os senhores vejam como Nossa Senhora gosta de nos acompanhar presente nas suas imagens, e quer que as imagens d’Ela nos acompanhem. E assim operou um verdadeiro milagre para que essa imagem acompanhasse seus filhos ao longo do êxodo que iam fazer. Uma imagem de alabastro, pesadíssima, fala e é possível facilmente carregá-la... É um modo de dar a entender como Nossa Senhora quer estar presente no meio de seus filhos.
Há alguma aplicação para isso em nossa vida? Se as imagens de Nossa Senhora, se Nossa Senhora de tal maneira quer que suas imagens sejam de seus filhos, é para fazer notar quanto Ela nos acompanha em todas as vicissitudes, em todas as circunstâncias. A imagem d’Ela não nos abandona; muito mais, Ela não nos abandona. Quer dizer, em todas as situações em que nós estejamos, em todas as latitudes, em todas as longitudes, nas maiores elevações da vida espiritual, como nas situações também mais tristes da vida espiritual, há um olhar de Nossa Senhora que nos acompanha; há uma proteção, há uma providência de Nossa Senhora que nos acompanha e que nunca nos abandona. E isso nos deve dar exatamente uma sensação de tranqüilidade em relação às vicissitudes dessa vida.
O pensamento ao longo de todo o dia de amanhã: Nossa Senhora é minha Mãe e não me abandonará; e não me abandona inclusive na situação atual em que eu tanto preciso das graças d’Ela ou para progredir; ou para não regredir ou para qualquer outro fato. Ela não me abandona porque se uma imagem de alabastro, que afinal de contas não é senão alabastro, vai ao encalço dos filhos d’Ela, quanto mais a providência d’Ela, que é simbolizada pela imagem, quanto mais essa providência vai ao encalço dos filhos d’Ela. Nossa Senhora irá ao meu encalço como um bom pastor. E eu posso ter, portanto, essa tranqüilidade ao longo de minha vida: eu tenho a proteção e o olhar de Minha Mãe. Está aí um pensamento para o dia de amanhã, sugerido por essa devoção de Nossa Senhora de Kiev.
Nota ;
São Jacinto é conhecido por ter realizado numerosos milagres. O milagre que tem sido associado muito com ele era o resultado do cerco Tártaro da cidade de Kiev. Jacinto Ganhou uma devoção infantil e concurso para a Mãe de Deus de S. Domingos. Quando Jacinto estava em Kiev, os tártaros saquearam a cidade. Ele estava celebrando a missa e não sabia do ataque e do perigo até que a missa acabou. Sem esperar tomou o cibório em suas mãos e estava fugindo da Igreja. Isso é registrado quando ele passou pela estátua de Maria Ouviu uma voz dizer: "Jacinto, meu filho, porque tu me deixas para trás? Leva-Me contigo e não me deixa para os meus inimigos." Apesar da estátua ser de alabastro e muito pesada, Jacinto tomou-a nos braços e levou-a com o cibório Junto com a Santíssima Eucaristia. É para este tempo Milagroso São Jacinto que é mais freqüentemente representado. A história continuou. Após isso, Jacinto e sua comunidade que o acompanhou seguiram ao rio Dnieper. Lá, ele pediu a eles para segui-lo a atravessar o rio. Ele liderou o caminho, e andaram todos sobre as águas do rio profundo, que os deixou então protegidos da fúria dos tártaros. Historiadores poloneses estão de acordo com tão Maravilhoso fato. A circunstância, que é gravado em conexão com este milagre, o torna ainda mais notável: as pegadas do santo permaneceram na água, mesmo depois de ter atravessado o rio, e que, quando o fluxo foi tranqüilo, elas poderiam ser vistos ao longo de séculos depois.

("Conferência", 1 de Maio de 1967)