SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

As penas que os filhos devem pelos pecados dos pais



Tem sido muito freqüente esta questão entre os cristãos: que culpa têm os filhos para carregar ou pagar os pecados dos pais? Vejamos, preliminarmente, quais são os pressupostos da Doutrina Católica:


1. Quando o homem peca, contrai ele dois tipos de dívidas para com Deus – espiritual e temporal, pois sendo corpo e alma, o pecado sempre fere as duas partes de que compõe o homem;


2. Para remir as dívidas espirituais o homem é impotente, pois não reúne em si os méritos para tanto. Somente a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, por ser Homem e Deus ao mesmo tempo, tem poder para remir nossas dívidas espirituais;


3. Fica, portanto, o homem, dependendo de si mesmo para remir as dívidas temporais. Mas mesmo estas não consegue ele remir sozinho, havendo necessidade do concurso do Corpo Místico de Cristo, composto pelos outros homens também cristãos ou, como no Antigo Testamento, fiéis a Deus.


4. As pessoas mais próximas do homem que podem auxiliá-lo na remissão de suas dívidas temporais são seus parentes, especialmente seus filhos. Isto porque muitas destas dívidas (tal sua gravidade) não conseguem ser pagas neste mundo, e sim no purgatório, portanto após a morte.


É de se temer, portanto, aquele que leva vida sem sofrimentos ou impenitente, pois havendo muitas dívidas a pagar (temporais e espirituais), seja as nossas ou mesmo de nossos pais e antepassados, não se compreende que a Divina Providência nos prive da oportunidade de fazê-lo ainda nesta vida. A santidade consiste, pois, de alguma forma em se submeter com resignação ao sofrimento que Deus nos manda.

“Perdoai nossas dívidas...”


O que é uma dívida? Trata-se de uma obrigação contraída, decorrente de uma falta cometida ou de um benefício recebido. A dívida é reconhecida pelo devedor pela promessa feita no ato em que é contraída. Promete-se cumprir alguma coisa, como por exemplo a obrigação de restaurar ou repor um bem. Deve quem faz a promessa. Pode ser decorrente de um mal cometido contra alguém ou então de um benefício recebido.


Neste sentido, o homem tem muitas dívidas para com Deus. Primeiramente vêm as dívidas pelos benefícios recebidos. Pelo fato de haver sido criado, deve obrigações a Deus Pai Criador; pelo fato de haver sido remido pelo Salvador, deve também obrigações ao Redentor; e por causa das graças atuais que recebe da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito Santo, o homem deve igualmente obrigações a cumprir na santificação de sua alma.


Em segundo lugar vêm as dívidas decorrentes da justiça, pois quando o homem peca, desobedecendo a Lei de Deus, tem obrigação de reparar o mal cometido. Por tratar-se de danos espirituais o homem só pode reparar os pecados mortais com os méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Isto significa que, arrependendo-se de seus pecados (dívida contraída por infração da Lei) procure emendar-se de vida e tentar de alguma forma reparar o mal que fez. E só pode fazê-lo no chamado Tribunal da Penitência, isto é, na Confissão. No entanto, muitos pecados ocasionam danos irreparáveis na ordem natural, como por exemplo um assassínio, mas reparáveis na ordem sobrenatural com o arrependimento, a Confissão e a promessa de emenda de vida. Neste caso, a dívida é reconhecida quando o pecador promete emenda de vida, após arrepender-se, mas só será reparada no plano espiritual após a Confissão. .


Ficam ainda pendentes de remissão e reparação as penas temporais, isto é, as conseqüências das dívidas assumidas. Estas para serem remidas ou pagas pelo homem são necessárias duas coisas: o tempo e a intensidade e valor dos méritos. Neste caso, os méritos serão medidos pela intensidade do amor a Deus: quanto maior este amor, tanto mais intensa a vontade de remir a dívida, tanto menor será o tempo. È por causa disto que muitos não conseguem remir suas dívidas temporais no decorrer de sua vida: o tempo não é suficiente porque não se ama a Deus com tanta intensidade.


Como se viu acima, o homem, por si mesmo, às vezes não consegue remir suas próprias penas temporais enquanto vive, pois além de não as pagar com grande intensidade de amor a Deus, de forma a resgatá-las em pouco espaço de tempo, contraem novas dívidas e acumulam sempre mais débitos enquanto vivem. Daí a necessidade do purgatório na outra vida, a fim de resgatar no outro mundo aquilo que não conseguimos pagar neste.


Por que Deus permite a vida abastada dos maus


O pensamento é o seguinte: se a pessoa consegue superar todas as dificuldades da vida e desfruta da tão almejada felicidade terrena é porque tem uma vida agradável a Deus, e Este o cumula de favores e bens materiais. Mas, como explicar então que pessoas de comprovada maldade tenham uma vida abastada e gozem do que chamam “felicidade terrena”?


Com a palavra o Patriarca Jó:


“Por que razão vivem os ímpios, são exaltados e cumulados de riquezas?


“Seus filhos conservam-se diante deles, uma multidão de parentes e de netos está na sua presença.


“Suas casas estão seguras e em paz, a vara de Deus não está sobre eles.


“Suas vacas concebem e não abortam, as suas vacas dão à luz e não se lhes malogram as crias.


“Seus filhos saem como manadas, e seus pequenos saltam e brincam.


“Levam pandeiro e cítara, e alegram-se ao som dos instrumentos músicos.


“Passam os seus dias em delicias, e num momento descem ao sepulcro .(Jo 21, 7-13)


Se Deus assim permitiu é por causa de seus insondáveis desígnios:


“Acaso pretenderá alguém ensinar alguma coisa a Deus, que julga os grandes?


“Um morre robusto e são, rico e feliz; suas entranhas estão cobertas de gordura, seus ossos, regados de tutano; outro, porém, morre na amargura da sua alma, sem nenhum bem. (Jó 21, 22-25)


Tais indagações não ficam sem resposta, pois os ímpios sempre caem no justo juízo de Deus, neste ou no outro mundo:


“Quantas vezes se apagará a lucerna dos ímpios, e lhes sobrevirá uma inundação, e na sua ira lhes repartirá as dores?


“Serão como palha ao sopro do vento, como cinza espalhada pelo redemoinho.


“Deus reservará para os filhos a pena do pai, e quando lhe der a paga, então ele escarmentará.


“Seus próprios olhos verão sua ruína, e beberá do furor do Onipotente. (Jó 21, 17-20)


Quando Jó afirmou acima que “Deus reservará para os filhos a pena do pai”, está confirmando a doutrina acima do resgate das dívidas temporais. Pode até ocorrer que o sujeito morra cheio daquelas alegrias, rico, próspero e feliz com as coisas deste mundo, mas não se sabe que dívida terá que pagar a Deus no outro mundo. Quanto a este mundo, seus filhos terão que sofrer futuramente para remir tais dívidas. Assim como herdamos as riquezas, os bens de fortuna, herdamos também as dívidas de nossos pais. E quando o mau começar a sofrer tribulações, quem o consolará como Deus faz com o Justo?


“Pois, qual é a esperança do hipócrita, se rouba por avareza, e Deus não livra a sua alma?


“Porventura ouvirá Deus o seu clamor, quando lhe sobrevier a tribulação?


“Ou poderá deleitar-se no Onipotente, invocar a Deus em todo o tempo? (Jó 27, 8-10).


Assim, para se saber realmente quando há felicidade no homem não é bastante sua vida prazenteira e pacífica, sem males temporais. O teste mais exato é ver como ele se comporta perante as tribulações. Pois ser feliz na vida cheia de gozo é muito fácil, o difícil é sê-lo perante o sofrimento, a dor, as tentações, a escassez de víveres, o desprezo daqueles que ama, etc.


Como se vê, os filhos pagam pelos pecados dos pais para se purificarem: “Deus reservará para os filhos a pena do pai” (Jó, 21, 19). Assim sendo, um rico feliz, mas impenitente e sem sofrimentos, estará deixando as dívidas de seus pecados para serem resgatadas, ou simplesmente sofridas, pelos filhos ou descendentes. Será que o Justo Jó não estaria pagando ou “redimindo” os pecados de seus ancestrais, principalmente Caim e os construtores da torre de Babel, exorcizando todos os demônios que tais pecados tinham atraído sobre seu povo?


Deus castiga os pecados dos pais em seus filhos e descendentes


É constante na Sagrada Escritura aquela afirmação de Jó atrás transcrita: “Deus reservará para os filhos a pena do pai”. Vejamos alguns exemplos.


Após o dilúvio universal, Noé fez o cultivo da uva e dela tirou vinho, que, ao bebê-lo pela primeira vez, embriagou-se e tirou a roupa perante os filhos. Como Cam, ao contrário dos outros, não cobriu sua nudez, Noé amaldiçoou sua descendência, dizendo: "Maldito seja Canaã, ele será escravo dos escravos de seus irmãos. E disse: Bendito seja o Senhor Deus de Sem, e Canaã seja seu escravo. Dilate Deus a Jafet, e habite Jafet nas tendas de Sem, e Canaã seja seu escravo" (Gn 9, 25-27). A escravidão é imposta como uma maldição, trata-se portanto de um castigo por causa do ato indigno que o filho praticara, porém não recai sobre ele, Cam, mas sobre a sua descendência, representada por seu filho Canaã. Tornou-se este, pois, escravo de seus tios. Seria uma espécie de maldição ou condição imposta por Deus ao filho para reparar o erro praticado pelo pai. Será que nós também não temos, muitas vezes, que fazer este tipo de reparação a Deus por causa dos pecados de nossos pais?


A descendência de Abraão é prometida profeticamente como numerosa, mas que “será reduzida à escravidão” (Gn 15, 13) por mais de 400 anos. Então, Deus desejava que houvesse uma escravidão que fosse exercida sobre todo um povo, e o seu Povo Eleito, como meio de fazê-lo perfeito. Aqui não se trata propriamente de uma maldição, mas algo parecido, pois Deus assim condena a descendência de Abraão, depois que "um horror grande e tenebroso o acometeu": "Sabe, desde agora, que a tua descendência será peregrina numa terra não sua, será reduzida à escravidão, e afligida durante quatrocentos anos". Logo depois, Deus estabelece o prêmio: "Mas eu exercerei os meus juízos sobre o povo ao qual estiverem sujeitos; e sairão depois (desse país) com grandes riquezas" (Gn 15, 13-14).


Um outro episódio mostra outro aspecto da questão: trata-se da reprimenda que a mulher de David, Micol, lhe fez, aparentemente com boas intenções, mas podendo revelar fraqueza ou respeito humano, talvez espírito vaidoso por ver o seu esposo e rei dançar com o povo e se expor à cenas humilhantes, sendo por isso castigada com a esterilidade. Assim narra o fato a Sagrada Escritura:


“Retirou-se também Davi à sua casa, para a abençoar; e Micol, filha de Saul, tendo saído ao encontro de Davi, disse: Que bela figura fez hoje o rei de Israel, despindo-se diante das escravas e de seus vassalos, e desnudando-se como faria um chocarreiro. Davi disse a Micol: Diante do Senhor, que me escolheu preferindo-me a teu pai e a toda a sua família, e que me mandou que fosse eu o condutor do povo do Senhor em Israel, não só dançarei, mas também me farei mais vil do que me tenho feito, serei humilde os meus olhos, e com isto aparecerei com mais glória diante das escravas, de que falaste. Por esta razão Micol, filha de Saul, não teve filhos até ao dia da sua morte” (II Sam 6, 20-23).


O texto não dá a entender a causa de Micol não ter tido filhos, se por ter ficado estéril ou porque Davi a rejeitou. Em todo o caso, de uma forma ou de outra, naqueles tempos o fato de não ter filhos era motivo de opróbrio para a mulher e o fato era sempre uma pena severa. E parece que a reprimenda que ela deu ao rei não era tão má assim, pois o censurava por se expor perante as escravas, dançando na frente delas. De outro lado, esta esposa de Davi foi preservada na castidade pelo varão Falti, ao qual Saul havia entregue a filha quando Davi foi para a guerra mas a devolveu intacta. Comenta Caetano que a Sagrada Escritura mudou o nome de Falti para Faltiel quando este devolveu a mulher de Davi sem tocá-la, pois a partícula “el” em hebraico quer dizer Deus, era como se Falti tivesse adquirido com isto um dom divino. (II Sam 3, 14-16), passando a ser chamado “Falti-el’, ou, “Falti de Deus”..


Portanto, nesta linha de pensamento, não foi permitido a Micol ter filhos porque ela mesma poderia pagar em vida a pena de seu pecado.


O resgate das dívidas dos antepassados às vezes exige martírio dos filhos


Dois episódios da história de Davi mostram a afirmação acima. O primeiro é relatado em II Samuel 21, 1-6: Primeiramente um castigo de Deus aos filhos de Saul (por que “matou os gabaonitas”), com uma fome que durou 3 anos. Dirigindo-se aos gabaonitas, Davi pergunta o que fazer para reparar o erro de Saul e aí vem o segundo castigo com o martírio exigido pelos ofendidos: “Sejam-nos dado sete de seus filhos, para os crucificarmos diante do Senhor em Gaaba de Saul, que foi noutro tempo o escolhido do Senhor”. E Davi concordou e deu os sete filhos para o sacrifício. Pagaram os filhos com suas próprias vidas o pecado do pai.


No outro episódio é o próprio Davi que peca, mandando fazer um censo que Deus não autorizara. Deus então castigou o povo com uma peste: “Mandou, pois, o Senhor a peste a Israel, desde aquela manhã até o tempo assinalado, e morreram do povo, desde Dan até Bersbéia, setenta mil homens. E, tendo estendido o anjo do Senhor a sua mão sobre Jerusalém para a destruir, o Senhor compadeceu-se da sua aflição, e disse ao anjo exterminador do povo: Basta, detém agora a tua mão. O anjo do Senhor estava junto da eira de Areuna, jebuseu. Davi, logo que viu o anjo ferindo o povo, disse ao Senhor: Eu sou o que pequei, eu fui o que procedi mal; que fizeram estes, que são as ovelhas? Volte-te, te peço, a tua mão contra mim, e contra a casa de meu pai” (II Sam 24, 15-17). Interessante notar que tais castigos sempre vêm de elementos que não participam do ciclo dos amigos de Deus: no caso concreto, o anjo exterminador estava junto a um local pertencente a rei pagão, Areuna, da raça dos jebuseus, cujo local Davi comprou depois para ali construir um altar a Deus.


Com o arrependimento de Davi e sua expiação através de holocaustos, Deus suspendeu o castigo, inclusive o que o rei pedira para si, mas apenas das penas temporais que eram as que o antigo sacrifício remia.


Tobias, pagou as “dívidas” do pai enquanto vivia, e por isso teve fim feliz


Diferente foi o que ocorreu com os Patriarcas Tobias, pai e filho.


A grande virtude de Tobias pai era a prática da caridade para com os mortos, o que lhe tinha valido a perseguição do rei. Mesmo tratando-se de um homem fiel a Deus foi submetido a terrível prova, ficando completamente cego. A Sagrada Escritura compara sua provação com a de Jó: “O Senhor permitiu que lhe acontecesse esta prova, para que sua paciência servisse assim de exemplo aos vindouros, como a do santo Jó. Porque, tendo sempre temido a Deus desde a sua infância, e tendo guardado os seus mandamentos, não se entristeceu contra Deus, por lhe ter acontecido a desgraça da cegueira, mas permaneceu firme no temor de Deus, dando graças a Deus todos os dias da sua vida” (Tob 2, 12-14). Vê-se que, por suas virtudes, Tobias pai não era merecedor de tal castigo, mas Deus pode ter escolhido ele para remir dívidas temporais de seus ancestrais e assim se santificar, sendo também exemplo para os filhos.


Os dois Tobias, pai e filho, viveram no tempo da apostasia do rei Jeroboão (que deu origem ao cisma judaico) ao primeiro cativeiro que sofreu os hebreus. Como ele (o pai) praticava tanta caridade para com seus irmãos de raça e de fé, era insultado até mesmo pelos parentes a amigos: “E, assim como os reis (ou poderosos) insultavam o bem-aventurado Jó assim os parentes e amigos de Tobias escarneciam do seu modo de vida, dizendo: Onde está a tua esperança, pela qual davas esmolas e sepultava os mortos? Mas Tobias os repreendia, dizendo: Não faleis assim; porque nós somos filhos dos santos e esperamos aquela vida que Deus há de dar aos que nunca afastam dele a sua fé” (Tob 2, 15-18). Tamanha esperança mostra a quanto levava sua fidelidade a Deus, mas vê-se que a virtude da esperança requer paciência para se conseguir um bem muito grande mas a ser efetivo numa data longínqua, como veremos adiante.


A exemplo de Jó, a própria esposa de Tobias o insultava, dizendo: “Bem se vê como as tuas esperanças são vãs e agora se fizeram ver as tuas esmolas”. Era a pior das provações e dos tormentos: sofrer o desprezo e escárnio, explorando o respeito humano, por causa da prática das virtudes e do amor a Deus. Era necessário esperar confiante, mas, acima de tudo, sofrendo opróbrios.


Asmodeu, o demônio que atormenta as famílias


Enquanto Tobias pai rezava para que Deus o tirasse desta vida porque não suportava mais ver os juízos de Deus sobre seu povo, entregue ao saque, ao cativeiro e à morte, e mesmo assim impenitente, em outra localidade uma mulher sofria por causa da influência de um poderoso demônio, chamado Asmodeu: por sete vezes a dita mulher, chamada Sara, havia se preparado para o casamento, e o referido demônio matara seus sete maridos. Rezando a Deus, assim se lamentava “Tu sabes, Senhor, que eu nunca desejei nenhum homem e que conservei a minha alma pura de toda concupiscência. Nunca acompanhei com gente licenciosa, nem tive comércio com os que se portam com leviandade. Consenti em tomar marido no teu temor e não por paixão. E, ou eu fui indigna deles, ou talvez eles não foram dignos de mim, porque tu acaso me tens reservado para outro marido”(Tob 3, 16-19). E continuava Sara sua oração demonstrando inteira conformidade com os desígnios de Deus, a exemplo de Tobias e Jó. Mais uma provação que recaía sobre uma pessoa virtuosa, de quem Deus exigia sofrimentos de expiação de pecados passados de seus parentes.


Tobias estava vivendo com seu povo, o qual, por causa dos demônios da idolatria que lhes infestavam, necessitava que uma alma santa se imolasse por eles. De outro lado, Sara vivia em meio aos medos, povo distante dos hebreus, e cheio das piores influências diabólicas, principalmente dos que causavam pecados de luxúria. Dentre os diversos conselhos que Tobias pai deu ao filho, além da prática da caridade das esmolas e de enterrar os mortos, pediu que evitasse toda fornicação e fugisse da soberba. Pensando que ia morrer, recomendou ao filho que se dirigisse à terra de Sara a fim de receber determinado dinheiro, com o qual esperava viver o resto de seus dias. Como se vê, vem novamente à tona nos textos bíblicos a idéia de pagamento de dívidas financeiras como metáfora para remir dívidas de pecados temporais.


São Rafael, o Arcanjo que cura nossos males e exorciza demônios


A missão de Tobias filho parecia-lhe muito difícil, alegando que não conhecia as pessoas de quem iria cobrar o dinheiro e nem o caminho para a terra dos medos. Ao sair de casa encontrou um jovem de belo aspecto, o qual dizia que conhecia o caminho e que lhe levaria a seu destino. Era o Arcanjo São Rafael.


Desconfiado, Tobias pai fez perguntas ao Arcanjo sobre sua família, sem saber que o mesmo era um Anjo. São Rafael, a fim de acalmar o ancião (nem era tão velho assim, pois tinha cerca de 56 anos), disse que chamava-se Azarias, filho de um grande homem chamado Ananias. Tendo tomado uma forma corpórea, provavelmente daquele Azarias, o Arcanjo dizia-se ser o mesmo para que Tobias tivesse confiança nele. Como se vê neste episódio é a virtude da Confiança que o Anjo procura despertar no Patriarca, deixando a Esperança para coisas maiores que dizia respeito ao destino do povo eleito. E assim, lá se foram os dois, São Rafael e Tobias filho, em busca da terra de Sara, chamada Ragés, cidade situada na parte oriental da antiga Média. Lá eles iriam encontrar-se com Gabelo, israelita da tribo da Neftali que devia 10 talentos de prata a Tobias pai.


No meio do caminho, encontram-se os dois viajantes com um monstro, um enorme peixe que tentava devorar Tobias. O jovem Tobias confiou prontamente nas recomendações de São Rafael e sem titubear pegou o monstro pelas guelras e dominou-o. Em seguida, tirou-lhe o coração, o fel e o fígado, que o Anjo dizia lhes servir de remédio. O que curava eles? : “Se tu puseres um pedacinho do seu coração sobre brasas acesas, o seu fumo afugenta toda a casta de demônios, tanto do homem quanto da mulher, de sorte que não tornam mais a chegar a eles. O fel é bom para untar os olhos que têm algumas névoas, e sararão”. É curioso que São Rafael não fale aqui para que serve o fígado, mas somente adiante quando explicar sobre o exorcismo que se fará sobre Asmodeu.


Aqueles sobre os quais o demônio tem poder


Quando São Rafael contou a Tobias qual era o seu destino e que ele deveria pedir Sara em casamento, mesmo tendo já morrido seus sete pretendentes anteriores, este ficou amedrontado e falou que estava temeroso de lhe suceder a mesma coisa. São Rafael o acalmou dizendo: “Eu te mostrarei quais são aqueles sobre quem o demônio tem poder. São os que se casam com tais disposições que lançam a Deus fora de si e do seu espírito e se entregam à sua paixão, como o cavalo e o jumento, que não têm entendimento”.


Após falar da causa da possessão espiritual, aqueles sobre os quais o demônio tem poder, São Rafael passa a dar conselhos para se conseguir a expulsão de satanás: “Mas tu, quando a tiveres recebido, tendo entrado na câmara, viverás com ela em continência durante três dias, e não cuidarás noutra coisa que em fazer oração com ela. Nesta mesma noite, queimando o fígado do peixe, será posto em fuga o demônio. Na segunda noite serás admitido na sociedade dos santos patriarcas. Na terceira noite conseguirás a bênção, para que de vós nasça filhos robustos. Passada a terceira noite, tomarás a donzela no temor do Senhor, levado mais pelo desejo de ter filhos, do que por sensualidade, a fim de conseguires nos filhos a bênção reservada à descendência de Abraão” (Tob 6, 18-22).


Vê-se que há uma bênção reservada aos filhos por causa das virtudes dos pais, as quais poderiam ser transformadas em maldição se os mesmos pecassem em vez de praticar as virtudes. Todas as bênçãos prometidas em segundo plano virão como conseqüência de se exorcizar primeiramente os demônios que vinham promovendo os pecados de sensualidade. Primeiro passo, a prática da castidade convivendo com a esposa por três dias em estado de oração; em segundo lugar, obedecendo à recomendação angélica de pôr fogo no fígado do peixe, estará ele combatendo o orgulho. Na noite seguinte virão as bênçãos: Tobias será admitido numa associação de santos, na “sociedade dos patriarcas”, instituição divina desde quando Deus criou Adão. E, na hora em que tomar a moça, a união carnal propriamente dita, deverá fazê-lo com o pensamento único de com ela ter filhos e não por sensualidade, tendo aí como prêmio a mesma bênção que foi dada a Abraão. Que grandeza! Tudo isto é prometido porque o santo varão praticou algumas virtudes: a castidade matrimonial e a humildade, além de ter confiado e esperado com resignação e espírito de penitência. Combateu o demônio da sensualidade e do orgulho ao mesmo tempo.


Sobre o homem que cumpre tais preceitos os demônios não têm poder.


O desfecho da história de Tobias é bastante conhecido. Somente quando Tobias filho cumpriu a recomendação de assar o fígado de peixe é que São Rafael “pegou no demônio e acorrentou-o no deserto do alto Egito”. Porque ele não foi projetado no inferno para não mais voltar? Ou será que a expressão “deserto do alto Egito” signifique a porta do inferno? Em todo caso, São Rafael havia dito que o coração do peixe serviria para afastar os demônios e para nunca mais voltar, isto é, lançá-los no inferno. Mas, quanto ao fígado ele diz apenas que os demônios seriam expulsos mas não fala que nunca mais voltariam. E foi o fígado do peixe que Tobias queimou e não o coração. A Sagrada Escritura fala sempre em sentido figurado, podendo indicar com isto que antes de vir o Messias não haveria exorcismo que fizesse demônios voltarem ao inferno, e que isto só seria possível quando se oferecesse em holocausto o Coração de Jesus. Isto é, com o surgimento da Santa Igreja. No episódio podemos ver também a figura das duas expiações, temporais e espirituais, pois se com o fígado conseguiu-se remir as dívidas temporais, somente com o coração (de Cristo) se remiriam as espirituais e seriam expulsos os demônios de volta para o inferno.


Como agradecer a favor tão insigne que lhe fizera o Arcanjo? Sem saber que ali estava um anjo, pois este se apresentara como simples homem, Tobias filho manifestou o desejo de tornar-se seu escravo, chamando-o ainda pelo nome humano a que se havia cognominado: “Irmão Azarias, peço-te que ouças as minhas palavras. Ainda que eu me entregasse a ti por escravo, não poderia corresponder dignamente aos teus cuidados” (Tob 9, 1-2). Chegando em sua casa, disse a seu pai: “Meu pai, que galardão lhe daremos nós? Ou que coisa poderá haver proporcionada a seus benefícios? Ele levou-me e trouxe-me salvo, recebeu de Gabelo o dinheiro, fez-me ter mulher, da qual afugentou o demônio, encheu de alegria os seus pais, livrou-me a mim mesmo de ser tragado pelo peixe, a ti fez-te ver a luz do céu, e por ele fomos cheios de todos os bens. Que lhe poderemos dar que iguale tais benefícios? Mas rogo-te meu pai, que lhe peças que se digne ao mesmo tomar para si metade de tudo o que trouxemos” (Tob 12, 2-4).


Como conseqüência dos exorcismos, tanto o de Asmodeu quanto o dos demônios que atormentavam Tobias pai, o reino de satanás mais uma vez desmoronou naqueles tempos: “A ruína de Nínive está próxima; porque a palavra do Senhor não falta; e os nossos irmãos, que foram dispersos fora da terra de Israel, voltarão para ela. Todo o seu país deserto será povoado e a casa de Deus, que ali foi queimada, será reedificada de novo; para ela voltarão todos os que temem a Deus. Os gentios abandonarão os seus ídolos, virão a Jerusalém, habitarão nela, e nela se alegrarão todos os reis da terra adorando o (Messias) rei de Israel” (Tob 14, 6-9).


Tobias pai, ao completar 102 anos faleceu e foi sepultado com honras em Nínive. Segundo o relato bíblico, ficou cego aos 56 anos de idade, e, tendo vivido 42 anos após recuperar a visão, significa que durou 4 anos sua cegueira.


Após pagar as “dívidas” de seus pais nesta vida, tem um fim ditoso e feliz


Assim conclui a Bíblia sobre o fim de Tobias filho:


“Sucedeu que Tobias, depois da morte de sua mãe, saiu de Nínive com sua mulher, os filhos, e os filhos de seus filhos e voltou para casa de seus sogros. Encontrou-os ainda com saúde numa ditosa velhice, tomou cuidado deles, ele mesmo lhes fechou seus olhos e tomou posse de toda a herança da casa de Raguel. Viu os filhos de seus filhos até a quinta geração.


“Tendo vivido noventa e nove anos no temor do Senhor, sepultaram-no com alegria. Toda a sua parentela e toda a sua geração perseverou no bem viver, no santo procedimento, de modo que foram amados tanto por Deus como pelos homens e por todos os habitantes do país” (Tob 14, 14-17).


Haverá um tempo em que Deus abolirá esta lei


Isto ocorrerá quando a humanidade estiver no fim, isto é, próximo do fim do mundo. No final dos tempos esta lei de que os filhos podem pagar aqui na terra pelos pecados dos pais se extinguirá. Isto por uma causa muito simples: não haverá mais tempo para cumprimento das penas temporais aqui na terra, sendo que a intensidade dos sofrimentos dos fins dos tempos suprirá o fator tempo.


A extinção desta lei está em Jeremias: “Naqueles dias não se ouvirá mais dizer: os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos são os que ficaram botos” (Jer 31, 29). Aquele que “comer uva verde”, isto é, pecar contra a lei de Deus “...cada um morrerá na sua iniqüidade; todo o homem que comer uvas verdes, a esse é que ficarão botos os dentes” (Jer 31, 30). Isto é, não mais serão os filhos que pagarão as penas temporais dos pais, e sim, eles mesmos.


Para tanto, todos receberão de Deus graças especiais, num reino messiânico universal, onde impere completamente as graças divinas. Chegado aqueles tempos, diz Jeremias, Deus imprimirá sua lei nas entranhas dos homens, escrevê-la-ás nos seus corações, ninguém ensinará mais a seu próximo, nem a seu irmão, porque Deus dará um grande perdão, já que chegou o fim dos tempos.


No mesmo sentido assim falou o Profeta Ezequiel: “Por que é que convertestes em provérbio esta parábola na terra de Israel, dizendo: Os pais comeram as uvas em agraço, e os dentes dos filhos é que se acham botos? Juro, diz o Senhor Deus, que esta parábola não passará mais entre vós por um provérbio em Israel. Eis que todas as almas são minhas; como é minha a alma do pai, assim o é também a alma do filho; a alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18, 2-4). Mas há uma condição para que estas almas pertençam a Deus, ei-la: “Se um homem for justo e proceder conforme e equidade e a justiça; se não comer nos montes e não levantar os seus olhos para os ídolos da casa de Israel; se não ofender a mulher do seu próximo e não se juntar com a menstruada; se não entristecer ninguém, se der o penhor ao seu devedor, se não tirar nada do alheio por violência, se der do seu pão a quem tem fome e ao nu cobrir com vestido; se não emprestar com usura e não receber mais do que o que emprestou; se afastar a sua mão da iniqüidade e sentenciar com justiça entre homem e homem; se andar nos meus preceitos e guardar os meus mandamentos, para proceder segundo a verdade; este tal é justo, viverá certissimamente, diz o senhor Deus” (Ez 18, 5-9).


O mesmo Profeta dirá, adiante, que os filhos de maus pais morrerão se praticarem as mesmas iniqüidades, enquanto que os bons filhos viverão (Ez 18, 10-18). O termo morrer, no caso, significa perder a posse da graça divina. Foi com base nesse pressuposto que os judeus interrogaram Nosso Senhor sobre de quem havia a culpa pela morte dos 18 homens como conseqüência da queda da torre de Siloé. O Divino Mestre respondeu dando a entender que a morte não é o pagamento de dívidas (e sim a penitência), quando disse: “Assim como também aqueles dezoito homens sobre os quais caiu a torre de Siloé, e os matou, julgais que eles também foram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não, eu vo-lo digo; mas, se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo” (Lc 13, 4-5).

JURACI JOSINO CAVALCANTE - juracuca@hotmail.com