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quinta-feira, 2 de abril de 2026

NOSSO SENHOR JESUS CRISTO PRATICOU OS MAIS EXCELENTES ATOS DE AMOR

 



O Reino de Cristo, finalmente, deveria ser o reino do amor. São Francisco de Sales escreveu talvez a mais completa obra que trata do amor de Deus, denominada exatamente “Tratado do Amor de Deus”. E nela consta a forma como Nosso Senhor Jesus Cristo praticou os mais excelentes atos de amor, realçando que neles estava o cerne de sua regência sobre os homens:

“1º. – Amou-nos com amor de complacência, porque cifrou as suas delícias em estar com os filhos dos homens (Prov. 8, 31) e atrair o homem a si, fazendo-se homem como ele.

2º. – Amou-nos com amor de benevolência, derramando a própria Divindade no homem, elevando o homem até Deus.

3º. – Uniu-se a nós por uma incompreensível conjunção, aderindo e ligando-se à natureza tão fortemente, indissoluvelmente e infinitamente, que coisa alguma foi jamais tão unida e ligada à humanidade, como o é agora a augustíssima Divindade na pessoa do Filho de Deus.

4º. – Derramou-se todo em nós, e por assim dizer, abismou a sua grandeza, para a reduzir às mesquinhas proporções da nossa pequenez; por isso se chamou “fonte de água viva” (Jer. 2, 13), orvalho e chuva do Céu (Is. 45, 8).

5º. – Esteve em êxtase, não só, diz São Dinis, em virtude do excesso de sua amorosa bondade, que o arrebatou para fora de si, estendendo a sua Providência a todas as coisas e encontrando-se em todas as coisas, mas também porque, como diz São Paulo (Fil. 2, 7), Jesus esqueceu-se de si, abstraiu-se de si, despojou-se da própria grandeza, da sua glória, apeou-se do trono da sua incompreensível majestade, e se é mister tal expressão, “aniquilou-se”, para descer até à nossa humanidade e encher de sua Divindade o nosso ser, saciar-nos de sua bondade suprema, elevar-nos à sua dignidade, e dar-nos a divina natureza de  “filhos de Deus”.

“E Aquele de quem se escreveu tantas vezes: “Eu vivo em mim, disse o Senhor” pode depois dizer na linguagem de seu Apóstolo: “Eu vivo, mas não sou eu mesmo que vivo, é o homem que vive em mim (Gal 2, 20); A minha vida é o homem, e morrer por ele é o meu lucro (Fil 1, 21); A minha vida oculta-se com o homem em Deus (Col. 3,3(.

“Aquele que antes habitava em si, habita agora em nós, e O que viveu durante a sucessão dos séculos no “seio do seu eterno Pai” (Jo 1, 8), vestiu-se da mortalidade no seio de sua Mãe temporal; Aquele que vivia eternamente da existência divina, viveu temporariamente da vida humana, e Aquele que nunca, eternamente, deixara de ser Deus, será, perpetuamente também, homem, de tal modo o amor do homem o arrebatou e elevou ao êxtase!

6º. – Admirou muitas vezes por dileção, como fez com o Centurião (Mt 8, 10) e a Cananéia (Mt 15, 28).

7º. – Atentou no jovem que até então observara os mandamentos e desejava adianta-se na perfeição (Mc 10, 21).

8º. – Descansou amorosamente em nós, e até com suspensão de sentidos no ventre de sua puríssima Mãe, e durante a sua infância.

9º. – Teve incomparáveis ternuras para as criancinhas, que abraçava, acalentando-as com amor (Mc 10, 16); para Marta e Madalena (Jo 11, 5), para Lázaro, por quem chorou (Jo 35, 36), como pela cidade de Jerusalém (Lc 19, 41).

10º. – Animou—se de incomparável zelo, que, como diz São Dionísio, se converteu em ciúme, desviando, enquanto nele habitou, todo o mal da sua muito amada natureza humana, com perigo e à custa da própria vida; afugentando o diabo, “rei do mundo” (Jo 16, 30), que parecia ser seu rival e companheiro.

11º. – Teve milhares de amorosos desfalecimentos; pois de que procederiam aquelas divinas palavras: “Eu hei de ser batizado com batismo de sangue; e como me sinto angustiado e ansioso por que ele se realize?” (Lc 12, 50).  Ainda se não aproximava a hora em que havia de ser batizado no próprio sangue e já suspirava por sê-lo, porque o amor que nos tinha O obrigava a livrar-nos da morte eterna, à custa da própria vida.

“Por isso esteve triste e suou o sangue da agonia no Jardim das Oliveiras (Mt 26, 37-38), não só em virtude da extrema dor, que a sua alma sentia na parte inferior da razão, mas pelo supremo amor que nos dedicava na parte superior dela: a dor dava-lhe o horror da morte e o amor um extraordinário desejo de a consumar. De modo que se lhe travou no espírito um combate rude e uma cruel agonia se manifestou entre o desejo e o horror da morte, até à grande efusão do sangue, que correu como fonte de água viva, jorrando pelo solo.

12º. – Enfim, Teotimo, este divino Amante morreu no meio das chamas e ardores da dileção, pela caridade que tinha por nós e pela força e virtude do amor, isto é, morreu amando, morreu por amor e de amor.

“Posto que aqueles cruéis suplícios bastassem para fazer morrer quem quer que fosse, não podia contudo a morte penetrar na vida d'Aquele que tem as chaves de ambas (Apoc 1, 18) se o divino amor, que governa e maneja essas chaves, não  abrisse as portas à morte, para esta poder lançar-se sobre aquele divino corpo e arrebatar-lhe a vida. O amor não se contentaria com o fazer mortal por nós se lhe não desse a morte.

“Foi por eleição, e não por força do mal, que Ele morreu: “Ninguém me tira a vida”  (Jo 10, 17-18), disse ele, “sou eu que a deixo e a tiro a mim mesmo; tenho o poder de a deixar e de a reaver quando quiser. Ofereceu-se, diz Isaías (Is 53, 7) porque quis.

“Não se diz, portanto, que o seu espírito voou, deixando-O e separando-se d’Ele; mas ao contrário, que Ele despediu o seu espírito, soltou-o e entregou-o e pô-lo nas mãos de seu Eterno Pai (Mt 27, 50); tanto que Santo Atanásio nota que Ele abaixou a cabeça para morrer, consentindo e facilitando a vinda da morte, que, de outro modo, não ousaria aproximar-se-lhe, e soltando um grande grito, entregou o seu espírito a seu Pai (Lc 23, 46), para provar que assim como tinha força e alento para não morrer, também tinha suficiente amor para não poder viver, sem fazer ressuscitar com a sua morte aqueles que, sem isso, não podiam jamais evitar a morte, nem aspirar à verdadeira vida.

“Foi, portanto, o sacrificador da própria existência, foi quem ofereceu a seu Pai, e se imolou por amor, ao amor, para o amor, pelo amor e de amor.

“Não podemos no entanto afirmar que esta amorosa morte do Salvador se verificasse à maneira de arrebatamento, porque o objeto pelo qual a sua caridade o levou à morte não era tão amável que pudesse arrebatar para si aquela divina alma, que saiu do corpo a modo de êxtase, impelida pela afluência e força do amor.

“À semelhança da mirra, que expele o primeiro  licor, pela sua grande abundância, sem que ninguém o lance fora, nem o tire, também o mesmo Jesus, como já expliquei, disse: “Ninguém me tirou nem arrebatou a alma; fui eu que voluntariamente a dei.

“Ah!  Senhor, que extraordinário incentivo para nos entusiasmardes nos exercícios do santo amor ao Salvador divino, que é tão bom, o vermos que Jesus os praticou com tão excessivo amor por nós, que somos tão maus!

“Vês, Teotimo, como a caridade de Jesus Cristo nos obriga?”  (II Cor 5, 14).

 

(“Tratado do Amor de Deus” – São Francisco de Sales – Livraria Apostolado da Imprensa, págs. 489/493)


terça-feira, 24 de janeiro de 2023

SÃO FRANCISCO DE SALES

 




 Apontando-nos os Santos como exemplo, a Igreja Católica destrói, sem argumentar, a pretensa ignorância e humildade de condição dos que seguem os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Encontramos, de fato, entre eles, muitos que se dedicaram durante a vida a misteres mais humildes e que, muitas vezes, desdenharam a instrução, para cultivarem apenas a verdadeira sabedoria, que é o amor de Deus. Porém, ao lado deles, e em não menor número, se acham reis, rainhas, nobres e sábios, relembrando quotidianamente, e com a força irrecusável dos fatos, que seguir a Nosso Senhor Jesus Cristo nada mais exige do que a boa vontade.

A condição social e a ciência são, separadamente, os dois obstáculos que os incrédulos julgam existir para a difusão da Igreja. E a Igreja responde-lhes com a vida de um São Francisco de Salles, que aliava à nobreza de sua família uma ciência invulgar adquirida com brilhantismo nos melhores colégios de França.

São Francisco foi enviado pelo pai a Paris para estudar. Sua mãe, no entanto, que temia pela virtude do filho assim abandonado numa grande cidade, despediu-se dele recomendando-lhe insistentemente a frequência aos Sacramentos, afirmando preferir vê-lo morto a saber que um dia tivesse cometido um pecado mortal.

São Francisco progrediu rapidamente nos estudos, fazendo-se admirado pelos professores e colegas, não só pela sua inteligência, como pela virtude que conseguia manter no meio de tantos perigos, recebendo frequentemente os Sacramentos.

Nosso Senhor desejava, no entanto, grandes coisas de São Francisco e por isso submeteu-o a uma aridez completa com a ideia de que estava predestinado ao inferno, de nada lhe valendo todo o esforço empregado para se salvar.

Obcecado por essa ideia, São Francisco, um dia, ajoelhou-se aos pés de Nossa Senhora, e entre lágrimas, rezou a oração de São Bernardo (o “Lembrai-vos”), acrescentando-lhe: “Ó minha Senhora e Rainha, sede minha intercessora junto de Vosso Filho, perante o qual não me atrevo a comparecer. Queridíssima Mãe, se tiver a infelicidade de não amar a Deus no outro mundo, alcançai-me a graça de amá-lo o mais possível enquanto aqui estou!”

Desde esse dia cessou completamente essa tentação. Nosso Senhor ouviu a oração belíssima de São Francisco, que se entregava completamente à sua vontade, a ponto de não titubear em amá-Lo e servi-Lo neste mundo sem nenhuma recompensa no outro.

Acabados os estudos, São Francisco ordenou-se apesar da oposição do pai e o Papa nomeou-o preboste de Genebra, que era o centro da heresia calvinista.

Desdobrou-se São Francisco em atividade, procurando por todas as formas destruir a heresia. Setenta e dois mil calvinistas ele trouxe para o seio da Igreja Católica, e quando pela morte do Bispo de Genebra a diocese passou para suas mãos, visitou-a inteira a pé exortando os fiéis à perseverança e procurando mostrar aos hereges os seus erros.

Vinte anos ele dirigiu a diocese de Genebra, apesar das ciladas que armavam os calvinistas, para retirar do seu caminho o grande Bispo que tantos claros abria em suas fileiras, apenas com a palavra, a mansidão e o exemplo.

Aos 56 anos, São Francisco entregou a Deus a sua alma. 23 anos depois o Papa Alexandre VII inseriu o seu nome no catálogo dos Santos e em 1933 foi declarado Doutor da Igreja e Padroeiro da Imprensa e dos jornalistas.

São Francisco foi durante a vida um verdadeiro lutador da Igreja contra a heresia, e hoje em dia a imprensa católica é também obrigada, ao mesmo combate, pois o mundo se abisma cada vez mais na heresia e na dissolução dos costumes, com a cumplicidade da chamada imprensa neutra.

Só a Imprensa Católica se oporá a essa onda, e só o espírito de sacrifício, que animava São Francisco de Sales a combater a heresia calvinista em sua própria sede, poderá fazer com que ela vença a indiferença que a cerca e possa combater eficientemente contra a Imprensa neutra, que esconde atrás de sua suposta neutralidade, um verdadeiro ódio à Igreja de Nosso Senhor.

Que São Francisco de Sales interceda junto a Nosso Senhor, d’Ele conseguindo a graça sem a qual nada poderá ser feito e dando a todos os jornalistas católicos o espírito de sacrifício necessário para sua obra.

 (Plínio Corrêa de Oliveira – “Legionário”, 23 de janeiro de 1938, pág. 5)

 


sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

SOBRE A CASTIDADE MATRIMONIAL - I

 





A castidade matrimonial é hoje muito esquecida nas famílias ou mesmo quase não se fala dela entre casais cristãos. Muitos se perguntarão se um cônjuge ainda guarda a castidade. É o que veremos nos textos abaixo. Comecemos por um texto de São Francisco de Sales:

 

1. Da honestidade do leito conjugal

 

“O leito conjugal deve ser imaculado, como o chama o Apóstolo, isto é, isento de desonestidades e outras torpezas profanas. Porque o santo matrimônio foi primariamente instituído no Paraíso terreal, onde até então nunca tinha havido nenhum desconcerto da concupiscência, nem coisa desonesta.

Há alguma semelhança entre os deleites vergonhosos e os do comer: porque ambos dizem respeito à carne, embora os primeiros, em razão de sua veemência brutal, se chamem completamente carnais. Explicarei, pois, o que não posso dizer de uns pelo que direi dos outros.

1. O comer é destinado a conservar as pessoas. Ora como o comer simplesmente, para alimentar e conservar a pessoa, é uma coisa boa, santa e prescrita; assim o que se requer no matrimônio para a geração dos filhos, e multiplicação das pessoas, é uma coisa boa e muito santa, porque é o fim principal do casamento.

2. Comer, não para conservar a vida, mas para conservar a recíproca conversação e condescendência que devemos uns aos outros, é coisa sobremaneira justa e honesta: e da mesma sorte a recíproca satisfação dos cônjuges no santo matrimônio é chamada por São Paulo dívida; mas dívida tão grande que ele não quer que uma das partes se possa dela isentar sem o livre e voluntário consentimento da outra; e isso nem mesmo para as práticas da devoção, que é o que me levou a dizer as palavras que a este respeito deixei no capítulo da Santa Comunhão (parte II, cap. XX): quanto menos, pois se poderão eximir por caprichosas afetações de virtudes, ou pelas rixas e arrufos.

3. Como os que comem pela obrigação do mútuo trato devem comer livremente, e não como por força, e ademais hão de procurar mostrar ter bom apetite; assim também o débito conjugal deve ser satisfeito fielmente, francamente, exatamente como se fosse com esperança de sucessão, ainda que por alguma circunstância não haja semelhante esperança.

4. Comer não pelas duas primeiras razões, mas simplesmente para contentar o apetite, é coisa tolerável, mas não louvável. Porque o simples prazer do apetite sensual não pode ser coisa suficiente  para tornar uma ação louvável. Basta, porém para que seja tolerável.

5. Comer, não por simples apetite, mas por excesso e desordem, é coisa mais ou menos censurável, conforme o grande ou pequeno excesso.

6. Ora, o excesso no comer não consiste somente na grandíssima quantidade, mas também no modo e maneira como se come. É caso, para notar, cara Filotéia, que o mel, tão próprio e salutar para as abelhas, lhes pode, contudo ser tão nocivo que às vezes as põe doentes, como quando comem em demasia na primavera; Porque isto traz-lhes fluxo do ventre, e algumas vezes fá-las morrer inevitavelmente, como quando estão cobertas de mel no focinho e nas asas.

Na realidade, o comércio conjugal, que é tão santo, tão justo, tão recomendável, tão útil à república, é, contudo em certos casos perigoso para os que o praticam: porque às vezes faz adoecer as suas almas gravemente com o pecado venial, como sucede com os simples excessos, e algumas vezes dá-lhes a morte pelo pecado mortal, como sucede quando a ordem estabelecida para a geração dos filhos é violada e pervertida; nesse caso, consoante o desvio dessa ordem é maior ou menor, os pecados são mais ou menos abomináveis, mas sempre mortais. Porque, como a geração dos filhos é o primeiro e principal fim do matrimônio, nunca se pode licitamente  aberrar da ordem que ele requer: embora por qualquer acidente, não possa por então levar-se a efeito; como sucede quando a esterilidade ou a gravidez atual estorvam a produção e a geração; porque nestes casos o comércio corporal não deixa de ser justo e santo, contanto que se observem as regras de geração: não podendo jamais qualquer acidente prejudicar a lei que o fim principal do matrimônio impôs.  Na verdade, a infame e execrável ação de Onan, no seu matrimônio, era detestável aos olhos de Deus, como diz o citado texto sagrado no capítulo trigésimo oitavo do Gênesis; e embora alguns heréticos do nosso tempo, mil vezes mais censuráveis que os cínicos (de que fala São Jerônimo sobre a Epístola aos Efésios) tenham querido dizer que era a perversa intenção deste malvado que desagradava a Deus, todavia a Escritura fala de outro modo, e assegura em particular que a mesma coisa que ele fazia era detestável e abominável aos olhos de Deus.

7. É uma verdadeira prova de um espírito truanesco, vil, abjeto, e infame, pensar nas iguarias e nos manjares antes do tempo da refeição, e ainda mais, quando depois dela se saboreia o prazer que se teve, comendo, tomando-o por assunto de conversas e pensamentos, e refocilando o espírito na lembrança do prazer que se sentiu ao tragar os bocados, como fazem aqueles que antes do jantar estão com o espírito preocupado no assador, e depois de jantar nos pratos; pessoas dignas de serem moços de cozinha, que fazem, como diz São Paulo, do seu ventre um deus; as pessoas honradas e dignas não pensam na mesa senão quando se sentam a ela, e depois da refeição lavam as mãos e a boca para não ficar com o gosto, nem com o cheiro do que comeram. O elefante não passa de um grande animal, mas é o mais digno que vive sobre a terra, e que tem mais instinto; eu quero dizer-te aqui um rasgo da sua honestidade: nunca muda de fêmea e ama ternamente a que escolheu, com a qual não tem coito senão de três em três anos, e isto por apenas cinco dias, e tão secretamente que nunca é visto neste ato; é, porém bem visto no sexto dia, no qual, antes de tudo, vai direito a algum rio, onde lava todo o corpo, sem querer de modo algum voltar ao rebanho antes de se ter purificado. Não são belas e honestas as qualidades deste animal pelas quais convida os casados a não ficarem presos de afeição às sensualidades e prazeres, que segundo o seu estado tiveram; mas, passadas estas, a lavar delas o coração e o afeto, e a purificar-se o mais cedo possível, para poder depois praticar com toda a liberdade de espírito as outras ações mais puras e elevadas?

Neste aviso consiste a perfeita prática da excelente doutrina que São Paulo ensina aos Coríntios: O tempo é breve, lhes diz, o que resta é que os que têm mulheres sejam como se não as tivessem. Porque, segundo São Gregório, tem uma mulher como se não a tivesse aquele que toma as consolações corporais com ela de tal maneira que por isso não é desviado das solicitudes espirituais. Ora, o que se disse do marido entende-se reciprocamente da mulher. Os que usam deste mundo, diz o mesmo Apóstolo, hão de ser como se não usassem; que todos, pois usem do mundo, cada um conforme o seu estado: mas de tal sorte que, não lhe ganhando afeição, se fique livre e pronto para servir a Deus, como se dele não usasse. É o grande mal do homem, diz Santo Agostinho, querer gozar das coisas de que só deve usar, e querer usar daquelas de que só deve gozar: devemos gozar das coisas espirituais, e das corporais somente usar; e quando o uso destas se converte em gozo, a nossa alma racional converte-se, outrossim, em alma brutal e bestial.

Creio ter dito tudo o que queria dizer, e dado a entender, sem dizer, o que queria não dizer”. [1]

 

(Extraído de “A Felicidade Através da Castidade”, -Págs. 281/283 – Desejando receber o texto integral desta obra enviar mensagem para meu e.mail juracuca@gmail.com )

 



[1] "Filotéia ou Introdução à Vida Devota" - São Francisco de Sales - págs. 347/352.

 


sábado, 1 de outubro de 2022

SÃO FRANCISCO DE SALES FALA SOBRE A CASTIDADE E OS CONSELHOS PARA CONSERVÁ-LA

 


A castidade é lírio entre as virtudes e já nesta vida nos torna semelhantes aos anjos. Nada há de mais belo que a pureza e a pureza dos homens é a castidade. Chama-se a esta virtude honestidade; e à sua prática de honra.

Denomina-se também integridade; e o vício contrário, corrupção. Numa palavra, entre as virtudes tem esta a glória de ser o ornamento da alma e do corpo ao mesmo tempo.

Nunca é lícito usar dos sentidos para um prazer impuro, de qualquer maneira que seja, a não ser num legítimo matrimônio, cuja santidade passa por uma justa compensação reparar o desaire que a deleitação importa. E no próprio casamento ainda há de se guardar a honestidade da intenção, para que, se houver alguma imperfeição no prazer, não haja senão honestidade na vontade que o realiza. O coração puro é como a madrepérola, que não recebe uma gota de água que não venha do céu, pois ele não consente em nenhuma prazer afora o do matrimônio que é ordenado pelo Céu. Salvo isso, nem sequer nele pensa voluptuosa, voluntária e demoradamente.

Quanto ao primeiro grau desta virtude, Filotéia, não admitas a menor coisa de tudo aquilo que é proibido como desonesto, isto é, geralmente falando, todas as coisas semelhantes que se fazem fora do estado matrimonial ou no matrimônio contra as regras deste estado.

Quanto ao segundo grau, restringe, quanto possível for, as deleitações supérfluas e inúteis, posto que honestas e permitidas.

Quanto ao terceiro grau, não te afeiçoes aos deleites necessários e de preceito; pois, embora seja necessário conformar-se aos que o são segundo a instituição e fim do matrimônio, não se deve apegar a eles o espírito e o coração.

Demais, esta virtude é sumamente necessária a todos os estados. No da viuvez a castidade deve ser de uma generosidade extrema, para precaver-se dos prazeres sensuais, não só quanto ao presente e ao futuro, mas também ao passado; lembrando prazeres já havidos, a imaginação excita as más impressões. É por isso que Santo Agostinho tanto se admirava da pureza de seu amado Alípio, que já não conservava nem o sentimento nem a lembrança de sua vida desregrada anterior. E, com efeito, é sabido que os frutos ainda inteiros se conservam facilmente por muito tempo; mas, se forem cortados ou machucados, o único meio de conservá-los é pô-los em conserva com açúcar ou mel. Do mesmo modo eu digo que, enquanto a castidade estiver intacta, se têm muitos meios de conservá-la; mas, uma vez perdida, só pode ser conservada pela devoção que, pelas suas doçuras, muitas vezes tenho comparado ao mel.

No estado virginal a castidade exige uma muito grande simplicidade de alma e uma consciência muito delicada, para afastar toda sorte de pensamentos curiosos e elevar-se acima de todos os prazeres sensuais, por um desprezo absoluto e completo de tudo o que o homem tem de comum com os animais e que mais convém aos brutos que a ele. Nem por pensamento duvidem essas almas que a castidade é muito superior a tudo o que é incompatível com a sua perfeição; pois o demônio, como diz São Jerônimo, não podendo suportar esta salutar ignorância do prazer sensual, procura excitar nestas almas ao menos o desejo de conhecê-los e sugere-lhes idéias tão atraentes, embora inteiramente falsas, que muito as perturbam, levando-as, como acrescenta este santo padre, a dar imprudentemente grande estima ao que não conhecem.  É assim que muitos jovens, seduzidos pela ilusória e tola estima dos prazeres voluptuosos e por uma curiosidade sensual e inquieta, se entregam a uma vida desregrada, com perda completa dos seus interesses temporais e eternos; assemelham-se a borboletas que, pensando que o fogo é tão doce quão belo, se atiram a ele e se queimam nas chamas.

Quanto aos casados, é certo que a castidade lhes é necessária, muito mais do que se pensa, pois a castidade deles não é uma abstenção absoluta dos prazeres carnais, mas refrear-se neles.  Ora, como aquele preceito - "Irai-vos e não pequeis" - é mais difícil que o outro - "Não vos ireis nunca" - por ser bem mais fácil evitar a raiva do que regrá-la, assim também é mais fácil a abstenção total dos prazeres carnais do que a moderação neles. É certo que a santa licença que o matrimônio confere tem uma força e virtude particular para apagar a concupiscência, mas a fraqueza dos que usam dela passa facilmente da permissão á dissolução, do uso ao abuso. E como vemos muitos ricos roubarem, não por indigência, mas por avareza, também se vêem muitos casados excederem-se por intemperança e luxúria; porque a sua concupiscência é como um fogo cheio de veleidade, ardendo aqui e ali, sem se fixar em parte alguma. É sempre perigoso tomar remédios violentos. Tomando-se demais, ou se não forem bem dosados, prejudicam imensamente.  O matrimônio, entre outros fins, existe para remédio da concupiscência  e sem dúvida é ótimo remédio, mas violento e perigoso, se não for usado com discrição.

Noto ainda que, além das longas doenças, os vários negócios separam muitas vezes os maridos de suas mulheres.  E é por isso que os casados precisam de duas espécies de castidade: uma para a continência absoluta, naqueles casos de separação forçada, a outra, para a moderação quando estão juntos, na vida normal. Viu Santa Catarina de Sena muitos condenados ao inferno sofrendo atrozmente pelas faltas cometidas contra a santidade matrimonial. E isso, dizia ela, não tanto pela enormidade do pecado, porque assassínios e blasfêmias são pecados muito maiores, mas porque os que caem naqueles não têm escrúpulos e continuam assim a cometê-los por muito tempo. Já vês, pois que a castidade é necessária para todos os estados. "Segui a paz com todos" - diz o apóstolo - "e a santidade sem a qual ninguém verá a Deus". Ora, é de notar que por santidade ele entende aqui a castidade, como observam São Jerônimo e São Crisóstomo.  Não, Filotéia, ninguém verá a Deus sem a castidade; em seus  santos tabernáculos não habitará ninguém que não tenha o coração puro e, como diz Nosso Senhor mesmo, os cães e os desonestos serão desterrados daí; e: "Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus".

Outros conselhos de como conservar a castidade

Estejas sempre de sobreaviso para afastar logo de ti tudo o que te possa inclinar à sensualidade; pois este mal se vai alastrando insensivelmente e de pequenos princípios faz rápidos progressos. Numa palavra, é mais fácil fugir-lhe que curá-lo.

Parecem-se os corpos humanos com os vidros, que não se pode lavar juntos, tocando-se, sem correr perigo de se quebrarem, e com as frutas, que, embora inteiras e bem maduras, recebem manchas chocando umas com as outras. A água mais fresca que se quer conservar num vaso perde logo a sua frescura mal um animal a toca.

Nunca permitas, Filotéia, nem a outros nem a ti mesma, todo esse tocar exterior das mãos igualmente contra a modéstia cristã e contra o respeito que se deve à qualidade e á virtude duma pessoa; pois, ainda que não seja de todo impossível conservar o coração puro entre essas ações mais levianas que maliciosas, todavia sempre se recebe daí algum dano; nem falo aqui desses tatos desonestos que arruínam por completo a castidade.

A castidade depende do coração, quanto à sua origem, mas sua prática exterior consiste em moderar e purificar os sentidos; por isso podemos perdê-la tanto pelos sentidos  exteriores como por pensamentos e desejos do coração. É impudicícia olhar, ouvir, falar, cheirar, palpar coisas desonestas, quando nisso o coração se demora e toma gosto. São Paulo chega a dizer: "Meus irmãos, a fornicação nem se nomeie entre vós".

As abelhas não só não pousam num cadáver corrompido, mas até fogem do mau cheiro que exala.

Observa o que a Sagrada Escritura nos diz da Esposa dos Cantares: "Tudo aí é místico: suas mãos destilam mirra", e este líquido, como sabes, preserva da corrupção; "seus lábios são fitas de rubim vermelho", o que nos indica o seu pudor até à palavra menos desonesta; "seus olhos", são comparados aos "olhos da pomba", por causa da sua inocência; "suas orelhas têm brincos de ouro", desse metal precioso que significa a pureza; "seu nariz" é comparado ao "cedo do Líbano", cujo odor é suavíssimo e que tem uma madeira incorruptível. Que quer dizer tudo isso? A alma devota deve ser casta, inocente, pura e honesta em todos os sentidos exteriores.

Nunca trates com pessoas de indubitáveis costumes corrompidos, sobretudo se forem também imprudentes, como quase sempre o são.

Diz-se que os cabritos, tocando com a língua nas amendoeiras doces, tornam os seus frutos amargos; e essas almas brutais e infectas, falando a pessoas do mesmo sexo ou de sexo diferente, causam grande dano ao pudor, assemelhando-se também aos basiliscos[1] , que têm o veneno nos lábios e no hálito.

A contrário, procura a companhia de pessoas castas e virtuosas; ocupa-te muitas vezes com a leitura da Sagrada Escritura; porque a palavra de Deus é casta e torna castos os que a amam. Daí vem que Davi a compara a este pedra preciosa que se chama topázio e que tem a propriedade especial de mitigar o ardor da concupiscência.

Conserva-te ao lado de Jesus Cristo crucificado, quer espiritualmente - pela meditação, quer real e corporalmente - na santa comunhão. Sabes de certo que os que se deitam sobre aquela erva "agnus castus" vão tomando insensivelmente disposições favoráveis à castidade; estejas certo que, se teu coração descansar em Nosso Senhor, que é realmente o Cordeiro imaculado, bem depressa purificará tua alma, teu coração e teus sentidos, interiormente, de todos os prazeres sensuais. [2]

 Meio mais eficaz: o exercício da presença de Deus

São João Bosco, o Apóstolo da Juventude, assim fala sobre a castidade e os meios com que conservá-la:

“Toda virtude nos jovens é um precioso adorno que lhes faz amáveis a Deus e aos homens. Porém a virtude rainha, a virtude angélica, a santa pureza, é um tesouro tão valioso, que os jovens que a possuem se fazem semelhantes aos anjos de Deus, embora sejam homens mortais na terra. Serão como anjos de Deus: são palavras do Salvador. Esta virtude é como o centro a cuja volta se reúnem e conservam todos os dons e, se por desgraça, se perde, todas as demais virtudes estão perdidas. “Com ela me vieram todos os benefícios”, disse o Senhor.

“Porém esta virtude que os converte, queridos jovens, em outros tantos anjos do céu, “virtude que tanto agrada a Jesus e a Maria, é sumamente invejada pelos inimigos das almas”; por isto vem dar-lhe terríveis assaltos, para fazê-la perder, ou ao menos para que a mancheis. Por este motivo eu os sugiro algumas normas ou armas com as quais conseguireis certamente conservá-la e rechaçar o inimigo tentador. “A arma principal consiste em afastar-se dos perigos”.  A pureza é um diamante de grande valor. Se, levando um grande tesouro, o exponhais à vista de um ladrão, correis grave risco de ser assassinado. São Gregório Magno declarou que deseja ser roubado o que leva seu tesouro à vista de todo o mundo.

“Além da fuga dos perigos, praticai a freqüência da confissão, sincera-mente feita, e da comunhão devota, evitando todas aquelas pessoas que com obras ou palavras menosprezam esta virtude.

“Para prevenir os assaltos do demônio, lembro-os do aviso de Jesus: “Esta classe de demônios – quer dizer, a tentação contra a pureza – não se vencem senão com o jejum e a oração. Com jejum, ou seja, a mortificação dos sentidos”, pondo freio aos olhos e à gula, fugindo do ócio, dando ao corpo o repouso estritamente necessário. Jesus Cristo nos recomenda que recorramos à oração; porém que se trate de uma oração feita com fé e fervor, na qual “não se aconteça de parar até que a tentação seja vencida”.

“Possuís aliás uma arma formidável nas jaculatórias, invocando os nomes de Jesus, José e Maria.  Portanto, dizei amiúde: “Jesus meu, misericórdia. Jesus, salvai-me. Maria, concebida sem pecado, roga por mim que em ti confio. Maria, Auxílio dos Cristãos, rogai por mim. Sagrado Coração de Maria, sede a salvação da minha alma. Coração de Jesus, não quero ofender-te mais”.

“Ajuda, ademais, beijar o santo crucifixo, ou a medalha ou o escapulário de Maria. Porém, se todas estas armas não bastarem para deixar esta maligna tentação, então recorrei à “arma invencível da presença de Deus”.  Estamos nas mãos de Deus, que, como dono absoluto de nossa vida, pode mandar-nos a morte em qualquer momento. Como nos atreveremos, pois, a ofender-Lhe na sua presença?

O patriarca José, sendo escravo no Egito, foi provocado a cometer uma ação infame; porém em seguida respondeu a quem o tentava: “Como posso cometer tal coisa na presença de meu Senhor?” Acrescentai por vossa conta: “Como vou deixar-me induzir a cometer este pecado em presença de Deus, do Deus Criador,  do Deus Salvador, daquele Deus que pode privar-me instantaneamente da vida? E vou a fazê-lo na presença de Deus, que, enquanto Lhe ofendo, pode mandar-me às penas eternas do inferno?”  É impossível que alguém possa ser vencido durante as tentações se, enquanto se encontra nesse perigo, emprega o recurso da presença de Deus”.  [3]

 (Extraído de “A FELICIDADE ATRAVÉS DA CASTIDADE”, págs. 86/91 – Desejando receber o texto integral desta obra, favor enviar mensagem para o email juracuca@gmail.com – Juraci Josino Cavalcante)



[1] Basilisco era uma cobra fabulosa que matava somente com o olhar.

[2] "Filotéia ou Introdução à Vida :Devota" - São Francisco de Sales - Bispo e príncipe de Genebra - Ed. Vozes - págs. 228/236.

[3] São João Bosco – Obras Fundamentais – BAC –págs. 525/526


domingo, 2 de setembro de 2018

FASCÍNIO, MEIO EFICAZ DE MUDANÇA DE COMPORTAMENTO





Primeiramente temos que definir. O que é fascínio? Trata-se de uma atração. Não uma atração qualquer, mas um chamamento muito forte para determinada coisa, tão forte que se torna irresistível. Para tal atração se torna difícil resistir dado sua força de empuxe. Trata-se portanto de uma atração irresistível.
 
O fascínio pessoal
 
O fim último: o amor a Deus
Primeiro passo: o maravilhamento, uma graça externa
O fascínio atrai, como se disse, irresistivelmente, como que arrasta as pessoas em determinada direção. Mas o primeiro passo para isso é causar maravilhamento.  Um centurião romano, São Pacômio, quando ainda era pagão voltava da guerra e teve que acampar com seus soldados próximos a uma localidade de cristãos. Tal foi o seu maravilhamento vendo o procedimento dos cristãos que pediu para ser um deles, tornando-se depois não só cristão, mas mártir e santo.
São Francisco de Sales diz que esta graça externa, que nós chamamos de maravilhamento, é um impulso ou comoção provocado por Deus nos corações das pessoas para excitá-los ao bem. E desta forma “como um vento sagrado, nos impele para a atmosfera do santo amor, move a vontade, e pela impressão de um certo gozo celeste (pode ser um flash?), enternece-a, dilatando e desenvolvendo a inclinação natural que ela tem para o bem, de forma que esta mesma inclinação lhe sirva de meio para prender o nosso espírito; e tudo isto, como já disse, se faz “em nós e sem nós”, porque é a graça divina que nos precede desta maneira”.(1)
Para que se cause tal maravilhamento é necessário um desdobramento de si mesmo, um crescimento, uma ascese tal, que somente um milagre para que possamos chegar a tal ponto. Mas aquilo que não conseguimos fazer sozinhos, isolados, poderemos atingir juntos, é claro que por uma graça divina toda especial dada por Nossa Senhora.
E é tal a unção, o enlevo, o ar celestial que orvalha quando os Contra-Revolucionários estão juntos que irremediavelmente os outros se maravilharão. Poderão se maravilhar por causa dos rostos, das roupas, das vozes, das etiquetas ou até mesmo por verem o quanto sofrem abnegada e desinteressadamente, ou ouvindo falar sobre a cruz e as durezas da vida.  Depois de se maravilhar, caminhar juntos.
 
Diferença entre fascínio e admiração ou maravilhamento
O fascínio é uma atração, é o pender para determinado objetivo ou pessoa, é o caminhar irresistível em direção ao objeto de dileção. A admiração é apenas o pasmo, a contemplação enlevada pelo mesmo objeto, pessoa, ou algo que lhe digam respeito. O maravilhamento é a admiração cheia de entusiasmo.  Assim, alguém pode admirar mas permanecer estático e não ir ao encontro do objeto que contempla. Alguém pode admirar, por exemplo, a sinceridade de um seu inimigo. Isso ocorria até entre inimigos em guerra, como se conta o caso de um muçulmano que ordenou receber bem os soldados de São Fernando em frente a seu castelo porque o admirava como homem bravo e leal.
 Isso ocorreu também com muitos adversários até do Senhor Dr. Plínio, Corrêa de Oliveira, que era admirado até por seus inimigos, mas nenhum deles fascinou, ou se fascinou pelo Dr. Plinio, pôs-se logo em movimento o “anti-fascínio” para não mudar de comportamento. Fascinado, ele teria que ceder interiormente e se inclinar para o seu adversário, que é o primeiro passo para a conversão. Num segundo passo esta pessoa deve se entusiasmar e se maravilhar, mas somente o fascínio a fará acordar e caminhar em direção do objeto fascinador.   
 
O fascínio maravilha e arrasta
Por que? Porque o fascínio tem o condão de fazer caminhar, de atrair em direção dos fascinadores, fazendo com que os outros desejem ser semelhantes a eles.  Quando nasce o desejo vem depois a vontade e os passos seguintes em direção da conversão. São vários passos, mas aí tudo passa a depender da própria pessoa. Primeiro, desejar ser igual, ou pelo menos parecer com os Contra-Revolucionários; depois, desejar ser um deles e caminhar juntos na mesma Causa.
O fascínio faz-nos ter um comprazimento interior em contemplar espelhado em outrem o bem que amamos, uma espécie de gozo interior, uma alegria, um entusiasmo por ver aquele bem sendo posto em prática. 
É como se alguém estivesse dormindo e sonhasse com algo de fantástico e maravilhoso. Acorda e vê que aquele algo existe e está bem na sua frente. Mas para desfrutá-lo tem que sair de sua modorra sonolenta, levantar-se e ir em busca do bem que encontrou. Mas se achar alguém que lhe ajude a levantar-se pegando em sua mão, sua vontade será mais fortalecida e mais decidida.
Vejamos como São Francisco de Sales nos conta o exemplo da conversão de São Pacômio:
“São Pacômio, quando era ainda soldado muito jovem, e sem conhecimento de Deus, alistado sob a bandeira do exército que Constâncio levantara contra o tirano Maxêncio, veio com o regimento a que pertencia aquartelar-se perto duma pequena cidade, não muito distante de Tebas, onde não somente ele, mas todo o exército se achou em extrema penúria de víveres.
Tendo isto chegado ao conhecimento dos habitantes da pequena cidade, que por um feliz acaso eram fiéis a Jesus Cristo, e por conseqüência amigos e caritativos para com o próximo, imediatamente forneceram aos soldados tudo o que precisavam, mas com tanta solicitude, urbanidade e desvelo, que Pacômio, transportado de admiração, perguntou que nação era aquela, tão benévola, afável e generosa. Disseram-lhe que eram Cristãos, e inquirindo novamente sobre a lei e maneira de viver deles, soube que acreditavam em Jesus Cristo, Filho único de Deus, e que faziam bem a toda sorte de pessoas, com a firme esperança de receber uma ampla recompensa no Céu. Ah! Teotimo, o pobre Pacômio, apesar de sua boa índole, dormia ainda nesse tempo no leito da infidelidade; e eis que de repente, Deus bate à porta do seu coração, e pelo bom exemplo daqueles cristãos, como por uma doce voz, chama-o, acorda-o, e dá-lhe a primeira impressão do calor vital do seu amor.  Apenas ouviu falar, como acabo de dizer, da amantíssima lei do Salvador, cheio duma nova luz e consolação, retirou-se à parte, e refletindo algum tempo em si mesmo, levantou as mãos ao céu, e com um profundo suspiro, exclamou:  Ó Senhor Deus, que fizestes o céu e a terra, se vos dignardes lançar os vossos olhos sobre a minha baixeza, e sobre a minha aflição, para me dardes o conhecimento da vossa Divindade, prometo servir-vos, e obedecer toda a minha vida aos vossos mandamentos”.  Depois desta súplica e promessa, o amor do verdadeiro bem e da piedade tomou um tal aumento nele, que nunca mais cessou de praticar mil e mil exercícios de virtude”. (2)
Mais adiante São Francisco de Sales comenta: “Por certo aquele transporte de admiração que ele teve, outra coisa não foi, senão o seu acordar, pelo qual Deus tocou, como o sol toca a terra, com um raio de luz, que o encheu dum grande sentimento de gozo espiritual”... (3) 
Quer dizer, São Pacônio fascinado, maravilhou-se; maravilhado encheu-se de entusiasmo, isto é, de Deus, da graça divina; cheio de entusiasmo, converteu-se; convertido, tornou-se santo.
 
O “anti-fascínio”
Tem-se que fugir de um espírito contrário ao fascínio. Trata-se de apresentar-se como porta-voz das idéias novas revestido de “acessórios” que não se coadunem com elas, podendo causar rejeições e antipatias psicológicas por causa de algo que não se refira diretamente às idéias. Por exemplo, um elemento que propugne a castidade, mas apresenta-se ao lado de uma mulher mal vestida; um outro que lute contra o socialismo, mas tenha praticado ou ache justo que haja pequenos furtos; ou ainda, defender um regime político austero mas aceite sinecuras e vantagens pessoais.
O que mais pode criar esse tipo de “anti-fascínio” é a tentação da vida cheia de deleites, pois, imperceptivelmente a pessoa poderá estar fascinando os demais para o lado cômodo da vida. Tem-se que pregar a cruz, mas, ao mesmo tempo, vivenciando-a diariamente a olhos vistos, como dizia São Paulo. Alguém que pregue o sofrimento, mas reclame da comida, da dormida ou do cansaço, demonstrando às vezes impaciência com certos desconfortos, está pondo em ação o “anti-fascínio” para a pregação de suas idéias.
 Como detectar isto?.
Se alguém quiser matar em seu interior o fascínio para o Bem deverá tomar algumas atitudes:
-          alimentar os fascínios interiores por algumas facetas do mal: os deleites, às vezes legítimos, por coisas que não levam ao fim último;
-          aspirar posições maiores de mando e poder;
-          não desistir e se contentar com as tentações de mundanismo;
-          aspirar antes de tudo sociabilidade e prestígio;
-          cobiçar bens materiais e riquezas;
-          não fugir dos prazeres sensitivos: desde a simples comida até o carnal.   
 
O fascínio e a opinião pública
Todos nós desejamos participar do pensamento coletivo, tendemos naturalmente a pensar de acordo com as pessoas com quem convivemos. Daí a moda ter tanta influência nas pessoas. Assim, a moda fascina e arrasta as pessoas a pensar de acordo com os ditadores dela, não só a pensar, mas a viver a se comportar conforme um figurino apresentado por um grupo, modelos e mitos sugeridos para serem seguidos.
Para que alguém rompa com o ambiente e seja contra o pensamento coletivo é preciso preencher alguns requisitos: se faz isto isoladamente será tido como louco ou idiota, remando contra a maré, mas se pretende criar uma dissidência e formar um grupo diferente dos demais se tornará um herói e terá muito que sofrer; se participa de um grupo de pensamento, embora minoritário, só se sentirá bem à vontade quando estiver em seu grupo, pois estando no meio dos demais o respeito humano talvez o faça perder a coragem de ser diferente. Mas tratando-se de um grupo já numeroso, atuando sempre coletivamente na sociedade, ele conseguirá influenciar a sociedade, fascinará alguns que os seguirão e engrossarão suas fileiras. Foi assim que a Revolução sempre agiu. É assim que a CR deve atuar.
Façamos desta forma a nossa moda: a moda da honorabilidade, da respeitabilidade, da bondade, da religiosidade, etc. e seremos em breve um povo novo.
São Tomás disse que os semelhantes se alegram e se atraem (“Similis simili gaudet”) e em decorrência os opostos se repelem. Quer dizer que esta atração só é possível entre as pessoas que tenham alguma similaridade. Só funciona entre os bons, ou que possuam algo de bondade; ou entre os maus, ou que possuam algo de maldade. Mas o bom não fascina o mau, nem o mau fascina o bom, a não ser de uma forma imperceptível.
E toda atração supõe que haja uma inclinação preexistente. Inclinar-se é pender para determinada coisa. Como todos os homens possuem inclinações tanto para o bem quanto para o mal, o fascínio poderá exercer sua influência para um e outro a depender das inclinações recônditas da alma de cada um.
Assim, o homem se fascina pela música, pela dança, pela tecnologia, pelo gozo da vida, pela vida paradisíaca e é ao mesmo tempo atraído fortemente por todas estas coisas. a televisão, por exemplo, exerce um fascínio impressionante sobe as pessoas, a tal ponto que praticamente inebria seus espectadores. Existem pessoas que se fascinam pela sensualidade, pelo liberalismo extremado, pelo socialismo igualitário, outras pelo deboche, pela irreverência, etc. Há sempre um ponto de inclinação para onde as pessoas podem se fascinar.
Verificamos assim que as coisas revolucionárias aparentemente fascinam hoje mais fortemente do que as da Contra-Revolução. Elas adquiriram um poder de conquista no senso comum das pessoas, no modo de julgar o bom e o apetecível. De outro lado as coisas da Contra-Revolução tendem, por sua natureza, a se tornar árduas, insípidas e inapetecíveis. Para que a Contra-Revolução se defina e se propague ela terá que usar recursos pouco revolucionários, e hoje pouco fascinadores por si mesmos, como folhetos, livros, conferências, teatros, músicas clássicas, etc. Destes recursos alguns podem fascinar mais do que outros, mas eventualmente, e não todo o sempre.
Não há recurso de fascinação mais forte e eficiente do que as pessoas. O porte humano, a educação, a bondade, a circunspecção, o modo de falar, o modo de se vestir. Se fosse possível a um revolucionário fascinar os maus ele o faria por causa de seus cabelos desgrenhados, seu olhar sanguinolento, sua roupa esfarrapada e suja; o Contra-Revolucionário, pelo contrário, fascina os bons por causa de seu cabelo bem penteado, seu olhar casto, sua roupa limpa e decente. Se uma pessoa leva diversas outras a caminhar mais em direção da Revolução por causa de maus atributos pessoais, falta de educação, rispidez, indiscrição, etc., o Contra-Revolucionário levará para o campo oposto as pessoas que gostam de bons atributos, boa educação, finura de espírito, discrição em tudo.
Agora, se nós tivermos um grupo de pessoas que congregam as mesmas qualidades e espelham o mesmo espírito, elas conseguirão fascinar muito mais fortemente para si os demais atuando em conjunto do que agindo isoladamente. Um façanhudo revolucionário da França de 1789, ou mesmo um bolchevista de 1917, impressionavam mais pelo aspecto intimidador, causavam medo e terror, e "atraíam" mais pela força bruta. Um grupo de tais revolucionários em ação multiplica este predomínio intimidador. Esta “fascinação”  é falsa. Por isso é que a Revolução optou pela tática de fascinar pelo engodo, pelo orador labioso, pela música, pelo romantismo, pelo cinema, pela mídia encantadora e pela TV.
Para que os Contra-Revolucionários consigam fascinar eles terão que agir em grupo e fazer com que seu grupo se apresente na sociedade todo inteiro, manifestando-se com todas as suas boas qualidades e demonstrando uma coesão esplendorosa de seus atributos, de seu espírito, de sua maneira de ser. E os recursos utilizados para isto podem ser todos aqueles meios lícitos de se mostrar ao público: pela música, pela oração, pelo modo de se apresentar, pelos cerimoniais, etc.
O fim último do fascínio deve ser o amor a Deus. Deus manifesta o Seu amor às criaturas fascinando-as. Se a Revolução fascina para afastar as pessoas do amor a Deus, a Contra-Revolução deve ter como fim último levar todos à prática deste amor. Mas para isto não é necessário fazer conferências, pregar doutrinas e princípios. Basta que as doutrinas e princípios sejam coerentemente vividos pelos Contra-Revolucionários que as pessoas se sentirão atraídas fortemente, isto é, fascinados naquela direção. É intuitivo.
Não é necessário ensinar o que é a bondade, o que é a gentileza, o que é o cavalheirismo, a ortodoxia e a coerência de princípios doutrinários. Basta que nos modos, no linguajar, no vestir, na música, em todo o nosso ser, pratiquemos a bondade, a gentileza, sejamos cavalheiros e vivamos coerentemente de acordo com a doutrina e os princípios que defendemos, de dia e de noite, a todo o momento. As pessoas vão ver e se fascinar, dizendo: que maravilhoso! que beleza! fenomenal!

 1)   Tratado do Amor de Deus”, de São Francisco de Sales”,  Liv. Apostolado da Imprensa, págs.. 104/105.
2)   Op. Citada
3)   Idem.