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domingo, 11 de janeiro de 2026

O BRASIL TEM JEITO?


Essa questão sempre vem à tona: o Brasil tem jeito? Ou vai ficar tudo como está?

Fora o famoso "jeitinho brasileiro", qual a solução para nossos problemas? 

 Estamos presenciando hoje em algumas partes do mundo (como no Irã), algo parecido com  "Primavera árabe", movimento que eclodiu fruto das chamadas "redes sociais", na época em que se falava muito também nos "inconformados" (na Europa) e no "Ocupem Wall Street" (nos Estados Unidos), parecendo fazer parte de uma onda mundial para dar novos rumos á revolução pela anarquia. Até o símbolo deles, uma caveira chamada "Anonymus", nada diz de útil. Sim, porque tais movimentos derrubam governos, combatem algumas  injustiças, etc., mas nada apresentam de positivo, nada constroem, simplesmente deixam tudo na pior. Na Tunísia, por exemplo, já houve 9 golpes de estado após a "Primavera árabe"  conseguir derrubar o ditador de plantão que havia lá. Na Turquia tiraram uma ditadura e veio outra. No Egito, nem se fala. Quase ninguém lembra mais do movimento das redes sociais  que houve nesse país para derrubar o ditador, que caiu, mas logo outro assumiu outra ditadura. Ninguém lembra que aqueles povos árabes, de costumes ainda tribais, não entendem o que é democracia, só sabem conviver com ditadura mesmo. 

Ora, gente, vamos transplantar isso pro Brasil. Movimento de redes sociais vai conseguir o quê? Ninguém se iluda, o que vai ficar depois da queda de um governo é apenas o caos. Não nos iludamos com militares ou com políticos metidos a conservador. Pode até ser que alguns deles tenham boas intenções, mas nada conseguirão neste Brasil podre e corrupto até a medula. Não são apenas as nossas elites dirigentes que são desonestas, o cancro da desonestidade está espalhada pela nação como uma AIDS em todo o sangue do corpo social. O  respeito ao direito de propriedade, por exemplo, não existe mais em nosso povo. Um exemplo? Não há um lugar no Brasil em que um caminhão quebre, pode ser até no interior, e não seja logo saqueado pela população que se diz honesta. Não são os bandidos que saqueiam, é o povão. Ofereça um cargo público de mamata a qualquer brasileiro para ver se ele não aceita sem pensar? E sonegação de impostos, de INSS e FGTS, quem é que não o faz? Se todos agem assim, criticar os políticos é hipocrisia, porque eles são apenas aquilo que o nosso povo também é.

Mas, e o Brasil tem jeito? Tem, mas só Deus pode dar um jeito em nossa atual situação. Confiemos n'Ele, que é nosso Pai, e um dia tudo se resolverá. isso quer dizer que há necessidade de uma intervenção divina. E ela não tarda. Mas, lembremos disso, tudo tem que começar por nossas elites, pois delas depende muito os destinos de nosso povo. Dizem que o poder vem do povo, mas é exercido pela elite política.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

A FIGURA DO MALANDRO E O JEITINHO BRASILEIRO

 


 

De modo geral, todo mundo entende o que se quer dizer quando se fala do famoso “jeitinho brasileiro”.  Trata-se de algo que nasce e cresce em todo brasileiro de uma forma natural. Mas, vamos ver como se pratica tal jeitinho de uma forma lícita ou de uma outra ilícita.

Vejamos alguns exemplos. Alguém chega a um hospital de pronto socorro, mas é avisado que tem muitos na frente e tem que aguardar. Geralmente, as pessoas necessitadas de atendimento de urgência dizem logo para o atendente: dá um jeitinho aí. Quando o atendente diz ser impossível por causa das normas internas, surgem então duas opções para o necessitado: esperar com paciência ou procurar outros recursos, como ligar para um político amigo. Nesse último caso está o jeitinho ilícito, pois se usa de um recurso para infringir as normas.

Um outro exemplo muito comum: ao ser multado por um guarda de trânsito, pede-se ao mesmo para dar um jeito, isto é, não emitir a multa. Talvez seja lícito o guarda, sob sua responsabilidade, atender o pedido e não lavrar a multa, mas a coisa fica feia se o infringente oferecer uma propina ao mesmo. Pior, se o guarda aceitar a propina. Aí, temos o jeito não apenas ilícito mas até criminoso.

Soube do caso de uma senhora que usou do recurso desse jeitinho de uma forma muito sutil, mas lícita. Seu filho foi acusado do crime de pedofilia, sendo que ela deveria ser a única testemunha do caso pois moravam juntos apenas ela com o filho e a suposta vítima. Chamada à delegacia para testemunhar, negou tudo e disse que não ter visto nada, visando unicamente livrar seu filho da prisão. Muitos pais, em casos semelhantes, simplesmente dão testemunho contra o filho com o objetivo de castiga-lo. No caso dessa senhora, como de outros semelhantes, ninguém pode condená-la por proteger o filho, e nisso podemos dizer que estamos perante um caso de jeitinho brasileiro, podendo ser censurado por muitos, mas legítimo por outros.

Enfim, existe uma infinidade de casos em que se pratica o jeitinho, competindo apenas a nós analisarmos se lícitos ou ilícitos.

Talvez os piores casos de jeitinhos ilícitos sejam o da malandragem.  

 Qual o papel da figura do malandro na psicologia popular?

Uma figura que a mídia sempre propagou foi a do malandro. Desde o início do século XX que ela é apresentada como certo “modelo” ao nosso povo.

 Primeiramente, veio o malandro do samba, do morro, pintado como um cara esperto e ladino, conseguindo levar vida mansa, inclusive enganando aos incautos. Esse modelo de esperteza ganhou a simpatia popular e passou a pautar a vida pública, inclusive de políticos. Para contrastar com a figura do malandro, criaram a figura daquele que é facilmente lesado por ele, chamado de “Mané”.

Quando se pretendia criar uma música nova sobre o Rio, ou que se referia ao samba ou ao carnaval carioca, a figura do malandro era sempre realçada. Foi assim que o famoso Noel Rosa se destacou em suas melodias, embora seu título mais conhecido seja o de “Poeta da Vila”. Mas outros compositores sobressaíram-se mais como exemplo de malandros realizados e completos, como Dicrós e Bezerra da Silva, sambistas famosos que criaram até uma música com o título de “ópera do malandro”, que é também o nome de uma peça de Chico Buarque.

A fim de que a figura do malandro fosse mais propagada, a Walt Disney criou um personagem famoso, o Zé Carioca: um papagaio, como não poderia deixar de ser, muito esperto e que sempre sabe se sair bem das enrascadas e dar golpes até em seus amigos. Até a década de 60, havia um outro personagem que também personificava o malandro: foi o famoso “Amigo da Onça”, criação de Péricles Moreira da Rocha na revista “O Cruzeiro”, cuja esperteza era sempre elogiada pelos leitores da revista como exemplo de inteligência e sagacidade. Outros malandros ficaram célebres no passado, alguns criados no cinema, como Oscarito que o personificava muito bem.

Será que a figura do malandro, sendo assim tão propalada como um exemplo para a sociedade, não tornou-se um mal, por inspirar em todos a ideia de que é lícito ser esperto e enganar os semelhantes? Quer dizer, será que essa figura não gerou o político corrupto e o traficante labioso? Não que os tenha produzido na raiz, mas sim que tenha criado clima psicológico na sociedade para que atuem impunemente. Nessa figura podemos encontrar, na maioria dos casos, a aplicação do jeitinho ilícito.

Então, temos o jeitinho lícito e o ilícito, sendo este último resultado de pura esperteza. É claro que há um tipo de esperteza legítima, como aquela, por exemplo, da história do Gato de Botas, onde o gato faz seu amo passar por um marquês a fim de se sair bem das complicações em que se metiam. Mas a do malandro carioca sempre tendia para a desonestidade, a sagacidade para enganar o próximo, o esperto que vivia num mundo cercado de pessoas incautas e bobas. Pois bem, essa esperteza do malandro fez escola, muito bem assimilada pelos políticos e traficantes, que a usam naturalmente no seu dia a dia. Hoje, podemos constatar que a esquerda soube muito bem usar este tipo de malandragem, na qual eles são exímios.

Esse tipo de esperteza, como a do malandro, porém, não é coisa nova. Há exemplos similares no passado.

Temos exemplo dentre os próprios bandidos. Um deles nos é contado pelo historiador francês Henri Robert, ao retratar a vida de um bandido que dominava a Paris do Ancien Regime. O tipo de esperteza dele é muito conhecido: fazia-se passar por um homem bom e amigo dos humildes, auxiliando os mais necessitados dos bairros pobres de Paris. Com isso conseguia proteger-se contra as investidas da polícia, pois era ocultado dela pelos próprios moradores seus vizinhos, que o tinham como um homem bom. Este tipo de esperteza tornou-se hoje o mais usado pelos traficantes, ao lado, sempre, da malandragem, do engodo, etc. Há também a lenda de Robin Hood que tornou mais popularizado esse método de acobertamento de bandidos entre os cidadãos de bem. Quer dizer, não é nenhuma novidade. Nesse caso não temos exemplos isolados de jeitinho, mas um conjunto de maus jeitinhos produzidos pela esperteza somente.

 Vejam também nossa postagem anterior sobre o tema:

 https://quodlibeta.blogspot.com/2011/11/qual-o-papel-da-figura-do-malandro-na.html

 (publicada em 14 de novembro de 2011)