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quarta-feira, 29 de julho de 2020

E lícito julgar o próximo, ser testemunho de si mesmo e até juiz em causa própria?






Fazer juízo é um ato comum dos homens, e todos nós o fazemos cotidianamente sem mesmo o perceber. E a maioria das pessoas tem o costume de fazer julgamentos apressados, inclusive considerando apenas a questão da culpabilidade do próximo ou de si mesmo perante algum fato. Quebrou-se algum objeto dentro de casa, surge logo a questão: de quem foi a culpa? Como se o fator culpa fosse o mais importante. Aqui entra um fator muito importante, e que os santos levam em consideração para sua própria perfeição: de quem quer que seja a culpa, o primordial não é isso, mas, sim, que valores estão em jogo quando ocorre esse tipo de coisa, se o do objeto ou se o apego ao mesmo. Quando alguém acusava algum santo (Santa Teresinha do Menino Jesus é um exemplo deste procedimento) de fatos assim corriqueiros, geralmente eles não se desculpavam, julgando que bem poderiam realmente ter cometido aquilo, e, neste ato, estão implicitamente fazendo um justo juízo de si mesmos.
O ato de julgar é, portanto, muito importante em nossa perfeição. Vejamos o que diz São Tomás de Aquino sobre a licitude do ato de julgar:

“O juízo é justo na medida em que é um ato de justiça. Ora, como do sobredito resulta, três condições se exigem  para que um juízo seja um ato de justiça: primeiro, que proceda de uma inclinação justa; segundo, que proceda da autoridade do chefe; terceiro, que seja proferida pela razão reta da prudência. A falta de qualquer delas torna o juízo vicioso e ilícito. – De um modo quando vai contra a retidão da justiça. E, então, o juízo se chama “pervertido” ou “ injusto”. – De outro modo, quando julgamos daquilo para o que não temos autoridade. E, então, o juízo se chama “usurpado”. – De terceiro modo, quando falta a certeza da razão; assim, quando julgamos do que é duvidoso ou oculto, levados por leves conjecturas. E, então, chama-se o juízo “suspeitoso” ou “temerário”.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA PERGUNTA – O Senhor, no lugar citado, proíbe o juízo temerário que incide sobre a intenção do coração ou sobre outras coisas incertas, como diz Agostinho – Ou proíbe, com as palavras citadas, julgar das cousas divinas, as quais, sendo-nos superiores, não devemos julgá-las, mas simplesmente crê-las, como diz Hilário. – Ou proíbe o juízo não procedente da benevolência, mas, do espírito amargo, como diz Crisóstomo.
RESPOSTA À SEGUNDA – O juiz é constituído ministro de Deus; donde o dizer a Escritura: “”Julgai o que for justo”; e depois acrescenta: “é o juízo de Deus”.
RESPOSTA À TERCEIRA – Os réus de pecados graves não devem julgar os que também o são dos mesmos ou de pecados menores, como diz Crisóstomo àquilo do Evangelho: “Não queirais julgar”. O que sobretudo se deve entender dos pecados públicos; porque então o nosso juízo gera o escândalo nos corações dos outros. Se, porém, não forem públicos, mas ocultos, e, por dever, tivermos que dar o nosso juízo, podemos acusar ou julgar com humildade e temor. Por isso, diz Agostinho: “Se nos encontrarmos no mesmo vício que outrem, gemamos com ele e o incitemos a tornar-se melhor, esforçando-nos também nós para consegui-lo, Nem contudo, por isso, ao julgar os outros, nós nos condenamos, por atrairmos sobre nós um novo motivo de condenação; mas, ao condenar a outrem, mostremo-nos merecedores da mesma condenação, por um pecado igual ou semelhante”..[1]

A dificuldade que sentimos em exercer um julgamento sobre o próximo é por causa da semelhança de situação: trata-se de seres feitos da mesma carne, mesmo espírito, com vida terrena compatível entre si, e por causa disso não passível, em sua essência, de exercer juízo sobre os outros. No entanto, tal juízo é necessário para que possamos nos exercitar na regência mútua e atingirmos a perfeição para a qual fomos criados.

Exemplo de como julgar o próximo
“Jesus disse a seus discípulos: Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, à sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão. Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas. Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público. Em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu. De novo, eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isto vos será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles”. (Mt  18,15-20)
Nosso Senhor, nessa passagem do Evangelho, está orientando o fiel de como deve julgar o próximo. O primeiro passo, nesse caso quando alguém “peca contra ti”, isto é, não se trata de um pecado diretamente contra Deus, mas contra o próximo, Ele orienta repreender o faltoso “a sós”, sem a presença de estranhos. No entanto, caso o mesmo não se corrija, a orientação é chamar uma ou duas testemunhas, a fim de que a questão seja decidida “sob a palavra de duas ou três testemunhas”. Nesse caso, a própria pessoa ofendida é tida como testemunha do caso, a se juntar às outras chamadas para exercer o juízo. E caso o faltoso, mesmo assim, continue em seu erro, deve receber um julgamento da comunidade, isto é, da Igreja, onde sofrerá o juízo de um juiz público e ter uma condenação mais forte, podendo ser considerado como pagão ou pecador público. O que vem depois, ao concluir afirmando que “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles”, confirma que aquele julgamento exercido sobre o próximo é aprovado por Deus, haja vista que já houve consenso entre os fieis.

O julgamento da pecadora pública
Trata-se do episódio mais característico desta prerrogativa de julgar que afeta todos os homens, alguns por iniciativa própria e outros por causa da lei. Refiro-me ao fato narrado no Evangelho de São João 8.1-11, quando os fariseus e saduceus, para tentar Jesus Cristo, levaram à sua presença uma mulher flagrada em pecado de adultério e sujeita às penas da lei que, no caso, era castigo de morte por lapidação.
Quando Jesus Cristo diz que aquele que não tiver nenhum daqueles pecados que atire a primeira pedra está com isso confirmando que aquele julgamento seria justo e a punição legítima, desde que os executores fossem pessoas isentas da mesma culpa. Vamos supor que algum daqueles homens fosse realmente puro, algum Jeremias ou coisa semelhante (é claro que, nesse caso, não iria tentar o Mestre), poderia tranquilamente apedrejar a mulher que não estaria cometendo nenhum ato contrário à justiça. Estaria até cumprindo o que Ele mesmo mandou.
Sabia, porém, Jesus, que todos ali eram pecadores empedernidos. Alguns de seus Apóstolos deveriam estar presenciando a cena, seriam puros naquele tipo de pecado, mas não foram  instados a se manifestar. Jesus Cristo dirigiu-se apenas aos que queriam executar a sentença ou pedir que o Mestre tomasse uma atitude para fazê-Lo ir de encontro ao que pregava que era o perdão aos pecadores.
E ao perdoar a mulher, dizendo-lhe que se ninguém a condenava Ele também não, estava Jesus aprovando a vida pecaminosa dela? De modo algum, e de tal forma a  reprovava que disse no final: vai e não peques mais. Por ter conhecimento do íntimo daquela mulher sabia de antemão que ela estava arrependida, e por isso a perdoou. Fez, portanto, um julgamento da pecadora, mas sem  sentença de condenação, mas de perdão.
E o fez pelo simples dom da palavra.
Outro detalhe a observar no episódio acima: Nosso Senhor estava sendo convocado para ser juiz, mas para que julgasse teria que, antes de tudo, ouvir testemunhas ou provas da culpa da ré. Ele não fez um julgamento, dizendo que a mulher tinha culpa daquele pecado por isso. Mas, ela já tinha sido julgada, o que eles queriam era que ele como que desse o sinal de cumprimento da pena, uma espécie de sentença.  Sem provas, com as testemunhas fugindo covardemente (pois tinham a mesma culpa daquilo que acusavam), Ele apenas disse à mulher que “também não a condenava”, mandou-a embora e deu ordens para não pecar mais. Usou apenas o dom da palavra para se fazer cumprir sua sentença, não de condenação mas de perdão.
De modo geral o juízo, ou julgamento, é composto de duas partes: na primeira temos a análise dos fatos e a constatação da realidade (o testemunho do que está ocorrendo) e as críticas aos mesmos;  e na segunda parte, como conclusão do juízo, a exaração da “sentença” ou censura. Para que se cumpra a primeira, geralmente, usa-se dos recursos dos “olhos” e dos “ouvidos”, tanto de quem julga como das testemunhas

É lícito o testemunho de si mesmo, ser juiz em causa própria?
Este tema foi levantado pelos fariseus contra Jesus Cristo neste episódio narrado por São João: 
“Outra vez lhes falou Jesus, dizendo: Eu sou a luz do mundo; o que me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida. Os fariseus disseram-lhe: Tu dás testemunho de ti mesmo; logo, o teu testemunho não é verdadeiro. Respondeu Jesus e disse-lhes: Embora eu dê testemunho de mim mesmo, o meu testemunho é verdadeiro, porque sei donde vim e para onde vou, mas vós não sabeis donde eu venho, nem para onde vou. Vós julgais segundo a carne, eu a ninguém julgo; e, se julgo alguém, o meu juízo é verdadeiro, porque eu não sou só mas eu e o meu Pai que me enviou. Na vossa lei está escrito que o testemunho de duas pessoas é digno de fé. Sou eu que dou testemunho de mim mesmo; e meu Pai, que me enviou, dá testemunho de mim.”  (Jo 8. 12-18).
Há duas coisas distintas nesse episódio: julgar e dar testemunho. O  testemunho é apenas a exposição da verdade sobre algo, alguém ou algum fato; quanto ao ato de julgar é a análise e decisão sobre aquilo, se é bom, se é mau, etc, e a exaração de uma sentença, ou simplesmente de uma conclusão. Nesse caso é lícito dar testemunho de si mesmo, desde que haja uma segunda pessoa que o confirme, pois apenas a palavra de si mesmo não é suficiente. Do mesmo modo é lícito julgar, desde que não seja “segundo a carne”, mas conforme as inspirações divinas. Quando Nosso Senhor diz “eu a ninguém julgo”, Ele quer dizer, segundo a carne, pois logo adiante diz que se julga alguém o seu juízo é verdadeiro. Quer dizer, Ele julga sim (pra isso veio ao mundo), mas não segundo a carne.





[1]Summa, Questão LX, Art. II (tradução de Alexandre Correia), edição da Escola Superior de Teologia de São Lourenço de Brindes – Universidade Caxias do Sul – Livraria Sulina Editora),

quinta-feira, 2 de abril de 2020

EXPLICAÇÃO DA SAUDAÇÃO ANGÉLICA POR SÃO TOMÁS DE AQUINO









PRÓLOGO
1. — A Ave-Maria é dividida em três partes: A primeira, composta pelo Anjo: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo, bendita és tu entre as mulheres. (Lc 1, 28).
A segunda é obra de Isabel, mãe de João Batista, que disse: Bendito é o fruto do teu ventre.

A terceira parte, a Igreja acrescentou: Maria
O Anjo não disse:
Ave Maria e sim, Ave, Cheia de graça. Mas este nome de Maria, efetivamente, se harmoniza com as palavras do Anjo, como veremos mais adiante.

AVE
 
2. — Na antiguidade, a aparição dos Anjos aos homens era um acontecimento de grande importância e os homens sentiam-se extremamente honrados em poder testemunhar sua veneração aos Anjos.
A Sagrada Escritura louva Abraão por ter dado hospitalidade aos Anjos e por tê-los reverenciado.


Mas um Anjo se inclinar diante de uma criatura humana, nunca se tinha ouvido dizer antes que o Anjo tivesse saudado à Santíssima Virgem, reverenciando-a e dizendo: Ave.
3. — Se na antiguidade o homem reverenciava o Anjo e o Anjo não reverenciava o homem, é porque o Anjo é maior que o homem e o é por três diferentes razões:
Primeiramente, o Anjo é superior ao homem por sua natureza espiritual.
Está escrito: Dos seres espirituais Deus fez seus Anjos. (Sl 103).
4. — O homem tem uma natureza corrutível e por isso Abraão dizia a Deus: (Gn 18, 27) Falarei a meu Senhor, eu que sou cinza e pó.
Não convém que a criatura espiritual e incorruptível renda homenagem à criatura corruptível.
Em segundo lugar, o Anjo ultrapassa o homem por sua familiaridade com Deus.
Com efeito, o Anjo pertence à família de Deus, mantendo-se a seus pés. Milhares de milhares de Anjos o serviam, e dez milhares de centenas de milhares mantinham-se em sua presença, está escrito em Daniel (7, 10).
Mas o homem é quase estranho a Deus, como um exilado longe de sua face pelo pecado, como diz o Salmista: (54, Descrição: 8)Fugindo, afastei-me de Deus.
Convém, pois, ao homem honrar o Anjo por causa de sua proximidade com a majestade divina e de sua intimidade com ela.
Em terceiro lugar, o Anjo foi elevado acima do homem, pela plenitude do esplendor da graça divina que possui. Os Anjos participam da própria luz divina em mais perfeita plenitude. Pode-se enumerar os soldados de Deus, diz Jó (25, 3) e haverá algum sobre quem não se levante a sua luz? Por isso os Anjos aparecem sempre luminosos. Mas os homens participam também desta luz, porém com parcimônia e como num claro-escuro.
Por conseguinte, não convinha ao Anjo inclinar-se diante do homem, até, o dia em que apareceu urna criatura humana que sobrepujava os Anjos por sua plenitude de graças (cf n° 5 a 10), por sua familiaridade com Deus (cf. n° 10) e por sua dignidade.
Esta criatura humana foi a bem-aventurada Virgem Maria. Para reconhecer esta superioridade, o Anjo lhe testemunhou sua veneração por esta palavra: Ave.

CHEIA DE GRAÇA

5. — Primeiramente, a bem-aventurada Virgem ultrapassou todos os Anjos por sua plenitude de graça, e para manifestar esta preeminência o Arcanjo Gabriel inclinou-se diante dela, dizendo: cheia de graça; o que quer dizer: a vós venero, porque me ultrapassais por vossa plenitude de graça.


6. — Diz-se também da Bem-aventurada Virgem que é cheia de graça, em três perspectivas:
Primeiro, sua alma possui toda a plenitude de graça. Deus dá a graça para fazer o bem e para evitar o mal. E sob esse duplo aspecto a Bem-aventurada Virgem possuía a graça perfeitissimamente, porque foi ela quem melhor evitou o pecado, depois de Cristo.


O pecado ou é original ou atual; mortal ou venial.

A Virgem foi preservada do pecado original, desde o primeiro instante de sua concepção e permaneceu sempre isenta de pecado mortal ou venial.
Também está escrito, no Cântico dos Cânticos: (4, 7) Tu és formosa, amiga minha, e em ti não há mácula.
«Com exceção da Santa Virgem, diz Santo Agostinho, em seu livro sobre a natureza e a graça; todos os santos e santas, em sua vida terrena, diante da pergunta: «estais sem pecados?» teriam gritado a uma só voz: «Se disséssemos: estamos sem pecado (cf. 1, Jo 1, 6), estaríamos enganando-nos a nós mesmos e a verdade não estaria conosco».
«A Virgem santa é a única exceção. Para honrar o Senhor, quando se trata a respeito do pecado, não se faça nunca referência à Virgem Santa. Sabemos que a ela foi dada uma abundância de graças maior, para triunfar completamente do pecado. Ela mereceu conceber Aquele que não foi manchado por nenhuma falta».
Mas o Cristo ultrapassou a Bem-aventurada Virgem. Sem dúvida, um e outro foram concebidos e nasceram sem pecado original. Mas Maria, contrariamente a seu Filho, lhe é submissa de direito. E se ela foi, de fato, totalmente preservada, foi por uma graça e um privilégio singular de Deus Todo Poderoso que é devido aos méritos de seu Filho, Jesus Cristo, Salvador do gênero humano. (N.T.).
7. — A Virgem realizou também as obras de todas as virtudes. Os outros santos se destacam por algumas virtudes, dentre tantas. Este foi humilde, aquele foi casto, aquele outro, misericordioso, por isto são apresentados como modelo para esta ou aquela determinada virtude; como, por exemplo, se apresenta São Nicolau, como modelo de misericórdia.
Mas a Bem-aventurada Virgem é o modelo e o exemplo de todas as virtudes. Nela achareis o modelo da humildade. Escutai suas palavras: (Lc 1, 38) Eis a escrava do Senhor. E mais (Lc 1, 48): O Senhor olhou a humildade de sua serva. Ela é também o modelo da castidade: ela mesma confessa que não conheceu homem (cf. Lc 1, 43). Como é fácil constatar, Maria é o modelo de todas as virtudes.
A Bem-aventurada Virgem é pois cheia de graça, tanto porque faz o bem, como porque evita o mal.
8. — Em segundo lugar, a plenitude de graça da Virgem Santa se manifesta no reflexo da graça de sua alma, sobre sua carne e todo o seu corpo.
Já é uma grande felicidade que os santos gozem de graça suficiente, para a santificação de suas almas. Mas a alma da Bem-aventurada Virgem Maria possui uma tal plenitude de graça, que esta graça de sua alma reflete sobre sua carne, que, por sua vez, concebe o Filho de Deus.
Porque o amor do Espírito Santo, nos diz Hugo de São Vitor, arde no coração da Virgem com um ardor singular, Ele opera em sua carne maravilhas tão grandes, que dela nasceu um Homem Deus, como avisa o Anjo à Virgem santa: (Lc 1, 35) Um Filho santo nascerá de ti e será chamado Filho de Deus.
9. — Em terceiro lugar, a Bem-aventurada Virgem é cheia de graça, a ponto de espalhar sua plenitude de graça sobre todos os homens.
Que cada santo possua graça suficiente para a salvação de muitos homens é coisa considerável. Mas se um santo fosse dotado de uma graça capaz de salvar toda a humanidade, ele gozaria de uma abundância de graça insuperável. Ora, essa plenitude de graça existe no Cristo e na Bem-aventurada Virgem.
Em todos os perigos, podemos obter o auxílio desta gloriosa Virgem. Canta o esposo, no Cântico dos Cânticos: (4, 4) Teu pescoço é como a torre de Davi, edificada com seus baluartes. Dela estão pendentes mil escudos, quer dizer, mil remédios contra os perigos.
Também em todas as ações virtuosas podemos beneficiar-nos de sua ajuda. Em mim há toda a esperança da vida e da virtude (Ecl 24, 25).

MARIA

10. — A Virgem, cheia de graça, ultrapassou os Anjos, por sua plenitude de graça. E por isto é chamada Maria, que quer dizer, «iluminada interiormente», donde se aplica a Maria o que disse Isaias: (58, 11) O Senhor encherá tua alma de esplendores. Também quer dizer: «iluminadora dos outros», em todo o universo; por isso, Maria é comparada, com razão, ao sol e à lua.

O SENHOR É CONVOSCO
 
11. — Em segundo lugar, a Virgem ultrapassa os Anjos em sua intimidade com o Senhor. O arcanjo Gabriel reconhece esta superioridade, quando lhe dirige estas palavras: O Senhor é convosco, isto é, venero-vos e confesso que estais mais próxima de Deus do que eu mesmo estou. O Senhor está, efetivamente, convosco.


O Senhor Pai está com Maria, pois Ele não se separa de maneira nenhuma de seu Filho e Maria possui este Filho, como nenhuma outra criatura, até mesmo angélica. Deus mandou dizer a Maria, pelo Arcanjo Gabriel (Lc 1, 35) Uma criança santa nascerá de ti e será chamada Filho de Deus.
O Senhor está com Maria, pois repousa em seu seio. Melhor do que a qualquer outra criatura se aplicam a Maria estas palavras de Isaias: (12, 6) Exulta e louva, casa de Sião, porque o Grande, o Santo de Israel está no meio de ti.
O Senhor não habita da mesma maneira com a Bem-aventurada Virgem e com os Anjos. Deus está com Maria, como seu Filho; com os Anjos, Deus habita como Senhor.
O Espírito Santo está em Maria, como em seu templo, onde opera. O arcanjo lhe anunciou: (Lc 1, 35) O Espírito Santo virá sobre ti. Assim, pois, Maria concebeu por efeito do Espírito Santo e nós a chamamos «Templo do Senhor», «Santuário do Espírito Santo». (cf. liturgia das festas de Nossa Senhora).
Portanto, a Bem-aventurada Virgem goza de uma intimidade com Deus maior do que a criatura angélica.
Com ela está o Senhor Pai, o Senhor Filho, o Senhor Espírito Santo, a Santíssima Trindade inteira. Por isso canta a Igreja: «Sois digno trono de toda a Trindade».
É esta então a palavra mais nobre, a mais expressiva, como louvor, que podemos dirigir à Virgem.

MARIA

12. — Portanto o Anjo reverenciou a Bem-aventurada Virgem, como mãe do Soberano Senhor e, assim, ela mesma como Soberana. O nome de Maria, em siríaco significa soberana, o que lhe convém perfeitamente.


13. — Em terceiro lugar, a Virgem ultrapassou aos Anjos em pureza.
Não só possuía em si mesma a pureza, como procurava a pureza para os outros.
Ela foi puríssima de toda culpa, pois foi preservada do pecado original e não cometeu nenhum pecado mortal ou venial, como também foi livre de toda pena.

BENDITA SOIS VÓS ENTRE AS MULHERES

14. — Três maldições foram proferidas por Deus contra os homens, por causa do pecado original.


A primeira foi contra a mulher, que traria seu filho no sofrimento e daria à luz com dores.
Mas a Bem-aventurada Virgem não está submetida a estas penas. Ela concebeu o Salvador sem corrupção, trouxe-o alegremente em seu seio e o teve na alegria. A Ela se aplica a palavra de Isaias: (35, 2) A terra germinará, exultará, cantará louvores.
15. — A segunda maldição foi pronunciada contra o homem (Gn 3, 9): Comerás o teu pão com o suor de teu rosto.
A Bem-aventurada Virgem foi isenta desta pena. Como diz o Apóstolo (1 Cor 7, 32-34): Fiquem livres de cuidados as virgens e se ocupem só com o Senhor.
A terceira maldição foi comum ao homem e à mulher. Em razão dela devem ambos tornar ao pó.
A Bem-aventurada Virgem disto também foi preservada, pois foi, com o corpo, assunta aos céus. Cremos que, depois de morta, foi ressuscitada e elevada ao céu. Também se lhe aplicam muito apropriadamente as palavras do Salmo 131, 8: Levanta-te, Senhor, entra no teu repouso; tu e a arca da tua santificação.

MARIA 

A Virgem foi pois isenta de toda maldição e bendita entre as mulheres. Ela é a única que suprime a maldição, traz a bênção e abre as portas do paraíso.

Também lhe convém, assim, o nome de Maria, que quer dizer, «Estrela do mar», Assim como os navegadores são conduzidos pela estrela do mar ao porto, assim, por Maria, são os cristãos conduzidos à Glória.



BENDITO É O FRUTO DE VOSSO VENTRE

18. — O pecador procura nas criaturas aquilo que não pode achar, mas o justo o obtém. A riqueza dos pecadores está reservada para os justos, dizem os Provérbios (13, 22). Assim Eva procurou o fruto, sem achar nele a satisfação de seus desejos. A Bem-aventurada Virgem, ao contrário, achou em seu fruto tudo o que Eva desejou.


19. — Eva, com efeito, desejou de seu fruto três coisas:
Primeiro, a deificação de Adão e dela mesma e o conhecimento do bem e do mal, como lhe prometera falsamente o diabo: Sereis como deuses (Gn 3, 5), disse-lhes o mentiroso. O diabo mentiu, porque ele é mentiroso e o pai da mentira (cf. Jo 8, 44). E por ter comido do fruto, Eva, em vez de se tornar semelhante a Deus, tornou-se dessemelhante. Por seu pecado, afastou-se de Deus, sua salvação, e foi expulsa do paraíso.
A Bem-aventurada Virgem, ao contrário, achou sua deificação no fruto de suas entranhas. Por Cristo nos unimos a Deus e nos tornamos semelhantes a Ele. Diz-nos São João: (1 Jo 3, 2) Quando Deus se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos como Ele é.
20. — Em segundo lugar, Eva desejava o deleite (cf. Gn 3, 6), mas não o encontrou no fruto e imediatamente conheceu que estava nua e a dor entrou em sua vida.
No fruto da Virgem, ao contrário, encontramos a suavidade e a salvação. Quem come minha carne tem a vida eterna (Jo 6, 55).
21. — Enfim, o fruto de Eva era sedutor no aspecto, mas quão mais belo é o fruto da Virgem que os próprios Anjos desejam contemplar (cf. 1 Pe 1, 12). É o mais belo dos filhos dos homens (Sl 44, 3), porque é o esplendor da glória de seu Pai (Heb 1, 3) como diz S. Paulo.
Portanto, Eva não pôde achar em seu fruto o que também nenhum pecador achará em seu pecado.
Acharemos, no entanto, tudo o que desejamos no fruto da Virgem. Busquemo-lo.
22. — O fruto da Virgem Maria é bendito por Deus, que de tal forma encheu-o de graças que sua simples vinda já nos faz render homenagem a Deus. Bendito seja Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que nos abençoou com toda a bênção espiritual em Cristo, declara São Paulo (Ef 1, 3).
O fruto da Virgem é bendito pelos Anjos. O Apocalipse (7, 11) nos mostra os Anjos caindo com a face por terra e adorando o Cristo com seus cantos: O louvor, a glória, a sabedoria, a ação de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus pelos séculos dos séculos. Amém.
O fruto de Maria é também bendito pelos homens: Toda a língua confesse que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai, nos diz o Apóstolo (Fp 2, 11). E o Salmista (Sl 117, 26) o saúda assim: Bendito o que vem em nome do Senhor.
Assim, pois, a Virgem é bendita, porém, bem mais ainda, é o seu fruto.
Fonte: Pai Nosso e Ave Maria – Sermões de Santo Tomás de Aquino. Editora Permanência, Rio de Janeiro

www.espacomaria.com.br Artigo n.º 2753
Publicado em: 12/10/10 às 08:04:47

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

É LÍCITO JULGAR O PRÓXIMO?







Fazer juízo é um ato comum entre os homens, e todos nós o fazemos cotidianamente sem mesmo o perceber. E a maioria das pessoas tem o costume de fazer julgamentos apressados, inclusive considerando apenas a questão da culpabilidade do próximo ou de si mesmo perante algum fato. Quebrou-se algum objeto dentro de casa, surge logo a questão: de quem foi a culpa? Como se o fator culpa fosse o mais importante. Aqui entra um fator muito importante, e que os santos levam em consideração para sua própria perfeição: de quem quer que seja a culpa, o primordial não é isso, mas, sim, que valores estão em jogo quando ocorre esse tipo de coisa, se o do objeto ou se o apego ao mesmo. Quando alguém acusava algum santo (Santa Teresinha do Menino Jesus é um exemplo deste procedimento) de fatos assim corriqueiros, geralmente eles não se desculpavam, julgando que bem poderiam realmente ter cometido aquilo, e, neste ato, estão implicitamente fazendo um justo juízo de si mesmos.
O ato de julgar é, portanto, muito importante em nossa perfeição. Devemos apenas ter cuidado ao exercê-lo, como adverte São Paulo: “E tu, ó homem, que julgas aqueles que fazem tais coisas e (também) as fazes, julgas porventura que escaparás ao juízo de Deus?” (Rom 2, 3)
Vejamos o que diz São Tomás de Aquino sobre a licitude do ato de julgar:
“O segundo se discute assim. – Parece que não é lícito julgar.
1.    – Pois, a pena só é infligida a um ato ilícito. Ora, os que julgam incorrem em pena, em que não incorrem os que não julgam, segundo o Evangelho: “Não julgueis para que não sejais julgados” .(Mt 7, 1);.  Logo, é ilícito julgar.
2.    Demais – A Escritura diz: “Quem és tu, que julga o servo alheio? Para seu senhor está em pé ou cai” (Rm 14, 4) . Ora, o Senhor de todas as coisas é Deus. Logo, a nenhum homem é lícito julgar.
3.    Demais - Nenhum homem é sem pecado, conforme àquilo da Escritura: “”Se dissermos que estamos sem pecado, nós mesmos nos enganamos” (I Jo 1, 8).   Ora, a quem peca não é lícito julgar, conforme àquilo da Escritura: “És inescusável tu, ó homem qualquer, que julgas; porque no mesmo que julgas a outro, a ti mesmo te condenas, porque fazes essas mesmas coisas que julgas” (Rm 2, 1)   . Logo, a ninguém é lícito julgar.
Mas, em contrário, a Escritura: “Estabelecerás juízes e magistrados de todas as tuas portas, para que julguem o povo com retidão de justiça”. (Deut 16, 18)..
SOLUÇÃO  – O juízo é justo na medida em que é um ato de justiça. Ora, como do sobredito resulta, três condições se exigem para que um juízo seja um ato de justiça: primeiro, que proceda de uma inclinação justa; segundo, que proceda da autoridade do chefe; terceiro, que seja proferida pela razão reta da prudência. A falta de qualquer delas torna o juízo vicioso e ilícito. – De um modo quando vai contra a retidão da justiça. E, então, o juízo se chama “pervertido” ou “ injusto”. – De outro modo, quando julgamos daquilo para o que não temos autoridade. E, então, o juízo se chama “usurpado”. – De terceiro modo, quando falta a certeza da razão; assim, quando julgamos do que é duvidoso ou oculto, levados por leves conjecturas. E, então, chama-se o juízo “suspeitoso” ou “temerário”.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA PERGUNTA – O Senhor, no lugar citado, proíbe o juízo temerário que incide sobre a intenção do coração ou sobre outras coisas incertas, como diz Agostinho – Ou proíbe, com as palavras citadas, julgar das cousas divinas, as quais, sendo-nos superiores, não devemos julgá-las, mas simplesmente crê-las, como diz Hilário. – Ou proíbe o juízo não procedente da benevolência, mas, do espírito amargo, como diz Crisóstomo.
RESPOSTA À SEGUNDA – O juiz é constituído ministro de Deus; donde o dizer a Escritura: “”Julgai o que for justo”; e depois acrescenta: “é o juízo de Deus”.
RESPOSTA À TERCEIRA – Os réus de pecados graves não devem julgar os que também o são dos mesmos ou de pecados menores, como diz Crisóstomo àquilo do Evangelho: “Não queirais julgar”. O que sobretudo se deve entender dos pecados públicos; porque então o nosso juízo gera o escândalo nos corações dos outros. Se, porém, não forem públicos, mas ocultos, e, por dever, tivermos que dar o nosso juízo, podemos acusar ou julgar com humildade e temor. Por isso, diz Agostinho: “Se nos encontrarmos no mesmo vício que outrem, gemamos com ele e o incitemos a tornar-se melhor, esforçando-nos também nós para consegui-lo, Nem contudo, por isso, ao julgar os outros, nós nos condenamos, por atrairmos sobre nós um novo motivo de condenação; mas, ao condenar a outrem, mostremo-nos merecedores da mesma condenação, por um pecado igual ou semelhante”..[1]

Indicando que o juízo faz parte da virtude da Sabedoria, assim fala São Boaventura sobre o mesmo:
“A sexta coluna da casa da sabedoria é a maturidade de juízo; e isto se adverte quando diz: “não se meta a julgar”. Há maturidade no juízo quando o homem não julga temerariamente. De onde se diz no Eclesiástico: “O juiz sábio fará justiça ao seu povo”, isto é, ao povo sobre o qual tem autoridade. Mas se passa dos limites da autoridade, não é juiz sábio, senão o juízo será temerário. Se alguém julga sem autoridade, aquele, quem é? Nada, certamente. É necessário também que o juízo do sábio tenha a retidão do zelo e a claridade do conhecimento. Do primeiro se disse: “A boca do justo derramará sabedoria, e a língua falará judiciosamente”. Justo juiz é o que se move por um justo zelo, aprova todo o bem e reprova o mal; porém o que não tem reto zelo não pode julgar bem. O amor e o ódio pervertem o juízo. Se me odeias não podes julgar-me retamente; e por que não? Porque te parece que tudo o que há em mim é mal, - Desta forma é necessário que o juiz tenha a claridade do conhecimento. Como julgaria bem de uma coisa desconhecida? Por isso, quando os inimigos de Job o argüiam que não era justo, dizendo: “O justo Deus não o castiga, e, contudo, a ti te castiga”, quiseram julgar de coisas ocultas.[2] Job, ouvindo estas coisas, respondeu-lhes dizendo: “”Arrependei-vos e vinde, e não encontrarei entre vós nenhum sábio”. Por isso disse o Bem-Aventurado Santiago: “não se meta a julgar”; não quer dizer que o homem não deva julgar, em seu devido lugar e a seu devido tempo, de uma coisa sobre a qual tenha certeza, autoridade e reto zelo, do contrário os homens julgam o mal como bem, e ao contrário, o bem como mal. O homem deve ser mais inclinado a escusar com clemência que a julgar mal. Agora todos são julgados de “sentenças iníquas”. Deve, pois, o homem não ultrapassar os limites da autoridade nem julgar temerariamente sem a retidão de zelo e sem a claridade do conhecimento. São Mateus disse: “Não julgueis aos demais se não quereis ser julgados”. É suma necedade que os homens julguem os defeitos interiores dos outros e não tenham cuidado de si mesmos. São Gregório disse:”Quanto mais curioso é o ânimo para indagar das coisas alheias, tanto mais néscio é para conhecer as próprias”. [3]
A dificuldade que sentimos em exercer um julgamento sobre o próximo é por causa da semelhança de situação: trata-se de seres feitos da mesma carne, mesmo espírito, com vida terrena compatível entre si, e por causa disso não passível, em sua essência, de exercer juízo sobre os outros. Isso ocorre porque, na concepção comum das pessoas, só pode julgar quem tem autoridade para tanto, aquele que foi investido no cargo de juiz. E isso é verdade no que diz respeito ao juízo público, mas não no que diz respeito ao juízo interior, ao juízo particular de cada um. No entanto, tal juízo é necessário para que possamos nos exercitar na regência mútua e atingirmos a perfeição para a qual fomos criados, podendo até a chegar a ser público, conforme o caso, mesmo que não estejamos investidos do cargo apropriado.


[1] Summa, Questão LX, Art. II (tradução de Alexandre Correia), edição da Escola Superior de Teologia de São Lourenço de Brindes – Universidade Caxias do Sul – Livraria Sulina Editora),
[2] Para se “julgar coisas ocultas” é  necessário clareza de conhecimento, que  é o mesmo que discernimento dos espíritos, necessário também para se exercer o juízo em certos casos.
[3] Obras de San Buenaventura – vol. V – BAC, págs. 509/510.