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sexta-feira, 22 de maio de 2020

BRASIL, VOCAÇÃO PARA HARMONIA E SÍNTESE






 Quando consideramos o futuro do gênero humano e nos colocamos diante da idéia da unidade das nações[1], nos referimos um tanto aos dias de hoje, mas, sobretudo, voltamos nossos olhos para o dia de amanhã. Poderíamos nos perguntar, então, se já existem povos que constituam essa unidade e qual o papel deles no concerto universal.

América Latina e o mundo vindouro
Creio que, por algum lado e de certo modo, esse plano está se realizando na América Latina, a qual representa o mundo de amanhã. Sua história é ainda tão recente que seu próprio passado é  o dos outros povos europeus. Quando estes começam a decair, brotaram as nossas raízes e desabrocharam de forma incipiente as nossas glórias.
O século XX foi dos Estados Unidos; o XIX da Inglaterra; o período (quase mil anos) desde Carlos Magno até fins do século XVII, da França. Espanha e Portugal não chegaram a ter primazia, mas deram origem à América Latina, e a história daqueles terá sua continuação nesta última, conforme os planos da Providência. Isso ocorrerá no século XXI, o qual, indubitavelmente, será do subcontinente latino-americano.
Em função desse acontecer histórico, vale dirigir nossa atenção para o brasileiro e o hispano.
Atualmente, fala-se muito e se cogita em estender o Pacto Andino desde o norte dos Andes até a Patagônia, abrangendo também o Brasil, embora ele nada tenha de andino. É um modo sul-americano de constituir uma grande unidade. E nos causa não pequeno entusiasmo a idéia de que essa magnífica unidade religiosa, étnica, cultural, eu diria lingüística, estabeleça uma espécie de superestrutura arqui-política.

A índole do brasileiro, ideal para a unidade das nações
Quanto ao Brasil – onde nosso movimento foi fundado – percebo perfeitamente esse fato: Deus criou suas características geográfica e a índole de seu povo de tal maneira que este adquirisse uma mentalidade a fim de servir idealmente para essa obra resumitiva do futuro. E a grande originalidade do brasileiro está em fazer compêndios dessa natureza.  É sua missão na História.
Para auferir esse talento de sintetizar, recordemo-nos dos clubes de Carnaval do Rio da década de 40, quando essa festa estava num auge e se apresentava menos como folia do que desfile do maravilhoso, feito pelo povinho dos subúrbios. Este é propriamente o sentido nobre e bonito do Carnaval. Então havia salões freqüentado por homens de cor vestidos à maneira das cortes de Luís XIV e Luís XV, cabeleira empoada e sapatos de fivela, acompanhados de “marquesas” de ébano! Aquilo que poderia parecer sumamente ridículo, era contudo elegantíssimo.
Essa gente é de tal modo unida a Portugal que somos um povo luso-brasileiro, dotado de intensa cordialidade, vivendo num território imenso, e sempre de braços abertos para acolher os mais diversos imigrantes: desde o africano com seus costumes que adotamos, ao francês com sua cultura pela qual nos deixamos embeber. África e França se encontram harmoniosamente no ambiente brasileiro, em que a mulher de ébano se veste de Pompadour...[2]
Por expressar esses valores, o Carnaval carioca conquistou a admiração do Brasil inteiro, e obteve certa fama no mundo todo. É uma arte bem brasileira conseguir algo que pareceria impossível, isto é, conciliar duas coisas tão opostas: a simplicidade da neta das selvas e a cultura da marquesa. E tal arte é alcançada sem estudar, sem usar laboratórios ou levantar problemas teóricos e resolvê-los , mas remexendo coisas com uma indolência naturalmente sábia, por onde elas vão se colocando no lugar próprio e de modo acertado.
No fim de contas, o brasileiro nem percebe bem o que fez; boceja, alimenta-se de uma fruta e prossegue a toada normal de sua vida. Ele agiu com esse particular savoir faire [saber fazer] que possui, muito valioso por ser mais subconsciente do que consciente.

Temperado pelo “azeite português”
O Brasil descende de uma nação representativa para a Europa daquilo que esta precisava. Poder-se-ia comparar o continente europeu a uma carruagem magnífica – como as do museu do Palácio de Versailles que me deslumbraram em menino – cujas molas estivessem quebradas e o entrosamento dos eixos com as rodas pouco lubrificado. Por essa razão, ela andaria penosamente, sacudindo as plumas, quebrando os vidros, chiando por toda parte. Seria uma caricatura da carruagem. Se alguém a azeitasse e consertasse o molejo, as plumas voltariam ao normal, os vidros não se partiriam, os passageiros não se segurariam nos damascos por receio de cair, e os rangidos grotescos desapareciam. E novamente se ouviriam a corneta dos postilhões, o trote elegante dos cavalos e os chicotes estalando no ar. Era a carruagem que passava...
Portugal é propriamente a nação-azeite da Europa, ele a complementa, mas seu florescimento não foi inteiramente conhecido por esta última. Ele possui a doçura, o afeto, a serenidade, afabilidade e uma acolhida que não se sente em nenhum outro lugar do velho mundo. Sua expansão, através da influência, teria dado à história do pensamento, do sentimento e da ação dos europeus o imbricamento e o contexto que lhes faltou.
A Europa empurrou Portugal para um canto. Porém, ao mesmo tempo que plantava uvas para fabricar seu esplêndido vinho, a não lusitana dentro de sua própria produzia azeite, o qual foi derramado pelo Brasil inteiro, embebendo-o e o transformando no povo “azeitado” por excelência. Suave, amável, compreensível, voltado a admirar os outros, comprazendo-se de encontrar neles uma qualidade, encantando-se quando aprende uma moda, um estilo e um arranjo novos. Não pensa em se comparar com ninguém. Senhor de uma vastidão de terras continental, distribuindo-as para os que a desejam, com toda naturalidade, como quem não está fazendo favor.
Além disso, recebe no seu imenso território as mais variadas raças, penetrando-as no mais íntimo da alma e realizando isso de curioso: qualquer povo radicando-se neste País, ainda que sem miscigenação, ele “embrasileira”. É o resultado do “azeitamento”. De um modo inteiramente ordenado, o estrangeiro, sem perder as suas características originais, acaba passando por uma mutação na essência de seu espírito.

Mais italiano no Brasil que na Itália...
É fato notório que no Sudeste do Brasil a imigração italiana verificou-se torrencial. Se compararmos o ítalo-brasileiro com o argentino, chileno ou uruguaio de ascendência italiana, ou até com o filho da cantante Península, julgo realizar-se mais no Brasil do que na Itália, Argentina, Chile ou Uruguai a figura convencional e folclórica do italiano.
A “Canaã” deles é o Brasil, para onde se mudam em grande quantidade. E posso dar o testemunho pessoal de que encontrei o autêntico ítalo no Brás, na Mooca, no Belenzinho[3], e não comi na Itália uma pizza tão genuína como as elaboradas em certas pizzarias de São Paulo.
Percebe-se dessa forma como a brasilidade penetra e muda algo nos povos, mesmo não havendo a mistura de raças. E tal mutação, que é indizível, efetua-se acrescentando e azeitando. A imagem adequada desse fato é a de uma gota de azeite espalhando-se sobre uma folha de papel, deixando intacta a substância desta, que nem sequer fica mais grossa, porém se faz transparente à semelhança d um vidro.

Grandiosa missão de harmonizar os povos
Assim é a ação de presença do povo brasileiro, que torna afáveis as coisas, encaminhando-as para a síntese. Um exemplo peculiar: os imigrantes vêm para o Brasil com a idéia de, quando ricos, voltarem a viver na mãe-pátria. Entretanto, muito antes de granjear fortuna, já estão resolvidos a retornar ao seu país natal – para uma visita e não para morar lá outra vez. Querem residir no Brasil, e aqui morrer.
Quer dizer, há uma nova forma de imperialismo, exercida pelo azeite, que domina, penetra e se faz sentir nas mais diversas localidades do País. Se o imigrante se fixa no Rio, torna-se carioca; se em São Paulo, fica paulista; em Minas, se “amineira”; no Rio Grande do Sul, se “engaúcha”.
Assim, devido ao modo de ser de seu povo e ao ambiente por ele criado, o Brasil é um pólo de atração. Pode-se dizer que essa gente está preparada para contemplar com amor todas as etapas do passado e as variantes do espírito humano. E isso ela o faz simplesmente olhando, apreciando os valores, descartando os defeitos, destilando: tal coisa é má, não está de acordo com os ensinamentos da Igreja; tal outra, apesar de pagã, se encaixa na doutrina católica; e aquela outra foi predisposta por Deus para, em certo dia, servir aos interesses da Esposa Mística de Cristo.
O brasileiro consegue apanhar e acertar todas essas coisas para constituir no fim do mundo a grande síntese da História. Seria o compêndio da doçura, abarcando a Terra com amor, compreendendo todos os valores humanos num só olhar, e usando de seu território de proporções continentais para alojar e harmonizar tudo, com vistas a uma síntese final.
Essa missão encerra uma grandeza superior e mais bela do que as legiões de Júlio César avançando e estendendo as fronteiras do império romano...

(Plínio Corrêa de Oliveira - Extraído da revista “Dr. Plínio”, nº 88, junho de 2005, pp. 20/25).



[1] Ver “O Canto do Cisne” na Humanidade – “Dr. Plínio”, nº 87, de junho 2005.
[2] Marquesa de Pompadour (1721-1764). Uma das mais prestigiadas damas da corte francesa, então estabelecida no Palácio de Versailles. Apesar de uma vida moral pouco louvável, destacava-se pelo luxo e elegância de seus trajes.
[3] Bairros paulistanos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O QUE ESTARIA POR TRÁS DO ATUAL CLIMA DE VIOLÊNCIA NO BRASIL?


O clima atual de violência no Brasil tem método, organização, é fruto de uma inteligência que a promove, ou é obra do mero acaso? Um artigo publicado em 1983, de Plinio Corrêa de Oliveira, já previa a que ponto chegaria tal clima. Ei-lo:
Quatro Dedos Sujos e Feios

Por: Plínio Corrêa de Oliveira
“A perplexidade se dá bem com macias cadeiras de couro, nas quais o homem sente afundar-se gostosamente. É que há certa analogia entre estar atolado em questões perplexitantes, e em poltronas de molas macias. O homem perplexo, afundado em couros, fica atolado tanto de corpo como de alma, o que confere à situação dele essa unidade que nossa natureza pede insistentemente, a todo propósito.
É verdade que tal unidade não vai aí sem alguma contradição. As perplexidades constituem para a mente um atoleiro penoso. Um purgatório. Por vezes quase um inferno. Pelo contrário, os couros e as molas proporcionam ao corpo cansado um atoleiro delicioso, reparador. Mas essa contradição não fere a unidade. E diminui o tormento do homem, em vez de o acrescer.
Para prová-lo ao leitor, bastaria a este imaginar quão pior seria a situação de um homem perplexo, sentado num duro banco de madeira...
Ocorreu-me isto tudo ao recordar que, numa noite destas, chegado ao termo o jantar, resolvi refletir sobre a situação nacional, atoleiro no sentido mais preciso e sinistro do termo. E para isto me afundei instintivamente em uma profunda e macia poltrona de couro. Comecei então a pensar...
A ronda macabra dos vários problemas pátrios, ideológicos, sociais e econômicos, começou a dançar em meu espírito. A fim de ver claro, eu procurava deter a feia ciranda, de modo a analisar, uma por uma, as várias questões que a formavam. Mas estas pareciam fugir a toda avaliação exata, executando cada qual, diante de meus olhos por fim fatigados, um movimento convulsivo à maneira do "delirium tremens". Pertinaz, eu insistia. Mas elas, não menos pertinazes do que eu, aumentavam seu tremor, e de repente retomavam em galope sua ciranda.
Febre? Pesadelo? O certo é que me senti subitamente em presença de um personagem muito real, de carne e osso...
E eu, que tinha intenção de comunicar aos leitores o resultado de minhas lucubrações, fiquei reduzido a contar-lhes o que este personagem me disse.
O tal homem a-temporal me tratava de você, com uma certa superioridade que tinha seu tantinho de irônico e de condescendente. E, pondo em riste o indicador curto e pouco limpo da mão direita, como para me anunciar uma primeira lição, sentenciou: "Saiba que eu, o comunismo, fracassei neste sossegado Brasil. O PC é aqui um anão que dá vergonha. Por isso, evito de o apresentar sozinho em público. O sindicalismo não me adiantou de nada. Possuo muitos de seus chefes, mas escorre-me das mãos o domínio sobre suas bases bonacheironas ("pacifistas", diria você). Entrei pelas Cúrias, pelas casas paroquiais, seminários e conventos. Que belas conquistas eu fiz. Mas ainda aí prosperei nas cúpulas, porém a maior parte da miuçalha carola me vai escapando. Noto, Plinio, sua cara alegre ante minha envergonhada confidência. Você me reputa derrotado. Bobão! Mostrar-lhe-ei que tenho outros modos de progredir.
— Você duvida?
— Sim, eu duvidava.
Então ele levantou teatralmente, ao lado do dedo indicador, o dedo médio, um pouco mais longo e não menos rejeitável. E entrou a dar sua segunda lição.
"Começarei por um sofisma. Farei o que você não imagina: a apologia do crime. Sim, direi por mil lábios, através de mil penas, milhões de vídeos e de microfones, que a onda de criminalidade, a qual tanto assusta os repugnantes burgueses, raramente nasce da maldade dos homens. Nas tribos indígenas, os crimes são mais raros do que entre os civilizados. O que quer dizer que o crime nasce entre nós das convulsões sociais originadas da fome. Elimine-se a fome, desaparece o crime. Como, aliás, também a prostituição.
"Quem você chama de criminoso é uma vítima. Sabe quem é o criminoso verdadeiro? É o proprietário. Sobretudo o grande proprietário. Principalmente este é que rouba o pobre.
"Enquanto um ladrão de penitenciária rouba um homem, o proprietário rouba um povo inteiro. Seu crime social é de uma maldade sem nome!"
O delírio leva a muita coisa. Pensei em expulsar o jactancioso idiota. Mas o comodismo me manteve atolado em minha poltrona. Furibundo e inerte, deixei-o continuar.
Ele levantou o dedo anular, feio irmão dos dois que já estavam erguidos. E prosseguiu.
"Há mais uma "seu" Plinio. À vista de tudo quanto eu disse, um governo consciente de suas obrigações tem por dever desmantelar a repressão e deixar avançar a criminalidade. Pois esta não é senão a revolução social em marcha. Todo assassino, todo ladrão, todo estuprador não é senão um arauto do furor popular. E por isto farei constar ao mundo inteiro que a explosão criminal no Brasil está sendo caluniada por reacionários ignóbeis. A criminalidade é a expressão deste furor justamente vindicativo das massas, que os sindicatos e a esquerda católica não souberam galvanizar."
Suspendendo o minguinho, miniatura fiel dos três dedos já em riste, meu homem riu. "Farei entrar armas no Brasil. Quando os burgueses apavorados estiverem bem persuadidos de que não há saída para mais nada, suscitarei dentre os que você chama "criminosos", um ou alguns líderes, que saberei camuflar de carismáticos. E farei algum bispo anunciar que, para evitar mal maior, é preciso que os burgueses se resignem a tratar com aqueles que têm um grau de banditismo menor.
"Vejo a sua careta. Você está achando a burguesia preparada para cometer mais esse erro. Tem razão. Assim se constituirá um governo à Kerensky, bem de esquerda. O dia seguinte será do Lênin que eu escolher."
Levantei-me para agarrar o homem. Quando fiquei de pé, acabei automaticamente de acordar. Ou cessou a febre...
Escrevi logo quanto "vira" e "ouvira", pois só até poucos minutos depois da febre ou do sono, tais impressões se podem conservar com alguma vitalidade.
Leitor, desejo que elas não lhe dêem febre. Se é que, antes de terminar a leitura, elas não lhe darão sono.
Este não será, em todo caso, um tranqüilo sono de primavera. Mas estará em consonância com essa metereologia caótica dos dias aguados e feios com que vai começando novembro.
P.S. — A Polícia paulista parece hoje em reviravolta. Que diria a isto o hominho dos quatro dedos sujos? Em São Paulo, e pelo Brasil afora, que rumo tomará o buscapé da subversão? Parar, não parará...”    ("Folha de S. Paulo", 16 de novembro de 1983)

Observação: não teria sentido qualquer ligação entre o personagem do Dr. Plínio, o "homenzinho de quatro dedos sujos e feios", e o político Lula, o qual, apesar de também possuir quatro dedos numa mão (por sinal, o "minguinho"é o único que falta nele, e é um dos citados no artigo), na época do presente artigo (em 1983) nem sequer cogitava de se candidatar a presidente.


sábado, 31 de dezembro de 2016

COMO ESTÁ O BRASIL NO CONCERTO DAS NAÇÕES?




Pelo que se divulga na mídia nunca o Brasil foi tão mal quanto neste último ano.  No entanto, é bom ponderarmos alguns aspectos que nos fazem ver a coisa de forma diferente.
No plano político, a nação que deveria ser o exemplo de paz social é o EUA. Como modelo desta paz apresentam a política eleitoral de lá como exemplar.  E dizem que a democracia moderna, para assegurar representatividade autêntica, deve ser baseada na maioria simples.  Nesta última eleição ficou demonstrado que a representatividade americana não está na maioria simples, mas na de representantes indiretos que são os delegados. Não se considera lá os votos da maioria simples da população, mas de um grupo de elite representado pelos delegados. Foi isso que deu a Trump a vitória nas últimas eleições.  Quer dizer, de nada adiantou o voto popular. Embora aqui se acuse de haver impunemente fraude com as urnas eletrônicas, ainda se respeita o princípio de maioria simples. O que, aliás, não ocorre em alguns outros países da Europa.
Quanto à violência e seu combate jurídico e policial, demos show de eficiência. Terrorista aqui não tem vez e a polícia conseguiu desfazer as tramas para um atentado nas olimpíadas do Rio, coisa que as melhores polícias européias não conseguiram evitar por lá. Inclusive uma das mais rigorosas delas, a alemã, não foi mais competente do que a nossa.  Mas não ficamos só nisso. Dois crimes elucidados numa semana mostram nossa maior eficiência.  Primeiro, o crime dos arruaceiros que mataram a pontapés o ambulante no metrô, elucidado em dois dias. Segundo, o crime do embaixador grego, também elucidado por nossa polícia em dois dias. Quando o embaixador sumiu e encontraram o corpo  carbonizado as agências de noticias se apressaram em divulgar o fato como fruto do clima de violência no Rio. Todos sabem que não é só no Brasil, não é só no Rio, mas em toda parte do mundo. E nossa policia trabalhou rápido e eficiente no caso:  Já ouviram falar em maior eficiência? Alguma polícia européia ou oriental já fez trabalho mais eficiente e eficaz do que a nossa polícia? O crime do embaixador russo na Turquia não entra em questão, pois foi bem flagrantemente visto por câmaras, ao vivo. Mas, por lá, restam algumas dúvidas, como certas suspeitas de que o terrorista matou o cara errado:  e se ele pretendia matar uma autoridade governamental e errou o alvo? Se houve isso, tudo vai ficar obscuro.  Para sempre.
Mas, nossa eficiência policial e jurídica tem sua explicação: o constante exercício perante a grande quantidade e diversidade de crimes.  Talvez. Mas, vejo a coisa por outro lado. Há uma tendência no continente europeu de ver o homem como remido do pecado original e puro em suas intenções, como na Holanda, onde se suprime as cadeias alegando falta de criminosos. Constatou-se que não é falta de quem cometa delitos, mas ausência de leis.  Uma infinidade de delitos muito comuns, por exemplo, no Brasil, lá não é mais crime, como tráfico de drogas, aborto, eutanásia, etc.  Quer dizer, as pessoas continuam praticando crimes, mas a lei do país os considera como coisas normais.  Lá o STF está disseminado por toda a legislação do país.
E a corrupção só existe no Brasil? São santos os políticos ingleses, alemães, franceses ou americanos? Aqui temos um judiciário e uma polícia federal causando assombro de tanta eficiência, prendendo até políticos influentes.  E lá nos países do primeiro mundo não existem políticos corruptos, tanto ou mais corruptos do que os nossos?  Será que não existem ou a justiça  e polícia de lá são manobrados e nada revelam, exatamente para dar ao mundo uma idéia errada sobre a sociedade deles?  Querem transmitir ao mundo uma idéia de que lá tudo ocorre às mil maravilhas, e que a paz social, fruto do progresso econômico e financeiro, é completa.  E para não deixar que o mundo saiba a podridão que cheira mal no submundo do crime, a única saída é esconder tudo debaixo do tapete. Por isso estamos sendo mais eficientes do que eles.
Antigamente éramos os campeões somente no futebol e no carnaval. Agora, não. Chegou a vez do Brasil mostrar ao mundo que as coisas de um país devem ser vistas com clareza, sem subterfúgios e sutilezas, para que haja uma renovação mundial nos dirigentes dos povos.
E nossa situação econômica e financeira, com tanto desemprego?  Estamos pagando caro pelos pecados de governos anteriores. Dilapidaram nossos recursos. Mas, tudo está às claras, nada se esconde por aqui. Será que somente o Brasil passa por isso?  Não se fala mais na situação calamitosa de países europeus, como Portugal, Espanha e Grécia, dilapidados por governos socialistas durante décadas. Fala-se nos países nórdicos, especialmente a Suécia e Dinamarca, modelos de paz social e riqueza. Mas, modelos também de suicídios e de gente frustrada, onde a riqueza e prazer não lhes deram nenhuma paz de espírito.  Hoje, os idosos fogem da Suécia e da Holanda para não morrerem em seus asilos, vítimas da eutanásia. Aqueles mesmos idosos que são modelo de previdência social, com vantajosas aposentadorias.  Condenados à morte. Também não se fala na crise por que passa a China, tida como uma potência a concorrer com os EUA, mas cheia de fracassos econômicos e crises de toda ordem, também escondidas pelo regime comunista que controla tudo.  Abafaram a guerra da Rússia com a Ucrânia e ninguém sabe o que o colosso russo fez com o infeliz vizinho, esmagado e sem defesa.  Sim, e cadê a riqueza e poder do antigo império soviético? Não diziam que era a segunda potência do mundo? Onde foi parar tanto poder?
E qual a situação dos EUA e do resto da Europa? Não há uma só capital européia que não esteja hoje, véspera do Ano novo, cheia de policiais armados. O terror toma conta de todos. No meio de certa tranqüilidade e gozo das festas, perdura um clima de insegurança.  Alguns poderão até mesmo ter inveja da situação do Brasil neste aspecto, por aqui o terror é dos bandidos, mas há mais possibilidade das pessoas se protegerem do que o terrorismo internacional, mais violento e astuto.

Viva o Brasil!  Ainda o melhor país para se viver. O brasileiro, mesmo desempregado, é feliz. Quando o Papa João XXIII viu pela primeira vez o que dizia todo o segredo de Fátima, exclamou: “Feliz do Brasil!”  Até hoje ninguém explicou o motivo desta exclamação: então o segredo de Fátima faz menção do Brasil? E isso é motivo para sermos felizes?

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Um povo à altura do Cruzeiro do Sul







Brasileiros de um espírito patriótico, alertado e atualizado! Brasileiros movidos pelo espírito cristão, indissociável de toda alma verdadeiramente brasileira!

Brasileiros aqui se congregam para afirmar perante o país que é bom pensar nas grandezas do futuro, que é necessário trabalhar para que o Brasil vá adiante no caminho de potência emergente que vai trilhando neste momento. Mais do que sonhar com um futuro grandioso, é preciso trabalhar para realizar e antecipar esse futuro.

Mas isso não basta. É preciso também lutar!

Porque a vida não é só feita de esperanças, a vida não é só feita de anelos: ela é feita também de riscos, ela é feita de aleivosias, ela é feita de perigos.

E ai do varão, ai do chefe de família, ai do chefe de empresa, ai do chefe civil, militar ou eclesiástico, que não tenha os olhos igualmente abertos para esse aspecto da realidade: o “inimicus homo” de que nos fala a Escritura, que ronda em torno de cada homem, em torno de cada setor da atividade social, em torno de cada nação do mundo contemporâneo, pronto para se atirar sobre ela, no momento em que encontre condições favoráveis para isso.
Atinge verdadeira grandeza o povo que une a luta ao trabalho
Nesta circunstância é bem certo que importa pensar também no perigo.
Mas, não me parece que o pensar no perigo e nos prepararmos para ele, congregarmos e o concitarmos os nossos concidadãos a lutar contra ele, seja algo dissociado das nobres preocupações da faina diária e da construção de um Brasil sempre maior.

Pelo contrário, professor de História que sou – habituado desde minha remota juventude a me debruçar sobre os fatos históricos á procura das Leis com que Deus pauta a existência, o porvir dos povos, e neles inscreve os sinais de sua Misericórdia e de sua Justiça -, sempre me chamou a atenção um fato que tem a sua projeção sobre a realidade natural, até no mundo animal, e até mesmo no vegetal.

Esse fato que a História ensina é o seguinte:
Não é verdade que atinge a grandeza, a grandeza efetiva, a grandeza durável, a grandeza plena, aquele povo que apenas trabalhou pela sua própria grandeza.
A grandeza é atingida, sim, pelos povos que trabalham, não há dúvida. A Providência na quer, nem abençoa, povos que não trabalham.
Mas a grandeza verdadeira se adquire quando, ademais, o homem – tomando conhecimento desta regra de que ele encontrará em seu caminho o adversário a agredi-lo na justiça de suas vias e na santidade de seus propósitos --, prepara-se para a luta, enfrenta a luta, confia na Providência e vence nessa luta!
Os povos que só são trabalhadores não chegam à verdadeira grandeza. Os povos só trabalhadores não alcançam a verdadeira grandeza.
Os povos que sabem aliar a luta ao trabalho, fazendo do trabalho uma luta e da luta um trabalho, entregando-se operosamente à luta e ardorosamente ao trabalho; os povos que sabem unir esses dois aspectos de sua atividade, esses povos, são o signo da Cruz, tornam-se verdadeiramente grandes.
As intempéries, as dificuldades, quanto maiores, tanto mais preparam uma nação para a sua grandeza, quando ela é grande ao enfrentá-las.

Pensando na grandeza do Brasil

E então eu penso no nosso Brasil...

No nosso Brasil de proporções continentais, habitado por um povo que – é bem verdade – a imigração tornou heterogêneo, mas que vai se amalgamando numa superior unidade de espírito, na qual a inteligência, a sutileza, a capacidade de trabalho e o desejo de progredir se afirmam dia a dia mais.

Eu penso nesse país e nesse povo, e penso comigo: quando o Brasil tomar para si esse dever de aliar luta e trabalho, qual será a sua grandeza?

Ninguém poderá dizê-lo.

Ele terá a grandeza de alma proporcionada ao vigor da luta que, no terreno psicológico como no terreno material, as circunstâncias lhe tenham imposto e ele saiba travar.

Ele terá, ao mesmo tempo, a grandeza de seu território, a grandeza de sua riqueza. Ele será um povo de lutadores, que saberá como nunca trabalhar. Ele será um povo de trabalhadores que soube provar que é formidável na luta.

Sobre ele, eterno, imutável, brilhará o Cruzeiro do Sul, que já Pedro Álvares Cabral viu quando as naus com signo de Cristo vieram aportar em nosso território.

E o Brasil de hoje, voltando-se para o Brasil de ontem, e voltando o olhar enlevado para o Brasil de amanhã, o Brasil de hoje, creio eu que, na afirmação uníssona de todos os nossos corações, poderá exclamar:

“Vivemos dias amargos. Mas, pela graça de Deus, soubemos ser grandes, à altura de nosso povo, de nosso território, à altura do Sinal da Cruz que está esculpido nos nossos céus!”



(Extraído da revista “Dr. Plínio”, nº 66. Setembro de 2003).









quarta-feira, 17 de abril de 2013

O nosso jeitinho



Tem havido muita discussão sobre o “jeitinho”, especialmente o que se tornou comum chamar de “jeitinho brasileiro”. Isso porque supõe-se que tal modo de proceder seja uma característica muito especial de nosso povo. Em tudo o que se vai fazer, aqui no Brasil, havendo qualquer dificuldade a transpor, a pessoa sempre apela para a frase “Dá um jeitinho aí!...”  E isso ocorre por aqui cotidianamente, tanto nas relações comuns do dia a dia, nas atividades comerciais ou sociais, quanto nas complicações jurídicas ou de qualquer outra natureza. O “jeitinho” tornou-se uma fórmula de resolver problemas fora das situações normais, através de uma solução que não seja a legal ou convencional.

Pelo fato disso ter se disseminado de forma indiscriminada no Brasil, a saída para o “jeitinho” encontrou lugar até na política e na economia. As empresas, as entidades financeiras, os economistas e até as autoridades do governo sempre acham um “jeitinho” para encobrir situações vexatórias ou algumas dificuldades perante o grande público. Se alguma empresa ou banco  vai apresentar prejuízo, os diretores têm que arranjar um “jeitinho” para que tal não ocorra; se um ministério está passando por dificuldades, às vezes problemas de corrupções e escândalos, tem-se que arranjar um “jeitinho” para a coisa ficar encoberta. Se os políticos que estão no poder aproveitam-se do cargo e roubam, são aconselhados pelas autoridades que dêem um “jeitinho” para que a coisa se resolva de forma encoberta para que o nome e o prestígio do Governo não fique comprometido. Talvez tenha sido por isso que houve o famoso caso do “mensalão”, quando dezenas de políticos foram pegos em contravenções escandalosas, mas o Governo tentou a todo custo encobrir tudo. Aqui o “jeitinho” se confunde com esperteza.

E chegou ao ponto das próprias autoridades econômicas serem criticadas no exterior por procurarem sempre arranjar o tal “jeitinho” para encobrir as mancadas e falhas do nosso sistema político-econômico. O nosso ministro da fazenda chegou a ser chamado pela mídia americana de “profissional do jeitinho” (lá a expressão usada é “little way” – pequeno jeito), haja vista que o mesmo teria feito várias manobras contábeis com o Tesouro Nacional com vistas a justificar o cumprimento das metas fiscais programadas pelo Governo. A manobra foi facilmente descoberta pelos economistas, e o “jeitinho” foi denunciado como prática normal por aqui.

Mas, afinal, como caracterizar uma situação em que o uso do “jeitinho” seja lícito e até aconselhável?

Segundo alguns historiadores, essa quase mania de tudo se resolver com um “jeitinho” não nasceu aqui entre nós, mas seria uma herança de nossos bons colonizadores. E a fórmula do “jeitinho” já era muito usada em Portugal desde os tempos do Rei Dom João I (séc. XIV), mas não teria sido ele o principal responsável, e não teria sido nenhum português, mas uma inglesa, a rainha Dona Filipa de Lencastre. Numa época rigorosa, em que tudo se fazia com disciplina e rigor, era necessária alguma fórmula caridosa de amortecer as tensões sociais, e isso a rainha o fazia através do “jeitinho” muito peculiar de seu sexo e de sua religiosidade, repetida pelos filhos e nobres da corte, logo se disseminando pela população e sendo transposta para o Brasil.

Este “jeitinho” português que a rainha tão bem praticava de modo correto era fruto da bondade, virtude muito peculiar entre cristãos, e que procura sempre tentar amenizar o sofrimento do próximo. Não é bem assim que pensa alguns povos que sofreram muito fortemente os efeitos do humanismo e da Renascença, para os quais as regras existem para serem aplicadas com rigor..

Dessa forma, podemos caracterizar algumas situações em que o uso do “jeitinho” pode ser lícito e até aconselhável, e outras em que as pessoas o usam mais como esperteza para ludibriar e se sair de enrascadas. A maioria dos “jeitinhos” lícitos são decorrentes do excesso da burocracia, onde há uma infinidade de exigências com papéis, muitas delas absurdas e sem sentido.Por exemplo, se você vai se matricular numa escola e, entre os papéis, há um que o funcionário quer devolver porque não é uma cópia perfeita, ou por outro motivo, não custa nada apelar para o “jeitinho” pedindo, por exemplo, que o funcionário aceite aquele papel sob a promessa de vir depois trazer outro na forma exigida. Mas há os casos em que o “jeitinho” pode se consumar numa ação criminosa, como pedir a um policial para “deixar passar” alguma infração grave (às vezes sob promessa de propinas) e os citados acima nos casos de situações econômicas complicadas.

Segundo reportagem da revista “Língua Portuguesa” (edição 89, de 2013), o lingüista John Robert Schmitz (seria brasileiro com esse nome?), da Unicamp, afirma que “jeito” deriva do verbo “jacere” – jacio, jacere, jeci, jactum (lançar, arremessar), “objeto” ou “objeção” (o que está diante) e “sujeito” (por baixo). Lançar para fora (e, ex) é “ejetar”; para dentro é “injetar”. Temos “rejeição” àquilo que deve ser jogado fora (abjeto)..., etc.” Segundo a revista, “o jeitinho seria a extensão dessa idéia corporal para o âmbito das relações sociais”. A mesma revista expõe ainda a opinião de um filósofo, segundo o qual o jeitinho é uma predisposição em ser cooperativo. E concluía que o “jeitinho” não se confundiria com favorecimento ou privilégio, o que acho razoável.

O europeu se espanta com o nosso “jeitinho” porque se tornou um homem empírico, apegado demais a convenções e hábitos, tido como lógico e racional, mas, no fundo, apenas apegado às regras. Os fariseus do tempo de Nosso Senhor Jesus Cristo também eram assim e foram recriminados por nosso Salvador. Talvez o europeu de hoje não seja exatamente igual ao fariseu, mas que tem muita coisa parecida com eles, isso tem. Lembremos que foi de lá que se originou o lema “é proibido proibir”, e de dentro da universidade mais famosa. Um amigo meu, que residia na Europa, certa feita disse-me que nenhum francês recebe visita em sua casa se não for com hora marcada. O mesmo ocorre com os ingleses, alemães, com as honrosas exceções de Espanha e Portugal, embora nestes dois países ainda exista também muito apego às regras. Se um brasileiro, amigo de um francês, ligar para ele dizendo que vai lhe fazer uma visita exatamente na hora do almoço, ao ser negado, certamente será tentado a dizer: “dá um jeitinho aí, pois viajo hoje mesmo”. Mesmo assim, o francês dificilmente mudará de atitude, a não ser que tenha já convivido algum tempo no Brasil e tenha aprendido a usar esta bela fórmula social, a do “jeitinho” de se viver em sociedade.

Em suma, eles lá não são “honestos” porque o preceitua dois Mandamentos da Lei de Deus (o 7° e o 10°), mas por causa de um hábito, um costume que eles seguem há anos. E o importante, para eles, é seguir as regras. É a maneira “cartesiana” de viver, diferente da nossa, mais flexível, mais agradável e versátil, sabendo fazer “jogo de cintura”, como se diz aqui, e contornando situações sem causar maiores males sociais.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Somente após a borrasca... é hora de meditar e pensar em Deus?




“Subi a Deus na ventura e Ele descerá a vós na desgraça”. (Marquês de Maricá).





Catarina:
O nome do furacão que arrasou Nova Órleans (Kathrine); o nome de um Estado brasileiro que comemorou o dia de sua toponímia (25 de novembro foi dia de Santa Catarina) com uma catástrofe semelhante e terminou no dia de Nossa Senhora das Graças (dia 27). Catarina também foi o nome de uma tempestade tropical havida na região em 2004, lembram-se? É evidente que parece haver apenas coincidência com o nome, pois Santa Catarina (a de Alexandria) tem relação mais com cultura (era uma culta filósofa grega que se converteu ao cristianismo nascente) do que com catástrofes.
Uma lição, porém, todo o povo brasileiro está tendo: a de servir o próximo desinteressadamente.
Veja o texto abaixo, colhido junto a um participante do grupo de orações “Sagrado Coração de Jesus”, (sagrado-coracao@googlegroups.com) redigido por um sofredor catarinense:

"Hoje 27 de novembro de 2008 o sol saiu e conseguimos voltar a trabalhar. A despeito de brincadeiras e comentários espirituosos normais sobre esta "folga forçada" a verdade é que nunca me senti tão feliz de voltar ao trabalho. Não somente pelo trabalho, pela instituição e pela própria tranqüilidade de ter aonde ganhar o pão, mas também por ser um sinal de que a vida está voltando ao normal aqui na nossa Itajaí. As fotos que circulam na internet e os telejornais já nos dão as imagens claras de tudo que aconteceu então não vou me estender narrando e descrevendo as cenas vistas nestes dias. Todos vocês já sabem de cor. Eu quero mesmo é falar sobre lições aprendidas. Por mais que teorias e leituras mil nos falem sobre isso ainda é surpreendente presenciar como uma tragédia desse porte pode fazer aflorar no ser humano os sentimentos mais nobres e os seus instintos mais primitivos. As cenas e situações vividas neste final de semana prolongado em Itajaí nos fizeram chorar de alegria, raiva, tristeza e impotência. Fizeram-nos perder a fé no ser humano num segundo, para recuperá-la no seguinte. Fez-nos ver que sempre alguém se aproveitará da desgraça alheia, mas que também é mais fácil começar de novo quando todos se dão as mãos. Que aquela entidade superior que cada um acredita (Deus, Alá, Buda, GADU etc.) e da forma que cada um a concebe tenha piedade daqueles: - Que se aproveitaram a situação para fazer saques em Supermercados, levando principalmente bebidas e cigarros - Que saquearam uma farmácia levando medicamentos controlados, equipamentos e cofres e destruindo os produtos de primeira necessidade que ficaram assim como a estrutura física da mesma. - Que pediam 5 reais por um litro de água mineral. - Que chegaram a pedir 150 reais por um botijão de gás. - Que foram pedir donativos de água e alimentos nas áreas secas pra vender nas áreas alagadas. - Que foram comer e pegar roupas nos centros de triagem mesmo não tendo suas casas atingidas. - Que esperaram as pessoas saírem das suas casas para roubarem o que restava. - Que fizeram pessoas dormir em telhados e lajes com frio e fome para não ter suas casas saqueadas. - Que não sentiram preocupação por ninguém, algo está errado em seu coração. - Que simplesmente fizeram de conta que nada acontecia, por estarem em áreas secas.
Da mesma forma, que essa mesma entidade superior abençoe: - Aqueles que atenderam ao chamado das rádios e se apresentaram no domingo no quartel dos bombeiros para ajudar de qualquer forma. - Os bombeiros que tiveram paciência com a gente no quartel para nos instruir e nos orientar nas atividades que devíamos desenvolver. - A turma das lanchas, os donos das lanchinhas de pescarias de fim de semana que rapidamente trouxeram seus barquinhos nas suas carretas e fizeram tanta diferença. - À equipe da lancha, gente sensacional que parecia que nos conhecíamos de toda uma vida. - Aos soldados do exército do Paraná e do Rio Grande do Sul. - Aos bravos gaúchos, tantas vezes vitimas de nossas brincadeiras que trouxeram caminhões e caminhões de mantimentos. - Aos cadetes da Academia da Polícia Militar que ainda em formação se portaram com veteranos. - Aos Bombeiros e Policias locais que resgataram, cuidaram , orientaram e auxiliaram de todas as formas, muitas vezes com as suas próprias casas embaixo das águas. - Aos Médicos Voluntários. - Às enfermeiras Voluntárias. - Aos bombeiros do Paraná que trabalharam ombro a ombro com os nossos. - Aos Helicópteros da Aeronáutica e Exercito que fizeram os resgates nos locais de difícil acesso. - Aos incansáveis do SAMU e das ambulâncias em geral, que não tiveram tempo nem pra respirar. - Ao pessoal do Helicóptero da Polícia Militar de São Paulo, que mostrou que longo é o braço da solidariedade. - Ao pessoal das rádios que manteve a população informada e manteve a esperança de quem estava isolado em casa. - Aos estudantes que emprestaram seus físicos para carregar e descarregar caminhões nos centros de triagem. - Às pessoas que cozinharam para milhares de estranhos. - Ao empresário que não se identificou e entregou mais de mil marmitex no centro de triagem. - A todos que doaram nem que seja uma peça de roupa. - A todos que serviram nem que seja um copo de água a quem precisou. - A todos que oraram por todos. - Ao Brasil todo, que chorou nossos mortos e nossas perdas. - Aos novos amigos que fiz no centro de triagem, na segunda-feira. - A todos aqueles que me ligaram preocupados com a gente. - A todos aqueles que ainda se preocupam por alguém. - A todos aqueles que fizeram algo, mas eu não soube ou esqueci.
Há alguns anos, numa grande enchente na Argentina um anônimo escreveu isto: COMEÇAR DE NOVO
Eu tinha medo da escuridão
Até que as noites se fizeram longas e sem luz
Eu não resistia ao frio facilmente
Até passar a noite molhado numa laje
Eu tinha medo dos mortos
Até ter que dormir num cemitério
Eu tinha rejeição por quem era de Buenos Aires
Até que me deram abrigo e alimento
Eu tinha aversão a Judeus
Até darem remédios aos meus filhos
Eu adorava exibir a minha nova jaqueta
Até dar ela a um garoto com hipotermia
Eu escolhia cuidadosamente a minha comida
Até que tive fome
Eu desconfiava da pele escura
Até que um braço forte me tirou da água
Eu achava que tinha visto muita coisa
Até ver meu povo perambulando sem rumo pelas ruas
Eu não gostava do cachorro do meu vizinho
Até naquela noite eu o ouvir ganir até se afogar
Eu não lembrava os idosos
Até participar dos resgates
Eu não sabia cozinhar
Até ter na minha frente uma panela com arroz e crianças com fome
Eu achava que a minha casa era mais importante que as outras
Até ver todas cobertas pelas águas
Eu tinha orgulho do meu nome e sobrenome
Até a gente se tornar todos seres anônimos
Eu não ouvia rádio
Até ser ela que manteve a minha energia
Eu criticava a bagunça dos estudantes
Até que eles, às centenas, me estenderam suas mãos solidárias
Eu tinha segurança absoluta de como seriam meus próximos anos
Agora nem tanto
Eu vivia numa comunidade com uma classe política
Mas agora espero que a correnteza tenha levado embora
Eu não lembrava o nome de todos os estados
Agora guardo cada um no coração
Eu não tinha boa memória
Talvez por isso eu não lembre de todo mundo
Mas terei mesmo assim o que me resta de vida para agradecer a todos
Eu não te conhecia
Agora você é meu irmão
Tínhamos um rio
Agora somos parte dele
É de manhã, já saiu o sol e não faz tanto frio Graças a Deus
Vamos começar de novo. Anônimo

É hora de recomeçar, e talvez seja hora de recomeçar não só materialmente. Talvez seja uma boa oportunidade de renascer, de se reinventar e de crescer como ser humano. Pelo menos é a minha hora, acredito. Que Deus abençoe a todos. Luis Fernando Gigena
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Os anônimos também têm seus pensamentos, eis um deles:
“Eu dormia quando sonhava que a vida feliz consiste em gozar; acordei quando verifiquei que o gozo da verdadeira felicidade consiste em servir”. (anônimo).

terça-feira, 9 de setembro de 2008

As eleições estão contribuindo para melhorar nossa democracia?

Vários são os aspectos que fazem de nossas eleições uma de níveis mais baixos do mundo. E comum se ver, pelo menos no Nordeste, um candidato desfilando montado num jegue, um outro vestido de forma burlesca. Enfim, predomina aquela mentalidade de que para ser popular tem que ser baixa de nível.
E a baixa de nível toma conta de tudo, dos candidatos, da propaganda eleitoral e até mesmo da própria justiça eleitoral, a qual vem favorecendo até mesmo os criminosos. Veja abaixo a matéria divulgada pela revista “VEJA”, de 3 de setembro último, sob o título de “100 Assassinos”:
“Não é preciso ser doutor em matemática para deduzir que nunca tivemos, na história deste país, tantos homicidas disputando um cargo público"
Nada como o passar do tempo para os eleitores aprenderem a dar valor a certas coisas. Não era possível, anos atrás, achar nenhuma vantagem quando se dizia que em política, no Brasil, "só dá ladrão". O que poderia haver de bom para o cidadão, na hora de votar, diante de uma situação assim? Hoje, quando se olha para essa época, o brasileiro pode até sentir saudade. Mais uma vez, nas eleições municipais deste ano, ele será obrigado a votar – e constata que os ladrões deixaram de ser o que há de pior, realmente, na lista de candidatos a prefeito e vereador. A comprovação mais clara disso está numa informação prestada alguns dias atrás, mais ou menos de passagem, pelo vice-presidente do TRE do Rio de Janeiro, Alberto Motta Moraes: só no estado do Rio, afirmou ele, há pelo menos 100 candidatos às próximas eleições que são acusados de homicídio, ou já foram condenados por ter matado alguém. O interessante é que o desembargador Moraes, ao fazer essa revelação ao público, não estava reclamando das recentes decisões das nossas cortes superiores de Justiça, que não apenas permitem candidaturas desse tipo como proíbem que os tribunais eleitorais informem ao público sobre as fichas criminais dos candidatos; só citou os 100 envolvidos em assassinatos porque precisava justificar a instalação de um detector de metais na entrada do TRE fluminense. Pelo menos isso, pede o desembargador: como já foi notada a presença de pistoleiros no recinto do tribunal, quem sabe se possa proibir, daqui por diante, o ingresso de gente armada nas sessões da casa. Agora é botar fé – e rezar para que nenhuma autoridade mais acima venha a decidir que a colocação de um detector desses na porta do TRE é uma violação aos direitos dos candidatos.
Sem dúvida, como se vê, subimos de patamar. Além de indivíduos acusados de peculato, extorsão, corrupção passiva ou ativa e outros delitos que caem no campo genérico da ladroagem, nossas listas eleitorais se vêem enriquecidas, agora, por assassinos – não dois ou três, como talvez pudesse acontecer num momento de anomalia, mas no mínimo 100, e só no estado do Rio de Janeiro. Quantos seriam no Brasil todo? Não se tem no momento uma informação exata sobre esse número, mas, levando-se em conta que há quase 380 000 candidatos às eleições de outubro próximo nos cerca de 5 500 municípios brasileiros, não é preciso ser nenhum doutor em matemática para deduzir que nunca tivemos, na história deste país, tantos homicidas disputando um cargo público. Em que outro lugar do mundo haveria algo parecido?
É possível, em relação a isso, achar qualquer coisa, menos uma: que nas democracias é assim mesmo, e portanto não há nada a reclamar. É justamente essa, porém, a postura do Tribunal Superior Eleitoral e, acima dele, do Supremo Tribunal Federal. Em sua maneira de ver a vida, uma pessoa que tenha cometido crimes, por piores que sejam, só pode ser impedida de disputar um cargo público depois de ser condenada na última das últimas instâncias, e não lhe couber mais a possibilidade de nenhum recurso – até lá vale tudo, inclusive continuar matando gente. O STF e o TSE não apenas acham isso perfeitamente normal. Acham uma glória – uma exibição impecável da majestade da Justiça brasileira, que se coloca acima das "paixões da sociedade" e não se impressiona com a opinião de leigos. Talvez pudessem dizer, por exemplo: "Lamentamos, mas a Constituição nos obriga a decidir assim, e o STF não pode mudar o que está escrito na Constituição". Mas não dizem nada parecido. Ao contrário, orgulham-se daquilo que consideram a sua coragem de decidir contra "a opinião pública", que nada entende de ciência jurídica. Garantem que esse é o "preço da democracia" – ou se vive assim, ou se cai num estado policial.
Não cabe ao eleitor, nem mesmo, o direito de ser informado sobre os antecedentes criminais de quem lhe pede o voto. Em manifestação recente, na qual se opôs à divulgação pelas autoridades eleitorais dos nomes de candidatos com "ficha suja", o ministro Eros Grau, do STF, sustentou que "a exigência de comprovação da idoneidade moral do cidadão" é "uma violência". Equivaleria, a seu ver, à "delação". É uma opinião. E o fato? O fato é que existe algo profundamente errado com um sistema legal que permite a presença de 100 assassinos nas listas eleitorais do Rio de Janeiro. Quem diz isso não está, como sugerem nossos juristas, defendendo linchamentos ou ditaduras. Apenas se recusa a aceitar que, para haver democracia, é inevitável deixar a política aberta aos criminosos.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Nossas eleições sempre se transformam em circo

Não parece que eleições no Brasil é coisa séria. Basta que se dê uma olhada na qualidade dos candidatos e na propaganda grotesca que fazem. Estão divulgando alguns vídeos com candidatos bizarros no youtube, onde se vê um pouco dessa falta de seriedade. Por exemplo, na Bahia foram registrados pelo menos 21 nomes de candidatos analfabetos. A Constituição em seu art. 14 diz que os analfabetos são inelegíveis. Não se sabe como, mas fizeram um jeito de passar por alfabetizados perante o juiz que acolheu os seus registros. Um exemplo marcante é o vereador Alaci Lacerda, de Palmas de Monte Alto, que já vai no sexto mandato e nunca teve problemas em registrar suas candidaturas apesar de ser analfabeto. Quanto à propaganda: a idéia geral é de que o político é um "homem do povo" e, sendo assim, tudo nele deve ser plebeu, popularesco, canhestro, bizarro, etc., a começar pelo nome, geralmente uma alcunha grotesca e de mal gosto. E, depois, vem aquela horrível propaganda eleitoral, tão antipática a cada eleição que passa, mas, teimosa, continua de mal a pior.