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sexta-feira, 20 de março de 2026

REABILITAÇÃO HISTÓRICA DE MONSTROS REVOLUCIONÁRIOS

 


Em artigo publicado no “Legionário”, em 20 de maio de 1945, sob o título de “Vacina”, Dr. Plínio Corrêa de Oliveira comenta sobre a reabilitação de personagens históricos que, na realidade, foram verdadeiros monstros, porém  mostrados depois como “bonzinhos”:

“Não seria novo esse processo de reabilitação histórica. Observamo-lo em ação, beneficiando a memória dos facínoras da Revolução Francesa. Enquanto Robespierre, Danton, Marat, Saint-Just, a clique terrorista enfim, cometia suas famosas atrocidades, toda a opinião mundial se indignava contra eles. Para as crianças, eles personificavam os espectros e os monstros noturnos de que a imaginação infantil povoa os quartos escuros. Para as mães, para as esposas, para as filhas, eles eram algum dos bandos de monstros que São João anteviu e o Apocalipse descreve com uma terrível meticulosidade de pormenores simbólicos. Para os "espíritos fortes", a própria personificação dos germens de decomposição e de desordem que as sociedades normais eliminam habitualmente, ou pelo menos comprimem em seu "bas fond". De tal maneira esse horror embebera todas as camadas da sociedade, que a reação mais ardente contra a "mafia" do Comité não procedeu como de costume, dos políticos ou dos militares, mas dos quadrantes menos habituados à ação violenta. Contra Marat, por exemplo, foi o braço alvo e feminil de uma jovem sentimental, de boa estirpe, de educação cuidada e compleição delicada, que vibrou o golpe fatal. Passaram-se os tempos, morreram as últimas pessoas que tinham sofrido durante o Terror, por si ou vendo os outros sofrer. Toda a abjeção dos personagens revolucionários foi sendo esquecida. E, hoje, a estampa de Marat ou de Danton figura, marcada com uma bela fita tricolor, no compêndio de História de muita mocinha do feitio de Charlotte Corday. A cristalização da legenda histórica transformou o bandido em herói, o tirano em mártir da liberdade.

O mesmo se deu, "mutatis mutandis", com Napoleão. Não é inteiramente verdadeiro dizer que em 1814 ou 1815 a França tenha sido derrotada pela Europa coligada. Napoleão foi certamente derrotado. A França se deixou vencer. Extenuada de lutas, farta das conquistas artificiais, do peso de seu Império desmesurado anacrônico e postiço, dos louros inevitavelmente efêmeros da epopeia napoleônica, os franceses já não queriam lutar e apoiavam molemente um déspota de que, no fundo, se queriam ver livres. Não há dúvida de que os feitos militares napoleônicos tem sido canonizados pelos técnicos de guerra como admiráveis obras primas da perícia militar. Mas a ciência moral se recusava e se recusa categoricamente a sancionar com igual admiração as causas e as consequências dessas guerras. Para a Europa inteira, e mesmo para imensas camadas da opinião francesa, Napoleão não era senão um Átila malfazejo que tinha arrastado seu país e o mundo inteiro a uma aventura louca. Com o tempo, porém, a recordação de tudo isto se esvaiu. E o Napoleão da legenda, o Napoleão que se ensina aos escolares, emergiu heroico, viril, respeitável, na admiração de todos os povos, mesmo dos que ele oprimiu mais duramente. E ficou para uso dos especialistas a recordação mais científica, menos brilhante e mais verdadeira, do autêntico Napoleão, que era o que as famílias na retaguarda, e os moribundos nos campos de batalha, maldiziam de todo coração.

E haverá ainda outros exemplos a aduzir”.

Robespierre foi por muito tempo chamado de “o incorruptível” por historiadores da Revolução Francesa, tido como homem sério e não corrompido pelos correligionários. Tanto ele como Danton hoje são nomes de carros de passeio, tidos como heróis e símbolos nacionais franceses.  Há um personagem que também é citado abusivamente como mentor de uma nova era, o autor do “Contrato Social”, Rousseau, ideólgo da Revolução Francesa e dos novos estados políticos que surgiram a partir de então.  Toda constituição moderna é feita conforme os princípios do “Contrato Social”, e Rousseau citado como filósofo avançado e benéfico à humanidade. Voltaire não chegou a compor uma obra tão útil à Revolução quanto Rousseau, mas por ter sido famoso com seus romances e ideias libertárias, apesar de ímpio e odiar a Igreja divulgando princípios ateus, é tratado como um luminar dos novos tempos.  Essa gente tão péssima é chamada de “iluministas”, por pertencerem ao ciclo dos Iluministas daquela época, quer dizer, “iluminados”, não sei com que luz, talvez com algum candeeiro dos infernos.  Napoleão nem se fala, de ditador e guerreiro sanguinário passou a ser tratado como grande estrategista militar, inclusive como modelo a ser seguido.

Estes são os da Revolução Francesa, mas outros revolucionários já tiveram sua vida refeita segundo critérios diferentes a fim de agradar o grande público, como Lutero, Stalin, Lênin, Mandela, etc. No Brasil, não houve tentativa de reabilitação histórica, mas da fama, como o caso de Lula, o qual isentaram dos crimes prometidos e o colocaram novamente na disputa política para a presidência.

Vejamos quem eram alguns deles:

 

O Partido Filosófico

E existe, ou existia, um “partido” filosófico? Isto é, um grupo político composto por gente dedicada à filosofia? Sim, é o que confirma um grande historiador francês:

― “Os filósofos gritavam contra a tirania, mas a verdadeira tirania era aquela que eles exerciam sobre a literatura...

A seu lado, com a sua tolerância, com a ajuda dos subsídios da aristocracia, com a cumplicidade e participação da magistratura, da polícia e da

administração, constituiu-se um novo poder, ativo, audacioso, intolerante: o partido filosófico. Esse partido tem os seus quadros: as sociedades; os seus chefes: os enciclopedistas; os seus arautos: os parlamentos; o seu exército: as suas grandes manobras: as lutas políticas em volta dos impostos e da religião”.[1]

Vejamos alguns membros deste “Partido”:

Voltaire

―Talvez nenhum personagem tenha encarnado tão profundamente o

espírito filosófico do século XVIII quanto Voltaire.

Valendo-se da crítica, do deboche, da sátira e da calúnia, por meio de um estilo fino, inteligente, variado, mas recheado de obscenidades e blasfêmias, Voltaire visou incessantemente afastar a sociedade do Ancien Regime dos princípios católicos que ainda a regiam.

Segundo Albert Soboul, foi Voltaire quem deu ao deísmo francês do século XVIII sua marca indelével, sintetizando-o em alguns raciocínios rápidos, em algumas formas simples, que dispensam os mais grossos tratados e as mais longas dissertações.

Escreve Montalban: A descrição a seguir é muito semelhante ao das assembléias legislativas de hoje, quer dizer, a da França revolucionária fez “escola” e tornou-se um modelo republicano...

Apesar de se dizer apenas filósofo, Voltaire teve uma atuação pessoal como agente revolucionário no campo do pensamento e da pregação.

―Francisco Maria Arouet, [dito] Voltaire (1694-1778), recebeu uma profunda cultura clássica do Colégio “Louis Le Grand”. Seus mestres espantaram-se, tanto pela vivacidade de sua inteligência quanto pela felonia de

seu caráter.

Jovem ainda, Voltaire foi apresentado no salão de Ninon de Lenclos. Em seguida passou a frequentar a companhia dos piores libertinos e a escrever versos e sátiras. Por duas vezes foi desterrado de Paris, e também por duas vezes prisioneiro na Bastilha.

A tragédia “Oedipe” (Édipo), onde se vê claro sua incredulidade, deu-lhe fama como dramaturgo, e o poema épico sobre Henrique IV (Henriade) confirmou seu prestígio de poeta.

Nesse período de sua vida, Voltaire foi mais libertino e imoral do que incrédulo!. [2]

―Foi de Farney que Voltaire comandou o exército dos filósofos, na guerra que moveu contra a Religião Católica e a Santa Igreja. De lá enviava suas “receitas” para aqueles “trinta cozinheiros”, - segundo expressão sua a MMe. Du Deffand – que, espalhados pela Europa, preparavam as mesmas “iguarias” para toda a alta sociedade.

Comenta Paul Hazard que, com o passar do tempo, sua oposição ao cristianismo se acentuava, exasperava-se e veio a tornar-se ideia fixa. Esse espírito tão encantador, tão fino, tão sóbrio, era violento e desmedido desde que se tratasse de “esmagar a infame”, como ele dizia.

Da “fábrica‖ de Farney”, (...) partiam incessantemente panfletos onde apareciam por vezes o gênio do artista e o fanatismo do sectário. Sua negação, ele a exprimia não em dez, nem em cem, mas sob mil formas diferentes; de modo que a obsessão, caráter geral do século, veio tornar-se para ele um estilo de ser: não queria e nem podia mais se desengajar dela.

A Bíblia era sem grandeza e sem beleza; o Evangelho não havia trazido senão infelicidade sobre a terra; a Igreja toda, inteira e sem exceção, estava corrompida ou louca; não havia um só confessor de fé que não fosse fanático; os mais puros, os mais nobres eram arrastados na lama; até São Francisco de Assis era despojado de sua doce auréola e tinha-se tornado um pobre louco.

Simplificação caricatural, vontade de nunca considerar as razões do adversário, de passá-las sob silêncio ou desfigurá-las, incansável repetição: tais eram alguns de seus procedimentos.

Sua fúria anti-religiosa é bem descrita pelo Pe. Rohrbacher:

―Voltaire escreveu a seu amigo d‘Alembert, a 20 de junho de 1760: ‗Heralt disse um dia a um de seus irmãos: Vós não destruireis a religião cristã – É o que veremos, disse o outro. – Este era o próprio Voltaire, que escreveu ao mesmo amigo a 24 de julho seguinte: “Será possível que cinco ou seis homens de mérito, que se compreendem, não alcancem êxito, depois do exemplo que temos de doze homens desprezíveis que o alcançaram?”

E a 23 de agosto: Eu amo apaixonadamente meus irmãos em Belzebu. Compreende-se perfeitamente quais eram esses irmãos no príncipe dos demônios, e qual era o objetivo de sua conjuração. Voltaire lhes disse um dia: Estou cansado de escutá-los repetir que doze homens foram suficiente para estabelecer o cristianismo, e desejo provar-lhes que basta apenas um para destruí-lo. (...)

Seu ódio contra a religião cristã transformou-se em furor. Ele não a designa mais, em sua correspondência, senão sob o apelido de “infame” ―Esmaguemos a infame ― esmagai a infame!, encontra-se repetido mais de cento e cinquenta vezes: ele fez até um nome próprio destas palavras satânicas, e assinava com abreviação: Ecr-lenf, ou Ecrlinf...

A este ódio furioso contra a religião cristã, ele acrescentava a hipocrisia mais desavergonhada. Escrevia ao Conde d‘Argental, em 16 de fevereiro de 1761: ―Se eu tivesse cem mil homens, sei bem o que faria, mas como não os tenho, comungarei na Páscoa. Vós me chamareis de hipócrita tanto quanto quiserdes!. Ele comungou efetivamente neste ano, como em 1768, com muita ostentação, recebendo o Pão Sagrado e se permitindo até mesmo pregar na igreja como senhor da paróquia.[3]

 

Rousseau

―Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra em 1712. Sua mãe morreu por ocasião de seu nascimento. Abandonado pelo pai e entregue a si mesmo, ele viveu seus primeiros anos ao sabor das circunstâncias.

Estando na Savóia, Rousseau atraiu a atenção de um padre católico que o enviou para a casa de Mme. de Warens, uma mulher paga para cuidar de protestantes convertidos. Mme.de Warens tornou-se sua “mãe“ e sua amante. Ela com trinta, ele com dezesseis anos.

Em casa de Mme. de Warens, devorado por uma profunda inquietação, ele tentou de tudo, até mesmo cursar um seminário, de onde acabou sendo expulso.

Resolveu então correr o mundo, a pé, tendo por companheiros de viagem ora um mestre de música, ora um aventureiro que se embriagava, ora um falso arquimandrita. Enfim, cansado de tanto peregrinar, retornou para junto de Mme. de Warens . que agora dividia seus favores entre ele e o jardineiro.

Algum tempo depois, partiu para Lyon, onde se tornou preceptor dos filhos de M. Mably que o expulsou porque ele lhe roubou a adega. Por fim, tomou o caminho de Paris, onde se tornou célebre repentinamente, quando a academia de Dijon premiou seu discurso sobre as ciências e as artes.

Contudo, sua vida errante continuava, ora habitando no “hermitage”, recanto da floresta de Montmorency que lhe ofereceu Mme. d‘Epinay, ora em uma dependência do palácio do Marechal de Luxemburgo, ora tendo que fugir da França, perseguido pela ousadia de seus escritos.

A partir de 1768 a vida de Rousseau apresentava um aspecto cada vez mais deplorável. Pouco a pouco sua loucura aumentava. Nesta época ele se casou “diante da natureza”, com Thérese Levasseur, mulher de má vida, com quem vivia desde 1744, e de quem teve cinco filhos, que a todos abandonou.

Finalmente mudou-se para o bosque de Ermenonville, propriedade de um de seus admiradores, o Marquês de Girardin. Lá, em 1778 ele morreu, segundo alguns dando-se um tiro na cabeça; segundo outros, envenenando-se com ervas que colhera no bosque e que comera para afogar suas mágoas de Thérese Levasseur, da qual ele soubera que estava mantendo relações com um criado do Marquês. [4]

―Pierre Gaxote explica que a doutrina de Rousseau foi aplicada durante a Revolução Francesa, e o significado da expressão “Vontade Geral”, por ele utilizada no “Contrato Social”:

―Rousseau não se limitou aos anátemas, às lamentações e às invectivas. Estabelece as bases da sociedade futura, que assegurará aos homens o exercício de seus direitos naturais. Tais fundamentos são: a igualdade completa dos associados, a alienação dos direitos de cada um em proveito da coletividade, a subordinação dos contratantes à “Vontade Geral”.

Entendamo-nos sobre o sentido desta expressão. A “Vontade Geral” não é a vontade do maior número, mas sim a voz profunda da consciência humana, tal como ela deveria falar em cada um de nós, e tal como ela se exprime pela boca dos cidadãos mais virtuosos e mais esclarecidos.

A sua primeira tarefa e, por assim dizer, a sua única tarefa, consiste em destruir e impedir de renascer todos os organismos naturais que, até então, enquadravam e sustentavam os indivíduos, e que passam agora a ser considerados como opressivos e imorais. A propriedade, a família, a corporação, a cidade, a província, a pátria e a Igreja são outros tantos obstáculos a abater.

Objetar-se-á que a maior parte dos cidadãos os respeitam, sentem-se bem com eles e ali encontram a sua felicidade e paz de alma, mas isso pouco importa: não há liberdade contra a liberdade. Se a “Vontade Geral” não fala dentro deles, é porque são pervertidos e degradados, e é um dever, para os cidadãos “conscientes”, tratar de os emancipar, mesmo contra sua vontade.

Tornada religião, a República tem a sua ortodoxia, os seus eleitos e os seus réprobos. Maiorias, eleições, votos, consultas populares, tudo isso é fachada, o jogo em que se deixam prender os ingênuos, admirando-se de que as regras não sejam nunca aplicadas senão contra eles. Por trás destas agitações, há a pequena congregação dos fiéis e dos iluminados. São eles que detêm a verdade, e que juraram entre si estabelecer o seu império. Eles é que são a “Vontade Geral”. [5]

De tal maneira estava imbuído dos princípios naturistas que se deixou pintar como o personagem Robson Crusoé, gorro de couro de raposa e capote de lã, forma como é retratado até hoje.

 

Robespierre

Este, como Danton, embora não tenham sido filósofos pode-se que eram o braço do poder do “partido” de que falamos.

“Robespierre ―...é o homem de clube por excelência. Tudo o que o prejudica na vida real torna-se-lhe no clube um penhor de êxito. Tem o espírito pouco profundo, poucas ideias e pouca invenção? Está ao nível do seu auditório, não o espanta e não excita a sua inveja. A sua personalidade é fraca e distinta? Funda-se na personalidade coletiva e dobra-se sem esforço à disciplina democrática. A sua situação social é quase nula? O clube funda-se sobre a igualdade de todos os seus membros e ele suporta mal as superioridades exteriores de categoria e dinheiro. Preocupa-se pouco com os seus trabalhos? Mais assíduo poderá ser às sessões do clube. Viveu ainda pouco e a sua experiência dos homens e das coisas é ainda limitada? O clube é uma sociedade artificial, construída ao contrário da verdadeira sociedade. Tem a inteligência formalista, sem grande ponto de apoio sobre o real? No clube não é a ação que conta, mas sim a palavra.

Imbuído de Rousseau, cheio da doutrina do Contrato Social, exercitado por seis anos de repetição no manejar de cabalas, compreendeu, sentiu e adivinhou que a lei dos movimentos revolucionários é: ―nenhum inimigo à esquerda‖. Compreendeu, sentiu e adivinhou que, quanto mais fraco for o governo, mais fortes serão as sociedades. E não se enganou no terreno: manobra sobre o que é mais sólido. Este homem medíocre tem o senso ou, se assim o quiserem, o gênio da Revolução e do seu mecanismo.

Em 1789 é realista. Depois da fuga de Varennes, pede a substituição do Rei pelos meios constitucionais. É republicano na Legislativa e montanhês na Convenção. Vai para o “dirigismo” no mesmo passo do clube; nem muito depressa nem muito devagar... É um ortodoxo, segundo a ortodoxia do dia. As suas intervenções na Assembléia não têm outro significado. Ao passo que Mirabeau, Lameth, Duport e muitos outros procuram a satisfação de ambições pessoais, ele não sobe à tribuna senão para lembrar a Lei e os Profetas...

Pouco lhe importa que o aplaudem ou o apupem. Não fala para a Assembléia, mas sim para a clientela jacobina. E é por isso que o clube o glorifica. Em 1 de abril de 1790 é nomeado presidente; em junho de 1791 é encarregado de preparar o programa para as próximas eleições. Em julho de 1791, depois do morticínio do Campo de Marte e da dissolução dos ”Feuillants”, é um dos poucos deputados que se mantém fiel à sociedade-mãe e contribui para lhe juntar as sociedades dos departamentos, serviço este que não se esquece.

Todos os revolucionários mergulham de qualquer forma na vida. Marat tem uma amante. Brillaud-Varenne está apaixonado por sua mulher. Fouché tem uma rapariga a quem adora. Hanriot ama o vinho. Danton é casado e tem filhos. Saint-Just teve também uma adolescência bastante movimentada.

Robespierre não ama coisa alguma: nem dinheiro, nem mulheres, nem a aventura, nem a boa mesa. Vive modestamente em casa do marceneiro Duplay, no meio de uma corte de bisbilhoteiros e bobos.

O universo de Robespierre está no círculo fechado e inflamado dos jacobinos. Entrega-se de alma e coração a todas as paixões que o agitam, sem que nenhum sentimento exterior venha a contraria o seu curso... Vive num mundo artificial, donde não quer sair e que acaba por considerar o verdadeiro mundo.

Robespierre faz corpo com o jacobinismo. Como ele, por toda a parte vê ciladas, conjurações e precipícios. Como ele, é desumano e violento. Mas, à medida que os jacobinos se depuram, o seu nível moral e intelectual se rebaixa e Robespierre cresce outro tanto. É honesto, correto e limpo na sua pessoa.

Não especula com os fornecimentos nem se aproveita dos acontecimentos para enriquecer. Leva uma vida simples e digna: isto basta para o fazer subir ao pináculo...!” [6]

Danton

―”Fundido em bronze, incensado e canonizado por uma escola inteira de historiadores, Danton foi tido, durante vinte e cinco ou trinta anos, como a mais bela encarnação do patriotismo revolucionário ou – numa só palavra – do patriotismo. Para os seus fanáticos, é o homem de Estado ―ardente e entusiasta que sonha acabar com a obra secular da defunta monarquia, dando à França as fronteiras da antiga Gália, o tribuno veemente que atira em desafio aos tiranos da Europa uma cabeça de Rei, o homem de audácia que bate com o pé o solo nacional para dele fazer brotar as legiões de voluntários, e o demagogo intransigente que se lança numa luta sem tréguas contra o inimigo”.

Esta é a lenda, mas a verdade é outra. Ao cabo de uma longa e difícil investigação, Alberto Mathiez conseguiu restabelecê-la, pedaço a pedaço, e as suas pesquisas estão hoje suficientemente adiantadas para que o possamos acompanha com toda a segurança.

Advogado há dois anos, Danton estava, em 1789, numa situação financeira difícil. Muito endividado, cheio de necessidades, escravo dum temperamento tirânico, lançou-se na Revolução como um ceifador num prado. Eloqüência brutal, figura de bronze e grande grosseirão, é o Mirabeau da canalha. Durante três anos, trabalha os auditórios mais populares. Arrastando atrás de si uma clientela de aventureiros e indivíduos tarados, vamos encontrá-lo em todas as conjuras e todas as agitações. Sem vergonha e sem escrúpulo, venal, procurando sempre estar de bem com Deus e com o demônio, recebe dinheiro da Inglaterra, do duque de Órleãs e da Corte. Uns compram-no para que promova arruaças e outros compram-no para que acabe com elas. Não crê na demagogia, mas faz dela um ofício. A Revolução arranca-lhe atos de entusiasmo e de energia, mas não tem confiança na sua duração e procura manter sempre uma linha de retirada. Por isso, conserva-se em boas relações com os agentes realistas da Bretanha e de Paris. Quando se oferece ocasião, presta-lhes serviço discreto, que lhe proporcionaram redondos reconhecimentos. Na tribuna é pela guerra implacável; mas, em segredo, manifesta-se em favor de uma paz atamancada. Em público, gaba-se de ter feito o 10 de agosto e deitado abaixo a Monarquia; na intimidade, anuncia ao futuro Luís Filipe a restauração do trono a favor da irmã mais nova. Em Paris, é o homem da rua, o defensor dos proletários. Em Arcis, compra terra, uma quinta, dois priorados e cem hectares de terra de lavoura. No ministério que faz parte, representa o tipo moderno do político espertalhão, cético e amigo de gozar, gostando do poder sabendo tirar dele todo o proveito‖. [7]



[1] A Revolução Francesa, Livraria Tavares Martins, Porto, de Pierre Gaxote, pág. 62.

[2] “Despreocupados... Rumo à Guilhotina” – João S. Clá Dias – págs. 217/218.

[3] “Despreocupados... Rumo à Guilhotina” – de João S. Clá Dias – págs. 225/226

[4] cf. ―Jean-Jacques Rosseau, Les Confessions‖; G. Lenotre). (“Despreocupados... Rumo à Guilhotina”, de João S. Clá Dias, pág. 253.

[5] (Pierre Gaxote, ― A Revolução Francesa, págs. 49/50). (“Despreocupados... Rumo à Guilhotina”, de João S. Clá Dias, pág. 249).

[6] A Revolução Francesa - Pierre Gaxote, págs. 291/294.

[7] A Revolução Francesa - Pierre Gaxote, págs. 197/198

 

sábado, 25 de maio de 2024

FINALMENTE, O POVO SE MANIFESTA DE UMA FORMA MAIS AUTÊNTICA

 


Verifica-se, hoje, uma tendência geral de descaracterizar o poder estatal, mas com vistas a outra ideia revolucionária, que é o caos. Vê-se em várias partes do mundo uma grande quantidade de governos ilegítimos e sem pulso, deixando alguns países a deriva, como ocorre no Brasil.

A partir de certa época, as ideias constitucionalistas conseguiram impor suas concepções utópicas nas leis, especialmente nas constituições dos povos do Ocidente. Dentre as principais utopias propagadas está a de que o Estado é soberano sobre tudo e sobre todos. E tais princípios vêem de longa data, tendo se iniciado com o tempo dos chamados reis absolutistas, algum dos quais dizia que ele era o próprio Estado.

E assim, hoje vemos toda uma sociedade acreditando e apoiando tais ideias. Segundo elas, o Estado é responsável por toda a vida social, é o tutor de todos os direitos e obrigações sociais. Deste modo está dito, por exemplo, em nossa Constituição que compete ao Estado dar saúde, educação e emprego a todos. Não só isso: chegaram a alguns absurdos, em certos países, de dotar o Estado de supremos poderes sobre as famílias, as instituições sociais, etc. Tudo passa a depender do governo, fazendo com que aquele que deve gerir e administrar seja o mesmo que detenha todas as obrigações, inclusive as mais simples possível.

Ora, não é correto dizer que compete ao Estado cuidar de minha saúde; compete, em primeiro lugar, a mim mesmo cuidar de minha saúde e de minha educação; se, por acaso, eu não o puder, aí devo recorrer à minha família; e se esta não dispor de recursos suficientes, devo recorrer aos amigos, aos parentes, aos que me cercam mais de perto, aquela sociedade que nos aproxima do Estado, mas não é ele ainda. Somente quando todos recursos forem insuficientes, numa ação chamada de subsidiariedade, o Estado deve intervir. Ele não é senhor absoluto de tudo. É uma utopia e grande mentira afirmar isso.

Esta panaceia do poder absoluto do Estado está sendo desmascarada pelo próprio povo. E isso ocorre agora no Rio Grande do Sul. Perante uma grande catástrofe o próprio povo está procurando superar seu drama, ora procurando ajuda dos familiares, dos amigos e vizinhos próximos, ora de empresários ou de pessoas abnegadas que se oferecem voluntariamente para socorrer as vítimas. E onde está o governo? Cadê o Estado para socorrer a tais necessitados? É claro que ele está presente, mas incapaz de solucionar todos os problemas como pretendem alguns republicanos constitucionalistas.

Se aquele povo acreditasse no poder absoluto do Estado e simplesmente estivesse esperando o socorro deste, não imagino em que situação estaria hoje!

Monsenhor Henri Delassus o denunciou em célebre obra, as origens de tais ideias do poder absoluto do Estado:

“A teoria de J. J. Rousseau sobre as origens da sociedade, sua constituição racional, o que ela será quando o contrato social tiver produzido suas consequências, não permaneceu em estado especulativo. Faz um século que nós nos aproximamos a cada dia do termo que ele designou para nós, no qual não haverá mais propriedade, nem família, nem Estado independente, nem Igreja autônoma. Sobre o lugar que as ruínas produzidas pela Revolução deixaram livre, Napoleão I construiu, “com areia e cal, diz Taine, a nova sociedade, segundo o plano traçado por J. J. Rousseau. Todas as massas da grande obra, Código Civil, universidade, Concordata, administração municipal e centralizada, todos os detalhes da arrumação e da distribuição concorrem para um efeito de conjunto que é a onipresença do governo, a abolição da iniciativa local e privada, a supressão da associação voluntária e livre, a dispersão gradual dos pequenos grupos espontâneos, a interdição preventiva das longas obras hereditárias, a extinção dos sentimentos pelos quais o homem vive além dele mesmo, no passado e no futuro”.

Mais adiante, escreveu:

“Se o curso das coisas atuais não tivesse suas fontes no passado longínquo, poderíamos apavorar-nos menos, acreditar que não há em tudo isso senão fatos acidentais. Mas não é assim. O estado atual, repleto do futuro que acabamos de descrever, é o produto natural de uma ideia, lançada como um grão sobre nosso solo há cinco séculos. Ela germinou. Vimos seus primeiros rebentos sair da terra; eles foram cultivados secreta e cuidadosamente por uma sociedade que, já por várias vezes, serviu ao mundo seus frutos prematuramente colhidos; hoje ela os vê chegar à maturação: frutos de morte que carregam a corrupção para os próprios fundamentos da ordem social.

A França revolucionária recebeu do Poder das Trevas a missão de manifestar ao mundo aquilo que a Renascença concebeu, aquilo que a franco-maçonaria criou. Parece que se quis simbolizá-lo nas moedas. Essa mulher desgrenhada, com o barrete frígio à cabeça, que, sob os auspícios da República, lança a todos os ventos os grãos da liberdade, da igualdade e da fraternidade, sob os raios de um sol levante chamado para aclarar o mundo com um dia novo, bem representa a maçonaria que confia a todos os sopros da opinião as idéias que preparam os espíritos para a aceitação da nova ordem, ordem que há tanto tempo ela projeta estabelecer no mundo”.

 

(Tradução extraída da obra “La Conjuration Antichrétienne – Le Temple Maçonique voulant s’élever sur les ruines de l’Église Catholique” – Mons. Henri Delassus – tomo 2   págs. 551/564)

 

Vejam texto completo de minha postagem sobre o assunto: “O ESTADO, SENHOR SOBERANO DE TODAS AS COISAS?”

https://quodlibeta.blogspot.com/2019/05/o-estado-senhor-soberano-de-todas-as.html

 

 


quarta-feira, 29 de novembro de 2023

A REVOLUÇÃO ISLÂMICA, UMA OPÇÃO NA QUARTA FASE E NAS SEGUINTES?

 


Plínio Corrêa de Oliveira, em sua magistral obra “Revolução e Contra-Revolução”, divide o ciclo revolucionário em 3 fases: a primeira foi a Revolução Protestante, a segunda a Revolução Francesa e a terceira fase a comunista. Na mesma obra ele define o que se seria uma quarta fase, que seria uma revolução tribal transformando toda a sociedade numa comunidade autogestionária[1]. Esta quarta fase já foi iniciada com a revolução da Sorbone de 1968 Uma quinta revolução seria um tribalismo todo voltado para o curandeirismo, etc.

O islamismo poderia servir de "caldo de cultura", poderia ter elementos que servissem para a quarta ou até mesmo a quinta Revolução?

Vejamos.

1. O aspecto tribal. A estrutura social de quase todos os povos dominados pelos muçulmanos é ainda tribal. De modo geral, tais povos conservaram seus aspectos primitivos como reação à ocidentalização da cultura. Embora tenha crescido o progresso tecnológico em muitos daqueles países, a estrutura social ficou estagnada e presa a valores tribais seculares. Da mesma forma, a legislação islâmica conserva todo o seu primitivismo mantendo tais povos numa quase barbárie.

2. O ódio ao Ocidente. Cada vez mais cresce o ódio ao Ocidente cristão, alimentado pelos aiatolás e mulás islâmicos, o que faz com que tais povos mais se distanciem do verdadeiro progresso social e se mantenham em seu primitivismo. Este ódio é alimentado pela revolta contra o Estado judeu na região.

3. O fascínio que desperta. Talvez desperte muito mais certo fascínio no Ocidente do que as reservas tribais de alguns povos indígenas. Isto porque possuem algo parecido com hierarquia social e uma certa riqueza cultural. Pelo menos em alguns aspectos. São mais numerosos; defendem causas universais; poderiam algum dia influir todos os povos da terra talvez pelo binômio “medo-simpatia”.

4. A autogestão islâmica. A Revolução islâmica, pois, nada mais é do que a IV Revolução tribal e autogestionária aplicada na prática. Nos mesmos moldes em que aquela Revolução foi idealizada pelos seus ideólogos: autoctonismo, falta de governo (tantas são as tribos que ás vezes alguns daqueles governos têm tido problemas para se manter no poder), curandeirismo (há muito disto no islamismo), etc. E aqui haveriam elementos mais facilitadores para um passo adiante: a quinta fase da Revolução, pois a religião islâmica abre grande espaço para a ação da feitiçaria, da magia, do curandeirismo, que é muito praticado em suas tribos arredias...

Este aspecto tribal está sendo o grande empecilho para concluir o que os americanos chamam de "democratização" de alguns países islâmicos. Esta tal "democratização" exigiria que aceitassem o costume ocidental de eleger seus governantes e que elaborassem uma Carta Magna, uma Constituição, a fim de que a nação tivesse um texto legal básico de sua existência. Mas nada disto estão dispostos a fazer: na realidade quem manda são os chefes tribais, os mulás e aiatolás, muitos deles sob influência direta dos ideólogos muçulmanos do Irã, Arábia Saudita, ou qualquer outro centro de propagação do islamismo no mundo. Apesar disso há consenso entre eles quando se trata de fazer guerra contra Israel ou o Ocidente cristão.

O historiador inglês Bernard Lewis, professor emérito da Universidade de Princenton, nos EUA, especialista em história do islã, com mais de 20 livros publicados, fala sobre estas dificuldades. Segundo Lewis a palavra democracia sequer existe entre os muçulmanos. Quando eles começaram a falar sobre democracia no século XIX se utilizaram de um termo emprestado da Europa. Nesta época houve algumas tentativas de "democratização" baseada em alguns modelos europeus, com constituição e parlamento, mas nenhuma funcionou a contento.

A Turquia foi um exemplo. A república foi proclamada em 1923, sendo eleito seu primeiro presidente. Tentou este romper com o passado islâmico e oriental, abolindo o califado e impondo a "laicização" das instituições, que nos países islâmicos são ligados á religião. Após a década de 50 a Turquia elevou ao poder o Partido Democrático, fazendo com que se fortalecessem seus vínculos com os EUA. No decorrer do século XX houve golpes de estado, eleições e tentativas de eliminar o crescimento da influência islâmica nas leis do país. Hoje, a Turquia pode-se dizer que mantém uma certa "democracia" nos moldes ocidentais, mas convivendo com múltiplos problemas internos provocados por muçulmanos e curdos. Não há outro país muçulmano que tenha regime político semelhante. A própria Arábia Saudita, por exemplo, é uma monarquia absolutista, “teocrática", como se diz, e de cunho ditatorial. Lá, a família real detém 40% de toda a riqueza do país e consegue se manter no poder graças a uma rígida legislação islâmica, que agrada aos ideólogos muçulmanos mas mantém o povo numa situação de quase escravidão e de ignorância crassa. O estilo de vida tribal secular deste povo é que o mantém preso às tradições islâmicas e obedientes aos ditames da aristocracia "sacerdotal" da religião. Tal modo de vida não condiz com o espírito ocidental e cria dificuldades para o funcionamento de uma democracia tipo americana.

O mesmo ocorre em outros países muçulmanos, como, por exemplo, o Marrocos, que tem uma monarquia islâmica liberal e moderada e com laivos de simpatias pelo Ocidente. Naquele país também foram promulgadas algumas leis para amenizar a ditadura islâmica, como uma constituição e certas liberdades para as mulheres. Há também um parlamento eleito através do sistema democrático de votos. Em 2003, o rei Mohammed IV e o parlamento aprovaram uma nova legislação sobre a família, os direitos individuais, e, obviamente, um estatuto dando proteção às mulheres e crianças. Mas fica por aí, havendo poucas possibilidades da monarquia ser menos rigorosa em outros aspectos. Há, porém, quem diga que o Marrocos é o único exemplo de um país muçulmano que se adaptou a certos costumes ocidentais e civilizatórios.

Já o mesmo não ocorre com os demais. O próprio historiador Lewis reconhece que há uma grande dificuldade para vencer as resistências seculares dos povos sob domínio islâmico para aceitar qualquer ocidentalização, da qual a "democracia" faz parte. E um fator a mais é a grande influência que tem lá dentro os aiatolás, principalmente os do Irã, onde impera uma Revolução Islâmica há mais de 40 anos tentando ser exportada para além de suas fronteiras.

O certo é que provavelmente veremos surgir ou se expandir no Iraque e nas circunvizinhanças um amontoado de regimes tribais, meio autóctones, revestidos na capa de um caráter de autenticidade, mas no fundo governados por uma rede bem urdida de mentores da Revolução Islâmica. Talvez tenha surgido aí a criação do famoso grupo terrorista denominado “Estado Islâmico”, que a partir de 2014 tentou impor um “república islâmica” entre a Síria e o Iraque, assim como outros grupos semelhantes, como o Hamas, etc.

Qual a distinção entre árabe e muçulmano?

É comum confundir-se o termo "muçulmano" com "árabe", ou até mesmo com a palavra "Islã". Na realidade, o Islã é todo o conjunto de povos que praticam a religião muçulmana, e o termo é usado também como o movimento político de expansão do maometanismo ; muçulmano é todo indivíduo que pratica aquela religião, seja árabe, turco ou marroquino. Agora, árabe é apenas aquele que nasceu na península arábica, a famosa Arábia, formada pelos países Arábia Saudita, Iêmen, Omã, Emirados Árabes, e os principados de Catar, Barein e Kuwait. Podem ser chamados de árabes todos os povos que falam o idioma árabe, mas também o termo significa todos aqueles que descendem dos ismaelitas, povo semita de origem comum com os israelitas. Então, o sujeito pode ser árabe quanto à raça, quanto à língua e quanto ao país onde nasceu, mas nem todo muçulmano é árabe quanto à nação nem quanto à língua. A maior parte das populações muçulmanas, atualmente, não é árabe nem quanto à língua nem quanto à raça.

Além dos países acima citados, temos de língua árabe os que formam o Magreb, Argélia, Tunísia e Marrocos, além da Jordânia, Líbano e Síria . Numa população mundial superior a 700 milhões de habitantes (onde a maioria vive na Ásia, com mais de 400 milhões, e em segundo lugar na África), a maior população muçulmana do mundo é a da Indonésia, 85% de seus duzentos milhões de habitantes, mas nem falam árabe nem são de origem árabe. Em seguida, temos os muçulmanos oriundos do poder otomano no Egito e na Turquia, porém nem são árabes quanto ao idioma ou quanto à raça. Na Europa oriental, no Iraque, no Afeganistão, na Índia e em diversos outros países é a mesma coisa, em alguns inclusive eles são minoria. 

Os sábios muçulmanos só por exceção eram árabes

Vejamos as observações abaixo feitas por uma historiadora moderna:

“É digno de nota o fato de que, com poucas exceções, a maioria dos sábios muçulmanos, tanto nas ciências religiosas como nas intelectuais, não terem sido árabes. Quando um sábio é de origem árabe, não é árabe de linguagem e criação e não teve professores árabes. Isto é assim, a despeito de o Islã ser uma religião arábica e o seu fundador ter sido um árabe.

“A razão deste fato foi o Islã não ter tido de início ciências, nem indústrias, o que era devido às condições simples da vida no deserto. As leis religiosas, que eram os mandamentos e proibições de Deus, estavam inscritas no coração das autoridades. Conheciam as suas fontes, o Corão e os Sunnah (1) , por informação que tinham recebido diretamente do próprio Maomé e dos homens que o rodeavam. A população nessa altura era árabe. Não sabia nada acerca da instrução científica, da escrita de livros ou de trabalhos sistemáticos. Não havia incentivos ou necessidades para isso. Esta era a situação na época dos homens que rodeavam Maomé e dos homens da segunda geração...

“No reinado de Al-Rashid (2), a tradição (oral) estava já muito distante. Foi necessário escrever comentários ao Corão e fixar por escrito as tradições, porque se temia que elas se perdessem... Além do mais, a língua (arábica) começava a corromper-se e era necessário estabelecer regras gramaticais.

“Os fundadores da gramática foram Sîbawayh e depois dele al-Fârisî e al-Zajjâj. Nenhum deles era de ascendência árabe (3)...

“Muitos dos doutores dos hadiths (4) que preservaram as tradições para os muçulmanos também não eram árabes, mas persas, ou persas na língua ou educação, porque a disciplina era profundamente cultivada no Iraque e nas regiões vizinhas. Também todos os doutores que trabalharam na ciência dos princípios da jurisprudência não eram árabes, mas persas, como é bem sabido. O mesmo se aplica aos teólogos especulativos e à maioria dos comentadores do Corão.

“...Os árabes que entraram em contato com esta florescente cultura sedentária e trocaram por ela a sua atitude beduína eram afastados da escolaridade e do estudo pela sua posição de chefia na dinastia Abássida e pelas tarefas que lhes cabiam no governo. Eram os homens da dinastia, simultaneamente os seus protetores e os executores da sua política. Além do mais, nessa época, eles consideravam como uma coisa desprezível ser um mestre, porque o ensino é um ofício e os chefes políticos são sempre desdenhosos dos ofícios e profissões e de tudo o que a eles conduz...”

Notas: 1) "Corão" e "Sunah" eram compilações das tradições e costumes de acordo com as quais atuava a comunidade muçulmana. 2) Herum al-Rashid, califa de Bagdad entre 786 e 809. 3) Eram todos muçulmanos de origem persa. 4) "Hadiths" era o registro dos ditos e ações de Maomé, e de alguns de seus companheiros e sucessores. [2]

O sufismo, modelo de vida para os que praticam o islamismo

Que é o sufismo? Trata-se de regras e práticas ascéticas e místicas de um conjunto de escolas, de seitas e de confrarias muçulmanas. Em geral, a prática consiste em se despir de tudo o que é cultura, tudo o que é conforto, tudo o que leva o homem a se elevar em busca de aspirações mais altas para a alma, e se entregar inteiramente a uma vida de misérias, de fome, de quase completa inanição e indolência espiritual, em busca de uma suposta "perfeição". Com esta prática de vida, tais "monges" adquirem uma aura de "santidade" entre os crentes de sua seita e podem assim se impor em suas comunidades como verdadeiros conselheiros, pajés, feiticeiros, xamãs, guias espirituais, gurus, etc. Além disto, eles são um exemplo vivo da prática de sua religião a ser seguido pelos crentes.

Os sufistas sempre combateram os filósofos e "teólogos" do islamismo, criando uma imagem material do fundador de sua religião. As primeiras escolas do sufismo foram criadas no século IX em Bagdá. A partir do século XIII se espalharam várias confrarias (chamadas de "Tariqas"), onde os seus membros (denominados de "murid") se colocavam em busca de uma identificação com o seu deus, Alá, guiados por um espécie de guru, chamado de "cheilich" ou "murchid", praticando uma técnica chamada "dhikr", o elemento central do ritual sufista. Assim, surgiram várias organizações ou confrarias sufistas: os "quadiriyya" em Bagdá (séc. XII), os dervixes mawlawis (séc. XIII), os "naqchbandiyya", na Ásia central (séc. XIV), os "sanusiyya" no Magreb (séc. XIX). Da mesma forma, os marabutos do Norte da África pertencem à mesma confraria.

Quando os muçulmanos dominavam a Península Ibérica, a partir do século XI começaram a surgir as primeiras confrarias de inspiração sufista, como a que foi adotada pela dinastia dos Almorávidas. Provinham do continente africano, mas logo invadiram a Andaluzia e se tornaram um dos piores perigos para o domínio do resto da Europa. De onde vieram? Como surgiram?

Em 1039, o faquir Abdállah Ben Yássin (Abd Allah ibn Yasin), da tribo de Jazula, no Magreb, começou a reislamizar as tribos nômades do Saara. Seus primeiros adeptos passaram a se chamar “almorávidas” (al-morabetin) porque estavam ligados com voto especial para fazer guerra santa em “la rábida” (ou castelo fronteiriço) que o faquir havia fundado numa ilha do rio Níger. Na realidade, o castelo era uma espécie de “convento”, onde os discípulos do faquir eram recrutados entre os berberes saarianos para serem ali treinados, com formação religiosa e militar.

Abdállah levou seus discípulos à guerra santa contra os que não escutavam sua pregação, islamizando rapidamente a região do Saara. Entre as 70 cabildas irmãs da grande tribo de Sanhaja que pastoreavam seus camelos através do deserto, a dos Lantunas se distinguiu pelo zelo religioso, assim que Abdallah a escolheu e selecionou dentro dela os primeiros emires, completando a conquista do Saara e indo depois em busca do Sudão. O emir principal guiava os almorávidas na guerra, porém Abdallah era o verdadeiro soberano, pois era quem mandava no emir, sobre cujas costelas desnudas descarregava o açoite da penitência quando tinha que repreendê-lo por alguma falta cometida. Vê-se bem que há uma dupla dominando a tribo, representando o poder civil e religioso, mas é o faquir, detentor do poder religioso, quem manda realmente. Em alguns casos, como ocorre com as tribos de índios americanos, o próprio faquir é quem governa, absorvendo ele os dois poderes.

Estes primeiros almorávidas eram rigorosamente fiéis aos princípios islâmicos e moviam atroz perseguição religiosa nas terras por eles conquistadas. Impunham as leis mais absurdas, como a do matrimônio polígamo, queimavam as tendas que vendiam vinho, destruíam instrumentos musicais que julgavam corruptores dos costumes, aboliam todos os impostos que não estavam previstos no alcorão, permitindo só cobrar os dízimos e as esmolas dos muçulmanos, os tributos devidos pelos fiéis de outras religiões e o quinto do butim de guerra, isto é, da guerra santa. É exatamente desta forma que os muçulmanos agem hoje no Sudão e em alguns países onde imperam estas confrarias sufistas e fiéis aos princípios maometanos até suas últimas conseqüências. 

A filosofia islã

O termo islã, em árabe, quer dizer "obediência a Alá"  Mas esta “obediência” precisa ser melhor esclarecida, pois vem da crença de que o destino do homem é imposto arbitrariamente pela vontade daquele “deus”, sendo impossível opor-lhe a nossa vontade. O termo “islã” é usado, também, com o significado de abandono e resignação na vontade de Alá. Como se vê, uma “resignação” inteiramente fatalista.

Antes do maometanismo, os árabes daquela região (principalmente Meca e Medina, onde nasceu o movimento) mantinham tradições antigas de crença em Deus e nos Profetas do Antigo Testamento, como Abraão, de quem descendem através de Agar e Ismael. Mantinham um santuário, chamado Caaba, onde as diversas tribos adoravam seus ídolos juntamente com Alá. Não se sabe se nesta época o termo Alá já era designado como Deus, ou se era apenas um dos ídolos pagãos ali adorados. É provável que em tempos bem remotos aquele povo adorasse o verdadeiro Deus, mas aos poucos a idolatria pagã misturou seu culto com os demais. Há historiadores que afirmam que havia naquele santuário mais de 360 ídolos pagãos, dentre eles o próprio Alá. O ídolo principal no tempo de Maomé, chamava-se Hubal e era venerado também na Caaba. [3].

Maomé, um esperto comerciante, fez-se passar por profeta de um único Deus e o impôs pela força das armas. Dizia a seus partidários: “Fazei guerra aos que não crêem em Alá, nem no seu profeta; fazei-lhes guerra até que paguem tributo e sejam humilhados”. Por isso, a chamada “guerra santa” é quase um dogma entre eles. Pelas armas Maomé impôs sua religião aos povos daquela região, começando por massacrar os habitantes de Meca que o rejeitaram no início. Depois, foi pelas armas que o islamismo foi se impondo aos outros povos, até invadir a própria Europa no século VIII, dominando toda a Península Ibérica.

Em sua origem o islamismo não era monoteísta, no sentido de um só Deus verdadeiro como crê o Cristianismo. Poderíamos dizer que era "monodeísta", isto é, Maomé mandou destruir todos os outros falsos deuses que haviam em Medina, erigindo um deles como o único, que era Alá. Então, Alá é um deus pagão escolhido como entidade venerativa e adorativa pelos maometanos. Depois que o islamismo dominava vários países e crescia no mundo, tornou-se necessário criar seu primeiro "dogma", afirmando que o deus Alá seria um ser supremo e único, infinitamente perfeito, criador do universo e juiz soberano dos homens[4]. Com o tempo a palavra Alá passou a significar "Deus", assim como se com o tempo algum povo que adorasse Júpiter ou Diana fizesse com que o nome de um desses deuses passasse a significar o termo "Deus". As mesquitas muçulmanas não expõem imagens ou qualquer figura que represente Alá. Nem sequer Maomé tem sua figura representada em alguma estátua ou pintura. Mas dizem que Alá é o único deus verdadeiro.

Onde os muçulmanos aprenderam este "dogma"? Foi, mais ou menos, a partir do século X, quatro séculos depois do surgimento do movimento, que os seus filósofos idealizaram as suas normas que hoje predominam, inclusive o "dogma" acima, em parte copiado do Cristianismo, mas tido como reflexo de estudos da filosofia aristotélica. Estes filósofos foram Alfarabi, Avicena, Averrós, e outros citados acima. Mas se estes idealizaram a "estrutura" filosófica e, digamos assim, "teológica" do islamismo, era necessário alguém criar os rituais, as leis, etc. E foi aí que surgiu o sufismo, o islamismo na prática.

Ao longo dos anos foram então criados cinco códigos legais, ou cinco atos pelos quais o muçulmano manifesta sua fidelidade ao seu ideal religioso. O primeiro é uma espécie de profissão de fé, pelo qual ele se obriga a crer que Alá é o único deus que existe no mundo. No mesmo código o fiel é obrigado a declarar que o único profeta deste deus é Maomé. Sua prece (ou "Salat") tem que ser feita virada para a cidade de Meca, umas cinco vezes ao dia, num conjunto de prosternações (com mãos no chão e de quadris para cima) e fazendo abluções. O fiel é também obrigado a cumprir o preceito de fazer uma peregrinação a Meca pelo menos uma vez na vida (o "hajdj'). No mês chamado de "ramadã" ele é obrigado a fazer o jejum, que é apenas diurno. Há também a obrigatoriedade da esmola legal ("zakat"), costume que hoje não existe mais. Antigamente existia o dízimo, que era direcionado unicamente para a guerra santa, ou "jihad".

Não existe um clero muçulmano propriamente dito, mas informalmente se formam o que se chama de "marabutos" ou dervixes, espécies de faquires, com rigorosas práticas de asceses através de jejuns rigorosos e vestimentas de andrajos. O livro principal deles, chamado "corão" ou "alcorão", é apenas um amontoado de frases e conselhos supostamente ditados por Maomé, mas que alguns autores supõem que foram inventados por seus seguidores. Algumas destas frases foram copiadas de outras religiões ou filosofias.

São Tomás de Aquino diz o seguinte sobre o Islamismo:

“Maomé seduziu os povos prometendo-lhes deleites carnais. .... Introduziu entre as poucas coisas verdadeiras que ensinou muitas fábulas e falsíssimas doutrinas. Não aduziu prodígios sobrenaturais, único testemunho adequado da inspiração divina. ....
Afirmou que era enviado pelas armas, sinais estes que não faltam a ladrões e tiranos. Desde o início, não acreditaram nele os homens sábios nas coisas divinas e experimentados nestas e nas humanas, mas pessoas incultas, habitantes do deserto, ignorantes de toda doutrina divina. E só mediante a multidão destes, obrigou os demais, pela violência das armas, a aceitar a sua lei.

Nenhum oráculo divino dos profetas que o precederam dá testemunho dele; ao contrário, ele desfigura totalmente o Antigo e Novo Testamento, tornando-os um relato fantasioso, como o pode confirmar quem examina seus escritos.

Por isso, proibiu astutamente a seus sequazes a leitura do Antigo e Novo Testamento, para que não percebessem a falsidade dele. (“Summa contra Gentiles”, L. I, c. 6. )








 



[1] “Revolução e Contra-Revoluçao”, Plínio Corrêa de Oliveira – Chevalerie Artes Gráficas e Editora, págs. 210/229.

[2] Apud Ibn Khaldûn. The Muqadeimah, “History of the Arabs”, de Hitti, P. K, p. 428-30, extraído do livro “História da Idade Média”, de Maria Guadalupe Pedrero-Sánchez, Ed.Unesp, pp. 66/67

 [3] Seria esta crença que deu origem ao termo Al-lah, Allah ou Alá, que passou a significar “deus” para eles. Lembremos que toda palavra árabe começada pela partícula “al” (artigo “o” ou “a”) é sempre anteposta a algum título de honra. Na Espanha, a partícula “al” mudou para “el”, dando origem a termos como “el-rei” (o rei) e o famoso El Cid (O Senhor).

[4] No Alcorão são mencionados 99 atributos humanos a Alá, todos eles iniciados com a partícula “al”., "O Clemente" (Al-Rahmān), "O Querido" (Al-'Azīz), "O Criador" (Al-Khāliq), entre outros. O conjunto desses atributos recebe em árabe o nome de al-asmā' al-husnà ("os melhores nomes") – o centésimo atributo seria o próprio Allah