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terça-feira, 29 de julho de 2025

UMA DECLARAÇÃO DE FÉ E CONFIANÇA NA MÃE DO BOM CONSELHO

 


(Revista "Madre del Buon Consiglio", editada pelos padres Agostinianos de Genazzano (Itália),  julho-agosto de 1985, p. 28)

 Há tempos estávamos surpresos e admirados por ver, com frequência, jovens estrangeiros recolhidos em profunda oração na capela de Nossa Senhora. Um belo dia quisemos conhecê-los, perguntando porque vinham com tanta assiduidade a nosso Santuário. Disseram-nos sentir-se muito atraídos pela belíssima Imagem de Nossa Senhora do Bom Conselho, que se manifestara com especiais favores ao fundador de sua Associação: Plinio Corrêa de Oliveira. Exprimindo-lhes nosso desejo de ter em mãos um atestado do fato, o Senhor Plinio teve a amabilidade de nos enviar, do Brasil, a seguinte «Declaração»:

 

Declaração

 

“Em dezembro de 1967, tendo eu 59 anos de idade, fui acometido de violenta crise de diabetes. Daí resultou uma gangrena no meu pé direito, o que levou o cirurgião incumbido de meu caso a fazer a amputação dos quatro artelhos menores.

Tal medida não foi tomada sem hesitação, pois receava ele fundadamente que essa gangrena se propagasse pelo pé, tornando então necessária uma amputação bem mais ampla.

Em tal caso, não seria preferível proceder de vez a essa amputação maior?

Continuei hospitalizado, sob inspeção médica.

Ora, sucedera que, algum tempo antes desses fatos, eu me pusera a ler incidentemente o livro "La Vierge Mère du Bon Conseil", de Mons. Georges F. Dillon (Desclée de Brouwer, Bruges, 1885). E, durante a leitura, experimentava em minha alma uma sensível consolação.

Tendo viajado para a Itália antes que eu adoecesse, meu amigo, Dr. Vicente Ferreira, teve este a gentileza de me trazer de Genazzano uma estampa representando o venerando quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho. Essa estampa me chegava no momento de uma provação espiritual que me fazia sofrer muito mais do que a enfermidade física.

Desde 1960, era eu Presidente do Conselho Nacional da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade. Circunstâncias que não vêm a propósito mencionar, davam-me a certeza de estar nos desígnios da Providência que essa entidade realizasse uma larga ação no Brasil e em toda a América do Sul, e ainda nos demais continentes, em prol da Cristandade.

De outro lado, estava eu certo de que meu falecimento naquela conjuntura acarretaria ruína do esforço que começava a vicejar com vigor. E que eu desejava ardentemente levar a cabo para a maior glória de Nossa Senhora, antes de morrer. Daí um estado de verdadeira ansiedade a propósito das incertezas de minha situação clínica e cirúrgica.

No dia 16 de dezembro, outro amigo, Dr. Martim Afonso Xavier da Silveira Jr., fez-me a entrega da aludida estampa, em nome do Dr. Vicente Ferreira.

Quando a fitei, tive a inesperada impressão de que a figura de Nossa Senhora, sem mudar embora em nada, exprimia para comigo inefável e maternal doçura, que Ela me confortava e me incutia na alma — não sei como — a convicção de que a Santíssima Virgem me prometia que eu não morreria sem ter realizado a obra desejada. O que me invadiu de suavidade a alma.

Hoje em dia conservo intacta essa convicção. E, pelo favor de Nossa Senhora, essa obra tem prosperado admiravelmente, autorizando a esperança de que alcance sua meta.

Quando fui agraciado com o sorriso-promessa de Nossa Senhora de Genazzano, nada disse aos circunstantes. Só muito mais tarde falei disto a amigos. Dois destes, que me faziam companhia no hospital quando recebera a estampa, ao ouvirem minha narração, disseram que haviam notado que a figura da Mãe do Bom Conselho me fitava com muito comprazimento, o que lhes chamara muito a atenção. Eles não haviam notado, porém, o sorriso promessa a que aludi.

Assinam eles comigo a presente declaração.

Graças também à Santíssima Virgem, minha saúde se recompôs então de modo a surpreender o cirurgião. E a segunda operação se tornou desnecessária.

É com o coração transbordante de amor e de gratidão à Mãe do Bom Conselho de Genazzano que escrevo a presente declaração”.

                            Plínio Corrêa de Oliveira – São Paulo, 10 de maio de 1985

 


sexta-feira, 13 de junho de 2025

MÃE DO BOM CONSELHO, UMA DAS TAREFAS MAIS MATERNAS E PRÓPRIAS À RAINHA DO UNIVERSO

 




 Hoje é uma festa lindíssima, a de Nossa Senhora do Bom Conselho! É uma linda invocação. Essa festa foi instituída em honra da aparição da célebre Imagem da Mãe de Deus, sob o nome de Nossa Senhora do Bom Conselho, em Genazzano, na Itália, no século XV.

Eu, infelizmente, não conheço o modo pelo qual essa imagem apareceu. Os senhores encontram aqui, em São Paulo, uma reprodução muito bonita e muito respeitável dessa imagem na capela do Colégio São Luís.
Quando eu era menino, se contava a história extraordinária desse Quadro – talvez alguns dos Srs. que também tenha sido aluno no Colégio São Luís saiba isso com mais pormenores do que eu.

Os jesuítas, no meu tempo de menino, estimulavam muito a devoção a essa imagem. E realmente a invocação da imagem é muito bonita porque indica Nossa Senhora em uma das suas tarefas mais maternas e mais próprias da Rainha do Universo, que é exatamente a de dar o bom conselho.
          Como Rainha do Universo, Ela governa tudo. E o próprio de quem governa é não só dar ordens como dar conselhos também. E, aliás, certo tipo de conselhos - pelo menos os de Nossa Senhora - constitui uma ordem. Para aqueles que amam verdadeiramente a Nossa Senhora, todos os conselhos d’Ela valem como ordem.

O reinado de Nossa Senhora é um reinado de amor, no qual qualquer conselho para o fiel devoto, verdadeiramente escravo d’Ela, segundo São Luís Maria Grignion de Montfort, tem o valor de uma ordem.

 

Nossa Senhora concede os bons conselhos através da voz da vocação à qual Deus nos chamou

A invocação de Nossa Senhora do Bom Conselho deveria ser utilizada em todos momentos difíceis. Sobretudo a minha caríssima “geração nova” precisa tanto de conselho... Há toda forma de capenguice, toda forma de problemas que a todo momento aparecem na vida de um "geração-nova". Mas há geração mais adequada para recorrer mais frequentemente a Nossa Senhora do Bom Conselho do que essa?...

Agora, para tirar seus últimos sucos, o que significa Nossa Senhora do Bom Conselho? Quer dizer Nossa Senhora enquanto dá bons conselhos, quer dizer, Ela considerada na qualidade de Mãe que aconselha.

E como Nossa Senhora aconselha no íntimo de nossas almas? Pela voz da graça, obtendo as graças que nos põem dentro da alma os conselhos bons.
Então, em toda ocasião de dúvida, de perplexidade, nas ocasiões em que nem temos dúvidas, mas um conselho que nem pensávamos que fosse necessário, nos possa abrir os olhos para algo que precisaríamos ver... em todas essas ocasiões, a invocação de Nossa Senhora do Bom Conselho é sumamente importante: é Nossa Senhora enquanto doadora de bons conselhos.
        Como esses bons conselhos ocorrem à alma? Para nós, sobretudo pela voz da vocação. Sempre que ouvirmos algo em nosso interior ou fora de nós, que está na linha da vocação, devemos tomar aquilo como um bom conselho. Sempre que sentirmos um movimento que nos dá, de repente, apetência de algum bem, devemos tomar aquilo como um bom conselho. Sempre que ouvirmos a graça dentro de nós nos dar apreensão de algum mal, devemos tomar isso como um bom conselho. Sempre que, junto a católicos verdadeiros, recebermos uma influência que sabemos que nos santifica, devemos tomar isso como um bom conselho.

 

Modo de se agradecer a Nossa Senhora os bons conselhos que recebemos

Há um exemplo maravilhoso na História, em matéria de união de almas e que estou lendo agora na vida de Santa Teresinha do Menino Jesus e que são as relações dela com uma irmã, creio que mais velha do que ela uns três anos.

Durante muito tempo ela não foi carmelita porque cuidava do pai de Santa Teresinha, Monsieur Martin, que estava gravemente doente.

Então, Santa Teresinha já no Carmelo e Celina fora do Carmelo, elas se correspondiam. E as cartas delas tinham isso, uma espécie de união de almas. Celina teve a glória - eu não sei como qualificar... - de ser, de algum modo, a inspiradora de Santa Teresinha.

E a gente observa Santa Teresinha com uma união de alma quase que continuamente tendendo para Celina como para seu próprio pólo. O que, evidentemente dá uma vivíssima desconfiança de que Celina também venha a ser canonizada.

Vê-se aí quase que uma espécie de interpenetração de almas por onde vivem ambas da mesma graça. Santa Teresinha tem trechos de uma beleza inimaginável a respeito disso.

Bem, esses são modos pelos quais recebemos bons conselhos que Nossa Senhora nos dá. Porém os mais preciosos, fecundos e sadios bons conselhos imponderáveis dentro da alma, são certos bons conselhos que nos vêm em certas horas, certas ideias, certos movimentos, certas sugestões que sentimos que nos integram em nossa vocação, que são a ação direta de uma alma, de cada graça, levando-nos para a santidade e para o bem.
Deveríamos pedir a Nossa Senhora, todos, todos os dias, bons conselhos! Que Ela, por essa forma, nos cumulasse com Seus conselhos maternais. E, por essa forma, sendo Ela medianeira de todas as graças, estaríamos a caminho verdadeiramente da santificação.

É uma invocação que me toca realmente e que eu acho que deve estar presente muito nas reflexões e nas perplexidades de tantos que vivem com tantas dificuldades nos dias de hoje.

 

(Plínio Corrêa de Oliveira - Santo do Dia, 26 de abril de 1966.)

 

 

 

 


domingo, 8 de junho de 2025

MATER BONI CONSILII - CELESTE CONSELHEIRA

 





 

a alma verdadeiramente católica deseja ser aconselhada por outrem, e ninguém mais do que Nossa Senhora para dar um bom conselho. Entretanto, Ela, ao aconselhar, muitas vezes o faz imperceptivelmente, despertando na alma desejos e pensamentos, desviando o espírito das coisas vãs.

 A festa de Nossa Senhora do Bom Conselho foi instituída no século XV, na igreja dos Irmãos Eremitas de Santo Agostinho, em Genazzano, na Itália.

 

A Mãe do Bom Conselho

Esta é uma invocação muito bonita, porque indica Nossa Senhora em uma das tarefas mais maternas, mais próprias à Rainha do Universo, que é exatamente a de dar o bom conselho.

Como Rainha do Universo, Nossa Senhora governa tudo. O próprio de quem governa é não só dar ordens como também dar conselhos. E para aqueles que amam verdadeiramente Nossa Senhora, todos os conselhos d’Ela valem como ordem.

A invocação bem exata é Mãe do Bom Conselho; é a Mãe considerada enquanto dando um conselho, uma orientação a um filho espiritual d’Ela, a um filho gerado por Ela na ordem sobrenatural, como somos todos nós.

Se quisermos penetrar mais a fundo, Nossa Senhora, por sua intercessão onipotente, obtém de Deus para as almas perturbadas, que não sabem o que fazer diante de certa emergência, o conselho de que necessitam, a solução que procuram e que pareceria impossível alcançar; porque elas analisam a situação e não encontram em seus recursos intelectuais uma orientação rectrix a seguir, precisando, portanto, de um conselho para saber como devem proceder.

Pedindo a Nossa Senhora do Bom Conselho, a Nossa Senhora enquanto Mãe dos homens desvairados, que não sabem como se orientar, Ela se compadece deles e os orienta.

Todos nós sabemos que o espírito humano é susceptível de erro, de grandes perplexidades e muitas vezes não é capaz por si mesmo de atinar com a solução de um problema que tenha diante de si. Nessa situação, é necessário o conselho de uma mentalidade mais alta, que vê mais, que irá explicar e traçar uma diretriz para seguir.

Habitualmente nós consideramos o conselho como uma norma para a ação. Esse é o significado corrente da palavra conselho. E, nesse sentido, cabe dizer que para toda espécie de ações, mesmo as interiores e espirituais, Nossa Senhora pode dar um conselho, uma norma.

Por exemplo: uma pessoa solitária está com uma perplexidade espiritual muito grande: continuará ou não a ter uma devoção? Deixará ou não de se abster disto ou daquilo? Como fará? É um problema puramente interior, relativo a um fazer que é um mero fazer do espírito e que não se traduz, a não ser por vias de consequências, numa operação externa. O homem pode ter perplexidades a esse respeito e, tendo-as, precisa de uma ajuda: um conselho espiritual, um conselho para as dificuldades de apostolado, para os estudos, para o trato com os outros, para tudo.

 

Necessidade do conselho e seu papel nas instituições ocidentais

Nós podemos dizer que um dos frutos da Idade Média, da Civilização Cristã, é o ter tornado bem clara essa necessidade do conselho como uma norma de vida vigente até mesmo nas instituições civis ocidentais.

Se analisarmos a primitiva história das monarquias pagãs do Oriente, mesmo das grandes como a do Egito, da Pérsia, da China, do Japão, notamos que, em geral, o monarca era absoluto, tinha o poder de dispor dos seus súditos como entendesse e quase não ouvia conselhos. De vez em quando aparecia alguém que dava um parecer a respeito de determinada situação, mas o conselho como uma instituição que o soberano  consultava com rotina, aquilo que nós chamamos de Conselho de Estado, não existia. O monarca ficava no seu isolamento, resolvendo as coisas por si e tomando as decisões.

Na Idade Média vemos aparecer a instituição do Conselho. Reconhecendo a precariedade, a falibilidade do espírito humano, os monarcas nomeavam Conselhos, órgãos coletivos diante dos quais o rei costumava levar seus problemas mais importantes. Estes eram debatidos em reunião e o rei aceitava ou não a solução proposta, mas habitualmente ele resolvia tudo com o seu Conselho.

Essa ideia passou da monarquia para as outras formas de governo que havia na Idade Média. As repúblicas aristocráticas governam-se por Conselhos. Por exemplo, o famoso Conselho dos Dez de Veneza, que assessorava o Doge e tinha um poder enorme; as repúblicas burguesas, as cidades livres da Alemanha, eram governadas por Conselhos, sendo o burgomestre a expressão de um Conselho eleito pela cidade. Assim foi se afirmando o princípio de que ter um Conselho é o complemento natural de todo governo.

 

Pedir conselho, uma postura católica por excelência

Mas, se os homens devem pedir conselhos uns aos outros, se devem reconhecer que por si mesmos têm dificuldade de encontrar a sua própria via em circunstâncias espinhosas, então é sobretudo verdade que convém a eles, podendo se comunicar com Deus por meio da oração, que a Ele peçam o conselho. Deve ser um dos hábitos de nossa vida espiritual, de nossa piedade, pedirmos que Nosso Senhor nos ilumine e nos faça compreender aquilo que devemos fazer.

É conhecido o fato, mais de uma vez mencionado por mim, de São Tomás de Aquino: quando tinha problemas filosóficos muito delicados e difíceis, que não conseguia resolver, ele introduzia a cabeça dentro do Sacrário e ficava ali rezando para o Santíssimo Sacramento até que viesse a solução desejada. Essa postura de alma de não só pedir conselho aos outros, mas, sobretudo, pedi-lo a Deus, no campo natural e no campo sobrenatural, é a postura católica por excelência.

Se nós vemos tantas pessoas que se curam de uma ou outra doença, que vão a Aparecida e deixam objetos de cera para lembrar o milagre, pedem graças de toda ordem e as recebem, às vezes graças materiais, Deus Nosso Senhor, a fortiori, que Se encarnou para salvar as nossas almas – e não para salvar os nossos corpos que a morte vai devorar -, Ele deseja nos dirigir, nos fazer conhecer a verdade e o bem no campo espiritual.

O mais alto, o maia belo conselho é, evidentemente, a Deus Nosso Senhor, autor de toda verdade, de todo bem e de toda luz, que devemos pedir, e a atitude habitual de fazê-lo por meio de jaculatórias, deveria ser comum e corrente entre nós em todas as nossas perplexidades.

 

Como são os conselhos d’Ela?

Ora, Nossa Senhora é a intermediária de todas as graças; é Ela quem leva a Deus Nosso Senhor os nossos pedidos e é Ela quem traz para nós a graça do bom conselho, aquilo que Espírito Santo comunica a Ela e que nós devemos saber para nossa orientação.

Como Nossa Senhora aconselha o íntimo de nossas almas? Ela o faz pela voz da graça, por meio de uma iluminação interior, de um discernimento especial, de uma palavra que vem de um bom amigo ou de um bom diretor, enfim, de um livro que encontramos. Foi, por  exemplo, o que aconteceu comigo com O Livro da Confiança do Abbé Saint-Laurent, que tanto me ajudou nas vias da confiança. Eu o comprei apenas para agradar a um vigário amigo e gentil que me tinha convidado para ir a uma feira de livros.

De um modo ou de outro, Nossa Senhora nos faz chegar o conselho que nós queríamos.

Em todas as ocasiões é sumamente importante a invocação de Nossa Senhora enquanto Conselheira, enquanto Padroeira que pede a Deus que os montes se movam e os rios alterem o seu curso para que a axiologia do coração de seus filhos se desenvolva de um modo reto e satisfatório.

 

Conselhos vindos pela união de almas

Os bons conselhos aparecem na alma sobretudo pela voz da vocação. Sempre que ouvirmos algo em nosso interior ou fora de nós que está na linha da vocação; sempre que sentimos um movimento que nos dá, de repente, apetência de algum bem; sempre que a graça inspire dentro de nós apreensão diante de algum mal; sempre que recebamos uma influência que nos santifica, devemos tomar isso como um bom conselho.

O modo pelo qual nós recebemos de Nossa Senhora, permanentemente, bons conselhos, é nos unindo àqueles que devem ser os planetas em torno dos quais nós devemos gravitar como satélites. O satélite não sai da órbita porque ele gira em torno de seu planeta. Assim também nós não saímos da órbita se estamos unidos interiormente com os que devem nos aconselhar.

Não se trata apenas de pedir um conselho, mas de ter uma tal união de almas, que, por assim dizer, ambos tenham o mesmo espírito, a mesma mentalidade, a mesma vontade; seguir o que o planeta deseja, antes mesmo de o ter manifestado.

Há um exemplo maravilhoso de união de almas que eu estou lendo agora na vida de Santa Teresinha do Menino Jesus: são as relações fraternas dela com Celina, irmã quatro anos mais velha do que ela. Durante muito tempo, Celina não foi carmelita porque cuidava do pai, Monsieur Martin, que estava muito doente. Santa Teresinha, já no Carmelo, se correspondia com Celina, e as cartas dela indicam essa união de almas. Celina teve a glória, não sei como qualificar, de ser, de algum modo, a inspiradora de Santa Teresinha. E Santa Teresinha, pela união de almas, quase que continuamente tendendo para Celina como para seu próprio polo. O que, evidente, nos dá uma vivíssima desconfiança de que Celina também venha a ser canonizada.

Vê-se aí quase uma espécie de fusão de almas, uma interpenetração por onde ambas vivem da mesma graça. E Santa Teresinha tem trechos de uma beleza inimaginável a respeito disso.

Esses são os moldes pelos quais nós recebemos os bons conselhos de Nossa Senhora. Os mais preciosos, fecundos e sadios dos bons conselhos imponderáveis dentro da alma, são os que nos vêm por certas ideias, movimentos interiores, sugestões que sentimos, os quais nos aproximam, nos integram na nossa vocação, e isso pela ação direta de uma alma, levando-nos para a santidade e para o bem.

Nós deveríamos pedir a Nossa Senhora que Ela, por essa forma, nos encha dos conselhos maternais d’Ela para assim alcançarmos não só a maior das uniões com Deus, mas sobretudo das uniões com Ela.

 

A Mãe do Bom Conselho, auxílio dos contrarrevolucionários

Nossa Senhora do Bom Conselho é a Mãe dos aflitos – aflitos, porque desorientados. Quem mais desorientados em nossos dias que o contrarrevolucionário? Tudo no mundo cotidiano, no mundo revolucionário, no mundo do caos, parece falar contra nós, mentir-nos e levar-nos para o erro e para o mal. Que remédio há para isso a não ser um bom conselho? E quem o dá neste mundo desvairado?

Ninguém mais e melhor do que Nossa Senhora do Bom Conselho! Ela é, portanto, por excelência, a Mãe e a Conselheira do contrarrevolucionário desgarrado nas aflições e nas penumbras, para não falar nas trevas do mundo de hoje.

Cabe aqui uma resolução prática para nossa vida espiritual: não fazermos nada de importante sem pedir a Ela um conselho. A Nossa Senhora nós devemos pedir tudo e com frequência, mesmo as coisas pequenas, porque Ela gosta de ser invocada também nas oportunidades aparentemente secundárias. Não sabemos resolver uma coisa? Rezemos: “Minha Mãe, aconselhai-me”.

O habitual pedido do bom conselho é uma postura altamente recomendável para o contrarrevolucionário. Nós vivemos numa batalha intelectual e doutrinária, somos envolvidos a todo instante pelas influências da Revolução; e, ainda que sejamos bons contrarrevolucionários e procuremos assumir com fidelidade a doutrina dada, sem embargo, a Revolução é de tal maneira envolvente, que muitos se queixam de notarem em sua alma permeações revolucionárias. Se assim é, haverá propósito melhor que o de pedir a Nossa Senhora que nos consiga as luzes e os conselhos e nos advirta sempre, no interior da alma, contra as coisas revolucionárias? Que Ela nos aconselhe sempre: “Meu filho, aquilo é revolucionário, não aceite. Aquilo é heterodoxo[1], não aceite. Aqui conduz ao mal, é imoral, não aceite”.

Nesse sentido, a invocação de Nossa Senhora do Bom Conselho é idêntica à invocação de Nossa Senhora da Fidelidade Contrarrevolucionária. É por meio das orações d’Ela que nós obteremos essa fidelidade.

 Pedir para ser aconselhado continuamente por Nossa Senhora

Nós podemos pedir a Ela que nos dê os conselhos não só em toda ocasião de dúvida, mas também naquelas ocasiões nas quais não temos dúvidas e nossa alma não se lembra de pedir, ou não tem vontade de receber os conselhos que nem pensamos serem necessários. Imploremos que Ela nos abra os olhos para aquilo que precisaríamos ver, dizendo: “Minha Mãe, dai-me o bom conselho que Vós julgais conveniente, mesmo numa hora em que eu não perceba ser aquele assunto importante”. Quer dizer, pedir para ser aconselhado continuamente por Nossa Senhora.

Quantos praticam com muito resultado a devoção às almas do Purgatório, pela qual pedem a elas que os acordem de manhã a tantas horas? Se as almas do Purgatório, por uma pequena oração, nos indicam a hora certa, quanto mais Nossa Senhora que é incomparavelmente superior a todos os santos e, portanto, também às almas do Purgatório. Ela tem uma ciência de Deus como ninguém; além do mais, Ela é Mãe de Deus e Onipotência Suplicante.

Bem entendido, esse conselho, no mais das vezes, não virá de modo extraordinário... As almas do Purgatório quando acordam as pessoas pela manhã, atuam discretamente. Nossa Senhora, a fortiori... Ela não aparece, mas desperta na alma certo pensamento, desvia o espírito para outro lado, nos faz notar, de repente, alguma coisa...

Às vezes eu vejo pessoas abatidas, tristes, com perplexidades e eu tenho vontade de dizer: “Mas meu caro, por que você vem pedir conselho a mim? Você já pediu a Nossa Senhora do Bom Conselho? Não é uma coisa incomparável? Do que adiante eu lhe dar um conselho, se Nossa Senhora não reforçar o meu conselho junto à sua alma? Simplesmente pelo valor lógico do meu conselho, eu posso muito pouco. Pelo contrário, com o apoio d’Ela pode-se tudo”.

Peçam sem cessar o auxílio d’Ela e obterão uma renovação na sua vida espiritual, eficácia no seu apostolado, sagacidade nos métodos de ação em todos os campos. Ela sabe tudo, pode tudo e para nós quer tudo.

 

Padroeira em momentos difíceis

É preciso admitir como provável que não estejamos todo o tempo juntos, e que em muitas ocasiões, pessoas às quais recorremos habitualmente para pedir um conselho não estarão ao nosso alcance. Teremos que resolver nós mesmos, e haverá o perigo de o desânimo e o desengano invadirem nossas almas e as fazerem cair no meio da via da confiança e do sucesso.

Nossa Senhora do Bom Conselho será, por excelência, nossa padroeira nesta via de encontrar o conselho que nos mantenha confiantes, certos de que aquilo que é axiológico acontecerá, e por essa maneira nos será dada a vitória.

Mais do que nunca, a festa de Nossa Senhora do Bom Conselho é a festa dos contrarrevolucionários. É uma festa individual de cada contrarrevolucionário, pois ele tem a alegria – que tão poucos homens na Terra têm – de voltar-se para Ela e dizer: “Mãe do Bom Conselho, Vós não me desamparareis. Tende pena de mim e dai-me uma orientação”.

 

(Extraído da revista “Dr. Plínio”, n. 326, maio de 2025, págs. 20/24)

 



[1] Heterodoxia é tudo aquilo que é contrário às normas, por exemplo, as heresias e erros doutrinários contrários à Verdade revelada.


sexta-feira, 6 de junho de 2025

MATER BONI CONSILII OU NOSSA SENHORA MÃE DO BOM CONSELHO

 





 

Nossa Senhora do Bom Conselho, aliás, mais precisamente Mãe do Bom Conselho – a invocação bem exata é essa – é Mãe considerada enquanto dando um conselho, enquanto dando uma orientação a um filho espiritual d’Ela, a um filho gerado por Ela na ordem espiritual.

O que é um bom conselho?

Todos nós já sabemos isso: o espírito humano é susceptível de erro, de perplexidades muito grandes, e muitas vezes não é capaz, por si mesmo, de atinar com a solução de um problema que tenha diante de si. Ele precisa de um conselho de uma mentalidade mais alta, que veja mais do que ele, e lhe explique uma coisa, lhe diga algo como é, e lhe trace uma diretriz para seguir.

Nesse sentido, nós podemos imaginar o conselho habitualmente como uma norma para a ação. Esse é o sentido corrente da palavra conselho.

E nesse sentido ainda nós podemos dizer que para toda espécie de ações – mesmo as ações puramente interiores, espirituais – Nossa Senhora pode dar um conselho, pode dar uma norma. Está, por exemplo, uma pessoa solitária, com uma perplexidade espiritual muito grande. Por exemplo, continuará ou não continuará a usar tal tipo de devoção, deixará ou não deixará de se abster de tal outra coisa, como fará?... É um problema puramente interior relativo a um fazer que é um mero fazer do espírito, que não se traduz, a não ser por via de consequências, numa operação externa. Mas o homem pode ter perplexidade a esse respeito e tendo perplexidade precisa de um conselho.

O conselho espiritual, o conselho para as dificuldades de apostolado, o conselho para os estudos, o conselho para o trato com os outros, o conselho para tudo. Em todas as circunstâncias o homem precisa do conselho.

 

Necessidade do conselho como norma de vida

Nós podemos mesmo dizer que um dos frutos da Idade Média, da Civilização Cristã, é ter tornado bem clara essa necessidade do conselho como uma norma de vida e até das instituições ocidentais.

Os senhores analisam a primitiva história das monarquias pagãs do Oriente, mesmo das grandes monarquias – Egito, Pérsia, China, Japão –, e os senhores notam que em geral o monarca é um monarca absoluto, que tem o poder de pôr e de dispor dos seus súbditos como entenda, e que não ouve quase conselhos. De vez em quando aparece na história um indivíduo que dá a respeito de uma situação, a um monarca, um determinado conselho. Mas os monarcas terem conselhos, habitualmente, como uma instituição, que eles consultam habitualmente como rotina a respeito das coisas, os senhores não veem. O monarca está no seu isolamento e resolve as coisas por si mesmo, e se lança. Ele de vez em quando pedirá um conselho a alguém, mas não tem aquilo que chamamos Conselho de Estado.

Nós vemos aparecer na Idade Média, pelo contrário, a instituição do Conselho. Quer dizer, o reconhecimento da falibilidade, da imperfeição do espírito dos mais poderosos monarcas, que por causa disso organizam, todos ou quase todos, habitualmente, Conselhos nomeados por eles, mas que são órgãos coletivos, aos quais costumam levar os seus problemas mais importantes, debatem com eles esses problemas em reunião e de onde sai, a solução que o rei aceita ou não aceita. Mas o rei habitualmente resolve em seu Conselho. Quer dizer, reconhecendo a precariedade, a falibilidade do espírito humano, os monarcas então instituem Conselhos para lhes ajudarem a resolver os seus problemas.

Essa ideia, essa pendência, passou da monarquia para outras formas de governo que havia na Idade Média. As repúblicas aristocráticas governavam-se por Conselhos. Por exemplo, o famoso Conselho dos Dez de Veneza, que assessorava o Doge e que tinha um poder enorme. As repúblicas burguesas, as cidades livres da Alemanha, por exemplo, eram governadas por Conselhos, nesse sentido de que o burgomestre era assessorado, e era a expressão de um Conselho eleito pela cidade.

E foi-se assim afirmando o princípio de que ter um Conselho é o complemento natural de todo governo, e que não se compreende que de um modo ou de outro um governo não seja assessorado e não tenha seus conselheiros.

Mesmo quando a forma de governo é como no Brasil, Estados Unidos, por exemplo, – regimes presidenciais em que não há um ministério que exerça o governo independentemente ou mais ou menos independentemente do chefe como é na Inglaterra, - os ministros são pessoas de confiança do Presidente da República, e é o presidente que governa.

 

Se os homens têm dificuldade de encontrar a sua própria via em circunstâncias espinhosas, então deve-se pedir a Deus o conselho

Mesmo assim, os senhores têm visto na história desses governos que as decisões importantes são tomadas pelo Presidente da República numa reunião de ministros. Habitualmente, ouve-se todos os ministros sobre coisas de ocasião e importância excepcional, pelo hábito que passou para uma segunda natureza no Ocidente, de que é em Conselho, por meio dos Conselhos que os assuntos verdadeiramente se resolvem.

Mas se isso é assim, e se os homens devem pedir conselhos uns aos outros, se os homens devem reconhecer que eles por si próprios têm dificuldade de encontrar a sua própria via em circunstâncias espinhosas, difíceis, etc., então é sobretudo verdade que o homem podendo-se comunicar com Deus por meio da oração, a Deus peça o conselho. E deve ser um dos hábitos de nossa vida espiritual, uns dos hábitos de nossa piedade pedirmos conselho a Deus. Pedirmos que Deus Nosso Senhor nos ilumine e nos faça compreender aquilo que nós devemos fazer.

Os senhores conhecem o fato, mais de uma vez mencionado por mim, de São Tomás de Aquino, que quando tinha problemas filosóficos muito delicados, muito difíceis e que não conseguia resolver, introduzia a cabeça dentro do sacrário e ficava ali rezando para o Santíssimo Sacramento, até que viesse a solução por ele desejada. Os senhores estão vendo que ele pedia portanto um conselho a respeito dos estudos a Nosso Senhor Sacramentado.

O mais alto, o mais belo conselho é evidentemente de Deus Nosso Senhor, autor de toda verdade, de todo bem, de toda luz, e a quem nós devemos pedir.

Então esta postura de alma de não só pedir conselho aos outros no campo terreno e natural, mas, sobretudo, de nesse campo natural e no campo sobrenatural pedir conselho a Deus Nosso Senhor, essa postura de alma é a postura católica por excelência.

 

Pedir conselhos deveria ser comum em todas perplexidades

Vemos tantas pessoas que se curam de tal doença, de tal outra, vão a Aparecida, deixam objetos de cera para lembrar a cura, pedem graças de toda ordem e recebem essas graças, e às vezes são graças materiais.

Deus Nosso Senhor, a fortiori, que Se encarnou para salvar as nossas almas, e não para salvar os nossos corpos que a morte vai devorar, Deus Nosso Senhor deseja a fortiori nos dirigir, nos fazer conhecer a verdade e o bem nas matérias espirituais, nas matérias que sejam a direção da vida do homem.

E portanto, essa atitude habitual de, por meio de jaculatórias, pedir conselhos, deveria ser comum, deveria ser corrente em todas perplexidades.

 

Nossa Senhora do Bom Conselho leva a Deus Nosso Senhor nossos pedidos de bons conselhos e é Ela que nos obtém tais graças

Ora, como acontece que Nossa Senhora é a intermediária de todas as graças, nós temos todo fundamento, diante de uma imagem de Nossa Senhora do Bom Conselho, de fazer uma oração considerando que Ela é que leva a Deus Nosso Senhor os nossos pedidos de bons conselhos. E que Ela traz para nós a graça do bom conselho. Quer dizer, aquilo que o Espírito Santo comunica à Ela e que nós devemos saber para nossa orientação.

E então nós entendemos bem o que é a Virgem do Bom Conselho. A Virgem do Bom Conselho é a Virgem por meio da qual nós podemos obter o bom conselho nas nossas aflições, nas nossas perplexidades, nas nossas dificuldades. E este é o sentido da devoção à Nossa Senhora do Bom Conselho.

Aí viria uma resolução prática para nossa vida espiritual: invocarmos muito a Nossa Senhora do Bom Conselho, e não fazermos habitualmente nada de importante sem pedir a Ela o conselho. Mesmo nas coisas pequenas, pedir, porque Nossa Senhora gosta de ser invocada também nas coisas pequenas, nas oportunidades aparentemente secundárias. Nós devemos pedir a Nossa Senhora tudo. Portanto, com frequência. Nós não sabemos resolver uma coisa: "Minha Mãe, aconselhai-me". Ainda que seja uma coisa pequena.

Nós somos envolvidos a todo instante pelas influências da Revolução. Se assim é, haverá conselho melhor do que pedir a Nossa Senhora que Ela nos advirta sempre, no interior da alma, contra as coisas revolucionárias? Nos aconselhe sempre: "Meu filho, aquilo é revolucionário, não aceite; aquilo é heterodoxo, não aceite; aquilo conduz ao mal, é imoral, não aceite".

É preciso tanta sagacidade para a gente se defender contra todas essas influências! Quem melhor pode nos conseguir as luzes, os conselhos, portanto, para isso, do que Nossa Senhora do Bom Conselho?

 

Pedir a Nossa Senhora que nos conceda também os conselhos que não formulamos

Nesse sentido, a invocação de Nossa Senhora do Bom Conselho é idêntica à de Nossa Senhora da fidelidade contra-revolucionária. É por meio d’Ela, por meio das orações d’Ela que nós podemos obter essa fidelidade.

E então eu aqui recomendo muito aos senhores que peçam a Nossa Senhora esse conselho, que sejam habitualmente devotos de Nossa Senhora do Bom Conselho, e que peçam a Ela o conselho interno para suas almas, que é dado pela graça do Espírito Santo, da qual São Paulo diz que é tão profunda que entra até a juntura da alma e do espírito.

E eu quereria que isso não ficasse no ar. Eu quereria que os senhores tomassem uma deliberação, que tomassem o hábito de várias vezes por dia pedir conselho à Nossa Senhora.

Os senhores vejam uma coisa curiosa: quantos dos senhores praticam – e sempre com muito resultado – essa devoção às almas do Purgatório, pela qual lhes pedem que os acordem de manhã cedo, a tantas horas. Se as almas do Purgatório por causa de uma pequena oração nos acordam, nos indicam a hora certa, quanto mais Nossa Senhora que é incomparavelmente superior a todos os santos e, portanto, também às almas do Purgatório? Ela que tem uma ciência de Deus como ninguém tem – ninguém vê a Deus como Ela – que é além do mais Mãe de Deus e Onipotência suplicante!

Quantas vezes pode acontecer que Nossa Senhora nos dê um conselho até sem nós pedirmos?

Quer dizer, podemos pedir à Nossa Senhora que Ela nos dê os conselhos que não pedimos, os conselhos que não nos lembramos de pedir, ou que não se tem vontade de receber. Dizer: "Minha Mãe, fazei-me ter o desejo do bom conselho que Vós julgais conveniente me dar, mesmo numa hora em que eu não perceba que aquele assunto é tão importante que vale a pena pedir".

Quer dizer, pedir para ser aconselhado continuamente por Nossa Senhora.

Bem entendido, bem entendido – eu nem preciso dizer isso – esse conselho no mais das vezes não se dá de modo extraordinário, Nossa Senhora não aparece para dar o conselho. Mas Ela desperta na alma certo pensamento, certa ideia, Ela desvia o espírito para um outro lado, faz notar, de repente, alguma coisa, assim como as almas do purgatório acordam as pessoas de manhã. Elas não aparecem; se aparecessem, eu creio que teriam poucos devotos, porque todo o mundo tem medo de ver – eu sou d’Eles – as almas do outro mundo. Mas elas atuam tão discretamente que a coisa passa. Nossa Senhora, a fortiori, saberá fazê-lo bem.

Por vezes vejo pessoas com perplexidades e tenho vontade de dizer: "Mas meu caro, por que você vem pedir conselho a mim? Você já pediu a Nossa Senhora do Bom Conselho? Não é uma coisa incomparável? Do que adianta eu lhe dar um conselho se Nossa Senhora não reforçar o meu conselho junto à sua alma? Simplesmente pelo valor lógico do meu conselho eu posso muito pouco. Pelo contrário, com o apoio d’Ela pode-se tudo".

Então, eu recomendo isso: peçam continuamente, e os senhores poderão ter uma renovação da sua vida espiritual, da eficácia do seu apostolado, da sagacidade dos seus métodos de ação em todos os campos. Nossa Senhora do Bom Conselho é a Conselheira por excelência, Aquela que sabe tudo, Aquela que pode tudo, e Aquela que quer tudo.

 

A graça do heroísmo tem normalmente como ponto de partida algo que poderíamos chamar de bom conselho

A graça do heroísmo tem normalmente como ponto de partida algo que nós poderíamos chamar de bom conselho. Porque o heroísmo se obtém quando uma alma tem com muita clareza o bem ou a verdade para a qual está se imolando, para a qual vai correr o risco. E não só percebe que aquela coisa é verdadeira e boa, mas percebe o pulchrum, a beleza daquela coisa.

Quando isso brilha muito diante da pessoa, ela é capaz de heroísmos de que não seria capaz quando isto tudo está embaçado. De maneira que o fazer ver isso para se ter o heroísmo necessário, isso é um conselho, porque é um avivamento de horizontes, uma abertura de horizontes, é uma linha de ação virtualmente indicada por Nossa Senhora em determinadas circunstâncias.

Eu vou ser mais terra-a-terra. O senhor imagine um cruzado que vai tomar Jerusalém. Ele está a uma certa distância de Jerusalém, está cansado, um calorão... areias, terras abandonadas, etc. Ele passa por aquilo tudo. De repente, vê Jerusalém. Ele pode ter a seguinte reação de alma: "Agora que eu cheguei, escalar essas muralhas e tomar essa cidade... que aborrecimento!... Uma viagem tão enorme e no fim da viagem uma batalha".

Mas ele pode ter também um lampejo de alma: "A cidade sagrada onde Nosso Senhor morreu! A cidade sagrada onde foi instituída a Sagrada Eucaristia, foi rezada a primeira Missa! A cidade sacrossanta onde está o Sepulcro de Nosso Senhor Jesus Cristo! Onde Ele ressuscitou! Onde Nossa Senhora morou! Onde Nossa Senhora teve, na cena da Piedade, o seu Divino Filho sobre o colo! Eu não permitirei isso!" Aparece numa maravilha, num lampejo. "Eu vou atacar!" Esse homem exausto vai, escala as muralhas e sobe.

Quer dizer, ele recebeu o quê? Uma iluminação, uma noção especialmente viva daquela magnificência, que no momento fez d’Ele um herói.

O senhor está vendo como o bom conselho pode conduzir ao heroísmo.

Às vezes é de outra maneira. É numa aridez tremenda, em que não se resolve, mas a alma sente dentro dela uma força que diz: "Você está na aridez, mas tem de lutar e lute, porque esse é o seu dever". E a alma resolve, e na aridez dá a carga de cavalaria e derruba o adversário. É um outro modo altamente meritório em que o conselho se faz no fundo da alma, de um modo que a pessoa nem percebe que foi aconselhada, mas em que recebeu uma força extraordinária para uma circunstância extraordinária. É por esta forma que Nossa Senhora do Bom Conselho nos orienta.

 

 (Plínio Corrêa de Oliveira -  "Conferência" de 16 de dezembro de 1975)