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quinta-feira, 30 de novembro de 2023

FESTAS DE ANTROPOFAGIA RITUAL

 




                Quando os portugueses chegaram ao Brasil em 1.500 encontraram aqui uma população nativa das mais bárbaras e violentas, cheia de vícios e maus costumes. Viviam guerreando-se entre si, e tal era a mortandade entre eles que alguns comentaristas chegaram a afirmar que teriam se dizimado uns aos outros, caso não tivessem sido civilizados pelos católicos. O pior costume entre eles era a antropofagia: faziam guerras quase que com a única finalidade, de, ao final, comerem os cadáveres dos inimigos mortos em batalhas. E o que os animava a fazer isso, segundo depoimento dos cronistas da época, era simplesmente ódio e desejo de vingança. E no momento em que iam assar e comer os cadáveres faziam uma grande festa, conforme ficou atestado por vários cronistas da época, especialmente os jesuítas e até mesmos alguns calvinistas franceses. Vejam a seguir o relato de como faziam tais festins entre eles.

“De todas as descrições antigas destas festas, a mais precisa é, sem dúvida, do autor anônimo de “Do Princípio e Origem dos Índios do Brasil”. É um pouco longa, mas de segura objetividade; e só por isso transcrevemo-la aqui:

“De todas as honras e glórias da vida, nenhum é tamanho para este gentio como matar e tomar nomes nas cabeças de seus contrários, nem entre eles há festas que cheguem às que fazem na morte dos que matam com grandes cerimônias, as quais fazem desta maneira:

Os que tomados na guerra vivos são destinados a matar, vêm logo de lá com um sinal, que é uma cordinha delgada ao pescoço, e se é homem que pode fugir traz uma mão atada ao pescoço debaixo da barba, e antes de entrar nas povoações, que há, pelo caminho os enfeitam, depenando-lhe as pestanas e sobrancelhas e barbas, tosquiando-os ao seu modo, e empenando-os com penas amarelas tão bem assentadas que não lhes aparece cabelo; as quais os fazem tão lustrosos como aos Espanhóis os seus vestidos ricos, e assim vão mostrando sua vitória por onde quer que passam.

Chegando à sua terra, o saem a receber as mulheres gritando e juntamente dando palmadas na boca, que é recebimento comum entre eles, e sem mais outra vexação ou prisão , salvo que lhes tecem ao pescoço “um colar redondo” como corda de boa grossura, tão dura como pau, e neste colar começam de urdir grande número de braços de corda, delgada de comprimento de cabelos de mulher, arrematada em cima com certa volta e solta em baixo, e assim vai toda de orelha a orelha por detrás das costas, e ficam com esta coleira uma horrenda cousa; e se é fronteiro e pode fugir, lhe põem em lugar de grilhões por baixo dos giolhos[1] uma peia de fios tecido muito apertado, a qual para qualquer faca fica fraca, se não fossem as guardas que nenhum momento se apartam dele, quer vá pelas casas, quer pelo mato, ou ande pelo terreiro, que para tudo tem liberdade, e comumente a guarda é uma que lhe dão por mulher, e também para lhe fazer de comer, o qual se seus senhores lhe não dão de comer, como é costume, toma um arco e flecha e atira à primeira galinha ou pato que vê, de quem quer que seja, e ninguém lhe vai à mão, e assim vai engordando, sem por isso perder o sono, nem o rir e folgar como os outros, e alguns andam tão contentes com haverem de ser comidos, que por nenhuma via consentiriam ser resgatados para servir, porque dizem “que é triste cousa morrer e ser fedorento e comido pelos bichos”.

Estas mulheres são comumente nesta guarda fiéis, porque lhes fica em honra, e por isso são muitas vezes moças e filhas de principais, máxime se seus irmãos hão de ser os matadores, porque as que não têm estas obrigações muitas vezes se afeiçoam a eles de maneira que não somente lhes dão azo para fugirem , mas também se vão com eles; nem elas correm menos risco se as tornam a tomar que de levarem umas poucas de pancadas, e às vezes são comidas dos mesmos a quem deram a vida.

Determinado o tempo em que há de morrer, começam as mulheres a fazer louça, a saber: panelas, alguidares, potes para os vinhos, tão grandes que cada um levará uma pipa; isto prestes, assim os principais como os outros mandam seus mensageiros a convidar outros de diversas partes para tal “lua”, até dez, doze léguas e mais, para o qual ninguém se escusa.

Os hóspedes vêm de magotes com mulheres e filhos, e todos entram no lugar com “danças e bailes”, e em todo o tempo em que se junta gente, há vinho para os hóspedes, porque sem ele todo o mais gasalhado não presta; a gente junta, começam as festas alguns dias antes, conforme ao número e certas cerimônias que precedem, e cada uma gasta um dia.

Primeiramente, têm eles para isto umas cordas de algodão de arrazoada grossura, não torcidas, senão torcidas de um certo lavor galante; é uma cousa entre eles de muito preço, e não nas têm senão alguns principais, e segundo elas são primas, bem feitas e eles vagarosos, é de crer que nem em um ano se fazem; estas estão sempre muito guardadas, e levam-se ao terreiro com grande festa e alvoroço dentro de uns alguidares, onde lhes dá um mestre disto dois nós, por dentro dos quais com força corre uma das pontas de maneira que lhes fica bem no meio um laço; estes nós são galantes e artificiosos, que poucos se acham que os saibam fazer, porque têm algumas dez voltas  e as cinco vão por cima das outras cinco, como se um atravessasse os dedos da mão direita por cima dos da esquerda,  e depois a tingem com um polme de um barro branco como cal e deixam-nas enxugar.

O segundo dia trazem muitos feixes de canas bravas do comprimento de lanças e mais, e à noite põem-nos em roda em pé, com as pontas para cima, encostados uns nos outros, e pondo-lhes fogo ao pé se faz uma formosa e alta fogueira ao redor da qual andam bailando homens e mulheres com maços de frechas ao ombro, mas andam muito depressa, porque o morto que há de ser, que os vê melhor do que é visto por causa do fogo, atira com quanto acha e quem leva, leva, e como são muitos, poucas vezes erra.

Ao terceiro dia fazem uma dança de homens e mulheres, todos com gaitas de canas e batem todos à uma no chão ora com um pé, ora com outro, sem discreparem, juntamente e ao mesmo compasso assopram os canudos, e não há outro cantar nem falar, e como são muitos e as canas umas mais grossas, outras menos, além de atroarem os matos, fazem uma harmonia que parece música do inferno, mas eles aturam nelas como se fossem as mais suaves do mundo; e estas são suas festas, afora outras que entremetem com muitas graças e “adivinhações”.

Ao quarto dia, em rompendo a alva[2], levam o contrário a lavar a um rio, e vão-se detendo para que, quando tornarem, seja já dia claro, e entrando pela aldeia, o preso vai já com olho sobre o ombro, porque não sabe de que casa ou porta lhe há de sair um valente que o há de aferrar  por detrás, porque, como toda sua bem-aventurança consiste em morrer como valente, e a cerimônia que se segue é já da mais propínquas à morte, assim como o que há de aferrar mostra suas forças em só ele o subjugar sem ajuda de outrem, assim ele quer mostrar ânimo e forças em lhe resistir; e às vezes o faz de maneira que, afastando-se o primeiro homem cansado em luta, lhe sucede outro que se tem por mais valente homem, os quais às vezes ficam bem enxovalhados, e mais o ficariam, se já a este tempo o cativo não tivesse a peia ou grilhões. Acabada esta luta ele em pé, bufando de birra e cansaço com o outro que o tem aferrado, sai um coro de ninfas que trazem um grande alguidar novo pintado, e nele as cordas enroladas e bem alvas, e posto este presente aos  pés do cativo, começa uma velha como versada nisso e e mestra do coro a entoar uma cantiga que as outras ajudam, cuja letra é conforme a cerimônia, e enquanto elas cantam os homens tomam as cordas, e metido o laço no pescoço lhe dão um nó simples junto dos outros grandes, para que se não possa mais alargar, e feita de cada ponta uma roda de dobras as metem no braço à mulher que sempre anda atrás dele com este peso, e se o peso é muito pelas cordas serem grossas e compridas, dão-lhe outra que traga uma das rodas, e se ele dantes era temeroso com a coleira, mais o fica  com aqueles dois nós tão grandes no pescoço na banda detrás, e por isso diz um dos pés de cantiga: “Nós somos aqueles que fazemos estirar o pescoço ao pássaro”, posto que depois de outras cerimônias lhe dizem noutro pé: “Se tu foras papagaio, voando nos fugira”.

A este tempo estão os potes de vinho postos em carreira pelo meio de uma casa grande, e como a casa não tem compartimentos, ainda que seja de 20 ou 30 braças de comprido, está atulhada de gente, e tanto que começam a beber é um lavarinto ou inferno vê-los e ouvi-los, porque os que bailam e cantam aturam com grandíssimo fervor quantos dias e noites os vinhos duram: porque, como esta é a própria festa das matanças, há no beber dos vinhos muitas particularidades que duram muito, e a cada passo ourinam, e assim aturam sempre, e de noite e dia cantam e bailam, bebem e falam cantando em magotes por toda a casa, de guerras e sortes que fizeram, e como cada um quer que lhes ouçam a sua história, todos falam a quem mais alto, afora outros estrondos, sem nunca se calarem, nem por espaço de um quarto de hora. Aquela manhã que começam a beber, enfeitam o cativo por um modo particular que para isto têm, a saber: depois de limpo o rosto e quanta penugem nele há, o untam com um leite de certa árvore que pega muito, e sobre ele põem um certo pó de umas cascas de ovo verde de certa ave do mato, e sobre isto o pintam de preto com pinturas galantes, e untando também o corpo todo até a ponta do pé o enchem todo de  pena, que para isto têm já picada a tinta de vermelho, a qual o faz parecer a metade mais grosso, e a cousa do rosto o faz parecer tanto maior e luzento, e os olhos mais pequenos, que fica uma horrenda visão, e da mesma maneira que elas têm pintado o rosto, o está também a espada, a qual é um pau ao modo de uma palmatória, senão que a cabeça não é tão redonda, mas quase triangular, e as bordas acabam quase em gume e a haste será de 7 ou 8 palmos, não é toda roliça, terá junto da cabeça 4 dedos de largura e vem cada vez estreitando até o cabo, onde tem uns pendentes ou campainhas de penas de diversas cores, é cousa galante e de preço entre eles; eles lhe chamam “Ingapenambim”, “orelha de espada”. O derradeiro dia dos vinhos fazem no meio do terreiro uma choça de palmas ou tantas quantas são os que hão de morrer, e naquela se agasalham, e sem nunca mais entrar em casa, e todo dia e noite é bem servido de festas mais que de comer, porque lhe não dão outro conduto senão uma fruta que tem sabor de nozes, para que ao outro dia não tenha muito sangue.

Ao quinto dia pela manhã, ali às sete horas pouco mais ou menos, a companheira o deixa, e se vai para casa muito saudosa e dizendo por despedida algumas lástimas pelo menos fingidas; então lhe tiram a peia e lhe passam as cordas do pescoço à cinta, e posto em pé à porta do que o há de matar, sai o matador em uma dança, feito alvo como uma pomba com barro branco e uma, a que chamam “Capa de pena”, que se ata pelos peitos, e ficam-lhe as abas para cima como asas de Anjo, e nesta dança dá uma volta pelo terreiro e vem fazendo uns esgares estranhos com olhos e corpo, e com as mãos arremeda o minhoto que desce à carne, e com estas diabruras chega ao triste, o qual tem as cordas estiradas para as ilhargas e de cada parte um que o tem, e o cativo, se acha com que atirar, o faz de boa vontade, e muitas vezes lhe dão com que, porque lhe saem muitos valentes, e tão ligeiros em furtar o corpo que os não pode acertar.

Acabado isto vem um honrado padrinho do novo cavaleiro que há de ser, e tomada a espada lhe passa muitas vezes por entre as pernas, metendo-a or por uma parte, ora por outra da própria maneira que os cachorrinhos dos sanfonineiros[3], lhe passam por entre as pernas, e depois tomando-a pelo meio com ambas as mãos aponta com uma estocada aos olhos do morto e isto feito lhe vira a cabeça para cima da maneira que dela hão de usar, e a mete nas mãos do matador, já como apta e idônea com aquelas bênçãos para fazer o seu ofício para o qual se põe algum tanto ao lado esquerdo, de tal jeito que com o gume da espada lhe acerta o toutiço, porque não tira a outra parte, e é tanta a bruteza destes que, por não temerem outro mal senão aquele presente tão inteiros estão como se não fosse nada, assim para falar, como para exercitar as forças, porque depois de se despedirem da vida com dizer que “muito embora morra, pois muitos têm mortos e que alem disso cá ficam seus irmãos e parentes para o vingarem”, e nisto aparelha-se um para descarregar e o outro para furtar o corpo, que é toda a honra de sua morte. E são nisto tão ligeiros que muitas vezes é alto dia sem o poderem matar, porque em vindo a espada pelo ar, ora desvia a cabeça, ora lhe furta o corpo, e são nisto tão terríveis que se os que têm as pontas das cordas o apertam, como fazem quando o matador é frouxo, eles tão rijo que os trazem a si e os fazem afrouxar em que lhes pese, tendo um olho neles e outro na espada, sem nunca estarem quedos, e como o matador os não pode enganar ameaçando sem dar, sob pena de lhe darem uma apupada, e ele lhe adivinham o golpe, da maneira que, por mais baixo que venha, num assopro se abatem e fazem tão rasos que é cousa estranha, e não é menos tomarem a espada aparando-lhe o braço por tal arte que sem lhe fazerem nada correm com ela juntamente para baixo e a metem de baixo do sovaco, tirando pelo matador, ao qual, se então não acudissem, o outro o despacharia, porque têm eles nestes atos tantos agouros que para matar um menino de cinco anos vão tão enfeitados como para matar algum gigante, e com essas ajudas ou afoutezas tantas vezes dá, até que acerta alguma e esta basta, porque tanto que ele cai e lhe dá tantas até que lhe quebra a cabeça, posto que já se viu um que a tinha tão dura, que nunca lhe puderam quebrar, porque como a trazem sempre descoberta, têm as cabeças tão duras que as nossas em comparação deles ficam como de cabaças e quando querem injuriar algum branco lhe chamam de “cabeça mole”.

Se este que mataram ao cair cai de costas, e não de bruços, têm-no por grande agouro e prognóstico que o matador há de morrer, e ainda que caia de bruços têm muitas cerimônias , as quais s se não guardam têm para si que o matador não pode viver; e são muitas delas tão penosas que se algum por amor de Deus sofresse os seus trabalhos não ganharia pouco, como abaixo se dirá. Morto o triste, levam-no a uma fogueira que para isto está prestes, e chegando a ela, em lhe tocando com a mão dá uma pelinha pouco mais grossa que véu de cebola, até que todo fica mais limpo e alvo que um leitão pelado, e então se entrega ao carniceiro ou magarefe, o qual lhe faz um buraco abaixo do estômago, segundo seu estilo, por onde os meninos primeiro metem a mão e tiram pelas tripas, até que o magarefe corta por onde quer e o que lhe fica na mão é o quinhão de cada um, e o mais se reparte pela comunidade, salvo algumas partes principais que por grande honra, se dão aos hóspedes mais honrados, as quais eles levam muito assadas, de maneira que não se corrompam, e sobre elas em suas terras fazem festas e vinhos de novo”.

(Extraído do livro “Vida e Morte do Padre José de Anchieta”, de Quirício Caxa, Coleção Cidade do Rio de Janeiro, vol.5, págs. 120/128

 

 



[1] Giolhos, era o que chamavam de joelhos na linguagem quinhentista.

[2] Isto é, amanhecendo o dia.

[3] Ou sanfoneiros, tocadores de sanfona, que, naquela época, talvez fosse comum em Portugal.


sexta-feira, 18 de outubro de 2019

PAGANISMO INDÍGENA PERANTE AS ORGIAS,. BEBEDEIRAS E O VÍCIO DE FUMAR







Sem nenhum preceito moral que os contivesse em seus impulsos, os índios quando se entregavam (e ainda se entregam) aos vícios da orgia, faziam-no de forma descontrolada. Além do uso exagerado do fumo e da bebida, nesta oportunidade algumas tribos fazem também o uso de drogas alucinógenas. Quando faziam uma dessas festas, bebiam por vários dias seguidos. O pastor protestante francês Jean de Léry (século XVI) testemunhou uma festa em que eles passaram três dias e três noites consecutivas bebendo, e, mais ainda, “depois de bêbados a mais não poder, vomitaram quanto tinham bebido e recomeçaram bem mais dispostos que antes...  O curioso é que nada comem durante as bebedeiras...”.
O padre Claude d’Abbeville (século XVII) descreve uma dessas orgias:
“Nunca senti tanto espanto como quando entrei numa dessas cabanas onde estava havendo uma cauinagem; no primeiro plano se achavam esses grandes vasilhames de barro cercados de fogo e com bebida fumegando; mais adiante, inúmeros selvagens, homens e mulheres, alguns completamente nus, outros descabelados, outros ainda revestidos de penas multicores, uns deitado expirando a fumaça do tabaco pela boca e pelas narinas, outros dançando, saltando, cantando e gritando. E todos tinham a cabeça enfeitada e a razão tão perturbada pelo cauim que reviravam os olhos a ponto de parecer encontrar-me em presença de símbolos ou figuras infernais. E se na verdade o Diabo se deleita na companhia de Baco e busca por meio da dança perder as almas, há de por certo comprazer-se infinitamente nas reuniões desse miserável povo, que sempre lhe pertenceu pela barbárie, pela crueldade e  pela embriaguez, e que somente encontra satisfação em dançar e cauinar quando se apresenta uma oportunidade, durante dois a três dias seguidos, sem repouso nem para dormir, até que todos os potes se esvaziem. E o que é mais estranho, bebem e fumam sem comer o que quer que seja”. [1]
Todos os cronistas confirmam o que se diz acima. O padre Simão de Vasconcelos chegou a contar 32 tipos de bebidas alcoólicas ou alucinógenas. Varnhagen acrescenta que no Alto Amazonas é comum os índios fazer uso da coca e também de uma substância chamada “ypadu”, droga ainda hoje cultivada e usada não só pelos índios como entre os brancos, para isso existindo lá uma seita iniciática de seu consumo com o nome de “Santo Daime”.

Sobre a origem do fumo
Sobre o fumo, que era usado em qualquer dia, Gabriel Soares diz que “tomam este fumo por mantença, e não podem andar sem ele na boca, aos quais dana o bafo e os dentes, e lhes faz mui ruins cores. Esta cangoeira de fumo é um canudo que se faz de uma folha de palma seca, e tem dentro três e quatro folhas secas da erva santa, a que os índios chamam  petum...”[2] O padre Manuel da Nóbrega, por sua vez, afirma que o fumo também ajuda a digestão e a outros males corporais e a “purgar a fleuma do estômago”, parecendo querer dizer se for usado como medicamento.
Indiscutivelmente o fumo é originário das Américas.  Jean de Léry informa que a nicotina, “cujo nome diz prover do senhor Nicot, que primeiro a remeteu de Portugal para a França, é originária da Flórida...”  O cronista português Damião de Góes, por sua fez, diz que a “Erva Santa” , ou a planta do fumo, foi levada do Brasil para Portugal por Luiz de Góes. Da Flórida ou do Brasil, o fato é que a planta foi introduzida na Europa no século XVI pelos viajantes que retornavam das Américas. 



[1] “História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e Terras Circunvizinhas – Claude d’Abbeville – Ed. Itatiaia e Ed. Universidade de São Paulo, 1975, pág. 239
[2] “Tratado Descritivo do Brasil em 1587” – Gabriel Soares de Sousa – Typografia José Ignácio da Silva, 1879, pág. 296


sábado, 12 de outubro de 2019

O QUE O SÍNODO DA AMAZÕNIA DIZ DISSO? INFANTICÍDIOS E ABORTOS, BÁRBAROS COSTUMES INDÍGENAS






A matança de inocentes, inclusive de nascituros ou dos fetos através de abortos, é um costume  que se disseminou em quase todos os povos pagãos. Em alguns deles as crianças eram oferecidos aos ídolos, como ocorreu com os caldeus das primeiras civilizações antigas. Entre os indígenas a matança de inocentes não tem, porém, nenhum pretexto idolátrico ou alguma razão aparente. Trata-se apenas de desvencilhar-se de um “incômodo”  e nada mais...
São José de Anchieta conta que uma velha índia enterrou uma criança viva, logo após nascer, pelo simples fato do pai dela haver abandonado a mãe e se juntado a outra índia. Explicou que fez isto para evitar que o menino “ficasse mestiço de duas sementes”.  Matam os nascituros até mesmo como vingança por causa de alguma irritação do marido que lhe causou alguma humilhação ou desdita.  Há também casos que as demais parentas matam o filho caso a mãe venha a morrer após o parto, pois não há quem lhe dê de mamar. Comenta São José de Anchieta: “coisa que assim sem mais piedade, a criança viva e a mãe morta, ambas em uma cova”  sepultavam. Sim, sepultavam viva a própria filha...
O aborto e o infanticídio não são, portanto, prerrogativas decorrentes do progresso tecnológico e social da vida moderna, é um costume que tem sua origem nos povos pagãos, especialmente entre os índios. E como praticam, especialmente os abortos? Di-lo São José de Anchieta: “As índias, ou iradas contra seus maridos ou, as que não os têm, por medo ou por outra qualquer ocasião muito leviana, matam os filhos, ou bebendo para isso algumas beberagens, ou apertando a barriga, ou tomando alguma carga excessiva e de muitas maneiras, que a crueldade humana faz inventar”.[1]
Parece que a maioria dos casos tinha como causa a vingança contra os maridos. A esse propósito Afonso Arinos transcreve o relato feito por Moncquet sobre um inglês que convivia com uma índia há muitos anos e, chegando ao porto um navio, nele embarcou sem levar consigo a índia que já tinha um filho dele. Furiosa, a índia pegou o filhinho e saiu despedaçando o corpo com sanha feroz pela praia, atirando metade do cadáver no mar em direção do navio que se afastava do porto.[2]
Pior do que isso eles faziam. Não só matavam as crianças, mas em alguns casos as comiam em seus festins antropofágicos. São narrados vários casos em que os filhos eram também mortos e comidos juntamente com os pais, ou então, engordados para serem comidos depois...
Mas, este problema persiste até hoje, pois já foram denunciadas várias tribos ou etnias que continuam praticando o infanticídio entre eles. O tema é bastante discutido no âmbito do direito, havendo algumas organizações que defendem o costume sem levar em consideração o sagrado direito á vida. Quem quiser ver este problema atual com mais profundidade veja o seguinte artigo https://jus.com.br/artigos/61370/infanticidio-indigena
Ou, com mais detalhes, o vídeo a seguir:




[1] “Cartas – Correspondência Ativa e Passiva – Pe. Joseph de Anchieta, SJ – Ed. Loyola, 1984, pág. 159
[2] Vide a obra “O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa” – Afonso Arinos de Mello Franco – Livraria José Olympio Editora/MEC, 1976, pág. 28


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

COMO É O RELACIONAMENTO NUMA "FAMÍLIA" TRIBAL







Uma das grandes mazelas do convívio entre os índios é o próprio relacionamento entre pais e filhos, isto é, dentro da “família”. E isso era assim no século XVI e ainda perdura em muitas tribos modernas, exatamente aquelas que nunca foram evangelizadas.
Há uma concepção idílica e falseada dos índios de que eles tratam seus filhos de uma forma mais amorosa do que os civilizados. Para ressaltar isto, Rousseau (século XVIII) espalhou a crença de que a mãe indígena amamentava o filho mais tempo do que a civilizada, que em geral entregava seus filhos às babás (pelo menos aquelas de melhores condições sociais). Isto era razão para afirmar que a mãe índia amava mais o filho.
No entanto, a bem da verdade é bom que se frise: a realidade é bem outra. Em primeiro lugar, a mãe índia não conhece outro tipo de alimentação para o lactente, e usa somente este por desconhecer os outros ou por indolência. É bem verdade que usam o famoso “mingau de tapioca” feito da fécula da mandioca, mas apenas quando a criança está mais crescida, pois nos primeiros meses de nascida só se alimenta do leite materno.  Quando ocorre da criança rejeitar o leite materno, ou este faltar por qualquer deficiência da própria mãe, seria o caso de fazerem como fazem as civilizadas e entregarem a criança a uma babá. Mas, não; na maioria dos casos, o bebê morre à míngua. São relatados alguns casos de mães índias matarem seus próprios bebês porque não têm leite para amamentá-los.
Outra coisa é o  caráter amoroso do relacionamento com os filhos. Quando eles crescem não têm o menor respeito pelos pais. Em geral temem, quando temem, apenas os homens, pais e tios, e isto por medo de sofrerem represálias ou castigos (que são sempre bestiais).
Um exemplo foi narrado pelo Beato Inácio de Azevedo, um dos 40 mártires mortos por piratas anos depois quando retornava ao Brasil. Visitava o Rio de Janeiro, por ocasião da guerra contra os franceses, na condição de Visitador Apostólico da Companhia de Jesus, quando então escreveu a Roma: fala dos franceses, da artilharia capturada e de alguns lances da guerra, mas não crê na paz duradoura baseada na rendição incondicional oferecida pelos índios, isto porque não têm uma autoridade a que obedeçam, antes “cada lugar está por si e no mesmo lugar cada um é senhor da sua casa, ou para dizer melhor, nenhum é senhor da sua casa, que nem o filho tem obediência ao pai.”
Varnhagen, do mesmo modo, nos informa que “os filhos não respeitavam as mães, e só temiam, enquanto os temiam, os pais e os tios. No amor não havia que buscar sentimentos morais. As delícias da verdadeira felicidade doméstica quase não podiam ser apreciadas e saboreadas pelo homem no estado selvagem. Rodeado de feras, ou de homens-feras, mal podem neles desenvolver-se a parte afetuosa da nossa natureza, a amizade, a gratidão, a dedicação.[1]
O naturalista Carl von Martius também comenta sobre o assunto:
“O mesmo poder sobre a mulher que por sua força lhe assiste, é-lhe conferido também sobre os filhos...”   Sobre o pai, diz que “é um estranho  para os filhos e que nunca cuida deles e que muitas vezes vende o próprio filho”. Em suma: “respeito e obediência são estranhos às crianças. A relação do filho para com o pai perdeu aqui o sentido sagrado que se baseia nos sentimentos mais nobres da natureza”.[2] Era tanta a negligência e desumanidade dos pais que, em alguns casos, deixavam os filhos morrer à míngua, de fome...



[1] “História Geral do Brasil”, Edições Melhoramentos –Francisco Adolfo de  Varnhagen, vol.1, 9ª. Edição, 1978, pág. 48.
[2] “O Estado de Direito entre os Autóctones do Brasil – Carl F. P. von Martius – Editora Itatiaia e Ed. Universidade de São Paulo, 1982, págs. 58/60

terça-feira, 8 de outubro de 2019

CRENÇAS E SUPERSTIÇÕES DOS ÍNDIOS FARÃO PARTE DE NOVOS RITUAIS EVENTUALMENTE PROPOSTOS NO SÍNODO DA AMAZÔNIA?









A superstição é um sentimento de veneração religiosa, mas baseado em falsos temores e em crassa ignorância da realidade das coisas divinas. De modo geral, leva o supersticioso a um exagerado temor de coisas fantásticas que ele acredita terem forças superiores aos homens, baseado sempre em fantasias, levando-o também a uma confiança sem limites em coisas vãs que lhe mostram como úteis para a solução de seus problemas. Essa excessiva credibilidade leva também ao fanatismo. É a religião que o demônio faz instaurar entre os homens medíocres que não querem crer em Deus.  Mas que terminam crendo exageradamente na divindade das coisas criadas por Deus...
São inumeráveis as superstições e falsas crendices espalhadas entre os índios. Referiremos algumas apenas, a título de ilustração.
Gabriel Soares de Sousa, um dos primeiros historiadores do Brasil, conta diversas dessas superstições. Por exemplo, era costume entre eles que, todo aquele que matar um inimigo tomar o nome do mesmo entre os da sua tribo. Outra superstição era que, quando as índias pariam, os pais do recém-nascido ficavam deitados numa rede, onde permaneciam por vários dias como se estivessem de resguardo, comendo gulodices e comidas especiais, e evitando outras por considerarem de mau agouro. [1]
Havia uma superstição que era relacionada ao preparo das bebidas. Em geral, depois de ferver o milho, por exemplo, algumas donzelas mastigavam os grãos cozidos, cuspindo-os em outra vasilha. No caso de ser chamada alguma mulher casada para esta tarefa, era necessário que ela se abstivesse de relações com seu marido durante alguns dias, caso contrário a bebida jamais alcançaria a necessária perfeição.
A exemplo do que fazem hoje os adeptos do culto do candomblé, os índios também jogavam oferendas no mar ou no rio por onde navegavam, dizendo que era para acalmar as águas.  [2]
O padre Claude d’Abbeville nos fala de outras superstições:
“Desejando conhecer o motivo dessa loucura e diabólica superstição vim a saber que pensam morrer quando vêem a lua assim sanguinolenta após as chuvas. Os homens batem então no chão em sinal de alegria porque vão morrer e encontrar o avô a quem desejam boa saúde...  As mulheres, porém, têm medo da morte e por isso gritam, choram e se lamentam”
Em outro  trecho o mesmo cronista acrescenta:
“Têm outra superstição: a de fincar à entrada de suas aldeias um madeiro alto com um pedaço de pau atravessado por cima; aí penduram quantidade de pequenos escudos feitos de folhas de palmeira e do tamanho de dois punhos; nesses escudos pintam com preto e vermelho um homem nu. Como lhes perguntássemos o motivo de assim fazerem, disseram-nos que seus pajés o haviam recomendado para afastar os maus ares” [3]
Em geral o cocar de penas colocados nas suas cabeças é fruto de uma infinidade de superstições. Diferentemente das tiaras dos bispos e dos chapéus cardinalícios, todos contendo símbolos celestes, mas sem dar caráter de crendice em entidades fantásticas que possam estar associadas ao material ali usado.
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[1]  Vide a obra “Tratado Descritivo do Brasil em 1587” – Gabriel Soares de Sousa – Typografia José Ignácio da Silva, 1879, pág. 302
[2]  v.  “As Singularidades da França Antártica” – de André Thevet – Ed. Itatiaia, págs. 89 e 122

[3] “História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e Terras Circunvizinhas – Claude d’Abbeville – Ed. Itatiaia e Ed. Universidade de São Paulo, 1975, págs 247 e 253.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

A "MODA" INDIGENISTA DATA DO SÉCULO XVI





A atual “moda” que querem propagar no mundo de certos costumes indígenas não é nova, data do século XVI. O que é novo é o método com que tentam propagá-la, usando como meio o clero católico, tentando fazer uma “mistura”, que alguns chamam de sincretismo, entre nossa Religião e os rituais pagãos indígenas.

“Embaixadores” indígenas propagam o indigenismo na Europa
Era comum os navegantes voltarem de suas viagens levando os nativos para serem conhecidos na Europa. Com os Descobrimentos do século XVI este tráfico aumentou intensamente. O índio brasileiro despertou mais interesse do que os outros em virtude das descrições idílicas e elogiosas que lhe faziam os citados viajantes e cronistas. Era preciso dar ao mundo civilizado uma lição de inocência e bondade que os intelectuais humanistas e naturalistas reclamavam. De início, tais selvagens eram levados como escravos, mas, principalmente em Portugal, este tráfico foi proibido pelo bom rei Dom Sebastião, tendo elaborado o primeiro documento de libertação dos escravos do Brasil.  Outros, porém, eram levados simplesmente com o intuito de serem civilizados, e alguns que os brancos levavam por mera curiosidade.
Dos que foram à Europa para serem civilizados, o caso mais famoso foi de um índio carijó chamado Essomeriq, que em 1504 embarcou no navio francês “Espoir”. O capitão francês batizou-o com seu próprio nome, Binot. Chegando na França, o índio tornou-se civilizado e chegou até a se casar com uma filha do capitão Binot.  O ex-índio Essomeriq, agora senhor Binot Paulnier de Geneville, teve descendentes de seu consórcio, dentre os quais conta-se um padre do mesmo nome que foi cônego da Catedral de São Pedro, em Lisieux, e que escreveu obras históricas no decorrer do século XVII.
Dentre aqueles que iam à Europa para satisfazer á curiosidade e aos “estudos” de seus costumes, haviam alguns levados pelos humanistas com o fim precípuo de serem mostrados à sociedade como modelos de perfeição. Deveriam desfilar para os europeus, mostrando seus costumes, seus hábitos, encenar algumas danças e “guerras” teatrais, tudo ao natural como se estivessem em plena selva. A cidade de Rouen presenciou alguns desses desfiles. Em 1509 houve um com sete índios, narrado por Henri Estienne, em 1512, na obra “Cronologia”.  O desfile mais famoso, porém, deu-se no ano de 1550, na mesma cidade, denominado pelo escritor Ferdinand Denis como a “Festa Brasileira Celebrada em Ruão”.  Eram mais de 50 índios, com outros 300 figurantes brancos, desfilando perante o rei de França e toda a sua corte, com alguns nobres vindos de outros países especialmente convidados para a “festa”. Dentre estes destacava-se a presença de Maria Stuart, a futura desventurada rainha da Escócia assassinada por sua prima Elisabeth I.  Novamente os índios se apresentaram completamente ao natural, como viviam na selva.
Alguns destes índios voltavam à América, especialmente ao Brasil. Foi o caso de dois do Maranhão, assim encontrados por ocasião da expulsão dos franceses no início do século XVII:
“...dois índios vestidos à francesa, de calções e casacas curtas de veludo carmesim, guarnecidas de passamanes de ouro fino, e gibões de tela de ouro fino lavrado, e suas espadas douradas e largas, com talabartes de veludo carmesim lavrados de ouro, e tudo o mais nesta conformidade, até chapéu de castor com muitas plumas brancas, e bandas de Paris e resplendor de prata lavrada e cruzes de ouro fino ao pescoço como homens de hábito de São Luís.  Traziam consigo suas mulheres, moças francesas, vestidas de damas, com tais cotas, vestidos e adereços, que tudo era seda, guarnição e ouro”. [1]





[1] “Jornada do Maranhão” – Diogo de Campos Moreno – in “Cândido Mendes – Memórias para a História do Extinto Estado do Maranhão” – Rio, 1874.

PRETENDEM PAGANIZAR A SANTA MISSA COM RITUAIS DA PAJELANÇA?






De modo geral, fala-se muito  hoje em dia no respeito que se deve ter pelos “costumes” dos povos nativos, em especial dos indígenas.
No que consistem os costumes indígenas? Quando os portugueses chegaram ao Brasil, era mais profusa a disseminação de tais costumes: antropofagia (matavam e comiam seus adversários), feitiçarias, curandeirismo, muitas superstições, etc.
O aspecto religioso era, e é até hoje, o que chama mais atenção. E a tônica é o xamanismo, feitiçaria, verdadeiramente diabólica. Carl von Martius, estudioso do século XIX, afirma que os feiticeiros formavam uma verdadeira “confraria”, realizando encontros que eles chamavam de “santidade”. Vejamos  uma destas reuniões feitas por eles. Pode ser que se tratasse das faladas “santidades” ou então simples reunião de seus rituais pagãos. 
Jean de Léry, pastor protestante francês que esteve no Brasil tomando parte da famosa “França Antártida”, no Rio,  assistiu uma delas, que ele mesmo  narrou num livro, e que ocorreu da seguinte forma:
“...Os nossos tupinambás costumavam reunir-se com grande solenidade de três em três ou de quatro em quatro anos;  achei-me por acaso em uma dessas reuniões...
“...foram reunir-se em número de quinhentos a seiscentos numa grande praça...  Paramos então e voltamos para saber o motivo da assembléia; nisto os silvícolas se separaram subitamente em três bandos. Os homens recolheram-se a uma casa, as mulheres entraram noutra e as crianças numa terceira. Como vi dez ou doze caraíbas entre eles, suspeitei algum acontecimento extraordinário e convenci meus companheiros a permanecer ali até averiguá-lo.
“Antes de se separarem das mulheres e meninos, os caraíbas proibiram severamente de sair das casas em que se encontravam;  aí também nos encerraram...  ...quando principiamos a ouvir...  ...um murmúrio surdo de rezas; imediatamente, as mulheres, em número de quase duzentas, se puseram todas de pé e muito perto umas das outras. Os homens pouco a pouco erguiam a voz e os ouvíamos distintamente repetir uma interjeição de encorajamento: HE, he, he, he. As mulheres, por seu turno, a repetiram com voz trêmula: He, he, he. He.
“Assim aconteceu um quarto de hora e nós não sabíamos o que fazer. Ao mesmo tempo urravam, saltavam com violência, agitavam os seus braços e espumavam pela boca até desmaiar como vítimas de ataques epilépticos; por isso não era possível deixar de acreditar que se tivessem repentinamente possuídos do diabo. Também os meninos se agitavam e se torturavam... confessarei que tive medo...
“...Ao contrário do que afirmara o  intérprete, não se incomodaram os selvagens conosco;[1] conservaram-se em seus lugares e continuaram as suas cantorias, em vista do que eu e meus companheiros nos acomodamos sossegadamente em um canto a fim de contemplar a cena...
“...Como eram numerosos, formavam três rodas no meio das quais se mantinham três ou quatro caraíbas ricamente adornados de plumas, cocares, máscaras e braceletes de diversas cores, cada qual com um maracá na mão...
“...Os caraíbas não se mantinham sempre no mesmo lugar como os outros assistentes;  avançavam saltando ou recuavam do mesmo modo e pude observar que, de quando em quando, tomavam uma vara de madeira de quatro a cinco pés de comprimento em cuja extremidade ardia um chumaço de “petum”[2]e voltavam-na acesa para todos os lados soprando a fumaça contra os selvagens e dizendo: “Para que vençais os vossos inimigos recebei o espírito da força”.
A reunião que, pelo relato, talvez estivesse até mesmo decidindo ou pedindo aos espíritos forças contra os católicos, termina melancolicamente:
“Essas cerimônias duraram cerca de duas horas e durante esse tempo os quinhentos ou seiscentos selvagens não cessaram de dançar e cantar...” [3]
Será que os participantes do Sínodo da Amazônia, que se realiza agora no Vaticano, pretendem que futuramente haja cerimônias como estas dentro de nossas igrejas? Vão querer “paganizar” a Santa Missa com tais rituais?



[1] A aliança entre os maus: a presença de um herege não incomodava os feiticeiros. Jean de Lery encontrava-se provavelmente entre os tamoios, aliados dos franceses que haviam invadido o Rio de Janeiro.
[2] “petum” - fumo
[3]  “Viagem à Terra do Brasil” – Jean de Léry – Liv. Martins Editora, 1967, págs. 180/183

sábado, 28 de setembro de 2019

FAMÍLIA TRIBAL, GRUPO SEM QUALQUER VÍNCULO MORAL







Imaginemos como se inicia a formação de uma “família”  na tribo.  Inicialmente se forma um casal, que muitas vezes é fruto da conquista brutal do  homem que raptou a mulher, acrescido, algum tempo depois, de outras mulheres e de quantos filhos elas quiserem ter, na medida que assim o consentir a vontade de agradar ao homem. Carl von Martius afirma que “além deste modo violento (raptos), o selvagem brasileiro pode adquirir sua companheira por consentimento pleno do pai, de duas maneiras: por serviços prestados na cabana do sogro...  ou por compra”. Esta “compra” deve ter consumado o seu pagamento por certa quantidade de animais caçados ou de alguma roça de milho plantada. De modo geral, portanto, a mulher se nivela a uma escrava, e muitas vezes de um senhor brutal que a submete pelo resto da vida sob ameaças até de morte.  Na incipiente união tribal não há palavra dada, promessas e juramentos a cumprir, isto é, qualquer forma rudimentar de contrato social: requer apenas (quando o pai o exige) a  presença de um pajé ou do cacique para aprovar aquela união, feita sem qualquer comprometimento moral de ambos os consortes.


Informações do Padre Anchieta sobre a noção que os índios tinham da família

I – Indissolubilidade – Nenhuma noção, apenas casos isolados de índios que viveram toda a vida com uma só mulher sob seu poder, mas sempre tendo outras em outros lugares:
“Dos que têm uma só mulher de que houveram filhos, com a qual perseveraram até à velhice, pode haver mais dúvida, porque parece que estes têm diferente afeição e ânimo marital, não porque no princípio o tivessem tal, porque todos se juntam com elas duma mesma maneira. E também estes, como todos os outros, “in preparatione animi” têm muitas, e se não as tomaram, foi não por se terem por obrigados àquelas, senão porque houveram filhos delas, e os serviram bem, e lhes foram leais, e não tiveram poder para ter outras...”
II – Adultério, poligamia, ciúmes – “O adultério não costuma suscitar atentado contra a vida da mulher, havendo exceções porém de extremas crueldades, coisa que nem sempre ocorre contra os outros homens por medo de suscitar revides. A diferença entre concubinas e esposas legítimas praticamente não existe”.
III – Legitimidade familiar – “Jamais usavam o adjetivo “etê” (legítimo, verdadeiro, excelente), em matéria de parentesco. Sobrinhas por parte das irmãs eram despojadas, pois só considerava do mesmo sangue ou “filhas” as que nasciam dos irmãos: só a geração paterna era levada em conta, nada mais  representando a mulher do que um saco para o desenvolvimento do ser humano; o nome “Temirecô etê”, isto é, “Uxor Vera”, creio que o tomaram dos padres, que lhes queriam dar a entender a perpetuidade do matrimônio, e qual é a mulher legítima, porque este vocábulo “etê”, que quer dizer legítimo, usam eles nas coisas naturais da sua terra, e assim o seu vinho chamam “cãoy etê”, vinho legítimo, verdadeiro, à diferença do nosso a que chamam de “cãoy áyá”, vinho agro. As suas antas chamam “tapiretê”, verdadeira, e às nossas vacas à sua semelhança chamavam “tapyruçu”, vacas grandes, etc.  Mas na matéria de parentesco nunca usam deste vocábulo “etê”, porque chamando pais aos irmãos de seus pais, e filhos aos filhos de seus irmãos, e irmãos aos filhos dos tios irmãos dos  pais, para declararem quem é seu pai, ou filho verdadeiro, etc., nunca dizem “xerubetê”, meu pai verdadeiro, senão “xeruba xemonhangára”, meu pai que “me genuit”, e ao filho “xeraiara xeremimonnhanga”, meu filho “quem genuit”.  E assim nunca ouvi o índio chamar a sua mulher “xeremirecô etê” senão “xeremerecô”  (simpliciter) ou “xeraicig”, mãe de meus filhos; nem a mulher ao marido “xemenetê”, “maritus verus”, senão “xemêna” (simpliciter)  ou “xemenbira ruba” pai de meus filhos, do qual tanto usam para o marido, como para o barregão; e se alguma hora o marido chamar algumas de suas mulheres “xeremirecô etê”, quer dizer, mulher mais estimada ou mais querida, a qual muitas vezes é a última que tomou, porque “etê” também quer dizer fino ou estimado, como “caá etê”, mato fino, de boa madeira, “igbira etê”, pau fino, etc”[1]



[1] “Textos Históricos” – Pe. José de Anchieta – Edições Loyola, 1989, págs. 78/80