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sábado, 29 de julho de 2023

O MUNDO E OS PECADOS SOCIAIS DAS NAÇÕES

 





No Evangelho consta que o homem tem 3 inimigos da alma, que são a carne, o mundo e o demônio. A carne são nossos instintos com suas más inclinações; o mundo é a sociedade em que vivemos, e o demônio é o anjo mau que vive constantemente nos tentando na revolta contra Deus. E, talvez, o que mais influi em nós para a vida pecaminosa são os pecados sociais, quer dizer a vida do mundo, pois muitos vivem assim pecando sem perceber o mal que fazem pelo fato de ser algo comum a todos. Dr. Plínio Corrêa de Oliveira define muito bem esse “mundo”, que ele denomina de “mentalidade das Nações”:

“O ESPÍRITO DO MUNDO - E a mentalidade das Nações

Na primeira parte de sua preparação para a Consagração, São Luís Maria Grignion de Montfort deseja que as pessoas façam uma operação de esvaziamento do espírito do mundo.

Para esvaziar-se do espírito do mundo, devemos começar por saber como ele é.

O mundo é a sociedade temporal na qual o indivíduo vive. Em todo país católico, como o Brasil, existem duas sociedades: a espiritual e a temporal. Num certo sentido, a sociedade temporal vive na espiritual e, em certo outro sentido, a espiritual vive na temporal.

Habitualmente, o mundo tem um determinado modo de pensar, de agir e de viver, que todos os seus habitantes – ou pelo menos uma boa parte deles – reputa verdadeiro, exato, conforme a suas tradições, a seus costumes, a seu modo de ser, a sua cultura, etc., e querem conservá-lo.

O mundo considerado assim, ou é definidamente católico, e neste caso é um colaborador da Igreja, ou não é inteiramente católico mas, em parte ou no todo de sua mentalidade, é considerado de um modo oposto ao que a Igreja ensina e, neste segundo caso, é adversário da Igreja.

Isso supõe o princípio de que cada sociedade temporal tem uma mentalidade, ou seja, um conjunto de princípios, de modos de viver e de sentir, uma cultura, uns costumes, uma tradição, esperanças, preferências, etc., e esse conjunto representa as aspirações de todos os seus integrantes.

O indivíduo que tem a mentalidade do mundo vive muito bem nesse ambiente no qual ele tem o consenso geral, pois ele está de acordo com esse consenso. Acontece que se esse consenso não é inteiramente católico, o homem que vive nesse ambiente sofre uma solicitação contínua para deixar a mentalidade da Igreja e tomar a do mundo. E, nesse sentido, o mundo, então, é o grande inimigo da alma.

Nesse caso, a Igreja adverte seus filhos: ”Não tomem a mentalidade do mundo, que é má!”

Ter uma idéia bem clara do espírito do mundo

Nossa defesa contra o espírito do mundo, então, tem de ser termos uma idéia bem clara do que é esse espírito, como ele se estrutura, qual é a sua força e como se pode produzir a sua derrota.

Alguém dirá: “Isso é impossível”.

Eu lhe perguntaria: “Você examinou? Você tem sequer idéia de qual é o adversário que estamos combatendo? Como é que você diz ser impossível uma coisa que você não conhece?”

É claro que todas as coisas que não conhecemos podem nos parecer impossíveis. Mas, na realidade, são francamente possíveis se as conhecermos bem.

Derrotar o espírito do mundo é possível em duas dimensões: individual e coletiva. Individualmente, apontando a um indivíduo bem precisamente o que é o espírito do mundo, para ele o combater em si. Pois se ele não sabe o que é, não poderá combatê-lo; no máximo, fará uns combates esporádicos contra um aspecto ou outro, mas não arrancará o monstro inteiro de dentro de si. 

No início, a Igreja tinha diante de si “mundos” diferentes

Se tomarmos a História da Igreja nos primeiros séculos – em face dos povos do Mediterrâneo, onde ela se desenvolveu inicialmente, e do Oriente Próximo – veremos que ela encontrava mundos diferentes, porque as estradas eram muito pouco transitáveis, as comunicações eram difíceis, e por isso cada país tinha sua mentalidade, sua cultura, e formava um “mundo” próprio. Ora podia um determinado “mundo” – neste sentido da palavra – estar muito próximo da Igreja, ora podia estar mais longínquo dela.

Por exemplo, os romanos eram muito primitivos quando a Grécia estava no seu apogeu. Por sua vez, quando Roma chegou a seu apogeu, a Grécia era um conjunto de decadentes, mas a cultura grega tinha sido inteiramente assimilada pelos romanos, os quais passaram a viver segundo a mentalidade dos gregos.

A cultura grega tinha-se espalhado por um “mundo” que abrangia, além da Grécia propriamente dita, parte da Península Balcânica, Bizâncio, e parte da Península Itálica, inclusive Roma. Mas uma parte desse mundo era bárbara ainda.

Do outro lado do Mediterrâneo estava o Egito, com uma cultura sensivelmente diferente da cultura grega.

Em cada país a Igreja tinha uma posição diferente perante o mundo.

Como a mentalidade gera o estilo

Antigamente via-se como uma nação era diferente da outra considerando os monumentos, a literatura, e tudo o que havia sido legado pela tradição. Isso foi assim desde o antigo Egito até a Revolução Francesa e as grandes invenções. Até o século XIX, as nações eram muito diferenciadas umas das outras; cada uma com sua mentalidade, com seu modo de ser, com sua filosofia, constituía um mundo à parte.

Por exemplo, o estilo arquitetônico clássico grego, superconhecido, superlouvado, como é que se formou? Houve um tempo em que os gregos viviam em choupanas. Em certo momento, eles começam a construir, e começam a aparecer obras monumentais, extraordinárias, não pelo tamanho, mas pelo gosto, pela harmonia, pela simetria.

Como se chegou da barraca de um povo de pescadores mais ou menos ignorantes ao Parthenon de Atenas, por exemplo?

Alguém dirá: “Dr. Plínio, é muito simples. Um belo dia, apareceu um homem com talento, e havia outro homem que queria construir um templo e lhe deu o dinheiro necessário. Aquele, então, o construiu. Pronto”.

Não é assim. O estilo clássico grego, quando apareceu, encontrou o apoio entusiástico de toda a população, porque um estilo apresenta sempre a imagem de uma mentalidade. Era preciso, pois, que essa mentalidade já estivesse meio incubada nos atenienses para que, quando aparecesse o estilo, eles exclamassem “É isto!” Quer dizer, houve, em primeiro lugar, uma elaboração do estilo no subconsciente dos atenienses.

Não é que eles estivessem o tempo inteiro à sua procura, pois há certas coisas que o homem só encontra  quando não pensa muito nelas.

O conjunto dos habitantes de Atenas tinha uma espécie de avidez daquele estilo.  Quando apareceu um homem especialmente capaz de sentir em si – por ser um ateniense muito típico – aquela avidez coletiva, e dotado dos meios artísticos para dar expressão arquitetônica a esses sentimentos, ele fez o Parthenon. Mas quando o fez, ele agiu como um porta-voz de todos os moradores da cidade, de tal maneira que houve uma aclamação geral por sua obra.

Estilo, aqui, não é só o estilo arquitetônico. No caso grego, é toda uma mentalidade ateniense, todo um espírito que, em alguma medida – sem exagerar nada – os filósofos de Atenas e seus grandes intelectuais exprimiram.

Duas mentalidades refletidas num pequeno episódio

Por exemplo. Conta uma lenda que houve um concurso de escultura em Atenas, para o qual se admitiu toda espécie de escultores que quisessem concorrer. E as duas estátuas mais avaliadas foram uma deusa esculpida por um grego e uma rainha esculpida por um persa.

O escultor persa talhou sua estátua com um vestido riquíssimo, à maneira dos potentados persas. A Pérsia, sendo um rico império, tinha todo o luxo, todo o esplendor da corte imperial. Por isso, aparecia neles a preocupação de apresentar nas suas esculturas o esplendor da corte, como um elemento integrante da mentalidade nacional.

Por sua vez, os gregos em Atenas constituíam uma república que se tornou célebre. O fato concreto é que o grego esculpiu uma deusa muito bonita, mas vestida de uma túnica simplicíssima.

O júri, constituído por gregos, fez uma apreciação entre as duas obras de arte e deu a vitória à estátua grega. O escultor persa, naturalmente, ficou indignado – é clássica a oposição entre os dois povos – e protestou:

- Por que é que minha escultura não ganhou? Ela está tão ricamente adornada!

Os membros do júri lhe responderam:

- Tu a esculpistes rica porque não a soubestes esculpir bela.

Os senhores estão vendo que, num pequeno episódio, são duas filosofias e duas mentalidades que se deixam ver.

A consonância atrai, a dissonância repele

Numa cidade antiga havia bairros, havia estrangeiros, havia tudo o que há nas cidades de hoje. Nas cidades, hoje como antigamente, os vários bairros entram numa espécie de contato mudo uns com os outros, muito mais pelo olhar e pela convivência do que pela conversa. E o modo pelo qual um bairro influencia outro, cria nele uma mentalidade de conjunto que é propriamente a sua “filosofia”.

Desta maneira, cada bairro tem sua filosofiazinha própria e acaba tendo um certo contato – mais próximo ou mais remoto – com outro bairro. Forma-se, assim, uma espécie de “bolsa de filosofias”.  Essas filosofias são afins, por causa da vizinhança. E, postas numa mesma bolsa, engendram uma “filosofia comum”, a qual é uma filosofia ampla, abrangendo todos os aspectos da vida, e constituem uma mentalidade total.

Em geral, quando um indivíduo é político e quer ser esperto, ele percebe que quanto mais suas opiniões forem características de um certo ambiente, mais ele atrairá esse ambiente em torno de si. E que quanto mais, em vez de características, suas opiniões forem dissonantes, mais ele repelirá o ambiente que o rodeia.

Qual é o resultado disso?

É que o ser humano, desde menino, vai instintivamente procurando ficar parecido com os outros e tomar a mentalidade dos outros, para ter um convívio agradável com eles. Percebe, às vezes, as dissonâncias de um modo muito vivo, e aceita algumas coisas, mas recusa outras. A maior parte das pessoas aceita tudo, e forma esse “bolo” que, no seu conjunto, se chama “opinião pública”.

Portanto, se alguém quiser ter um rumo na vida, precisa perceber que efeito está causando e julgá-lo: se for um efeito razoável, aceitar; se for de acordo com a fé, aceitar; se for bom, aceitar ainda muito mais. Se for contrário em algo ao espírito, sobretudo, à doutrina da Igreja, recusar. E fazê-lo a qualquer preço. Se a pessoa assim não proceder, se ela não exercer uma vigilância contínua sobre si mesmo nesse ponto, acabará se tornando peteca nas mãos dos circunstantes”.[1]

O mundo ateu

Em outra oportunidade, Dr. Plínio assim se refere a um pecado social muito comum na sociedade moderna, que é o do ateísmo:

"...Assim, há ateus que se alegram com a convicção de que "Deus não existe". A tal ponto que se algum fato evidente — um milagre retumbante por exemplo — o convencesse do contrário, bem poderia acontecer que ele passasse a odiar a Deus, e até a matá-Lo, se fosse possível.

Outros ateus estão de tal maneira enchafurdados nas coisas da terra, que seu ateísmo não consiste em negar que Deus existe, mas em desinteressar-se inteiramente do assunto. Se é cabível a distinção, eles não são "ateus", no sentido mais radical e aliás corrente da palavra, mas "a-teus", ou seja, laicos. Concebem sem Deus a vida e o mundo. Caso se lhes provasse que Deus existe, veriam n’Ele um ser "con il quale o senza il quale, il mondo va tale quale". Sua reação consistiria em decretar contra Ele um total e perpétuo banimento dos assuntos terrenos.

Mas há um terceiro gênero de ateus. A este pertencem os que, acabrunhados pelos trabalhos e decepções da vida, e vendo bem, por amarga experiência pessoal, que as coisas desta terra não passam de "vaidade e aflição de espírito" (Eccles. 1, 14), gostariam que Deus existisse. Mas tropeçando nos sofismas do ateísmo, aos quais outrora haviam aberto o espírito, atados pelos hábitos mentais racionalistas a que aferraram a mente, tateiam agora nas trevas sem conseguir encontrar o Deus a quem outrora rejeitaram. Quando medito na apóstrofe de Jesus Cristo: "Vinde a mim, ó vós todos que estais sobrecarregados e fatigados, e eu vos restaurarei" (Mt. 11, 28), penso mais especialmente neste tipo de ateus. E tenho mais especialmente vontade de os chamar "caros ateus"...[2]



[1]Revista “Dr. Plínio”, nº 63, junho de 2003

[2] PLÍNIO CORREA DE OLIVEIRA - Artigo “A ti caro ateu”, "Folha de S. Paulo", 31 de agosto de 1980


quarta-feira, 21 de março de 2012

4 milhões de católicos valem mais do que 13 milhões de ateus!

A campanha da "Non Believers Giving Aid" em favor do Haiti, dirigida também a 21milhões de ateus e agnósticos dos EEUU, conseguiu somente 500.000 dólares, enquanto os católicos arrecadaram 15 vezes mais. Novos estudos mostram que os não-crentes são menos solidários.

Os ateus e agnósticos só têm tido vergonhosas derrotas nos últimos días. A última vem da parte do ativista britânico Richard Dawkins. Anteriormente, havia tentado polemizar com autoridades religiosas publicando um livro contra a existência de Deus, “A Ilusão de Deus”, espécie de “bíblia” do ateísmo moderno, mas em vão, pois ninguém deu importância ao mesmo.
Em 2009, montou um acampamento onde se ensinaria aos meninos uma atitude de ceticismo racional ao lado de algumas atividades esportivas. Segundo o diário “The Daily Telegraph”, Dawkins, biólogo especializado na teoría da evolução, estava promovendo esse acampamento de cinco dias no qual, junto à natação e outros esportes, as crianças receberiam lições sobre filosofia, moral e biologia, e aprenderiam a refutar as teorías opostas aos ensinamentos de Darwin. Dawkins tem tentado, sem êxito, desafiar teólogos católicos para debates sobre a existência de Deus, cujo único objetivo é angariar publicidade para si mesmo e seu livro. Ele agora tentava cativar o público infantil. Sem êxito, é claro!
A iniciativa fazia parte de uma campanha de Dawkins e do também conhecido professor de filosofía AC Grayling destinada a desafiar as chamadas sociedades cristãs que fomentam a educação religiosa, fazendo com que as crianças possam “pensar de modo independente, para ser céticos e racionais”.
Também se daria ênfase ao pensamento crítico e uma das provas a que se submeteria aos participantes era a batizada como “o desafío do unicórnio invisível”. Era comunicado às crianças que perto de suas barracas de campanha viviam dois unicórnios e se pediria que demonstrem que não existem tais animais mitológicos. Um dos dirigentes do acampamento disse que “os unicórnios não são necesariamente uma metáfora de Deus, mas estão aí para que os meninos compreendam a impossibilidade de uma demonstração desse tipo”. Depois, eles dizem que não pretendem “atacar a religião” e evasivas parecidas. Como a figura mitológica do unicórnio leva também muita gente a imaginar a concepção do diabo, eles procuravam da mesma forma negar a existência de satanás.
(V. "Novos professores, uma nova didática materialista")

Como já se não bastasse o ateísmo prático, da vida que se leva hoje em dia, ele resolveu lançar na Inglaterra uma campanha publicitária a favor do ateísmo teórico. O lema é este: “Deus provavelmente não existe, deixe de preocupar-se e goze a vida”. Esta legenda foi afixada nos ônibus de Londres para fazer face às mensagens religiosas. A campanha obteve certo êxito em virtude dos organizadores terem conseguido arrecadar cinco vezes os fundos necessáros, isto é, 35 mil euros, para colocar os anúncios em 30 ônibus urbanos. O caráter do anúncio será, de início, meio de brincadeira, para divertir as pessoas, mas, no fundo (segundo os autores) há algo de sério, pois os ateus desejam afastar tudo o que lembra Deus da sociedade, até mesmo das cogitações das mentes das pessoas. Não pretendem parar por aí, é claro, e já pensam numa campanha mais audaciosa no futuro, talvez até ofensiva contra as religiões. O que se lamenta mais é a torpe e frouxa reação dos “cristãos” ingleses: alegam que é um direito de qualquer grupo manifestar sua posição ideológica e filosófica, criticando apenas o aspecto do gozo da vida, o qual, dizem, nada tem a ver com os ensinamentos cristãos. A tradicional Igreja Metodista Britânica também se manifestou de modo positivo, considerando interessante que autores como Dawkins se preocupem com Deus. Por aí se vê, quanta condescendência com o ateísmo, até mesmo por aqueles que deveriam combatê-lo! Nem sequer os argumentos favoráveis à existências de Deus (tão prolixos na teologia moderna) foram apresentados para calar a boca do biólogo, o qual tentou, inutilmente, se utilizar da ciência para provar a inexistência de Deus em seu livro “Deus, um delírio”. O evolucionismo, sim, é um delírio inconseqüente, especialmente aquele denominado “evolucionismo natural ou espontâneo”, hoje contestado por inúmeros cientistas, pois as teses ou teorias evolucionistas nunca conseguiram ser provadas.
( V. "Campanha em favor do ateísmo"?)


Quem é mais generoso: os crentes ou os ateus?

Agora, a última do ativista da nulidade atéia: quis provar que os “não-crentes” (leia-se, ateus) são pessoas mais generosas do que os religiosos. Para tanto fundou uma ONG com o fim de arrecadar fundos para ajudar o povo do Haiti. Esperava ele que sua campanha fosse comover o coração dos ateus, que é uma maioria maciça na Inglaterra, e sua coleta de donativos superasse a outras feitas pelos religiosos.
Vejam no que deu, lendo o texto publicado por J. A. Antonio no site Forum Libertas:


São mais generosas as pessoas religiosas do que as atéias? Ou será que o tecido social que criam as comunidades religiosas favorece a generosidade? É que há no agnosticismo algo intrínsecamente contrario à solidariedade?
A observação sociológica começa a ter instrumentos para medir o desempenho de solidariedade dos crentes e não crentes para responder a essas perguntas. O recente caso da Grã-Bretanha é talvez a mais clara, pela transparência de seus dados.

A chave do Haiti

Em 2010, com o grande terremoto do Haiti, a mídia apelou à solidariedade em todo o mundo. O ativista Richard Dawkins ateu ou agnóstico, naquela ocasião criou a associação "Non Believers Giving Aid" (não-crentes dão ajuda), que se divulgou em Inglês amplamente na imprensa britânica e norte-americana. Eles coletaram dinheiro para a Cruz Vermelha e os Médicos Sem Fronteiras para mostrar que as pessoas sem crenças religiosas são também generosas e solidárias.
Trabalharam para esta associação 17 entidades diferentes: ateus, secularistas, não-religioso "humanista", "racionalista", "céticos", etc ... Centenas de blogs foram convidados a fazer doações à "Non Believers Giving Aid"
Não está claro se se pode falar de uma "comunidade crente", mas se existe sua "ONG" é "Non Believers Giving Aid" que em 2010 foi à televisão e jornais em profusão. Seu site deu instruções para se beneficiar dos incentivos fiscais significativos no Reino Unido e EUA.
Segundo a Wikipedia, citando a mesma teia de "Non Believers Giving Aid" a "solidariedade dos não-crentes" reuniu US $ 500.000 (ou seja, 382,462 euros ou 317.700 libras esterlinas).
Mesmo recebendo grandes quantidades da Austrália e Nova Zelândia, parece claro que o dinheiro "não-crente" veio principalmente da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos. Na Grã-Bretanha há 13,4 milhões de "não-religiosos", segundo o relatório de 2010 do Parlamento britânico "Religião na Grã-Bretanha". Nos EUA há 21 milhões de ateus e agnósticos como consta no “ARIS Relatório”, de 2010. Se somarmos as pessoas que acreditam em um "poder maior", mas não desejam se definir como religiosas (os organizadores da próxima marcha atéia de Washington adicionam todos), totalizaria 48 milhões de americanos "não-religiosos."

Embora o terremoto no Haiti estivesse em todos os jornais e apesar da colaboração de 17 instituições militantes "não-religiosa" no Reino Unido e nos EUA, a solidariedade organizada dos 61 milhões "não-religioso" anglo-americana , apenas conseguiu meio milhão de dólares. Sem dúvida, ajudaram muitas pessoas carentes no Haiti e foi uma coisa boa recolher essa ajuda ... mas como medidor sociológico da generosidade do tecido social não-crente não é muito impressionante.
Em contraste, apenas na Inglaterra e País de Gales, região europeia muito seculaizada, em 2010, em meio a notícias sobre escândalos de pedofilia, a CAFOD (o equivalente anglo-galês a Mãos Unidas, solidariedade católica para o exterior) arrecadou para o Haiti 5,65 milhões de euros (7,4 bilhões de dólares ou 4,7 bilhões de libras). Ou seja, a ONG católica inglesa de ajuda ao desenvolvimento para o Haiti arrecadou 15 vezes mais do que a ONG dos “não-crentes”.
Insistimos em que os descrentes são o triplo dos católicos na Inglaterra e País de Gales. Há 13,4 milhões de não-crentes na ilha, enquanto apenas uma pequena minoria de 4 milhões de católicos (os católicos escoceses não contam, porque não doam para a CAFOD, sua sócia escocesa independente). Desses 4 milhões de católicos, apenas 1 milhão vai à igreja com alguma regularidade.
Isso permite dizer que o tecido social católico inglês, três vezes menor do que a "comunidade descrente", era, portanto, 15 vezes mais generoso. Isto é, na proporção (libras por pessoa em cada grupo social), 45 vezes mais generosa. E que, se apenas 13,4 milhões de "não-religioso" são britânicos: lembre-se que "Non Believers Giving Aid" possuem pelo menos 61 milhões de "não-religiosos" dos EUA e do Reino Unido.

Repassando os "poréns" (ou os “senões”)

Você poderia dizer que os não-religiosos também dirigiram, sem dúvida, sua generosidade através de outras entidades. O mesmo, porém, é verdadeiro para os católicos, anglicanos, evangélicos, etc ... porque muitos doaram à Cruz Vermelha ou a entidades não-confessionais.

Você também pode dizer que os 13,4 milhões de "não-crentes" britânicos são pouco militantes em sua identidade. Mas o mesmo é verdade para a comunidade católica britânica: temos dito que apenas um milhão vai à igreja regularmente.
Outra objeção que pode acontecer é que os não-crentes são pessoas generosas, mas não através de entidades, que não é justo comparar CAFOD e a "Non Believers Giving Aid" (apesar da imprensa e da Internet não parar de falar da "Non Believers Giving Aid", especialmente na Inglaterra, onde vive Dawkins).
Efetivamente, faria falta medir a generosidade individual do Inglês, em contraste com sua religiosidade.

E isso é o que acaba de fazer o "Market Tracker Report de 2011" (Relatório 2011 do Mercado Rastreador), pela Charities Aid Foundation (CAF), uma organização especializada em estudos sobre doações e patrocínios há 80 anos. O estudo analisou em detalhe 507 doadores com mais de 50 libras [60 euros] por ano, escolhidos com critérios estatísticos. Os resultados são claros:

- Os doadores com crenças, mas não praticantes (a metade dos entrevistados crentes admitiu não ter crenças muito fortes), davam bem mais que o dobro (576 libras, cerca de 700 euros) do que aqueles sem crenças religiosas (235 libras, é digamos, 282 euros)

- Doadores religiosos prestam muito mais atenção às ONG de saúde ou de assistência internacional ao desenvolvimento que as evangelizadoras. Apenas 31% dos doadores deu algo a programas religiosos para atividades religiosas, enquanto 68% doaram para organizações médicas e 48% de apoio à ajuda ao desenvolvimento internacional.

Saber organizar-se

Alguém poderia ainda contestar que os não-crentes em si são muito solidários e generosos, mas não estão sendo organizado em comunidades que se encontram e criam obras coletivas (paróquias, escolas, sindicatos, associações) não são muito eficazes em esforços coletivos.
Mas apenas que é simplesmente um argumento para os benefícios da religião organizada: a religião cria iniciativas de tecido social eficientes, superando o individualismo e o egoísmo tão comum no opulento ocidental da generosidade e gerando sinergias de generosidade eficazes.

Se isso é assim, a sociedade queira os cidadãos generosos, envolvidos e organizados, o que deveria fazer é promover a atividade religiosa, e desencorajar arreligiosidade

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

É lícito ironizar os inimigos da Igreja de Deus



Charles Dwkins é um ateu que a mídia chama de “militante”, quer dizer, está em luta contra Deus. Uma luta muito desigual, levando-se em consideração que Deus, com sua onipotência, vence sempre; mas um tanto equilibrada se levarmos em consideração aqueles que estão do lado do Bem, ultimamente em desvantagem. Levando até às últimas conseqüências sua militância, o desarrazoado ateu resolveu processar o Papa em sua recente visita à Inglaterra.
Ele e o jornalista britânico Christopher Hitchens contrataram os advogados Geoffrey Robertson e Mark Stephens para buscar meios de abrir um processo legal contra o Papa. Emm comunicado, Stephens disse que há três possíveis abordagens: uma queixa à Corte Penal Internacional, na Holanda; uma ação popular por "crimes contra a humanidade" ou uma ação civil. Eles argumentarão que o Papa não tem imunidade diplomática, pois o Vaticano não é um membro com direito a voto nas Nações Unidas.
Quando Bento XVI esteve na Alemanha, o mês passado, o assunto voltou a ser ventilado, mas desta vez com menos ênfase do que na primeira. É que os mentores da ação ficaram tão desmoralizados que somente teimaram em voltar a falar do assunto com muita prudência e pouco alarde.
A propósito, nos últimos dias está circulando um vídeo no Youtube em que o zoólogo é ironizado pelos católicos. Embora o vídeo use um personagem odioso (Hitler), numa cena de filme que reflete alguns dos momentos de cólera do ditador, é bastante significativa a comparação com o ateu, o qual, neste particular (descrença em Deus) não difere muito do ex líder nazista.
Uma pergunta se impõe: é lícito aos católicos ironizar os inimigos da Igreja? Quem responde a essa pergunta é o Padre Félix Sardá y Salvani, autor de um famoso Best-seller que recebeu elogiosa carta do Vaticano, cujo título é “El Liberalismo es Pecado”. Eis como ele aborda a questão:
“Efetivamente não é pouco freqüente a acusação que se faz ao apologista católico de levar sempre o debate para o campo pessoal; e quando se lança a algum dos nossos a increpação de ter feito um ataque pessoal, parece aos liberais, e aos que têm ressaibos de liberalismo, que não é necessário dizer mais nada para o condenar.”.
Em seguida o autor passa a dar argumentos históricos em que famosos polemistas do passado, inclusive o próprio Santo Agostinho, não só escreviam contra os fautores de erros mas até mesmo os ironizavam, concluindo: “De onde tirou, pois, o liberalismo a novidade de que ao combater os erros se deve prescindir das pessoas e acariciá-la? Atenha-se ao que lhe ensina sobre isso a tradição cristã, e deixe os ultramontanos defenderem a fé como sempre foi ela defendida na Igreja de Deus... (cf. “El Liberalismo es Pecado”, Dom Félix Sardá y Salvani, Ed. Ramón Casals, Barcelona, 1965, pp. 60/62).
Vejam o vídeo, com legenda em português.



terça-feira, 5 de julho de 2011

Pilotos recusam-se a hastear bandeiras ateístas no Dia da Independência dos EUA

O site Notícias Pró-Família informa:

4 de julho de 2011 (Notícias Pró-Família) — Uma organização ateísta que estava buscando celebrar o Dia da Independência dos EUA hasteando bandeiras que promovem o ateísmo em todos os Estados Unidos quase esbarrou num grande empecilho — a maioria dos pilotos que trabalham para a própria empresa de anúncios se recusou a hastear as bandeiras.
Em sua reportagem, o jornal USA Today diz que de cada 5 pilotos que trabalham para a empresa Fly Signs Aerial Advertising, 4 se recusaram a participar da campanha, que envolvia bandeiras que diziam “Estados Unidos Sem Deus” e “O Ateísmo é Patriótico”.
Só 17 dos 85 pilotos da empresa concordaram em participar.
USA Today cita um dos pilotos, Red Calvert, dizendo: “Respeito nosso país e respeito nossas igrejas e temos problemas suficientes em nosso país sem incitar mais alguns problemas. Se essa gente quer fazer algo em que acredita, legal. Só não me incluam”.
A campanha de 23 mil dólares é um projeto da organização Ateus Americanos.
Dave Silverman, presidente de Ateus Americanos, disse que a recusa dos pilotos se origina no “fanatismo” dos americanos. “Esse é um lembrete claro da razão por que precisamos manter a luta. O fanatismo contra nós é tão frequente que muitos pilotos têm medo de hastear nossas bandeiras”, disse ele, de acordo com a CNN.
Outra organização ateísta, a Associação Humanista dos Estados Unidos, está fazendo uso do feriado de 4 de julho para promover sua descrença.
A organização distribuiu 15 mil broches em junho para promover seu slogan: “Você pode ser bom sem Deus”, de acordo com USA Today.
“Valorizamos os princípios sobre os quais nossa nação foi fundada, os quais incluem liberdade de religião e liberdade para ficarmos sem religião”, disse Roy Speckhardt, diretor executivo.
“O 4 de julho apresenta uma ampla oportunidade para todos os americanos que não creem em Deus ‘saírem do armário’ e abertamente se identificarem como tais”

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Deus existe?

Transcrevemos abaixo interessante artigo, publicado no site "Presbíteros", sobre a controvérsia do ateísmo moderno.

Por P. Rodrigo Polanco
Secretário Acadêmico da Faculdade de Teologia da PUC – Chile

Tradução de Wagner Marchiori

O livro que apresentamos é fundamentalmente uma transcrição literal de um debate sobre a pergunta que dá título a esta obra: Deus existe?, cujos protagonistas foram o então Cardeal Joseph Ratzinger e o filósofo Paolo Flores d’Arcais. O diálogo ocorreu no teatro Quirino, em Roma, em 21 de fevereiro de 2000, dentro do contexto do Jubileu convocado por João Paulo II pela ocasião do segundo milênio da encarnação do Verbo de Deus.

O debate, como era de se esperar, suscitou muito interesse antes mesmo de sua realização: o teatro estava repleto de público e ficaram mais de duas mil pessoas do lado de fora que conseguiram acompanhar o diálogo com a ajuda de um amplificador improvisado.

O motivo do interesse? Em primeiro lugar os debatedores: o Cardeal Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Conhecido por sua competência em temas filosóficos e teológicos e, particularmente, porque um de seus maiores interesses foi precisamente poder penetrar e compreender melhor a cultura atual e suas dificuldades em aceitar a mensagem cristã; e, mais especificamente, são conhecidos seus numerosos trabalhos acerca da possibilidade e necessidade da fé em um Deus pessoal que possa fundamentar a cultura e a ética no mundo contemporâneo. Hoje é nosso Santo Padre Bento XVI, cujo magistério se viu claramente influenciado por estas preocupações. Esperavam-se, então, de suas reflexões bons aportes ao debate atual.

O outro debatedor era Paolo Flores d’Arcais, filósofo e jornalista, nascido em Udine, Itália, em 1944. Ele se reconhece como ateu e é, na atualidade, uma referência intelectual no âmbito da cultura européia contemporânea. É, além disso, fundador e diretor da revista “Micromega”, que publicou este diálogo (foi publicado também na França pela editora Payot et Rivage e, na Alemanha, pela Wagenbach Verlag). Flores d’Arcais é um decisivo impulsionador dos valores cívicos da democracia e da igualdade. Seu ateísmo significa, para ele, “simplesmente considerar que tudo se passa aqui, em nossa existência, finita e incerta. E, portanto, são importantes os valores que se elegem e a própria conduta” (pg 30). Pode-se perceber, de imediato, que entre esses dois expoentes há pontos em comum apesar de uma diferença fundamental, o que augurava um debate que não decepcionaria.

O diálogo – e esta é a segunda razão do interesse do livro – que foi muito bem moderado por Gard Lerner (um jornalista italiano judeu), se desenvolveu de maneira intensa, muito honesta, às vezes de forma incisiva, mas sempre com respeito à opinião do outro e em sincera busca pela verdade. Ao longo do debate foram saindo os clássicos argumentos contra a existência de Deus e que foram permitindo ao Cardeal Ratzinger colocar com muita claridade, não somente a realidade da existência de Deus, mas, também, o porquê é hoje necessário e, sobretudo, racional (isto é, adequado a uma razão moderna) crer em Deus.

O diálogo – transcrito integralmente no livro – é aberto, fundamentalmente, com uma colocação de Flores d’Arcais que se tornará o fio condutor do debate, pois é justamente o núcleo da discussão sobre a existência de Deus. Afirma Flores d’Arcais que a fé deve aceitar – seguindo a São Paulo em seu “escândalo para a razão” e àquilo que se atribui a Tertuliano, “credo ut absurdum” (‘creio porque é absurdo (o que creio)) – que é digna de respeito, tem direito a uma cidadania , mas não é exigível nem pode ter a pretensão de ser aceita pela razão, já que “suas verdades” não podem ser demonstradas pela razão e que, inclusive, isso não foi pretensão do cristianismo primitivo que se considerava uma religião à margem da razão. Esta é uma afirmação que talvez muitos cristãos, à primeira vista, subscreveriam.

Pois bem, a partir dessa mesma observação, o Cardeal Ratzinger começa sua exposição demonstrando, com dados históricos, exatamente o contrário. O cristianismo desde suas origens considerou-se como uma religião e uma fé que certamente não era absurda e que, além disso, devia dar ‘razão de sua esperança’. A primeira carta de São Pedro diz precisamente “estais sempre dispostos a todos os que vos pedem dar razão de vossa esperança” (1Pe 3,15). Os cristãos devem, então, estar em condições de demonstrar o sentido profundamente racional de suas convicções. De fato, o cristianismo primitivo triunfou sobre as religiões pagãs de seu entorno justamente por sua reivindicação de racionalidade. Apresentou-se, inclusive, como filosofia, isto é, como resposta à busca da verdade, do ‘logos’ do mundo. Já no ano 150, Justino, filósofo e mártir cristão, fundava em Roma uma escola de formação cristã, aonde se podia aprender a refletir a fé entendida como filosofia verdadeira. Sua conversão, longe de afastá-lo da filosofia , o fez verdadeiramente filósofo. Certamente, ao entender o cristianismo como a filosofia perfeita, a filosofia que leva à verdade, “não se entendia, então, como uma disciplina acadêmica puramente teórica, mas também, e antes de tudo, desde uma perspectiva prática, como a arte de viver e morrer retamente à qual só se pode chegar à luz da verdade”. Além disso, a pergunta pela verdade, pelo ‘logos’ das coisas, era a pergunta da filosofia e não das religiões pagãs da época.

A convicção básica da Antiguidade – e creio que também nossa – era que no mundo existe uma racionalidade sobre a irracionalidade – o mundo, a vida, cada um de nós mesmos não somos um absurdo – e, por isso, uma religião, qualquer que seja, mostrar-se-á adequada e verdadeira na medida em que se apresente como “vera religio”, isto é, como verdade universal e fundante. E dessa verdade se deduz também a natureza do homem e, portanto, seu dever moral. De fato, “o que a lei supõe realmente, as exigências que o Deus único coloca para a vida do homem e que a fé cristã traz à luz, coincide com o que o homem, todo homem, leva escrito no coração, de maneira que o considera bom quando aparece diante dele. Coincide com o que é ” bom por natureza” (Rom 2,14)”. Na base dos direitos humanos universais – nascidos em contexto cristão e desde o cristianismo – está precisamente a convicção de uma verdade comum – o homem – e um fundamento último: Deus. Essa foi sempre a pretensão do cristianismo, que nasce não tão somente da Revelação, mas também da racionalidade das coisas que existem.

E o debate continua se desenvolvendo, sempre em forma de diálogo e com oportunas reflexões de Paolo Flores d’Arcais em que apresenta suas considerações, sejam factuais ou filosóficos, para não aceitar as verdades e a pretensão do cristianismo. Por exemplo: sendo Deus o ‘Totalmente Outro’, pode alguém pretender realmente conhece- Lo? Não são todas as religiões aproximações igualmente válidas, já que não se pode nem sequer se aproximar por analogia àquilo que Deus é? Porque é necessário que haja “um” sentido para a vida? Não bastaria que cada um encontrasse um sentido particular para sua vida, ainda que seja absurdo para outro? Porque deve haver um único sentido?

Neste ponto do diálogo aparece um elemento crucial na exposição de Flores d’Arcais: se o cristianismo – diz ele – se visse a si mesmo como uma religião que é escândalo para a razão (ou seja, não racional), não haveria problemas, porque uma fé assim somente pediria à sociedade que a respeitasse e não tentaria se impor na sociedade, isto é, não seria missionária. O problema para Flores é se – ao contrário – a “fé católica pretende ser o sumário e o cume da razão, ser o sumário e o cume de tudo aquilo que é mais característico do homem”, ou em palavras do Concílio Vaticano II se “o mistério do homem somente se esclarece no mistério do Verbo Encarnado “(GS 22), então é essencial (ao cristianismo) seu interesse em propagar esta “Boa Nova” (já que o bem é difusivo por si próprio), mas, ao mesmo tempo, é inevitável o risco de que mais tarde caia na tentação de se impor. O Cardeal Ratzinger está, evidentemente, totalmente de acordo em que é preciso evitar o perigo de tentar se impor. A fé apela sempre à consciência e à razão, o ato de fé é necessariamente um ato que nasce da liberdade e de haver reconhecido a Deus que se revela e oferece a salvação, mas sempre é oferecimento livre.

Mas o motivo da missão e da evangelização, isto é, este elemento essencial da fé católica, “nasce do fato que nós, os crentes, cremos que temos algo que dizer ao mundo, a todos, que a questão de Deus não é uma questão privada…, pelo contrário, estamos convencidos de que o homem necessita conhecer a Deus , estamos convencidos de que em Jesus apareceu a verdade e a verdade não é propriedade privada de alguém, mas que tem de ser compartilhada, tem de ser conhecida”. Novamente o tema da verdade e da razão.

À continuação o tema se desenvolve em diversos matizes e se chega assim a um novo passo na reflexão de nosso atual Santo Padre. Havia dito que a fé católica é racional e que, como verdade, é necessário que todos a conheçam; passa, agora, a discutir com Flores a “novidade cristã de Deus”. A Bíblia nos apresenta um Deus que está além do Deus da filosofia , isto é, um Deus pessoal que é amor. O mundo vem da razão – logos – mas esta razão é pessoa, é amor – isto é o que o característico e próprio do cristianismo. Isso também não é absurdo, mas supera o alcance da razão por si mesma. Com esta afirmação – segundo o Cardeal Ratzinger quando ainda era um professor universitário – aparece o conceito de criação, tão próprio do cristianismo. O mundo é positivo, é bom e é fruto do amor. É, então, bom viver nele. Portanto, o mundo tem uma direção e medida porque é fruto do Criador que se expressa nele. E, se é fruto do amor, está transpassado pelo amor e a liberdade de acolher esse mesmo amor (cf. J. Ratzinger, Introdução ao Cristianismo). E de onde concluímos isso? Simplesmente de que Deus é como se manifesta. Deus não pode se manifestar como não é. Em termos filosóficos, estamos falando de ‘analogia entis’ e, mais em particular, da ‘analogia amoris’.

O que é a fé, então? Não é simplesmente um saber, mas uma forma de se situar frente ao mundo, frente a toda a realidade, é a orientação de toda a vida humana, o que é somente possível em virtude de um sentido que a sustente. E esse sentido “não se pode construir, somente se pode receber (ibid). Isso é a fé: aceitar o dom da revelação que fundamenta gratuitamente nossa vida, é o compreender a existência como resposta ao Logos que tudo sustenta. É aceitá-Lo e nEle confiar. E isso é totalmente contrário ao ‘irracional’. Efetivamente, é aproximar-se ao fundamento, ao sentido da vida e esse fundamento não pode ser – para o homem - outra coisa que não a verdade. Um sentido que não fosse verdade seria um sem-sentido. A fé, no fundo, nos faz compreender autenticamente o mundo, isto é, entendê-lo e fazê-lo próprio.

Mas esse compreender – e isso é essencial para o conceito de fé – é fundamentalmente um encontro com Deus-amor, é uma relação pessoal, é uma aceitação livre de Deus como Deus, é deixar a Deus ser Deus. A fé sustenta não somente que Deus é Logos, mas que, além disso, esse Logos, essa Razão, é liberdade, é amor criador e pessoa. E, portanto, “o supremo não é o mais geral, mas o particular; por isso a fé cristã é, antes de tudo, opção pelo homem como ser irredutível que aponta à infinitude” (ibid). Deus não só conhece, mas que também ama, é criador porque é amor. É um Deus para o qual nada é demasiadamente pequeno e, portanto, um Deus que entra em relação com todo ser humano de modo pessoal.

Neste ponto as posições se aproximam. Para Flores d’Arcais, o ser humano, ainda na opção “desde o desencanto” – que é a opção do pensamento ateu (em contraposição à opção ‘desde a fé’) (*) – deve igualmente escolher entre uma vida com a primazia do EU – solitário – ou do TU – do encontro que soma – para orientar toda sua vida, ainda que seja sua efêmera vida. E aí, no amor ao próximo, há a possibilidade do encontro entre crentes e ateus. E isso é o que permite, desde a Antiguidade, a convivência pacífica na mesma ‘polis’ entre os que pensam diferente.

O diálogo não pode seguir além de duas horas e meia que já dura, mesmo ainda tendo deixado muitos temas e perguntas sem tratamento e, mais ainda, havendo deixado muitas questões colocadas no meio do debate que suscitaram novas perguntas e dão incentivos para pensar e aprofundar nas próprias convicções. Com que gosto haveríamos seguido escutando – ou lendo – este diálogo elevado! De qualquer maneira, o livro ainda nos agrega dois textos complementares ao debate e em torno dos mesmos temas. Um, do Cardeal Ratzinger, intitulado “A pretensão da verdade colocada em dúvida”. E outro, de Paolo Flores d’Arcais, chamado “Ateísmo e verdade”. Como se pode apreciar a partir destes títulos, o tema Deus é, no fundo, um tema sobre a verdade e, finalmente, um tema religioso, mas, ao mesmo tempo, metafísico. E religioso porque metafísico.

Em síntese, um interessante livro sobre um tema extremamente atual que mostra, uma vez mais, o amor à verdade de nosso Santo Padre Bento XVI, sua confiança no diálogo com o outro que pensa diferente e, também, seu respeito pelas opiniões contrárias; assim como sua amplíssima cultura e profundidade para tratar temas atuais. Por outro lado, Paolo Flores d’Arcais deixa uma grata impressão de homem inteligente, aberto e que advoga, de maneira muito aguda, as características e perguntas do ateísmo contemporâneo. Um livro que ajuda a pensar e a pensar também a própria fé, porque “ todo o que crê, pensa; pensa crendo e crê pensando (…) . Porque se o que se crê não se pensa, a fé é nula” (Sto Agostinho, “De praedestinatione sanctorum 2, 5 em ‘Fides et Ratio’ 79).

(*) Para Flores d’Arcais a postura atéia considera que “tudo se joga aqui, em nossa existência, finita e incerta”, isto é, ser ateu consiste em ser o homem do desencanto e do finito. (N. T.)

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Campanha em favor do ateísmo?

Como já se não bastasse o ateísmo prático, da vida que se leva hoje em dia, foi lançada na Inglaterra uma campanha publicitária a favor do ateísmo. O lema, tirado de um famoso biólogo darwinista, Richard Dawkins, é este: “Deus provavelmente não existe, deixe de preocupar-se e goze a vida”. Esta legenda será afixada nos ônibus de Londres por iniciativa da jornalista Ariane Sherine, dizendo ela para fazer face às mensagens religiosas. A campanha está obtendo êxito em virtude dos organizadores terem conseguido arrecadar cinco vezes os fundos necessáros, isto é, 35 mil euros, para colocar os anúncios em 30 ônibus urbanos. O caráter do anúncio será, de início, meio de brincadeira, para divertir as pessoas, mas, no fundo (segundo os autores) há algo de sério, pois os ateus desejam afastar tudo o que lembra Deus da sociedade, até mesmo das cogitações das mentes das pessoas. Não pretendem parar por aí, é claro, e já pensam numa campanha mais audaciosa no futuro, talvez até ofensiva contra as religiões. O que se lamenta mais é a torpe e frouxa reação dos “cristãos” ingleses: alegam que é um direito de qualquer grupo manifestar sua posição ideológica e filosófica, criticando apenas o aspecto do gozo da vida, o qual, dizem, nada tem a ver com os ensinamentos cristãos. A tradicional Igreja Metodista Britânica também se manifestou de modo positivo, considerando interessante que autores como Dawkins se preocupem com Deus. Por aí se vê, quanta condescendência com o ateísmo, até mesmo por aqueles que deveriam combatê-lo! Nem sequer os argumentos favoráveis à existências de Deus (tão prolixos na teologia moderna) foram apresentados para calar a boca do biólogo, o qual tentou, inutilmente, se utilizar da ciência para provar a inexistência de Deus em seu livro “Deus, um delírio”. O evolucionismo, sim, é um delírio inconseqüente, especialmente aquele denominado “evolucionismo natural ou espontâneo”, hoje contestado por inúmeros cientistas, pois as teses ou teorias evolucionistas nunca conseguiram ser provadas.