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quinta-feira, 7 de maio de 2026

O SENTIDO CONTRARREVOLUCIONÁRIO DA OBRA DE DOIS SANTOS

 

                                             (Revista "Dr. Plínio" n. 313, abril de 2024)


 



 

Plinio Corrêa de Oliveira

 

 

A quem vê a História com olhos de Fé, e sabe discernir ao longo dela as intervenções da Providência em favor da Santa Igreja, afigura-se impressionante a coincidência e a harmonia entre as missões de dois grandes santos: S. Luís Maria Grignion de Montfort e Sta. Margarida Maria Alacoque.

 

 

Quando se formava o câncer revolucionário

 

Ambos viveram na França, em um momento de capital importância para a história do mundo. No mais profundo da sociedade francesa, os germes oriundos dos grandes movimentos ideológicos do século XVI continuavam a se desenvolver vigorosamente. Discretas ainda, as tendências para o racionalismo, o laicismo e o liberalismo se difundiam como uma corrente de água impetuosa e subterrânea, nos setores-chaves da sociedade. E o lento mas inexorável ocaso da aristocracia e das corporações de artesãos e mercadores, coincidindo com a ascensão sempre mais marcada da burguesia, preparava de longe a organização social que havia de nascer em 1789.

Em uma palavra, com longa antecedência, mas desde logo com muita força, com uma força que em breve se tornaria humanamente quase irresistível, a Revolução se vinha formando como um câncer, nas entranhas de um organismo entretanto ainda sadio.

Processos históricos como este devem ser contidos de preferência em seu nascedouro. Pois, se se permite seu desenvolvimento, tornam-se cada vez mais difíceis de jugular.

 

 

Intervenção da Providência para evitar a Revolução

 

Assim, importa ressaltar que, precisamente no momento em que uma ação preventiva parecia mais oportuna e mais eficaz, a Providência suscitou na França dois santos com uma evidente e especial missão nesse sentido. Missão que, primordial e diretamente, se dirigia à primogênita da Igreja, mas indiretamente beneficiaria o mundo inteiro. Pois, se de um lado a extinção in ovo dos germes revolucionários na França poderia ter evitado para todo o orbe as calamidades da Revolução, de outro lado um triunfo insigne da Religião, ocorrido no país líder da Europa no século XVIII, poderia ter tido na história religiosa e cultural da humanidade repercussões incalculáveis.

O reinado de Luís XIV se estendeu de 1643 a 1715. Santa Margarida Maria viveu de 1617 a 1690, e São Luís Maria Grignion de Montfort nasceu em 1673 e morreu em 1716. Como se vê, foram coetâneas do Rei-Sol tanto a ação da santa visitandina à qual o Coração de Jesus comunicou suas mensagens de amor, quanto a pregação do apóstolo angélico que ensinou a "Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem".

 

 

Sentido anti-revolucionário da mensagem de Paray-le-Monial

 

Os leitores de "Cristiandad" certamente já conhecem os pedidos feitos por Nosso Senhor, por meio de Santa Margarida Maria, a Luís XIV. Sabem que o Sagrado Coração predizia para a França grandes males, mas prometia obviá-los se seus pedidos fossem ouvidos. Sabem por fim que, não tendo Luís XIV atendido à mensagem - iludido quiçá por informações e manejos ainda hoje mal conhecidos - na prisão do Templo Luís XVI prometeu atendê-la. Mas era tarde, e a Revolução seguiu seu curso, para a desgraça de todos nós.

Destes fatos, o que nos importa reter, no momento, é que a partir do centro da França, de Paray-le-Monial, a Providência quis acender no reino cristianíssimo um braseiro de piedade e um foco ardente de regeneração moral, para evitar as calamidades que depois sobrevieram.

No mesmo sentido, entretanto, a Providência suscitava no oeste da França outro movimento.

 

 

Precursor e patriarca da Contra-Revolução

 

Como Santa Margarida Maria, São Luís Maria parece não ter tido qualquer pensamento político particular. Ele previu para sua pátria e para toda a Igreja grandes catástrofes. Mas seu olhar não se deteve senão nas esferas mais profundas em que essas catástrofes se vinham preparando. Seus escritos aludem a uma crise religiosa e moral de grande envergadura, da qual, como de uma caixa de Pandora, toda espécie de males iria sair. Para obviar esses males, ele pregava em seus inflamados sermões, ouvidos com profunda avidez pelos camponeses do piedoso Oeste, a doutrina espiritual que condensou em várias obras, das quais as principais foram o "Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem", a "Carta Circular aos Amigos de Cruz" e o "Amor da Sabedoria Eterna".

Bem analisados, estes três livros monumentais - e infelizmente pouco conhecidos - são a refutação de todas as doutrinas falsas de que nasceria o monstro da Revolução. Refutação por certo sui generis. As obras de São Luís Maria não visavam primordialmente persuadir os espíritos céticos, sensuais, naturalistas, de que estavam em erro. Sua principal preocupação estava em premunir contra esses erros os católicos fervorosos ou tíbios. E assim, toda a sua dialética consistia em inculcar o amor à Sabedoria, para premunir seus leitores contra o laicismo ou a tibieza; em inculcar o amor à Cruz, para premunir contra a sensualidade e o amor delirante dos prazeres os católicos de uma era essencialmente gozadora e mundana; e em inculcar a devoção a Nossa Senhora por meio da "santa escravidão", para premunir leitores expostos a todo momento às insídias desse verdadeiro calvinismo larvado, que foi o jansenismo.

Em todos os seus livros a dialética é a mesma. Ele mostra com argumentos tirados da Escritura, da Tradição, da História da Igreja e da Hagiografia, que um católico não pode pactuar com o espírito do século, e que toda posição de meio termo entre esse espírito e a vida de piedade não é senão uma perigosa ilusão dos sentidos ou do demônio.

 

 

Nossa Senhora na pregação montfortiana

 

No conjunto deste sistema, é preciso frisar que a devoção a Nossa Senhora, considerada especialmente como Rainha do Universo, Mãe de Deus e dos homens e Medianeira de todas as graças, tem um papel absolutamente central. É por esta devoção que o fiel pode alcançar de Deus a Sabedoria e o amor à Cruz. Pois Maria Santíssima é o meio pelo qual Jesus Cristo veio a nós, e pelo qual podemos ir a Ele. Quanto mais unidos a Maria, tanto mais estaremos unidos a Jesus. É nas almas marianas - intensamente, ardentemente, filialmente marianas - que o Espírito Santo forma Jesus. Sem Ela, os maiores esforços para a santificação redundam em desastres. Com Ela, o que parece inacessível à nossa fraqueza se torna acessível, as vias como que se franqueiam, as portas se abrem, e nossas forças, hauridas no canal das graças, se centuplicam. O importante, pois, é ser verdadeiro devoto de Maria.

Mas esta devoção tem contrafações. O Santo mostra quais são elas e nos premune contra os minimalistas, sobretudo os que se contentam com uma devoção vã, feita de meras fórmulas e atos de piedade externos. A devoção perfeita, ele a ensina: consiste em sermos escravos de Maria, dando-Lhe todos os nossos bens espirituais e temporais, e fazendo tudo por Ela, com Ela e nEla.

 

 

Frutos contra-revolucionários da pregação montfortiana

 

São Luís Maria foi um grande perseguido. Prelados, Príncipes da Igreja, o próprio governo, o combateram. Apenas o Papa e alguns poucos Bispos franceses lhe deram apoio. Na Bretanha, no Poitou, no Aunis, sua pregação se exerceu livremente, e perdurou através das gerações, conservadas profundamente fiéis. Quando, durante a Revolução, a civilização cristã precisou de heróis para a defenderem em terras da França, estes surgiram mais ou menos em toda a extensão do reino cristianíssimo. Mas em certa região o povo inteiro pegou em armas, numa reação maciça, compacta, impetuosa e indomável. Os chouans, cuja memória nenhum católico pode evocar sem a mais profunda e religiosa emoção, eram os netos daqueles mesmos camponeses que São Luís Maria formara na devoção a Nossa Senhora. Onde São Luís Maria pregara e fora ouvido, não houve a Revolução ímpia e sacrílega; houve, pelo contrário, cruzada e Contra-revolução.

 

 

Atualidade de Santa Margarida Maria e São Luís de Montfort

 

Pouco importa saber até que ponto os movimentos de Paray-le-Monial e da Vandéia no século XVII se conheceram. A importância de um e de outro não ficou circunscrita àquela época. Filhos da Igreja, neste trágico século XX, podemos e devemos ver ambos os movimentos numa só perspectiva, e, assim unidos, fazer deles nosso tesouro espiritual.

O nexo essencial que os liga está hoje em dia posto em tal luz, na consciência de qualquer fiel, que nem sequer é necessário insistir sobre ele. A devoção ao Coração de Jesus é a manifestação mais rica, mais extrema, mais delicada, do amor que nos tem nosso Redentor. A via para chegar ao Coração de Jesus é a Medianeira de todas as graças. E assim se vai ao Coração de Jesus pelo Coração de Maria. Esta última devoção, que Santo Antonio Claret pôs em tanta luz, São Luís Grignion de Montfort, ao que parece, não a conheceu. Mas é o ponto de junção entre a mensagem de Paray e a pregação do apóstolo marial da Vandéia. Ponto de junção que, diga-se de passagem, teve tanto realce nas aparições de Fátima.

Mas ao lado desses grandes laços fundamentais há outros. Nós os compreenderemos bem, num relance de olhos, se considerarmos o que poderiam ser hoje a França, a civilização cristã, o mundo, se os movimentos de Paray e da Vandéia tivessem sido vitoriosos nos séculos XVII e XVIII. Em lugar da Revolução, com suas execráveis seqüelas que nos arrastaram até à voragem atual, teríamos o reino da justiça e da paz. Opus Justitiae pax, lê-se no brasão de Pio XII. Sim, a paz de Cristo no Reino de Cristo, da qual nos distanciamos cada vez mais.

E assim fica posta em evidência a altíssima oportunidade da mensagem de Paray e da obra de São Luís Maria. Elas nos ensinam que o fundo dos problemas que geraram a crise atual é religioso e moral. E nos indicam os meios sobrenaturais pelos quais a Revolução universal de nossos dias, filha insolente e depravada da Revolução Francesa, pode ser jugulada. É só do bom uso desses meios que podem nascer, no campo cultural, social ou político, as reações que preparam, na Terra, a Realeza de Cristo pela Realeza de Maria.

  

(Publicado pela revista "Cristiandad", Barcelona, Novembro de 1958)

 

 


quinta-feira, 24 de abril de 2025

DOUTOR, PROFETA E APÓSTOLO NA CRISE CONTEMPORÂNEA

 



 

Plinio Corrêa de Oliveira

 

Se alguém me pedisse para indicar um apóstolo-tipo para nossos tempos, eu responderia sem vacilação, mencionando o nome de um missionário... falecido há precisamente 239 anos! E, dando tão desconcertante resposta, teria a sensação de estar fazendo algo de perfeitamente natural. Pois certos homens, colocados na linha do profético, estão acima das circunstâncias temporais.

Basta exemplificar com Elias. Dentro de cem anos, os que hoje vivemos teremos sido superados pela marcha do tempo como estão hoje os homens de há cem anos atrás. Seremos atrasados, anacrônicos, mofados. Daí a duzentos, a trezentos anos, estaremos mais ou menos tão incrustados no reino da morte, das sombras e da História, quando as múmias egípcias que aguardam nas salas do British Museum o dia do Juízo Final. E o que dizer de nossa "situação" daqui a mil anos? Pois alguém há, vivo, vivíssimo, e que será a última palavra do apóstolo moderno, não hoje, mas no fim do mundo quando nós estivermos imersos na mais total anacronicidade. Alguém que viu dias muito anteriores aos de D. Pedro II, Pio IX e Napoleão III. Anteriores até a S. Luiz, a Carlos Magno, a Átila, o que direi, a Augusto e a Jesus Cristo. É o Profeta Elias! Apóstolo moderno, sim, e moderníssimo, não porque esteja escrito dele que participará do espírito e das tendências dos homens que então viverem, mas porque será mandado por Deus como o varão idealmente adequado a combater de frente a corrupção do século em que voltará a esta terra. Elias será moderno, não por ter tomado o espírito e a forma dos derradeiros anos da História - não vos conformeis com este século, adverte S. Paulo - mas porque será adaptado e adequado ao tempo. Adaptado, no sentido de que será "apto" a fazer-lhe bem. Adequado, sim, no sentido de que disporá dos meios adequados a corrigi-lo. E por isto mesmo moderníssimo. Pois ser moderno não é necessariamente parecer-se com os tempos, e muitas vezes pode até ser o contrário. Mas, para um apóstolo, ser moderno é estar em condições de fazer o bem no século em que vive...

Sem equiparar a Elias, Profeta incumbido de uma missão oficial, S. Luiz Maria Grignion de Montfort, em cujos escritos há luzes proféticas impressionantes, mas de um valor meramente privado, certa analogia existe entre um e outro. E é nos termos desta analogia que o Santo francês é um modelo de apóstolo para nossos dias, e os séculos vindouros.

*   *   *

São Luiz Maria Grignion de Montfort nasceu em Montfort-la-Canne, França, em 1678. De família pobre, faltavam-lhe recursos para custear os estudos necessários ao Sacerdócio, ao qual desde cedo aspirava. Dirigiu-se a Paris, onde exerceu o ofício de velar cadáveres na Paróquia de S. Sulpício em certas noites da semana, para pagar sua pensão no Seminário. Depois de um curso brilhante, foi ordenado Sacerdote em 1700.

Dado o vulto das dificuldades que se depararam a seu apostolado na França, e movido pelo desejo de anunciar o Evangelho aos gentios, S. Luiz Maria dirigiu-se a Roma para pedir uma diretriz ao Papa Clemente XI. Este determinou-lhe que retornasse à sua pátria, a fim de se dedicar a pregar à população católica necessitada de catequese e edificação. Entregando-se inteiramente a essa atividade durante os dez anos que ainda viveu, o Santo insistia particularmente sobre a renúncia à sensualidade e ao mundanismo, o amor à mortificação e à Cruz, e a devoção filial a Nossa Senhora. Como terceiro dominicano que era, difundiu largamente o Rosário.

Vítima dos ataques enfurecidos dos calvinistas e dos jansenistas, foi objeto de severas medidas da parte de um número não pequeno de Bispos franceses, que não o queriam por missionário em suas Dioceses.

A morte lhe veio quando ele contava apenas 43 anos de idade.

Fundou duas Congregações Religiosas a Companhia de Maria e as Filhas da Sabedoria.

Entre seus escritos, assinala-se o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, uma das mais altas obras da mariologia em todos os tempos, e talvez a mais alta delas. Este livro admirável foi deixado por ele em manuscrito, e desapareceu misteriosamente depois de sua morte, reaparecendo de maneira providencial em nossos tempos.

Leão XIII o beatificou em 1888. Pio XII, gloriosamente reinante, o inscreveu no catálogo dos Santos.

Esta é uma visão a "vol d’oiseau" da vida deste grande Santo.

Quanta riqueza se nos depara num exame mais atento dos principais aspectos dessa vida.

*   *   *

A Renascença desencadeou na Europa uma sede de diversões, de opulência, de prazeres sensuais, que impeliu fortemente os espíritos a subestimar as coisas do Céu, para se ocupar muito mais com as da terra. Daí, nos séculos XV e XVI, um declínio sensível da influência da Religião na mentalidade dos indivíduos e das sociedades. A esse indiferentismo nascente, somou-se não raras vezes uma antipatia contra a Igreja, discreta e apenas perceptível em uns, mais pronunciada em outros, e levada em alguns ao extremo de uma hostilidade militante. Tal estado de espírito concorreu sensivelmente para a eclosão do protestantismo, e para as manifestações de racionalismo e cepticismo tão freqüentes entre os humanistas. Do indiferentismo nascia naturalmente o livre pensamento.

Mas estes fermentos não atacaram desde logo toda a sociedade. De início, dominaram apenas certos elementos de alta influência na vida intelectual, na nobreza e no Clero, com o apoio de um certo número de soberanos. Aos poucos, entretanto, foram alcançando os tecidos mais profundos do corpo social. Ao tempo de S. Luiz Grignion, pode-se afirmar que sua influência se notava em todos os campos: a política se laicizara, a antiga sociedade orgânica e cristã fora semi-deglutida pelo absolutismo do Estado neo-cesáreo e neo-pagão, minguara a influência da Religião na vida de todas as classes sociais, principalmente nas elites, uma tendência geral para costumes mais frouxos, mais "livres", mais fáceis ganhava todos os ambientes, a sede de prazer e de lucro crescia, o mundanismo pompeava até em certo número de casas religiosas, o mercantilismo estendia seus tentáculos para dominar toda a existência. Em linhas gerais, o quadro era bastante parecido com o de nossos dias.

 

DIFERENÇAS CONSIDERÁVEIS

Entretanto, se a analogia é profunda, evidente, indiscutível, seria impossível passar-se daí para uma equiparação absoluta. O corpo no qual os fermentos agiam nos séculos XV, XVI e mesmo XVII, era ainda o corpo robusto da velha Cristandade gerada pela Idade Média. Um sem número de instituições, de hábitos mentais, de tradições, de usos, de leis refletia ainda o espírito da sociedade orgânica e cristã de outrora. Se a monarquia absoluta pressagiava o socialismo hodierno, ela se personificava contudo nos Reis pela graça de Deus, que ainda se consideravam Pais de seus povos no bom e velho estilo de S. Luiz IX. Se a vida internacional fora secularizada com os tratados de Westphalia, ainda existiam tais ou quais vestígios da Cristandade, uma família de Reis e povos cristãos dotados da consciência de formar um todo à parte, face ao mundo gentílico. Se a sociedade era mundana, as disputas religiosas - como as que se travaram entre Jesuítas e jansenistas - encontravam nela uma ressonância que jamais teriam em nossos dias. Se os costumes eram frouxos na corte e nas cidades, havia a isto numerosas e retumbantes exceções. Nos degraus do trono, no próprio trono o escândalo de um Luiz XIV, por exemplo, era de algum modo reparado por sua emenda e sua vida modelar depois do casamento com Mme. de Maintenon e a queda de Mlle. de La Vallière o era por sua penitência exemplar no Carmelo. Mme. de Montespan por sua vez morria cristãmente, o Duque de Borgonha, neto de Luiz XIV, se destacava por sua piedade, e a família real ainda teria no século XVIII ao lado da vergonha da vida de Luiz XV, a ilustração das virtudes pouco comuns do Delfim Luiz, da Carmelita Madame Louise de France, e da Princesa Clotilde de Sabóia, ambas filhas do Rei, e falecidas em odor de santidade. Assim, por mais rigorosas que sejam as analogias entre o século XVI e o século XX, haveria manifesto exagero em afirmar que a vida política e social já se encontrava então inteira ou quase inteiramente laicizada e paganizada.

Entretanto, na história dos Tempos Modernos, isto é, nos séculos XVI, XVII e XVIII, é fora de dúvida que os fermentos nascidos do neo-paganismo renascentista se revelaram cada vez mais vigorosos, e isto trouxe a imensa explosão de 1789.

 

TEMPOS PRECURSORES DOS NOSSOS

Considerando-se estes fatos do ponto de vista do Santo Padre Leão XIII na Encíclica "Parvenu à la 25.ème Année", a Revolução Francesa foi uma conseqüência do protestantismo. E por sua vez produziu o comunismo. Ao igualitarismo e liberalismo religioso do frade apóstata de Witemberg, sucedeu o igualitarismo e liberalismo político-social dos sonhadores, dos conspiradores e dos facínoras de 1789. E a este segue-se o igualitarismo totalitário, social e econômico, de Marx.

A revolução protestante foi uma forma ancestral da Revolução Francesa, como esta o foi do comunismo hodierno. E cada uma destas formas ancestrais já tinha em si todas as toxinas da que se lhe seguiu. São três moléstias, sucessivamente mais graves, provocadas pelo mesmo vírus. Ou são três fases sucessivamente mais graves da mesma moléstia. Ou três etapas de uma omnímoda e universal Revolução.

 

UM PROFETA APARECE NO CURSO DA REVOLUÇÃO

Ora, S. Luiz Grignion de Montfort foi, neste processus histórico, um verdadeiro profeta. No momento em que tantos espíritos ilustres se sentiam inteiramente tranqüilos quanto à situação da Igreja, embalados num otimismo displicente, tíbio, sistemático, ele sondou com olhar de águia as profundezas do presente, e predisse uma crise religiosa futura, em termos que fazem pensar nas desgraças que a Igreja sofreu durante a Revolução, isto é, a implantação do laicismo de Estado, o estabelecimento da "Igreja Constitucional", a proscrição do culto católico, a adoração da deusa razão, o cativeiro e morte do Papa Pio VI, os massacres ou deportações de Sacerdotes e Religiosas, a introdução do divórcio, o confisco dos bens eclesiásticos, etc.. Mais ainda. Para alento e alegria nossa, o Santo profetizou uma grande e universal vitória da Religião Católica em dias vindouros.

 

MARTELO DA REVOLUÇÃO

Mas além de profeta, S. Luiz Grignion de Montfort foi missionário e guerreiro. Missionário, causticou ele implacavelmente o espírito neo-pagão, fazendo quanto podia para afastar o povo fiel do mundanismo e de tudo quanto constituía o mau espírito nascido da Renascença. A região evangelizada por ele foi tão profundamente imunizada contra o vírus da Revolução, que se levantou de armas na mão contra o governo republicano e anti-católico de Paris. Foi a Chouannerie. Se S. Luiz Grignion tivesse estendido sua ação missionária a toda a França, provavelmente teria sido outra a sua História, e a História do mundo.

Ora, porque não a evangelizou inteira?

Orador sacro eficientíssimo, pregava a palavra de Deus com um desassombro extraordinário. Isto lhe valeu o ódio, não só dos calvinistas, mas de uma das seitas mais detestáveis e mais influentes que até hoje tenham existido infiltradas na Igreja, isto é, os jansenistas. Seria longo enunciar as múltiplas e complexas razões por que o jansenismo, com suas aparências de austeridade embora, é legitimo produto da crise religiosa do século XVI. O certo é que esta seita, dispondo de deplorável influência sobre muitos fiéis, Sacerdotes e até Bispos, Arcebispos, Cardeais, seguia uma linha de pensamento e de ação nociva a toda restauração da vida religiosa, afastava as almas dos Sacramentos, e combatia vivamente a devoção a Nossa Senhora.

S. Luiz Grignion de Montfort, pelo contrário, tinha à SSma. Virgem a devoção mais ardente, e até compôs em louvor dela o "Tratado da Verdadeira Devoção", que constitui hoje o fundamento mais forte de toda a piedade mariana profunda. De outro lado, por suas missões, aproximava o povo dos Sacramentos, afervorava-o no Rosário, em uma palavra fazia obra diametralmente oposta às intenções dos jansenistas.

Isto lhe trouxe, nos próprios meios católicos, uma perseguição aberta, que lhe valeu as maiores humilhações. Causa pasmo que, enquanto tantos Prelados, clérigos, e leigos, em nome da caridade se mostravam irritados ou apreensivos com a justa severidade da Santa Sé em relação aos jansenistas, não tivessem penalidades, atos de hostilidade, nem humilhações que bastassem contra S. Luiz Maria. Pode-se dizer que foi um dos Santos mais desprezados e humilhados que houve nestes vinte séculos de vida da Igreja. Por fim, só em duas Dioceses lhe foi permitido exercer seu ministério. Mas, novo Inácio de Loyola, sentindo com serenidade o ímpeto contra sua pessoa, dos vagalhões do ódio anti-católico disfarçado com ares de piedade, não se perturbou. E, humilhado até o fim, até o fim lutou.

Ora, este Santo extraordinário deixou uma prece admirável, contendo ensinamentos e luzes especiais para nossa época. É a que compôs pedindo Missionários para a sua Congregação. Neste mês de maio nos é útil lembrar a figura angélica deste sumo paladino da Virgem. No mês de junho, consagrado ao Coração de Jesus, pensamos expor e comentar sua admirável oração.

Nesta oração, como esperamos mostrar no próximo número, vê-se que para S. Luiz Maria seus tempos eram precursores de uma imensa crise que se estende até hoje, e irá até a instauração do Reino de Maria. E ele próprio se nos afigura como o modelo, a prefigura dos apóstolos suscitados para lutar nessa crise, e vencer a batalha por Maria Santíssima. É esta a sublime e profunda atualidade de S. Luiz Maria Grignion de Montfort para os apóstolos de nossos dias.

Tema de meditação fecundo neste mês em que a Santa Igreja celebrará pela primeira vez - no dia 31 - a festa tão grata às almas forte e profundamente piedosas, da Realeza de Maria.

 

(“Catolicismo” Nº 53 - Maio de 1955)

 

domingo, 16 de outubro de 2022

O SENTIDO CONTRA-REVOLUCIONÁRIO DA OBRA DE DOIS SANTOS

 




Plinio Corrêa de Oliveira

 A quem vê a História com olhos de Fé, e sabe discernir ao longo dela as intervenções da Providência em favor da Santa Igreja, afigura-se impressionante a coincidência e a harmonia entre as missões de dois grandes santos: S. Luís Maria Grignion de Montfort e Sta. Margarida Maria Alacoque.

 Quando se formava o câncer revolucionário

Ambos viveram na França, em um momento de capital importância para a história do mundo. No mais profundo da sociedade francesa, os germes oriundos dos grandes movimentos ideológicos do século XVI continuavam a se desenvolver vigorosamente. Discretas ainda, as tendências para o racionalismo, o laicismo e o liberalismo se difundiam como uma corrente de água impetuosa e subterrânea, nos setores-chaves da sociedade. E o lento mas inexorável ocaso da aristocracia e das corporações de artesãos e mercadores, coincidindo com a ascensão sempre mais marcada da burguesia, preparava de longe a organização social que havia de nascer em 1789.

Em uma palavra, com longa antecedência, mas desde logo com muita força, com uma força que em breve se tornaria humanamente quase irresistível, a Revolução se vinha formando como um câncer, nas entranhas de um organismo entretanto ainda sadio.

Processos históricos como este devem ser contidos de preferência em seu nascedouro. Pois, se se permite seu desenvolvimento, tornam-se cada vez mais difíceis de jugular.

Intervenção da Providência para evitar a Revolução

Assim, importa ressaltar que, precisamente no momento em que uma ação preventiva parecia mais oportuna e mais eficaz, a Providência suscitou na França dois santos com uma evidente e especial missão nesse sentido. Missão que, primordial e diretamente, se dirigia à primogênita da Igreja, mas indiretamente beneficiaria o mundo inteiro. Pois, se de um lado a extinção in ovo dos germes revolucionários na França poderia ter evitado para todo o orbe as calamidades da Revolução, de outro lado um triunfo insigne da Religião, ocorrido no país líder da Europa no século XVIII, poderia ter tido na história religiosa e cultural da humanidade repercussões incalculáveis.

O reinado de Luís XIV se estendeu de 1643 a 1715. Santa Margarida Maria viveu de 1617 a 1690, e São Luís Maria Grignion de Montfort nasceu em 1673 e morreu em 1716. Como se vê, foram coetâneas do Rei-Sol tanto a ação da santa visitandina à qual o Coração de Jesus comunicou suas mensagens de amor, quanto a pregação do apóstolo angélico que ensinou a "Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem".


Sentido anti-revolucionário da mensagem de Paray-le-Monial

Os leitores de "Cristiandad" certamente já conhecem os pedidos feitos por Nosso Senhor, por meio de Santa Margarida Maria, a Luís XIV. Sabem que o Sagrado Coração predizia para a França grandes males, mas prometia obviá-los se seus pedidos fossem ouvidos. Sabem por fim que, não tendo Luís XIV atendido à mensagem - iludido quiçá por informações e manejos ainda hoje mal conhecidos - na prisão do Templo Luís XVI prometeu atendê-la. Mas era tarde, e a Revolução seguiu seu curso, para a desgraça de todos nós.

Destes fatos, o que nos importa reter, no momento, é que a partir do centro da França, de Paray-le-Monial, a Providência quis acender no reino cristianíssimo um braseiro de piedade e um foco ardente de regeneração moral, para evitar as calamidades que depois sobrevieram.

No mesmo sentido, entretanto, a Providência suscitava no oeste da França outro movimento.

Precursor e patriarca da Contra-Revolução

Como Santa Margarida Maria, São Luís Maria parece não ter tido qualquer pensamento político particular. Ele previu para sua pátria e para toda a Igreja grandes catástrofes. Mas seu olhar não se deteve senão nas esferas mais profundas em que essas catástrofes se vinham preparando. Seus escritos aludem a uma crise religiosa e moral de grande envergadura, da qual, como de uma caixa de Pandora, toda espécie de males iria sair. Para obviar esses males, ele pregava em seus inflamados sermões, ouvidos com profunda avidez pelos camponeses do piedoso Oeste, a doutrina espiritual que condensou em várias obras, das quais as principais foram o "Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem", a "Carta Circular aos Amigos de Cruz" e o "Amor da Sabedoria Eterna".

Bem analisados, estes três livros monumentais - e infelizmente pouco conhecidos - são a refutação de todas as doutrinas falsas de que nasceria o monstro da Revolução. Refutação por certo sui generis. As obras de São Luís Maria não visavam primordialmente persuadir os espíritos céticos, sensuais, naturalistas, de que estavam em erro. Sua principal preocupação estava em premunir contra esses erros os católicos fervorosos ou tíbios. E assim, toda a sua dialética consistia em inculcar o amor à Sabedoria, para premunir seus leitores contra o laicismo ou a tibieza; em inculcar o amor à Cruz, para premunir contra a sensualidade e o amor delirante dos prazeres os católicos de uma era essencialmente gozadora e mundana; e em inculcar a devoção a Nossa Senhora por meio da "santa escravidão", para premunir leitores expostos a todo momento às insídias desse verdadeiro calvinismo larvado, que foi o jansenismo.

Em todos os seus livros a dialética é a mesma. Ele mostra com argumentos tirados da Escritura, da Tradição, da História da Igreja e da Hagiografia, que um católico não pode pactuar com o espírito do século, e que toda posição de meio termo entre esse espírito e a vida de piedade não é senão uma perigosa ilusão dos sentidos ou do demônio.

Nossa Senhora na pregação montfortiana

No conjunto deste sistema, é preciso frisar que a devoção a Nossa Senhora, considerada especialmente como Rainha do Universo, Mãe de Deus e dos homens e Medianeira de todas as graças, tem um papel absolutamente central. É por esta devoção que o fiel pode alcançar de Deus a Sabedoria e o amor à Cruz. Pois Maria Santíssima é o meio pelo qual Jesus Cristo veio a nós, e pelo qual podemos ir a Ele. Quanto mais unidos a Maria, tanto mais estaremos unidos a Jesus. É nas almas marianas - intensamente, ardentemente, filialmente marianas - que o Espírito Santo forma Jesus. Sem Ela, os maiores esforços para a santificação redundam em desastres. Com Ela, o que parece inacessível à nossa fraqueza se torna acessível, as vias como que se franqueiam, as portas se abrem, e nossas forças, hauridas no canal das graças, se centuplicam. O importante, pois, é ser verdadeiro devoto de Maria.

Mas esta devoção tem contrafações. O Santo mostra quais são elas e nos premune contra os minimalistas, sobretudo os que se contentam com uma devoção vã, feita de meras fórmulas e atos de piedade externos. A devoção perfeita, ele a ensina: consiste em sermos escravos de Maria, dando-Lhe todos os nossos bens espirituais e temporais, e fazendo tudo por Ela, com Ela e n'Ela.

 

Frutos contra-revolucionários da pregação montfortiana

São Luís Maria foi um grande perseguido. Prelados, Príncipes da Igreja, o próprio governo, o combateram. Apenas o Papa e alguns poucos Bispos franceses lhe deram apoio. Na Bretanha, no Poitou, no Aunis, sua pregação se exerceu livremente, e perdurou através das gerações, conservadas profundamente fiéis. Quando, durante a Revolução, a civilização cristã precisou de heróis para a defenderem em terras da França, estes surgiram mais ou menos em toda a extensão do reino cristianíssimo. Mas em certa região o povo inteiro pegou em armas, numa reação maciça, compacta, impetuosa e indomável. Os chouans, cuja memória nenhum católico pode evocar sem a mais profunda e religiosa emoção, eram os netos daqueles mesmos camponeses que São Luís Maria formara na devoção a Nossa Senhora. Onde São Luís Maria pregara e fora ouvido, não houve a Revolução ímpia e sacrílega; houve, pelo contrário, cruzada e Contra-revolução.


Atualidade de Santa Margarida Maria e São Luís de Montfort

Pouco importa saber até que ponto os movimentos de Paray-le-Monial e da Vandéia no século XVII se conheceram. A importância de um e de outro não ficou circunscrita àquela época. Filhos da Igreja, neste trágico século XX, podemos e devemos ver ambos os movimentos numa só perspectiva, e, assim unidos, fazer deles nosso tesouro espiritual.

O nexo essencial que os liga está hoje em dia posto em tal luz, na consciência de qualquer fiel, que nem sequer é necessário insistir sobre ele. A devoção ao Coração de Jesus é a manifestação mais rica, mais extrema, mais delicada, do amor que nos tem nosso Redentor. A via para chegar ao Coração de Jesus é a Medianeira de todas as graças. E assim se vai ao Coração de Jesus pelo Coração de Maria. Esta última devoção, que Santo Antonio Claret pôs em tanta luz, São Luís Grignion de Montfort, ao que parece, não a conheceu. Mas é o ponto de junção entre a mensagem de Paray e a pregação do apóstolo marial da Vandéia. Ponto de junção que, diga-se de passagem, teve tanto realce nas aparições de Fátima.

Mas ao lado desses grandes laços fundamentais há outros. Nós os compreenderemos bem, num relance de olhos, se considerarmos o que poderiam ser hoje a França, a civilização cristã, o mundo, se os movimentos de Paray e da Vandéia tivessem sido vitoriosos nos séculos XVII e XVIII. Em lugar da Revolução, com suas execráveis seqüelas que nos arrastaram até à voragem atual, teríamos o reino da justiça e da paz. Opus Justitiae pax, lê-se no brasão de Pio XII. Sim, a paz de Cristo no Reino de Cristo, da qual nos distanciamos cada vez mais.

E assim fica posta em evidência a altíssima oportunidade da mensagem de Paray e da obra de São Luís Maria. Elas nos ensinam que o fundo dos problemas que geraram a crise atual é religioso e moral. E nos indicam os meios sobrenaturais pelos quais a Revolução universal de nossos dias, filha insolente e depravada da Revolução Francesa, pode ser jugulada. É só do bom uso desses meios que podem nascer, no campo cultural, social ou político, as reações que preparam, na Terra, a Realeza de Cristo pela Realeza de Maria.


(Cristiandad, Barcelona, Novembro de 1958)

(Cristiandad se honra con la colaboración de un prestigioso líder del catolicismo hispanoamericano, el profesor brasileño Plinio Corrêa de Oliveira. Hemos preferido publicar su trabajo en el idioma original, por tratarse de una lengua hermana. Con ello queremos rendir homenaje a la noble nación brasileña, a la vez que expresar nuestra identificación de sentimientos con la revista "Catolicismo", hidalgo pregonero de nuestros mismos ideales en tierras lusoamericanas.)

 


sábado, 16 de outubro de 2021

O SENTIDO CONTRA-REVOLUCIONÁRIO DA OBRA DE DOIS SANTOS

 




Plinio Corrêa de Oliveira

(Cristiandad se honra con la colaboración de un prestigioso líder del catolicismo hispanoamericano, el profesor brasileño Plinio Corrêa de Oliveira.

Hemos preferido publicar su trabajo en el idioma original, por tratarse de una lengua hermana. Con ello queremos rendir homenaje a la noble nación brasileña, a la vez que expresar nuestra identificación de sentimientos con la revista "Catolicismo", hidalgo pregonero de nuestros mismos ideales en tierras lusoamericanas.)

 A quem vê a História com olhos de Fé, e sabe discernir ao longo dela as intervenções da Providência em favor da Santa Igreja, afigura-se impressionante a coincidência e a harmonia entre as missões de dois grandes santos: S. Luís Maria Grignion de Montfort e Sta. Margarida Maria Alacoque.

Quando se formava o câncer revolucionário

Ambos viveram na França, em um momento de capital importância para a história do mundo. No mais profundo da sociedade francesa, os germes oriundos dos grandes movimentos ideológicos do século XVI continuavam a se desenvolver vigorosamente. Discretas ainda, as tendências para o racionalismo, o laicismo e o liberalismo se difundiam como uma corrente de água impetuosa e subterrânea, nos setores-chaves da sociedade. E o lento mas inexorável ocaso da aristocracia e das corporações de artesãos e mercadores, coincidindo com a ascensão sempre mais marcada da burguesia, preparava de longe a organização social que havia de nascer em 1789.

Em uma palavra, com longa antecedência, mas desde logo com muita força, com uma força que em breve se tornaria humanamente quase irresistível, a Revolução se vinha formando como um câncer, nas entranhas de um organismo entretanto ainda sadio.

Processos históricos como este devem ser contidos de preferência em seu nascedouro. Pois, se se permite seu desenvolvimento, tornam-se cada vez mais difíceis de jugular.

Intervenção da Providência para evitar a Revolução

Assim, importa ressaltar que, precisamente no momento em que uma ação preventiva parecia mais oportuna e mais eficaz, a Providência suscitou na França dois santos com uma evidente e especial missão nesse sentido. Missão que, primordial e diretamente, se dirigia à primogênita da Igreja, mas indiretamente beneficiaria o mundo inteiro. Pois, se de um lado a extinção in ovo dos germes revolucionários na França poderia ter evitado para todo o orbe as calamidades da Revolução, de outro lado um triunfo insigne da Religião, ocorrido no país líder da Europa no século XVIII, poderia ter tido na história religiosa e cultural da humanidade repercussões incalculáveis.

O reinado de Luís XIV se estendeu de 1643 a 1715. Santa Margarida Maria viveu de 1617 a 1690, e São Luís Maria Grignion de Montfort nasceu em 1673 e morreu em 1716. Como se vê, foram coetâneas do Rei-Sol tanto a ação da santa visitandina à qual o Coração de Jesus comunicou suas mensagens de amor, quanto a pregação do apóstolo angélico que ensinou a "Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem".


Sentido anti-revolucionário da mensagem de Paray-le-Monial

Os leitores de "Cristiandad" certamente já conhecem os pedidos feitos por Nosso Senhor, por meio de Santa Margarida Maria, a Luís XIV. Sabem que o Sagrado Coração predizia para a França grandes males, mas prometia obviá-los se seus pedidos fossem ouvidos. Sabem por fim que, não tendo Luís XIV atendido à mensagem - iludido quiçá por informações e manejos ainda hoje mal conhecidos - na prisão do Templo Luís XVI prometeu atendê-la. Mas era tarde, e a Revolução seguiu seu curso, para a desgraça de todos nós.

Destes fatos, o que nos importa reter, no momento, é que a partir do centro da França, de Paray-le-Monial, a Providência quis acender no reino cristianíssimo um braseiro de piedade e um foco ardente de regeneração moral, para evitar as calamidades que depois sobrevieram.

No mesmo sentido, entretanto, a Providência suscitava no oeste da França outro movimento.

 Precursor e patriarca da Contra-Revolução

Como Santa Margarida Maria, São Luís Maria parece não ter tido qualquer pensamento político particular. Ele previu para sua pátria e para toda a Igreja grandes catástrofes. Mas seu olhar não se deteve senão nas esferas mais profundas em que essas catástrofes se vinham preparando. Seus escritos aludem a uma crise religiosa e moral de grande envergadura, da qual, como de uma caixa de Pandora, toda espécie de males iria sair. Para obviar esses males, ele pregava em seus inflamados sermões, ouvidos com profunda avidez pelos camponeses do piedoso Oeste, a doutrina espiritual que condensou em várias obras, das quais as principais foram o "Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem", a "Carta Circular aos Amigos de Cruz" e o "Amor da Sabedoria Eterna".

Bem analisados, estes três livros monumentais - e infelizmente pouco conhecidos - são a refutação de todas as doutrinas falsas de que nasceria o monstro da Revolução. Refutação por certo sui generis. As obras de São Luís Maria não visavam primordialmente persuadir os espíritos céticos, sensuais, naturalistas, de que estavam em erro. Sua principal preocupação estava em premunir contra esses erros os católicos fervorosos ou tíbios. E assim, toda a sua dialética consistia em inculcar o amor à Sabedoria, para premunir seus leitores contra o laicismo ou a tibieza; em inculcar o amor à Cruz, para premunir contra a sensualidade e o amor delirante dos prazeres os católicos de uma era essencialmente gozadora e mundana; e em inculcar a devoção a Nossa Senhora por meio da "santa escravidão", para premunir leitores expostos a todo momento às insídias desse verdadeiro calvinismo larvado, que foi o jansenismo.

Em todos os seus livros a dialética é a mesma. Ele mostra com argumentos tirados da Escritura, da Tradição, da História da Igreja e da Hagiografia, que um católico não pode pactuar com o espírito do século, e que toda posição de meio termo entre esse espírito e a vida de piedade não é senão uma perigosa ilusão dos sentidos ou do demônio.

 Nossa Senhora na pregação montfortiana

No conjunto deste sistema, é preciso frisar que a devoção a Nossa Senhora, considerada especialmente como Rainha do Universo, Mãe de Deus e dos homens e Medianeira de todas as graças, tem um papel absolutamente central. É por esta devoção que o fiel pode alcançar de Deus a Sabedoria e o amor à Cruz. Pois Maria Santíssima é o meio pelo qual Jesus Cristo veio a nós, e pelo qual podemos ir a Ele. Quanto mais unidos a Maria, tanto mais estaremos unidos a Jesus. É nas almas marianas - intensamente, ardentemente, filialmente marianas - que o Espírito Santo forma Jesus. Sem Ela, os maiores esforços para a santificação redundam em desastres. Com Ela, o que parece inacessível à nossa fraqueza se torna acessível, as vias como que se franqueiam, as portas se abrem, e nossas forças, hauridas no canal das graças, se centuplicam. O importante, pois, é ser verdadeiro devoto de Maria.

Mas esta devoção tem contrafações. O Santo mostra quais são elas e nos premune contra os minimalistas, sobretudo os que se contentam com uma devoção vã, feita de meras fórmulas e atos de piedade externos. A devoção perfeita, ele a ensina: consiste em sermos escravos de Maria, dando-Lhe todos os nossos bens espirituais e temporais, e fazendo tudo por Ela, com Ela e nEla.

Frutos contra-revolucionários da pregação montfortiana

São Luís Maria foi um grande perseguido. Prelados, Príncipes da Igreja, o próprio governo, o combateram. Apenas o Papa e alguns poucos Bispos franceses lhe deram apoio. Na Bretanha, no Poitou, no Aunis, sua pregação se exerceu livremente, e perdurou através das gerações, conservadas profundamente fiéis. Quando, durante a Revolução, a civilização cristã precisou de heróis para a defenderem em terras da França, estes surgiram mais ou menos em toda a extensão do reino cristianíssimo. Mas em certa região o povo inteiro pegou em armas, numa reação maciça, compacta, impetuosa e indomável. Os chouans, cuja memória nenhum católico pode evocar sem a mais profunda e religiosa emoção, eram os netos daqueles mesmos camponeses que São Luís Maria formara na devoção a Nossa Senhora. Onde São Luís Maria pregara e fora ouvido, não houve a Revolução ímpia e sacrílega; houve, pelo contrário, cruzada e Contra-revolução.


Atualidade de Santa Margarida Maria e São Luís de Montfort

Pouco importa saber até que ponto os movimentos de Paray-le-Monial e da Vandéia no século XVII se conheceram. A importância de um e de outro não ficou circunscrita àquela época. Filhos da Igreja, neste trágico século XX, podemos e devemos ver ambos os movimentos numa só perspectiva, e, assim unidos, fazer deles nosso tesouro espiritual.

O nexo essencial que os liga está hoje em dia posto em tal luz, na consciência de qualquer fiel, que nem sequer é necessário insistir sobre ele. A devoção ao Coração de Jesus é a manifestação mais rica, mais extrema, mais delicada, do amor que nos tem nosso Redentor. A via para chegar ao Coração de Jesus é a Medianeira de todas as graças. E assim se vai ao Coração de Jesus pelo Coração de Maria. Esta última devoção, que Santo Antonio Claret pôs em tanta luz, São Luís Grignion de Montfort, ao que parece, não a conheceu. Mas é o ponto de junção entre a mensagem de Paray e a pregação do apóstolo marial da Vandéia. Ponto de junção que, diga-se de passagem, teve tanto realce nas aparições de Fátima.

Mas ao lado desses grandes laços fundamentais há outros. Nós os compreenderemos bem, num relance de olhos, se considerarmos o que poderiam ser hoje a França, a civilização cristã, o mundo, se os movimentos de Paray e da Vandéia tivessem sido vitoriosos nos séculos XVII e XVIII. Em lugar da Revolução, com suas execráveis seqüelas que nos arrastaram até à voragem atual, teríamos o reino da justiça e da paz. Opus Justitiae pax, lê-se no brasão de Pio XII. Sim, a paz de Cristo no Reino de Cristo, da qual nos distanciamos cada vez mais.

E assim fica posta em evidência a altíssima oportunidade da mensagem de Paray e da obra de São Luís Maria. Elas nos ensinam que o fundo dos problemas que geraram a crise atual é religioso e moral. E nos indicam os meios sobrenaturais pelos quais a Revolução universal de nossos dias, filha insolente e depravada da Revolução Francesa, pode ser jugulada. É só do bom uso desses meios que podem nascer, no campo cultural, social ou político, as reações que preparam, na Terra, a Realeza de Cristo pela Realeza de Maria.

(Cristiandad, Barcelona, Novembro de 1958)