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domingo, 1 de fevereiro de 2026

A VITORIOSA RAINHA DO UNIVERSO

 


 


(Revelação à vidente húngara Soror Maria Natália Magdolna, falecida logo após o início da II Guerra)

 

O Rei e a Rainha

Foi na festividade de Cristo Rei de 1939 quando tive a visão do Salvador como meu real esposo. Sua figura era majestosa e seu rosto muito formoso. Tudo irradiava amor. O manto real pendia de seus ombros e uma coroa de três peças brilhava em sua cabeça.

Quando estou frente a um homem ilustre, meu coração bate com força, mas nesse momento não. Senti que Ele me atraía ao seu divino Coração com seu ardente amor. Isto sucedeu com tal força que corri para Ele e me prostrei a seus pés. Ele se inclinou e me levantou, cobrindo-me com uma ponta de seu manto real.

- Meu Salvador e meu Rei – gritei – Por favor, reina sempre em mim!

- Meu trono está já em teu coração – me respondeu. – Em ti meu reino está completo. Mas onde reina meu amor será levantada minha cruz.

Entendi que Jesus queria algum sacrifício de mim. Me voltei para Ele com alegria, disposta a obedecer, e lhe disse:

- Meu bom Jesus, quero que reines em mim segundo vossa vontade; estou disposta a carregar a cruz por Vós!

Ele me olhou complacente e enquanto eu descansava em seu peito, pude ver como Ele lançou uma olhada a todo o mundo. Compreendi que anelava algo.

- Qual pode ser o desejo de vosso Coração? – perguntei. – ele se inclinou para mim com indescritível amor e me disse:

- Se o mundo reconhece ao Filho como Rei, é justo, correto e apropriado que a Mãe do Filho receba a honra de Rainha. É por isto que Eu quero que minha Mãe Imaculada seja reconhecida por todo o mundo como a Vitoriosa Rainha do mundo. Este reconhecimento deve ser proclamado aberta e solenemente!

Quando o Salvador disse “solenemente” vi que de uma brilhante nuvem saiu uma maravilhosa procissão. Não posso descrevê-la em detalhes porque era uma procissão celestial e a linguagem humana não está apta para descrever as coisas celestiais. Jesus, sem embargo, a olhou satisfeito. Vi então que os anjos levavam um trono celestial e sentada no trono como a uma rainha a Santíssima Virgem. Levava um manto real e uma tríplice coroa. A coroa tinha uma referência especial à Santíssima Trindade, já que a Virgem é ao mesmo tempo filha, esposa e mãe de Deus.

A Virgem Maria tinha o cetro de Rainha na mão direita e uma esfera na esquerda. Na esfera estava sentado o Menino Jesus, também em pompa real, pois sobre a cabeça de Jesus vi também uma coroa. Na mão esquerda do Menino havia uma pequena cruz, que Ele apertava em seu Coração e em sua mão direita o cetro real. A procissão ia acompanhada por uma música maravilhosa.

De repente, a visão da procissão desapareceu e vi outra vez a Jesus como Rei. À sua direita estava sua Mãe como Rainha do Mundo. Entendi que a procissão celestial era a precursora dessas outras muitas procissões que viriam a celebrar Maria como Rainha em todo o mundo: em povos e em aldeias, pelos campos e montanhas, nos lares e nos corações, como a Vitoriosa Rainha do Mundo.[1]

Durante esta visão, o Salvador me fez saber que esta solene festa seria celebrada durante o reinado do Papa Pio XII.[2]  Ademais, Jesus me fez saber que Ele abençoaria esta festa de uma maneira especial. Os sacerdotes escolhidos para promover esta devoção sofreriam muito e seriam humilhados. Mas Jesus prometeu sua ajuda a esses sacerdotes. “Estarei com eles em seus sofrimentos” – me disse -, e enquanto dizia isto pôs sua mão direita em seu Coração e a levantou para abençoar: a graça fluía como um rio sobre as almas escolhidas desses sacerdotes.

Então vi como seu olhar pousava sobre meu confessor e entendi o que lhe disse: “As bênçãos de meu Coração, a chama de meu Amor e a força de minha Vontade estarão com meus sacerdotes fervorosos; eles serão a escada para que minha Mãe Imaculada suba até o trono de sua glória como a Vitoriosa Rainha do Mundo”.[3]


A respeito dessa vidente, veja minhas postagens anteriores:


[2] Refere-se provavelmente à promulgação da Encíclica “Ad Caeli Reginam”, de Pio XII, de 11.10.1954; mas, talvez a Providência exigisse mais do que uma encíclica para se confirmar pela Igreja o reino mariano.

[3] Extraído e traduzido de: http://www.diosjesustehabla.com/SorMagdolna/5.htm

 

 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

DESPONSÓRIOS DA VIRGEM MARIA COM SÃO JOSÉ

 



Maria vivia entretanto no Templo com muitas outras jovens sob a custódia das piedosas matronas, ocupadas em bordar, em tecer e em trabalhos para as cortinas do Templo e as vestimentas sacerdotais. Também limpavam as vestimentas e outros objetos destinados ao culto divino. Quando chegava o tempo da maioridade se casavam. Seus pais as haviam entregue totalmente a Deus e entre os israelitas mais piedosas existia o pressentimento de que de um desses matrimônios se produziria o advento do Messias. Quando Maria tinha quatorze anos e devia sair logo do Templo para casar-se, junto com outras sete jovens, vi Santa Ana visita-la no Templo. Ao anunciar a Maria que devia abandonar o Templo para casar-se a vi profundamente comovida, declarando ao sacerdote que não desejava abandonar o Templo, pois se havia consagrado somente a Deus e não tinha inclinação para o matrimônio. A tudo isto foi respondido que devia aceitar algum esposo. A vi logo em seu oratório, rezando a Deus com muito fervor. Recordo que, tendo muita sede, desceu com seu pequeno cântaro para recolher água de uma fonte ou reservatório e que ali, sem aparição visível, escutou uma voz que a consolou, fazendo-lhe saber ao mesmo tempo que era necessário aceitar esse casamento. Aquilo não era a Anunciação, que me foi dado ver mais tarde em Nazaré. Acreditei, sem embargo, haver visto desta vez a aparição de um anjo. Em minha juventude confundi às vezes este fato com a Anunciação, acreditando que havia ocorrido no Templo.

Vi um sacerdote muito idoso, o qual não podia caminhar: devia ser o Sumo Pontífice. Foi levado por outros sacerdotes  até o Santo dos Santos e enquanto preparava um sacrifício de  incenso lia as orações num rolo de pergaminho colocado sobre uma espécie de átrio. Achando-se arrebatado em êxtase teve uma aparição e seu dedo foi levado sobre o pergaminho à seguinte passagem de Isaías: “Um rebroto sairá da raiz de Jessé e uma flor surgirá dessa raiz”.[1] Quando o ancião voltou a si leu esta passagem e teve conhecimento de algo a respeito.

Logo foram enviadas mensagens a todas as regiões do país convocando ao Templo todos os homens da estirpe de David que não eram casados. Quando vários deles se encontravam reunidos no Templo, em trajes de festa, lhes foi apresentada Maria. Entre eles vi um jovem muito piedoso de Belém, o qual havia pedido a Deus, com grande fervor, o cumprimento da promessa: em seu coração vi um grande desejo de ser eleito por esposo de Maria. Quanto a esta, voltou para sua cela e derramou muitas lágrimas, sem poder imaginar sequer que haveria de permanecer sempre virgem.

Depois disto vi o Sumo Sacerdote, obedecendo a um impulso interior, presentear uns ramos aos assistentes, ordenando que cada um deles marcasse um ramo com seu nome e o mantivesse na mão durante a oração e o sacrifício. Quando fizeram isso os ramos foram tomados novamente de suas mãos e colocados num altar diante do Santo dos Santos, sendo lhes anunciado que aqueles dentre eles cujo ramo florescesse seria o designado pelo Senhor para ser o esposo de Maria de Nazaré. Enquanto os ramos estavam diante do Santo dos Santos seguiu celebrando-se o sacrifício e continuou a oração. Durante este tempo vi um jovem, cujo nome não recordo, invocar a Deus numa sala do Templo, com os braços estendidos e derramando ardentes lágrimas, quando após o tempo marcado lhes foram devolvidos os ramos “anunciando-lhes que nenhum deles havia sido designado por Deus para ser esposo daquela Virgem”. Voltaram os homens para suas casas e o jovem retirou-se para o Monte Carmelo, junto com os sacerdotes que viviam ali desde o tempo de Elias, ficando com eles e rezando continuamente o cumprimento das Promessas.

Logo vi os sacerdotes do Templo buscando novamente nos registros das famílias se ficava algum descendente da família de David que não havia sido chamado. Encontraram a indicação de seis irmãos que habitavam em Belém, um dos quais era desconhecido e andava ausente há muito tempo. Buscaram o domicílio de José, encontrando-o a pouca distância de Samaria, num lugar situado perto de um riacho. Habitava à margem do rio e trabalhava sob as ordens de um carpinteiro. Obedecendo às ordens do Sumo Sacerdote acudiu José a Jerusalém e apresentou-se no Templo. Enquanto rezavam e ofereciam sacrifícios puseram-lhe também nas mãos uma vara, e no momento em que ele se dispunha a deixa-la sobre altar, diante do Santo dos Santos, brotou da vara uma flor branca, semelhante a uma açucena; e pude ver uma aparição luminosa descer sobre ele: era como se nesse momento José houvesse recebido o Espírito Santo. Assim se soube que este era o homem designado por Deus para ser prometido de Maria Santíssima, e os sacerdotes o apresentaram a Maria em presença de sua mãe. Maria, resignada com a vontade de Deus o aceitou humildemente, sabendo que Deus tudo podia, posto que Ele havia recebido seu voto de pertencer somente a Ele.

As bodas de Maria e José, que duraram de seis a sete dias, foram celebradas em Jerusalém numa casa situada perto da montanha de Sion que se alugava amiúde para ocasiões semelhantes. Além das mestras e companheiras de Maria da escola do Templo, assistiram muitos parentes de Joaquim e de Ana, entre outros um matrimônio de Gofna com as filhas. As bodas foram solenes e suntuosas e se ofereceram e se imolaram muitos cordeiros como sacrifício no Templo.

Pude ver muito bem a Maria com seu vestido nupcial. Levava uma túnica muito ampla e aberta pela frente, com amplas mangas. Era de fundo azul, com grandes rosas coloridas, brancas e amarelas, mescladas com folhas verdes, a modo das ricas casulas dos tempos antigos. A borda inferior estava adornada com franjas e bordados. Por cima do traje levava um véu celeste parecido a um grande pano. Além deste manto, as mulheres judias portavam em certas ocasiões  algo assim como um abrigo sob um manto com mangas. O manto de Maria lhe caía sobre os ombros volvendo para a frente por ambos os lados e terminando numa cola. Levava na mão esquerda uma pequena coroa de rosas brancas e roxas de seda; na direita tinha, a modo de cetro, um formoso candeeiro de ouro sem pé, com uma pequena bandeja sobreposta em que ardia algo que produzia uma chama branquinha.

As jovens do Templo arrumaram o cabelo de Maria, terminando o toucado em muito pouco tempo. Ana havia trazido o vestido das bodas, e Maria, em sua humildade, não queria coloca-lo depois dos esponsais. Seus cabelos foram ajustados em torno da cabeça, do qual pendia um véu branco que caía por debaixo dos ombros. Sobre este véu lhe foi posto uma coroa. A cabeleira de Maria era abundante, de cor ruiva dourada, sobrancelhas negras e altas, grandes olhos de pálpebras habitualmente entornadas com largas pestanas negras, nariz de bela forma um pouco alargada, boca nobre e graciosa, e fino queixo. Sua estatura era mediana. Vestida com seu formoso traje, seu andar era cheio de graça, decência e gravidade. Vestiu-se logo para o matrimônio com outro  atavio menos adornado, do qual possuo um pequeno pedaço que guardo em minhas relíquias. Portava estre traje listrado em Caná e em outras ocasiões solenes. Às vezes voltava a colocar seu vestido de casamento quando ia ao Templo. Pessoas acomodadas mudavam três ou quatro vezes seus vestidos nas bodas. Nesse traje de gala Maria me recordava certas mulheres ilustres de outras épocas, por exemplo, Santa Helena e Santa Cunegundes, ainda que distinguindo-se delas pelo manto em que se envolviam as mulheres judias, mas parecido ao das damas romanas. Havia em Sion, na vizinhança do Cenáculo, algumas mulheres que preparavam formosas telas de todas as classes, segundo pude ver a propósito de seus vestidos. José levava um traje largo, muito amplo, de cor azul com largas mangas e presas às costas por cordões. Em volta do pescoço tinha uma capa parda ou melhor uma ampla estola, e no peito duas tiras brancas.

Vi todos os pormenores dos esponsais de Maria e José: a comida da festa e as demais solenidades; porém vi ao mesmo tempo outras tantas coisas. Encontro-me tão enferma, tão molesta de mil diversas formas, que não me atrevo a dizer mais para não introduzir confusão em certos relatos.

 (LA VIDA DE JESUCRISTO Y DE SU MADRE SANTÍSSIMA (Desde el nascimiento de Maria Santíssima hasta la muerte de San José) – Segun las visiones de la Ven. Catalina Emmerick - TOMO II – Revisa Cristandad y Editgorial Surgite – páginas 68/71)

 



[1] Isaías 11, 1


segunda-feira, 18 de outubro de 2021

A DEVOÇÃO AO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA

 




 

Desde os tempos mais remotos da humanidade, costuma-se tomar certos órgãos do corpo humano como símbolos de certas disposições ou potências da alma. Por exemplo, sempre se julgou a inteligência intimamente unida ao cérebro;  a ira e a cólera, vinculada ao fígado.

O coração, por sua vez, era tido como símbolo do ânimo do homem, quer dizer, como a sede de tudo aquilo que se relaciona com a vontade. Por isso era considerado de modo especial como núcleo da bondade e do amor, partes integrantes do ânimo. Há, neste sentido, múltipas passagens na Sagrada Escritura.

 

Devoção impulsionada pelo Santos

“E Sua Mãe conservava todas estas coisas no Seu Coração”, diz São Lucas no Evangelho. Ele nos fala do Coração de Maria em dois lugares, apresentando-o como relicário no qual Nossa Senhora guardava as palavras e os episódios ocorridos em torno de Seu Filho.

Desde a época de São Bernardo, o culto ao Coração de Maria intensificou-se, impulsionado por numerosos Santos, entre os quais se destacam Santa Matilde, Santa Gertrudes, Santa Brígida, São Bernardino de Siena, São Francisco de Sales e Santo Antonio Maria Claret, este último, fundador da Congregação dos Filhos do Coração de Maria, também conhecidos como Claretianos.

O grande florescimento ocorreu no século XVII com São João Eudes, o grande apóstolo da dupla devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria. Oito dias apenas antes de falecer, acabou sua última obra, O Coração admirável da Santíssima Mãe de Deus, com mais de mil páginas.

Esse desenvolvimento histórico culminou nas aparições de Fátima, quando a própria Virgem comunicou aos pastorinhos que Deus quer estabelecer a devoção ao Imaculado Coração de Maria e, por meio dela, salvar muitas almas.

A simbologia católica apresenta o Coração de Maria com a cor vermelha, como o do Sagrado Coração de Jesus, circundado por uma coroa de espinhos. Dele brota uma chama. É o amor ardente de Nossa Senhora a Deus.

 

Coração Imaculado

Todos herdamos de Adão e Eva a mancha do pecado original. Todos, exceto Nossa Senhora. Ela não foi maculada pelo pecado dos nossos primeiros pais.

Mas não é só isto: não há n’Ela absolutamente nenhuma outra mancha causada por alguma infidelidade ou imperfeição posterior. Em todos os momentos da sua vida, Ela correspondeu inteiramente às graças assombrosas que Deus lhe concedeu, alcançando um incalculável pináculo de virtudes.

Assim, Ela é Imaculada em todos os sentidos.

Relacionado com o conceito de Imaculada está o de virgindade. Nossa Senhora foi verdadeiramente Mãe de Jesus Cristo, mas conservou-se Virgem, e esta é uma razão a mais para ser glorificada como Imaculada.

 

O amor de Santa Jacinta ao Imaculado Coração de Maria!

Voltemo-nos para a Santa Jacinta, a pastorinha de Fátima cujos olhos inocentes fitaram a Senhora desse Coração Imaculado. Segundo nos contou a Irmã Lúcia, sua prima, algum tempo antes de ir para o hospital onde morreria, afirmou:

“-Já me falta pouco para ir para o Céu. Tu ficas cá para dizeres que Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Quando for para dizeres isso, não te esconda. Dize a toda a gente que Deus nos concede as graças por meio do Coração Imaculado de Maria; que lhas peçam a Ela; que o Coração de Jesus quer que, ao Seu lado, se venere o Coração Imaculado de Maria; que peçam a paz ao Imaculado Coração de Maria; que Deus lha entregou a Ela. Se eu pudesse meter no coração de toda a gente o lume que tenho cá dentro no peito a queimar-me e a fazer-me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria!

Um dia deram-me uma estampa do Coração de Jesus, bastante bonita para aquilo que os homens conseguem fazer. Levei-a à Jacinta:

- Queres este santinho?

Pegou nele, olhou-o com atenção e disse:

- É tão feio! Não se parece nada com Nosso Senhor, que é tão bonito! Mas quero; sempre é Ele.

E trazia-o sempre com ela. De noite, e na doença, tinha-o debaixo da almofada, até que se rompeu. Beijava-o com freqüência e dizia:

- Beijo-O no Coração, que é do que mais gosto. Quem me dera [ter] também um [do] Coração de Maria! Não tens nenhum? Gostava de ter os dois juntos.

Em outra ocasião, levei-lhe uma estampa que tinha o sagrada cálice com uma hóstia. Pegou nela, beijou-a e, radiante de alegria, dizia:

- É Jesus escondido! Gosto tanto d’Ele! Quem me dera recebê-Lo na Igreja! No Céu não se comunga? Se lá se comungar, eu comungo todos os dias. Se o Anjo fosse ao hospital a levar-me outra vez a Sagrada Comunhão! Que contente que eu ficava!

Quando, às vezes, voltava da igreja e entrava em sua casa, perguntava-me:

- Comungaste?

Se lhe dizia que sim:

- Chega-te aqui bem junto de mim, que tens em teu coração a Jesus escondido.

Outras vezes dizia-me:

- Não sei como é! Sinto a Nosso Senhor dentro de mim. Compreendo o que me diz e não O vejo nem ouço. Mas é tão bom estar com Ele!”

Sigamos o exemplo da Santa Jacinta, e desejemos estar sempre com o Sagrado Coração de Jesus. Por isto, meio mais acertado e mais seguro não há do que sermos verdadeiros devotos do Imaculado Coração de Maria.

 

(Texto transcrito de folheto distribuído pela “Associação Católica Nossa Senhora de Fátima” – acnsf@acnsf.org.br – e WWW.rainhadefatima.org.br). Alteramos do original apenas o título de santa dado a Jacinta, pois foi canonizada em 13.05.2017.)

 

 

 


domingo, 27 de setembro de 2020

AVE MARIA, MARIS STELLA




27 de setembro. Nossa Senhora, Estrela do Mar (Stella Maris).

O título provavelmente tem sua origem no século V, através do grande Doutor da Igreja São Jerônimo. Stella Maris Nostre Domina ou Nossa Senhora, Estrela do Mar, foi usada para enfatizar o papel de Maria como uma estrela guiadora para Cristãos e Gentios. No Antigo Testamento os israelitas também se referiam ao mar como as fronteiras do seu território. De modo geral, os gentios que vinham de fora das suas fronteiras eram do mar. Daí a referência constante ás “ilhas” após o oceano em algumas profecias, indicando os povos além-mar, como nesse texto de Isaías: “Estes levantarão a sua voz e cantarão louvores; soltarão gritos de alegria do lado do mar, quando o Senhor for glorificado. Por esta causa, com as verdadeiras máximas de doutrina, glorificai ao Senhor; nas ilhas do mar (celebrai) o nome do Senhor Deus de Israel. Desde as extremidades da terra nós ouvimos os louvores, a glória do justo. E eu disse: O meu segredo para mim, o meu segredo para mim. (Isaías 24, 14-16)”
A devoção tem se baseado também na passagem de Santo Elias, em que ele reza para que venha a chuva, e após verificar uma nuvem sobre o mar manda atrelar os cavalos e correr para não ficar retido por causa do aguaceiro que estava prestes a cair, prenunciado por aquela nuvenzinha(I Rs 18, 44). Esta pequena nuvem é uma pré-figura da Santíssima Virgem Maria, mas, posteriormente, com o incremento das navegações no decorrer da Idade Média, a estrela do mar tomou seu lugar no imaginário religioso e devoto.
A prática de invocar Maria como uma Estrela guiadora para os marítimos levou à devoção a Nossa Senhora, Estrela do Mar, em todo o mundo, especialmente nas comunidades costeiras e pesqueiras. Existem muitas igrejas católicas que são nomeadas em honra de Maria, Estrela do Mar.
Escritos do século IX diziam que Maria, Estrela do Mar, deveria ser usada como um guia a seguir no caminho de Cristo para evitar a virada em águas atiradas pela tempestade. Algum tempo depois, no século XIII São Bernardo de Claraval escreveu: “E o nome da Virgem era Maria (Lc 1,27). Falemos um pouco deste nome que significa, segundo se diz, Estrela do Mar, e que convém maravilhosamente à Virgem Mãe.. Ela é verdadeiramente esta esplêndida Estrela que devia se levantar sobre a imensidade do mar, toda brilhante por seus méritos, radiante por seus exemplos. ′Se surgirem os ventos da tentação; Se você for conduzido sobre as rochas da tribulação olhe para a estrela, chame Maria; se você for atirado sobre as ondas do orgulho, da ambição, da inveja, da rivalidade, Olhe para a estrela, chame a Maria. Se a raiva, ou avareza, ou o desejo de carne atacar violentamente o frágil vaso da sua alma, olhe para a estrela, chame Maria!".
Santo Antônio de Pádua também escreveu sobre Maria, Estrela do Mar, e muitos anos depois, o Papa Pio XII, na Encíclica Doctor Melifluus citou São Bernardo dizendo: ′′ Maria... é interpretada como significando ′′ Estrela do Mar... ' Isto admiravelmente se adequa à Virgem Mãe.. (pois) como o raio não diminui o brilho da estrela, assim como a Criança nasceu dela mancha a beleza da virgindade de Maria."
No Monte Carmelo, em Israel, o Mosteiro de Stella Maris foi construído como a casa principal da ordem do Carmo, fundada no início do século XIII. Este mosteiro foi destruído várias vezes mas sempre foi reconstruído. O mosteiro renovado de hoje ainda é considerado a sede dos Carmelitas.
Os primeiros registros escritos onde aparecem referências a Maria como Estrela do Mar, são as ladainhas lauretanas aprovadas no século XVII pelo Papa Paulo V. No final desse século, o mesmo Papa aprovou outras invocações surgidas na Hispano América nas quais se encontram maior quantidade ainda as de referências a Stella Maris. A Virgem Maria sempre esteve muito presente nos navegantes cristãos e sua representação com Stella Maris emanou dos mesmos corações dos marinheiros antigamente.
Temos um exemplo disso na Argentina: em razão de devoção surgida a partir de 1908 com a construção de uma capela em memória de Nossa Senhora, Estrela dos Mares, construída na cidade de Mar del Plata, a marinha daquele país a tomou como Padroeira, em honra da qual fez seu hino.
O HINO
A propósito da devoção, surgiu o hino com o mesmo nome (Ave Maris Stella), cuja origem é difícil de precisar, como muitas outras orações ou cantos e hinos medievais. Foi muito popular na Idade Média e usado em muitas composições dessa época. As primeiras notícias sobre esse texto remontam ao século VIII. O autor da poesia teria sido São Venâncio Fortunato (530-609), bispo de Poitiers, a quem atribui-se também o Pange Lingua Gloriosi Proelium Certaminis (Canta, minha língua, o glorioso combate) que serviu de inspiração para o hino eucarístico Pange Lingua Gloriosi Corporis Mysterium (Canta, minha língua, o glorioso mistério da Hóstia) de São Tomás de Aquino. A poesia apresenta Nossa Senhora como Estrela do Mar, dado que este é o significado do nome hebraico Myriam, do qual o nome Maria é a variante latina.
Na liturgia o Ave Maris Stella foi designado como Hino do Comum das Vésperas de Nossa Senhora, para ser usado, portanto, em festas como as da Purificação (2 de fevereiro), Anunciação (25 de março), Assunção (15 de agosto), Natividade (8 de setembro), Maternidade (11 de outubro) e Conceição (8 de dezembro).
Na Idade Média, o Ave Maris Stella foi musicado em canto gregoriano, porém passou a receber composições polifônicas a partir do século XV, por diversos compositores.
Ave, Maris Stella (original em latim)
Ave, Maris Stella,
Dei Mater alma,
Atque semper virgo,
Felix cœli porta.
.
Sumens illud Ave,
Gabrielis ore,
Funda nos em ritmo.
Mutans Evae nomem.
.
Solve vincula reis,
Profer lumen caecis.
Mala nossa pele,
Bona cuncta posce.
.
Monstra te esse matrem,
Sumat para você antes,
Qui pro nobis natus,
Tulit esse tuus.
.
Singularis virgem,
Inter omnes mitis,
Nos culpis solutos,
Faculdade e castos.
.
Vitam praesta puram,
Atitude de dinheiro,
Ut videntis Jesum,
Semper collaetemur.
.
Sit laus Deo Patri,
Summo Christo decus,
Spiritui Sancto,
Tribus honor unus. Amen.
__________________________
(Tradução para o português)
Salve, do Mar Estrela
De Deus Mãe bela
Sempre Virgem, da morada
Celeste feliz entrada
.
Ó tu que ouvistes da boca
Do Anjo Gabriel a saudação
Dá-nos paz e quietação
E o nome de Eva troca
As prisões aos réus desata
E a nós cegos, alumia
De todo o que nos maltrata
Nos livra, o bem nos granjeia
Ostenta que és Mãe fazendo
Que os rogos do povo seu
Ouça aquele que, nascendo,
Por nós quis ser filho seu
Ó Virgem especiosa
Toda cheia de ternura
Extintos nossos pecados
Dá-nos pureza e brandura,
.
Dá-nos uma vida pura,
Põe-nos em via segura,
Para que a Jesus gozemos,
E sempre nos alegremos
.
A Deus Pai veneremos,
A Jesus Cristo também,
E ao Espírito Santo demos
Aos três um louvor. Amém.

domingo, 3 de maio de 2020

MÊS DE MARIA






Não é sem tristeza que sentimos aproximar-se o fim deste mês de Maria! Com efeito, durante o mês de maio sentimos uma proteção especial de Nossa Senhora estender-se sobre todos os fiéis, e a alegria que brilha em nossos templos e ilumina nossos corações exprime a universal certeza dos católicos de que o indispensável patrocínio de nossa Mãe celestial se torna, durante o mês de maio, ainda mais solícito, mais amoroso, mais cheio de visível misericórdia e exorável condescendência.
Entretanto, depois de cada mês de maio, alguma coisa fica, se tivermos sabido viver convenientemente estes trinta dias especialmente consagrados a Nossa Senhora. O que nos fica é uma devoção maior, uma confiança mais especial, e, por assim dizer, uma intimidade tão mais acentuada com Nossa Senhora, que em todas as vicissitudes da vida saberemos pedir com mais respeitosa insistência, esperar com mais invencível confiança, e agradecer com mais humilde carinho todo o bem que Ela nos faça.
Nossa Senhora é a Rainha do Céu e da Terra, e, ao mesmo tempo, nossa Mãe. É esta a convicção com que entramos sempre no mês de maio, e tal convicção se radica cada vez mais em nós, lança claridades e fortaleza sempre maior, quando o mês de maio se encerra. Maio nos ensina a amar a Maria Santíssima por sua própria glória, por tudo quanto Ela representa nos planos da Providência. E nos ensina também a viver de modo mais constante nossa vida de união filial a Maria.
Os filhos nunca são mais seguros da vigilância amorosa de suas mães do que quando sofrem. A humanidade inteira sofre hoje em dia. E não só todos os povos sofrem, mas quase poderia dizer-se que sofrem de todos os modos por que podem sofrer. As inteligências são varridas pelo vendaval da impiedade e do ceticismo. Tufões loucos de messianismos de toda ordem devastam os espíritos. Idéias nebulosas, confusas, audaciosas, esgueiram-se em todos os ambientes, e arrastam consigo, não só os maus e os tíbios, mas até por vezes aqueles de quem se esperaria maior constância na Fé. Sofrem as vontades obstinadamente apegadas ao cumprimento do dever, com todas as contrariedades que lhes vem de sua fidelidade à lei de Cristo. Sofrem os que transgridem essa lei, pois que longe de Cristo todo prazer não é no fundo senão amargura, e toda a alegria uma mentira. Sofrem os corações, dilacerados pelos horrores das guerras que se alastram, das famílias que se dissolvem, das lutas que armam por toda parte irmãos contra irmãos. Sofrem os corpos, dizimados pela metralhadora, depauperados pelo trabalho, minados pela moléstia, acabrunhados pelas necessidades de toda ordem. Pode-se dizer que o mundo contemporâneo, semelhante ao que vivia no tempo em que Nosso Senhor nasceu em Belém, enche os ares de um grande e clamoroso gemido, que é o gemido dos maus que vivem longe de Deus, e dos justos que vivem atormentados pelos maus.
Quanto mais sombrias se tornarem as circunstâncias, quanto mais lancinante as dores de toda ordem, tanto mais devemos pedir a Nossa Senhora que ponha termo a tanto sofrimento, não só para fazer cessar assim nossa dor, mas para maior proveito de nossa alma. Diz a Sagrada Teologia que a oração de Nossa Senhora antecipou o momento em que o mundo deveria ser redimido pelo Messias. Neste momento cheios de angústias, volvamos confiantes nossos olhos a Nossa Senhora, pedindo-Lhe que abrevie o grande momento em que todos esperamos, em que uma nova Pentecostes abra clarões de luz e de esperanças nestas trevas, e restaure por toda a parte o Reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Devemos ser como Daniel, de quem diz a Escritura que era desideriorum vir, isto é, homem que desejava grandes e muitas coisas. Para a glória de Deus, desejemos grandes e muitas coisas. Peçamos a Nossa Senhora muito, e sempre. E o que sobretudo Lhe devemos pedir é aquilo que a Sagrada Liturgia suplica a Deus: Emitte Spiritum tuum et creabuntur, et renovabis faciem terrae. Devemos pedir pelo intermédio de Nossa Senhora que Deus nos envie novamente em abundância o Espírito Santo, para que as coisas sejam novamente criadas, e purificada por uma renovação a face da terra.
Diz Dante na Divina Comédia que rezar sem o patrocínio de Nossa Senhora é a mesma coisa que querer voar sem asas. Confiemos a Nossa Senhora este anelo em que vai todo o nosso coração. As mãos de Maria serão para nossa prece um par de asas puríssimas por meio das quais chegará certamente ao trono de Deus.
Como conclusão deste mês de Maria, façamos nossas duas súplicas da ladainha das Rogações, referentes às necessidades mundiais da Santa Madre Igreja:
"Para que vos digneis humilhar os inimigos da Santa Igreja, vos rogamos, Senhor!
Para que vos digneis exaltar a Santa Igreja, vos rogamos, Senhor!"

 

(Plínio Corrêa de Oliveira - "Legionário" N.o 563, 23 de maio de 1943;”Última Hora”, 7/5/1984 e Revista “Dr. Plínio”, nº 50, maio de 2002)





sexta-feira, 20 de setembro de 2019

DOM MACEDO COSTA, BISPO DO PARÁ, DEFENDENDO A VIRGINDADE DA SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA





Dom Antonio Macedo Costa foi bispo do Pará, no período de 1861 a 1889, quando foi nomeado para a Diocese de Salvador, vindo a falecer em março de 1891 antes de tomar posse. Foi um dos principais protagonistas da “questão religiosa”, no reinado de Dom Pedro II, juntamente com Dom Vital, Arcebispo de Olinda e Recife, quando ambos foram presos e depois indultados e libertados por interferência da Princesa Isabel.
A Carta Pastoral abaixo transcrita demonstra uma época em que nossos bispos tinham grande conhecimento de teologia e defendiam os dogmas católicos com ardor. O Bispo está se dirigindo ao lugar chamado Vigia, uma vila próxima a Belém, onde foi publicado um artigo contrário à virgindade de Nossa Senhora. Dom Macedo não o diz, mas é provável que o tal professor deveria ser protestante, os quais já andavam nessa época fazendo proselitismos na Amazônia.

“Li com pesar em um periódico publicado aí na Vigia um artigo assinado por um professor público de primeiras letras, no qual não só nega um dogma de fé católico definido no último Concílio Ecumênico do Vaticano, mas insinua claramente que não crê na virgindade de Maria Santíssima.
Esse professor opõe à crença de todos os séculos no dogma da Virgindade perpétua da Mãe de Deus os testemunhos dos Evangelhos de São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João. Já se vê que ele alude às passagens de que os protestantes e exegetas racionalistas abusam para atacar a Virgindade de Maria Imaculada.
Sustentou antigamente este erro um sórdido herege chamado Helvídio, a quem São Jerônimo refutou cabalmente, e cuja heresia foi condenada nos Concílios Ecumênicos 2º de Constantinopla e 2º de Latrão.
Vejamos estes textos dos Evangelhos. O primeiro é o de São Mateus I, 24: Despertando de seu sono, fez José o que o Anjo lhe ordenara, e recebeu Maria por sua esposa; e não tinha relação alguma com ela, até que ela deu à luz seu filho primogênito, a que deu o nome de Jesus. Logo, concluem os hereges, Maria não foi sempre virgem.
As palavras “até que” indicam só, segundo o uso da língua hebraica, que até aquele tempo os dois castos esposos não se conheceram, mas não quer dizer que se conhecessem depois. Assim, quando o salmista diz: O Senhor disse a Meu Senhor: “Assentai-vos à minha mão direita, até que eu reduza vossos inimigos a vos servirem de escabelo”; não quer dizer que, depois de reduzidos os inimigos a escabelo, ao Filho de Deus cessaria de assentar-se à mão direita de seu Pai; “Como os olhos da serva nas mãos da sua senhora, assim nossos olhos estão fitos no Senhor, nosso Deus, ATÉ QUE se compadeça de nós” (Salmo 122). Ainda aqui o ATÉ QUE não indica, de nenhum modo, que o profeta só terá os olhos elevados a Deus enquanto lhe pede misericórdia, mas que depois de alcançada a misericórdia os volverá para as criaturas.
Lemos no Deuteronômio: “Morreu Moisés... sepultaram-no no país de Geth... e ATÉ HOJE  ninguém sabe onde está o seu sepulcro”. ATÉ HOJE, isto é, até o tempo em que o escritor sagrado  escrevia. Segue-se que depois, nos séculos seguintes, se veio a descobrir o sepulcro de Moisés? De fato, nunca se descobriu.
“Eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos” disse Jesus. – Pode-se concluir que depois da consumação dos séculos Ele se separaria dos seus discípulos, e que quando eles se assentarem para julgar as tribos de Israel estarão privados da presença do Senhor?
Todos esses passos e outros muitos alegados por São Jerônimo contra Helvídio tapam a boca aos que blasfemam contra a virgindade de Maria Santíssima fundados naquele texto de S. Mateus.
Ainda hoje dizemos: Eu amei e respeitei a meu pai até o dia de sua morte. A ninguém vem à cabeça pensar que, falando assim, nós queremos dizer que, depois da morte de nosso pai, lhe faltamos ao amor e ao respeito.
O que o Evangelista queria simplesmente afirmar era que Jesus não foi gerado como os outros homens, mas por uma operação miraculosa do Espírito Santo. Nada mais.
A palavra primogênito (“hecor’ em hebraico) significa propriamente o filho que não tem outros antes. Moisés diz: (Êxodo III, 2) “Santificai-me o primogênito que abre o seio materno”. Evidentemente Deus não ordena que lhe seja oferecido somente o primogênito que teve outros irmãos depois de si, mas todo menino cujo nascimento não é precedido de outro.
Se primogênito só significasse o filho que é seguido de outros, então a lei mosaica não obrigaria senão depois que de fato estes nascessem.
Mas não, a lei entende por primogênito também o filho único. E o Evangelista fala no mesmo sentido.
Lê-se no Êxodo: “Sucedeu, porém, que de cerca de meia noite feriu o Senhor todo primogênito na terra do Egito, desde o primogênito do Faraó, etc.” Pergunta-se: também foram mortos pelo Anjo exterminador os unigênitos, ou só os primogênitos?
“Se primogênitos só se chamam aqueles que têm irmãos, logo foram livres da morte os unigênitos. Se, porém, também os unigênitos foram mortos, foi isso contra a sentença, matando-se os unigênitos de envolta com os primogênitos.  Ou livrarás os unigênitos da pena, e serás ridículo; ou se confessares que foram mortos teremos te obrigado a reconhecer que também os unigênitos se chamam primogênitos” (“Liber adversus Hebridium”)
É argumento irrespondível do exímio doutor São Jerônimo.
Agora vejamos os textos em que se fala dos irmãos de Jesus.
Lê-se em Mateus que os judeus de Nazaré, vendo as maravilhas operadas pelo Salvador, diziam: “Não é este o filho de um carpinteiro? Sua Mãe não é uma chamada Maria? Tiago, José, Simão e Judas não são seus irmãos?”  (S. Mateus XIII, 55; Marcos VI, 3)
Em outro lugar, estando Jesus ensinando ao povo, vieram-lhe com este recado: “Vossa Mãe e vossos irmãos aí estão fora, e vêm vos procurar...” (Math XII, 47-50) e São João ajunta que os irmãos de Jesus não criam nele (Joan VII, 5 et álibi). Desta palavra IRMÃOS, mal entendida, têm abusado os antigos hereges, e os hodiernos protestantes e racionalistas, contra a Virgindade de Nossa Senhora. Mas isto é um comento ou invenção sem fundamento.
1º . Sempre foi doutrina, geralmente recebida na Igreja, ensinada por todos os Padres e doutores, desde o tempo dos Apóstolos, que Maria foi sempre Virgem, antes do parto, no parto e depois do parto. De modo que, quando mais tarde apareceu a doutrina contrária de Helvídio, Joviniano e outros, foi ela repelida por toda a Igreja como uma novidade ímpia e uma horrenda blasfêmia. Ora esta crença, esta tradição prendeu-se ao berço do Cristianismo, como poderia ter-se estabelecido, se Jesus tivesse publicamente irmãos no sentido próprio da palavra?
2º . Irmãos na língua hebraica não significa só os irmãos propriamente ditos, mas os parentes chegados. Prova-se pela Escritura.
Loth é chamado irmão de Abraão, bem que só fosse sobrinho (Gên XIV, 14-16).  Labão, irmão da mãe de Jacó, é chamado irmão de Jacó (Gên XXIX, 15).  Jacó diz a Raquel que ele é irmão do pai dela (Gên XXIX, 11). Ora, Jacó só tinha um irmão propriamente dito, que era Esaú, e em outra parte fala de irmãos seus e de Labão, isto é, parentes chegados (Gên XXIX, 31,36, 37). A língua hebraica é pobre e só tem a palavra irmão para designar primão irmão, sobrinho, cunhado, etc.
Por isso, quem não sabe deste hebraísmo se engana facilmente com a palavra irmãos vertida literalmente do original para a vulgata.
3º . São José tinha um irmão chamado Cleofas, ou Alfeo (É a mesma palavra hebraica, com ou sem aspiração).
Maria, esposa de Cleofas, era, portanto, cunhada de Maria Santíssima (S. Juan XIX, 25).
Ora, esta Maria, segundo São Marcos (XV, 40), era mãe de Tiago (o menor) e de José. Além disso, São Judas na sua epístola diz ser ele Judas irmão de Tiago. Portanto, o Tiago, José e Judas que, segundo S. Mateus, eram considerados pelo povo como irmãos de Jesus, eram exatamente os três filhos de Cleofas, que vinham a ser primos-irmãos de Jesus.
Falta Simão. Segundo Hesesipo e Eusébio, autores antiquíssimos, Simão, que foi bispo de Jerusalém, foi também filho de Cleofas, Temos, pois, inteirada a conta e os evangelistas concordes.
Os irmãos de Jesus eram, pois, seus primos-irmãos.
4º . Pode-se ainda supor que São José, depois da morte de seu irmão Cleofas, tivesse adotado os filhos dele. Estas adoções não eram raras entre os judeus, diz o sábio Mr. Dehaut. Nesta hipótese os filhos de Cleofas seriam ainda em sentido mais próprio irmãos de Jesus.
5º . O ímpio Renan, que sabe o Hebreu, confessa que Tiago, José, Simão e Judas, chamados no Evangelho irmãos de Jesus, são filhos de Maria,  mulher de Cleofas, e, portanto, primos de Jesus (Vida de Jesus, pág. 24). Mas, como serpente, faz um torcicolo, e diz para satisfazer a sua impiedade, e sem prova alguma, que Jesus teve também verdadeiros irmãos. “Os irmãos de Jesus, diz ele, constituíam na igreja primitiva uma espécie de ordem paralela à dos Apóstolos”.  Que mentiroso! Mas, se havia publicamente esta ordem paralela dos Apóstolos, devia ser tão conhecida como os Apóstolos. Por que é que nenhum Evangelista, nenhum autor eclesiástico conheceu os nomes desses irmãos de Jesus? Se Jesus tinha irmãos como é que do alto da Cruz deixou sua Mãe a São João, filho de Salomé e de Zebedeu?  Por que não fazem menção os Evangelistas desses irmãos quando tratam da viagem de Maria Santíssima a Jerusalém? A ordem paralela é, pois, um romance de Renan, sem valor nenhum científico.
6º . As mais altas conveniências da fé nos firmam na certeza de que a Mãe do Verbo ficou sempre Virgem: “Não se pode supor, diz Santo Ambrósio, que aquela que recebeu Deus em seu seio pudesse receber depois, nesse santuário da divindade, um homem impuro e manchado pelo pecado original, e que José ousasse tocar, consagrada como estava pelo nascimento do Salvador, aquela que ele antes tinha respeitado”.
Olshansen, exegeta protestante, nota com razão que parece natural e conveniente que a última descendente de Davi, de cujo ramo devia nascer o Messias, terminasse sua raça por este último e eterno florão.
As explicações e argumentos que acabamos de expor bastam para satisfazer as pessoas bem intencionadas. Se aí houver alguma cuja fé vacile, leia e explique esta minha carta escrita no dia da festa da Maternidade da Virgem Maria, ínclita Padroeira dessa paróquia e da diocese, como uma homenagem à sua integridade virginal, à sua pureza sem mácula, que o inferno com imunda blasfêmias tenta debalde ofuscar.
Deploremos muito d’alma, Sr. Vigário, que num país católico apostólico romano, como o nosso, se ache a mocidade exposta a ouvir atacar por um professor público os dogmas mais respeitáveis do Cristianismo; deploremo-lo, e dobremos de vigilância para guardar o depósito sagrado e vinga-lo contra os assaltos da impiedade. Receba  minha bênção afetuosa.

Antonio, Bispo do Pará.

(Rev. Sr. Padre Mâncio Caetano Ribeiro, Pároco da Vigia)

(Extraído do livro “Dom Macedo Costa, Bispo do Pará”, págs. 364/369)