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domingo, 25 de janeiro de 2026

Doutor Plinio comentando sobre a conversão de São Paulo

 




Saulo era natural de Tarso, na Cilícia, Província da tribo de Benjamim, e por privilégio concedido pelos imperadores de Roma à cidade de Tarso, Saulo, embora judeu, tinha cidadania romana.

Dotado de talento extraordinário, possuía também bons e nobres sentimentos, aliados a uma força de vontade inquebrantável.

Ao tempo em que Jesus pregava o Evangelho na Palestina, Saulo estudava, sob a direção do sábio Gamaliel, as ciências dos Santos Livros. Seu talento, zelo e aplicação chamaram sobre ele as vistas dos fariseus.

O coração do jovem Saulo enfureceu-se com o crescimento rápido da doutrina de Jesus de Nazaré e o aumento espantoso do número dos discípulos do Crucificado fizeram com que sua alma se incendiasse de ódio contra os seguidores de Jesus, que ele considerava traidores da causa da pátria. E Saulo procura como prejudicar o desenvolvimento da Igreja nascente. Incitado pelo ódio farisaico, Saulo foi ao Sumo Sacerdote e pediu cartas para a sinagoga de Damasco, com plenos poderes de trazer prisioneiros a Jerusalém todos os partidários de Jesus.

Em caminho, já perto de Damasco, um violento reluzir de luz celeste prostra-o por terra e Saulo ouve uma voz queixosa: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” E o perseguidor pergunta: “Senhor, quem sois vós? Responde a voz misteriosa: “Eu sou Jesus, a quem persegues”. Saulo, amedrontado, fala: ”Senhor, que quereis que faça?” – “Levanta-te, entra na cidade e lá se dirá o que tens a fazer”.

Os homens de Saulo nada viam, mas ouviam a voz de Jesus. Saulo levantou-se e verificou que estava cego. Guiaram-no a Damasco, onde passou três dias sem comer nem beber. Ora, havia em Damasco um discípulo de Jesus chamado Ananias. Este teve uma visão em que o Senhor lhe ordenava: “Levanta-te, procura na casa de Judas um homem de Tarso, chamado Saulo. Neste momento ele ora”. Saulo nesse mesmo momento viu certo homem chamado Ananias entrar e impor-lhe as mãos para que recobrasse a vista. Mas Ananias respondeu: “Senhor, tendo ouvido falar muito desse homem e do mal que fez aos santos em Jerusalém. Aqui mesmo traz plenos poderes dos Príncipes dos Sacerdotes para meter em ferros todos que invocam vosso santo nome”. Mas o Senhor lhe ordenou que fosse a Saulo, e revelou-lhe o que o perseguidor haveria de tornar-se para a Igreja: um dos sustentáculos da Religião nascente, o apóstolo que pregaria o Evangelho a todas as nações.

Dessa queda miraculosa, levantou-se Paulo convertido para ir, no seu ardor de homem genial e forte, levar à toda a humanidade o lume da fé, a doutrina de Cristo Jesus.

São Paulo, compreendendo e vivendo integralmente a vida de um apóstolo, em uma de suas epístolas, usou de uma frase que bem define o que é a vida do defensor da fé, do católico consciente de sua missão sobre a terra: “Bonum certamen certavi – Combati o bom combate”. Porque a vida do católico é uma luta sem tréguas nem acomodações.

Luiz Veuillot teve uma frase feliz. Disse que se São Paulo viesse de novo à terra tornar-se-ia jornalista. Sim, São Paulo tornar-se-ia jornalista. Mas jornalista intransigente pela verdade. Ou, em outras palavras, suas epístolas tornar-se-iam artigos intransigentes na defesa de todas as verdades e fulminantes na condenação de todos os erros. Não é difícil imaginar que artigos santa e impetuosamente veementes escreveria aquele mesmo São Paulo que certa vez escreveu numa de suas epístolas: “Irei a vós de chicote em punho” (I Cor. 4, 21).

Quem tão bem soube manejar o chicote e lutar com santo ardor, que a espada passou a ser o seu símbolo, escreveria hoje artigos de jornais reputados por certos leitores de epiderme sensível tanto ou mais agressivos e cortantes que os do LEGIONÁRIO.

(Plínio Corrêa de Oliveira, "Legionário" N. 322, .22 de janeiro de 1939)

 

terça-feira, 27 de setembro de 2022

FALSO ESPÍRITO DE CONCILIAÇÃO

 


 

(Comemorando-se hoje a festa de São Vicente de Paulo, relembramos neste artigo de Dr. Plínio, escrito em 1944, o verdadeiro espírito de caridade dos Santos, preocupados antes de tudo em combater o erro).

 “Numa época em que a política da mão estendida, condenada pelo Santo Padre Pio XI, de novo tenta lançar uma ponte entre os católicos e os socialistas, é muito oportuno lembrar o que sobre a união dos católicos disse o santo por excelência da Caridade e do amor ao próximo, São Vicente de Paulo, cuja festa litúrgica foi celebrada a 19 deste mês .

As considerações que abaixo transcrevemos são sobretudo preciosas porque se referem à união de católicos com “cristãos” jansenistas, numa época em que os erros dos discípulos do Bispo de Ypres ainda não haviam sido condenados pela Santa Sé. As cartas de São Vicente de Paulo que hoje transcrevemos, tratam justamente da adoção de medidas tendentes a provocar um pronunciamento do Papa sobre os pontos de doutrina que dividiam os católicos franceses.

Segundo o Patrono das conferências vicentinas, fora da verdade nenhuma união é desejável. E apesar da mensagem “cristã” mais ou menos “fraca” dos jansenistas, era irredutível partidário de uma ruptura completa com eles.

Vejamos o que sobre este assunto se acha no livro do Padre Charles Maignen, “Nouveau Catholicisme et Nouveau Clergé”.

 “É um alivio para o espírito e o coração, quando colocamos de lado as tristezas e vergonhas do presente e nos transportamos para as grandes épocas da história, na companhia dos santos.

Não há leitura mais apropriada, neste sentido, que a dos capítulos da Vida de São Vicente de Paulo, em que o Padre Maynard, seu historiador, narra as lutas do santo contra o jansenismo.

Essas páginas parecem escritas para a hora presente.

Os processos dos jansenistas, seu modo de fazer polêmica e de desenvolver os interesses do partido não são apenas semelhantes, são idênticos à maneira de agir dos americanistas e católicos liberais de nosso tempo.

Não pretendemos redizer como São Vicente de Paulo que perseguiu a seita e atravessou seus projetos, denunciando-os à rainha, denunciando-os à Igreja e escrevendo a todos os Bispos de França para levá-los a pedir ao Papa a condenação das cinco proposições extraídas do livro “Augustinus”. Nós nos limitaremos a reproduzir alguns trechos de suas cartas, em que o zelo do santo aparece bem afastado dessa falsa virtude que protege o erro sob pretexto de caridade.

Eis em que termos Vicente de Paulo termina uma carta ao Bispo de Louçon, de 23 de abril de 1651, a respeito dos jansenistas:

“É grandemente de se desejar que tantas almas sejam alertadas... e que se impeça em boa hora que outras entrem em uma facção tão perigosa. – O exemplo de um chamado Labadie é uma prova da malignidade dessa doutrina. É um padre apóstata que passava por grande pregador, o qual, depois de haver feito grandes danos na Picardia e depois na Gasconha, fez-se huguenote em Montauban; e, por um livro que escreveu de sua pretensa conversão, declara que tendo sido jansenista, achou que a doutrina que ali se adota é a mesma crença que ele abraçou. E, com efeito, Monsenhor, os ministros se vangloriam em seus sermões, falando a essa gente, que a maioria dos católicos se acha de seu lado, e que em breve terão o resto.”

Vê-se que São Vicente de Paulo não desdenhava o testemunho dos padres apóstatas de seu tempo. Logo depois dessas palavras, o santo acrescentava: “Assim sendo, que não se deve fazer para extinguir esse fogo que dá vantagem aos inimigos jurados de nossa Religião? Quem não se lançará sobre esse pequeno monstro que começa a devastar a Igreja, e que afinal a desolará, se não for estrangulado ao nascer? Que não desejariam ter feito tantos bravos e santos Bispos destes dias, se fossem do tempo de Calvino? Vê-se agora a falta dos daquele tempo, que não se opuseram fortemente a uma doutrina que devia causar tantas guerras e divisões.” E São Vicente de Paulo insistia com o Bispo de Luçon para que “requeresse que Nosso Santo Padre” falasse enfim “para reprimir essas opiniões novas que simbolizam tanto com os erros de Calvino. Estará nisso a glória de Deus, concluiu ele, o repouso da Igreja e, ouso dizê-lo, também do Estado.”

Mas onde a clarividência e a energia de Vicente de Paulo aparecem com mais brilho, é na admirável carta aos Bispos de Alet e de Pamiers, que estranhas razões de prudência e de contemporização haviam levado a permanecer neutros no conflito.

São Vicente de Paulo refuta, uma após outra, todas as razões que eles haviam alegado em favor de sua abstenção. Essas razões são de todos os tempos e os argumentos que São Vicente de Paulo lhes opõe não são menos probantes em nossos dias do que no século dezessete:

“Monsenhores,

Recebi, com o respeito que devo à vossa virtude e à vossa dignidade, a carta que me haveis feito a honra de escrever no fim do mês de maio, para responder as minhas a respeito das questões presentes, na qual vejo muitos pensamentos dignos da posição que ocupais na Igreja e que parecem vos fazer inclinar ao partido do silêncio nas contendas do momento atual. Não deixarei, entretanto, de tomar a liberdade de vos apresentar algumas razões, que talvez vos poderão levar a outros sentimentos, e que vos suplico, Monsenhores, prosternado em espírito a vossos pés, vos digneis de boamente ouvir.

É, primeiramente, sobre o que testemunhais recear que o julgamento que se deseja de Sua Santidade não seja recebido com a submissão e a obediência que todos os cristãos devem à voz do Soberano Pastor e que o Espírito de Deus não encontre bastante docilidade nos corações para neles operar uma verdadeira união, eu vos diria de bom grado que, quando as heresias de Lutero e de Calvino, por exemplo, começaram a aparecer, se se tivesse esperado para condená-las até que seus sectários parecessem dispostos a se submeter e a se unir, essas heresias estariam ainda no número das coisas indiferentes, que podem ser seguidas ou deixadas, e elas teriam infectado mais pessoas que o fizeram. Se, portanto, essas opiniões, das quais vemos os efeitos perniciosos nas consciências, são dessa natureza, em vão esperaremos que aqueles que as semeiam entrem em acordo com os defensores da doutrina da Igreja, porque é isto que não devemos esperar, e o que jamais acontecerá; e diferir a obtenção da condenação da Santa Sé, é dar-lhes tempo de espalhar seu veneno, e é também privar a várias pessoas de condição e de grande piedade, o mérito da obediência que protestaram render aos decretos do Santo Padre, logo que os conheçam; tais pessoas não desejam senão saber a verdade, e, enquanto esperam o efeito desse desejo, elas permanecem sempre de boa fé nesse partido, que fazem aumentar e fortificar por esse meio; a ele aderindo pela aparência do bem e pela reforma que pregam e que é a pele de ovelha com que os verdadeiros lobos sempre se cobrem para enganar e seduzir as almas.

Em segundo lugar, o que vós dizeis, Monsenhores, que o calor dos dois partidos em sustentar sua opinião deixa pouca esperança de uma perfeita união, à qual entretanto se deve visar, me obriga a vos ponderar que não há união a fazer na diversidade e contrariedade de sentimentos em matéria de Fé e de Religião, a não ser apelando para um terceiro que não pode ser senão o Papa, na falta dos Concílios e que aquele que não deseja unir-se nessa matéria, não é capaz de nenhuma união, a qual fora disto não é mesmo desejável: porque as leis não se devem jamais reconciliar com os crimes, não mais que a mentira concorda com a verdade.

Em terceiro lugar, essa uniformidade que desejais entre os Prelados seria bem de se desejar, desde que sem prejuízo para a Fé, porque não deve haver união no mal e no erro; mas quando essa união deve ser feita, a parte menor deve procurar a maior, e o membro deve se unir à cabeça, que é o que se propõe, e havendo ao menos, das seis partes, cinco que ofereceram de se ater ao que disser o Papa na falta de um concílio, que não pode reunir-se por causa das guerras; e quando, depois disso permanecer a divisão e se achardes melhor o cisma, deve-se imputa-lo àqueles que não desejam juiz, nem se render à pluralidade dos Bispos, aos quais. não acatam, do mesmo modo que não o fazem ao Papa.

E daí se forma uma quarta razão, que serve de resposta ao que vos ocorreu de me dizer, Monsenhores, que um e outro partido acreditam que a razão e a verdade se acham de seu lado, o que concedo. Mas vós bem sabeis que todos os hereges têm dito o mesmo, e que isto não os garantiu contra a condenação e os anátemas com que têm sido fulminados pelos Papas e pelos concílios; não se achou que a união com eles fosse um meio de sanar o mal, pelo contrário, foi-lhes aplicado o ferro e o fogo e algumas vezes demasiadamente tarde, como pode acontecer agora. É verdade que um partido acusa o outro, mas com esta diferença, que um pede juízes, e que o outro não os deseja, o que é mau sinal. Ele não deseja remédio, digo eu, da parte do Papa, porque sabe que é possível; e faz gesto de pedir Concílio porque o crê impossível, no estado presente das coisas; e se pensasse que ele fosse possível, rejeitá-lo-ia do mesmo modo que rejeita o outro. E não será, segundo creio, motivo para o riso dos libertinos e hereges, nem escândalo para os bons, ver os Bispos divididos, porque além de ser muito pequeno o número dos que não desejam subscrever as cartas escritas ao Papa sobre este assunto, não é coisa extraordinária, nos antigos Concílios, que todos não tenham o mesmo sentimento; e é o que mostra também a necessidade que o Papa conheça o assunto; pois que, como Vigário de Jesus Cristo, é o Chefe de toda a Igreja, e por conseguinte o superior dos Bispos.

Em quinto lugar, não vemos porque a guerra, por estar espalhada quase por toda a Cristandade, há de impedir que o Papa julgue com todas as condições e formalidades necessárias e prescritas pelo Concílio de Trento, a escolha das quais este deixou nas mãos de Sua Santidade, a quem vários santos e antigos Prelados tem ordinariamente consultado e reclamado nas dúvidas sobre a Fé, mesmo quando reunidos, como se vê nos Santos Padres e nos anais eclesiásticos. Ora, se se prevê que haverá quem não dê aquiescência ao seu julgamento, será este um meio de discernir os verdadeiros filhos da Igreja dos rebeldes.

Quanto ao remédio que propondes, Monsenhores, de proibir a um e outro partido de dogmatizar, eu vos suplico muito humildemente que reconsidereis que isto já foi experimentado inutilmente, e serviu apenas para dar força ao erro, porque vendo que era tratado na mesma base que que a verdade, o erro se aproveitou desse  ensejo para se consolidar; e não se deve tardar demasiadamente em extirpa-lo, visto que essa doutrina não se aplica somente em teoria, mas que consistindo também na pratica, as consciências não mais podem suportar a perturbação e a inquietação que nascem dessa dúvida, a qual se forma no coração de cada um, a saber se Jesus Cristo morreu por ele ou não, e outras semelhantes. Há pessoas que, ouvindo outros dizerem, a moribundos, para consolá-los, que tivessem confiança na bondade de Nosso Senhor, que morreu por eles, disseram aos doentes que não se fiassem nisso, porque Nosso Senhor não havia morrido por todos.

 “Permiti também, Monsenhores, acrescentar a estas considerações que esses que fazem profissão da novidade, vendo que se temem suas ameaças, as aumentam, e se preparam para uma forte rebelião; servem-se de vosso silêncio como um poderoso argumento em seu favor, e mesmo se ufanam, por um impresso que publicam, que sois de sua opinião; e, pelo contrário, os que se conservam na simplicidade da antiga crença, se debilitam e se desencorajam, vendo que não se acham universalmente sustentados. E não ficareis um dia bem contristados, Monsenhores, se vosso nome, ainda que contra vossas intenções, que são muito santas, tivesse servido para confirmar a uns em sua obstinação, e para abalar a crença de outros?

“Quanto a confiar o assunto a um concílio ecumênico, qual o meio de convoca-lo durante estas guerras? Passaram-se quase quarenta anos desde que Lutero e Calvino começaram a perturbar a Igreja e a convocação do Concílio de Trento. Segundo este, não há mais pronto remédio que o de recorrer ao Papa, ao qual o próprio Concílio de Trento nos encaminha em sua última sessão, no último capítulo, do qual vos envio um excerto.

“Portanto, Monsenhores, não se deve temer que o Papa não seja obedecido como é bem justo quando se tiver pronunciado; porque além do que essa razão de temer a desobediência é comum em todas as heresias, as quais por conseguinte dever-se-ia deixar existir impunemente, nós temos um exemplo muito recente na falsa doutrina dos dois pretensos chefes da igreja saída da mesma botica, a qual, tendo sido condenada pelo Papa seu julgamento foi obedecido, e não mais se fala dessa nova opinião. Certamente, Monsenhores, todas essas razões e várias outras que vós sabeis melhor que eu, que desejaria aprender de vós, que respeito, como meus pais e como doutores da Igreja, fizeram que restam presentemente poucos prelados em França que não tenham assinado a carta que vos foi apresentada.”

 (Plínio Corrêa de Oliveira – “Legionário”, 30 de julho de 1944, pág. 5)


domingo, 19 de junho de 2022

O CORPO MÍSTICO DE CRISTO

 



"Mystici Corporis Christi"

A Encíclica "Mystici Corporis Christi", que encheu de tal contentamento os que ansiávamos por um esclarecimento que pusesse termo a múltiplos e perigosos erros que circulavam sobre este assunto, não pode deixar de ser largamente comentada pelo “Legionário” . E, assim, é a ela que quero consagrar as colunas do artigo de fundo deste dia.

* * *

O primeiro comentário sobre a Encíclica consiste em que, sobre ela, não se pode ficar somente em comentários. Quem ler com atenção o texto pontifício perceberá facilmente a extrema complexidade da matéria de que ela trata, e a série quase interminável de confusões, de erros "serpejantes" - a expressão é do Papa - de ambigüidade de toda ordem que se têm procurado apoderar do assunto.

Precisamente por isto, nota-se que o Vaticano teve especial cuidado em evitar pretextos para que, em matéria de tanta monta, entrasse a "cooperação" de terceiros, desfigurando ao sabor de suas preferências o texto pontifício. Este cuidado transparece sobretudo através de dois indícios: a tradução diretamente feita pelo próprio Vaticano, não só para o português como também para outros idiomas provavelmente, e a cuidadosa divisão do texto em partes, títulos e subtítulos de forma a evitar, sob pretexto de maior clareza, interpolações de terceiros. De ordinário, a Santa Sé só toma estas precauções com documentos de grande valor, em que não quer de modo algum deixar aberto o menor e mais longínquo pretexto para deformações.

Ora, se a Santa Sé teve receio de que a imperícia ou a paixão desfigurassem o próprio texto pontifício, é legítimo que também nós nos acautelemos contra comentários capazes de deformar o pensamento do Soberano Pontífice. E, para isto, nada melhor do que fazer-se o estudo de qualquer comentário, tendo sempre o texto do Papa na mão, e diante dos olhos. Nesta Encíclica, mais do que em qualquer outra talvez, os comentários são feitos não para dispensar do estudo do texto, como sobretudo para incitar a que se vá à própria fonte, que é a palavra do Vigário de Cristo.

* * * .

Não se julgue que essa recomendação deve ficar na ordem das coisas vagas e remotamente convenientes. É no próprio texto do Pontífice que ela se funda.

O ambiente contemporâneo é cheio de contradições e entrechoques doutrinários violentos: "enquanto por um lado perdura o falso racionalismo, que tem por absurdo tudo o que transcende e supera a capacidade da razão humana, e com ele outro erro parecido, o naturalismo vulgar, que não vê nem quer reconhecer na Igreja de Cristo senão uma sociedade puramente Jurídica; por outro lado grassa por aí um falso misticismo que perverte as Sagradas Escrituras, pretendendo remover os limites intangíveis entre as criaturas e o Criador".

Em outros termos, nota-se no ambiente hodierno uma série de erros opostos, e em matéria religiosa se dá um fenômeno análogo ao que se observa na política. Com efeito, quer do campo democrático quer do totalitário, se elevam vozes a reivindicar o apoio católico. Analisemos as doutrinas que chegam a nós, confusas e ardentes, através dos clamores da luta: veremos imediatamente que há erros graves em ambos os campos, e que a luta entre eles é uma luta de erros e não de verdade contra o erro. Por isto mesmo, pode-se perguntar onde está o mal menor, se de um lado, se de outro. O “Legionário” de há muito se manifestou contra o lado das chamadas "direitas", nas quais vê o mal maior. Mas não há como indagar onde está o bem, que não se encontra íntegro em nenhum dos campos.

Na esfera política, o resultado foi claro. Poucos foram infelizmente os católicos que souberam ver na disciplina ardente e incondicional à infalível autoridade da Igreja, a verdadeira tábua de salvação. Uns procuraram a fórmula salvadora no nazismo. Outros no comunismo. Outros na forma nazificante, ou nas bolchevisantes. Poucos foram os que se lembraram de que "bonum ex íntegra causa; malum ex quocumque defectu". Se havia mal nos dois lados, ficássemos só com a Igreja, "íntegra causa" por excelência.

E daí uma tremenda confusão. Uns, por amor à autoridade, chegaram ao totalitarismo. Outros, por amor à liberdade, chegaram até à demagogia. A grande tragédia da luta entre nazismo e comunismo, entre fascismo e democracia, não foi tanto o extravio completo dos que já eram maus, mas a ruína, a confusão, a dilaceração interna entre os que eram bons.

Também no campo teológico, o Santo Padre Pio XII nos mostra dois excessos contrários a se entredegladiarem. Vem agora a descrição da confusão, feita pela própria pena do Pontífice: "não só autores separados da verdadeira Igreja espalham graves erros nesta matéria do Corpo Místico de Cristo, mas também entre os fiéis vão serpejando opiniões ou inexatas ou de todo falsas, que podem desviar os espíritos da reta senda da verdade". O perigo é grave. Com efeito, que de mais catastrófico do que o afastamento dos espíritos "da reta senda da verdade?" Se a Fé é o fundamento de todas as virtudes, o que mais triste do que o afastamento das sendas da Fé? O alcance desta afirmação pontifícia só poderá ser devidamente medido à luz da própria doutrina do Corpo Místico. Diz o Pontífice que "como membros da Igreja contam-se realmente só aqueles que receberam o lavacro da regeneração e professam a verdadeira fé, nem se separam voluntariamente do organismo do Corpo (Místico de Cristo), ou não foram dele cortados pela legítima autoridade em razão de culpas gravíssimas". Afastar-se da senda da verdade, ou da Fé, é, pois, "não viver neste corpo único, nem do seu único Espírito divino". Os erros sobre o Corpo Místico acabam, pois, produzindo este resultado paradoxal: afastam, fazem sair do Corpo Místico os que erram. Que de pior?

Infelizmente, o perigo não fica aí. Muitos espíritos, justamente temerosos de se deixarem envolver por esta confusão, não compreendem entretanto que na Revelação tudo é perfeito e admirável, e passam de um explicável temor à vista da confusão, para uma atitude de desconfiança em relação à doutrina a respeito da qual a confusão se estabeleceu. Não que sejam cegos à beleza desta doutrina. Mas - é o mesmo Pontífice que fala -  "consideram esta sublime doutrina como perigosa, e fogem dela como do pomo do Paraíso, belo mas proibido". E com isto gravemente se prejudica a piedade dos fiéis, impedida de se nutrir com o substancialíssimo alimento espiritual contido na doutrina de São Paulo sobre o Corpo Místico de Cristo. O Pontífice protesta contra este infundado temor da própria doutrina do Corpo Místico, como se intrinsecamente considerada, e em si mesma, tivesse erro ou encerrasse perigo, e devesse portanto ser relegada a um prudente esquecimento: "Não; os mistérios revelados por Deus não podem ser prejudiciais ao homem, nem devem permanecer infrutíferos, como tesouro enterrado no campo; senão que nos foram dados por Deus, para proveito espiritual dos que piamente os contemplam".

* * *

Constitui para nós um grave dever cooperar em toda a linha para que a confusão cesse neste terreno. Sejamos prosélitos ardentes da doutrina do Corpo Místico de Cristo. E, sobretudo, insistamos por que todos os estudos feitos nesta matéria tenham por base e constante ponto de referência a admirável Encíclica "Mystici Corporis Christi". Com isto, cessará qualquer dificuldade, e brilhará serena, para a edificação geral, a genuína doutrina da Igreja.

Da Igreja! Como não compreender, admirar e amar ainda mais a Santa Igreja Católica, depois da luminosa e claríssima doutrina ensinada pelo Santo Padre Pio XII sobre o Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a própria Igreja Católica!

A Igreja Católica é o maior tesouro que Nosso Senhor deu aos homens. É ela o escrínio em que se encerram todos os outros tesouros que Cristo nos deu. Não sei de coisa mais urgente, mais atual, mais premente, do que inculcar nos fiéis uma ardente devoção à Santa Igreja.

E, para isto, um estudo exato, dócil, metódico, da Encíclica sobre o Corpo Místico de Cristo pode concorrer admiravelmente. Aliás, para só falar dos documentos recentes, temos ainda outro ato do Magistério Eclesiástico, muito importante, a considerar a respeito da Santa Igreja: é a Pastoral de Saudação do Exmo. Revmo. Sr. Dom Jaime de Barros Câmara, em que o ilustre Prelado doutrina acerca das notas distintivas da verdadeira Igreja, pondo ao alcance de todos, de modo atraente, claro, metódico, soberanamente útil, uma exata apreciação das características que tornam clara a divindade da Igreja Católica.

Com base nestes dois documentos, pode-se fazer uma verdadeira campanha de incremento de entusiasmo e ardor para a Igreja de Cristo, por toda a vastidão do território nacional.

 

(Plínio Corrêa de Oliveira - "Legionário", N.º 585, 24 de outubro de 1943)