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sábado, 10 de maio de 2025

INICIA-SE NOVA ERA NA FESTA DE SÃO MIGUEL?

 




No dia 8 de maio, dia em que foi eleito Leão XIV, também é a data em que antigamente se festejava São Miguel Arcanjo, por causa da sua primeira aparição no monte Gargano. Há outra data, 29 de setembro, onde o Arcanjo é festejado juntamente com São Gabriel e São Rafael.  

Vejamos o que São Miguel disse ao Beato Palau, após falar sobre os castigos a cair sobre Roma:“Não podendo eu apenas crer o que via, acrescentou: “Roma será severamente castigada e o dia está muito próximo, dia de pranto e de luto, de sangue e de fogo e, para que vejas quão justas são as vinganças celestes, vem, sobe para o cume deste monte e de lá verás as abominações introduzidas no lugar santo, preditas por Daniel profeta”. 

Que tipos de abominações fala o Profeta Daniel do tempo dele e que se repetem hoje? As abominações que entraram no lugar santo eram, de modo geral, as cerimônias idolátricas. Nos tempos modernos é a "fumaça de satanás" de que fala Paulo VI. Que significa isso? Quer dizer que o corpo místico do demônio entrou no lugar sagrado, mas sob a forma de fumaça, quer dizer, não é um corpo verdadeiro de doutrinas e princípio, mas algo esfumacento, como é ainda hoje o modernismo, o progressismo católico e a teologia da libertação. Tudo isso entrou no lugar sagrado, mas sob a forma de fumaça. Compara-se com a do tempo de Daniel apenas porque trata-se de abominações, coisas detestáveis do ponto de vista dos mandamentos divinos.

 

Quem foi Daniel e o que viu ele de abominações

De origem nobre do reino de Judá, foi deportado ainda muito jovem para a Babilônia, tendo convivido com os israelitas no cativeiro desde o governo de Nabucodonosor até Dario. Foi chamado várias vezes, ora por São Miguel (9, 13), ora pelos outros anjos, como “Varão de desejos”.

O rei Nabucodonosor mandou que trouxessem para seu palácio alguns jovens de linhagem real e filhos de príncipes, que fossem justos e sem defeitos, a fim de serem instruídos. Entre eles estavam Daniel, Ananias, Misael e Azarias. O profetismo foi concedido especialmente a Daniel, mas de algum modo todos os outros jovens participaram desta vocação, pois “Deus deu a estes jovens a ciência e o conhecimento de todos os livros e de toda a sabedoria” (Dan 1, 17). Quando o rei condenou os jovens a morrer na fornalha e eles passeavam contentes no meio do fogo, Nabudonosor disse que o aspecto do quarto jovem era semelhante ao do “filho de Deus” (3, 92). Por haver interpretado corretamente vários sonhos dos reis babilônicos, Daniel foi elevado a altos cargos do reino.

Seus dons proféticos começaram, pois, com a interpretação de sonhos e depois passou a ter visões angélicas de cunho profético mais profundo. Interpretou inicialmente o sonho de Nabucodonosor sobre os quatro grandes impérios (2, 28-45), depois outro sonho do mesmo rei sobre uma grande árvore que prefigurava a derrocada de seu reino (4, 17) e, finalmente, as frases escritas por mão misteriosa na parede onde o rei Baltasar realizava um festim com os vasos sagrados de Israel (5, 18-28) e que anunciava também a desgraça deste desditoso rei. Daniel iniciou suas visões com a do carneiro e do bode (8, 3-26), representativos dos dois grandes impérios que se confrontariam, o medo-persa e o grego. Em seguida vieram as grandes visões angelicais e apocalípticas.

Revelou possuir grande argúcia e discernimento ao deslindar dois casos importantes: a acusação injuriosa contra Susana (cap. 13) e a fraude do ídolo Bel, tido como devorador dos alimentos (14, 13). No primeiro caso, uma simples pergunta aos velhos que acusavam a casta Susana pegou-os na mentira: debaixo de qual árvore encontrava-se ela na ocasião do delito? Como os dois velhos responderam separadamente os nomes de árvores diversas, ficou caracterizado que mentiam. Quanto ao ídolo, Daniel desconfiava que eram os sacerdotes que comiam os alimentos dados ao ídolo, e aí só foi colocar cinza no recinto do templo durante a noite: ao amanhecer as inúmeras pegadas lá encontravam-se denunciando os impostores.

Por diversas vezes Daniel foi condenado à morte, a última sob o reinado de Ciro que o condenou à cova dos leões: não só passeou ileso entre as feras como foi alimentado milagrosamente pelo profeta Habacuc, levado até Daniel por um anjo com o fim de levar-lhe alimento (14, 32-38).

Daniel adquiriu tal prestígio que “comia à mesa do rei, que tinha elevado em honra acima de todos os seus amigos’ (14, 1), e o sucessor de Baltasar, Dario, o nomeou um dos três chefes dos sátrapas que governavam o reino babilônico.

O fato de São Miguel comparar as abominações de hoje com as do tempo de Daniel é muito significativo, do mesmo modo que afirme ter deixado Roma sob o poder dos demônios e sob pena de castigos divinos que virão brevemente. Pode-se dizer que tais castigos já se  iniciaram na invasão de Garibaldi a Roma, por volta de 1867, sendo que quem mais sofreu tais castigos foi o clero romano. Mas, a cidade ficou sob o poder do demônio, conforme disse São Miguel, estando portanto sujeita a castigos mais terríveis, ainda pendentes.

 

O começo dessa era que ora termina

Podemos dizer que a decadência de toda a sociedade moderna começou no declínio da Idade Média, quando então a Revolução iniciou seu rumo à destruição do Corpo Místico de Cristo. No entanto, ela manifestou aspectos mais marcantes depois da Revolução Francesa de 1789. Nessa época, verificamos já uma grande decadência do clero, muitos padres apoiando abertamente a Revolução e uma completa falta de fidelidade aos princípios cristãos que os moviam antigamente ao martírio. Houve até padres que cometeram abominações terríveis nesse período, alguns regicidas e apóstatas.

No século XIX houve várias manifestações que demonstraram como estava a decadência do clero, especialmente denunciada na mensagem de La Salette que, a certa altura, disse o seguinte:

“Os padres, ministros de Meu Filho, os padres, por sua má vida, por suas irreverências e sua impiedade ao celebrar os santos mistérios, pelo amor ao dinheiro, o amor da honra e dos prazeres, os padres que chafurdam na lama da impureza. Sim, os padres pedem vingança, e a vingança está suspensa sobre todos eles. Malditos os padres e as pessoas consagradas a Deus, os quais, por suas infidelidades e sua vida indigna, crucificam novamente meu Filho! Os pecados das pessoas consagradas a Deus clamam aos céus e pedem vingança, e a vingança está às suas portas, pois não se encontra mais pessoa para implorar misericórdia e perdão pelo povo; não existem mais almas generosas; não existem mais pessoas dignas do sacrifício para oferecer a Vítima sem mancha ao Eterno em favor do mundo”.[1]

Nas revelações da Beata Ana Catarina de Emmerich consta toda a denúncia da atuação de uma falsa igreja que já tentavam criar dentro do próprio Corpo Místico de Cristo. No entanto, para se construir a falsa teriam que destruir a verdadeira, sendo necessário a ação do que ela chamou de demolidores, conforme afirmou: “Para os trabalhos de demolição no interior da Igreja há também engenheiros que podemos facilmente nomear: um ataca a Sagrada Escritura, outro a Teologia, um terceiro a filosofia, este a História, aquele o culto. Sobretudo, há associações internacionais encarregadas, como vimos, de disseminar no pública, e particularmente na juventude, o espírito refratário ao dogma”.

Mas, tais demolidores não somente atacavam os princípios, mas perseguiam os santos. Um exemplo foi o caso de Santo Antonio Maria Claret, expulso de Cuba, de onde era bispo, e de onde saiu a amaldiçoando. Sua maldição foi tão terrível que aquele país foi o primeiro onde dominou o comunismo nas Américas, e permanece até hoje sem esperanças de libertá-lo tão cedo. Nesse caso, talvez o maior erro do clero local foi não ter defendido tão grande santo contra a perseguição que lhe moveu a maçonaria local, da qual alguns deles faziam parte.

Santo Antonio Maria Claret assim lamentou a decadência de seu tempo numa oração abrasada:

 “Ó Imaculada Virgem e Mãe de Deus, Rainha e Senhora da graça, dignai-Vos por caridade lançar um compassivo olhar para este mundo perdido. Notai como todos abandonaram o caminho que vosso Santíssimo Filho se dignou lhes mostrar, esqueceram de suas Santas leis, e se perverteram tanto que se pode dizer: Non est qui faciat bonum, non est usque ad unum – Não existe quem faça nenhum bem sequer (Sal 52, 4).

“Nele se extinguiu a santa virtude da fé, de modo que quase ela não é encontrada na Terra. Ai! extinta essa divina luz, tudo é obscuridade e trevas e não sabem onde caem. Entretanto, juntos vão com passo apressado pelo largo caminho que os conduz à eterna perdição. E quereis Vós, minha Mãe, que eu sendo irmão desses infelizes, olhe com indiferença a sua total ruína? Ah não! Nem o amor que tenho a Deus, nem o que tenho ao próximo podem tolerar.”[2]

Em outras partes do mundo também se manifestavam as abominações emanadas de dentro do clero. Um outro exemplo tivemos aqui no Brasil, fato que se deu alguns anos antes, mas manifestando como era o clima de infiltração da maçonaria dentro da Igreja.

Conforme Dom Duarte Leopoldo e Silva,[3] a revolta pernambucana de 1817, foi uma revolução de padres. Sete anos depois, em 1824, eclodiu outra revolta da mesma natureza, cognominada de “Confederação do Equador”. A lista dos que participaram do movimento abrange, no avultado número, cônegos e governadores do Bispado, vigários e coadjutores, regulares e seculares, dos quais dois se suicidaram, quatro foram supliciados e muitos condenados à pena comum de prisão.

Entre os prisioneiros havia 57 religiosos. Todos ou quase todos esses padres eram membros das sociedades secretas, reunidas sob as denominações de “academias” ou “areópagos”, onde se cultivavam as ideias libertárias da Revolução Francesa. Tem-se dito que essas lojas maçônicas eram simplesmente “nacionalistas”, como ao depois pretenderam e pretendem se passar como simples entidades filantrópicas. Como quer que seja, é certo que, à sombra do mistério que as envolvia, se desenvolveram doutrinas absolutamente contrárias à ortodoxia católica que, a seu tempo, se encontraram em campo aberto contra a Igreja.

Dom Duarte comenta em sua obra que “o espírito de tolerância que, então como hoje, apregoavam os adeptos dos “mistérios democráticos”, bem lhes serviu para iludir incautos e até sacerdotes, ilustres talvez nas ciências profanas, mas ignorantes das ciências eclesiásticas, pouco ou nada cultivadas em um país que não possuía seminários regulares bem dirigidos”. No entanto, o clima entre aqueles que estudavam na Europa não era dos melhores. “Os poucos que, em Portugal, iam beber as ciências eclesiásticas, voltavam ainda mais contaminados”. Uma honrosa exceção foi Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, preso no Brasil por ordem da maçonaria e morto depois sob suspeita de assassinato em Roma.

A fumaça de Satanás, no dizer de Paulo VI em relação à crise religiosa do século XX, já penetrava no santuário desde longas datas, como se vê. No século XX, as infiltrações maçônicas no clero cresceram muito, não tendo hoje nada que possa calcular o tamanho e o alcance de tal fato.

Por diversas cidades nordestinas, do interior e das capitais, pregavam essas dezenas de padres a revolta libertária e a implantação de uma república. Da mesma forma como no século XX o clero progressista pregou a Teologia da Libertação, com a diferença que hoje divulgam o socialismo utópico enquanto naqueles tempos apregoavam a derrocada da monarquia e a implantação da república. No século XX, tivemos muitos deles não somente pregando o socialismo, mas vestindo roupas e portando armas de guerrilheiros, atuando inclusive nas guerras urbanas e rurais dos comunistas.

Ao entrarmos no século XX já despontava uma enorme heresia, denunciada por São Pio X sob o nome de “Modernismo”. Inicialmente, através de um “decreto” intitulado “Lamentabili sane exitu”, publicado em 1907, condenou 65 proposições modernistas. Pouco tempo depois publicou a famosa encíclica “Pascendi domini gregis”, considerando o modernismo como a síntese de todas as heresias. Posteriormente, ainda obrigou todos os clérigos a prestar um juramento antimodernista denominado “Sacrorum antistitum”, sujeitando à excomunhão aquele que o recusasse.

Mesmo assim o modernismo cresceu sob a forma de progressismo, adquirindo aspectos alarmantes.

 

Fim de uma era?

Alguns comentaristas da mídia andaram dizendo que a eleição de Leão XIV pode representar o fim de uma era. Que era é essa? A do domínio do progressismo e dos prosélitos da TL, pelo menos na cúpula da Igreja? Embora seja ele também progressista, diz-se que é da linha moderada. Há suspeitas de que a eleição dele foi tramada por tais elementos (revolucionários infiltrados no clero), visando objetivos escusos: colocar um representante da ortodoxia católica no sólio pontifício a fim de que o mesmo tome medidas rigorosas contra o progressismo, mas causando impacto negativo no povo, a ponto de justificar perante a opinião pública uma perseguição aberta e até a ruína de tudo o que cerca o cargo. E, nesse caso, a perseguição seria mais abrangente, atingindo todos aqueles que comungam os mesmos ideais conservadores, sob o completo beneplácito e até apoio integral da opinião católica, seja progressista ou não.

Uma das táticas da Revolução: quando quer destruir um inimigo, como por exemplo a monarquia como já ocorreu algumas vezes, tal ou a própria Igreja, escolhe alguém que o simbolize e o põe no cargo (ou deixa que assuma), cujo objetivo é destruí-lo juntamente com a instituição. Assim, o ideal para eles, ao tentar destruir a Igreja e o Papado, é escolher um legítimo representante dessa Instituição, que seja leal e ortodoxo em seus princípios, pois, quando o mesmo for destruído ruirá com ele tudo o que ele representa. Não seria coerente com este modo de agir deles, por exemplo, colocar no sólio pontifício um Papa progressista para, logo em seguida, mover uma feroz perseguição contra ele e lhe fazer guerra até sangrenta, inclusive contra seus fieis seguidores. Nesse caso, estariam liquidando perante a opinião pública o símbolo do progressismo. Então, o certo é colocar um conservador, ou um progressista moderado com cara de conservador, pois assim morreria o símbolo e com ele a instituição.

Se for esta a forma da trama, pode-se ocultar por detrás disso também os desígnios da Providência, fazendo ascender ao Papado um ortodoxo, fazendo-o sofrer juntamente com seus leais fieis um martírio para, em seguida, ressurgir a face do Corpo Místico de Cristo totalmente reformada, sendo que, neste período, certamente, São Miguel terá destruído todos seus inimigos com os castigos anunciados pelo Beato Palau.

Algumas visões proféticas, como de Catarina de Emmerich, falam que na metade do século XX vários demônios "sairiam" do inferno com permissão divina para vir à terra e fazer terrível perseguição à Igreja. Isso coincide com o sonho do Papa Leão XIII  o qual teve uma visão no final da missa em que via o inferno e depois a terra coberta de escuridão e de um abismo com uma legião de demônios espalhada pelo mundo para destruir a Igreja. Enquanto ele pensa que tudo está perdido, vê São Miguel aparecendo e repelindo os espíritos malignos para o abismo. Estava  certo de que São Miguel só poderia intervir quando houvesse um número bastante substancial de pessoas enviando-lhe múltiplas orações fervorosas. Após esta visão, ele  escreve uma oração e ordena que seja recitada ao final das missas, coisa tornada obrigatória a partir de São Pio X, mas suprimida na época do Vaticano II, mesmo tempo previsto nas visões de Catarina de Emmerich. Muito sintomático que, agora,  no antigo dia de São Miguel (8 de maio), seja eleito Leão XIV, com esperanças de se cumprir o que viu e desejava o predecessor Leão XIII.

Vamos supor que tal Papa ortodoxo resolva excomungar e até amaldiçoar todos os maus que infestam a Igreja internamente propagando nela o corpo místico do demônio. Nesse caso, eles lhe fariam uma feroz perseguição midiática na opinião pública, a qual hoje em dia é completamente contrária a medidas drásticas como estas. Isso faria com que o público aceitasse pacificamente uma perseguição cruel e violenta contra o Papa e seus seguidores. Imediatamente após a posse de Leão XIV já começam a se manifestar elementos da mídia tentando macular seu nome e apostolado, e assim vão continuar num crescendo até atingir o objetivo final. Vejam que após a posse de Francisco houve um recuo na campanha de calúnias que havia no reinado de Bento XVI, sendo que esta pode recrudescer agora talvez até mais violenta.

Poderemos assim chegar ao auge da crise religiosa de nossos tempos, já denunciada nas aparições de La Salette e Fátima, mas ocultada por eles com receio da opinião pública. O embate, o impacto e choque final entre conservadores e progressistas chegaria ao seu ponto alto, culminando talvez até com intervenções divinas. Para aqueles que forem amaldiçoados, destruição; aos que receberem as bênçãos do Papa, proteção especial e até milagrosa perante conflitos terríveis que advirão. O que nos deixa em dúvida são aqueles que são denominados irrisoriamente de “falsa direita”, os quais se dizem conservadores mas atuam com intenções de cisma e divisões: se converterem-se, serão abençoados, porém, se continuarem nesse caminho poderão cair sob as maldições também.

Nossa esperança está na proteção de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano, da qual Leão XIV é fiel devoto e, certamente, estará derramando suas bênçãos sobre os bons, os quais “terão muito o que sofrer” segundo a mensagem de Fátima. Estaremos, então, de volta à nova era, do Reino de Maria, mas antecedida por novo ciclo de mártires, os quais, como vítimas expiatórias exorcísticas, estarão sofrendo para que os demônios demolidores sejam expulsos de volta para o inferno.



[1] Tanto em Sallete quanto em outras aparições Nossa Senhora sempre deixava uma mensagem para ser revelada depois, chamada de “segredo”, e o conteúdo era sempre a decadência do clero. Muitos videntes foram até perseguidos por clérigos por causa desse tipo de mensagens.

[2] Texto copiado de “Autobiografia de Santo Antonio Maria Claret”, págs. 157 a 164 e comentado por Dr. Plínio Corrêa de Oliveira numa reunião de 27.07.1994.

[3] “O Clero e a Independência” – Dom Duarte Leopoldo e Silva – Centro Dom Vital, Rio, 1823.

 



domingo, 27 de setembro de 2020

O ARCANJO SÃO MIGUEL

 


 

Nome que vem do hebraico, “mika’el”, quer dizer, “Quem como Deus”. Quando Deus revelou aos Anjos no Céu os Planos da Encarnação do Verbo e da Redenção, houve a grande revolta comandada pelo Anjo mais brilhante e bonito que havia, Lúcifer. O brado de revolta foi este: “non servian!” , quer dizer, “Não servirei!”. “Mas como? Logo eu, um Anjo tão formoso, tão poderoso e brilhante, ter que servir a seres humanos, mesmo na pessoa do Filho?” Assim deve ter imaginado Lúcifer em seu estado de revolta. Mas um outro Anjo logo bradou: “Quis ut Deus?”, isto é, quem como Deus? Este Anjo foi São Miguel, logo assumindo a função de Chefe da Milícia Celeste porque passou a comandar os Anjos bons para expulsar Lúcifer do céu. Travou-se então grande batalha, vencendo-a os Anjos fiéis a Deus que logo foram premiados com a Graça da presença divina e a posse da eterna Bem-aventurança. Os gregos, por causa disso, o chamam de “Archistrátegus”, isto é Generalíssimo.

São Tomás de Aquino acha que São Miguel será o Anjo que no fim do mundo há de combater o Anticristo, como fez com Lúcifer. Foi ele desde o início o protetor e defensor do povo eleito, tendo acompanhado-o desde a saída do Egito até a terra prometida. Foi São Miguel quem abençoou a herança de Abraão (Gên 22, 17), contendo o cutelo que ia cair sobre Isaac (Gen 22, 11-14); apareceu a Moisés na sarça ardente (Ex 3, 2); levou a Jesus o cálice que O confortou no Horto das Oliveiras (Lc 22, 43) e foi também quem por algumas vezes libertou São Pedro da prisão.

É ele o Protetor da Igreja e de todos os fiéis, a quem protege de modo especial contra os ataque dos demônios. São Miguel é invocado especialmente na hora da morte, pois neste momento é dado a Lúcifer empreender todos os esforços para perder a alma. Se a pessoa morre na graça de Deus, São Miguel é o Anjo encarregado por Deus de levar a alma para o céu. Por isto ele é chamado, na Igreja, por “Praepositus paradisi”, quer dizer, guarda do Paraíso, acrescido da sentença: “Constitui te Principem super omnes animas suscipiendas” – Eu te constituí Príncipe de todas as almas a serem redimidas. Antigamente, na Missa de encomendação dos defuntos se rezava: “Signifer Sanctus Michael representet eas in lucem sanctam” – Ó Porta-estandarte São Miguel, conduzi-as à luz santa.

São Miguel era também o protetor do povo eleito, conforme fala claramente Daniel (Dan 12, 1). Uma das mais antigas referências ao “Príncipe do exército do Senhor” como protetor do povo eleito encontra-se no Livro de Josué:

“Ora, estando Josué nos arredores da cidade de Jericó, levantou os olhos, e viu diante de si um  homem em pé, que tinha uma espada desembainhada, e foi ter com ele e disse-lhe: Tu és dos nossos, ou dos inimigos? E ele respondeu: Não; mas sou o príncipe do exército do Senhor, e agora venho. Josué prostrou-se com o rosto por terra. E, adorando-o, disse: Que diz o meu Senhor ao seu servo? Tira, lhe disse ele, o calçado de teus pés, porque o lugar em que estás, é Sant.o.  E Josué fez como lhe tinha sido mandado” (Josué 5, 13-16). A partir daquele momento,  sentiu-se vivamente a intervenção de São Miguel nos episódios em que os hebreus ganhavam milagrosamente as guerras, inclusive o cerco feito logo depois contra a cidade de Jericó.

 Porém, com a apostasia dos judeus São Miguel passou a ser o Anjo Custódio da Igreja e de toda a Cristandade. Como citamos acima, no livro de Daniel aparece a disputa entre  São Miguel, Anjo Custódio de Israel, e o Anjo protetor dos persas. Segundo São Jerônimo, este último desejava que os judeus permanecessem na Pérsia para mais dilatarem o conhecimento de Deus, enquanto que São Miguel defendia perante Deus a volta dos judeus para a Palestina a fim de que o templo do Senhor fosse restaurado mais depressa. Esta disputa espiritual entre os dois Anjos durou vinte e um dias.

São Pio X, sabedor do poder que tem São Miguel, ordenou que se rezasse a oração abaixo sempre ao final da Missa:

 “São Miguel, Arcanjo, protegei-nos no combate; cobri-nos com vosso escudo contra os embustes e ciladas do demônio. Subjugue-o Deus, instantemente o pedimos, e vós, Príncipe da Milícia Celeste, pelo divino poder, precipitai no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas”.

O Arcanjo São Miguel por diversas vezes tem aparecido para socorrer os seus devotos. Um dos mais notáveis exemplos foi o que prestou à França, através de Santa Joana D’Arc, a quem São Miguel transmitiu a sublime missão de defender a Filha Primogênita da Igreja contra a invasão inglesa. O Arcanjo fazia-se ouvir à jovem donzela e para ela transmitia suas instruções de como proceder, terminando por convencer os nobres e o rei e, finalmente, vencer os inimigos externos.

A própria santa conta como foram as aparições do Anjo:

“Quando eu tinha mais ou menos 13 anos, ouvi a voz de Deus que veio para ajudar-me a me governar. Na primeira vez, tive medo. E veio essa voz, no verão, no jardim de meu pai, por volta do meio-dia (...).  (...) Depois que eu ouvi essa voz três vezes, percebi que era a voz de um Anjo (...). “...Na primeira vez, tive dúvidas se era São Miguel que vinha a mim, e nessa primeira vez tive muito medo. E eu o vi, depois, muitas vezes, até saber que era São Miguel... Antes de tudo, ele me dizia que era uma boa menina e que Deus me ajudaria. Entre outras coisas, disse-me para eu vir em socorro do rei da França... O Anjo me falava da piedade que existia no reino da França”.( “Joana D’Arc a Mulher Forte” – de Régine Pernoud, Ed.Paulinas, pp. 21/22.)

O estandarte dos exércitos de Carlos Magno trazia a imagem de São Miguel, com a divisa: “Ecce Michael, Princeps Magnus. Venit in adjutorium mihi”, que quer dizer: “Eis que Miguel, o Grande Príncipe, acode em meu socorro”. Esta divisa e a imagem comemoravam uma vitória alcançada pelos saxões graças ao Arcanjo: o rei da Gália tendo-o invocado, apareceu-lhe São Miguel durante a batalha montado num cavalo branco e sustentando um estandarte azul florido de lírios de ouro. Durante a Idade Média, São Miguel era sempre escolhido como padroeiro das Ordens de Cavalaria.

Com o mesmo aspecto de guerreiro terrível e esplendente, apareceu São Miguel ao lado de Santo Antonio de Lisboa, quando este enfrentou o tirano Ezzelino da Romano a fim de o repreender pelas atrocidades e crimes que perpetrava. Também foi São Miguel que apareceu sobre o castelo de Sant’ Angelo cantando o “regina coeli”, cujo episódio, que contamos acima, foi narrado pelo próprio Papa São Gregório Magno.

 Um outro prodígio operado por São Miguel nos remonta ao século V, quando o Arcanjo apareceu por três vezes no monte Gargano. Um rico senhor da cidade de Siponte, na Itália, perdera um de seus touros e passou a procurá-lo pelo monte Gargano. Indo com seus homens até o pico do monte encontram o animal ajoelhado numa caverna inacessível aos homens. Tentando tirar o animal da caverna e não o conseguindo, o exasperado fazendeiro resolveu matar o touro e começou e desferir-lhe flechadas. Mas as flechas voltam-se, antes de atingir o alvo, e ferem o arqueiro.  A notícia do fato foi logo se espalhada pela cidade, indo chegar aos ouvidos do bispo, São Lourenço Maiorano.

Era necessário esclarecer o misterioso caso. Assim, o santo bispo ordenou que se fizessem penitências e orações públicas. Ao terceiro dia, aparece ao mesmo bispo o vulto de um nobre cavaleiro todo envolto em clarões celestes. Dizendo-se ser São Miguel, assim falou: “Sou eu o autor do prodígio da caverna. De futuro ela será o meu santuário na terra”.

Decorrido algum tempo, Siponte foi assediada por um exército invasor. A cidade já estava para se render, mas o bispo São Lourenço Maiorano pede e obtém uma trégua de três dias. Neste período, pediu à população para fazer preces públicas e penitências. Ao terceiro dia, o Arcanjo São Miguel lhes aparece reanimando-os a coragem e assegurando-lhes brilhante vitória sobre os inimigos. No outro dia, os sitiados fizeram uma surtida para tentar furar o cerco, quando subitamente viram o mar enfurecido e o ar escurecer-se e encher-se de raios que eram fuzilados contra o exército inimigo. Os invasores de Siponte, que eram pagãos, fugiram apavorados e foram dizimados pelos cristãos.

Logo após, São Lourenço organizou brilhante procissão em direção da gruta de São Miguel, acompanhada por mais sete bispos, pelo clero e por todo o povo da localidade. O objetivo era consagrar a gruta, mas São Miguel já o havia advertido antes que ela já havia sido consagrada pelo próprio Arcanjo.

Foi construído um Santuário no cimo do monte Gargano, sendo instituída inicialmente a festa de São Miguel no dia 8 de maio, dia da primeira aparição. Numerosas foram as peregrinações ao Monte Gargano. Papas, imperadores, príncipes, cavaleiros e santos visitaram o Santuário do Arcanjo. Os Cruzados, a caminho da Terra Santa, faziam do Santuário lugar de passagem habitual e quase obrigatória. Lá iam, entoando salmos para implorar do Príncipe das Milícias celestes a audácia e a coragem de que necessitavam. Reboavam pelo vale seus brados guerreiros: “São Miguel! São Miguel! Deus o quer!”

O Santuário tornou-se um dos locais mais venerados do mundo católico, dando ocasião a que se divulgasse em todo o orbe a devoção ao Arcanjo. Assim, foram construídas igrejas dedicadas a São Miguel em várias partes do mundo, como ao longo do Bósforo, na França (o famoso Monte São Miguel), na Alemanha e na Inglaterra. A bandeira do Império, na Alemanha, a que se levava na frente das batalhas, tinha estampada a imagem de São Miguel.

Lemos no “Livro das Semelhanças”, de Santo Anselmo, que, estando a morrer um religioso do seu Mosteiro, foi este terrivelmente assaltado pelo demônio, o qual o argüia primeiro pelos pecados que ele cometera antes do batismo, sacramento que o monge recebera já em idade avançada. O pobre homem não sabia o que responder, e, quando estava muito perturbado, apareceu São Miguel em seu auxílio respondendo que todos os pecados cometidos antes do batismo haviam sido perdoados por ocasião daquele sacramento.

O espírito mau acusou então o monge de vários pecados cometidos depois do batismo. O Arcanjo novamente responde que essas faltas tinham sido apagadas na confissão geral feita por ocasião da profissão religiosa do moribundo, e que este devia confiar na misericórdia divina. Satanás alegou por fim contra ele as muitas faltas e negligências da sua vida subseqüentes à profissão religiosa. São Miguel declarou que todos os pecados lhe haviam sido perdoados, porque os confessara e satisfizera por eles com boas obras e, especialmente, com a obediência, e que, se algum resto tinha ficado, estava agora expiando por meio do sofrimento naquela doença.

Depois desta última resposta o demônio partiu dali cheio de confusão e o bom religioso, cheio de esperança e confiança, rendeu suavemente a alma a Deus.

 

Alguns títulos com que é invocado São Miguel

Por tudo o que é perante Deus, e pelo que fez e faz por Sua maior glória, São Miguel é invocado com os seguintes títulos na Ladainha que se reza pedindo seus auxílios: poderosíssimo Príncipe dos exércitos do Senhor; Porta-Estandarte da Santíssima Trindade; Guardião do Paraíso; Guia e consolador do povo israelita; Esplendor e fortaleza da Igreja Militante; Honra e alegria da Igreja Triunfante; Luz dos Anjos; Baluarte dos ortodoxos; Força dos que combatem sob o estandarte da cruz; Luz e confiança das almas no último momento da vida; Socorro certíssimo; Nosso auxílio em todas as adversidades; Arauto da sentença eterna; Consolador das almas que estão no Purgatório; A Quem o Senhor incumbiu de receber as almas depois da morte; Nosso Príncipe e Advogado por ocasião do Juízo, e muitos outros títulos com que os cristãos O invocam.

O Arcanjo São Miguel é também invocado como Profeta, Guerreiro e Exorcista. Como Profeta porque foi o primeiro dos que recebeu luzes divinas para prever os acontecimentos futuros e prevenir os demais Anjos, conclamando-os para expulsar os anjos rebeldes. Como Guerreiro porque foi o primeiro a empunhar o gládio contra a revolta dos demônios, cheio de ímpeto, de força juguladora  e de santa tenacidade, o mais forte no choque, o decisivo no vergar o adversário, o supremamente tenaz no resistir a todas as seduções, furores e ciladas de Lúcifer. E, finalmente, como Exorcista porque foi o primeiro a conseguir graças suficientes de Deus para expulsar os demônios onde quer que esteja ou exerça a sua ação. Dotou-o Deus daquele poder invencível que aniquila as investidas e ardis do demônio, tornando-o tão impotente e tão desprezível, quanto é infame e odioso.

Embora tendo sido criado como Arcanjo, São Miguel ascendeu aos tronos dos Serafins e Querubins, sendo um dos Sete Espíritos supremos que assistem sempre na presença do Altíssimo (Apoc. 4, 5).