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terça-feira, 23 de junho de 2026

PECADOS MODERNOS QUE CLAMAM AOS CÉUS POR VINGANÇA

 

Deus já emitiu seus juízos sobre nossa época?

É o que veremos ao analisarmos abaixo os pecados cometidos no mundo moderno: A) os que chamam ao Céu por vingança; B) pecados contra o Espírito Santo, e C) a conjuração coletiva contra Deus e sua Obra.

 

A) Pecados que clamam ao Céu

Os chamados pecados que clamam aos céus e pedem a Deus por vingança são aqueles que envolvem uma especial malícia e repugnância abominável contra a ordem social humana criada por Deus.

São estes:

1º. O homicídio voluntário, como o praticado por Caim (Gn 4, 10), de cujo pecado Deus disse: “voz do sangue do teu irmão clama da terra por mim”. A avalanche de pecados desta natureza ocorre com tanta frequência hoje em dia que dispensa maiores comentários. O único agravante é que sejam praticados pelo Estado em nome da própria sociedade e para a implantação de regimes ditatoriais, materialistas e ateus. Estamos numa época em que o homicídio voluntário é praticado como arma de guerra psicológica, como método de terror, como vingança entre quadrilhas, como meio para se fazer extorsões e se adquirir riquezas e, finalmente, como tortura e perseguição religiosa. As modalidades de homicídios vão se requintando e se tornando coisas tidas como normais, ocorridos também entre familiares, entre irmãos, de pai pra filho e de filho pra pai. Vivemos numa época em que os homicídios são cometidos por atacado, em toda a terra, sob os diversos motivos e às vezes até mesmo sem motivo nenhum...  Não já estão clamando a Deus por vingança?

2º. A sodomia é um pecado abominável condenado no Antigo e no Novo Testamento, como nessa epístola de São Judas: “De modo semelhante, Sodoma e Gomorra e as cidades ao redor se entregaram ao prazer infame, foram postas por escarmento, sofrendo a pena do fogo eterno (Jd 1, 7).

É comum o entendimento de que o pecado de sodomia só se refira ao relacionamento homossexual.  No entanto, é bom que se frise que a sodomia se refere a todo pecado que é contrário à natureza e à procriação, tendo o homossexualismo como ponto máximo, porém não o único. Pode ser chamado também ato de sodomia qualquer pecado de sexo que seja contrário ao ato natural, hoje praticados pela sociedade moderna de uma forma protuberante, maciça, estonteante mesmo.

Assim, inscrevem-se neste rol de pecados contra natureza aquilo que São Paulo chama de “inversão sexual” ou então o que, não só os homens, mas a próprias mulheres romanas faziam (hoje também um pecado comum) ao “mudarem o uso natural em outro uso, que é contra a natureza”. (Rom 1, 24-32).  Comentando esta epístola de São Paulo São João Crisóstomo diz: “Considerai como o Apóstolo reputa aos pecados de sodomia indignos de perdão, da mesma forma que os dogmas errôneos. E das mulheres diz: “Trocaram o uso natural”. Porque essas não podem alegar que foi por falta de união conforme à natureza que recorreram a essa depravação; e nem que, por não poder satisfazer sua inclinação natural que caíram nesses furiosos desejos alheios a seu próprio sexo, porque a troca é própria de quem já possui algo...”

 O principal pecado de Onan (Gn 38, 8-10) foi o de impedir a procriação e, por isso, tido como um ato abominável por Deus e punido com a morte. Porém a Igreja não circunscreve tal pecado (impedir a procriação) como aqueles que clamam aos céus por vingança e sim o de sodomia.  Deste modo, é provável que Onan tenha praticado num só pecado duas ofensas a Deus: o impedimento da procriação (que interrompia a continuidade hereditária que geraria o Messias, pois tratava-se da tribo de Judá) e o ato contrário à natureza, este sim, a sodomia, que clama a Deus por vingança e sujeito ao castigo de morte.

De que modo Onan impediu sua esposa de conceber?  A Sagrada Escritura não o diz, mas ele deve ter usado um recurso compatível aos atos contrários à natureza, que naqueles tempos remotos eram mais rudes. Alguns moralistas dizem que ele usou um recurso para bloquear o sêmen, algo talvez difícil de se proceder em seu tempo a não ser por métodos grosseiros. Teria ele forçado sua esposa a “mudar o uso natural” como se refere São Paulo e praticado a sodomia? Ou teria usado algum recurso contraceptivo ensinado por feiticeiros?

O pecado de sodomia, e não somente o de homossexualismo, teria motivado os conhecidos castigos de Deus, matando não só uma pessoa como Onan, mas cidades inteiras como Sodoma e Gomorra, ou até mesmo as cidades romanas Herculano e Pompéia, destruídas pelo vulcão Vesúvio pois eram ninhos de abominações de pecados contrários à natureza, como sodomia e homossexualismo. Se a tanto chegou Deus por causa de um ou outro homem, o que não dizer hoje de cidades ou até mesmo povos inteiros que praticam impune e atrevidamente tais pecados?

3º.  A opressão dos pobres, viúvas e órfãos. De tal forma este pecado mancha o nosso tempo que dele assim falou o Papa Pio XII: “Que nenhum de vós pertença ao número daqueles que, na imensa calamidade em que há caído a família humana, não veem senão uma ocasião propícia para enriquecer-se iniquamente, tomando pé da miséria de seus irmãos e aumentando mais e mais os preços para obter um lucro escandaloso. Contemplai suas mãos! Estão manchadas de sangue, do sangue das viúvas e dos órfãos, das crianças e adolescentes, dos impedidos ou atrasados em seu desenvolvimento por falta de nutrição ou pela fome, do sangue de milhares e milhares de infortunados de todas as classes do povo que derramaram seus carniceiros com seu inglório tráfico, Este sangue, como o de Abel, clama ao céu contra os novos Cains”  (AAS 37 (1945) 112).

4º. Defraudação do salário do trabalhador, que clama a Deus por vingança conforme o Apóstolo São Tiago: “Eis que o salário dos trabalhadores, que ceifaram os vossos campos, o qual foi defraudado por vós, clama, e o clamor deles subiu até aos ouvidos do Senhor dos exércitos” (Tiago 5, 4). A maior defraudação do salário do trabalhador se deu quando o Estado se arrogou no direito de se apropriar dos frutos deste salário, os bens socializados pelos regimes comunistas e socialistas implantados no decorrer do século XX. Embora o regime comunista esteja hoje diluído, a legislação moderna, toda ela socialista até mesmo em países como os Estados Unidos, sofre do bafejo dos ideais marxistas, o qual propugna a tese igualitária da expropriação de todos os bens (que é o fruto do salário do trabalhador) pelo Estado. Não há um país moderno que não tenha sofrido a influência de tal legislação, justificando a afirmação da Santíssima Virgem em Fátima: “A Rússia espalhará seus erros pelo mundo”. 

Um quinto tipo de pecados que bradam aos céus e clamam a Deus por vingança seria o da idolatria satânica, revestido este com o maior grau de maldade e malícia que se pode imaginar. No entanto, tal pecado se inscreve como aqueles cometidos contra o Espírito Santo e cuja vingança Deus deixa para a outra vida com um castigo ainda pior, a condenação eterna. O satanismo, ou o pecado de Revolução, é um ato que envolve malícia especial e se reveste de repugnância abominável contra a ordem social humana, da qual Deus é expulso e colocado Satanás em seu lugar. É a inversão da Ordem que Deus colocou no Universo.  Deste modo, tratar-se-ia de um pecado que brada aos céus e clama a Deus por vingança, mas vingança exigida pela própria Ordem que Deus estabeleceu no Universo e punível com as penas eternas.

 

B) Os pecados contra o Espírito Santo

São aqueles que se cometem com refinada malícia e desprezo formal dos dons sobrenaturais que nos livrariam diretamente do pecado.  São como blasfêmias contra o Espírito Santo, a Quem compete a nossa santificação.

Constituem-se pecados contra o Espírito Santo:

A desesperação: obstinada persuasão da impossibilidade de conseguir de Deus o perdão dos pecados e a salvação eterna. Este foi o pecado de Judas e é um pecado, hoje, comum aos drogados, roqueiros, ateus, etc. A desesperação é um prato comum nos dias atuais com a pregação de suicídios,  a prática de abortos e da eutanásia, o desengano geral com a desintegração dos Estados e grande frustração por não se encontrar ninguém mais falando em solução para os problemas de nosso tempo. 

A presunção: temerária e excessiva confiança na misericórdia de Deus, esperando a salvação eterna sem arrepender-se dos pecados e mudar de vida. Este é um pecado hoje praticado por protestantes de todas as seitas e membros das chamadas igrejas ortodoxas orientais. 

A heresia: ou “impugnação da Verdade conhecida”.  Desta forma se peca desprezando o dom da Fé, dado pelo Espírito Santo, e contra a mesma luz divina. São tantas as heresias e hereges que existem em nosso tempo que seria difícil enumerar a todos ou ao menos os principais. Trata-se de um pecado coletivo que clama a Deus por reparação.

A inveja da graça fraterna: segundo São Tomás de Aquino é um dos pecados mais satânicos que se pode cometer, porque com ele “não só se tem inveja e tristeza do bem do irmão, senão da graça de Deus que cresce no mundo”.  Entristecer-se da santificação do próximo é um pecado direto contra o Espírito Santo, que concede benignamente os dons interiores da graça para a remissão dos pecados e santificação das almas. É o pecado cometido por Lúcifer, pecado dos demônios, por isso chamado de satânico. Em escala mundial este tipo de pecado é mais comum entre os muçulmanos e outros pagãos, os quais odeiam visceralmente todo o Ocidente pelo que ainda resta de cristão. 

A obstinação no pecado:  recusa das insinuações interiores da Graça divina e os sãos conselhos das pessoas sensatas e cristãs, não tanto para entregar-se com mais tranquilidade a toda classe de pecados quanto por refinada malícia e rebelião contra Deus. Perante os reiterados avisos, ameaças e até de castigos incontestáveis os homens da atualidade comportam-se com a mais terrível das obstinações em seus pecados.

A impenitência deliberada: determinação de não arrepender-se nunca dos pecados e resistir a qualquer inspiração da graça para o arrependimento.  É o mais horrendo pecado contra o Espírito Santo, já que a pessoa se fecha voluntariamente e para sempre as portas à Graça divina.

Tais pecados são irremissíveis?  O pecado contra o Espírito Santo não será perdoado, nem neste nem no outro mundo, conforme se lê em São Mateus: “Por isso vos digo: Todo o pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, porém a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada. Todo o que disser alguma palavra contra o Filho do homem, lhe será perdoado; porém o que disser contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro (Mt 12, 31 -33). De modo geral não há nenhum pecado que seja tão grave que a misericórdia infinita de Deus não possa perdoar, desde que o pecador dele se arrependa. Porém, como precisamente o pecado contra o Espírito Santo rechaça a graça de Deus e se obstina voluntariamente em sua maldade, é impossível que, enquanto permaneça nessas disposições, se lhe perdoe seu pecado.,

 

C) A conjuração contra Deus

Quando Nossa Senhora previu em Fátima que várias nações seriam aniquiladas Ela deixou implícito que tal se daria com a morte das pessoas que comporiam tais nações. Tal castigo trará então a morte como moeda corrente, o ponto principal das punições divinas.  A morte, então, será vista pelo ímpio como o ápice de seu desespero, enquanto pelo justo será como uma dádiva de Deus e uma porta para o Paraíso. Isto ocorrerá então como último juízo de Deus contra os homens, envolvidos estes numa conjuração universal contra Deus e sua glória aqui na terra.

Antes de tudo, alguns pressupostos. Os pecados coletivos ofendem mais e atraem mais os castigos divinos. Quando uma pessoa peca individualmente afasta Deus de seu coração e nele entroniza Satanás.  Quando esta mesma pessoa procura uma outra e juntas praticam o pecado, aí então a malícia aumenta. Isto porque:

1º. Ocorre entre ambas uma espécie de conjuração contra Deus, contando também com a participação do demônio;

2º. Os males que os demônios antes praticavam em cada pessoa separadamente, agora o fazem em conjunto, portanto com mais força;

3º. Quando grupos de pessoas cometem tais pecados, atingindo então famílias, cidades, sociedades inteiras, tal conjuração atinge a universalidade e clamam a Deus por castigos coletivos.

Se Eva tivesse pecado sozinha  não teria feito tanto mal à humanidade e à glória de Deus, pois Adão teria ficado fora daquela “conjuração” contra Deus. O difícil é para nós imaginar como conviveria futuramente aquele casal, um no Paraíso terrestre e outro fora. Deus certamente estabeleceria outros planos para a Humanidade.

Há uma conjuração contra Deus no mundo moderno?

Quando a prática de todo tipo de pecado sai do âmbito pessoal e passa a ser cometido por casais, por famílias, por sociedades inteiras;

Quando os pecados se transformam em leis, como o divórcio e o aborto, praticados ou aceitos por todos;

Quando se praticam coletivamente pecados contra a natureza, mesmo que se entenda que perderam a noção do mal do que fazem;

Quando enfim todas as nações da terra praticam ou toleram o adultério, a avareza, a inveja, a ganância, o homossexualismo, etc.

Aí então, pode-se dizer que estão todos envolvidos numa enorme conjuração universal contra Deus. Uma conjuração de homens e demônios contra Deus e Sua glória. Não se trata aqui da conjuração das forças secretas para destruir a Igreja e a Cristandade, esta uma empreitada (portanto, uma ação consciente, deliberada e premeditada) dos inimigos de Deus comandados por Satanás a partir de seu “trono”. E quem os enfrenta? Os Apóstolos dos Últimos Tempos (no dizer de São Luís Grignion de Montfort), guiados pelos Santos Anjos sob as ordens de Nossa Senhora.

 

Princípios básicos desta “conjuração”

A “ideia” desta conjuração contra Deus começa no interior de cada alma. O pecado não é um simples ato de deleite, mas um estado de revolta contra Deus.  Até mesmo sem o saber, o pecado conta com um “sócio” em seus atos, que é o demônio.  E a referida “conjuração”  tem início num ato que é fruto de uma “união”, de uma quase combinação de interesses, entre o pecador e o demônio, efetivando-se futuramente com a adesão de uma outra pessoa. Aí teremos um pecado coletivo em sentido “minor”, cometido por apenas duas pessoas. Mas aqueles dois procuram outros e em breve aquele pecado será coletivo em sentido “major”.

Temos alguns exemplos de pecados que envolvem conjuração contra Deus. Coré, Daton e Abiron se uniram contra Moisés numa conjuração tríplice e louca; os velhos que tentaram contra a casta Susana se conjuraram para o pecado, mas encontraram a nobre resistência dela; Judas conjurou explicitamente com os judeus da sinagoga contra Nosso Senhor. Neste ponto Judas consumou num pecado coletivo os diversos pecados individuais de avareza e poder que vinha cometendo; São Pedro não cometeu propriamente pecado de conjuração quando negou Jesus por três vezes perante os criados. Por isso seu pecado foi menos grave e obteve o perdão; toda a perseguição e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo não passou de uma enorme conjuração que envolvia homens ímpios e Satanás. Com relação aos homens que participaram desta conjuração, note-se que estavam eles cheios de pecados de malícia, de avareza, de inveja, enfim, de tudo o que há de mal que eles já praticavam entre si, conjurando-se mutuamente contra Deus.

Depois da terrível conjuração contra o Salvador, os homens fizeram diversas conjurações contra os cristãos e a propagação do Cristianismo. A ponto de se chegar ao ápice da conjuração para a destruição da própria Igreja que tomou corpo após o declínio da Idade Média.

E nós, caro leitor, quando procuramos alguém para cometer com ele um pecado não praticamos também uma conjuração? Será que, ao praticarmos aquele pecado, naquele mesmo instante não estamos sujeitos ao juízo de Deus sobre a conjuração coletiva que se faz contra Ele? Precisamos ver que a natureza do pecado é diferente, a individual e a coletiva. Também é bom imaginar que tanto os vícios coletivos (que mourejam na outra pessoa com quem se peca) quanto os demônios podem passar para nosso interior. Pode ser que, naquele momento, cresça um grau a mais o poder satânico sobre a sociedade inteira, e por nossa culpa!

Veja nossa postagem de 6.9.2016 “AS MALDIÇÕES DITADAS POR MOISÉS AO POVO DE SEU TEMPO PODEM SER REPETIDAS NOS DIAS DE  HOJE?

https://quodlibeta.blogspot.com/2016/09/as-maldicoes-ditadas-por-moises-ao-povo_6.html

 

sábado, 10 de maio de 2025

INICIA-SE NOVA ERA NA FESTA DE SÃO MIGUEL?

 




No dia 8 de maio, dia em que foi eleito Leão XIV, também é a data em que antigamente se festejava São Miguel Arcanjo, por causa da sua primeira aparição no monte Gargano. Há outra data, 29 de setembro, onde o Arcanjo é festejado juntamente com São Gabriel e São Rafael.  

Vejamos o que São Miguel disse ao Beato Palau, após falar sobre os castigos a cair sobre Roma:“Não podendo eu apenas crer o que via, acrescentou: “Roma será severamente castigada e o dia está muito próximo, dia de pranto e de luto, de sangue e de fogo e, para que vejas quão justas são as vinganças celestes, vem, sobe para o cume deste monte e de lá verás as abominações introduzidas no lugar santo, preditas por Daniel profeta”. 

Que tipos de abominações fala o Profeta Daniel do tempo dele e que se repetem hoje? As abominações que entraram no lugar santo eram, de modo geral, as cerimônias idolátricas. Nos tempos modernos é a "fumaça de satanás" de que fala Paulo VI. Que significa isso? Quer dizer que o corpo místico do demônio entrou no lugar sagrado, mas sob a forma de fumaça, quer dizer, não é um corpo verdadeiro de doutrinas e princípio, mas algo esfumacento, como é ainda hoje o modernismo, o progressismo católico e a teologia da libertação. Tudo isso entrou no lugar sagrado, mas sob a forma de fumaça. Compara-se com a do tempo de Daniel apenas porque trata-se de abominações, coisas detestáveis do ponto de vista dos mandamentos divinos.

 

Quem foi Daniel e o que viu ele de abominações

De origem nobre do reino de Judá, foi deportado ainda muito jovem para a Babilônia, tendo convivido com os israelitas no cativeiro desde o governo de Nabucodonosor até Dario. Foi chamado várias vezes, ora por São Miguel (9, 13), ora pelos outros anjos, como “Varão de desejos”.

O rei Nabucodonosor mandou que trouxessem para seu palácio alguns jovens de linhagem real e filhos de príncipes, que fossem justos e sem defeitos, a fim de serem instruídos. Entre eles estavam Daniel, Ananias, Misael e Azarias. O profetismo foi concedido especialmente a Daniel, mas de algum modo todos os outros jovens participaram desta vocação, pois “Deus deu a estes jovens a ciência e o conhecimento de todos os livros e de toda a sabedoria” (Dan 1, 17). Quando o rei condenou os jovens a morrer na fornalha e eles passeavam contentes no meio do fogo, Nabudonosor disse que o aspecto do quarto jovem era semelhante ao do “filho de Deus” (3, 92). Por haver interpretado corretamente vários sonhos dos reis babilônicos, Daniel foi elevado a altos cargos do reino.

Seus dons proféticos começaram, pois, com a interpretação de sonhos e depois passou a ter visões angélicas de cunho profético mais profundo. Interpretou inicialmente o sonho de Nabucodonosor sobre os quatro grandes impérios (2, 28-45), depois outro sonho do mesmo rei sobre uma grande árvore que prefigurava a derrocada de seu reino (4, 17) e, finalmente, as frases escritas por mão misteriosa na parede onde o rei Baltasar realizava um festim com os vasos sagrados de Israel (5, 18-28) e que anunciava também a desgraça deste desditoso rei. Daniel iniciou suas visões com a do carneiro e do bode (8, 3-26), representativos dos dois grandes impérios que se confrontariam, o medo-persa e o grego. Em seguida vieram as grandes visões angelicais e apocalípticas.

Revelou possuir grande argúcia e discernimento ao deslindar dois casos importantes: a acusação injuriosa contra Susana (cap. 13) e a fraude do ídolo Bel, tido como devorador dos alimentos (14, 13). No primeiro caso, uma simples pergunta aos velhos que acusavam a casta Susana pegou-os na mentira: debaixo de qual árvore encontrava-se ela na ocasião do delito? Como os dois velhos responderam separadamente os nomes de árvores diversas, ficou caracterizado que mentiam. Quanto ao ídolo, Daniel desconfiava que eram os sacerdotes que comiam os alimentos dados ao ídolo, e aí só foi colocar cinza no recinto do templo durante a noite: ao amanhecer as inúmeras pegadas lá encontravam-se denunciando os impostores.

Por diversas vezes Daniel foi condenado à morte, a última sob o reinado de Ciro que o condenou à cova dos leões: não só passeou ileso entre as feras como foi alimentado milagrosamente pelo profeta Habacuc, levado até Daniel por um anjo com o fim de levar-lhe alimento (14, 32-38).

Daniel adquiriu tal prestígio que “comia à mesa do rei, que tinha elevado em honra acima de todos os seus amigos’ (14, 1), e o sucessor de Baltasar, Dario, o nomeou um dos três chefes dos sátrapas que governavam o reino babilônico.

O fato de São Miguel comparar as abominações de hoje com as do tempo de Daniel é muito significativo, do mesmo modo que afirme ter deixado Roma sob o poder dos demônios e sob pena de castigos divinos que virão brevemente. Pode-se dizer que tais castigos já se  iniciaram na invasão de Garibaldi a Roma, por volta de 1867, sendo que quem mais sofreu tais castigos foi o clero romano. Mas, a cidade ficou sob o poder do demônio, conforme disse São Miguel, estando portanto sujeita a castigos mais terríveis, ainda pendentes.

 

O começo dessa era que ora termina

Podemos dizer que a decadência de toda a sociedade moderna começou no declínio da Idade Média, quando então a Revolução iniciou seu rumo à destruição do Corpo Místico de Cristo. No entanto, ela manifestou aspectos mais marcantes depois da Revolução Francesa de 1789. Nessa época, verificamos já uma grande decadência do clero, muitos padres apoiando abertamente a Revolução e uma completa falta de fidelidade aos princípios cristãos que os moviam antigamente ao martírio. Houve até padres que cometeram abominações terríveis nesse período, alguns regicidas e apóstatas.

No século XIX houve várias manifestações que demonstraram como estava a decadência do clero, especialmente denunciada na mensagem de La Salette que, a certa altura, disse o seguinte:

“Os padres, ministros de Meu Filho, os padres, por sua má vida, por suas irreverências e sua impiedade ao celebrar os santos mistérios, pelo amor ao dinheiro, o amor da honra e dos prazeres, os padres que chafurdam na lama da impureza. Sim, os padres pedem vingança, e a vingança está suspensa sobre todos eles. Malditos os padres e as pessoas consagradas a Deus, os quais, por suas infidelidades e sua vida indigna, crucificam novamente meu Filho! Os pecados das pessoas consagradas a Deus clamam aos céus e pedem vingança, e a vingança está às suas portas, pois não se encontra mais pessoa para implorar misericórdia e perdão pelo povo; não existem mais almas generosas; não existem mais pessoas dignas do sacrifício para oferecer a Vítima sem mancha ao Eterno em favor do mundo”.[1]

Nas revelações da Beata Ana Catarina de Emmerich consta toda a denúncia da atuação de uma falsa igreja que já tentavam criar dentro do próprio Corpo Místico de Cristo. No entanto, para se construir a falsa teriam que destruir a verdadeira, sendo necessário a ação do que ela chamou de demolidores, conforme afirmou: “Para os trabalhos de demolição no interior da Igreja há também engenheiros que podemos facilmente nomear: um ataca a Sagrada Escritura, outro a Teologia, um terceiro a filosofia, este a História, aquele o culto. Sobretudo, há associações internacionais encarregadas, como vimos, de disseminar no pública, e particularmente na juventude, o espírito refratário ao dogma”.

Mas, tais demolidores não somente atacavam os princípios, mas perseguiam os santos. Um exemplo foi o caso de Santo Antonio Maria Claret, expulso de Cuba, de onde era bispo, e de onde saiu a amaldiçoando. Sua maldição foi tão terrível que aquele país foi o primeiro onde dominou o comunismo nas Américas, e permanece até hoje sem esperanças de libertá-lo tão cedo. Nesse caso, talvez o maior erro do clero local foi não ter defendido tão grande santo contra a perseguição que lhe moveu a maçonaria local, da qual alguns deles faziam parte.

Santo Antonio Maria Claret assim lamentou a decadência de seu tempo numa oração abrasada:

 “Ó Imaculada Virgem e Mãe de Deus, Rainha e Senhora da graça, dignai-Vos por caridade lançar um compassivo olhar para este mundo perdido. Notai como todos abandonaram o caminho que vosso Santíssimo Filho se dignou lhes mostrar, esqueceram de suas Santas leis, e se perverteram tanto que se pode dizer: Non est qui faciat bonum, non est usque ad unum – Não existe quem faça nenhum bem sequer (Sal 52, 4).

“Nele se extinguiu a santa virtude da fé, de modo que quase ela não é encontrada na Terra. Ai! extinta essa divina luz, tudo é obscuridade e trevas e não sabem onde caem. Entretanto, juntos vão com passo apressado pelo largo caminho que os conduz à eterna perdição. E quereis Vós, minha Mãe, que eu sendo irmão desses infelizes, olhe com indiferença a sua total ruína? Ah não! Nem o amor que tenho a Deus, nem o que tenho ao próximo podem tolerar.”[2]

Em outras partes do mundo também se manifestavam as abominações emanadas de dentro do clero. Um outro exemplo tivemos aqui no Brasil, fato que se deu alguns anos antes, mas manifestando como era o clima de infiltração da maçonaria dentro da Igreja.

Conforme Dom Duarte Leopoldo e Silva,[3] a revolta pernambucana de 1817, foi uma revolução de padres. Sete anos depois, em 1824, eclodiu outra revolta da mesma natureza, cognominada de “Confederação do Equador”. A lista dos que participaram do movimento abrange, no avultado número, cônegos e governadores do Bispado, vigários e coadjutores, regulares e seculares, dos quais dois se suicidaram, quatro foram supliciados e muitos condenados à pena comum de prisão.

Entre os prisioneiros havia 57 religiosos. Todos ou quase todos esses padres eram membros das sociedades secretas, reunidas sob as denominações de “academias” ou “areópagos”, onde se cultivavam as ideias libertárias da Revolução Francesa. Tem-se dito que essas lojas maçônicas eram simplesmente “nacionalistas”, como ao depois pretenderam e pretendem se passar como simples entidades filantrópicas. Como quer que seja, é certo que, à sombra do mistério que as envolvia, se desenvolveram doutrinas absolutamente contrárias à ortodoxia católica que, a seu tempo, se encontraram em campo aberto contra a Igreja.

Dom Duarte comenta em sua obra que “o espírito de tolerância que, então como hoje, apregoavam os adeptos dos “mistérios democráticos”, bem lhes serviu para iludir incautos e até sacerdotes, ilustres talvez nas ciências profanas, mas ignorantes das ciências eclesiásticas, pouco ou nada cultivadas em um país que não possuía seminários regulares bem dirigidos”. No entanto, o clima entre aqueles que estudavam na Europa não era dos melhores. “Os poucos que, em Portugal, iam beber as ciências eclesiásticas, voltavam ainda mais contaminados”. Uma honrosa exceção foi Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, preso no Brasil por ordem da maçonaria e morto depois sob suspeita de assassinato em Roma.

A fumaça de Satanás, no dizer de Paulo VI em relação à crise religiosa do século XX, já penetrava no santuário desde longas datas, como se vê. No século XX, as infiltrações maçônicas no clero cresceram muito, não tendo hoje nada que possa calcular o tamanho e o alcance de tal fato.

Por diversas cidades nordestinas, do interior e das capitais, pregavam essas dezenas de padres a revolta libertária e a implantação de uma república. Da mesma forma como no século XX o clero progressista pregou a Teologia da Libertação, com a diferença que hoje divulgam o socialismo utópico enquanto naqueles tempos apregoavam a derrocada da monarquia e a implantação da república. No século XX, tivemos muitos deles não somente pregando o socialismo, mas vestindo roupas e portando armas de guerrilheiros, atuando inclusive nas guerras urbanas e rurais dos comunistas.

Ao entrarmos no século XX já despontava uma enorme heresia, denunciada por São Pio X sob o nome de “Modernismo”. Inicialmente, através de um “decreto” intitulado “Lamentabili sane exitu”, publicado em 1907, condenou 65 proposições modernistas. Pouco tempo depois publicou a famosa encíclica “Pascendi domini gregis”, considerando o modernismo como a síntese de todas as heresias. Posteriormente, ainda obrigou todos os clérigos a prestar um juramento antimodernista denominado “Sacrorum antistitum”, sujeitando à excomunhão aquele que o recusasse.

Mesmo assim o modernismo cresceu sob a forma de progressismo, adquirindo aspectos alarmantes.

 

Fim de uma era?

Alguns comentaristas da mídia andaram dizendo que a eleição de Leão XIV pode representar o fim de uma era. Que era é essa? A do domínio do progressismo e dos prosélitos da TL, pelo menos na cúpula da Igreja? Embora seja ele também progressista, diz-se que é da linha moderada. Há suspeitas de que a eleição dele foi tramada por tais elementos (revolucionários infiltrados no clero), visando objetivos escusos: colocar um representante da ortodoxia católica no sólio pontifício a fim de que o mesmo tome medidas rigorosas contra o progressismo, mas causando impacto negativo no povo, a ponto de justificar perante a opinião pública uma perseguição aberta e até a ruína de tudo o que cerca o cargo. E, nesse caso, a perseguição seria mais abrangente, atingindo todos aqueles que comungam os mesmos ideais conservadores, sob o completo beneplácito e até apoio integral da opinião católica, seja progressista ou não.

Uma das táticas da Revolução: quando quer destruir um inimigo, como por exemplo a monarquia como já ocorreu algumas vezes, tal ou a própria Igreja, escolhe alguém que o simbolize e o põe no cargo (ou deixa que assuma), cujo objetivo é destruí-lo juntamente com a instituição. Assim, o ideal para eles, ao tentar destruir a Igreja e o Papado, é escolher um legítimo representante dessa Instituição, que seja leal e ortodoxo em seus princípios, pois, quando o mesmo for destruído ruirá com ele tudo o que ele representa. Não seria coerente com este modo de agir deles, por exemplo, colocar no sólio pontifício um Papa progressista para, logo em seguida, mover uma feroz perseguição contra ele e lhe fazer guerra até sangrenta, inclusive contra seus fieis seguidores. Nesse caso, estariam liquidando perante a opinião pública o símbolo do progressismo. Então, o certo é colocar um conservador, ou um progressista moderado com cara de conservador, pois assim morreria o símbolo e com ele a instituição.

Se for esta a forma da trama, pode-se ocultar por detrás disso também os desígnios da Providência, fazendo ascender ao Papado um ortodoxo, fazendo-o sofrer juntamente com seus leais fieis um martírio para, em seguida, ressurgir a face do Corpo Místico de Cristo totalmente reformada, sendo que, neste período, certamente, São Miguel terá destruído todos seus inimigos com os castigos anunciados pelo Beato Palau.

Algumas visões proféticas, como de Catarina de Emmerich, falam que na metade do século XX vários demônios "sairiam" do inferno com permissão divina para vir à terra e fazer terrível perseguição à Igreja. Isso coincide com o sonho do Papa Leão XIII  o qual teve uma visão no final da missa em que via o inferno e depois a terra coberta de escuridão e de um abismo com uma legião de demônios espalhada pelo mundo para destruir a Igreja. Enquanto ele pensa que tudo está perdido, vê São Miguel aparecendo e repelindo os espíritos malignos para o abismo. Estava  certo de que São Miguel só poderia intervir quando houvesse um número bastante substancial de pessoas enviando-lhe múltiplas orações fervorosas. Após esta visão, ele  escreve uma oração e ordena que seja recitada ao final das missas, coisa tornada obrigatória a partir de São Pio X, mas suprimida na época do Vaticano II, mesmo tempo previsto nas visões de Catarina de Emmerich. Muito sintomático que, agora,  no antigo dia de São Miguel (8 de maio), seja eleito Leão XIV, com esperanças de se cumprir o que viu e desejava o predecessor Leão XIII.

Vamos supor que tal Papa ortodoxo resolva excomungar e até amaldiçoar todos os maus que infestam a Igreja internamente propagando nela o corpo místico do demônio. Nesse caso, eles lhe fariam uma feroz perseguição midiática na opinião pública, a qual hoje em dia é completamente contrária a medidas drásticas como estas. Isso faria com que o público aceitasse pacificamente uma perseguição cruel e violenta contra o Papa e seus seguidores. Imediatamente após a posse de Leão XIV já começam a se manifestar elementos da mídia tentando macular seu nome e apostolado, e assim vão continuar num crescendo até atingir o objetivo final. Vejam que após a posse de Francisco houve um recuo na campanha de calúnias que havia no reinado de Bento XVI, sendo que esta pode recrudescer agora talvez até mais violenta.

Poderemos assim chegar ao auge da crise religiosa de nossos tempos, já denunciada nas aparições de La Salette e Fátima, mas ocultada por eles com receio da opinião pública. O embate, o impacto e choque final entre conservadores e progressistas chegaria ao seu ponto alto, culminando talvez até com intervenções divinas. Para aqueles que forem amaldiçoados, destruição; aos que receberem as bênçãos do Papa, proteção especial e até milagrosa perante conflitos terríveis que advirão. O que nos deixa em dúvida são aqueles que são denominados irrisoriamente de “falsa direita”, os quais se dizem conservadores mas atuam com intenções de cisma e divisões: se converterem-se, serão abençoados, porém, se continuarem nesse caminho poderão cair sob as maldições também.

Nossa esperança está na proteção de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano, da qual Leão XIV é fiel devoto e, certamente, estará derramando suas bênçãos sobre os bons, os quais “terão muito o que sofrer” segundo a mensagem de Fátima. Estaremos, então, de volta à nova era, do Reino de Maria, mas antecedida por novo ciclo de mártires, os quais, como vítimas expiatórias exorcísticas, estarão sofrendo para que os demônios demolidores sejam expulsos de volta para o inferno.



[1] Tanto em Sallete quanto em outras aparições Nossa Senhora sempre deixava uma mensagem para ser revelada depois, chamada de “segredo”, e o conteúdo era sempre a decadência do clero. Muitos videntes foram até perseguidos por clérigos por causa desse tipo de mensagens.

[2] Texto copiado de “Autobiografia de Santo Antonio Maria Claret”, págs. 157 a 164 e comentado por Dr. Plínio Corrêa de Oliveira numa reunião de 27.07.1994.

[3] “O Clero e a Independência” – Dom Duarte Leopoldo e Silva – Centro Dom Vital, Rio, 1823.

 



domingo, 23 de março de 2025

Bilionários se preparam para o fim da civilização

 


A pandemia do coronavírus disparou a oferta e demanda de 'bunkers' projetados para enfrentar o apocalipse, com os endinheirados gurus do Vale do Silício como principais instigadores.

 

 

—Alô?

—Até que enfim, senhor DeMarest. Escute-me bem. O senhor precisa estar no aeródromo de Saint-Rémy em 16 minutos.

—Como? O quê? E que horas são?

—8h34. Estamos tentando entrar em contato com o senhor e sua esposa há três horas para evacuá-los.

No terceiro episódio da festejadíssima série francesa L’Effondrement (”O colapso”), um bilionário protagoniza uma corrida contra o relógio para pegar um avião exclusivo para fugir da falência da civilização tal como a conhecemos. O capítulo mostra o instinto de sobrevivência e a falta de escrúpulos desse membro do afortunado 1% da humanidade, uma reflexão que a ficção amplia no sétimo capítulo narrando a angustiante odisseia de uma mulher, ministra neste caso, tentando chegar a uma ilha onde pode encontrar refúgio. Apesar de ser uma série distópica, sua abordagem do comportamento das elites em um potencial colapso da civilização está longe da pura ficção científica. A crise do coronavírus, juntamente com a ameaça do terrorismo e da mudança climática, aumentou o medo das classes privilegiadas e cada vez mais pessoas apostam em estar preparadas para um possível apocalipse, disparando rapidamente a demanda por bunkers e refúgios. De Vale do Silício a Wall Street, passando por Marbella, é assim que os ricos estão se preparando para o fim do mundo.

“Isto é como um seguro de vida ou um seguro de carro, você espera nunca ter de usá-los, mas se tiver de fazê-lo, são muito valiosos”. Com estas palavras tenta racionalizar sua rede de refúgios subterrâneos Dance Vicino, diretor-executivo da The Vivos Group, uma das empresas líderes do setor e que ele prefere qualificar de “projeto humanitário épico de sobrevivência”. Por e-mail, Vicino confirma ao EL PAÍS o boom por desse tipo de serviço, aumentando as vendas em até 400% ao ano. Veículos de comunicação como o Los Angeles Times confirmam que as pesquisas e as vendas de refúgios nos Estados Unidos dispararam desde o início da crise sanitária: “Desinfetante para as mãos? Certamente. Máscaras? Está bem. Mas, à medida que o coronavírus se propaga, os ricos estão investindo de uma maneira muito mais extrema para evitar a doença: bunkers”.

Chamada de survivalismo, esta corrente deixou para trás os arquétipos de fanáticos religiosos ou eremitas excêntricos para se deslocar para os escritórios mais poderosos de Vale do Silício ou de Wall Street. CEOs de empresas de tecnologia e investidores decidiram se preparar ativamente para uma hecatombe do sistema, talvez alentados pelas recentes imagens de brigas em supermercados por rolos de papel higiênico antes da quarentena. O cofundador do LinkedIn, Reid Hoffman, disse à The New Yorker que estima que 50% dos bilionários de Vale do Silício já tenham um bunker ou esconderijo preparado ao redor do mundo para o caso de o apocalipse acontecer e afirmou que “comprar uma casa na Nova Zelândia é algo como ‘piscar os olhos’, não é preciso dizer mais nada”.

Vicino confirma que o público interessado na Vivos tem cada vez mais capacidade econômica e nos últimos meses avaliou a construção de um resort com apartamentos subterrâneos de luxo em Marbella. Esse complexo será composto por residências de cerca de 200 metros quadrados e terá um sistema de filtragem de ar, piscina, academia e até um cinema para assistir Mad Max ou Filhos da esperança enquanto o mundo cai em pedaços. Atualmente têm centenas de refúgios em lugares como a Alemanha ou Dakota do Sul, Estado em que construíram uma comunidade do tamanho de Manhattan. “Muitos Governos do mundo têm enormes bunkers militarizados para seus oficiais e suas elites, mas não para o resto de nós. Eles não têm nenhum plano para salvá-lo se a extinção começar. A Vivos tem!”, clama. O preço de cada unidade, sem equipar nem mobiliar, ronda os 30.000 euros (cerca de 184.000 reais), mais outros mil por ano a título de aluguel.

Imagem do episódio ‘O aeródromo’ da série ‘O colapso’. FOTO: FILMINTHE VIVOS GROUP

O influente investidor em tecnologia e o cofundador do PayPal, Peter Thiel, é um dos principais instigadores dessa corrente profilática nascida em Vale do Silício. O alemão, que apoiou publicamente Donald Trump e que destruiu um veículo de comunicação (o site Gawker) como vingança por um artigo que afirmava que era homossexual, comprou um terreno de 200 hectares para seu refúgio apocalíptico na Nova Zelândia, país que considera “uma utopia”:”O que que se alinha melhor ou com a minha visão do futuro”, disse. Thiel conseguiu a cidadania neozelandesa em apenas duas semanas e muitos outros tentaram seguir seus passos. Nos dois dias seguintes à eleição presidencial de 2016 que deu a vitória ao imprevisível Donald Trump, as pesquisas dos norte-americanos sobre como conseguir a nacionalidade kiwi aumentaram 14% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Mais de 13.000 solicitações foram registradas.

Embora donos de uma riqueza tão imensa que qualquer investimento —por mais louco que possa parecer— seja insignificante na demonstração de resultados, talvez os motivos por trás dessa crescente paranoia não respondam unicamente a uma questão meramente preventiva ou recreativa. John W. Hoopes, professor de Antropologia da Universidade do Kansas, diz no The New York Times que o sucesso da corrente responde à “fantasia hipermasculina” de que apenas alguns poucos escolhidos e suas famílias se salvarão do perigo iminente. “O medo vende melhor que o sexo. Se você pode fazer com que as pessoas tenham medo, pode vendê-las todo tipo de coisa e isso inclui os bunkers”, conclui. Vicino parece estar inscrito nessa estratégia de marketing. “As pessoas sentem que o inferno está chegando, da Coreia do Norte e do Oriente Médio até uma potencial Terceira Guerra Mundial com a Rússia e a China”, afirma, adiantando também futuras “pragas, asteroides ou o colapso econômico total”.

THE VIVOS GROUP

A bíblia do radicalismo libertário, que o próprio Thiel qualificou como o livro que mais o influenciou em sua carreira, chama-se O indivíduo soberano: Como sobreviver e prosperar durante o colapso do Estado de Bem-Estar. Publicada em 1997 e escrito por James Dale Davidson e William Rees-Mogg, a obra já aponta a Nova Zelândia como refúgio perfeito para observar o fim da civilização como a conhecemos. Segundo os autores, a Internet e a consolidação das criptomoedas porão fim neste milênio nos “criminosos Estados-nação” e uma “elite cognitiva” se elevará acima da “fraude democrática”. Sem Governos nem impostos, é claro. Em declarações à Vanity Fair, um amigo próximo do guru reconhece o desejo deste de “comprar seu próprio país” e afirma ter oferecido até cem bilhões de dólares para torná-lo realidade. Sam Altman, outro bilionário de Vale do Silício, confirmou que ele e Thiel “tinham preparado um plano para fugir ao país” em caso de um colapso mundial.

THE VIVOS GROUP

E por que criar a nova humanidade na terráquea Nova Zelândia podendo fazê-lo a partir do planeta vermelho? Precisamente, um dos sócios fundadores do PayPal ao lado de Thiel se erigiu como outro dos super-ricos mais obcecados em estar pronto diante do juízo final. Elon Musk, CEO da Tesla, não apenas vaticinou em várias ocasiões o fim do mundo, como pode se vangloriar de ter criado todo um império empresarial para tentar buscar uma saída ao possível apocalipse. “É inegável que desde a mudança climática (com a ênfase de Tesla em reduzir o uso de combustíveis fósseis) até a maligna inteligência artificial (com a Neuralink) e a ameaça de uma guerra global que desencadeie o caos (o plano de fuga para Marte da Space X), Musk está preparando uma parte da humanidade para o cataclismo vindouro e tentando evitá-lo”, disse o jornalista Jonathan Sieber depois de assistir a uma conferência do guru da tecnologia no festival South by Southwest em 2018. O fundador do Facebook, Mark Zuckeberg, tampouco foge desse utópico investimento financeiro e já em 2016 vários meios de comunicação publicaram que tinha construído um bunker perto de sua mansão em Palo Alto, Califórnia.

Piscina comunitária da rede de 'bunkers' da Vivos.THE VIVOS GROUP

Segundo o site Finder, até 20% dos norte-americanos fizeram alguma forma de provisão pensando no fim do mundo. Vicino nega que a maioria de seus clientes pertença à elite. “São pessoas bem-educadas e informadas, de classe baixa, média ou alta, que têm a responsabilidade de proteger suas famílias durante estes tempos potencialmente catastróficos”, deixando claro que seu objetivo é oferecer esconderijos acessíveis a todos. O tempo de construção desses majestosos planos B pode variar de três a doze meses, dependendo da localização e do tamanho, e contam com pelo menos um ano de autonomia energética sem precisar sair à superfície. Esperemos que jamais se tornem o plano A.

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