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sábado, 25 de maio de 2024

FINALMENTE, O POVO SE MANIFESTA DE UMA FORMA MAIS AUTÊNTICA

 


Verifica-se, hoje, uma tendência geral de descaracterizar o poder estatal, mas com vistas a outra ideia revolucionária, que é o caos. Vê-se em várias partes do mundo uma grande quantidade de governos ilegítimos e sem pulso, deixando alguns países a deriva, como ocorre no Brasil.

A partir de certa época, as ideias constitucionalistas conseguiram impor suas concepções utópicas nas leis, especialmente nas constituições dos povos do Ocidente. Dentre as principais utopias propagadas está a de que o Estado é soberano sobre tudo e sobre todos. E tais princípios vêem de longa data, tendo se iniciado com o tempo dos chamados reis absolutistas, algum dos quais dizia que ele era o próprio Estado.

E assim, hoje vemos toda uma sociedade acreditando e apoiando tais ideias. Segundo elas, o Estado é responsável por toda a vida social, é o tutor de todos os direitos e obrigações sociais. Deste modo está dito, por exemplo, em nossa Constituição que compete ao Estado dar saúde, educação e emprego a todos. Não só isso: chegaram a alguns absurdos, em certos países, de dotar o Estado de supremos poderes sobre as famílias, as instituições sociais, etc. Tudo passa a depender do governo, fazendo com que aquele que deve gerir e administrar seja o mesmo que detenha todas as obrigações, inclusive as mais simples possível.

Ora, não é correto dizer que compete ao Estado cuidar de minha saúde; compete, em primeiro lugar, a mim mesmo cuidar de minha saúde e de minha educação; se, por acaso, eu não o puder, aí devo recorrer à minha família; e se esta não dispor de recursos suficientes, devo recorrer aos amigos, aos parentes, aos que me cercam mais de perto, aquela sociedade que nos aproxima do Estado, mas não é ele ainda. Somente quando todos recursos forem insuficientes, numa ação chamada de subsidiariedade, o Estado deve intervir. Ele não é senhor absoluto de tudo. É uma utopia e grande mentira afirmar isso.

Esta panaceia do poder absoluto do Estado está sendo desmascarada pelo próprio povo. E isso ocorre agora no Rio Grande do Sul. Perante uma grande catástrofe o próprio povo está procurando superar seu drama, ora procurando ajuda dos familiares, dos amigos e vizinhos próximos, ora de empresários ou de pessoas abnegadas que se oferecem voluntariamente para socorrer as vítimas. E onde está o governo? Cadê o Estado para socorrer a tais necessitados? É claro que ele está presente, mas incapaz de solucionar todos os problemas como pretendem alguns republicanos constitucionalistas.

Se aquele povo acreditasse no poder absoluto do Estado e simplesmente estivesse esperando o socorro deste, não imagino em que situação estaria hoje!

Monsenhor Henri Delassus o denunciou em célebre obra, as origens de tais ideias do poder absoluto do Estado:

“A teoria de J. J. Rousseau sobre as origens da sociedade, sua constituição racional, o que ela será quando o contrato social tiver produzido suas consequências, não permaneceu em estado especulativo. Faz um século que nós nos aproximamos a cada dia do termo que ele designou para nós, no qual não haverá mais propriedade, nem família, nem Estado independente, nem Igreja autônoma. Sobre o lugar que as ruínas produzidas pela Revolução deixaram livre, Napoleão I construiu, “com areia e cal, diz Taine, a nova sociedade, segundo o plano traçado por J. J. Rousseau. Todas as massas da grande obra, Código Civil, universidade, Concordata, administração municipal e centralizada, todos os detalhes da arrumação e da distribuição concorrem para um efeito de conjunto que é a onipresença do governo, a abolição da iniciativa local e privada, a supressão da associação voluntária e livre, a dispersão gradual dos pequenos grupos espontâneos, a interdição preventiva das longas obras hereditárias, a extinção dos sentimentos pelos quais o homem vive além dele mesmo, no passado e no futuro”.

Mais adiante, escreveu:

“Se o curso das coisas atuais não tivesse suas fontes no passado longínquo, poderíamos apavorar-nos menos, acreditar que não há em tudo isso senão fatos acidentais. Mas não é assim. O estado atual, repleto do futuro que acabamos de descrever, é o produto natural de uma ideia, lançada como um grão sobre nosso solo há cinco séculos. Ela germinou. Vimos seus primeiros rebentos sair da terra; eles foram cultivados secreta e cuidadosamente por uma sociedade que, já por várias vezes, serviu ao mundo seus frutos prematuramente colhidos; hoje ela os vê chegar à maturação: frutos de morte que carregam a corrupção para os próprios fundamentos da ordem social.

A França revolucionária recebeu do Poder das Trevas a missão de manifestar ao mundo aquilo que a Renascença concebeu, aquilo que a franco-maçonaria criou. Parece que se quis simbolizá-lo nas moedas. Essa mulher desgrenhada, com o barrete frígio à cabeça, que, sob os auspícios da República, lança a todos os ventos os grãos da liberdade, da igualdade e da fraternidade, sob os raios de um sol levante chamado para aclarar o mundo com um dia novo, bem representa a maçonaria que confia a todos os sopros da opinião as idéias que preparam os espíritos para a aceitação da nova ordem, ordem que há tanto tempo ela projeta estabelecer no mundo”.

 

(Tradução extraída da obra “La Conjuration Antichrétienne – Le Temple Maçonique voulant s’élever sur les ruines de l’Église Catholique” – Mons. Henri Delassus – tomo 2   págs. 551/564)

 

Vejam texto completo de minha postagem sobre o assunto: “O ESTADO, SENHOR SOBERANO DE TODAS AS COISAS?”

https://quodlibeta.blogspot.com/2019/05/o-estado-senhor-soberano-de-todas-as.html

 

 


quinta-feira, 7 de julho de 2022

PAPEL DO ESTADO NUMA SOCIEDADE ORGÂNICA

 



O tema acima nos veio à mente a propósito das inúmeras medidas, todas de caráter socialista ou socializantes, que os governos europeus vêm tomando nos últimos dias a fim de superar a crise econômica e financeira que lhes assalta até o momento. Essa crise é decorrente de um amontoado de leis que dão ao Estado prerrogativas cada vez mais absorventes de toda a sociedade. Para comprovar que o socialismo está na base desta crise, basta lembrarmos que as principais nações que a sofrem têm forte influência (ou são governadas) por partidos socialistas (No caso, especialmente a Espanha e a Grécia: a primeira, vítima de vários anos de domínio do PS, e a última que é ainda governada por eles). A idéia do “Estado Previdenciário”, muito cara ao PS europeu, está levando aqueles países à falência... O problema da guerra entre a Ucrânia e a Rússia é lembrado como um dos principais fatores do acirramento dessa crise nos últimos dias, mas ela seria menos intensa e maléfica se leis socialistas não vigorassem nos países europeus.

E a mentalidade que domina a Europa está bastante disseminada em todas as outras nações do mundo. É muito comum nos dias atuais a ideia de que o Governo, ou o Estado, deve resolver todos os problemas sociais. Com base nessa premissa, todas, ou quase todas, as constituições modernas elegem o Estado como senhor absoluto das vidas dos cidadãos. Nessas constituições consta a consigna “compete ao Estado”, seguida de atribuições verdadeiramente extrapolativas das funções de um regime político ou de um Estado organizado.  “Compete ao Estado...”, dizem, resolver todos os problemas de saúde, de educação, de trabalho, enfim, tudo o que diz respeito ao bem estar da população. E chega a tal ponto que o programa paradigmático dos políticos modernos consta de metas utópicas e até demagógicas, como alguns deles que pretendem, por exemplo, erradicar a pobreza ou a miséria.

Para que se entenda como esta ideia está enraizada em nossa população, vamos analisar o texto abaixo, extraído de uma obra de Amélia Rodrigues[1].  Trata-se de um fato tirado do conto “Mestra e Mãe”, no qual ela mostra uma personagem como modelo de exemplar professora, uma verdadeira “mãe” nos cuidados com suas pupilas. O debate abaixo surgiu por ocasião da construção da escola do lugarejo imaginado pela escritora, quando a Autora pôs em destaque o choque entre duas mentalidades:  a estatólatra[2] (de um comerciante do lugar),  que julga o Estado como pairando superior a todos os cidadãos, e a da sociedade orgânica (defendida pelo pároco, que representa a voz da Igreja).

O pároco chama-se Padre Martins, e o comerciante Sr. Botelho.

“Quando se fez encomenda de vidraças para as janelas ao Sr. Botelho, que sempre andava em viagens para a capital, saiu-se ele com uma observação: - que deviam fazer economias. Vidraças era luxo inteiramente dispensável.

O padre Martins franzia a testa. O Sr. Botelho pareceu-lhe pequeno, do tamanho de um mosquito, com aquela avareza.

- Não é luxo, meu caro amigo. Diga-me o que há de fazer durante as aulas, quando a chuva açoitar? Ou queremos escola ou não a queremos. Se queremos, que seja tão completa quanto nos for possível.  Ou então não façamos nada. Que diria o Sr. de um alfaiate que lhe encurtasse as mangas ao casaco para poupar-lhe um pedaço de pano? Que era idiota, sem dúvida nenhuma. E eu ainda tenho planos. Há de ver, se Deus nos der vida e saúde, como isto irá ficando bonito pouco a pouco.

- Mas o que estamos fazendo já é bastante, é mesmo demasiado para escola de aldeia.

- Escola de aldeia! Ora, valha-nos Deus. Então as crianças da aldeia valem menos que as da cidade? Os sertanejos não têm os mesmos deveres a cumprir, reclama-se menos deles que dos outros? Não. Portanto, as exigências do ensino devem ser igualmente atendidas em todos os lugares, tanto quanto isso for possível. É da mais elementar justiça.

- Sim, quando o governo é quem cuida dele . Aqui o caso é outro. Que o estado faça e deva fazer liberalidades: a iniciativa privada não é obrigada a tanto.

Já não era a primeira vez que o Sr. Botelho se manifestava contra o que chamava – os desperdícios do padre Martins. Este passou a mão pela cabeleira branca, sinal nele de que precisava apelar para a paciência.

- Diante do serviço da pátria, Sr. Botelho, tanta obrigação tem o governo como o cidadão, e quando o cidadão pode mais deve fazer mais. Ainda mesmo – vou mais longe – ainda mesmo que eu saiba que o governo pode e não quer, se estiver ao meu alcance o melhoramento exigido devo fazê-lo, devo tentá-lo, sob pena de não ser patriota. Uma comparação. Se uma mulher desnaturada abandonar o filhinho na estrada, deverá o Sr. deixá-lo morrer lá, porque a mãe, que era a única obrigada a criá-lo, o desampara? Com certeza não. Pois é o mesmo, na minha humilde opinião. Quem nada pode fazer não é obrigado a coisa alguma, mas quem pode, deve contribuir no limite de suas forças para o bem geral, ou então não é digno do nome de cidadão. Será um parasita que só aproveita e nada produz.

- Os particulares pagam impostos para ter escolas e etc., Sr. Cura. Logo, já fizeram o seu dever, produzem, e terão somente que exigir.

- Isto é um sofisma anti-patriótico. A renda do país não chega para prover todas as necessidades do ensino, sabemos disso; e, porque o rico paga um imposto, deve cruzar os braços indiferente, deve passar descuidoso, aqui ou acolá, pelas escolas paupérrimas, desprovidas de tudo, as escolas, os ninhos dos cidadãos futuros, - donde sairia uma geração nova de brasileiros dignos de sua pátria se as elevassem à altura de sua missão, - esperando que o governo faça tudo?... Não, meu amigo, isso não é amar o Brasil! Imagine que cada ricaço protegia a escola de sua freguesia, que se interessava pelo progresso dela, que dotava-a de melhoramentos... Uma coisa belíssima! Daqui a dez anos estaria mudada a face do país.

O Sr. Botelho não ficou convencido. Vão lá convencer a coruja a que adeje de dia pelas cumeadas brilhantes das montanhas! O Sr. Botelho era um egoísta. Só olhava para dentro do bolso. Ele, sua família e acabou-se. Como por vaidade ou para não fazer figura feia tinha dado alguma coisa para a edificação da escola, receava que a despesa fosse longe e que se visse obrigado a desembolsar ainda.

Porém não teve remédio senão aceitar a encomenda das vidraças, com intenção feita de cobrar mais do que lhe custassem. E o Sr. Botelho era um homem bem apessoado, bonito, olhar altivo e seguro, que não tinha cara de velhaco e passava por homem de bem!”

Como se viu acima, a escritora caracterizou bem o homem fanático pela supremacia do Estado sobre o indivíduo, verdadeiro estatólatra. O Sr. Botelho é um comerciante, um homem que só pensa em si, no dinheiro, um sujeito securitário que não quer dar do que é seu para ajudar a comunidade onde vive (a não ser o suficiente para viver) – para ele, seu imposto deve bastar para o Estado resolver tudo, como num passe de mágica! Eis a mentalidade do homem moderno... que está resumida nessa frase do comerciante: “Os particulares pagam impostos para ter escolas e etc., Sr. Cura. Logo, já fizeram o seu dever, produzem, e terão somente que exigir”.

Com base neste pensamento, vamos exigir que o governo não somente construa escolas, mas também hospitais, creches, transportes, estradas, ruas, esgotos sanitários, enfim, tudo aquilo que se exige para vivermos em sociedade. E, com base nesta obrigatoriedade do Estado provir a tudo, cruzemos os braços e esperemos que as providências sejam tomadas! E isso incentiva a esquerda impor seus programas de controle social sobre toda a sociedade, além de leis antinaturais e criminosas como as do aborto e tantas outras lesivas aos interesses sociais, mas alegadas como protetivas da sociedade.

O Princípio de Subsidiariedade

Não é essa a filosofia da verdadeira convivência política e social. O princípio defendido pela Igreja chama-se “Princípio de Subsidiariedade”, pelo qual o governo só deve intervir onde o cidadão, seja por si mesmo ou através de sua família e de suas organizações sociais, não puder realizar. O governo subsidia, auxilia, socorre, é elemento suplementar e organizador da sociedade, e não o único e exclusivo responsável pela solução dos problemas sociais. Foi este erro que gerou o estado socialista, absorvente e que suprimiu as liberdades individuais no decorrer do século passado. É o mesmo erro que está levando a Europa para a bancarrota generalizada, junto à qual irão os Estados Unidos da América e todo o resto do mundo civilizado se não forem tomadas medidas que façam com que o Estado intervenha menos e deixe a sociedade por si mesma solucionar seus problemas.

Este princípio (da subsidiariedade do Estado) foi exposto na Encíclica “Quadragésimo Anno”, do Papa Pio XI (de 15.5.1931), da seguinte forma:

“...assim, como é injusto subtrair aos indivíduos o que eles podem realizar com a própria iniciativa e indústria, para o confiar à coletividade, do mesmo modo passar para uma sociedade maior e mais elevada o que sociedades menores e inferiores podiam conseguir, é uma injustiça, um grave dano e perturbação da boa ordem social. O fim natural da sociedade e da sua ação é coadjuvar os seus membros, e não destruí-los nem absorvê-los.

“...Persuadam-se todos os que governam de quanto mais perfeita ordem hierárquica reinar entre as várias agremiações, segundo este princípio da função “supletiva” dos poderes públicos, tanto maior influência e autoridades terão estes, tanto mais feliz e lisonjeiro será o estado da nação”.

 

A mesma doutrina foi defendida por Pio XII:

“...Sua função [do Estado], sua magnífica função é, pelo contrário, favorecer, auxiliar, promover a íntima coalizão, a cooperação ativa no sentido de uma unidade mais elevada de membros que, ao mesmo tempo que respeitam sua subordinação ao fim do Estado, provêm do melhor modo ao bem de toda a comunidade, precisamente na medida em que conservam e desenvolvem seu caráter particular e natural. Nem o indivíduo, nem a família devem ser absorvidos pelo Estado. Cada um conserva e deve conservar a própria liberdade de movimentos, desde que ela não crie o risco de causar prejuízo ao bem comum.[3]

 



[1] Notável escritora e dedicada educadora católica, nascida a 26 de maio de 1861 na localidade chamada Oliveira dos Campinhos, na época pertencente ao município de Santo Amaro, Bahia, e falecida a 22.8.1926 em Salvador(BA).

[2] “Estatolatria” – neologismo surgido recentemente: veneração, adoração pelo poder do Estado.

[3] Discurso ao Congresso Internacional das Ciências Administrativas. 5.8.1950.


quinta-feira, 16 de maio de 2019

O ESTADO, SENHOR SOBERANO DE TODAS AS COISAS?





O Templo que a maçonaria quer edificar, segundo o plano que J. J. Rousseau traçou no seu “Contrato Social”, é pois,  o Estado soberano, senhor de todas as coisas, nele absorvendo todos os direitos, assim os dos indivíduos como os da família, os das associações como os da Igreja.
Aí está, dir-se-á, uma utopia e uma pretensão tão monstruosas quanto irrealizáveis. Não para os maçons; para os revolucionários é o ideal, e um ideal em direção ao qual nos fazem caminhar a largos passos.
J.J. Rousseau disse que em virtude do contrato social – que ele imagina estar na base da sociedade, contrariamente à história e contrariamente à natureza humana, que nada podem fazer – todos os homens pertencem totalmente à coletividade, suas pessoas e suas forças , seus direitos e seus bens. É o que os maçons querem realizar; é exatamente a isso que a Revolução quer chegar; e isso e somente isso que pode dar a explicação do modo de ser e de agir do Estado contemporâneo relativamente a tudo e a todos. Em todas as coisas ele se esmera em restringir os direitos individuais: seu desígnio é suprimi-los inteiramente.
Antes de tudo e sobretudo, o cidadão não tem o direito de ser cristão. “Nada, diz Taine, interpretando o pensamento fundamental do Contrato Social, nada é mais contrário ao espírito social do que o cristianismo...  Uma sociedade de cristãos não seria mais uma sociedade de homens, porque A PÁTRIA DO CRISTÃO NÃO É DESTE MUNDO”. É necessário reconduzir o cristão aqui para baixo, é preciso limitar seus pensamentos à busca dos interesses terrenos, é preciso que ele pertença por inteiro à sociedade à qual ele foi dado por inteiro. Assim, vê-se o católico tratado como inimigo do Estado maçônico.
O cidadão não tem o direito de ser proprietário. Tudo o que ele tem, assim como tudo o que ele é, tornou-se um bem social. Assim, vemos o direito de propriedade desaparecer pouco a pouco ante as usurpações do socialismo de Estado. Os impostos crescem e se multiplicam sem cessar. A utilidade pública expropria com uma consciência a cada diz mais leviana. As leis ensaiam a repartição dos ganhos entre patrões e empregados. O Estado age como parte financeiramente interessada nas vendas e doações, e sobretudo nas sucessões. Ele fala agora em impostos sobre o rendimento e em impostos progressivos, destinados a nivelar as propriedades, e igualar as fortunas, ou melhor, a fazer com que o Estado se torne o único proprietário.  Já no século XVIII ele se apossou de toda a propriedade eclesiástica, e hoje mesmo ele põe a mão sobre aquela que foi reconstituída no século passado. Amanhã se apoderará da mesma maneira dos instrumentos de trabalho: minas, fábricas, campos, tudo será nacionalizado.[i]
Não são somente os bens que o Estado reivindica, como pertencentes á coletividade, mas as forças de cada um: “Cada membro da sociedade pertence a ela, ele e todas as suas forças”. Será preciso também, sob esse aspecto, que o Estado chegue a atribuir a cada um as funções que ele deverá exercer na sociedade, sob sua vigilância e em seu benefício. Os monopólios do Estado, que vão da instrução pública à fabricação do fumo e dos fósforos, e o funcionalismo que pouco a pouco se estende a tudo, constituem um encaminhamento rumo a essa escravidão universal.
Para alcançar esse fim, importa sobretudo apoderar-se das forças nascentes, das gerações que surgem. Assim, a primeira preocupação do Estado revolucionário é se apossar da infância.[ii] “As crianças, dizia Danton, pertencem à República antes de pertencerem a seus pais; o egoísmo dos pais poderia ser perigoso para a República. Eis porque a liberdade que lhes deixamos não vai ao ponto de educarem seus filhos de outra maneira que não segundo a nossa vontade”; e Jules Ferry, no discurso que pronunciou em 1879 para obter a aprovação do famoso artigo VII: “Existe um pai de família que os compreende a todos: é o Estado”. Temos ouvido essas palavras serem repetidas à saciedade depois que novos projetos de lei querem colocar em absoluta segurança os preceptores e as “preceptoras” encarregados pelo Estado de introduzir nas almas juvenis os dogmas maçônicos.
É exatamente sob esse ponto de vista do direito exclusivo do Estado sobre toda a juventude que vemos o Estado moderno se colocar. Sua legislação estudou-a melhor, apertou-a mais, suas leis mais intangíveis são aquelas que tendem a suprimir toda liberdade de ensino, a reuni-la sob a férula do Estado, a abandonar à sua educação  as crianças de todas as famílias, da escola dita maternal às faculdades. Inicialmente, é de seu interesse formar as vontades através das quais ele perdura, preparar os votos que o manterão, implantar nas almas as paixões que lhe será favoráveis, idéias que secundarão a construção do Templo. Não tem ele o dever de petrificar as gerações, de modo a torná-las aptas ao mais perfeito funcionamento do pacto social? “A educação nas regras prescritas pelo soberano (pelo povo soberano) é uma das máximas fundamentais do governo popular”, diz J. J. Rousseau. É através dela que se forma o cidadão, “é ela que deve dar às almas uma forma nacional”; “as boas instituições nacionais são aquelas que melhor sabem desnaturar o homem, esvaziar sua existência absoluta para dar-lhe uma existência relativa a transportar o eu para a unidade comum”.[iii]
Desnaturar o homem! Que palavra poderia melhor exprimir o que a seita pretende, o que ela faz nas escolas do Estado?
Para conseguir realizar seu desígnio sem muita oposição, ela começou por dar à juventude a instrução gratuita, hoje ela acrescentou a isso a alimentação e o vestuário, assim nos colégios como nas escolas primárias, esperando com isso ter os interesses como seus cúmplices.
Não se diga que o direito que a Igreja recusa ao Estado Ela o reivindique para Si própria. Não, a Igreja respeita os direitos da liberdade natural a ponto de que se um pai, uma mãe não pertencem, pelo batismo, à Sua jurisdição, Ela se considera como que impedida de intervir na educação da criança até que ela alcance a idade de se pronunciar segundo sua própria consciência. A Igreja considera como um atentado contra o direito natural a educação do filho menor na religião cristão contra a vontade expressa  de seus pais não batizados. Ela não permite que se o batize. E mesmo quando o filho católico de pais católicos chega á maioridade, Ela não o admite à profissão religiosa sem a permissão deles, se ele lhes é necessário ao sustento.
O Estado maçônico compreende que as crianças não poderão ser completamente dele enquanto tiver abolido a família; enquanto ela subsistir, o grito da natureza protestará contra a sua intrusão. Por esta razão ele tende à supressão do casamento. Segundo o pensamento dos sectários, o casamento civil e o divórcio são etapas que devem conduzir ao amor livre, e por conseguinte ao Estado, único pai nutrício, único educador das gerações vindouras.
A abolição da família, a supressão da propriedade, o aniquilamento da Igreja e o sufocamento de qualquer associação que não seja o Estado, “todos esses artigos, diz Taine, são conseqüências forçosas do contrato social. No momento em que, entrando num corpo, eu não reservo nada de mim mesmo, somente por isso renuncio a meus bens, a meus filhos, à minha Igreja, às minhas opiniões. Deixo de ser proprietário, pai, cristão, filósofo. É o Estado que me substitui em todas essas funções. No lugar da minha vontade há a vontade pública, quer dizer, em teoria, o arbítrio rígido da assembléia, da fração, do indivíduo que detém o poder”.
Tal é o “Templo” que a maçonaria está construindo; nele ela já nos fez entrar, passo a passo, antes de concluí-lo; nele ela pretende abrigar as gerações vindouras e a humanidade inteira.
O empreiteiro que assumiu a construção desse Templo foi o regime parlamentar. O povo soberano escolheu delegados, investiu-os de todo o poder. Eles se reúnem, a maioria é tida como expressão da vontade geral, e essa vontade faz lei. Essa lei pode atingir tudo; e em todas as coisas ela cria o direito, sem considerar quem ou o que quer que seja, nem mesmo Deus, nem mesmo as exigências da natureza humana.
Há já um século, para construir esse Templo, diz Taine, fizeram três mil decretos; e para pô-los em vigor substituíram o governo da força pelo governo da lei. O cadafalso presidiu a reedificação da sociedade, àquilo que tinha sido chamado de “renovação do princípio da existência humana”.
As coisas não acontecerão de maneira diferente se a nova experiência, a que assistimos, for levada até o fim. O alemão que foi o doutor dos jacobinos e que se conservou como doutor dos maçons, traçou perfeitamente o caminho que aqueles seguiram e no qual estes estão engajados.
No ritual que Weishaupt  compôs para as cerimônias de iniciação nos diversos graus do iluminismo, ele faz dizer ao iniciado através de Hierofante:[iv]
“Ó irmão, ó meu filho, quando, aqui reunidos, longe dos profanos, nós consideramos a que ponto o mundo está entregue aos maus (aos soberanos e aos padres), poderíamos contentar-nos em suspirar? – Não, irmão, apoiai-vos em nós. Procurai colaboradores fiéis; eles estão nas trevas (nas sociedades secretas); é aí que, solitários, silenciosos, ou reunidos em círculos pouco numerosos, crianças dóceis, eles levam avante a GRANDE OBRA, conduzidos por seus chefes...
“Os padres e os príncipes resistem a esse grande projeto; temos contra nós as constituições políticas dos povos. Que fazer nesse estado de coisas?,... É necessário atar insensivelmente as mãos dos protetores da desordem (os reis e os padres) e governá-los sem parecer dominá-los. Numa palavra, é preciso estabelecer um regime dominador universal, sob forma de governo, que se estenda sobre todo o mundo... É preciso, pois, que todos os nossos irmãos, educados da mesma maneira, estreitamente ligados uns aos outros, não tenham senão um mesmo objetivo. Ao redor dos Poderes da terra é preciso agrupar uma legião de homens infatigáveis, e dirigindo por toda a parte seus trabalhos, seguir o plano da ordem para a felicidade da humanidade”.[v]
E em outro lugar: “Como o objeto de nosso desejo é a revolução universal, todos os membros dessas sociedades (secretas) que tendem ao mesmo fim, apoiando-se uns aos outros, devem procurar dominar invisivelmente e sem aparência de meios violentos, não a parte mais eminente ou a menos distinta de um só povo, mas os homens de qualquer estado, de todas as nações, de todas as religiões. Soprar por toda a parte o mesmo espírito; no maior silêncio e com toda a atividade possível, dirigir todos os homens esparsos sobre toda a face da terra em direção ao mesmo objetivo. Uma vez estabelecido esse império pela união e pela multidão dos adeptos, que a força suceda ao império invisível; atai as mãos de todos os que resistem, subjugai a maldade em seu germe, esmagai tudo o que resta de homens que não tiverdes podido convencer”.  (Barruel, t. III, cap. II e IX)
Foi exatamente assim que o compreenderam os homens de 93. Jean-Bon-Saint-André dizia que “para estabelecer solidamente a República era necessário reduzir a população à metade”. Geoffrey julgava que isto era insuficiente: ele queria deixar na França apenas cinco milhões de cidadãos. “É preferível fazer da França um cemitério a não regenerá-la segundo nosso modo”, dizia Carrier. Eles fizeram dela um cemitério e não puderam regenerá-la à maneira deles. O insucesso não desencorajou seus sucessores. “A França regenerada, diz o I:. Buzot, ainda não alcançou o grau de perfeição que exigem as doutrinas da franco-maçonaria e o gênio dos filósofos. Mas o movimento foi dado, ARREBATADOR, IRRESISTÍVEL; A GRANDE OBRA SE REALIZARÁ”  (“Tableau Philosophiqu, Historique et Moral de la Franc-Maçonnerie”).Eles pretendem realizá-la não somente na França, mas no mundo inteiro. “É preciso, disse Weishaupt, estabelecer um dominador universal, uma forma de governo que se estenda sobre todo o mundo”. Eles trabalham para isso, como veremos. Esse regime dominador cujo estabelecimento eles buscam, chamam-no de regime da democracia, ou república universal.
A teoria de J. J. Rousseau sobre as origens da sociedade, sua constituição racional, o que ela será quando o contrato social tiver produzido suas conseqüências, não permaneceu em estado especulativo. Faz um século que nós nos aproximamos a cada dia do termo que ele designou para nós, no qual não haverá mais propriedade, nem família, nem Estado independente, nem Igreja autônoma. Sobre o lugar que as ruínas produzidas pela Revolução deixaram livre, Napoleão I construiu, “com areia e cal, diz Taine, a nova sociedade, segundo o plano traçado por J. J. Rousseau. Todas as massas da grande obra, Código Civil, universidade, Concordata, administração municipal e centralizada, todos os detalhes da arrumação e da distribuição concorrem para um efeito de conjunto que é a onipresença do governo, a abolição da iniciativa local e privada, a supressão da associação voluntária e livre, a dispersão gradual dos pequenos grupos espontâneos, a interdição preventiva das longas obras hereditárias, a extinção dos sentimentos pelos quais o homem vive além dele mesmo, no passado e no futuro. Nessa caserna filosófica – nesse TEMPLO, dizem os maçons – nós vivemos há oitenta anos”. (“La Révolution”, III, p. 635) A grande obra avança, ela terminará tanto melhor quanto sua continuação está nas mãos da multidão e de seus mandatários, quer dizer, dos cegos e dos irresponsáveis.
O indivíduo recua diante das últimas conseqüências de seus erros quando ele vê onde eles o conduzem. Um povo entregue a si mesmo, como é todo povo submisso ao regime republicano, não pode fazê-lo. São os mais lógicos que se fazem ouvir pelas multidões, sobretudo quando essa lógica está de acordo com as paixões e promete à massa a posse dos bens que ela cobiça: são estes que o sufrágio universal leva ao poder. E se os que chegam primeiro se espantam e não ousam realizar o programa, são suplantados por outros, e por outros ainda, até que venham aqueles que resolutamente se entregam ás grandes obras que os princípios condenam. Já vimos os oportunistas varridos pelos radicais; estes desaparecem diante do socialistas, e do seio do socialismo se levantam os anarquistas, os niilistas e os catastrophards”.[vi]
Winter, no seu livro “Le Socialisme Contemporain”, faz uma observação  cujo bom fundamento ninguém pode negar.
“Retirai Deus e a vida futura, e o homem sem Deus se acha colocado, com suas paixões, em face da vida mortal, com a desigualdade das condições e a desigualdade do prazer. Esse homem pedirá o banquete da vida que suas paixões reclamam. Ele sentirá as barreiras que a sociedade atual, baseada sobre a fé em Deus e na vida futura, opõe às suas paixões; ele se irritará contra o obstáculo; e o ódio social, com todos os ódios que o acompanham, entrará na sua alma”. Em quantos corações esse ódio ruge atualmente! Ele incita as massas a se precipitarem, tão logo isso possa ser feito, sobre o que resta da ordem social! E isso por toda a Europa, e não somente no Velho Mundo, nas Américas e na Oceania; e não somente entre os miseráveis, mas entre os intelectuais! Basta citar Elisée Reclus na França, Karl Marx na Alemanha, Bakounine e o príncipe Krapotkine na Rússia, Most nos Estados Unidos, etc., etc. Todos são concordes em dizer que o dogma da soberania do povo exige: 1º uma revolução política, que leva ao poder as massas populares através do sufrágio universal; 2º uma revolução econômica, que introduzirá a propriedade comum; 3º uma revolução democrática, que suprimirá os pais e entregará os filhos à República. [vii]
Caminhamos para isso.
Qual o homem inteligente que não se aterroriza com as ruínas já amontoadas em toda a ordem de coisas, e que, ouvindo os clamores de súcias prestes a se lançarem sobre o que resta da ordem social, não levante,  na hora atual, essas terríveis questões:
Os bens que o Criador colocou à disposição dos homens, mas que o trabalho, a ordem, a temperança, a economia repartiram entre as famílias, serão ainda amanhã propriedade dos que assim os adquiriram, ou serão universalmente possuídos pelo Estado, que distribuirá seus frutos segundo as leis que lhe aprouver fazer?
Amanhã haverá ainda, entre o homem e a mulher, casamento, quer dizer, contrato passado sob o olhar de Deus e por Ele sancionado, união sagrada e indissolúvel? Haverá ainda a família com a possibilidade de transmitir a seus filhos não somente seu sangue, mas sua alma e seus bens?
Amanhã, que será da França? No que se transformará a Europa? Reduzida a estado de poeira pela democracia não será ela uma presa fácil para a franco-maçonaria internacional e judaica que caminha para a conquista do mundo, e já calcula o número de anos ainda necessários para fazer de todos os Estados uma República universal?
Eis o que está sendo preparado pelo movimento das idéias e dos fatos que povoam os espíritos  dos quais somos testemunhas.
Se o curso das coisas atuais não tivesse suas fontes no passado longínquo, poderíamos apavorar-nos menos, acreditar que não há em tudo isso senão fatos acidentais. Mas não é assim. O estado atual, repleto do futuro que acabamos de descrever, é o produto natural de uma idéia, lançada como um grão sobre nosso solo há cinco séculos. Ela germinou. Vimos seus primeiros rebentos sair da terra; eles foram cultivados secreta e cuidadosamente por uma sociedade que, já por várias vezes, serviu ao mundo seus frutos prematuramente colhidos; hoje ela os vê chegar à maturação: frutos de morte que carregam a corrupção para os próprios fundamentos da ordem social.
A França revolucionária recebeu do Poder das Trevas a missão de manifestar ao mundo aquilo que a Renascença concebeu, aquilo que a franco-maçonaria criou. Parece que se quis simbolizá-lo nas moedas. Essa mulher desgrenhada, com o barrete frígio à cabeça, que, sob os auspícios da República, lança a todos os ventos os grãos da liberdade, da igualdade e da fraternidade, sob os raios de um sol levante chamado para aclarar o mundo com um dia novo, bem representa a maçonaria que confia a todos os sopros da opinião as idéias que preparam os espíritos para a aceitação da nova ordem, ordem que há tanto tempo ela projeta estabelecer no mundo.

 (Tradução extraída da obra “La Conjuration Antichrétienne – Le Temple Maçonique voulant s’élever sur les ruines de l’Église Catholique” – Mons. Henri Delassus – tomo 2   págs. 551/564)
Dados sobre os principais personagens acima citados:

Jean-Jacques Rousseau, ou, J. J. Rousseau, principal filósofo da Revolução Francesa, é autor do ensaio “Contrato Social”, obra que até hoje serve de base para constituições políticas de vários países republicanos.
Taine, ou Hippolyte Adolphe Taine, escritor francês, expoente do positivismo no século XIX; crítico e historiador, tem várias obras ditas filosóficas em que analisa o processo revolucionário e histórico, dentre outras a série Les Origines de la France contemporaine.
Jules Ferry, jornalista e político francês do século XIX, maçom e republicano,  positivista (seguidor de Comte) e anticlerical, chegou a ser ministro da educação, ocasião em que laicizou o ensino na França. Perseguiu a Igreja conseguindo dissolver a Companhia de Jesus.
Danton – Georges Jacques Danton, advogado, político revolucionário fanático, foi um dos principais instigadores das turbas que agitaram Paris a partir de 1789.
Adam Weishaupt ,  racionalista e iluminista alemão, jurista, é considerado o fundador da seita secreta gnóstica chamada “Iluminati”. Foi iniciado na loja maçônica “Theodor zum guten Rath”, de Munique. Seu projeto previa que os “Iluminati” clareassem a compreensão pelo sol da razão, assim dissipando as nuvens da superstição e do preconceito.
Jean-Bom-Saint-André, político revolucionário de 1789 na França; era jesuíta, mas tornou-se protestante e chegou a ser pastor. Teve várias atuações revolucionárias, ora moderadas, ora avançadas, recebendo missões até no exterior, já no tempo de Napoleão.


Piotr Alexeyevich Kropotkin, nasceu príncipe, mas rejeitou o título de nobreza, escritor e geógrafo, foi um dos criadores do anarquismo (em 1868), juntamente com Bakunin, daí surgindo, também, o anarco-comunismo.
Mikhail Aleksandrovitch Bakunin, teórico político, acompanhou Kropotkin como um dos principais expoentes do anarquismo. A tese era de um comunismo mais avançado do que a ditadura do proletariado, com a total ausência de governo.

NOTAS:



[i] É de se notar que a franco-maçonaria não mais hesita em se declarar socialista e mesmo coletivista. O I:. Bonnardot, que foi nomeado, em 1901, Grâo-Mestre da Grande Loja da França, propôs ao Congresso das Lojas do Centro, realizado em Cien, em 1894, em nome da 3ª Comissão, fosse proclamado o princípio da propriedade coletiva. Seu relatório foi submetido à consideração da Convenção do esmo ano. A maior parte das lojas parisienses tornou-se socialista-reformista. A grande maioria das lojas dos Departamentos seguiram-nas; um certo número já é coletivista. O próximo programa de ação da franco-maçonaria, para nos cingirmos apenas á loja La Fidélité de Lille, foi assim definido por seu orador, em 8 de julho de 1900:”Combatemos todas as idéias teológicas; há ainda um deus a combater, o deus capital”. (Ver a petição contra a franco-maçonaria, na 11ª Comissão de Petições da Câmara dos Deputados, PP. 51 e 75).
[ii] “As crianças do sexo masculino são educadas, dos cinco aos dezesseis anos, pela pátria. São vestidas em todas as estações. Deitam sobre esteiras e dormem oito horas. São alimentadas em comum com raízes, frutas, laticínios, pão e água. Não comem carne antes de dezesseis anos completos. Dos dez aos dezesseis anos sua educação é militar e agrícola. São distribuídas em companhias de sessenta, etc. Todas as crianças conservarão o mesmo traje até os dezesseis anos; dos dezesseis aos vinte e um, terão traje de operário; de vinte e um a vinte e seis, traje de soldado, se não forem magistrados”. (Projeto de lei segundo as instruções de Saint-Just).
Em 12 de abril de  1903, no Congresso das Lojas da África do Norte (Argélia), os II:. Collin e Marchetti exprimiram este desejo:
“Que um dispositivo, assim concebido, seja acrescentado ao Código Civil: Proibições formais serão feitas aos pais ascendentes ou que tenham quaisquer direitos, de dar ou ensinar a seus filhos, pupilos ou descendentes uma religião, qualquer que seja, SOB PENA DE DESTITUIÇÃO DO PÁTRIO PODER e de poder legal. E que em caso de infração, devidamente verificada, os filhos, pupilos ou descendentes, sejam retirados ou confiados ao Estado, às custas dos pais ou ascendentes”.
No ano precedente, na Convenção de Paris, uma loja da França, a Themis, tinha emitido um desejo pouca coisa diferente:
“Quando uma criança, de oito anos completos ou mais, não estiver freqüentando a escola, os pais e pessoas responsáveis poderão ser destituídos do pátrio poder”.
Condorcet foi o primeiro a oferecer à Assembléia Legilativa, em 1792, um plano de educação nacional. Sob a Convenção outros em grande número o seguiram. Os mais conhecidos são os planos de Saint-Just, Lakamal, Michel Lepelletier, este acolhido e apresentado à Convenção por Robespierre. Meninos e meninas deviam ser educados em comum até a idade de onze e doze anos, às expensas da República, sob a Santa lei da igualdade.
[iii] J. J. Rousseau, citado por Taine, L’ancien Régime, p. 324.
[iv] Hierofante é o termo usado para designar os sacerdotes da alta hierarquia dos mistérios da Grécia e do Egito. É o sacerdote supremo, que pode ser chamado também de Sumo Sacerdote.  
[v] A felicidade a que o iluminismo deve fazer chegar a humanidade está assim exposta nesse mesmo discurso: “A fonte das paixões é pura; é necessário que cada qual possa satisfazer as suas nos limites da virtude e que nossa ordem forneça os meios para isso”. A virtude! A felicidade da humanidade! Basta que a seita abra a boca para que dela logo saiam a hipocrisia e a mentira.
[vi] “Catastrophards” é o nome que a si mesmo deram, perante o Tribunal de Sena, aqueles que fizeram a revolta de 2 de março de 1901.
[vii] Em outubro de 1882 inaugurou-se um grupo escolar em Ivry-Sur-Seine. Entre os assistentes “oficiais” contava-se grande número de representantes das lojas maçônicas. O I:. C. Dreyfus pronunciou a alocução; nela encontramos estas palavras:”É a franco-maçonaria que prepara as soluções que a democracia faz triunfar. Assim como nossos gloriosos ancestrais de 1789 inventaram a igualdade civil dos homens perante a lei (sabemos como ela é praticada), assim como nossos antecessores de 1848 realizaram a igualdade política dos cidadãos perante a urna do sufrágio universal, assim a maçonaria deve preparar, para o fim do século XIX, a igualdade social, que restabelecerá o equilíbrio de forças econômicas e trará de volta a união e a concórdia para o seio de nossa sociedade dividida”. (Citado pelo “Le Monde” de 4 de outubro de 1882).  Estamos, pois, na Revolução econômica; a democrática, que deve segui-la e que entregará as crianças, de corpo e alma, à República, está bem avançada.