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terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

DESTAQUE DE MULHERES BRASILEIRAS NA “BELLE ÉPOQUE” EUROPÉIA

 





         A propósito de artigo estampado na revista “Dr. Plínio” deste mês (fev/2023), com um resumo da vida de Madre Francisca do Rio Negro, ou Madre Francisca de Jesus, damos a seguir os dados de duas personalidades femininas brasileiras que se destacaram, uma como símbolo de nobreza e a outra de santidade.

É natural que sejam poucas as mulheres brasileiras de destaque na Europa, por ser o Brasil uma nação jovem, de cultura recente, e que somente a partir do século XIX começou a mostrar uma elite emergente.  Oriundas das famílias aristocráticas bafejadas pela monarquia, destacamos aqui duas somente: a condessa Maria Eugênia Monteiro de Barros e a Fundadora religiosa Francisca Carvalho do Rio Negro, filha do Barão do Rio Negro, cujo nome religioso era Madre Francisca de Jesus.

O Brasil, país jovem e governado por uma família imperial muitas vezes aliada matrimonialmente à casa real francesa, não podia escapar à regra geral. Na corte brasileira falava-se freqüentemente o francês, os convites e menus eram feitos nesse idioma, o que acabou tornando moda entre a aristocracia brasileira enviar os filhos a Paris em busca de cultura, educação e status social. Alguns voltaram ao Brasil, procurando trazer para cá o melhor que podiam da cultura francesa; outros, porém, de lá mesmo envidavam esforços no mesmo sentido.

Foi o caso da Condessa Romana Maria Eugênia (título agraciado pela Santa Sé), nascida a 13 de novembro de 1848, no Rio de janeiro, casada com um dos chamados “barões do café”, Carlos Monteiro de Barros. Seguindo o exemplo de seus irmãos e parentes, seu esposo rumou para as terras roxas do Oeste paulista, explorando a fazenda São Carlos, no município de Pirassununga. Logo, porém, D. Eugênia ficou viúva e resolveu transferir sua residência para Paris. Tornou-se uma pessoa muito bem relacionada na França – onde posou para o fotógrafo “Nadar” – alcunha do maior retratista do século XIX, Gaspar Félix Toumachon. No estúdio particular daquele fotógrafo também passaram figuras ilustres do calibre dos compositores eruditos Listz, Rossini e Berliotz, da atriz Sara Bernadete, do escritor Victor Hugo, do ilustrador Gustave Doré, entre outros. D. Maria Eugênia já era amiga intima da Condessa D’Eu, a Princesa Isabel.

Embora morando na França, a Condessa Monteiro de Barros projetou a construção de uma igreja dedicada ao Sagrado Coração de Jesus num povoado brasileiro que ainda estava nascendo. Financiou inteiramente o projeto de construção da igreja, que somente foi concluída em 29 de dezembro de 1922, quando não era mais viva. Em 9 outubro de 1888, convidadas pela Condessa em nome da sociedade carioca, aportaram no Brasil as primeiras religiosas do Colégio Nossa Senhora do Sion, fundado na França pelos sacerdotes católicos Teodoro e Afonso Ratisbonne (convertidos por intercessão de Nossa Senhora das Graças), irmãos e filhos de uma rica família de judeus de Estrasburgo.  Inicialmente, abriram um pequeno e modesto catecumenato para meninas judias, de famílias pobres, com o intuito de instruí-las e educá-las na fé cristã. Para viabilizar o projeto, contaram com a ajuda de duas senhoras que tinham acabado de fechar uma instituição de ensino conhecida pela educação esmerada de meninas da alta sociedade francesa. Mais tarde, por influencia de um padre, surge a idéia de fundar um colégio. Várias famílias da aristocracia insistiam para que suas filhas estudassem no lugar. E foi assim que se fundou o Colégio Sion de Paris (que D. Maria Eugênia conhecia muito bem), primeiro de uma longa série que acabou se espalhando pelo mundo. Coube à Condessa Monteiro de Barros entabular negociações com aquelas freiras para abrir um colégio no Brasil, obtendo completo êxito.

Madre Francisca de Jesus viveu grande parte da sua vida já no início do século XX. No entanto, toda a sua educação é oriunda ainda dos reflexos da “Belle Époque”.  Nasceu a 27 de março de 1877, no Rio de Janeiro. Era a penúltima dos dez filhos do barão e baronesa do Rio Negro. Desde criança, alimentou uma religiosidade profunda e mesmo mística. Era muito jovem quando seus pais se estabeleceram em Paris, onde aprimorou mais ainda sua já refinada educação.  Tinha pouco mais de quinze anos de idade quando foi inspirada por Deus a fazer, de uma forma particular, votos de perpétua virgindade. Isto lhe custou lutas ingentes, tanto com sua família como até mesmo com seu confessor, pois todos desejavam ardentemente que ela aceitasse um vantajoso casamento. Esta luta durou mais de 14 anos, quando então seu pai a dispensou para seguir a vida religiosa.

No entanto, não lhe era propício o ingresso numa ordem religiosa. Madre Francisca tinha sonhos mais altos de uma vocação maior, a de ser uma fundadora.  E esta graça brilhou para ela quando fez uma viagem ao Brasil, em 1909: em seu retorno, procurou ousadamente uma audiência com o Papa (São Pio X), pedindo-o conselho sobre seu plano de fundar uma congregação religiosa dedicada exclusivamente à prece e imolação pelo Santo Padre. Apesar de todos os pareceres contrários, tanto de familiares quanto de seu confessor, conseguiu a sonhada audiência com o Papa, realizada no dia 13 de dezembro de 1910.

Para surpresa de todos, o Papa recebeu-a benignamente em audiência particular, assistida pelo Cardeal espanhol Vives y Tuto. Mais uma surpresa esperava a todos: o Papa não só aprovou seu plano como a encorajou e exprimiu-lhe o desejo de que sua congregação fosse instalada ali mesmo em Roma, e que as intenções de suas imolações e orações fossem não só pelo Santo Padre mas por todos os sacerdotes da Igreja.

Obtida a anuência do Papa, Madre Francisca deu início à sua congregação, que teve o nome de “Companhia da Virgem”. Ela pretendia fundar uma Ordem que fosse como que o ramo feminino da Companhia de Jesus. Após anos de ingentes esforços, finalmente em 1918 seu pequeno grupo de religiosas adquire a primeira casa de recolhimento e a 12 de junho de 1921 era fundado o primeiro mosteiro da nova Congregação, situado em Roma como pediu o Papa. Seguiu a Regra de São Bento. Atualmente, tem um mosteiro no Brasil, em Petrópoles.

Tal foi a grandeza da Obra realizada por Madre Francisca de Jesus que sua vida mereceu uma hagiografia escrita pelo grande teólogo Reginaldo Garrigou-Lagrange, um dos expoentes da luta contra o Modernismo e seu último diretor espiritual, onde também o Autor transcreve os escritos místicos da Madre, considerada uma vítima expiatória pelo papado.  [1]

Deixou escrito para suas filhas espirituais alguns conselhos sobre a Virgindade Consagrada.

Os informes acima buscamos num resumo do texto de Garrigou-Lagrange feito pelo Dr. Plínio Corrêa de Oliveira.[2]



[1] Vide “Madre Francisca de Jesus”, de Reginaldo Garrigou-Lagrange, Editora “Santa Maria”, 1932

[2] Legionário, 381, de 31 de dezembro de 1939 e revista “Dr. Plínio” n. 299, de fevereiro de 2023




segunda-feira, 26 de setembro de 2022

OS CASTOS SEGUEM O CORDEIRO DE DEUS PARA ONDE QUER QUE ELE VÁ

 




Os castos terão um lugar especial reservado para eles no Céu Empíreo. É desta forma que São João fala deles no Apocalipse:

“Olhei, e eis que o Cordeiro estava de pé sobre o monte de Sião e com ele cento e quarenta e quatro mil que tinham escrito sobre suas frontes o nome dele e o nome de seu Pai. Ouvi uma voz do céu, como o rumor de muitas águas e como o estrondo de um grande trovão. A voz que ouvi, era como de tocadores de citara que tocavam as suas cítaras. Cantavam um cântico novo diante do trono, diante dos quatro animais e dos anciãos. Ninguém podia cantar este cântico, senão aqueles cento e quarenta e quatro mil, que foram resgatados da terra. Estes são os que não se contaminaram com mulheres, porque são virgens. Estes seguem o Cordeiro onde quer que ele vá. Estes foram resgatados dentre os homens como primícias para Deus e para o Cordeiro, e na sua boca não se achou mentira, porque estão sem mácula diante do trono de Deus.   (Apoc 14, 1-5).

A propósito, transcrevemos abaixo um texto publicado por Reginaldo Garrigou-Lagrange, O.P., extraído das anotações de uma Fundadora, Madre Francisca de Jesus, mística brasileira que fundou a Companhia da Virgem sob o beneplácito de São Pio X. A exemplo de Santo Inácio de Loyola, Madre Francisca de Jesus fundou também sua “Companhia”, inteiramente feminina e destinada exclusivamente a rezar pelo Papa e pelo Clero:

“A festa da encantadora santinha romana, uma de nossas mais caras Padroeiras, é particularmente propícia a uma palestra sobre a virgindade. O seu próprio nome evoca esta lembrança: Inez significa “cordeiro” da palavra latina “agnus”. Quem não terá experimentado, à vista de um cordeirinho, uma impressão de doçura, candor e pureza? O cordeiro era uma das vítimas escolhidas, ofertadas a Deus em holocausto pelos sacerdotes do Antigo Testamento. Conheceis o “Cordeiro” assim figurado: Aquele a Quem na Santa Missa diariamente invocais por três vezes com esse nome, o que apaga os pecados do mundo, e do qual dizia São João Batista: “Ecce Agnus Dei, ecce tollit peccata mundi”;  Aquele, enfim, que sendo o Cordeiro de Deus – os outros eram apenas cordeiros dos homens – é a única Vítima pura, santa e imaculada; a única Vítima digna de Deus.

“O Sacrifício do Cordeiro de Deus perdura sempre. Deus tomou posse de sua Vítima no Calvário e dele se apoderou uma vez por todas.

“A Vítima se imolará dia por dia em nossos altares, de modo incruento embora, até ao fim dos tempos.

“No céu Ela permanecerá eternamente!

Quando em Patmos, arrebatado em espírito, São João viu na Jerusalém celeste um “cordeiro que parecia ter sido imolado”...

“O Cordeiro divino, Nosso Senhor Jesus Cristo, é o ponto central para onde tudo converge: desse ponto culminante tudo nos vem e para ele tudo se dirige. Todas as coisas por Ele nos vêm e só por Ele podemos chegar a Deus.

“Foi figurado na Antiga Aliança; é imitado na Lei Nova.

“Somente em vista de seu Sacrifício, real, completo, perfeito, é que Deus aceitava as oblações, que apenas fraca e pobremente o figuravam; é ainda só em consideração desse mesmo Sacrifício que Ele aceita as nossas homenagens, orações, pobres ofertas, e se digna recompensá-las à medida de nosso amor.

“Até ao fim imitou Inez o Cordeiro de Deus, motivo pelo qual se acha entre aqueles que São João contemplou a ocupar lugar especial: “Vi sob o altar as almas do que foram imolados por causa do Verbo de Deus e do testemunho por eles dado”.

“Inez colheu a palma do martírio na flor de sua virgindade, eis a razão de achar também entre aqueles que, segundo a palavra do mesmo São João, “não se tendo maculado, acompanham o Cordeiro por toda parte”.

“Ainda criança, a santa já compreendera a graça da virgindade e a ventura de ser toda de Jesus. “Pertencerei Àquele, repetia aos que para desposá-la procuravam afastá-la do seu noivo divino, pertencerei Àquele que me amou primeiro”, designando assim o que, sendo Deus e homem, a amara desde toda a eternidade.

“A virgindade é em si graça mui preciosa; nem a todos é dado compreendê-la: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”, disse o Mestre muito amado; a fidelidade em conservá-la e desenvolvê-la, traz consigo ainda maiores graças. É tal a misericórdia do nosso Deus que a correspondência a uma graça outras atrai.

“Dest’arte a fidelidade de Inez a seu Esposo, que era também seu Deus, lhe mereceu a graça do martírio.

“Não foi também essa fidelidade que valeu a Maria tornar-se Mãe de Deus?

“A Sagrada Escritura diz que o Messias nasceria de uma Virgem. Maria, conservando a virgindade, preparava, sem o suspeitar, a vinda do Salvador.  O Autor de toda virgindade só de uma Virgem podia nascer. Fazendo-se homem, o Verbo devia a si próprio o ornar sua Mãe com essa flor dos céus, antes de a oferecer a qualquer outra criatura.

“Mãe de Deus e Virgem perpétua, Maria arrastou após si o inumerável cortejo de almas que, renunciando aos laços terrestres, aspiram à união divina simbolizada por essas núpcias. Sem diminuir de modo algum a dignidade do matrimônio, deve-se afirmar com os Santos Padres e o Concílio de Trento ser mais perfeito o estado virginal (Oh! Não há motivo para orgulho, pois se o estado é mais perfeito em si, os indivíduos o podem ser menos).

“Que é a virgindade? É a virtude que eleva as criaturas, adstritas ainda à condição dos mortais, até à semelhança dos Anjos.

“A virgindade perfeita é a abstenção de tudo o que não é Deus, ou por outras palavras: a integridade completa da obra de Deus em sua criatura. Para defender essa integridade (com a qual Deus nos dotou, dando-nos a vida da natureza e da graça) é preciso lutar, combater até ao último suspiro. A pobre natureza humana prende-se facilmente a tantas coisas capazes de atrair-lhe o espírito e o coração!

“Como poderá ser virgem a religiosa que escuta as inspirações do erro deixando-se seduzir pela linguagem do demônio, sem mais respeito pela autoridade? Como se conservará virgem a religiosa cuja consciência esteja manchada pelos estigmas de funestas doutrinas? Se a virgem destinada ao Esposo celeste deve apresentar-lhe o coração livre de qualquer pensamento mundano, a fim de lhe agradar e merecer o seu amor, poderá acaso conservar a graça da virgindade aquela que traz o coração cheio de pensamentos de independência ou contrários à caridade?

“Não, sem dúvida; embora haja conservado a pureza do corpo, a parte mais íntima e bela do ser, a alma, não deixará de assim perder a candura virginal.

“E que importa permanecer de pé as paredes exteriores do templo, estando o santuário destruído ou profanado?

“Que importa os véus e hábitos resplandecentes de brancura se o espírito está maculado?

“Deus perscruta os corações e não se detém no exterior. Aliás, a corrupção da alma destrói também a pureza de corpo. Esses juízos ocultos e temerários, gerados pelo espírito de independência e orgulho, não permanecem no fundo do coração onde nascem; saem para mancar a boca que os exprime e os ouvidos que os escutam; insinuam-se como mortal veneno e logo multiplicam suas devastações...  Agradável ao Senhor é a virgem que desde este mundo procura seguir por toda parte o Cordeiro;  são as veredas por vezes abruptas, escarpadas, mas por todas passou Ele primeiro. Aliás o Bem-Amado está sempre presente estendendo a mão protetora, à medida da generosidade da alma.  Doçura, paciência, mortificação, obediência, humildade, humildade, humildade;  eis os adornos da esposa de Cristo.

“Minhas queridas filhas, não vos orgulheis nem vos glorieis jamais de vossa virgindade. Temei antes diminuir o brilho dessa angélica virtude que alegra o  coração de Deus.

“Guardamos tesouro mui precioso em vaso de extrema fragilidade.

“Dai graças a Deus por esse tesouro e acautelai-vos com mil precauções:  sede atentas, prudentes, vigilantes.  Jesus, no entanto, vos deseja atentas sem constrangimento, prudentes sem dureza, vigilantes sem escrúpulos. Encha o vosso coração sincera caridade, e sede por amor fiéis à santa observância;  dilate esse amor a vossa alma e uma casta liberdade vos regule os atos. Caminhai com grande amor na presença do Bem-Amado que será vosso Juiz.

“Suplicai-Lhe guarde Ele próprio o precioso tesouro que vos confiou, e sua doce Mãe, que é vossa Mãe a tantos títulos o guardará também.

“Conheço as vossas almas e corações; pertencem plenamente a Deus, a seu Cristo, à sua Igreja. É ainda graça muito superior aos vossos méritos; bendizei a Deus muitas vezes, repetindo-Lhe – pura verdade! – que sem Ele nada podeis. A ação de graças será nova graça: de nós, minhas queridas filhas, só temos o pecado...

“Domo poderíamos então – sem estarmos loucas – ter sequer a tentação de nos gloriar dessa preciosa graça da virgindade! Estejamos bem certas de que só a possuímos por mera liberalidade de Deus, cuja misericórdia para conosco é infinita.  Esforcemo-nos por ser dignas, ou antes, o menos indignas possível, de tanto amor e predileção.  Se fordes fiéis, Ele usará para convosco de prodigalidade real, divina. Tão poucos Lhe são verdadeiramente fieis!

“O Senhor gostaria que a virgindade fosse virtude comum a todos os homens”, diz São João Crisóstomo, e esse desejo nos é atestado nestas palavras do Apóstolo ou antes de Cristo, que por sua boca fala: “Quisera, diz ele, que todos os homens fossem castos e puros assim como sou”. Deus, porém, é indulgente para conosco; sabe que se o espírito é pronto, a carne é fraca. Não testemunhou esse desejo sob a forma imperiosa do preceito, deixando-nos a liberdade de realizá-lo ou de a ele nos subtrair.

“Há, no entanto, convites instantes da parte de nosso Deus e esses convites Ele não os dirige do mesmo modo a toda a humanidade...

“Para com as almas que chama à Sua intimidade, mostra-se insistente, suplicante, e lhes revela com tão grande luz o radioso esplendor da virgindade, que imediatamente elas se apaixonam pela bela virtude, preferindo mil mortes a dela serem privadas.

“Conheceis todas o apelo do Mestre; vós o sentistes mendigando o vosso amor... e como Tiago e João tudo deixastes para segui-Lo.  Teríeis julgado dar-Lhe alguma coisa? Não, também neste caso vós é que recebestes.

“Bem pequenina é a nossa parte:  não fechar a porta ao seu Amor: eis tudo.

Sei que a Deus abris completamente a entrada de vosso espírito, de vosso coração, minhas queridas filhas, e quanto o Bendigo!

“Sede generosas! Jamais recueis, o que não seria digno d’Aquele que vos escolheu”.

“Só Deus, hóspede dos corações puros e amigo das almas sem man-cha,vos pode elevar pela santa virgindade até à semelhança dos Anjos.

“No que vos toca, nada Lhe deveis recusar; Ele fará o resto. Há de guardar-vos e abençoar-vos, a fim de que, permanecendo sempre virgens sob as vestes de Santa Maria, Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, vos apliqueis de contínuo a fazer o que é digno de recompensa.

“Tomai vossas medidas, minhas queridas filhas, para que no grande dia do Juízo tenhais na mão a lâmpada cintilante...

“Deus não vos faltará e se lhe fordes fiéis sereis daquelas que em companhia de Santa Inez seguirão por toda parte o Cordeiro”. (“Madre Francisca de Jesus”, de Reginaldo Garrigou-Lagrange, Tip. Beneditina Santa Maria, págs. 127/135)

 (Extraído de “A FELICIDADE ATRAVÉS DA CASTIDADE”, págs.62/66 – Desejando receber o texto integral desta obra, favor enviar mensagem para o email juracuca@gmail.com – Juraci Josino Cavalcante)

 

 


segunda-feira, 20 de maio de 2019

OS CASTOS SEGUEM O CORDEIRO DE DEUS PARA ONDE QUER QUE ELE VÁ





Os castos terão um lugar especial reservado para eles no Céu Empíreo. É desta forma que São João fala deles no Apocalipse:
“Olhei, e eis que o Cordeiro estava de pé sobre o monte de Sião e com ele cento e quarenta e quatro mil que tinham escrito sobre suas frontes o nome dele e o nome de seu Pai. Ouvi uma voz do céu, como o rumor de muitas águas e como o estrondo de um grande trovão. A voz que ouvi, era como de tocadores de citara que tocavam as suas cítaras. Cantavam um cântico novo diante do trono, diante dos quatro animais e dos anciãos. Ninguém podia cantar este cântico, senão aqueles cento e quarenta e quatro mil, que foram resgatados da terra. Estes são os que não se contaminaram com mulheres, porque são virgens. Estes seguem o Cordeiro onde quer que ele vá. Estes foram resgatados dentre os homens como primícias para Deus e para o Cordeiro, e na sua boca não se achou mentira, porque estão sem mácula diante do trono de Deus.   (Apoc 14, 1-5).
A propósito, transcrevemos abaixo um texto publicado por Reginaldo Garrigou-Lagrange, O.P., extraído das anotações de uma Fundadora, Madre Francisca de Jesus, mística brasileira que fundou a Companhia da Virgem sob o beneplácito de São Pio X. A exemplo de Santo Inácio de Loiola, Madre Francisca de Jesus fundou também sua “Companhia”, inteiramente feminina e destinada exclusivamente a rezar pelo Papa e pelo Clero:
“A festa da encantadora santinha romana, uma de nossas mais caras Padroeiras, é particularmente propícia a uma palestra sobre a virgindade. O seu próprio nome evoca esta lembrança: Inez significa “cordeiro” da palavra latina “agnus”.  Quem não terá experimentado, à vista de um cordeirinho, uma impressão de doçura, candor e pureza? O cordeiro era uma das vítimas escolhidas, ofertadas a Deus em holocausto pelos sacerdotes do Antigo Testamento. Conheceis o “Cordeiro” assim figurado: Aquele a Quem na Santa Missa diariamente invocais por três vezes com esse nome, o que apaga os pecados do mundo, e do qual dizia São João Batista: “Ecce Agnus Dei, ecce tollit peccata mundi”;  Aquele, enfim, que sendo o Cordeiro de Deus – os outros eram apenas cordeiros dos homens – é a única Vítima pura, santa e imaculada; a única Vítima digna de Deus.
“O Sacrifício do Cordeiro de Deus perdura sempre. Deus tomou posse de sua Vítima no Calvário e dele se apoderou uma vez por todas.
“A Vítima se imolará dia por dia em nossos altares, de modo incruento embora, até ao fim dos tempos.
“No céu Ela permanecerá eternamente!
Quando em Patmos, arrebatado em espírito, São João viu na Jerusalém celeste um “cordeiro que parecia ter sido imolado”...
“O Cordeiro divino, Nosso Senhor Jesus Cristo, é o ponto central para onde tudo converge: desse ponto culminante tudo nos vem e para ele tudo se dirige. Todas as coisas por Ele nos vêm e só por Ele podemos chegar a Deus.
“Foi figurado na Antiga Aliança; é imitado na Lei Nova.
“Somente em vista de seu Sacrifício, real, completo, perfeito, é que Deus aceitava as oblações, que apenas fraca e pobremente o figuravam; é ainda só em consideração desse mesmo Sacrifício que Ele aceita as nossas homenagens, orações, pobres ofertas, e se digna recompensá-las à medida de nosso amor.
“Até ao fim imitou Inez o Cordeiro de Deus, motivo pelo qual se acha entre aqueles que São João contemplou a ocupar lugar especial: “Vi sob o altar as almas do que foram imolados por causa do Verbo de Deus e do testemunho por eles dado”.
“Inez colheu a palma do martírio na flor de sua virgindade, eis a razão de achar também entre aqueles que, segundo a palavra do mesmo São João, “não se tendo maculado, acompanham o Cordeiro por toda parte”.
“Ainda criança, a santa já compreendera a graça da virgindade e a ventura de ser toda de Jesus. “Pertencerei Àquele, repetia aos que para desposá-la procuravam afastá-la do seu noivo divino, pertencerei Àquele que me amou primeiro”, designando assim o que, sendo Deus e homem, a amara desde toda a eternidade.
“A virgindade é em si graça mui preciosa; nem a todos é dado compreendê-la: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”, disse o Mestre muito amado; a fidelidade em conservá-la e desenvolvê-la, traz consigo ainda maiores graças. É tal a misericórdia do nosso Deus que a correspondência a uma graça outras atrai.
“Dest’arte a fidelidade de Inez a seu Esposo, que era também seu Deus, lhe mereceu a graça do martírio.
“Não foi também essa fidelidade que valeu a Maria tornar-se Mãe de Deus?
“A Sagrada Escritura diz que o Messias nasceria de uma Virgem. Maria, conservando a virgindade, preparava, sem o suspeitar, a vinda do Salvador.  O Autor de toda virgindade só de uma Virgem podia nascer. Fazendo-se homem, o Verbo devia a si próprio o ornar sua Mãe com essa flor dos céus, antes de a oferecer a qualquer outra criatura.
“Mãe de Deus e Virgem perpétua, Maria arrastou após si o inumerável cortejo de almas que, renunciando aos laços terrestres, aspiram à união divina simbolizada por essas núpcias. Sem diminuir de modo algum a dignidade do matrimônio, deve-se afirmar com os Santos Padres e o Concílio de Trento ser mais perfeito o estado virginal (Oh! Não há motivo para orgulho, pois se o estado é mais perfeito em si, os indivíduos o podem ser menos).
“Que é a virgindade? É a virtude que eleva as criaturas, adstritas ainda à condição dos mortais, até à semelhança dos Anjos.
“A virgindade perfeita é a abstenção de tudo o que não é Deus, ou por outras palavras: a integridade completa da obra de Deus em sua criatura. Para defender essa integridade (com a qual Deus nos dotou, dando-nos a vida da natureza e da graça) é preciso lutar, combater até ao último suspiro. A pobre natureza humana prende-se facilmente a tantas coisas capazes de atrair-lhe o espírito e o coração!
“Como poderá ser virgem a religiosa que escuta as inspirações do erro deixando-se seduzir pela linguagem do demônio, sem mais respeito pela autoridade? Como se conservará virgem a religiosa cuja consciência esteja manchada pelos estigmas de funestas doutrinas? Se a virgem destinada ao Esposo celeste deve apresentar-lhe o coração livre de qualquer pensamento mundano, a fim de lhe agradar e merecer o seu amor, poderá acaso conservar a graça da virgindade aquela que traz o coração cheio de pensamentos de independência ou contrários à caridade?
“Não, sem dúvida; embora haja conservado a pureza do corpo, a parte mais íntima e bela do ser, a alma, não deixará de assim perder a candura virginal.
“E que importa permanecer de pé as paredes exteriores do templo, estando o santuário destruído ou profanado?
“Que importa os véus e hábitos resplandecentes de brancura se o espírito está maculado?
“Deus perscruta os corações e não se detém no exterior. Aliás, a corrupção da alma destrói também a pureza de corpo. Esses juízos ocultos e temerários, gerados pelo espírito de independência e orgulho, não permanecem no fundo do coração onde nascem; saem para mancar a boca que os exprime e os ouvidos que os escutam; insinuam-se como mortal veneno e logo multiplicam suas devastações...  Agradável ao Senhor é a virgem que desde este mundo procura seguir por toda parte o Cordeiro;  são as veredas por vezes abruptas, escarpadas, mas por todas passou Ele primeiro. Aliás o Bem-Amado está sempre presente estendendo a mão protetora, à medida da generosidade da alma.  Doçura, paciência, mortificação, obediência, humildade, humildade, humildade;  eis os adornos da esposa de Cristo.
“Minhas queridas filhas, não vos orgulheis nem vos glorieis jamais de vossa virgindade. Temei antes diminuir o brilho dessa angélica virtude que alegra o  coração de Deus.
“Guardamos tesouro mui precioso em vaso de extrema fragilidade.
“Dai graças a Deus por esse tesouro e acautelai-vos com mil precauções:  sede atentas, prudentes, vigilantes.  Jesus, no entanto, vos deseja atentas sem constrangimento, prudentes sem dureza, vigilantes sem escrúpulos. Encha o vosso coração sincera caridade, e sede por amor fiéis à santa observância;  dilate esse amor a vossa alma e uma casta liberdade vos regule os atos. Caminhai com grande amor na presença do Bem-Amado que será vosso Juiz.
“Suplicai-Lhe guarde Ele próprio o precioso tesouro que vos confiou, e sua doce Mãe, que é vossa Mãe a tantos títulos o guardará também.
“Conheço as vossas almas e corações; pertencem plenamente a Deus, a seu Cristo, à sua Igreja. É ainda graça muito superior aos vossos méritos; bendizei a Deus muitas vezes, repetindo-Lhe – pura verdade! – que sem Ele nada podeis. A ação de graças será nova graça: de nós, minhas queridas filhas, só temos o pecado...
“Domo poderíamos então – sem estarmos loucas – ter sequer a tentação de nos gloriar dessa preciosa graça da virgindade! Estejamos bem certas de que só a possuímos por mera liberalidade de Deus, cuja misericórdia para conosco é infinita.  Esforcemo-nos por ser dignas, ou antes, o menos indignas possível, de tanto amor e predileção.  Se fordes fiéis, Ele usará para convosco de prodigalidade real, divina. Tão poucos Lhe são verdadeiramente fieis!
“O Senhor gostaria que a virgindade fosse virtude comum a todos os homens”, diz São João Crisóstomo, e esse desejo nos é atestado nestas palavras do Apóstolo ou antes de Cristo, que por sua boca fala: “Quisera, diz ele, que todos os homens fossem castos e puros assim como sou”. Deus, porém, é indulgente para conosco; sabe que se o espírito é pronto, a carne é fraca. Não testemunhou esse desejo sob a forma imperiosa do preceito, deixando-nos a liberdade de realizá-lo ou de a ele nos subtrair.
“Há, no entanto, convites instantes da parte de nosso Deus e esses convites Ele não os dirige do mesmo modo a toda a humanidade...
“Para com as almas que chama à Sua intimidade, mostra-se insistente, suplicante, e lhes revela com tão grande luz o radioso esplendor da virgindade, que imediatamente elas se apaixonam pela bela virtude, preferindo mil mortes a dela serem privadas.
“Conheceis todas o apelo do Mestre; vós o sentistes mendigando o vosso amor... e como Tiago e João tudo deixastes para segui-Lo.  Teríeis julgado dar-Lhe alguma coisa? Não, também neste caso vós é que recebestes.
“Bem pequenina é a nossa parte:  não fechar a porta ao seu Amor: eis tudo.
Sei que a Deus abris completamente a entrada de vosso espírito, de vosso coração, minhas queridas filhas, e quanto o Bendigo!
“Sede generosas! Jamais recueis, o que não seria digno d’Aquele que vos escolheu”.
“Só Deus, hóspede dos corações puros e amigo das almas sem mancha, vos pode elevar pela santa virgindade até à semelhança dos Anjos.
“No que vos toca, nada Lhe deveis recusar; Ele fará o resto. Há de guardar-vos e abençoar-vos, a fim de que, permanecendo sempre virgens sob as vestes de Santa Maria, Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, vos apliqueis de contínuo a fazer o que é digno de recompensa.
“Tomai vossas medidas, minhas queridas filhas, para que no grande dia do Juízo tenhais na mão a lâmpada cintilante...
“Deus não vos faltará e se lhe fordes fiéis sereis daquelas que em companhia de Santa Inez seguirão por toda parte o Cordeiro”.

(“Madre Francisca de Jesus”, de Reginaldo Garrigou-Lagrange, Tip. Beneditina Santa Maria, págs. 127/135)