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terça-feira, 11 de abril de 2023

MORTE DE SANTA GEMMA GALGANI

 




 

Nos estertores da morte, supremo combate contra o inferno

 

Sobre os momentos difíceis que se passa no momento da morte vejamos o que ocorreu com Santa Gemma Galgani, conforme seu biógrafo, Pe. Germano de Santo Estanislau, que assim se expressou comparando-a conosco: Que exemplo admirável de resignação e que motivo de salutar receio para nós, que não temos os méritos de Gemma,na hora terrível da morte! É bom lembrar que, embora o exemplo abaixo tenha se dado com uma santa, nada impede que algo disso, ou até mais, possa acontecer com qualquer cristão, desde que Deus o permita para sua santificação final:

“Diz-nos o Espírito Santo que Satanás, nos últimos momentos de nossa vida, sabendo que tem pouco tempo para fazer mal, nos assalta com pérfidas tentações, como um leão que vê a presa prestes a escapar-lhe.
Que supremos e furiosos ataques não devia dirigir contra a angélica donzela,
quem toda a vida tinha perseguido com ódio mortal, e procurado vencer, ou a menos desanimar com uma guerra sem tréguas.

De outros santos se lê que no fim de seus dias tiveram que suportar assaltos do demônio mais ou menos violentos e terríveis, mas passageiros.

Gemma, porém, suportou um ataque contínuo de sete meses, apenas interrompido por curtos intervalos de trégua. O fato é aterrador, mas absolutamente certo, porque é unanimemente atestado por todas as pessoas que acompanharam a angélica jovem durante sua última doença.
O espírito das trevas perturbava-lhe a imaginação com mil fantasmas próprios
para encher o seu coração de tristeza, de ansiedades, de temor. O seu fim era levá-la ao desespero. Representava-lhe, sob os mais tétricos aspectos, os quadros da sua vida tão cheia de angústias, as desgraças da sua família, as privações de toda a ordem. Fazia-lhe passar diante dos olhos os agentes da força pública indo, depois da morte de seu pai, acompanhados pelos credores, seqüestrar os bens da sua casa, e depois exclamava: “Aí tens o resultado de todas as tuas fadigas no serviço de Deus”.

Explorando o estado de extrema aridez espiritual em que, durante a maior parte do tempo, o Senhor a deixava para mais purificar a sua alma, o anjo das trevas empregava todos os artifícios para a persuadir de que estava irremediavelmente abandonada de Deus e que não havia meio de escapar à condenação. O tentador astucioso insinuava-lhe que as suas heróicas virtudes e até os mais insignes favores divinos eram apenas ilusão e hipocrisia.

Esta prova, a mais terrível e duradoura de todas, lançou a pobre donzela numa insuportável aflição. Sem cair no desespero, resolveu remediar, tanto quanto possível, oseu passado com uma confissão geral: tomou a pena e, nessa agitação de espírito e confusão de idéias, escreveu toda a história da sua vida, em que se declarava digna de mil infernos, por ter, com malícia diabólica, enganado os confessores, os diretores e a si própria.

Passando em seguida uma revista minuciosa aos mandamentos da lei de Deus e da Igreja, pecados capitais e deveres de estado, confessava-se culpada dos maiores crimes.

Estas páginas, febrilmente escritas, foram lidas a princípio por uma pessoa autorizada, depois levadas a um santo sacerdote, designado pela doente, com o pedido devir dar-lhe a absolvição de todos aqueles pecados. Veio, confessou-a e restituiu-lhe a serenidade, mas nem assim o inimigo se deu por vencido. Procurou uma vez mais insultar o pudor virginal da angélica menina. Sabia muito bem o tentador com que amor e cuidado a santa donzela tinha guardado, toda a vida, o inestimável tesouro da sua pureza, com que heroísmo tinha já sustentado, neste campo, lutas terríveis, sempre coroadas de triunfo. Mas que, se não alcançar uma vitória que julgava impossível, ao menos vingar-se das suas derrotas por meio de tentações, que sabia serem as mais próprias para amargurar os últimos dias da inocente menina.

O quarto da enferma pareceu converter-se então num prostíbulo do inferno. Não eram já pensamentos, imaginações, atitudes lascivas, às quais não podia ser sensível uma alma daquela têmpera. Eram aparições reais sob formas sempre novas duma lascívia cínica e brutal. “Padre. Padre, escrevia-me ela do seu leito de dor, este sofrimento é muito intenso para mim. Pedi a Jesus que o troque por outro qualquer. Enviai, mesmo de longe, maldições e conjuras para afastar o velhaco do demônio, ou ordenai ao vosso Anjo da Guarda que venha afastá-lo para longe daqui”.

Vencido em todos os campos, terminou por afligi-la com cruéis vexações exteriores. A enfermeira da angélica mártir escrevia-me por várias vezes: “Esta besta hedionda acaba-nos com a querida Gemma. – Saio sempre de junto dela a chorar: este horrível demônio  consome-a, e não vejo nenhum remédio a opor. – São pancadas ensurdecedoras, figuras espantosas de animais ferozes; mata-a com certeza. Corremos em seu auxílio, lançando água benta no quarto, o barulho cessa, mas para recomeçar depois com mais raiva”.

Ninguém imagina até onde chegou a crueldade do invisível inimigo para com a inocente vítima! Gemma sentiu algumas melhoras quanto à dificuldade de ingerir os alimentos.

Satanás, porém, estava de atalaia; logo que a comida era apresentada à doente, aparecia-lhe coberta de insetos repugnantes, de tudo quanto possa imaginar de nojento. Perante a repugnância do estômago, era forçoso retirar tudo. Bichos repelentes, reais ou imaginários, invadiam-lhe o leito, e torturavam-lhe o corpo de mil maneiras, sem que pudesse ver-se livre deles. Dizia muitas vezes à Irmã enfermeira com um tom de terror, que sentia uma serpente a envolvê-la da cabeça até aos pés e tentando sufocá-la. Muitas vezes pediu exorcismos, mas como não se desse importância aos seus pedidos, ela mesmo, voltando-se para o inimigo com o rosto inflamado, exclamou resolutamente: “Espíritos perversos, ordeno-vos que entreis no lugar que vos está destinado, aliás, desgraçados de vós! Acuso-vos ao meu Deus”. Depois, voltada para a Mãe celeste, começou a dizer: “Minha Mãe, encontro-me em poder do demônio que me fere, me flagela, trabalha por me arrancar das mãos de Jesus. Não, não, Jesus, não me abandoneis, ser-vos-ei fiel. Ó minha Mãe, pedi a Jesus por mim. De noite estou só, cheia de terror, oprimida e como que ligada em todas as potências da alma e em todos os sentidos do corpo, sem me poder mexer. Viva Jesus!

O divino Mestre vinha, de tempos a tempos, reanimar-lhe a coragem e sossegá-la, fazendo-lhe sentir a sua doce presença e dizendo-lhe algumas palavras. “Minha filha, porque é que, em vez de entristeceres com as perseguições do inimigo, não aumentas a tua esperança em mim? Humilha-te sob a minha poderosa mão, não te deixes abater pelas tentações. Resiste sempre, sem desânimo, e, se a tentação perseverar, persevera também na resistência; a luta levar-te-á à vitória”.

Outras vezes era o Anjo da Guarda que vinha confortá-la. Mas pouco duravam estes felizes momentos. Em breve a sua alma recaía nas trevas e o tentador aparecia de novo, mais furioso que nunca. Deste modo se passavam, para a pobre donzela, os dias, as semanas, os meses. Que exemplo admirável de resignação e que motivo de salutar receio para nós, que não temos os méritos de Gemma, na hora terrível da morte!

Na maior parte dos doentes, com o corpo extenuado pelo sofrimento e com o espírito esmagado pela consciência do próprio estado, o rosto manifesta tristeza e abatimento. Gemma, porém, conservava sempre o seu aspecto alegre e um angélico sorriso.

Nenhum abatimento moral se refletia nela, nunca lhe saíram do peito esses suspiros, esses gemidos que a força da dor arranca até aos mais corajosos. Nunca pedia alívio, nem mesmo uma simples mudança de posição no leito, embora fosse incômoda a posição em que estava. Nunca se queixou por causa dos cuidados que o seu estado exigia, ainda que, por algum equívoco, a deixassem só noites inteiras, quando mais necessidade tinha de ser assistida por alguém.

Para evitar este inconveniente, recorreu-se às religiosas enfermeiras, chamadas Barbantinas, que, movidas da sua bem conhecida caridade, se encarregavam de cuidar de Gemma até ao fim. Uma delas, maravilhada com a heróica paciência desta mártir, fez o seguinte depoimento:

“Durante todo o tempo que tive a consolação de assistir à querida Gemma nunca a ouvi queixar-se. Só no princípio a ouvia algumas vezes dizer: Meu Jesus, não posso mais! Mas quando lhe lembrei que tudo é possível com a graça de Deus, não repetiu mais aquelas palavras; e, quando alguma das pessoas presentes, movida pela piedade, dizia: Pobre menina, na verdade não pode mais, Gemma respondia imediatamente: Sim, sim, ainda posso um poucochinho. E, no entanto, continua a Irmã, vi-a suportar tais sofrimentos que me parece não os haver mais terríveis no Purgatório”

No meio de tantas dores, de tantas perseguições diabólicas, a virtuosa donzela não sentia a menor dificuldade em conversar familiarmente com o seu Deus, e com a mesma calma e suavidade de espírito que tinha no tempo das maiores consolações. Gemma não tinha mais que um sopro de vida. Todo o seu corpo é vítima do sofrimento e o rosto cobre-o já a palidez da morte. Jaz imóvel sobre o leito, numa atitude impressionante que recorda o Salvador expirando na cruz.

Quatro ou cinco dias antes de morrer tornou-se tão pesada que três pessoas robustas com dificuldade a podiam levantar. E no entanto a sua pequena estatura e extrema magreza deviam permitir que uma simples criança a movesse. “Temos tratado de tantos doentes, diziam as religiosas enfermeiras, e nunca vimos coisa igual”.

Aos que lhe notavam este fenômeno, Gemma respondia: “Não sou eu, estais certos, que peso assim”. E na verdade podemos crer que fosse uma intervenção divina, com o fim de aumentar os tormentos da pobre vítima, porque logo depois da morte, o corpo voltou ao peso normal”.[1]

Que bela coisa é morrer numa solenidade

Aos 25 anos, no Sábado Santo de 1903 (a 11 de abril, dia de sua festa), Gemma entregou sua alma ao Criador, devorada pelos sofrimentos, mas pedindo - até o último momento - mais dor. Revestida do hábito passionista - que lhe fora negado em vida por não ter condições de saúde compatíveis com os rigores do convívio comunitário - Gemma teve seu corpo velado por familiares e amigos. Sepultado no dia seguinte, o corpo foi exumado quinze dias após a morte, procedendo-se à retirada de seu coração (que não exibia sinais de decomposição). Foi ele posto em um relicário, sendo atualmente venerado no seu Santuário em Madrid, na Espanha.

Extraímos de uma hagiógrafa da Santa, Sóror Gesualda del Espíritu Santo, o relato de seus últimos momentos:

“Morrer num êxtase de luz e de amor não teria sido digno coroamento à vida de dor e de martírio constante levada por Gemma.  Jesus, à hora de morrer, sobre o Gólgota entregou sua alma nas mãos do Pai Eterno, banhada num mar de amarguras. Encontrava-se suspenso como criminoso, entre o céu e a terra, abandonado por Deus, desprezado pelos homens...

Com Gemma havia de suceder da mesma forma.

Numa ocasião havia dito à sua tia: “Tenho rogado a Jesus que me faça morrer numa grande solenidade. Que bela coisa é morrer numa solenidade!”  E morreu, efetivamente, solenemente. Porém, numa solenidade dolorosa.

A Igreja comemora a morte de Jesus e relaciona este fato com o terremoto que sacudiu a terra e rasgou o véu do templo de Jerusalém. E, ante a dor que que embarga os peitos cristãos por sua morte, faz emudecer todo instrumento músico e cessa o tangido das campainhas.

Jesus, ao ser deposto da Cruz, havia sido colocado num sepulcro novo, e precisamente o dia do repouso eterno de Cristo foi escolhido por Deus para tirar a cruz dos ombros de sua fiel amante Gemma, unindo-a consigo indissoluvelmente na glória da ressurreição.

A Eucaristia, que havia constituído sempre a verdadeira vida para nossa Santa, pode dizer-se que foi no leito de dor o único lenitivo de suas dores e abandonos.

Provocava lágrimas entre os circunstantes só o vê-la arrastar-se, com os joelhos vacilantes, sustentada nos braços de sua querida Eufemia, para a Igreja das Rosas. Os familiares não o teriam permitido. Porém, monsenhor Volpi dizia: “Deixai-a; deixai-a que faça a Comunhão. É o consolo que lhe fica já na terra”.

Quando, por seu estado, tornou-se-lhe impossível ir à igreja para receber a sagrada Comunhão, inclinou sua cabeça á vontade de Deus. Porém Monsenhor Volpi procurava que satisfizesse com certa frequência suas ânsias de comungar, mesmo estando acamada. Do contrário, como poderia suportar tantos sofrimentos sem possuir Jesus em seu coração?

No Sábado Santo, Sábado da Ressurreição, depois que seus membros virginais receberam a última purificação com o santo óleo, sua alma se abriu ao Amor, com o que, transcorridos alguns instantes, devia eternizar-se numa glória sem nome.

Já na Quarta-Feira Santa Deus Nosso Senhor Se havia dignado descobrir uma pequena parte do véu que ocultava seus esplendores. Santa Gemma foi arrebatada em êxtase. Ao tornar a si, a Irmã que a assistia perguntou-lhe o que havia visto: “Ah, irmã – respondeu -, se você pudesse ver um tantinho, nada mais que uma partezinha do que Jesus me há feito ver a mim, quanto gozo experimentaria!”

Em seguida recebeu por Viático o Corpo de Nosso Senhor. Voltou a comungar no dia seguinte, permanecendo para isso em jejum toda a noite.

“Tinha o aspecto de uma santa”, assegura uma testemunha. Deitada em seu leito, quanto tempo demorou estirada e rígida, com as mãos juntas, os olhos baixos e modestos, o rosto radiante, mostrando a todo momento os lábios sorridentes, apesar do grau de dor que a consumia.

No recolhimento extático que seguiu à Comunhão da Quinta-Feira Santa pela manhã, pareceu-lhe ver uma coroa de espinhos com esta inscrição: “Antes que termina tua carreira mortal ainda te resta que sofrer!”

Era o final do drama, e, pela forma em que este ia se desenrolando, o desenlace seria também doloroso. Na sexta-feira pela manhã, lá pelas dez horas, a senhora Cecília demonstrou desejos de sair, alegando que se encontrava arriada de cansaço e de insônia. Gemma disse-lhe: “Não me deixe de forma que não me veja cravada na cruz. Vou ser crucificada com Jesus. Jesus disse-me que seus filhos devem morrer crucificados”.

Pouco depois, entrando em profundo êxtase, Santa Gemma estende lentamente os braços em forma de cruz, postura que conserva até às doze e meia. Como sobre um límpido espelho, vão se refletindo sobre seu rosto os afetos e sentimentos mais diversos: de amor, de dor, de desolação e de calma. Gemma guarda um respeitoso silêncio. Porem sua atitude dizia suficientemente que se achava na agonia com seu doce Jesus.

Os olhos dos assistentes estão fixos nela, acreditando-se que de um momento para outro passaria os umbrais da eternidade. Porem o fato se prolonga. Ao cessar a agonia continua durante todo o dia, a noite e a manhã seguinte sofrendo muito. Tira forças da fraqueza para responder por sua própria boca às formosas orações que acompanham a cerimônia da Extrema-unção.

O sacerdote ministrante retirou-se em seguida e não voltou para a recomendação da alma. O que foi feito pelo que administrou o Viático. Entretanto, o confessor extraordinário, chamado por ela, a confessou num abrir e fechar dos olhos. Sua solidão era, pois, patente.

Desejava ter ao seu lado Monsenhor Volpi com o objetivo de que dirigisse exorcismos da Igreja contra o Demônio, que se lhe aparecia sob a forma de um horrível cão ameaçador. Porém Monsenhor encontrava-se ocupado nas largas funções próprias do dia, e não foi possível atender até à primeira hora da tarde.

“À sua chegada – disse a senhora Cecília – retirei-me da habitação que ocupava a enferma... Gemma disse que desejava os exorcismos. Monsenhor, dando-lhe a bênção, acrescentou: “Estás contente?”. Gemma insistiu que desejava na verdade receber os exorcismos da Igreja. A isto respondeu Monsenhor: “Vou dar a Páscoa ao excelentíssimo senhor Arcebispo, e logo voltarei para ver-te”. Porém já não voltou. Gemma expirava em pouco tempo.

Ouçamos a impressão de Monsenhor: “Quando a visitei pela última vez a encontrei em grave estado, atribulada de dores não somente físicos, mas também morais. A tudo estava muito resignada. Dei-lhe a santa absolvição, deixando-a em estado bastante penoso, mas com perfeita quietude de espírito.

Por sua vez, disse a senhora Cecília: “Quando, pela manhã, avisei a Monsenhor que Gemmao  esperava, respondeu-me: “Se é para confessá-la, irei; mas se é para assisti-la, me é absolutamente impossível. Para isso há curas”.

Há que se ter presente que naqueles dias para Monsenhor, como bispo auxiliar, eram de excepcionais ocupações, em razão das funções que tinham lugar na Catedral.

“Quando lhe transmiti as palavras de Monsenhor – segue falando a senhora Cecília -,Gemma tomou o santo Crucifixo em suas mãos, e pondo-o à altura de seus olhos, falou-lhe nestes termos: “Vês, oh Jesus? Verdadeiramente, já não posso mais... Se é vossa vontade, leva-me...”

Em seguida, levantou seus olhos para um quadro da Virgem que se achava dependurado na parede, e acrescentou: “Minha Mãe, a Vós recomendo minha alma... Diga a Jesus que tenha misericórdia de mim”.

Beijou o santo Crucifixo e o pôs sobre o coração, e tendo as mãos sobre ele, fechou os olhos, permanecendo esta postura, imóvel. À chegada de Monsenhor os abriu e falou como se há dito. Ao despedir-se de Monsenhor, tomou novamente a postura anterior.

A senhora Cecília mandou chamar a toda pressa o senhor Pároco, Abade Angeli, dos Canônicos Lateranenses, o qual chegou à casa estando a família à mesa. Ao ver a enferma, exclamou: “Gemma se nos vai; se morre...” A estas palavras, todos os circunstantes, até os pequeninos, levantaram-se rapidamente e correram para a habitação de Gemma.

A senhora Justina a levantou um pouco, pondo seu braço sobre as almofadas, de sorte que a cabeça de Gemma descansasse apoiada nela. Eufemia, ajoelhada a um lado do leito, sustentava entre suas mãos a direita da moribunda, descansando-a sobre sua fronte. Ao redor de ambas encontravam-se a senhora Cecília e os restantes da casa, de sorte que a habitação parecia cheia.

O Abade Angeli, que lia a recomendação da alma, interrompeu várias vezes a leitura para perguntar aos circunstantes: “Morreu?” De fato, ao pronunciar o sacerdote estas palavras, estava morta; porem, ninguém se havia apercebido disso.

Com referência a seu falecimento, acrescenta o Abade Angeli: “Tenho assistido a muitos moribundos... Não me tem ocorrido, sem embargo, presenciar uma morte desta natureza: sem sinal algum que a denunciasse, sem lágrimas nem assomo de respiração ofegante... Morreu desenhando um débil sorriso, e ficou com o sorriso suspendido nos lábios, tanto, que eu não podia persuadir-me de que houvesse falecido”.

O Padre Germán, seu diretor, não pôde assistir á agonia de Gemma. Apenas o mal começou a tomar sinais de gravidade, a senhora Cecília disse a Gemma: “Será conveniente telegrafar ao Padre Germán para que venha”.  Porém a enferma, havendo compreendido em seu coração que Jesus queria dela também este sacrifício, não fez indicação nenhuma neste sentido. A quem lhe falasse disso, respondia com doce resignação: “Tenho feito a Deus o sacrifício de tudo e de todos. Não peço nada. O Padre Germán chegará depois da Páscoa”.

E, efetivamente, chegou passadas as Páscoas.

Gemma havia suplicado ao Senhor a graça de morrer abandonada e sem consolo, por imitação de sua morte na Cruz. “Um sacerdote... um cristão... me bastam”, havia Lhe dito.

As últimas notas do duplo poema de dor e de amor que constituíam sua vida foram de um grande sofrimento e de grande abandono.

O santo Evangelho disse de Cristo: “Et inclinato capite, tradiditspiritum”. Ou seja, que inclinada a cabeça, entregou seu espírito.

Para que a semelhança fosse completa, Gemma dobrou silenciosamente a cabeça e expirou.

Logo vieram os preparativos de seu enterro. Vestiram-lhe o hábito passionista,  puseram-lhe o Rosário ao pescoço. Sobre o peito, a insígnia da Paixão, ou seja, o escudo distintivo dos Passionistas, e sobre a cabeça uma grinalda de flores. Juntaram suas mãos como as costumava ter nos êxtases. E asseguram as testemunhas oculares que não parecia morta, mas docemente adormecida ou submersa num êxtase de amor. Logo que a notícia se e espalhou, começou a afluir o público em grande quantidade. Homens e mulheres, sacerdotes e seculares, rodeavam com emoção o cadáver daquela jovenzinha, cuja vida transcorreu por inteiro na obscuridade, e possuídos desse secreto atrativo que a virtude engendra em nossos corações, ajoelhavam-se, beijavam suas mãos, tocavam-lhe com rosários e medalhas, a invocavam como santa, pediam relíquias dela...

Entre outros, chegou o santo sacerdote ao qual Gemma havia entregue por escrito sua confissão geral quando se viu tão  terrivelmente acossada pelo demônio. Caindo de joelhos, pela reverência que lhe inspirava aquele cadáver: “Gemma -exclamou -, a teus pés está um grande pecador. Roga a Jesus por mim”.

Ao cair da tarde do dia de Páscoa, os irmãos da Associação chamada “La Rosa” abriam passagem para o cortejo revestidos com seus hábitos amarelos. Dois destes irmãos e dois membros da família Giannini, que se reputaram felizes de prestar este último obséquio à que tanto tempo foi como o anjo tutelar de sua casa, levavam o féretro sobre suas costas.

Os sinos da cidade repicavam em festa, enquanto os anjos da Paixão e da Ressurreição, revoluteando ao redor do féretro, entoavam hosanas e aleluias àquela que, havendo seguido tão fielmente a Jesus desde o Getsêmani até o Calvário, seguia associada ao Esposo no triunfo da Ressurreição.”[2]




https://www.youtube.com/watch?v=oEiBan17eSw




[1]“Santa Gemma Galgani” – Pe. Germano de Santo Estanislau – Livraria Apostolado da Imprensa, Porto,
Portugal, págs. 439/451

[2]Traduzido do espanhol, da obra “Santa Gemma Galgani” – Sor Gesualda del Espiritu Santo – Tercera Edición – Ediciones Paulinas S.A – Mexico, 1964 – páginas. 342/349


domingo, 11 de abril de 2021

SANTA GEMMA GALGANI E OS SANTOS ANJOS

 



 

 

Santa Gemma Galgani é um dos exemplos mais completos da presença do Anjo da Guarda. Seu confessor e hagiógrafo, Pe. Germano de Santo Estanislau, relata-nos detalhadamente como o Anjo da santa se manifestava e agia em prol da mesma:

“Estando Gema predestinada a um grau muito elevado de glória na bem-aventurança, era natural e conforme à Sabedoria divina que o Anjo escolhido para sua guarda tivesse com ela um cuidado muito especial. A graça que já se manifestava nesta alma ditosa por fenômenos tão prodigiosos, ia aumentar dum modo não menos prodigioso com a assistência do seu bom Anjo.

“Quem não conhecesse pelos sagrados livros a patética história de Tobias, e, pela hagiografia cristã, a sua freqüente repetição na vida dos santos canonizados, seria tentado talvez a supor exagerados os pormenores maravilhosos que vou referir. 

“Mas o Senhor prodigaliza todos os dias a seus filhos bens preciosíssimos sem que ninguém se lembre de  lhe dizer: porque Vos mostrais tão bom? Gema estava admiravelmente preparada pelas mais belas virtudes para os favores do seu bom Anjo: inocência, pureza, candura, simplicidade infantil, e, acima de tudo, fé muito viva que lhe deixava ver quase a descoberto os mistérios da eternidade.

“Tal era a dotação sobrenatural que devia atrair as simpatias do seu guarda angélico. Com certeza o espírito celeste devia encontrar na sua feliz protegida alguma semelhança com a natureza angélica que lhe permitia, sem se rebaixar muito, manter com ela uma inefável familiaridade.

“O mais maravilhoso nesta suave assistência era a presença sensível e quase contínua do Anjo da Guarda.

“Gema via-o com os olhos do corpo, tocava-o com as mãos, como se fosse de carne e osso, conversava com ele como um amigo. Escrevia-me o seguinte: “Há seis dias que não vejo a Jesus, Ele porém não me deixou completamente só: o Anjo da Guarda conserva-se sempre visível junto de mim”.

“Com fervor dava graças a Deus por este benefício, e testemunhava ao espírito protetor o seu reconhecimento!

“Se alguma vez for má, Anjo querido, lhe dizia ela, não te zangues. Quero mostrar-te minha gratidão”.

“Sim, respondia o celeste guarda, serei teu guia e teu companheiro inseparável. Não sabes quem te confiou à minha guarda? Foi o misericordioso Jesus!”

“A estas palavras, a santa menina, não podendo conter os sentimentos da sua alma, perdia os sentidos e entrava em êxtase na companhia do seu Anjo.

“O que se passava então, ela mesma o conta por estas simples palavras: “Permanecíamos ambos com Jesus! Oh! Se estivésseis conosco, Padre!”

“Permanecer com Jesus era mergulhar-se no oceano imenso da divindade, para aí aprender a contemplar inefáveis mistérios.

“De ordinário Gema e o Anjo da Guarda passavam os seus colóquios a orar juntamente ou a louvar o Altíssimo. Os Anjos, segundo um santo doutor, comprazem-se em assistir às almas em oração. “Quando orava com lágrimas..., disse o Arcanjo Rafael a Tobias, o ancião, eu apresentava ao Senhor as tuas orações”.

“Que objeto de complacência não seria para o seu Anjo da Guarda esta admirável menina, cujo coração, como a lâmpada do Santuário, velava sempre diante do seu Deus com extraordinária vivacidade de fé.

“Gostava de lhe aparecer, umas vezes ajoelhado a seu lado, outras elevado da terra, com as asas abertas e as mãos estendidas sobre ela, ou juntas na atitude de orar.

“Recitavam alternadamente as orações vocais e os salmos, e, se diziam jaculatórias, “era, segundo as próprias palavras de Gema, quem com mais força exclamava: Viva Jesus; Bendito seja Jesus! E outras afetuosas aspirações”.

“Nas horas de meditação o Anjo infundia-lhe no espírito luzes altíssimas, dava ao seu coração suaves e fortes impulsos para que o santo exercício fosse perfeito, e, como a Paixão do Senhor era quase sempre o assunto da meditação, descobria-lhe os seus profundos mistérios: “Considera, dizia ele, quanto Jesus sofreu pelo homem, considera uma por uma estas chagas. Foi o amor que as abriu todas. Vê quão horrível é o pecado, cuja expiação custou tanta dor e tanto amor”.

“Estes belíssimos pensamentos iam ferir o coração da donzela como outros tantos raios de luz e de fogo.

“Tendo assistido pessoalmente muitas vezes às orações e meditações de Gema e do seu Anjo da Guarda, pude convencer-me, só pelas minhas observações exteriores, da realidade de todos os pormenores que, depois do exercício, ela me dava nas suas comunicações de consciência.

“Notei igualmente que todas as vezes que ela levantava os olhos para o Anjo a fim de o ouvir ou de lhe falar, mesmo fora da oração, perdia o uso dos sentidos.

“Nesses momentos podiam picá-la, queimá-la, sem que a sensibilidade reagisse. Mas vinha a si, logo que afastava os olhos do Anjo ou cessava o colóquio.

“Este fenômeno renovava-se infalivelmente em cada uma das suas comunicações celestes, por mais próximas que fossem umas das outras. Sempre e por toda a parte, no meio das ocupações, no caminho, mesmo à mesa, o Anjo estava à disposição de Gema e Gema à disposição do Anjo.

“Nenhum sinal externo manifestava os seus santos colóquios, exceto a absoluta imobilidade da vidente e o brilho sobre-humano do seu olhar. Bastava tocá-la para que a sua insensibilidade nos convencesse que estava arrebatada fora dos sentidos e em relações com o sobrenatural. Nestes colóquios transluzia muitas vezes a maior simplicidade; e a familiaridade do Anjo só tinha igual na do Anjo Rafael com o jovem Tobias”. [i]   

Mais adiante o hagiógrafo da santa passa a relatar diversos aspectos do colóquio entre o Anjo e Gema, principalmente quando se tratava de defendê-la contra as investidas infernais:

“Pode dizer-se, dum modo geral, que o Anjo da Guarda era para Gema um segundo Jesus. Ela expunha-lhe as suas necessidades e as dos outros, queria-o incessantemente junto de si durante os seus temores e sobretudo durante as lutas contra o infernal inimigo; confiava-lhe diversas mensagens para Deus, para a Virgem Santíssima, para os Santos seus advogados, dava-lhe até cartas fechadas e lacradas com destino a um ou outro destes advogados, pedindo-lhe que a seu tempo trouxesse a resposta, e a maravilha é que as cartas eram levadas realmente por um ser invisível...

“Deste modo o mensageiro celeste encontrava-se constantemente às ordens desta virgenzinha de inefável candura. Prestava-se de bom grado a todos os seus desejos, acudia, mesmo sem ser invocado, ao menor perigo, à menor necessidade; refreava a audácia do demônio, sempre pronto a maltratar a sua protegida, e algumas vezes lutava para lha tirar das mãos brutais”. [ii]  

Alguns exemplos que o Pe. Germano conta sobre a intervenção direta do Anjo da Guarda de Santa Gema: 

“Uma vez, estando á mesa ainda em casa de seus pais, uma das pessoas presentes, deixando-se levar pelos maus costumes da época, proferiu uma blasfêmia contra o adorável nome de Deus. Logo que Gema a ouviu, perdeu os sentidos com a dor; e ia já a cair. Antes que desse com a cabeça no chão, o Anjo veio ampará-la na cadeira e com uma só palavra dita ao coração fez-lhe retomar imediatamente os sentidos.

“Outra vez, de tal modo ficara absorta na meditação, que começava já a anoitecer, e ela ainda na igreja. O Anjo advertiu-a e acompanhou-a sob uma forma visível, até à porta da casa.

“Um dia o demônio tinha-a espancado tão cruelmente na oração da noite que a pobre menina ficou impossibilitada de se mover. O Anjo da Guarda ofereceu-lhe o seu auxílio, ajudou-a a subir para o leito e ficou de guarda à cabeceira”.

Para mostrar que o Anjo procura sobretudo o bem da alma, o padre conta também como ele a orientava na vida espiritual:

“Mas a missão dos Anjos custódios tem como objeto principal os interesses espirituais das almas. Eles devem ser, segundo os desígnios da Providência, guias de santificação que nos conduzam pelos caminhos difíceis da virtude.

“O Anjo de Gema não perdia uma ocasião de a repreender, de a aconselhar e até de a instruir por ensinamentos cheios de sabedoria celeste, que a menina em parte consignou nas relações enviadas ao diretor espiritual.

“Uma vez, para que não se perdesse uma sílaba, o Anjo fez-lhe escrever alguns dos ensinamentos que ele ia ditando. Por sua ordem, Gema sentou-se à mesa, tomou a pena e o papel, enquanto ele, de pé a seu lado, como um professor junto do aluno, começava:

“Lembra-te que quem ama verdadeiramente a Jesus fala pouco e sofre tudo. Ordeno-te da parte de Jesus, que nunca digas a tua opinião, se não te for pedida, que nunca sustentes o teu modo de sentir, mas que cedas depressa. Quando cometeres alguma falta, acusa-te imediatamente sem ser preciso que os outros te avisem. Obediência pontual e sem réplica ao teu confessor, sinceridade com ele e com os outros, não te esqueças de guardar a vista, lembrando-te que os olhos mortificados contemplarão as belezas do céu”

“O Santo Anjo sabia usar de rigor com a sua discípula; não lhe deixava passar uma imperfeição e corrigia-a sem piedade a ponto de ela me dizer: “O meu Anjo é um pouco severo, mas sinto-me bem com isso. Nos últimos dias chegou a repreender-me três e quatro vezes por dia”.

“Parece até que o vigilante guarda saiu um dia dos justos limites: Ontem, escrevia Gema, durante a refeição levantei os olhos e vi o Anjo lançar-me olhares severos; não falava. Mais tarde, quando fui repousar, olhei outra vez para ele, mas depressa baixei a vista; meu Deus, como estava irritado!

“Não tens vergonha, me disse ele, de cometer faltas na minha presença?”

“Lançava-me olhares tão severos...  eu não fazia senão chorar. Supliquei a Deus e à minha celeste Mãe que o tirasse de diante de mim, pois não podia resistir mais.

“De quando em quando repetia: “envergonho-me de ti”.

“Rezei para que ninguém o visse neste estado, pois quem o visse assim, decerto nunca mais se aproximaria de mim”. [iii]

Apesar de seu Anjo ser tão rigoroso para com ela, a santa gostava muito dele, a ponto de haver travado com ele o seguinte diálogo:

“Querido Anjo, dizia ela, quanto vos amo!” E por quê?” pergunta ele. “Porque me ensinais a ser boa e a conservar-me na humildade”.     

 



[i] “Santa Gema Galgani” – Pe. Germano de Santo Estanislau – Ed. Livraria Apostolado da imprensa, Porto, 1940 – pp. 286/289.

[ii] op. Cit. Pp. 291/293.

[iii] op. Cit. Pp. 292/294.