Mostrando postagens com marcador Bondade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bondade. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 16 de maio de 2024

O OLHAR DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO NA EXPUSÃO DOS VENDILHÕES DO TEMPLO

 


 A propósito de tanta Bondade que atraía e causava fascínio, comenta o padre Berthe: “Todos reconheceram ao homem de semblante grave, de olhos penetrantes, de longa cabeleira a flutuar sobre os ombros, de fisionomia meiga e subtriste, que inspirava, mesmo às crianças, respeito e afeição”. E mais adiante: “E ao mesmo tempo que aos ouvidos lhes ressoava aquela voz forte e meiga, não podiam os ouvintes deixar de contemplar o semblante celestial do profeta. E do seu rosto viam irradiar uma bondade sobre-humana que a todos lhes cativava e roubava os corações”.[1]

Procu­rou Ele conquistar o coração das pessoas. E uma vez fez um teste perguntando: o que dizem por aí do Filho do Homem?

Nosso Senhor nos ensina como enfrentar o entrechoque de opiniões

Depois que passou 40 dias no deserto jejuando, haver vencido o demônio e sido batizado por São João, Nosso Senhor fez o milagre das Bodas de Caná e, após percorrer toda a Palestina pregando e fazendo muitos milagres, dirigiu-se a Jerusalém preparado para enfrentar a opinião dominante e a seita judaica que mandava na Cidade Santa.  Que fez Ele? Procurou convivência pacífica com as correntes dominantes? Fez pactos, alianças? Nada disto! Dirigiu-se ao Templo, onde devia apresentar-se como o Messias tão esperado e já anunciado. Lá encontrou, no entanto, uma situação constrangedora. Os comentários são, novamente, do padre Berthe: “Graças à cumplicidade dos sacerdotes, certos costumes abusivos e verdadeiramente sacrílegos tinham convertido esse átrio num verdadeiro mercado. Aí vendiam vinho, azeite, sal, pombas, cordeiros, e todos os objetos exigidos para os sacrifícios. Os cambistas, instalados aos seus balcões, serviam aos estrangeiros moeda judaica; já que só ela corria no Templo. Conversavam e altercavam neste lugar santo como numa praça pública”. [2]

Todos sabem o que Ele fez.  Aceso de santa ira, chicoteou e expulsou os vendilhões do Templo. Talvez fosse para este momento que Nosso Senhor vinha mais se preparando, pois aí Ele enfrentou o teste mais duro com a opinião pública, antes de Sua Paixão e Morte na cruz. Não era conhecido ainda como Profeta pelo povo de Jerusalém; não tinha, portanto, autoridade popular para tal ato. A Autoridade que possuía era d’Ele mesmo, por ser Deus. No entanto Ele o fez como homem, embora arrojadamente. Que ocorreu? O povo aplaudiu calorosamente, pois todos sabiam que se devia respeitar o Templo e ninguém ousou contestar ou enfrentar Jesus Cristo nesta hora. Sua ação foi, pois, um ato de conquista de simpatia da opinião pública. O entrechoque foi sentido apenas pelos fariseus, sacerdotes e doutores que se perguntavam entre si com que direito vinha aquele audacioso Galileu mandar no Templo e condenar os usos autorizados pelo Sinédrio. E que Templo era aquele, dominado por gnósticos!

Para se ter uma idéia de como andavam as coisas no Templo de Jerusalém, vejamos como o descrevia William Thomas Walsh:

“...Num mercado, justamente ali dentro, ou bem à mão, podiam comprar pombos, cabritos ou cordeiros para o sacrifício, se antes já não o houvessem feito, mas tinham de pagar também uma pequena taxa de inspeção.

“Alguns dos peregrinos pobres e dos galileus reclamavam contra os preços. Na verdade, os bufarinheiros do templo tratavam por vezes de elevá-los desaforadamente. Certa vez, por exemplo, cobravam um denário de ouro romano por um casal de pombos, até que um membro da família de Hillei interveio e forçou-os a baixar o preço de novo para ¼ de um denário de prata. Caridade predileta dos judeus ricos era pagar o sacrifício dos pobres. Certa ocasião, quando os cúpidos comerciantes tinham deixado o pátio do Templo quase sem animais, Rabi Baba Bem Buta burlou-os, trazendo 3 mil carneiros, quebrando assim o mercado, de modo que os plebeus pudessem cumprir suas obrigações”.[3]

Mais adiante, William Thomas Walsh descreve o episódio do Templo como ele imagina que teria ocorrido conforme seus estudos:

“No dia seguinte, ainda cheio de grandiosas esperanças, estava Simão Pedro com o Senhor, junto à Porta Especiosa, observando as multidões de graves peregrinos que se apressavam em atravessar o Pátio dos Gentios para oferecer seus sacrifícios. Um levava duas pombas numa gaiola, outro um cordeiro, outro um cabrito, enquanto outros ainda compravam aves ou animais no bazar, ao longo de um dos maciços muros, ou levavam-nos para serem inspecionados e dados por bons. Uma multidão esperava em fila diante de algumas mesinhas postas sobre o chão de mármore polido por cambistas itinerantes. O tinido das moedas ressoava acima do chilrear dos pássaros, do balir dos carneiros, do mugir do gado e do murmúrio das vozes humanas.

“Contemplando tudo isso num relance, Jesus apanhou algumas cordas que jaziam ao lado dos engradados dos pombos, reuniu-as destramente em forma de chicote e passou por diante do atônito Simão, com uma serena e terrível determinação, dirigindo-se para as mesas e bazares.  Algo nEle fez que até mesmo os guardas do Templo se afastassem apressadamente para os lados. Um poeta cristão, de descendência judaica, um homem de não pequena visão interior[4]  afirma que, mesmo encolerizado, Seu rosto jamais se contorceu ou avermelhou, como o dos outros homens, porque não era paixão, mas justiça impessoal divina que O acionava.  Aos vendedores dos pombos disse Ele concisamente: “Tirai daqui isto e não façais da casa de Meu Pai casa de negócio!” Mas quando chegou aos bois e aos carneiros, descarregou-lhes nas costas o chicote de cordas, assestando-lhes grandes e vibrantes açoites com seus poderosos ombros e braços, até que eles semearem o pânico em todas as direções, entre os aterrorizados  espectadores e mercadores. Os cambistas ficaram sentados, paralisados de medo, à medida que Ele ia batendo de mesa em mesa. Moedas de todas as nações e siclos de prata do santuário tiniam sobre os blocos de mármore e rolavam sob os pés da multidão que fugia desatinada.

“Simão Pedro não havia esperado nada de semelhante. Mas observava tudo com certa altivez crescente. Quem, senão o Messias ousaria agir tão atrevidamente em tal lugar? Quem, senão Ele, poderia dizer naquele tom de real certeza: “A casa de Meu Pai?”  [5]

Na Suma Teológica, de São Tomás de Aquino, há o seguinte comentário de São Jerônimo sobre o episódio de expulsão dos vendilhões do Templo:

E sobre a frase: ‘Expulsou todos os que ali estavam vendendo e comprando’, comenta o mesmo Jerônimo: ‘Dentre todos os milagres que Cristo fez, este me parece o mais admirável: que um só homem, naquela época ainda desprezível, tenha podido, a golpes de um simples chicote, expulsar tão numerosa multidão. É que de seus olhos se irradiava como que um fogo celestial e em sua face brilhava a majestade da divindade’ (S. T. III, q. 44, a. 3, Ad I).

 



[1] “Jesus Christo, Sua Vida, Sua Paixão, Seu Triunfo” – Estabelecimentos Benziger & Co. S.A., Einsiedeln, Suíça 1925)

[2] “Jesus Christo, Sua Vida, Sua Paixão, Seu Triunfo” – Estabelecimentos Benziger & Co. S.A., Einsiedeln, Suíça 1925)

[3] “O Apóstolo São Pedro”, pp. 28

[4] Trata-se de Fray Luís de Leon, em “Los Nombres de Cristo”

[5] “O Apóstolo São Pedro”, pp. 60/61

sábado, 14 de novembro de 2020

ONDE ESTÁ A VERDADEIRA BONDADE

 


Para que posamos entender melhor o que é a Bondade, que foi praticada pelo próprio Nosso Senhor Jesus Cristo como exemplo para todos nós, vejamos como um grande e santo teólogo, São Boaventura, classifica a bondade humana:

“Tanto será alguém reputado por bom, quanto abomina o mal; pois tanto se ama um objeto, quanto se lastima a sua destruição. Seguindo esta norma, encontraremos na religião e na Igreja quatro classes de homens que costumamos qualificar de bons.

“Os primeiros são os que não praticam o mal, mas que, todavia, com pouco cuidado se exercem em boas obras. Convivem pacifica e quietamente com seus semelhantes, não ofendem a ninguém e não provocam escândalo por más obras. Diz o primeiro dos Reis, vinte e cinco (I Reis 25, 15): Estes homens têm sido muito bons para conosco, e nunca nos foram molestos.  Porquanto costumamos qualificar de bons aqueles que são afáveis em seu modo de viver e sociais para com todos, embora, por outro lado, sejam assaz desidiosos quanto à prática das virtudes. Crianças batizadas também são qualificadas de boas”

A respeito destes, assim falou o Profeta Ezequiel:

“Se um homem for justo e proceder conforme e equidade e a justiça; se não comer nos montes e não levantar os seus olhos para os ídolos da casa de Israel;  se não ofender a mulher do seu próximo e não se juntar com a menstruada; se não entristecer ninguém, se der o penhor ao seu devedor, se não tirar nada do alheio por violência, se der do seu pão a quem tem fome e ao nu cobrir com vestido; se não emprestar com usura e não receber mais do que o que emprestou; se afastar a sua mão da iniqüidade e sentenciar com justiça entre homem e homem; se andar nos meus preceitos e guardar os meus mandamentos, para proceder segundo a verdade; este tal é justo, viverá certissimamente, diz o senhor Deus”  (Ez 18, 5-9).

Está este na categoria dos justos, pois cumpre fielmente a lei de Deus, mas para ser perfeito ele teria que dar mais alguns passos. Assim, continua São Boaventura:

“Melhores são os segundos que, além de não praticarem más ações, se exercem freqüentemente em boas obras: na sobriedade, na castidade, na humildade, na caridade fraterna, na assiduidade de oração, e outras similares que entendem por boas. Esses, entretanto, têm o seguinte particular: assim como nada descuidam daquilo que podem e conhecem, assim também lhes parece bastar o bem que praticam, e não se abrasam em aspirações mais altas e mais perfeitas de santidade. Basta-lhes exclusivamente velar, rezar, dar esmolas, jejuar, trabalhar por Deus e outras coisas semelhantes; e, contentes com isso, descansam, abandonando aos outros as coisas mais altas. Diz o Eclesiastes, três (Ecl 3, 12): Reconheci que nada havia melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, e que esta era a parte que lhe cabia.

“Melhores que esses são os terceiros, porque abominam e evitam o mal e praticam assiduamente o bem ao seu alcance, e, depois de haverem feito todo o possível, julgam ter feito pouco, em comparação com o que desejavam, sabendo que, no dizer da primeira a Timóteo, quatro (I Tim 4, 8): o exercício corporal pouco aproveita. Por isso anelam ansiosamente possuir as virtudes da alma e o sabor da devoção interior, o familiar conhecimento de Deus, a percepção do seu amor, julgando que não são nada e nada têm. Não querem aceitar nenhum consolo das coisas temporais ou espirituais, enquanto não gozarem, conforme desejam, dos preditos exercícios de virtudes e da doçura da devoção.  Todavia, seu zelo não se inflama contra os vícios dos demais e contra os perigos dos pecados; desejam apenas que todos sejam felizes; porém, quando não encontram isso, não sentem nenhuma dor, atentos unicamente a si e a Deus. Esses tais, incumbidos do governo de outrem, não são de todo idôneos para semelhante cargo, porque pospõem o desvelo pelos outros à sua própria quietude, conforme o livro dos Juízes, nove (Juízes 9, 7-11): Porventura, posso eu deixar a minha doçura, e suavíssimos frutos, para ir ser superior entre outras árvores.

“Os da quarta categoria, finalmente, são os melhores. Junto com os anteriores se inflamam no zelo das almas e da observância, pelos bens da inocência e das virtudes. Todavia, não se consolam com o progresso na própria santificação, enquanto, juntamente consigo, não atraem ao mesmo tempo mais outras almas a Deus, a exemplo do Senhor que, embora abarcando em si a plenitude do gozo, não se dava por satisfeito em desfrutando sozinho aquela glória; e, tomando a forma de servo, saiu para conduzir muitos filhos à glória por meio de suas obras e de sua doutrina. O zelo pela justiça, qual um escarlate tingido duas vezes, rutila na dupla cor de caridade: do amor de Deus e do próximo. O amor de Deus não deseja unicamente fluir da sua doçura e unir-se com ele, mas também anseia que se cumpra o seu beneplácito, que se dilate o seu culto, e seja sublimada a sua honra. Quer que ele seja conhecido por todos, amado por todos, servido por todos e honrado acima de todas as coisas. O amor do próximo não se cinge ao seu bem-estar corporal e à sua prosperidade temporal, mas muito se interessa pela sua salvação eterna. Por conseguinte, onde esta caridade se encontrar mais perfeita, ali há um desejo mais ardente e um esforço mais intensivo de promover estas coisas, e a alegria mais pura onde se encontram realizadas. A caridade não busca os seus interesses, senão os de Deus. À medida que amares a Deus e mais puramente desejares a sua glória, doer-te-ás  pelas ofensas de Deus, ao ver que não é conhecido e, em conseqüência, não é honrado; quando vês que não é amado e, por isso, desobedecido; que se desleixa o seu culto e se multiplicam e se alegram os seus inimigos. Quanto mais amares a salvação do próximo, tanto mais te afligirás por sua perdição e pelo dano que sofre no seu adiantamento.

“Posto que esta caridade se requeira de todos os amigos de Deus, todavia, requerer-se-á particularmente dos ministros de Deus que devem ser conforme ao coração de Deus e impregnar-se do amor da observância e do ódio à maldade. Amaste a justiça e aborreceste a maldade, diz o salmo. Por justiça pode entender-se aqui a observância de todas as coisas que são necessárias à salvação e ao progresso das almas”   [1]

 



[1] Obras de San Buenaventura – BAC-  – Tomo I – pág. 525

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

A BONDADE DA BENQUERENÇA BENFAZEJA






- BONDADE: a busca da  perfeição cristã ou da santidade;
- BENQUERENÇA: o exercício do bem querer, do desejo de amar ao próximo por amor a Deus;
- BENFAZEJA ; fazer o bem, isto é, agir conforme aquilo que desejou.

Definições

1.            BONDADE:
Segundo a filosofia tomista a Bondade reflete a perfeição de cada coisa.  Neste sentido ela não seria bem uma qualidade, mas o reflexo de todas as qualidades em conjunto. Seria a ação conjunta de todas as boas qualidades de uma pessoa. São Tomás de Aquino diz que, embora o ente seja bom em si mesmo, ele o é por participação na Bondade divina, a origem de todas as bondades. “Com efeito, a bondade de qualquer coisa é a sua perfeição” [1]
Daí não haver nenhum tipo de bondade no homem que não seja por participação, haja vista que somente Deus é a Bondade por excelência. Bom só Deus. O homem pode participar da Bondade enquanto tal através da Graça, que é a participação na vida divina. A Bondade do homem é fazer-se perfeito. Ora, perfeito só Deus. No entanto, Nosso Senhor Jesus Cristo disse: “Sede perfeito como o meu Pai que está no céu”.

Conceito revolucionário - No entanto, a Revolução[2] procurou explicitar um conceito contrário, onde o homem poderia atingir a plenitude, a perfeição, portanto a Bondade completa, sem a participação de Deus.  A definição filosófica desta “bondade” natural só foi explicitada completamente no século XVIII. Consiste ela em admitir que o homem só vai atingir a plenitude de seu ser, portanto tornar-se perfeito,  guiando-se por seus instintos e vivendo conforme a natureza que o circunda.

O que é a “bondade natural”
Rousseau imagina que houve uma época na humanidade em que se vivia num estado natural perfeito, o “estado da natureza” conforme define. Adão e Eva, quando viviam no Paraíso, só viviam neste “estado” antes de receber de Deus as luzes e os preceitos.  Foram os preceitos que lhes tiraram a liberdade...  Neste imaginado período, o homem seguia apenas os ditames da Natureza e não a leis “impostas” por Deus. O pretenso “filósofo” nem põe em questão que a Natureza existente no Paraíso terrestre era diferente da que nos circunda atualmente.
A “Bondade Natural” consistiria, segundo ele, em viver segundo a natureza que nos cerca, copiando-a, domando-a ou assemelhando-se a ela, fazendo tudo o que ela nos ensina de uma maneira “natural”. Assim, o homem pode ser bravo como um tigre, mas também manso como um cordeiro, conforme imite “naturalmente” a um ou a outro animal. 
Desta forma, o homem vivia no paraíso num “estado natural”, com a plena perfeição de seu ser, o qual foi desvirtuado a partir do momento em que Deus disse: “não podereis comer do fruto proibido”. As normas, as regras, a lei, veio para tirar o homem de seu estado de “perfeição” natural. Tirando-lhe a liberdade e também o “direito” de ser igual, Deus teria implantado a desigualdade no ser humano. A conclusão desta teoria foi que descambou na famosa trilogia da Revolução Francesa (liberdade, igualdade, fraternidade), pois livre e igual o homem deveria viver numa copiosa e intensa fraternidade.

Exemplo da prática de “bondade” natural


São Luís Grignion de Montfort define o possuidor de tal “bondade” como aquele que é “sábio segundo o mundo”:
“Sábio segundo o mundo é quem sabe desenvolver-se em seus negócios e consegue tirar vantagem de tudo, sem dar a  impressão de buscá-la; quem domina a arte de fingir e enganar astutamente, sem que ninguém se dê conta; quem conhece perfeitamente os gostos e delicadezas do mundo; quem sabe amoldar-se a todos para conseguir seus propósitos, sem preocupar-se nem pouco nem muito com a honra e a glória de Deus; quem harmoniza secreta porém funestamente a verdade com a mentira, o Evangelho com o mundo, a virtude com o pecado e Jesus Cristo com Belial; quem deseja passar por honesto, porém não por devoto; quem despreza, interpreta torcidamente ou condena com facilidade as práticas piedosas que não se acomodem às suas.  Finalmente, sábio segundo o mundo é quem, guiando-se somente pela luz dos sentidos e da razão humana, trata unicamente de salvar as aparências de cristão e homem de bem, sem preocupar-se o mínimo possível de agradar a Deus e expiar, pela penitência, os pecados cometidos contra a divina Majestade”[3]

Discorrendo sobre outros conceitos de Bondade

Vez por outra o Dr. Plínio Corrêa de Oliveira dissertava sobre o tema da Bondade, como o fez ao escrever artigo para o "Legionário":
"Ocupa lugar de destaque nessa triste galeria de verdades diminuídas, de virtudes amesquinhadas, de sofismas interiores mais ou menos conscientes e mais ou menos covardes, a noção que habitualmente se tem de "bondade".
Segundo a opinião corrente, o que é uma pessoa boa? Esse conceito é eminentemente variável. O que se exige de uma boa senhora não se exige de um bom ancião; o que se exige de uma boa criança não se exige de um bom moço. A moral, para a grande maioria de nossos contemporâneos, varia quase completamente segundo a situação de cada qual, e, não raras vezes, o que em uma pessoa, em uma senhora, por exemplo, seria tido como imperativo preceito de moral, em um moço parecerá ridículo e desprezível defeito. A bondade, pois, segundo esses censuráveis conceitos, varia conforme o sexo e a idade. Vejamos rapidamente alguns perfis de pessoas habitualmente tidas por "muito e muito boas”.
Antes de tudo, o conceito de "bom rapaz".  Não há, talvez, expressão de que tão freqüentemente se abuse. Verificando-se a que série incontável de indivíduos ela é dada, fazendo-se o levantamento dos defeitos que um rapaz pode ter, sem por isto deixar de ser "bom" segundo a opinião corrente, vê-se de imediato que, desde que ele não tenha matado, ferido ou espancado gravemente alguém, desde que não tenha roubado pelo processo do arrombamento, desde que não tome tóxicos, é qualificado de bom. Pode esse rapaz esbanjar criminosamente  sua mocidade arrastando-a pelos mais miseráveis antros da cidade, são... rapaziadas. Pode ele ter os vícios os mais lamentáveis, como por exemplo do jogo: se ele ainda não perdeu a fortuna na roleta, ou a embriaguez ainda não lhe arruinou a saúde, tudo isto não passará de aprazíveis "rapaziadas". Pode ele, ainda, praticar as mais censuráveis leviandades no terreno sentimental, como seja de alimentar esperanças e provocar decepções, movido apenas pela vaidade e pelo capricho; tudo isto será muito engraçado, terá seu "inegável pitoresco", será típico de um jovem que não queira passar por inteiramente desinteressante.
Evidentemente, segundo essas abomináveis regras de moral, há restrições a estabelecer. Um moço que contraia imprudentemente um noivado com o intuito de jamais cumprir sua promessa de casamento fará uma coisa muito engraçada. Mas se a vítima da aventura, em vez de ser uma pessoa estranha aos adeptos dessa singular moral, for pelo contrário uma filha, uma irmã, uma parente, tudo isso passará a ser qualificado infalivelmente de genuína crapulice. Um moço que, a título de "rapaziada", arme um "rolo", fará algo de muito divertido.  Mas se, durante o "rolo" ferir alguém gravemente, o que em qualquer "rolo" pode suceder, e com isto andar às voltas com a polícia, deixará de ser tido como um "bom rapaz" para ser um "indivíduo que até tem ficha na polícia".  Em última análise, tudo isto reverte em uma adoração do êxito. Tudo aquilo que não teve mau êxito será desculpável, por pior que seja. Tudo aquilo que tem mau êxito será censurável. Tudo o que não fere os interesses pessoais é jocoso e interessante. Tudo o que os fira será censurável e digno de condenação.
Essa moral tem, evidentemente, também sob outros pontos de vista, suas contradições. Um comerciante, ferido às vezes por circunstâncias imprevistas e invencíveis, pede falência: foi um homem que não pôde cumprir a palavra dada aos credores, e, por isto, em torno dele se estabelece um ambiente de reprovação.
Um homem vai ao altar, jura manter uma fidelidade plena a sua esposa, sabe perfeitamente que não obteria o consentimento desta para o casamento se ela soubesse que tal juramente não é sincero, e, tudo isto ponderado, casa-se. Depois, rompe o compromisso assumido, e isto por um ato libérrimo de sua vontade. Mas contra esse só existe a reprovação dos parentes de sua esposa, os quais acham muito natural que outros façam o mesmo com pessoas que lhes são perfeitamente estranhas.
Na moral comercial, presenciam-se aberrações do mesmo jaez. Um indivíduo pode impunemente ocultar os defeitos da mercadoria por ele fornecida, elevar desmesuradamente ou abaixar injustamente os preços, armas "trusts" e lançar ao desemprego centenas ou milhares de empregados: tudo isto é lícito. Mas ai dele se roubasse um cigarro ou um charuto em casa de algum amigo!
E assim por diante, vê-se como a moral mundana é inteiramente vã, representando apenas a sobrevivência de alguns vagos princípios de moral católica.
Em ocasião passada, vimos o que se deve pensar do "carola". Por mais que esse tipo seja risível, como não o achar admirável em comparação dos sacripantas que tão freqüentemente o mundo canoniza como "bons"? [4]

Em outra oportunidade, escreveu o seguinte artigo para o mensário “Catolicismo” (edição n.34, de outubro de 1953):

“Uma deformação romântica da caridade: “o bom coração”.
Odiar é pecado? Sim, não? Por que? Se alguém se encarregasse de fazer entre os nossos católicos um inquérito a este respeito, recolheria respostas muito curiosas, revelando em geral uma pavorosa confusão de idéias, um ilogismo fundamental.
Para muita gente, ainda intoxicada por restos do romantismo herdado do século XIX, o ódio não é apenas um pecado, mas o pecado por excelência. A definição romântica do homem mau é o que tem ódio no coração. A contrário sensu, a virtude por excelência é a bondade, e por isto todos os pecados têm sua atenuante se cometidos por uma pessoa de "bom coração". É freqüente ouvirem-se frases como esta: "pobre X, teve a fraqueza de se ‘casar’ no Uruguai, mas no fundo é muito boa pessoa, tem ótimo coração". Ou então: "pobre Y, deixou roubar em sua repartição, mas foi por excesso de bondade: ele não sabe dizer não, a ninguém".
O que vem a ser "um bom coração"? Evidentemente, começa por não ser um coração propriamente dito, mas um estado de espírito. Tem "bom coração" quem experimenta em si, muito vivamente, o que sofrem os outros. E que, por isto mesmo, nunca faz sofrer a ninguém. É por "bom coração" que uma pessoa pode deixar sistematicamente impunes as más ações de seus filhos, permitir que a anarquia invada a aula em que leciona, ou os operários que dirige. Uma reprimenda faria sofrer, e a isto não se resolve o homem de "bom coração", que sofre ele mesmo demais, em fazer os outros sofrer. O "bom coração" sacrifica tudo a este objetivo essencial, de poupar sofrimento. Se vê alguém queixar-se do rigor do Decálogo, pensa imediatamente em reformas, abrandamentos, interpretações acomodatícias. Se vê alguém sofrer de inveja por não ser nobre, ou milionário, pensa logo em democratização. Juiz, sua "bondade" o levará a sofismar com a lei para deixar impunes certos crimes. Delegado, fechará os olhos a fatos que seu dever funcional lhe imporia que reprimisse. Diretor de prisão, quererá tratar o sentenciado como uma vítima inocente dos defeitos da época e do ambiente; e, em conseqüência, instaurará um regime penal que transformará a casa de correção em ponto de encontro de todos os vícios, em que a livre comunicação entre sentenciados exporá cada um ao contágio de todos os vírus que ainda não tem. Professor, aprovará sonolenta e bonacheironamente alunos que no máximo mereceriam 2 ou 3. Legislador, será sistematicamente propenso a todas as reduções de horas de trabalho, e a todos os aumentos de salário. Na política internacional, será a favor de todos os "Munique" de todas as capitulações imprevidentes, preguiçosas, imediatistas desde que sem dispêndio de energia salvem a paz por mais alguns dias.
Subjacente a todas estas atitudes, está a idéia de que no mundo só há um mal, que é a dor física ou moral: em conseqüência, bem é tudo quanto tende a evitar ou a suprimir sofrimento, e mal é o que tende produzi-lo ou agrava-lo. O "bom coração" tem uma forma especial de sensibilidade, pela qual se emociona à vista de qualquer sofrimento, e defende todo e qualquer indivíduo que sofre, como se ele fosse vítima de uma injusta agressão. Dentro desta concepção, "amar ao próximo" é não querer que ele sofra. Fazer sofrer o próximo é sempre e necessariamente ter-lhe ódio.
Daí advém para o homem de "bom coração" uma psicologia muito especial. Todos os que têm zelo pela ordem, pela hierarquia, pela integridade dos princípios, pela defesa dos bons contra as investidas do mal, são desalmados, pois "fazem sofrer" com sua energia os "pobres coitados" que "tiveram a fraqueza" de cair em algum deslize.
E se em relação a todos os pecadores da terra o homem de "bom coração" tem tolerância, é muito explicável que odeie o homem de "mau coração" que "faz sofrer os outros".
Estas são as linhas gerais em que se pode sintetizar um estado de espírito muito freqüente. Claro está que apontamos um caso em tese. Graças a Deus, só um número relativamente pequeno de pessoas é que em todos os campos chega a estes extremos. Mas é freqüente encontrar gente que em diversos pontos age inteiramente assim.
E constituem multidão aqueles em que se encontram pelo menos laivos deste estado de espírito.
Ainda aqui, alguns exemplos são esclarecedores. Para mostrar quanto este mal está entranhado no brasileiro, escolhamos esses exemplos em maneiras de falar e de sentir comuns entre católicos.
Para que se entenda bem o que há de errado nos exemplos que vamos dar, comecemos por lembrar rapidamente qual é neste assunto a autêntica doutrina católica.
Para a Igreja, o grande mal neste mundo não é o sofrimento, mas o pecado. E o grande bem não consiste em ter boa saúde, mesa farta, sono tranqüilo, em gozar honras, em trabalhar pouco, mas em fazer a vontade de Deus. O sofrimento é certamente um mal. Mas este mal pode em muitos casos transformar-se em bem, em meio de expiação, de formação, de progresso espiritual. A Igreja é Mãe, a mais terna, a mais solícita, a mais carinhosa das mães. Dela se pode dizer, como de Nossa Senhora, que é Mater Amabilis, Mater Admirabilis, Mater Misericordiae. Assim, ela procurou sempre, procura hoje, até o fim dos séculos procurará quanto possa afastar de seus filhos, e de todos os homens, qualquer dor inútil. Mas nunca deixará de lhes impor a dor, na medida em que a glória de Deus e a salvação das almas o peçam. Ela exigiu dos mártires de todos os séculos que aceitassem os tormentos mais atrozes, ela pediu aos cruzados que abandonassem o conforto do lar para arrostar mil fadigas, combates sem conta, a própria morte em terra estranha. E ainda em nossos dias ela pede aos missionários que se exponham a todos os riscos, a todas as fadigas, nos rincões mais inóspitos e longínquos. A todos os fiéis, pede ela uma luta incessante contra as paixões, um esforço interior contínuo para reprimir tudo quanto é mau. Ora, tudo isto supõe sofrimentos de tal monta, que a Igreja os considera insuportáveis para a fraqueza humana, a ponto de ensinar que, sem a graça de Deus, ninguém pode praticar na sua totalidade, e duravelmente, os Mandamentos.
Todos estes sofrimentos, a Igreja os impõe com prudência e bondade, é certo, mas sem vacilação, nem remorso, nem fraqueza. E isto, não apesar de ser boa mãe, mas precisamente porque o é. A mãe que sentisse remorso, vacilasse, fraquejasse ao obrigar seu filho a estudar, a se submeter a tratamentos médicos penosos mas necessários, a aceitar punições merecidas, não seria boa mãe.
 Este procedimento, a Igreja o espera também de seus filhos, não só em relação a si mesmos, mas ao próximo. É justo que nos dispensemos de dores inúteis e evitáveis. Devemos ter para com o próximo entranhas de misericórdia, condoendo-nos com seus padecimentos, e não poupando esforços para os aliviar. Entretanto, devemos amar a mortificação, devemos castigar corajosamente nosso corpo e, principalmente, combater com afinco, clarividência, meticulosidade os defeitos de nossa alma. E como o amor do próximo nos leva a desejar para ele o mesmo que para nós, não devemos hesitar em fazê-lo sofrer, desde que necessário para sua santificação.
* * *
Ora, na aplicação destes princípios é fácil apontar muitos desvios ocasionados pela concepção romântica do "bom coração".
É "bom coração" ter certa condescendência para com formas veladas de divórcio, por pena dos cônjuges, ser pela abolição dos votos religiosos e do celibato sacerdotal, por pena das pessoas consagradas a Deus, considerar com laxismo os problemas ligados à limitação da prole por pena da mãe, etc. Em outros campos, o "bom coração" consiste em ser contra as polêmicas ainda que justas e temperantes, contra o Index, contra o Santo Ofício, contra a Inquisição ( ainda que sem os abusos a que deu ocasião em alguns lugares ), contra as Cruzadas, porque tudo isto faz sofrer. Em outros campos ainda, o "bom coração" consiste em não falar de demônio, nem de inferno ou de purgatório, em não avisar aos doentes que a morte está próxima, em não dizer aos pecadores a gravidade de seu estado moral, em não lhes falar de mortificação, nem de penitência, nem de emenda, porque também isto faz sofrer. Já vimos um educador católico se manifestar contra os prêmios escolares porque fazem sofrer os alunos vadios! Como já vimos também associações religiosas tolerando em seu grêmio elementos perigosos para os associados e desedificantes para o público, porque a expulsão desses elementos os faria sofrer. Falar contra as modas e danças imorais, preconizar uma censura cinematográfica sem laxismo tudo isto em última análise parece descaridoso, porque "faz sofrer". Soubemos a este respeito de alguém que desaconselhava uma campanha contra os jornais imorais porque isto "faz sofrer" os editores cujas almas cumpre salvar!
* * *
Fizemos esta longa digressão para focalizar melhor o problema que de início formulávamos. Para o "bom coração", todo ódio é necessariamente um pecado. Dir-se-á o mesmo à luz da doutrina católica?
Pensando no perigoso furor da avalanche de "bons corações" de que o Brasil está cheio, quase não ousamos formular a pergunta. E certamente não responderemos por nós. Mas falaremos pela grande e autorizada voz de S. Tomás.
É o que faremos em próximo artigo”.

Escrevendo anos depois para a “Folha de São Paulo”, Dr. Plínio assim se expressou a respeito do mesmo assunto, embora trate de outros temas correlatos, mas que têm estreita ligação com a Bondade:
“- “Bondade”: segundo o sofisma moderno, quem é bom jamais faz sofrer os outros. Ora, o esforço faz sofrer. Logo, só é bom quem não pede esforço a outrem. A civilização cristã, pelo contrário, modelou os povos do Ocidente conforme o princípio de que o esforço é condição essencial para a dignidade, o decoro, a boa ordem e a produtividade da vida. Se “bondade” é, em todos os campos, abolir o esforço, não é implicitamente privar a vida de valores sem os quais ela não é digna de ser vivida? E então, esta hipertrofiada “bondade” não constitui o pior malefício?
- “Amor à criança”:  segundo essa “bondade” adocicada e desfibrada, o amor à criança consiste em dispensá-la de todo esforço. Isto se pretende conseguir por mil técnicas, cujo efeito seria instruir e formar a criança sem nenhum sacrifício para esta. O aferramento a esta idéia vai a ponto de condenar as punições escolares porque fazem sofrer os culpados, e a condenar os prêmios porque podem dar complexos aos vagabundos. Dado que, segundo a tradição cristã e o simples bom senso, um dos fins essenciais da educação é formar para a luta da vida através do hábito do esforço e do sacrifício, o que é esse “amor à criança” senão uma cruel deseducação?
- “Simplicidade”, “despretensão” : simples seria quem prefere as coisas que não exigem muito gosto, nem muito esforço. Despretensiosa seria a pessoa que sente bem-estar em ser vulgar. A “simplicidade” e a “despretensão”  vão invadindo mais e mais os costumes de jovens e adultos. As regras da polidez e do trato, o modo de organizar uma casa, de receber, de se vestir, de falar, vão ficando sempre mais “simples” e “despretensiosos”.   Decoro, brilho, qualidade, classe, prestígio, são valores do espírito dia a dia menos aceitos”. [5]

2.            BENQUERENÇA (BEM QUERER)

Viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem:

- Viver, quer dizer, cumprir os desígnios de Deus nesta terra e levar sua vida buscando praticar as virtudes e o amor a Deus;
- Estar juntos: para tanto é necessário conviver com seus semelhantes de uma maneira unida, daí a palavra “estar juntos” no plural, quer dizer, unido a todos os demais que estão em sua volta;
- Olhar-se:  o ato de olhar um para o outro reflete o julgamento que temos sobre nós mesmo e sobre aqueles com os quais convivemos; da mesma forma, a palavra indica que os olhares são reflexivos, isto é, olhamos esperando sermos olhados, ou julgados, ou analisados, pelos demais;
- Querer-se bem: vem a parte principal desse pensamento, que é o amor. Não adiantaria viver, estar juntos e nos olharmos recíprocamente sem a prática do amor, que é o querer bem, é a benquerença, pois tanto a felicidade quanto o sofrimento, mesmo passageiros, devem ser divididos com nossos semelhantes.
Nisso pode se resumir toda a benquerença.

3.            BENFAZEJA

Na benquerença está explicitado o que é o desejar o bem, mas de modo especial, fazer o bem não é somente querendo bem ao próximo, mas efetivamente o executando, pois a palavra “querer” exprime apenas o desejo, enquanto que “fazer” já é o desejo em ação.  Desejar amar e fazer o bem é uma coisa, e realmente fazê-lo de fato é pôr em prática aquilo que desejamos. Então estas  palavras se completam com a expressão “benquerença benfazeja”. Não que possa existir alguma benquerença malfazeja; não, de modo algum, mas apenas que o termo benfazeja completa a outra e a faz mais efetiva e prática.

Bondade e intransigência

“Minha mãe era de uma bondade que eu não saberia explicar. Inclusive na hora de perdoar, ela manifestava sempre uma indulgência, uma suavidade, nunca uma reclamação porque algo a tivesse atingido. Em suas repreensões não entrava a reivindicação de um direito próprio, mas a defesa de um princípio do qual seu espírito estava imbuído. E embora não soubesse explicitar os princípios, ela os possuía.

Por isso, suas repreensões não resultavam de uma irritação pessoal, mas de um princípio ofendido — inclusive o princípio da autoridade materna — mas sempre com tanta bondade, tanta paciência tanto perdão no que dizia respeito a si, que mesmo que se fizesse o pior contra ela, ela o suportava sem dizer palavra.
Por outro lado, que severidade em suas repreensões! Que seriedade no olhar! Que compenetração de que se tratava de fazer prevalecer um princípio! Que convicção de que se não conformasse minha vida com aqueles princípios, eu valeria muito menos para ela, porque em mim ela via mais o filho que deveria amar os princípios do que alguém que lhe deveria querer bem! Ademais, quanta sabedoria no que dizia! Embora a voz fosse grave, a bondade nunca estava ausente. Sua intransigência para comigo estava sempre mesclada com a bondade.

Certa vez, no apogeu de minha vida escolar — eu nunca fui o primeiro de minha aula — voltei do Colégio São Luiz, após a festa da distribuição de prêmios, com quatro medalhas no peito. Naquele tempos ingênuos, os meninos vinham pela rua ostentando as suas medalhas, e assim vinha eu com minha roupa à marinheira. Quando mamãe me abriu a porta, afagou-me muito; foi uma alegria! No ano seguinte, eu voltei com três medalhas. Abrindo a porta, ela me viu e disse: “Só três?” — E acrescentou intransigente: “Como é que você decaiu, o que aconteceu para você decair?” Mas tudo isso misturado com tanto afeto, tanta bondade e tanto carinho, que para mim foi uma preparação para compreender o que era a misericórdia de Nossa Senhora. Outro tanto poderiam os senhores dizer de suas mães”.

(Plinio Corrêa de Oliveira

https://luciliacorreadeoliveira.blogspot.com/2017/05/bondade-e-intransigencia.html )





[1] São Tomás de Aquino – Suma Contra os Gentios  – tradução de D. Odilão Moura, OSB  - 1990 -  liv I  cap. XL, 1.
[2] O termo “Revolução” aqui é empregado como o faz o Dr. Plínio Corrêa de Oliveira no livro “Revolução e Contra-Revolução”. Ver início do capítulo 6.
[3] San Luis Maria Grigênion de Montfort – Obras – BAC – pág. 152
[4] Legionário", 27 de julho de 1941- in revista "Dr. Plínio", de setembro de 2002
[5]  “Folha de São Paulo”,  20.03.69

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O BOM JESUS


Várias são as invocações da Bondade divina de Nosso Senhor, todas elas sob a denominação do Bom Jesus, e todas representadas por Ele pregado na Santa Cruz. Por que?  Porque foi desta forma que Nosso Senhor consumou sua Bondade no ponto mais alto, expressão última de suas perfeições divinas. A maldade humana junto com a diabólica tramou de tudo para ocultar sua Bondade: pregou-lhe as mãos e os pés (que tanto bem fizeram aos homens) no madeiro, desfigurou Seu semblante com uma ignóbil e torturante coroa de espinhos, expôs Seu sagrado corpo à nudez e aos açoites.  Mas refulgiu mais ainda Sua infinita Bondade quando deixaram abrir seu peito e mostrar Seu Coração Sagrado, com uma ferida enorme aberta, derramando sobre os homens e toda a Criação uma torrente infinita de graças.
Nos momentos finais de Seu martírio, achou Ele oportunidade para praticar os atos mais representativos de Sua Bondade.  Ao ver-se despido e carregado aos tropeços para ser pregado na Cruz, dirigiu a oração de misericórdia para os seus esbirros, dizendo: “Perdoai-os, pois não sabem o que fazem”. Estava implícito que aqueles que “sabiam o que fazem” não estavam incluídos naquele perdão. Para estes, a Santíssima Trindade previra o primeiro juízo, pois assim tais pessoas ficariam aferradas aos pecados e despojados dos dons da graça. A seguir seguem os outros seis juízos, dos sete que Deus exerce sobre os homens, conforme definição feita por São Boaventura.[1]
Depois, por um gesto magnânimo, entregou Sua Mãe aos cuidados do discípulo que mais amava, São João, dizendo: Mulher eis aí teu filho; filho, eis aí tua Mãe. Nosso Senhor entregava Sua Santa Mãe para que adotasse os homens de bem, os filhos da luz, representados por São João.  Estes, sob a proteção de Maria, ficariam livres do juízo da obcecação, castigo que só seria imposto aos hereges, cismáticos e ímpios, os quais não têm Maria por mãe.
Um dos ladrões, de coração duro como pedra, dizia: “Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós”. De quem tinha ele ouvido tal frase? Da turba de fariseus que estavam aos pés das cruzes blasfemando contra Cristo, cujos corações eram tão duros quanto o do mau ladrão. Esta dureza de coração era o castigo por causa de seus pecados, “o terceiro juízo” divino sobre aquele povo.. Quanto ao outro ladrão, inspirado pelo Espírito Santo, rebatia tal dureza com o temor de Deus: “Nem sequer temes a Deus, estando na mesma condenação? Quanto a nós, é de justiça; estamos pagando por nossos atos; mas ele não fez nenhum mal”. E acrescentou: ”Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com teu reino”. Ele respondeu: “Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 39-43). São Dimas referiu-se ao “teu reino”  no momento da morte, aspirando portando o eterno. Provavelmente ouvira Nosso Senhor dizer a Pilatos: “o meu reino não é deste mundo”. Surgia naquele instante a vocação mais fulminante da História: em breves momentos o homem se converte, se santifica e se salva.
O brado do abandono, “Eli Eli l’ema sabactha’ni”, meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes! É em parte um lamento porque o Corpo e Alma de Cristo, assim como Seu Corpo Místico ali presente ao pé da Cruz, haviam sido abandonados, estavam entregues à própria sorte. Mas, na realidade, trata-se de um salmo de Davi, que se inicia com um lamento e termina como canto de vitória: “Ó meu Deus, olha para mim, por que me desamparaste?”. Provavelmente, Nosso Senhor continuou a rezar o salmo silenciosamente, que termina assim: ”A geração que há de vir será anunciada ao Senhor, e os céus anunciarão sua justiça ao povo que há de nascer, e que o Senhor formou” (Sl 21), quer dizer, “a geração que há de vir” era a Santa Igreja que ali nascia.  Este desamparo não pode ser comparado com o quarto juízo de Deus, o qual expõe o pecador sujeito às tentações e ao pecado porque se apegou a ele, enquanto que o desamparo a Cristo foi apenas o abandono do conforto material e humano. Estavam “ipso facto” entregues ao abandono da graça divina todos os que não pertencessem à Igreja.
Do alto da Cruz, Nosso Senhor lança o brado: tenho sede! Enquanto manifestava Ele ali sua sede de almas, a Santíssima Trindade julgava o povo deicida com o juízo da dissipação, pois haviam recebido os dons para obrar o bem e só obravam o mal, e nele havia morrido aquela sede de almas. A partir daquele momento, nada mais conseguiriam amealhar de quaisquer bens, sejam caducos ou, principalmente, espirituais. O povo deicida, por haver rejeitado a Graça, tornou-se dissipador e nada juntou, estando sujeito aos castigos que lhe vieram com a dispersão pelo mundo, o que se chamou depois de diáspora. A sentença ou juízo foi dada com o Profeta Malaquias:   “Por isso, como não guardaste os meus caminhos, e, quando se tratava de sentenciar, segundo a minha lei, fizestes acepção de pessoas, também eu vos tornarei desprezíveis e vis aos olhos de todos os povos”.  (Mal 2, 9).
Por duas vezes Nosso Senhor Jesus Cristo dirá a frase “Está consumado!”  A primeira foi do alto da Cruz e a segunda será no Juízo Final, conforme consta no Apocalipse: O sétimo anjo derramou a sua taça pelo ar, e saiu uma grande voz do templo (vindo) do trono, que dizia: está feito (Ap. 16, 17).  A Obra divina estava consumada eternamente, a Igreja estava ali nascendo. Judas deve ter caído no juízo da desesperação neste momento, assim como muitos dos judeus deicidas.  Era o sexto juízo de Deus para muitos. Em breve os túmulos iriam abrir-se para os Santos profetas acusá-los de seus pecados
Finalmente, o Salvador lança o brado final: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. Com esta entrega, Nosso Senhor conquista por seu próprio mérito o título de Juiz, com que Ele mesmo se proclamava de “Filho do Homem”.  Todo pecador passava a ficar sob seu julgamento no momento da morte, podendo obter d’Ele a condenação ou salvação eterna.  Junto com o Salvador, os Profetas e Santos Patriarcas abriram seus túmulos para exercerem o último julgamento sobre aquele povo. O espectro da morte vem à mente de todos naquele momento, seja através do eclipse, do terremoto ou dos corpos ressurretos. Eram recursos extremos da graça divina para despertar naqueles homens o Temor de Deus. Para aquele que nada disso surtia efeito, caia o juízo da condenação eterna.

“Cristianus alter Christus”
Qual a razão pela qual fizemos aparente digressão a respeito da Bondade de Jesus Cristo, narrando especialmente a forma como confrontava a opinião dominante dos judeus de sem tempo?  É que Nosso Senhor Jesus Cristo é o nosso Modelo máximo de perfeição, é a forma acabada e perfeita da Bondade que devemos seguir para cumprirmos nosso destino aqui na terra. Devemos procurar imitá-Lo em tudo, fazendo d’Ele um exemplo para que possamos como que nos identificarmos com Ele. 
Repetimos apenas antiga fórmula de ascética cristã: “Cristianus alter Christus”, o cristão deve ser um outro Cristo, Isto é, deve procurar imitá-Lo em tudo. Devemos procurar praticar uma bondade que se assemelhe com a dEle, embora saibamos que, como meros homens pecadores, nunca chegaremos a atingir a milionésima parte de sua infinita perfeição.

O doce e santíssimo nome de Jesus
Encerremos com as palavras de São Bernardino de Sena:
“Deram-lhe o nome de Jesus” (Lc 2, 21)
“Ainda que seja inefável o nome santíssimo de Jesus que foi imposto na Circuncisão a Cristo Senhor, Redentor do gênero humano, todavia para não nos calarmos completamente em tão grande solenidade, alguma coisa apresentaremos em louvor e glória de tão grande nome, diante do qual “todo o joelho se dobra nos Céus, na Terra e nos Infernos”  (Fil. 2, 10). Porque tão grande é a consolação da alma que se alegra em Cristo, que a pobreza se torna como riquezas, a aspereza como delícias e a vileza como honras, e pelo Seu nome todos  os suplícios se fazem para ela doces.
“Na verdade, diz-se por causa desse nome: “Saíram da sala do Sinédrio cheios de alegria por terem sido considerados dignos de sofrer vexames por causa do nome de Jesus”  (At 5, 41). Portanto, se mergulha na tua mente o negrume da tristeza, se está iminente uma grave e violenta tempestade, se as costas do mar ribombam com terrível e horroroso mugido, se são batidas as praias do oceano, e se também a nau está invadida pelas ondas, invoca Jesus, que se julga estar a dormir nos navios, mas é um Jesus que nem dorme nem dormita; e com toda a Fé diz-lhe: “Levanta-te, Senhor Jesus!”  (Sl 3, 7).
“Oh nome de Jesus exaltado acima de todo o nome, oh gozo dos Anjos, oh alegria dos justos, oh pavor dos condenados:  em Vós está a esperança de qualquer perdão, em Vós toda a esperança da indulgência, em Vós toda a expectativa de glória. Oh nome dulcíssimo, Vós dais perdão aos pecadores, renovais os costumes, encheis os corações de doçura divina. Oh nome desejável, nome admirável, nome venerável, Vós, nome do Rei Jesus, assim levantais ao mais alto dos céus os espíritos, que todos os que principiam a ter devoção a este nome, graças a Ele encontram a glória e a salvação, por Jesus Cristo Nosso Senhor.  [2]




[1] Ver tópico do Temor de Deus, onde se descreve os sete juízos de Deus sobre o homem, em  “Obras de San Buenaventura – BAC – vol. V – fls. 372/392”.
 [2] Homilia de São Bernardino de Sena sobre o santíssimo nome de Jesus