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sábado, 11 de dezembro de 2021

A NECESSIDADE DO NOME

 




Diz-se que há 4 coisas que não temos opção ao nascer: a família (pai e mãe), o nome, o sexo e a religião. Esta última a própria pessoa pode mudar quando crescer, mas não a família nem o sexo e o nome, a não ser, neste último caso, quando tiver recebido um nome indigno que precise renunciar ao mesmo; mas, só o faz judicialmente. Todos os homens têm necessidade de um nome, logo ao nascer, tornando-se o primeiro sinal de identidade de uma pessoa. No Antigo Testamento, os nomes próprios de pessoas tinham origens diversas, sempre relacionados com alguma circunstância particular ao nascer.

Um dos filhos de Jacó tomou o nome de Judá para louvar a Javé (Gên 29, 35). Geralmente os nomes eram dados em homenagem a Deus, particularidade notada pelas letras “el” (Deus) no início ou final do nome: Natanael (dom de Deus), Elimelec (meu Deus é rei), Ezequiel (Deus consola), Israel (Deus forte), Gabriel (mensageiro de Deus), Rafael (medicina de Deus), Miguel (quem como Deus). Diz-se que os anjos não possuem nomes próprios como os homens, mas eles assim são chamados para indicar qual missão exercem. Quando o patriarca Jacó lutou com um anjo (Gên 32, 24-32), perguntou-lhe seu nome, mas ele respondeu: por que me perguntas o meu nome? E o abençoou sem dizer o nome (ou porque não o tinha ou porque não interessava dizê-lo naquele momento), embora tenha mudado o nome de Jacó para Israel. Vários personagens bíblicos tiveram seus nomes mudados: Abrão mudou para Abraão; Sarai para Sara; Jacó para Israel, etc, que indicava uma vocação ou uma missão a seguir.

Algumas pessoas também eram chamadas pelo gentílico: Nazareno (de Nazaré), Madalena (de Magdala), ou pelo patronímico como Bar-Jonas (fiho de Jonas), Bar-Teimeo (filho de Timeo), Bar-tolomeu (filho de Ptolomeu), etc. Nosso Senhor Jesus Cristo mudou o nome de alguns Apóstolos, indicando, às vezes, qual a vocação pessoal de cada um: Tiago e João foram chamados de Boanerges (filhos do trovão – Mc 3, 17); Simão foi chamado de Pedro (Mt 16, 18). Conservando esta tradição, algumas ordens religiosas têm o costume de mudar o nome do religioso quando faz seus votos. O mesmo ocorre com o Papa quando é eleito. Estes novos nomes indicam a vocação de cada um.

 Nomes de origem terrena e nomes de origem divina

 “O Anjo disse-lhe: "Não temas Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás a luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó e o seu reino não terá fim." (Lc 1, 30-34)

 E aí o significado de “nome” é mais profundo, indicando boa fama e poder; Quando se diz “fulano tem nome a zelar”, quer dizer também boa fama e, em alguns casos, poder. Em várias partes das Sagradas Escrituras se fala em honrar, em venerar ou adorar o “nome de Deus”, quer dizer, embora Deus não tenha nome deve-se ter honra, respeito, veneração ou adoração pelo que Ele é e atua entre nós, que é como se fosse sua boa fama e poder.

Vê-se que o Anjo fala em “casa de Jacó”, mas o patriarca teve seu nome mudado por um Anjo para Israel (Gên 32, 28). Poderia ter dito “casa de Israel”, mas na linguagem corrente entre os hebreus o nome Jacó estava ligado à descendência real através da tribo de Judá, enquanto Israel tinha sentido mais espiritual e divino. O Anjo, portanto, falava claramente também numa descendência real terrena. É como se estivesse definido aí a diferença entre o poder temporal e o e spiritual, que, no entanto, devem reger unidos.

O Profeta Isaías chama a dinastia que dominava os hebreus de “Casa de Jacó” e não “Casa de Israel”, indicando um reinado meramente terreno: “Casa de Jacó, vinde e caminhemos à luz do Senhor. Pois tu (ó Senhor) rejeitaste o teu povo, a casa de Jacó, porque eles se encheram (de superstições) como noutro tempo tiveram agoureiros como os filisteus, e se uniram aos filhos dos estranhos” (Is 2, 5-6).  Note-se que quando o Profeta fala “rejeitaste o teu povo”, logo a seguir completa, “a casa de Jacó”, quer dizer, Deus recusou os dirigentes, os filhos de Judá, judeus, e não o povo israelita. Mais adiante, o Profeta dá a entender essa distinção entre governantes e o povo quando diz: “Agora, pois habitantes de Jerusalém, e homens de Judá, sede vós os juízes entre mim e a minha vinha” (Is 5, 3). Habitantes de Jerusalém eram apenas os que moravam na capital, dominada por duas tribos, Benjamin e Judá, e “homens de Judá”, claramente, eram os dirigentes, os príncipes e reis que lá dominavam.

Quando se refere à “casa de Jacó” sempre dá a entender que está falando dos reis, da dinastia real, e não do povo eleito em geral, como nestes textos: “E acontecerá isto naquele dia: Os que tiverem ficado de Israel e os da casa de Jacó, que se tiverem salvado, não se apoiarão mais sobre aquele que os fere; mas apoiar-se-ão sinceramente sobre o Senhor, o Santo de Israel” (Is 10, 20-21). Em seguida o profeta fala que se converterão apenas “as relíquias”, isto é, uma pequena porção, tanto da “casa de Jacó” quanto do povo em geral.

Em outra passagem, diz: “Apesar dos que investem com ímpeto contra Jacó, Israel florescerá” (Is 27-6), deixando bem claro a diferença entre o poder temporal (Jacó) e o  espiritual (Israel)

“Por esta causa, o Senhor, que resgatou Abraão, diz isto à casa de Jacó: Agora não será confundido Jacó, nem agora se envergonhará o seu rosto; mas, quando vir no meio dele os seus filhos, obra das minhas mãos, dar glória ao seu nome, também eles santificarão o Santo de Jacó e glorificarão o Deus de Israel” (Is 29, 22-23). O “Santo de Jacó” é, pois, Jesus Cristo, descendente da “casa de Jacó” e o “Deus de Israel” nem precisa dizer Quem é.

E, no entanto, as profecias diziam “E tu Belém de Efrata, tu és pequenina entre as milhares de Judá; mas de ti é que há de sair aquele que há de reinar em Israel”. (Miq 5, 2). Há, portanto, dois significados nos títulos reais dados a Jesus Cristo: o terreno e o divino, sendo rei da “casa de Jacó” o faz com o título meramente terreno, mas como “Rei de Israel” (nome com que o Anjo mudou o nome de Jacó) ele reina sobre todos os homens, pois este título é divino. Estão bem definidos os poderes temporal e espiritual.

“Ao Nome de JESUS todo joelho se dobre no céu, na terra e nos abismos; e toda língua proclame, para glória de Deus Pai, que Jesus Cristo  é Senhor!” (São Paulo, Fil 2,10)

 

Nomes e títulos

 
Há nomes e há títulos. Nome é como comumente se é chamada a pessoa, em geral já desde o nascimento. Agora, título é aquele apelativo que se dá quando cria fama cumprindo um desígnio ou uma missão. Assim, Nosso Senhor Jesus Cristo já nasceu com nome e título, Jesus e “Filho do Altíssimo”. Foi acrescentado ao seu nome o de “Cristo” que é também um título, pois significa, Messias. Cristo é a tradução grega da palavra hebraica “mashiah”(Jo 1, 41), que quer dizer “O Ungido”, ou “O Ungido de Deus”, o rei esperado para salvar toda a nação. “Cristo” tornou-se, portanto, o título oficial de Nosso Senhor, acrescido logo após seu nome. Pode ser utilizado “Jesus, o Cristo”, ou então, como é comum no nosso idioma, apenas Jesus Cristo, pois o título incorporou-se ao nome através dos tempos.

No entanto, no Evangelho Nosso Senhor se autoproclama com outro título, o de “Filho do Homem” (Mt 26, 63-64), com dois objetivos: primeiro não ser acusado pelos fariseus de blasfêmia por se chamar de Filho de Deus; em segundo lugar porque o título de “Filho de Homem”, segundo São Tomas de Aquino, é título de juiz, (v. Ez 20, 3-4).; lê-se em São João: Deu-lhe o poder de julgar, porque é o Filho do Homem  (Jo 5, 27).e será na qualidade de juiz que Ele aparecerá no dia do Juízo Final. São Tomás também diz que Nosso Senhor aparecerá aos homens para julgá-los na sua aparência humana, com a finalidade de ser visto por todos como Homem e não como Deus, pois é necessário que um homem julgue outro homem: o juiz tem que ter natureza semelhante aos que vai julgar. Por isso, um anjo não pode julgar os homens, somente um homem pode julgar outro.

Quando Pilatos mandou fazer aquela placa irrisória na Cruz de Cristo não colocou que Ele era “Rei dos israelitas”, e sim, “Rei dos judeus:” Porque os que o condenavam eram apenas os judeus, isto é, pertencentes à Judéia, e não o povo hebreu ou israelita, com suas tribos dispersas. E aí também estava se cumprindo o que disse o Anjo, “casa de Jacó” (Lc 1, 34) e não de Israel. Embora o reino de Cristo seja eterno e se estabeleça sobre todos os povos e não somente sobre o povo de Israel.

 

 

 

 

 


domingo, 21 de março de 2021

O CORPO MÍSTICO DE SATANÁS SERÁ UM DIA CONSUMADO?

 




O império de Satanás poderá um dia ser consumado ao conseguir ele formar por completo seu “corpo místico”, pois somente assim exercerá plena regência sobre os homens e, por conseqüência, sobre aquele universo que estará sob domínio deste corpo maldito.

Quando caiu no inferno, Lúcifer e seus prosélito perderam grande parte de sua inteligência e poder, daí tendo dificuldades para entender como Deus rege o Universo. Ou então, entendendo algo não conseguem seus intuitos por intervenção divina, a não ser em parte e por consentimento de Deus e dos homens que a ele aderirem. Um dos princípios universais de tal regência é aquele pelo qual tudo é feito por intermédio de intercessores: Deus rege o Universo utilizando-se de Anjos e homens e não de uma forma direta.

Lúcifer, por orgulho e ódio à Criação, não entendeu isso desta forma, ou então se o compreende não o executa corretamente, impedido ora por seu orgulho, ora pelo próprio Deus. Assim, ele tem a pretensão de pessoalmente reger tudo, tentando manifestar todo o seu aparente poder sobre os seres criados por Deus.

A formação de seu corpo místico é uma das formas com que ele vem tentando reger os homens. Há dúvidas se realmente tal corpo maldito já foi completamente concluído, existindo sinais de sua atuação pelo menos de uma forma germinal, como se tivesse ainda em formação mas já agindo.

Um dos planos dele é destruir a Igreja de Cristo, o Corpo Místico por excelência, que foi criado para a Santíssima Trindade reger os homens. Com tal intuito sairão levas e mais levas de demônios dos infernos e virão à terra, tentando com violência eliminar a Igreja levando os homens ao desespero e revolta universal contra Deus. Sua intenção é fazer disso um tal movimento universal de almas que possa surgir o corpo místico satânico. Mas, eles não sabem, ou sabem mas não conseguirão fazê-lo, que para que se forme tal corpo místico torna-se necessário que surjam homens com carismas excepcionais de liderança e poder, e dentre estes um somente que se torne o seu representante ou modelo na terra, seria o anti-Cristo.

No período atual, com a completa guerra movida contra a Igreja através do que chamamos de “bagarre”, onde haverá perseguições monumentais, guerras, pestes e desastres naturais, tudo para mover os homens ao desespero e ódio contra Deus, falta-lhes entretanto a existência de alguns homens malditos que possuam carismas extraordinários de liderança. Os próprios demônios virão pessoalmente aterrorizar os homens, tal a pouca confiança que eles têm sobre seus prosélitos entre nós. E nisso consistirá um dos motivos naturais de sua derrota, pois sem homens que encarnem o poder satânico do seu corpo místico a vitória será do Corpo Místico de Cristo, não somente por causas naturais mas por causa da intervenção de Nossa Senhora, a qual colocará homens santos e carismáticos na liderança da luta contra os filhos das trevas. Como conseqüência da derrota do demônio, virá o Reino de Maria.

 O Anti-Cristo seria o intercessor perfeito e acabado do Corpo Místico de Satanás?

 Em todas as visões sobre o inferno uma das características principais é os demônios sob as ordens de Lúcifer impondo sofrimentos atrozes aos condenados. Fanny Moisseieva foi uma vidente russa que teve várias visões sobre o Céu e o Inferno. No texto que ela divulgou sobre o inferno a vidente coloca a pergunta, que é feita por um personagem indagando a razão disso.  O diálogo foi o seguinte:

 

“Assim é que você existe realmente”. E Satanás, com uma risada irônica, respondeu: “– Sim”. E o velho continuou: “– Mas, por que vive deste modo? Por que está sempre em meio a estas frias trevas e passa séculos inteiros em hostilidades vazias contra todo o Universo e envolve na mais profunda dor aos homens que lhe servem? Que necessidade tem de todos estes tormentos e deste diabólico ruído?”

A gente em silêncio conteve a respiração com a ânsia de saber o que ia acontecer. “– Por que não quer recomeçar o caminho reto, voltar a ser bom e terminar em um bom dia com todo o mal que faz?” Com o olhar fixo à distância, Satanás respondeu sombriamente: “–

Porque fui amaldiçoado.”

 

Sim, uma das razões é porque foi amaldiçoado, mas também porque manifesta constantemente seu ódio contra Deus nos seres criados por Ele, como os homens, e a maneira mais apropriada de manifestar tal ódio é fazendo com que os precitos sofram e não tenham nenhum momento de alegria ou felicidade, por toda a eternidade... O ódio não podendo ser dirigido diretamente a Deus, ao Qual ele não pode impor nenhum sofrimento ou perca, dirige-o então contra a Obra divina, refletida nos homens. O objetivo é fazer com que os homens se desesperem e passem a odiar a Deus, e assim consumando nos outros seres sua vingança contra Aquele que o amaldiçoou.

Mais adiante, a vidente conta como Lúcifer pretende impor seu império sobre os homens não diretamente, mas através do Anti-Cristo:

 

“O olhar de Satanás brilhou sinistramente pelo ódio e murmurou com voz que soava a ameaça: “– Enviarei ao mundo o Anticristo e ainda e sempre lutarei contra Aquele que me amaldiçoou!”

“– O Anticristo?”, perguntou assombrado o velho. “– Sim, o Anticristo”, exclamou Satanás.

Seu olhar ficou ainda mais triste. Depois de uma pausa, Satanás continuou:

“– Virá o tempo em que em um lugar, que já tenho designado, viverá uma cortesã que terá uma filha ainda mais perversa do que ela. Ela a seu tempo parirá outra cortesã e assim durante onze gerações consecutivas. Na décima segunda geração, nascerá uma mulher que superará em depravação, perversidade e imoralidade todas as outras. Esta será a que porá no mundo aquele que deverá ser a perdição da humanidade inteira. Ele será o Anticristo. Nem se saberá quem é o pai porque será concebido em estado de embriaguez imunda. Desde seu nascimento, eu viverei nele e ele em mim. A mãe notará muitos sinais incompreensíveis no momento do nascimento, mas eu a induzirei ao silêncio”.

Será um homem de uma inteligência extraordinária, que superará em muito a inteligência de seus contemporâneos. Terá também uma vastíssima cultura. Quando alcançar a idade adulta, sentirá dentro de si uma desenfreada avidez de comando e encontrará o apoio de um povo que será seu predileto. Por-lhe-ei nas mãos, riquezas imensas, e por meio delas será grande e poderoso. E quando se desencadear uma grande guerra, na qual participará todo o mundo, o Anticristo participará nela em qualidade de simples oficial.

Devido a suas capacidades, a sua bravura e coragem, ele fará em pouco tempo uma brilhantíssima carreira e ocupará os mais altos postos da hierarquia. Não conhecerá os fracassos e, conseguindo uma vitória atrás da outra, ganhará uma popularidade sem limites e infundirá em todos a simpatia e a confiança em sua pessoa.

Nenhum projétil poderá alcançá-lo nunca e as armas de todos os tipos lhe farão apenas sorrir. Em qualquer posto em que se encontre, será sinal seguro de que este posto não poderá ser tomado. Os barcos e os aviões que se encontrem ao seu comando terão a vitória segura.

Eu farei de maneira que a água, o fogo e os outros elementos da natureza lhe estejam submetidos. Vencerá e destruirá os poderes de todos os outros povos, de modo que ainda aumentará mais a admiração por ele entre as populações. Destronará reis, expulsará ditadores e presidentes e subjugará, por último, a todos os povos que se inclinarão diante de seu poderio e o reconhecerão por líder supremo. Reinará sobre todo o mundo e será o verdadeiro dono e senhor de toda a terra (São João 5, 43: “Eu vim em nome de Meu Pai e vocês não me receberam, se outro vier em seu próprio nome, a esse o receberão.”) E eu lhe darei o poder de operar milagres, de forma que o mundo acreditará que ele é o próprio Cristo (II Tessalonicenses 2, 9-10: “A vinda do ímpio vai acontecer graças ao poder de Satanás, com todo tipo de falsos milagres, sinais e prodígios, e com toda a sedução que a injustiça exerce sobre os que se perdem, por não se terem aberto ao amor da verdade, amor que os teria salvo.”)[1] . Ainda sem compreender seus atos, não se atreverão a criticá-lo e assim, por meio dele, eu corromperei a todo o gênero humano, empurrando-o à busca de novos conceitos no campo da filosofia e colocando-os em contradição com a religião.

Destruiremos também todas as leis da moralidade e, através do escárnio, cultivaremos na terra o sacrilégio e a blasfêmia, faremos que ocorra toda classe de acontecimentos desagradáveis ao extremo. Em todas as partes criaremos um número incrível de obstáculos e envolveremos a todos os homens e a todas as mulheres na sede das mais refinadas depravações. Recolheremos deliciosos frutos nos campos do mal. Durante o reinado do Anticristo enviado por mim, meus servos fiéis assumirão formas tais que não deixarão supor que sejam demônios. Levarão a tentação às mentes e os homens perderão sua personalidade e sua capacidade de governar os próprios instintos. E deste modo o mal reinará.

Teremos que realizar muito esforço nesse período, porque cada invocação e cada oração dirigidas a Jesus Cristo serão suficientes para converter uma alma.[2] Mas nós continuaremos sem trégua em nosso terrível avanço: criaremos uma vida absurda e brutal, destruiremos tudo e teremos constrangido a todos os povos entre nossas mãos.

Destruiremos e devastaremos os templos, apagaremos todas as lâmpadas acesas em honra ao Altíssimo. Ó, como eu odeio aos que rezam nos templos! Odeio as Missas, as predicações e os cantos litúrgicos. Em meu reinado do Anticristo só haverá maldade e sofrimentos em tal quantidade, que desde que o mundo é mundo não se terá visto tanta.

Então, em um excesso de dor e de louco desespero, os homens começarão, gemendo, a murmurar e culpar a Deus. Esta será a culminação de todos os meus desejos. Este será meu reinado, reino do mal e do ódio eternos”, assim gritava Satanás, flamejando com seus terríveis olhos” [3].

 Notar que a geração deste ser maldito não será feita de uma forma normal, ele não terá nem sequer um pai reconhecido como tal. No entanto, Lúcifer vai produzi-lo inteligentemente através de uma sucessão de gerações “matriarcais”, 12 segundo a vidente. Tendo criado assim um ser com tais características, maldito mas com carismas herdados de uma forma natural (e alguns preternaturais colocados por ele), consegue ter uma espécie de fundador de seu corpo místico. Tenta copiar, de alguma forma, a geração de Jesus Cristo, o verdadeiro fundador do Corpo Místico divino, que seguiu uma sucessão de gerações até ser gerado no seio da Virgem Maria. Quem gerou o Homem-Deus foi o Espírito Santo, mas, certamente o fez de uma forma natural, utilizando provavelmente um sêmen natural criado por Deus e detentor de qualidades e carismas vindos de várias gerações de homens bons e tementes a Deus. Pois bem, Lúcifer vai utilizar o mesmo processo, que sua inteligência compreendeu, mas a depender de um período de várias gerações, uma depois da outra se superando em maldades e fidelidade ao próprio demônio.

Possuindo um “intercessor”, criado e sustentado por ele, Lúcifer poderá conseguir reger os homens copiando a forma como Deus rege o Universo, não o fazendo diretamente (como tentou na “bagarre”) mas por via deste maldito ser. Ele se utilizará de um modo todo divino para tentar fazer uma suma obra de ódio a Deus, que é reger, mas imperiosamente e pela força e o logro, através da intermediação. Nesse sentido ele terá como opositor não um, mas dois grandes santos, Elias e Enoch, que manterão vivo o Corpo Místico de Cristo, e, mesmo após mortos, serão aceitos por Deus como vítimas expiatórias exorcísticas, fazendo com que o próprio Cristo desça do céu e mate o Anti-Cristo com um sopro de sua boca.



[1] Naturalmente que os textos bíblicos citados, o são pela autora e não por Lúcifer.

[2] Daí a importância de Elias e Enoch para sustentar a fidelidade dos poucos bons que perseverarão

[3]Fanny Moisseieva - MEU SONO LETÁRGICO DE NOVE - DIAS PARTE IV – O INFERNO - Fonte: www.recadosaarao.com.br -

 


sábado, 13 de março de 2021

ORIGEM DO SINCRETISMO RELIGIOSO

 



 Os dois males mais predominantes no mundo de hoje são: liberalismo e relativismo. O liberalismo é o pecado que faz o homem vê-se livre do cumprimento das leis divinas alegando uma suposta liberdade. O relativismo é a indiferença psicológica para o Bem e para a Religião verdadeira. Essa indiferença é manifestada principalmente através do que se chama sincretismo religioso, isto é, a mistura e prática de religiões pagãs juntamente com a Católica. Vejamos como surgiu o sincretismo, tendo sido um costume ou pecado social já predominante no antigo reino de Israel, também chamado de Samaria.

 Os samaritanos

O reino de Samaria, ou de Israel, havia pouco tempo que havia sido criado e já seu segundo sucessor (Amri) pensou em edificar sua capital, haja vista o risco que corria seus súditos de irem a Jerusalém, em peregrinação ao Templo, e lá ficarem. Para tanto comprou um monte, que pertencia a Somer (I Rs 16, 23-24), e nele construiu a cidade, que passou a se chamar de Samaria.  Amri era o pai de Acab, seu sucessor  no trono.

Esse rei Acab tornou-se  a maior calamidade para o reino de Samaria, pois “além dos males que fazia”  resolveu ainda casar-se com uma pagã, uma poderosa feiticeira chamada Jezabel, filha de Etbaal, rei dos sidônios e foco da idolatria provinda da Babilônia.

Antes de Acab, a idolatria na Samaria consistia na simples adoração de bezerros de ouro, para o que haviam feito dois altares (I Rs 12, 28-29), imitando o que haviam feito os hebreus quando fugiam do Egito no tempo de Moisés. Mas agora, com Acab e Jezabel, o “progresso”  havia chegado e novas formas de idolatria mais profundas eram necessárias para se propagar a gnose. Acab foi à Sidônia, lá foi “iniciado”  no culto de Baal e o trouxe para a Samaria (I Rs 16, 31-33), além de outros idólatras, os “adoradores”  dos bosques, um culto exercido por Jezabel, o qual também se originara na Mesopotâmia.

Como castigo, o povo de Samaria anos depois foi invadido pelos Assírios e levado para o cativeiro da Babilônia. Nem todos, porém, foram deportados, ficando na Região algumas tribos  (Rs II 15, 29). Isto ocorreu em torno do ano 734 a.C..  Somente o monte Galaad não era da tribo de Neftali, uma das principais levadas para o cativeiro juntamente com as outras além do Jordão. Esta expressão “além do rio”  foi utilizada depois por Esdras e Neemias para falar do povo que havia ficado na Samaria, havia sido misturado com pagãos da Mesopotâmia, e combatia os hebreus que tentavam reconstruir o Templo: “Tal é o teor da carta que lhe mandaram: Ao rei Artaxerxes, os teus servos, os homens que habitam do lado de além do rio...”  (Esdras 4, 11).

Assim, somente ficara na Palestina a parte central da Samaria. Alguns anos depois, nova incursão dos Assírios na região leva o resto do povo para o cativeiro (II Rs 17, 6) e acaba definitivamente com o “reino de Israel”.

A Samaria havia ficado, portanto, despovoada. Desta forma, o rei da Babilônia mandou gente de algumas de suas cidades para repovoá-la “em lugar dos filhos de Israel (II Rs 17, 24). Os novos ocupantes da região, porém, eram castigados por Deus com animais ferozes que os devoravam, dando sinais claros da reprovação divina de seus cultos pagãos. Por isso, o rei mandou que fossem doutrinados por um sacerdote hebreu (II Rs 17, 27-28), mas o povo não largava o paganismo, misturando as religiões e promovendo o sincretismo religioso (II Rs 17, 29-32 e 33-41).

Por causa disso, aquele povo que não era mais israelita, nem de Judá nem do cismático reino da Samaria, passou a ser chamado derrisoriamente de “samaritanos” pelos judeus. No tempo de Nosso Senhor Jesus Cristo os samaritanos e os judeus haviam mudado muito, sendo que os últimos se tornaram piores do que os samaritanos. Daí porque Nosso Senhor usou da parábola do “Bom Samaritano” para servir de exemplo aos judeus, que eram mais bem tratados pelos samaritanos do que estes por aqueles.

O reino de Israel, ou da Samaria, havia sido exterminado, dando lugar a um povo estranho, uma mistura de povos pagãos da Assíria, que é assim relatado pela Sagrada Escritura: “O rei dos assírios mandou vir gente da Babilônia, de Cuta, de Ava, de Emat e de Sevarfaim e pô-los nas cidades de Samaria em lugar dos filhos de Israel. Eles possuíram a Samaria e habitaram nas suas cidades”  (II Rs 17, 24-25).

O rei dos assírios mandou então para lá aquele sacerdote hebreu, que vivia cativo na Babilônia, com o fim de catequizar o povo na religião do verdadeiro Deus: “Tendo, pois, ido um dos sacerdotes que tinham sido levados cativos da Samaria, habitou em Betel e ensinava-lhes o modo como deviam honrar o Senhor”   E era de Betel que se irradiava o sincretismo religioso, apesar de lá ter surgido anteriormente uma verdadeira escola de profetas, visitada por Santo Elias (II Rs 2, 23). Alguns profetas se referem a Betel como um lugar de sincretismo (Os 10, 15; Am 5,5), pois lá havia um santuário que ora abrigava o verdadeiro culto a Javé, ora a abominada idolatria.

Não se sabe qual era a verdadeira intenção do rei da Assíria, talvez até boa, mas foi logo deturpada pelo sacerdote que enviou ou pelos moradores do lugar: “Apesar disso, cada um desses povos fabricou para si o seu deus e colocaram-nos nos templos dos lugares altos, que os samaritanos tinham edificado, cada povo na sua cidade em que habitava. Porque os babilônios fizeram Socotbenot, os cuteus fizeram Nergel e os de Emat fizeram Asima. Os heveus fizeram Nebaaz e Tartac. Os que eram de Sefarvaim queimavam os seus filhos no fogo em honra de Adramelec e de Anamelec, deuses de Sefarvaim.” (II Rs 17, 29-31).

Ao lado de seus deuses eles servem também a Javé, o Deus verdadeiro dos hebreus: “Embora adorassem o Senhor serviam também aos seus deuses, segundo o costume das nações, do meio das quais tinham sido transferidos para a Samaria”. (II Rs 17, 33).

Não foi por falta de conselho e doutrina, pois há essa advertência para não cair nesse erro: “Não temais os deuses estrangeiros, nem os adoreis, nem os sirvais, nem lhes sacrifiqueis; mas temei ao Senhor vosso Deus, que vos tirou da terra do Egito com grande poder e com braço estendido; a ele adorai e a ele oferecei sacrifícios. Observai também as cerimônias, as ordenações, as leis e os preceitos que ele vos deu por escrito, observando-os todos os dias; não tenhais medo dos deuses estrangeiros”.  (II Rs 17, 35-37).  No caso, os “deuses estrangeiros” são todos os ídolos, cuja idolatria era terminantemente proibida em Israel.

As expressões “que vos tirou da terra do Egito” e “as leis e os preceitos que ele vos deu por escrito” dá a entender que aquele povo não era inteiramente pagão, talvez fosse uma mescla de povos oriundos da diáspora hebraica, que já naqueles tempos era difusa em várias partes do mundo.

Apesar das admoestações “Eles, porém, não deram ouvidos, mas procederam segundo o seu antigo costume. Assim estes povos perseveraram em temer ao Senhor, mas todavia serviram também os seus ídolos, porque tanto seus filhos como seus netos ainda hoje fazem como fizeram seus pais”  (II Rs 17, 40-41).

 


sexta-feira, 9 de novembro de 2018

O SACROSSANTO OLHAR DE JESUS CRISTO





O Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, ao longo de sua vida pública, teceu alguns  comentários sobre o olhar de Nosso Senhor. Em uma famosa Via Sacra, por exemplo:  “Vós, Senhor,  o fitaste (Pilatos) por longo tempo com aquele olhar que em um segundo operou a salvação de Pedro. Era um olhar em que transparecia vossa suprema perfeição moral, vossa infinita inocência, e, entretanto, ele Vos condenou”.
A Beata Anna Catharina Emmerich narra em detalhes o tocante episódio em que os olhares de Nosso Senhor e São Pedro se encontraram naquele momento. Segundo ela, após haver negado Nosso Senhor pela primeira vez, São Pedro encontrou-se por acaso com Seu Mestre, o qual lançou-lhe terrível olhar de repreensão: “O Senhor lançou a Pedro um olhar sério de repreensão. Pedro ficou como que esmagado pela dor. Mas, lutando com o medo e ouvindo alguns dos circunstantes dizerem: ‘Quem é esse sujeito?’, saiu novamente para o pátio, tão abatido e tão confuso pelo medo, que andava cambaleando a passos lentos. Vendo-se, porém, observado, entrou de novo no átrio, aproximou-se da fogueira, ficando ali bastante tempo sentado, até que diversas pessoas, que fora lhe tinham notado a confusão, entraram, começando de novo a provocá-lo, falando mal de Jesus e de suas obras. Um deles, chamado Cássio e mais tarde Longino, disse então: ‘É verdade, também és daquela gente; és Galileu, tua linguagem prova-o’. Como Pedro quisesse sair com um pretexto, impediu-o um irmão de Malcho, dizendo: ‘O que? Não te vi com eles no horto das oliveiras? Não feriste a orelha de meu irmão?’  Tornou-se Pedro então como insensato, pelo pavor que o dominou e livrando-se deles, começou a praguejar (tinha um gênio violento) e jurar que absolutamente não conhecia esse homem e correu do átrio para o pátio interior. Foi à hora em que o galo cantou de novo; os soldados conduziram Jesus, nesse mesmo momento, da sala circular, pelo pátio para o cárcere que ficava sob a sala. Virou-se, porém, o Senhor e olhou para Pedro com grande dor e tristeza; lembrou-se Pedro então da palavra de Jesus: ‘Antes do galo cantar duas vezes, negar-me-ás três vezes’, e essa lembrança pesou-lhe com terrível violência sobre o coração. Fatigado pela angústia e o medo, tinha-se esquecido da promessa presunçosa de querer antes morrer do que O negar e do aviso profético de Jesus;  mas à vista do Mestre, esmagou-o a lembrança do crime que acabara de cometer. Tinha pecado, pecado contra o Salvador, tão cruelmente tratado, condenado, inocente, sofrendo tão resignado toda a horrível tortura. Como desvairado de contrição, saiu apressadamente pelo pátio exterior, a cabeça velada e chorando amargamente; não temia mais ser interrogado; teria então dito a todos quem era e que pecado lhe pesava na consciência” .(Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus” – Mir Editora – São Paulo, 1999 – págs. 189/190)

O OLHAR DE JESUS FULGURA COMO O SOL
Nas palavras do Dr. Plínio Corrêa de Oliveira fomos colher um precioso comentário sobre o olhar de Jesus:
“Em Jesus, o semblante, as expressões da face e até o timbre da voz não são senão comentários ao que mais O exprime, isto é, seu olhar. Este é sumamente ordenado e feito de gradualidades. Quando fulgura, é como um sol. Quando não, mostra-se sempre de um certo modo, semelhante ao que representa o barítono para a música vocal: nem muito alto nem muito baixo.
“Não é um olhar que sai de si para penetrar nos outros, a não ser raramente. Antes, convida que se entre nele, para entabular elevados colóquios conosco.
“Olhar muito sereno, aveludado quase... No fundo, porém, revelando uma sabedoria, retidão, firmeza e força que nos enchem ao mesmo tempo de encanto e de confiança.
“A meu ver, todas as perfeições existentes na ordem do Universo – a das estrelas como as de uma Gruta de Capri, ou as de qualquer outra maravilha – estão contidas no olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo, e os estados de alma d’Ele correspondem a todas as belezas do mundo. Por isso, ao apreciarmos algum esplendor da criação, seria bastante proveitoso meditarmos na excelência do olhar d’Ele que se acha espelhada naquela grandeza criada.
“Por exemplo, quando estou sozinho e contemplo o céu todo estrelado acima de mim, experimento a curiosa impressão de que sou visto, e de que aquele firmamento todo converge sobre mim. Esta é a sensação que se tem quando Nosso Senhor nos olha. É todo um céu que se debruça sobre nós. Mas quando somos nós que nos pomos a fitá-Lo e colhemos o fundo de seu olhar, nos sentimos melhor do que ao sermos olhados por Ele.
“Pois ali, no conjunto dos olhares d’Ele, a ordem do Universo se reflete inteiramente, as regras da estética se resumem de modo perfeito, os princípios da lógica se articulam de maneira admirável. Numa palavra, o “pulchrum” e o significado interno de tudo quanto existe estão contidos no olhar de Nosso Senhor.
“De sorte que, por exemplo, ao conversar com Lázaro, com Marta ou com Maria Madalena, a fisionomia, a voz e o olhar de Jesus – sem indiscrição alguma – iam muito naturalmente mudando, e em sua expressão se podia compreender um número incontável de coisas.
Olhar que acompanha a História

“Por isso mesmo, considero o olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo como se fosse quase outro Evangelho, e uma prodigiosa “leçon des choses”.
“De fato, Jesus é Rei do Universo e, portanto, Rei da História. Não o é apenas da história das nações, mas também da existência individual de cada um de nós. E os desígnios d’Ele vão se fixando e se traçando na medida em que a nossa trajetória neste mundo se desenvolve. Ele vai olhando para nós, e se pudéssemos vê-Lo em cada momento, teríamos o sentido daquilo que estamos vivendo a cada passo.
“Imaginemos Nosso Senhor por ocasião da multiplicação dos pães, considerando o povo reunido em torno d’Ele: “Tenho piedade desta multidão” (Mt 15, 32). É concebível que Ele tenha proferido essa frase com os olhos fechados? Não pode ser.
“Se os olhos de Jesus não estivessem abertos enquanto Ele falava ou caminhava, teria atraído aquela multidão? Claro está que, se assim o quisesse, Nosso Senhor tocaria aquelas almas mesmo sem lhes dirigir o olhar. Porém, não procedeu dessa forma, e foi o olhar d’Ele que as atraiu.
“Outra passagem do Evangelho na qual me parece que o divino olhar do Salvador se reveste de maior expressividade é o momento em que Jesus, flagelado e coroado de espinhos, foi apresentado ao povo por Pilatos. Para mim, excetuando o instante em que Nosso Senhor fita o Apóstolo Pedro que acabara de negá-Lo, não há episódio no Evangelho onde o papel do olhar se manifesta tão evidente como no “Ecce Homo”. Tanto mais quanto, naquela circunstância, o Redentor não proferiu qualquer palavra, permanecendo num majestoso silêncio.
“Cumpre ressaltar, aliás, o fato impressionante de que os algozes de Nosso Senhor, quando O esbofetearam durante a Paixão, não suportaram o divino olhar que os fitava. Para consumar as suas atrocidades contra Jesus, tiveram de Lhe vendar os olhos..
Devoção ao Sacrossanto olhar

“Essas considerações nos fazem compreender bem que noite tremenda se fez para o mundo quando o olhar d’Ele se extinguiu! Noite na qual se teria vontade de pedir a Deus que nos levasse desta Terra. Pois uma vez que alguém se habituou ao convívio daquele olhar, tendo este se apagado, nenhum sentido restaria para se continuar a viver no mundo. Para fazer o quê? Turismo em alguma linda cidade européia? Visitar Paris, conhecer Viena? Como estas nos parecem pobres e insípidas, em comparação com a graça de ver aquele divino olhar! As maravilhosas jóias da casa d’Áustria, a extraordinária coroa do Sacro-Império, nada seriam para o homem sobre quem pousaram os olhos misericordiosos do Salvador.
“Muito embora a devoção ao Sagrado Coração de Jesus me fale tanto à alma, na realidade toca-me ainda mais a devoção ao olhar d’Ele. Talvez, pela razão mesma de ser o olhar a melhor expressão do coração. E esta seria, caso não o impugnasse a Teologia, a “devoção ao Sacrossanto Olhar...”.
“A partir dessa idéia, poder-se-ia introduzir no “Anima Christi” outras invocações como: olhar padecente, olhar misericordioso, olhar de divino Juiz... penetrai em mim e fazei-me entrar em vós. Poder-se-ia, igualmente, compor uma “Ladainha dos olhares de Jesus”, a qual reluziria de uma beleza arrebatadora.
“Concluo, fazendo notar que, quando se analisa assim o Evangelho, encontram-se nele profundidades insuspeitadas. Suas páginas constituem um tesouro repleto de “nova et vetera” – coisas antigas e recentes.
“Tudo quanto acima foi dito nos revelou algo imensamente valioso, mas é natural que se procurem também outras gemas preciosas nesse tesouro. As jóias que acabamos de admirar, a nós nos regalam, porque são as meditações que se acrescentam ao cântico antigo, em função de nossa vida, nossas batalhas e nossos sofrimentos nesta terra de exílio”
Em outras oportunidades Dr. Plínio teceu comentários sobre o olhar de Nosso Senhor Jesus Cristo, conforme relatamos adiante:
“Se nós pudéssemos fazer uma coleção dos timbres de voz de Jesus ensinando como Mestre!... Ninguém foi Mestre como Ele, que é o Divino Mestre! Explicando com clareza, com sabedoria, com profundidade, horizontes extraordinários, mas com uma simplicidade de desconcertar. Seu ensino é tão simples e, ao mesmo tempo, tão profundo! Santo Agostinho dizia que o ensinamento d’Ele era como um rio no qual um elefante se afogaria e um cordeiro passaria sem molhar senão os pés.
“Como nós gostaríamos também de, por exemplo, colecionar os seus sucessivos olhares! Para falar senão em dois: o olhar para São Pedro, que o converteu e o fez chorar a vida inteira, e um olhar para Nossa Senhora. Escolham o momento. Talvez o momento do último olhar nesta vida. Com certeza, antes de morrer, Eles trocaram um olhar em que transpareciam o carinho e adoração da parte d’Ela, e o amor indizível, o apreço extraordinário e o carinho da parte d’Ele, ao se separarem.
“Como seria a história de todos os seus olhares? E como seria o olhar d’Ele expulsando os vendilhões do Templo? Para Pilatos, desprezando toda a covardia do Procurador romano? E o olhar de repreensão aguda e severa para Anás e Caifás?
(Extraído da revista “Dr. Plínio”, janeiro de 2004, págs. 18/20)


terça-feira, 21 de julho de 2015

Nosso Senhor Jesus Cristo praticou os mais excelentes atos de amor



O Reino de Cristo é o reino do amor. São Francisco de Sales escreveu talvez a mais completa obra que trata do amor de Deus. E nela consta a forma como Nosso Senhor praticou os mais excelentes atos de amor, realçando que neles estava o cerne de sua regência sobre os homens:

“1º. – Amou-nos com amor de complacência, porque cifrou as suas delícias em estar com os filhos dos homens (Prov. 8, 31) e atrair o homem a si, fazendo-se homem como ele.
2º. – Amou-nos com amor de benevolência, derramando a própria Divindade no homem, elevando o homem até Deus.
3º. – Uniu-se a nós por uma incompreensível conjunção, aderindo e ligando-se à natureza tão fortemente, indissoluvelmente e infinitamente, que coisa alguma foi jamais tão unida e ligada à humanidade, como o é agora a augustíssima Divindade na pessoa do Filho de Deus.
4º. – Derramou-se todo em nós, e por assim dizer, abismou a sua grandeza, para a reduzir às mesquinhas proporções da nossa pequenez; por isso se chamou “fonte de água viva” (Jer. 2, 13), orvalho e chuva do Céu (Is. 45, 8).
5º. – Esteve em êxtase, não só, diz São Dinis, em virtude do excesso de sua amorosa bondade, que o arrebatou para fora de si, estendendo a sua Providência a todas as coisas e encontrando-se em todas as coisas, mas também porque, como diz São Paulo (Fil. 2, 7), Jesus esqueceu-se de si, abstraiu-se de si, despojou-se da própria grandeza, da sua glória, apeou-se do trono da sua incompreensível majestade, e se é mister tal expressão, “aniquilou-se”, para descer até à nossa humanidade e encher de sua Divindade o nosso ser, saciar-nos de sua bondade suprema, elevar-nos à sua dignidade, e dar-nos a divina natureza de  “filhos de Deus”.
“E Aquele de quem se escreveu tantas.vezes: “Eu vivo em mim, disse o Senhor” pode depois dizer na linguagem de seu Apóstolo: “Eu vivo, mas não sou eu mesmo que vivo, é o homem que vive em mim (Gal 2, 20); A minha vida é o homem, e morrer por ele é o meu lucro (Fil 1, 21); A minha vida oculta-se com o homem em Deus (Col. 3,3(.
“Aquele que antes habitava em si, habita agora em nós, e O que viveu durante a sucessão dos séculos no “seio do seu eterno Pai” (Jo 1, 8), vestiu-se da mortalidade no seio de sua Mãe temporal; Aquele que vivia eternamente da existência divina, viveu temporariamente da vida humana, e Aquele que nunca, eternamente, deixara de ser Deus, será, perpetuamente também, homem, de tal modo o amor do homem o arrebatou e elevou ao êxtase!
6º. – Admirou muitas vezes por dileção, como fez com o Centurião (Mt 8, 10) e a Cananéia (Mt 15, 28).
7º. – Atentou no jovem que até então observara os mandamentos e desejava adianta-se na perfeição (Mc 10, 21).
8º. – Descansou amorosamente em nós, e até com suspensão de sentidos no ventre de sua puríssima Mãe, e durante a sua infância.
9º. – Teve incomparáveis ternuras para as criancinhas, que abraçava, acalentando-as com amor (Mc 10, 16); para Marta e Madalena (Jo 11, 5), para Lázaro, por quem chorou (Jo 35, 36), como pela cidade de Jerusalém (Lc 19, 41).
10º. – Animou-se de incomparável zelo, que, como diz São Dionísio, se converteu em ciúme, desviando, enquanto nele habitou, todo o mal da sua muito amada natureza humana, com perigo e à custa da própria vida; afugentando o diabo, “rei do mundo” (Jo 16, 30), que parecia ser seu rival e companheiro.
11º. – Teve milhares de amorosos desfalecimentos; pois de que procederiam aquelas divinas palavras: “Eu hei de ser batizado com batismo de sangue; e como me sinto angustiado e ansioso por que ele se realize?” (Lc 12, 50).  Ainda se não aproximava a hora em que havia de ser batizado no próprio sangue e já suspirava por sê-lo, porque o amor que nos tinha O obrigava a livrar-nos da morte eterna, à custa da própria vida.
“Por isso esteve triste  e suou o sangue da agonia no Jardim das Oliveiras (Mt 26, 37-38), não só em virtude da extrema dor, que a sua alma sentia na parte inferior da razão, mas pelo supremo amor que nos dedicava na parte superior dela: a dor dava-lhe o horror da morte e o amor um extraordinário desejo de a consumar. De modo que se lhe travou no espírito um combate rude e uma cruel agonia se manifestou entre o desejo e o horror da morte, até à grande efusão do sangue, que correu como fonte de água viva, jorrando pelo solo.
12º. – Enfim, Teotimo, este divino Amante morreu no meio das chamas e ardores da dileção, pela caridade que tinha por nós e pela força e virtude do amor, isto é, morreu amando, morreu por amor e de amor.
“Posto que aqueles cruéis suplícios bastassem para fazer morrer quem quer que fosse, não podia contudo a morte penetrar na vida dAquele que tem as chaves de ambas (Apoc 1, 18) se o divino amor, que governa e maneja essas chaves, não  abrisse as portas à morte, para esta poder lançar-se sobre aquele divino corpo e arrebatar-lhe a vida. O amor não se contentaria com o fazer mortal por nós se lhe não desse a morte.
“Foi por eleição, e não por força do mal, que Ele morreu: “Ninguém me tira a vida”  (Jo 10, 17-18), disse ele, “sou eu que a deixo e a tiro a mim mesmo; tenho o poder de a deixar e de a reaver quando quiser. Ofereceu-se, diz Isaías (Is 53, 7) porque quis.
“Não se diz, portanto, que o seu espírito voou, deixando-O e separando-se d’Ele; mas ao contrário, que Ele despediu o seu espírito, soltou-o e entregou-o e pô-lo nas mãos de seu Eterno Pai (Mt 27, 50); tanto que Santo Atanásio nota que Ele abaixou a cabeça para morrer, consentindo e facilitando a vinda da morte, que, de outro modo, não ousaria aproximar-se-lhe, e soltando um grande grito, entregou o seu espírito a seu Pai (Lc 23, 46), para provar que assim como tinha força e alento para não morrer, também tinha suficiente amor para não poder viver, sem fazer ressuscitar com a sua morte aqueles que, sem isso, não podiam jamais evitar a morte, nem aspirar à verdadeira vida.
“Foi, portanto, o sacrificador da própria existência, foi quem ofereceu a seu Pai, e se imolou por amor, ao amor, para o amor, pelo amor e de amor.
“Não podemos no entanto afirmar que esta amorosa morte do Salvador se verificasse à maneira de arrebatamento, porque o objeto pelo qual a sua caridade o levou à morte não era tão amável que pudesse arrebatar para si aquela divina alma, que saiu do corpo a modo de êxtase, impelida pela afluência e força do amor.
“À semelhança da mirra, que expele o primeiro  licor, pela sua grande abundância, sem que ninguém o lance fora, nem o tire, também o mesmo Jesus, como já expliquei, disse: “Ninguém me tirou nem arrebatou a alma; fui eu que voluntariamente a dei.
“Ah!  Senhor, que extraordinário incentivo para nos entusiasmardes nos exercícios do santo amor ao Salvador divino, que é tão bom, o vermos que Jesus os praticou com tão excessivo amor por nós, que somos tão maus!
“Vês, Teotimo, como a caridade de Jesus Cristo nos obriga?”  (II Cor 5, 14).


(Tratado do Amor de Deus – São Francisco de Sales – Livraria Apostolado da Imprensa, págs. 489/493)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Maria, Rainha-Mãe do Universo


Neste primeiro domingo depois do Natal, a Igreja homenageia a Sagrada Família. Nosso Senhor Jesus Cristo é o principal membro desta Família, pois Ele é o próprio Deus como Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. São José, também símbolo da castidade, esposo da Virgem Santíssima, foi o último dos Patriarcas e precioso auxiliar no decorrer de 30 anos da vida privada de Jesus. Destacamos aqui o papel de Nossa Senhora, não somente como Mãe de Deus, mas também como poderosa auxiliar de Jesus Cristo tanto em sua vida privada quanto pública: Ela é a co-regente de Cristo na regência do Universo.

Papel da Rainha-Mãe no exercício da regência

Quando a pessoa rege assume, principalmente, o poder de legislar ou aplicar a justiça. É por isso que tanto no Antigo quanto no Novo Testamento o cargo de juiz se confunde muitas vezes com o de rei ou governante. “O rei, que está sentado no trono da justiça, pelo seu olhar dissipa todo o mal” (Prov. 20, 8). Quando no Credo se diz que Jesus Cristo virá novamente para “julgar os vivos e os mortos” , na realidade está se afirmando que será sua completa regência sobre todos os homens a ocorrer no Juízo Final, mas auxiliado por seus co-regentes : “Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que, no dia da regeneração, quando o Filho do Homem estiver sentado no trono da sua glória, vós, que me seguistes, também estareis sentados sobre doze tronos, e julgareis as doze tribos de Israel”. (Mt 19, 28). Não se compreende que sua Mãe Santíssima não esteja sentada também num trono semelhante. Essa figura do juiz, como se viu, confunde-se com a de regente. No entanto, há um importante papel exercido pela esposa ou pela mãe do juiz ou do regente. Uma rainha-consorte pode ser uma regente secundária de um povo, pode ser também a “rainha-mãe” com funções adjutórias, mas importantes para uma boa regência. Trata-se de uma grande e poderosa auxiliar ao principal regente, com poderes muito maiores do que seus próprios ministros. Há um encargo exercido pela Rainha-Mãe que, não só extrapola, mas até transcende ao do regente principal. Nesse caso é ela também regente, uma co-regente. Um dos seus papéis mais importantes é como geradora ou continuadora da dinastia, que antecede e sobrepõe ao próprio poder de legislar ou aplicar a justiça. Assim, as matriarcas Eva, Sara, Rute e tantas outras do Patriarcado foram antecessoras das modernas Rainhas-Mães enquanto geradoras ou continuadoras da descendência patriarcal ou dinástica. Um outro papel é o de intercessão, exercendo também um cargo auxiliar de julgar ou de aplicar a justiça, pois a intercessão é uma função advocatícia e competente da lei. Existem diversos intercessores, mas uma intercessora é de importância primordial e indispensável entre o legislador (o rei ou regente) e seus súditos, mediadora que tem função de pacificar os que ferem a lei. Não se trata de punir, não se trata de aplicar as penas e os castigos, ou até mesmo de condená-los com acusações formais (funções também exercidas pelos advogados de acusação), mas de usar a misericórdia, o perdão, instrumento muito útil no processo judicial. É claro que a palavra final, a sentença de castigo ou perdão continua com o juiz, o principal regente, mas há necessidade de alguém que sirva para atenuar a pena ou para defender eventual inocência do acusado. Essa função de perdoar é mais sublime do que a de condenar, pois demonstra mais grandeza. Tal é o valor do perdão que Nosso Senhor o colocou no Pai Nosso: “Perdoai as nossas dívidas”, ou, como se diz hoje, “Perdoai as nossas ofensas”. Poderia ter posto assim “condenai aos que erram”, etc., mas, não, preferiu colocar o perdão num patamar mais alto. Por isso o perdão sempre é dado através dessa co-regência, de uma intercessora ou mediadora incumbida somente de usar a misericórdia. E quando há uma mediadora especialmente designada para obter esse perdão é porque lhe foi dado especial poder. Segundo São João Crisóstomo quando o homem perdoa faz o papel de Deus, tratando-se, portanto, de um atributo divino transmitido aos homens. E no exercício dessa função, dentro do poder regencial, a pessoa mais importante é a mãe do legislador, ou mãe do regente, também chamada de “Rainha-Mãe”, ou, em alguns casos, “Rainha-Consorte”. Assim, há necessidade de alguém que tenha poder e influência sobre o principal regente legal e que tenha por fim principal dentro da regência obter a paz social como solucionadora de contendas. Nesse caso, a primeira co-regente da História foi Eva, que Deus criou como “adjutório semelhante ao homem” (Gên 2.18). Será que não teria sido esse o papel de Eva perante e contenda entre Caim e Abel e que ela não tenha exercido a contento? Já Rebeca, a mãe de Jacó, pelo contrário, usou bem o seu ofício e evitou que Esaú o matasse. (Gn 27, 41-45). Nos casos acima, a mediadora ocupa a função de pacificadora. Nas primeiras dinastias da História (especialmente durante o Patriarcado), ainda não se sobressaía o papel da consorte do Patriarca (a não ser no caso de Sara, esposa de Abraão), pois elas ainda não podiam aparecer na regência da sociedade. Esse papel passou a preponderar quando surgiram as primeiras monarquias, especialmente no caso dos hebreus, quando as mães dos reis tinham poder de destaque. No decorrer do tempo foi aos poucos sendo ressaltado o papel das mulheres nas regências, ou como mandatárias legais, ou então como mães dos reis ou príncipes. Uma das principais características nesse papel era a formação das elites, como educadoras de príncipes e de reis. Um dos exemplos mais frisantes, já no decorrer do Cristianismo, foi o da mãe de São Luís IX (Branca de Castela) e da esposa de Dom João I (Filipa de Lancastre, “mãe da ínclita geração”, segundo Camões), ambas exímias educadoras de príncipes e de reis. Os exemplos de intervenções mediadoras de tais mulheres são contados aos milhares na História, como Santa Helena e tantas outras.

Importância das rainhas-mães no povo hebreu

A Sagrada Escritura, porém, não dava pouca importância ao papel das mulheres na sociedade. Além dos exemplos heróicos narrados nos livros de Rute, Judite e Ester, temos também a referência que se fazia ao nome das mães dos reis israelitas. Quase todo rei hebreu tem seu nome ligado ao de sua mãe. O primeiro episódio em que isso se dá ocorreu assim:
“Foi, pois, Betsabéia ter com o rei Salomão, para lhe falar em favor de Adonias. O rei levantou-se para a vir receber, saudou-a com profunda reverência e sentou-se no seu trono; e foi posto um trono para a mãe do rei, a qual se sentou à sua mão direita.”(I Reis 2, 19).
Em seguida a Sagrada Escritura narra o diálogo entre os dois, ocasião em que a rainha intercede por Adonias. A partir daí, tornou-se tradição entre os hebreus colocar a mãe do rei em papel de destaque, geralmente como sua intercessora perante os súditos. É bem uma pré-figura de Nossa Senhora como Mediadora, sentada num trono de Nosso Senhor Jesus Cristo à Sua mão direita. Depois da morte de Salomão e do cisma de Samaria, os reis são citados na Sagrada Escritura quase sempre junto com o de sua genitora, tal passou a ser o papel dela na regência do trono e a fim de que assim fosse conhecida também a descendência pelo levirato. Os reinos tinham como sedes as cidades de Jerusalém, o de Judá, e Samaria, o de Israel. De modo geral, são citadas as mães dos reis de Judá, talvez por causa da profecia que previa a origem do Messias naquela tribo. Na seqüência de reis que vai da morte de Salomão até a destruição do reino de Israel (da Samaria) são de modo geral citadas as mães daqueles que procederam corretamente. Depois disso, são citadas todas as mães dos reis de Judá, quer tenham sido eles bons ou não. O primeiro a ter a mãe assim mencionada foi Josafá (I Rs 22, 41-42): “Josafá, filho de Asa, sua mãe chamava-se Azula, filha de Salai... ...fez o que era reto diante do Senhor”. Seu sucessor, Jorão, não mereceu que tivesse sua mãe citada certamente porque “...procedeu mal diante do Senhor”. Já o seguinte, Acazias, embora tenha procedido mal mereceu que sua mãe, Atália, fosse mencionada, uma mulher ruim que perverteu mais ainda o reino após a morte do filho. Um outro rei muito ruim foi Acaz, tão ruim que ofereceu seu próprio filho para ser queimado aos ídolos, e, talvez por isso, não se sabe o nome de sua mãe. Temos, depois, uma sucessão de reis de Judá que são mencionados ao lado de sua mãe: Joás, filho de Sebia; Ananias, filho de Joadan; Azarias, filho de Jequélia, Joatão, filho de Jerusa, Ezequias, filho e Abi (todos estes tendo procedido corretamente); Manassés, filho de Hafsiba; Amon, filho de Messamelet; Josias, filho de Idida; Joacaz, filho de Amital; Joaquim, filho de Zébida e Sedecias, filho de Amital (sendo que, entre estes seis últimos reis, apenas Josias procedeu bem). Quanto ao reino de Samaria, ou de Israel, tivemos apenas alguns deles citados ao lado de sua mãe, como o primeiro deles que foi Jeú, o qual começou bem o reinado mas acabou mal: "No sétimo ano de Jeú, Joás começou a reinar e reinou quarenta anos em Jerusalém. Sua mãe chamava-se Sebia, de Bersabéia..." (II Reis 12, 1); tudo indica que a citação procede do fato de Sebia ser da tribo de Judá. Um outro citado com a mãe foi Facéia, filho de Romélia. Parece que o Divino Espírito Santo inspirava o escritor sagrado a prefigurar nas mães dos reis do povo eleito a importância que seria dada futuramente à Mãe do Rei dos reis, Maria Santíssima. E a Sagrada Escritura dava importância às mães dos reis de Judá, por ser desta tribo que viria o Messias, e àqueles que procediam corretamente. O livro de Rute, como que deu início a esta citação matriarcal, a qual seria respeitada nas pessoas de todos os reis legítimos de Judá. E, como se sabe, foi graças a Rute que não foi interrompida a descendência de onde nasceria o Messias, da tribo de Judá, com a qual ela conseguiria o casamento com um de seus filhos ilustres, embora sendo ela moabita: seu primeiro marido morreu sem deixar descendência e, mais uma vez, a tribo de Judá, de onde nasceria o Messias, iria ficar sem descendência.

O costume do levirato entre os hebreus

Para se entender melhor o papel das mulheres e do levirato durante o Patriarcado, vejamos, no caso de Rute, o que aconteceu com os ancestrais de sua tribo, de onde nasceria o Messias. A descendência de Judá iria ficar interrompida já no primeiro filho primogênito daquele Patriarca, chamado Her, que "foi mau diante do Senhor e o Senhor o fez morrer" (I Crôn. 2, 3). Como Her não iria deixar descendência, sua viúva, Tamar, se prevaleceu do chamado "levirato" e se casou com Onan. Mas este também prevaricou e foi morto por Deus. Como Judá prometera-lhe o último de seus filhos, Sela, mas esqueceu-se, Tamar fez uma trama para se unir ao sogro Judá, embora de uma forma artificiosa, e com ele ter filhos para dar continuidade à sua herança. Lembremo-nos que o termo "irmão" é utilizado nas Sagradas Escrituras de uma forma abrangente a todos os parentes colaterais, primos, tios, até cunhados, sogros e genros, além dos irmãos propriamente ditos. . Fato semelhante estava para ocorrer no tempo dos Juízes com Maalon, último descendente da tribo de Judá, casado com Rute. O Patriarca principal e pai de Maalon, chamado Elimelec, casado com Noemi, havia saído de seu país por causa da seca e emigrado para as terras dos moabitas. Lá, morre Elimelec e seus filhos homens, Maalon e Quelion, sem deixar filhos. A tribo de Judá estava novamente sem descendentes e não havia como cumprir a profecia de Jacó: “O cetro não será tirado de Judá, nem o príncipe da sua descendência, até que venha Aquele que deve ser enviado. E ele será expectação das nações” (Gen 49, 10-11 Resolveu então Noemi voltar para sua terra, aconselhando às suas duas noras, Orfa e Rute, moabitas, para ficarem entre seu povo. No entanto, as duas insistiam em acompanhar Noemi. Noemi era efrata, natural de Belém, onde residia a tribo de Judá e lá havia deixado seus bens e parentes. Enquanto Rute, moabita, por ser uma mulher de boa índole, queria, de todo o coração, ser parte do povo hebreu e seguir as leis que o regiam. Por causa disso insistiu e seguiu sua sogra, enquanto que a outra nora ficou. Como deveria se comportar a estrangeira junto dos hebreus? Moisés havia determinado: "Quando segares a messe no teu campo e deixares por esquecimento alguma gavela, não voltarás para a levar, mas deixa-la-ás tomar ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, a fim de que o Senhor teu Deus te abençoe em todas as obras das tuas mãos". (Deut. 24, 19-20). Rute disse à sua sogra: "Se o mandas, irei ao campo apanhar as espigas que escapam das mãos dos segadores, onde quer que eu encontre algum pai de família que se mostre clemente para comigo". Havia na cidade um rico parente de Elimelec, chamado Booz, e foi para lá justamente que Rute se dirigiu, embora sem saber quem era. Rute já era conhecida como uma pessoa bondosa, e tendo exercido o seu trabalho com afinco, pois ia "atrás dos segadores desde manhã até agora, e não voltou a casa nem um momento", Booz gostou dela e lhe autorizou que diariamente viesse ali fazer seu trabalho. Rute estranhou que ele tivesse sido tão benevolente para com ela, e Booz respondeu: "Foi-me contado tudo o que tens feito para com tua sogra depois da morte do teu marido; como deixaste os teus parentes, a terra onde nasceste, e vieste para um povo que antes não conhecias". Em seguida ordenou que lhe dessem de comer e, quando estivesse no campo, não só permitissem Rute apanhar as espigas que caíam das gavelas mas deixassem que algumas caíssem de propósito para que ela as apanhasse. Naquele dia, Rute apanhou muitas espigas de trigo e, chegando em casa, mostrou-as à sua sogra. Havia também juntado muita comida que lhe deram do sobejo, a qual deu também à Noemi. Quando contou que aquilo tudo tinha sido colhido na propriedade de Booz, Noemi sentiu viva alegria e contou-lhe que aquele homem era seu parente e muito poderoso em Belém. Em seguida, ordenou a Rute que voltasse a segar no campo de Booz, orientando-a para tentar conquistar o coração dele. Rute prometeu fazer tudo da forma como a sogra lhe recomendou... E de fato o fez. Parece que era uma espécie de "ritual" ou costume, que Booz certamente muito conhecia, e que significaria um pedido de casamento ou, pelo menos, uma apresentação ou pedido de proteção. Quando Booz deu por conta e viu Rute, exclamou: "Quem és tu?" Ao que ela respondeu: "Sou Rute, tua serva. Estende tua capa sobre tua serva, porque és parente". Em seguida, Booz passa a elogiar a boa mulher e lhe prometer fazer tudo por ela, mas por causa de suas virtudes e não por motivos materiais ou egoísticos. Sim, a lei do levirato mandava que a obrigação de casar-se com a viúva deveria recair sobre o irmão mais próximo. Booz sabia que através de Rute passaria a assumir toda a herança da família, que era rica, eles eram os principais herdeiros da tribo de Judá, mas insistia em cumprir a lei: deveria procurar o parente mais próximo de Rute e lhe perguntar se não tinha interesse em desposar a viúva. Para casar-se com Rute, Booz se utilizou de um estratagema: "Foi pois Booz para a porta (da cidade) e sentou-se ali. Vendo passar o parente de que antes falamos, chamando-o pelo nome, disse-lhe: Vem cá por um pouco, senta-te aqui. Ele foi e sentou-se. Então Booz tomando dez homens dos anciãos da cidade, disse-lhes: Sentai-vos aqui. Estando eles sentados, disse ao seu parente: Noemi, que voltou do país de Moab, está para vender uma parte do campo de Elimelec, nosso irmão; eu quis informar-te disso e dizer-to diante de todos os que estão aqui sentados, e dos anciãos do meu povo. Se o queres possuir pelo direito de parentesco, compra-o e fica com ele, mas se te desagrada, dize-mo, para que eu saiba o que devo fazer; porque não há outro parente senão tu, que és o primeiro, e eu, que sou o segundo". O inquirido respondeu que tinha interesse em comprar o campo de Noemi, mas Booz aí acrescentou que era necessário que ele se casasse com a viúva Rute, "mulher do defunto, para que suscites o nome do teu parente na sua herança". Neste caso, o interessado desistiu porque não queria renunciar a dar continuidade ao parentesco de sua família, ele já era um patriarca e não queria desistir do patriarcado de sua estirpe em benefício de outra. Era um costume antigo em Israel entre os parentes, que quando um cedia o seu direito a outro, para a cessão ser válida, o que cedia tirava o sapato e dava ao seu parente, a fim de evitar o que preceituava o Deuteronômio 25, 9-10. Assim, Booz exigiu que seu parente tirasse o sapato e lhe desse, declarando em seguida: "Vós sois hoje testemunhas de que entro a possuir tudo o que era de Elimelec, de Quelion e de Maalon, entregando-me Noemi; e de que recebo por esposa Rute, moabita, mulher de Maalon, a fim de eu fazer reviver o nome do defunto na sua herança, para o seu nome não se extinguir na sua família e entre os irmãos e no seu povo". Foi desta forma que a descendência de Judá não foi mais uma vez interrompida, continuou com Booz gerando Obed, e Obed gerando Isaí (ou Jessé), que foi o pai do rei Davi, de cuja família nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo, exatamente em Belém, a mesma cidade onde ocorreu esta história. Eis a razão da história de Rute. É como se ela fosse um elo para dar continuidade ao Patriarcado de uma das mais importantes famílias, da qual sairia o Messias. E como a descendência atingiu seu ponto alto num monarca, ficou assim mais sólida e sem perigo de se desfazer.

Alguns anos depois, nascia numa gruta de Belém o Rei dos reis, amparado nos braços da Rainha-Mãe.