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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Beato Stepinac, exemplo de católico que ajudou a salvar judeus

Conforme nossa postagem anterior, (veja aqui), uma organização procura testemunhos de católicos que salvaram judeus durante a perseguição nazista. A relação destes heróis anônimos seria divulgada por ocasião da visita do Papa à Israel em maio próximo. Talvez fosse interessante também procurar se investigar o contrário: o testemunho de judeus que salvaram a vida de católicos, estes mortos em quantidade muito maior pelos nazistas. Talvez assim se demonstre que lá entre eles há também heroísmos desinteressados...
A Croácia, pertencente à Confederação da Iugoslávia, foi invadida pelos nazistas em 1941, constituindo-se, porém, num Estado independente sob a presidência de Ante Pavelic, fundador da sociedade secreta denominada “Ustacha” (ou ustacia), depois transformada em partido político adepto do nazismo. Aloysius Stepinac em 7 de dezembro de 1937 havia assumido a direção da diocese de Zagreb da qual permaneceu titular até a sua morte em 1960. Posteriormente, foi nomeado Cardeal em 12 de janeiro de 1953 pelo Papa Pio XII, fazendo com que o ditador Tito rompesse relações com o Vaticano. O Cardeal Stepinac foi impedido pelo governo comunista local de participar do Concílio convocado por João XXIII em 1958.
Durante a Segunda Guerra Mundial Stepinac multiplicou suas iniciativas em favor dos perseguidos, inclusive os judeus. Em 1941, durante a ocupação alemã, no princípio o arcebispo acolheu favoravelmente o novo governo, confiava em que se asseguraria os direitos dos cidadãos e a soberania nacional. Mas logo se desenganou, quando começaram as perseguições contra as minorias. Em abril de 1941 apresentou ao Ministério do Interior um protesto formal contra as primeiras leis racistas que proibiam os casamentos mistos. Em maio apresentou um protesto diretamente ao presidente da Croácia, Ante Pavelic, contra a perseguição dos sérvios ortodoxos. Em julho voltou a escrever-lhe de protesto. Em 16 de outubro pronunciou-se abertamente contra as leis racistas do alto do púlpito da Catedral de Zagreb exigindo o fim das perseguições raciais e religiosas. Depois da queda do nazismo veio o despótico governo comunista, submetendo o país e a Igreja aos vexames de uma cruel perseguição. Num processo vazio de consistências e provas, em outubro de 1945 foi condenado a 16 anos de trabalhos forçados. Em 1959 Stepinac enviou uma carta ao governo iugoslavo na qual fazia constar os maus tratos que estava submetido na prisão, onde concluía: "Eu, com a graça de Deus, seguirei adiante até o final, sem odiar a ninguém, mas sem temer a ninguém." Falecido em 10 de fevereiro de 1960, para que se evitasse encontrar provas de envenenamento teve as vísceras do seu cadáver destruídas. Em 1996 seus restos mortais foram exumados e analizados e encontrados vestígios de veneno nos seus ossos. Por este motivo foi declarado mártir em 11 de outubro de 1997.
O cardeal Stepinac foi beatificado em 3 de outubro de 1998 pelo Papa João Paulo II, no Santuário mariano de Marija Bistrica, durante uma visita a Banja Luka, Croácia. É considerado pela Igreja um mártir perseguido pelo então regime comunista iugoslavo. Na cerimônia de beatificação disse o Papa: O Beato Alojzije Stepinac não derramou o sangue no sentido estrito da palavra. A sua morte foi causada pelos longos sofrimentos a que o submeteram: os últimos 15 anos da sua vida foram um contínuo suceder-se de vexações, no meio das quais expôs com coragem a própria vida, para testemunhar o Evangelho e a unidade da Igreja. Para usar as próprias palavras do Salmo, ele pôs nas mãos de Deus a sua própria vida (cf. Sl 16[15], 5). ... O Cardeal Arcebispo de Zagreb, uma das figuras mais salientes da Igreja católica, depois de ter sofrido no próprio corpo e na própria alma as atrocidades do sistema comunista, é agora entregue à memória dos seus compatriotas com as fúlgidas insígnias do martírio.

Protesto contra a perseguição dos judeus
Segue abaixo o texto de um dos veementes protestos que aquele santo arcebispo fez contra as perseguições racistas movidas pelo governo de ocupação nazista:
Ordinariato Arquiepiscopal
n. 117
Zagreb, 22 de maio de 1941
Senhor Ministro:
A 23 de abril deste ano, por carta n. 103/BK, tive a honra de dirigir-me a V. Excia com um memorial no qual vos pedi que, na legislação anti-semita, se tivesse consideração com as pessoas pertencentes à raça hebraica, mas passadas à religião cristã. Todavia, nas leis promulgadas a 30 de abril nenhum caso se fez da religião a que as pessoas pertencem. Então nos foi dito que, por motivos independentes da nossa vontade, tais leis tinham tido de ser promulgadas desta forma, mas que a sua aplicação prática não seria assim tão cruel. Em vez disto, todo dia vemos publicadas ordens sempre mais severas que ferem juntamente os culpados e os inocentes. Hoje vem publicada uma nos jornais, segundo a qual, sem levar em conta idade, nem sexo, nem religião, todos os judeus são obrigados a trazer uma marca especial. São tantas agora as disposições de tal natureza, que pessoas competentes referem que nem mesmo na Alemanha as leis raciais são executadas com tal severidade e rapidez. Todos aprovam os esforços tendentes a fazer, sim, que num Estado nacional sejam só os pertencentes à nação a governar, e seja eliminada toda influência nociva capaz de lhe desagregar a estrutura. Todos aprovam os esforços feitos a fim de que a economia esteja nas mãos de nacionais, a fim de que seja impedido a elementos não nacionais ou antinacionais acumular o capital, e não possam elementos estrangeiros decidir dos destinos do Estado e da Nação. Privar, porém, as pessoas pertencentes a outras nacionalidades ou a outras raças de toda possibilidade de existência, e imprimir nelas uma marca vergonhosa, isto é questão de humanidade e de moral. E as leis morais não valem somente para os indivíduos, mas também para a administração do Estado.
Na ordem social dos nossos dias, com as idéias morais que nela predominam, não se imprime uma marca vergonhosa nem sequer nos que vêm da prisão, depois de ali haverem cumprido a pena pelo crime de homicídio: e isto pelo desejo de que mesmo pessoas de tal jaez sejam ajudadas a tornar-se membros úteis da sociedade humana. Nem os concubinários, nem os adúlteros, nem as prostitutas são assinalados com uma marca visível , e, se não se faz isto a quem por culpa sua merece ser detestado pela sociedade humana, por que querer fazê-lo aos que sem culpa alguma pertencem a uma outra raça? Além disto, cumpre considerar que, mormente entre os jovens que nos anos do seu desenvolvimento foram atingidos por tais medidas, se firmará fortemente o instinto de vingança e o “Minderwertigkeitskomplex”(*), e isto terá uma influência funesta sobre a formação psicológica deles. Temos nós o direito de cometer um tal atentado à personalidade humana?
Rogo-vos, pois, Senhor, expedirdes oportunas disposições para que as leis anti-semitas correlatas medidas conta os sérvios, etc., sejam executadas de modo a respeitar a pessoa e a dignidade humana. A ordem de trazer a marca judia de modo algum deve ser executada. Para cobrir as despesas incorridas pelas autoridades com a fabricação de tais distintivos, poder-se-ia pedir aos interessados reembolsá-los, suspendendo assim a obrigação de usá-los. Sejam os culpados e os traidores do povo punidos como mereceram: nenhum homem razoável se oporá a isto. Mas à multidão irresponsável não deve ser deferida a tarefa de julgar e conjuntamente executar a pena.
Em modo especial, Snr Ministro, rogo-Vos terdes consideração com os judeus batizados. Muitos deles foram batizados muito tempo antes da perseguição, e portanto numa época em que, do ponto de vista material, o batismo significava para eles uma desvantagem. Muitos deles estão já agora completamente assimilados à nação, de modo que ninguém suspeitava fossem eles judeus. Alguns, pelo contrário, fizeram-se notar no movimento nacional e “ustascia”. Conheço alguns que são católicos fervorosos e praticantes: como poderão eles agora cumprir os seus deveres religiosos? Deverão acaso assistir à santa Missa e receber a sagrada Comunhão com o distintivo amarelo em torno do braço? Neste caso, eu mesmo deveria advertir os judeus de religião católica de não deverem usar esse distintivo, para não darem lugar a perturbação e agitação nas igrejas.
Chamo finalmente a vossa atenção para uma última consideração. Sei de maneira positiva que a Santa Sé não vê com olhos tais providências. Neste momento, depois que o Santo Padre recebeu tão benevolamente o Poglavnik e a nossa delegação, e enquanto passos estão sendo dados para fazer reconhecer o nosso Estado pela Santa Sé, é caso oportuno criar uma atmosfera de desconfiança e de desarmonia?
Espero, Snr. Ministro, que não vos melindrareis, se, como Bispo, vos falei claramente.
Aceitai, etc., etc.
O Arcebispo.
Presidente das Conferências Episcopais
(*) "Complexo de inferioridade"
(Extraído de “O Processo do Arcebispo de Zagreb”,Editora Vozes, págs. 237/241)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A preguiça não é patrimônio exclusivo da Bahia

Visitando o sítio de um amigo vi uma charge na porta de entrada onde havia um macaco sentado e os dizeres: "quando me dá vontade de trabalhar fico aqui sentado esperando a vontade passar". Não é preciso dizer que este sítio fica na Bahia, e que o proprietário também é baiano. Mas ele nada mais faz do que secundar esta falsa legenda da preguiça baiana. Muitos fatos serviram para sustentar esta falsa legenda, inclusive foi na Bahia, na Chapada da Diamantina, que foram encontrados fósseis de preguiças gigantes, oriundas do período pré-diluviano. Assim como há muita fantasia em torno da "preguiça baiana", também há muita informação distorcida em torno do percentual de negros e mestiços lá existentes. Conheço bem a Bahia, e os dados do IBGE o comprovam, somente em Salvador e Recôncavo há um percentual maior de pretos e mestiços, enquanto que no restante de todo o Estado o que prevalece é mesmo a cor branca da população. Quanto ao tema da "preguiça baiana' , um amigo me mandou o texto abaixo, extraído de um blog, cujo teor transcrevo na íntegra:
"PREGUIÇA BAIANA"
Alguém me enviou, não me lembro quem, entre as muitas bobagens que nos enviam pela Internet, a informação de que a antropologia baiana, Elisete Zanlorenzi, da PUC-Campinas, ao defender sua tese de mestrado, na USP, afirmara, escudada em uma pesquisa que durou quatro anos, que a famosa "malemolência" ou preguiça baiana, na verdade, não passava de racismo. Afirmava, ademais, que a visão de que o morador da Bahia vive em clima de "festa eterna" não passa de discriminação, já que, segundo sua pesquisa, o baiano é muitas vezes mais eficiente que o trabalhador das outras regiões do Brasil.
Diz, Zanlorenzi que é justamente no período de festas que o baiano mais trabalha, pois devido às distorções do nosso neoliberalismo que condena a que 51% da mão-de-obra da população a atuar no mercado informal, as festas são uma oportunidade de trabalho para muitos. Nessas ocasiões, afirma ela, "Quem se diverte é o turista".
O objetivo da tese foi descobrir como a imagem da preguiça baiana surgiu e se consolidou, e Zanlorenzi concluiu, após sua longa pesquisa, que a imagem da preguiça derivou do discurso discriminatório contra os negros e mestiços, que são cerca de 79% da população do nosso Estado. Sempre acompanhando o que diz a informação que me foi repassada, no seu estudo ela mostra que a elevada porcentagem de negros e mestiços não é uma coincidência. A atribuição da preguiça aos baianos tem um teor racista.
Antes de continuar, data vênia, salvo melhor juízo – antes que me classifique de racista – este 79% da população baiana ser negra ou mestiça, configura-se uma verdade acabada, mas nunca comprovada. Alguém chuta um número e este chute começa a se tornar incontestável. Ele seria válido em relação a Salvador, Recôncavo e a zona hoje chamada de Baixo-sul. O que não significa nem 30% de um Estado que tem a mesma extensão territorial da França e uns 13 milhões de habitantes. No sertão o quadro étnico é bem diferente e a miscigenação com o negro – ou melhor, com as negras – foi bem menor. Inclusive se encontram no interior – no sertão – várias, se não a maioria, das comunidades remanescentes de quilombos, ou seja, composta apenas de negros, o que comprovaria a relatividade da miscigenação negra geral. Da mesma forma que entre esses "negros e pardos", encontram-se muito cafuzos, já que o contato do negro com a índia foi bem maior que nos impõe as atuais análises "negristas".
Aliás, falar da composição étnica brasileira é enfadonho, além de ser uma quimera. Chico Buarque já afirmou – com muita propriedade e ironia – que brancos no Brasil eram Tafarel e Xuxa, o general Geisel já tinha morrido.
Voltando à tese de Zanlorenzi, ela continua afirmando que a imagem de povo preguiçoso se enraizou no próprio Estado, por meio da elite portuguesa, que considerava os escravos indolentes e preguiçosos, devido às evidentes expressões faciais de desgosto e de lentidão na execução dos serviços. Afinal, como trabalhar bem-humorado em regime de escravidão? Certíssimo, aliás!
Depois de concluir que essa fama nasceu na própria Bahia, ou seja, que somos os responsáveis por aquilo que ela chama de discriminação que sofremos no Sul rico e maravilhoso, Zanlorenzi afirma que de nossa terra o clichê de preguiçoso se espalhou de forma acentuada no Sul e Sudeste a partir das migrações da década de 40. Todos os que chegavam do Nordeste viraram baianos. Chamá-los de preguiçosos foi a forma de defesa encontrada para denegrir a imagem dos trabalhadores nordestinos (muito mais paraibanos do que propriamente baianos), taxando-os como desqualificados, estabelecendo fronteiras simbólicas entre dois mundos como forma de "proteção" dos seus empregos.
Até este ponto, mesmo aos trancos e barracos, Zanlorenzi se aproxima da verdade, entretanto, talvez por desconhecer Grammci, naquele ponto que reza ser as manifestações culturais de uma época são fruto da cultura da classe dominante desta mesma época, ela resvala por caminhos fáceis e chega a conclusões pueris, ao afirmar que os próprios artistas da Bahia, como Dorival Caymmi, Caetano Veloso e Gilberto Gil, têm responsabilidade na popularização da imagem. "Eles desenvolveram esse discurso para marcar um diferencial nas cidades industrializadas e urbanas. A preguiça, aí, aparece como uma especiaria que a Bahia oferece para o Brasil", diz meu missivista, que teria dito Zanlorenzi, pois até Caetano se contradiz quando vende uma imagem que: "A fama não corresponde à realidade. Eu trabalho muito e vejo pessoas trabalhando na Bahia como em qualquer lugar do mundo".
Segundo a tese, a preguiça foi apropriada por outro segmento: a indústria do turismo, que incorporou a imagem para vender uma idéia de lazer permanente "Só que Salvador é uma das principais capitais industriais do país, com um ritmo tão urbano quanto o das demais cidades." Depois de mostrar o que temos feito em pró da industrialização, faz uma generoso, e quiçá justo, prognostico sobre nosso futuro, ao dizer que o maior pólo petroquímico do país está na Bahia, assim como o maior pólo industrial do norte e nordeste, crescendo de forma tão acelerada que, em cerca de 10 anos será o maior pólo industrial na América Latina.
A seguir, com base em jornais de 1949 até 1985 que pesquisou e estudou o comportamento dos trabalhadores em empresas, comprova que o calendário das festas não interfere no comparecimento ao trabalho. O feriado de carnaval na Bahia coincide com o do resto do país. Os recessos de final de ano também. A única diferença seria o São João (dia 24/06), que é feriado em todo o norte e nordeste (e não só na Bahia).
O mais curioso de sua pesquisa é a informação de que uma empresa com sede no Pólo Petroquímico da Bahia teve mais faltas na filial de São Paulo no Carnaval do que na matriz baiana (sendo que o número de funcionários na matriz é 50% maior do que na filial citada). Outro exemplo: a Xerox do Nordeste, que fica na Bahia, ganhou dois prêmios de qualidade no trabalho dados pela Câmara Americana de Comércio (e foi a única do Brasil). Sua pesquisa demonstra ainda que é no Rio de Janeiro que existem mais dos chamados "desocupados" (pessoas em faixa etária superior a 21 anos que transitam por shoppings, praias, ambientes de lazer e principalmente bares de bairros durante os dias da semana entre 9 e 18h), considerando levantamento feito em todos os estados brasileiros. A Bahia aparece em 13° lugar.
Longe de mim – baiano convicto e histórico – discordar da ilustre conterrânea mestranda, mas não entendo porque tanta celeuma em relação à preguiça. Por quê?
Sempre que vejo esse assunto em pauta, vem à mente um filme de Buñuel, no qual um personagem masculino – refinado burguês, quiçá com um certo ar de aristocrata – ensina a um jovem mudo, e pobre, que trabalho é atividade das bestas, tomada esta palavra no seu sentido etimológico, e não no seu sentido popular de bobo.
Por que se glorifica tanto o trabalho – em detrimento da preguiça – se o resultado do trabalho, quase sempre é canalizado para a algibeira alheia? Não é por acaso que o povo diz: Quem trabalha não tem tempo para ganhar dinheiro...
Para terminar, um convite – com todos o respeito – a Elisete Zanlorenzi, que tal deitarmos em duas redes para discutirmos melhor este assunto?