sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

A VERDADEIRA MENSAGEM DE NATAL



Só a boa vontade constrói as moradas de Deus em nossa alma



Os Santos Anjos anunciaram com suas trombetas no primeiro Natal da História: “paz na terra aos homens de boa vontade”, e isto se deu logo após o “glória a Deus no mais alto dos céus”. Enquanto estamos na terra, todos nós precisamos daquela paz anunciada naquele grandioso dia.
Lembremo-nos, porém, de que esta paz é exclusiva aos homens de boa vontade.
Por que a paz é exclusivamente dada aos “homens de boa vontade?” Por que os homens de má vontade não a possuirão? Porque estes são aqueles, que, estando contra a vontade divina, estão em estado de revolta contra Deus. São aqueles chamados também de ímpios e, segundo o Profeta Isaías, “não há paz para os ímpios”.
O que quer dizer “homens de boa vontade”? Quer dizer aqueles homens cujas vontades estejam em completa consonância com a vontade de Deus, aqueles que digam “seja feita a vossa vontade” não só na hora de rezar o Pai-Nosso, mas em todos os atos de sua vida presente, fazendo com que a vontade de Deus seja feita “aqui na terra como no céu”.
Ó homens de boa vontade! Contemplai o Menino Jesus, nascido abandonado num mísero presépio, e fazei-O nascer também em vosso coração! Bem sabeis que vosso coração é tão pobre ou mais do que aquela gruta; tão sujo ou mais do que aquela manjedoura; tão árido e esquecido quanto aquele ermo onde a Sagrada Família procurou abrigo.  Mas ao introduzir nele o Menino Jesus o tornai o lugar mais rico, mais asseado e limpo, mais concorrido do mundo.
E como acolher Jesus Cristo em teu interior? Olhai bem e pensai: é necessário antes de tudo fazer a vontade d’Ele aqui na terra, da mesma forma como os Santos Anjos a fazem no céu, para que possamos estar possuídos de uma boa vontade e obtenhamos a Sua Paz.  Fazendo-O nosso Hóspede, acolhendo-O em nosso coração, transformamos nosso interior em sua morada. 
Como poderá o cristão fazer uma morada para Deus em seu interior? Fazendo com que nele reine a vontade de Deus.
Lembrem-se disto: toda vez que acolhemos bem em nossa casa um parente, um amigo ou simplesmente um visitante, dando-lhe toda a atenção, todo o conforto de que carece, fazemos de nossa casa a sua morada. Assim também, toda vez que recebemos com afeto nosso irmão, mesmo que ele seja defeituoso, seja incômodo ou chato, ou até mesmo mal cheiroso, não está sendo ele nosso irmão apenas pelo sangue ou pela fé, mas muitas vezes porque tem os mesmos defeitos que nós também carregamos. E, neste caso, a sua morada não será apenas a nossa casa, com tudo o que possamos lhe oferecer de conforto, mas o nosso próprio coração, também com tudo o que podemos oferecer de bom para ele. Podemos ir mais longe: toda vez que perdoamos as ofensas que nos são dirigidas, mesmo que os ofensores não se humilhem e nos peçam perdão, estamos fazendo o papel de Deus que a tudo é capaz de perdoar por nosso amor. Esta atitude, refletindo o desejo de Deus para o bom convívio dos cristãos, revela o império de sua vontade em nós.
Agindo assim, irmãos, fazemos também o papel de anjos que são os mensageiros e intercessores de Deus perante os homens.  Por que? Porque os Santos Anjos não são donos dos dons que vêm de Deus para nós e nem daqueles que levam até Deus provenientes de nossas boas obras. Mas mesmo assim eles levam e trazem tais dons sem desfrutá-los. Da mesma forma, quando agimos com paciência suportando e perdoando os defeitos dos semelhantes; quando levamos conforto ou consolo a um necessitado; quando procuramos espelhar em nossas almas as boas virtudes para que os outros as copiem – não é o nosso perdão que levamos ao nosso semelhante, nem é nossa a fortaleza que lhe damos ao consolá-lo e confortá-lo, nem tampouco são nossas aquelas virtudes que espelhamos como exemplo de vida, mas tudo provém de Deus em benefício dos homens. Assim como os Santos Anjos, somos apenas intercessores daqueles dons.
Eis aqui uma receita para sermos bons cristãos: exercitar a nossa boa vontade, unindo-a à de Deus, consolando, confortando, perdoando, suportando incômodos e defeitos, pois foi assim que Jesus Cristo fez ao Se submeter à vontade do Pai celeste desde o nascimento até àquela morte tão cruel. Sempre trazendo esperança aos homens, sempre confortando, consolando, perdoando,  mesmo às custas de tanto sofrimento. Somente vivendo assim, agindo assim, teremos aquela paz cantada pelos Santos Anjos no nascimento de Jesus, que é fruto da glória de Deus mas é também ela mesma parte daquela glória. A morada de Deus dentro de nós é construída principalmente pela Sua vontade: comecemos a cumpri-La neste Natal, pedindo ao Menino Jesus que tome conta de nosso coração!
     





domingo, 20 de dezembro de 2015

A ANUNCIAÇÃO DO ANJO A NOSSA SENHORA E A ENCARNAÇÃO DO VERBO



Plínio Corrêa de Oliveira 

Nossa Senhora colocada numa casinha pequena, modesta, limpíssima e colocada em inteira ordem. Ela no claustro, composto de umas pobres arcadazinhas [...] em certo ponto, no chão, um vaso ingênuo do qual sai um lírio reto como uma bengala e em cima, perpendicular, um lírio que abre a boca, ao coração, aos olhos... e que é símbolo da Virgem Maria. Ela sentada sobre um banquinho, com material de meditação [...] na mão; paz em volta; uma paliçadazinha assim também muito pobre, muito ingênua, muito novinha e muito bem conservada, que fecha a propriedade em relação aos vizinhos e que garante a solidão. Ela está lá e diante está um anjo.[...]
Há quatro mil anos, talvez mais, a humanidade esperava Aquele que deveria vir[...] Em virtude do pecado  original os homens estavam num caos e numa desordem medonha... Não só num caos e numa desordem, a pior das formas da desordem, que é a desordem organizada, como a do Império Romano, organizada ao revés, em que todos os princípios da ordem estão com as pernas para o ar e que constitui uma ordem. Não só assim estavam os povos pagãos, mas assim também estava o povo eleito. O povo judaico, o povo que tinha sido escolhido para a promessa, esse povo estava na maior decadência, e no maior afastamento de Deus Nosso Senhor. Na Terra nada mais se salvava.[...]
Uma Virgem pura, concebida Ela mesma sem pecado original, expressamente para essa missão, essa Virgem nascera de Santa Ana e de São Joaquim, e esta Virgem casada, virginalmente, com o esposo-virgem São José, meditava; e sabendo que a única solução era a vinda do Messias, que a única solução era que viesse o Redentor do gênero humano, o Salvador, Ela meditava, Ela lia a Bíblia, da qual Ela tinha uma inteligência maior do que jamais ninguém teve, e Ela via as promessas e Ela pensava a respeito do Messias.
Esta obra prima da sabedoria d’Ela, da virtude e do Amor de Deus d’Ela, essa sabedoria, apenas composta e quando Ela na paz de sua meditação acabava de dar o último traço para imaginar como Nosso Senhor Jesus Cristo seria... uma iluminação dentro do jardim! Aparece um anjo e lhe diz: "Ave Maria Cheia de Graça, Bendita Tu és entre as mulheres” [...]
Ela se perturbou e não sabia qual era essa saudação. O anjo, então explicou a Ela, [...] que Ela seria Mãe do Filho de Deus e que o Verbo de Deus, o Messias, nasceria d’Ela. Os Srs. podem imaginar o humílimo susto d’Ela. Ela que se julgava indigna de ser a escrava da Mãe do Messias e pedia a Deus que lhe desse a graça de conhecer a Mãe do Messias e servi-la, era um favor ao qual Ela aspirava, considerando esse favor arrojado; de repente recebe esse recado: Mãe do Messias? Serás Tu! Mais ainda, Mãe do Messias só, Não! Quem vai ser o pai desse Menino? A natureza humana Ele a receberá de Ti, ó Maria! Mas a união com Deus como é? Tu serás a Esposa do Espírito Santo![...] o Espírito Santo engendrará em Ti, divinamente, espiritualmente, Ele engendrará em Ti o Filho que vai nascer.
[...] é um tal cúmulo de graças, um tal cúmulo de favores, tanta generosidade, que é difícil calcular como Nossa Senhora se sentiu confundida naquele momento, mas ao mesmo tempo elevada, porque Ela era perfeita e vendo tais obras de Deus Ela não podia deixar de se alegrar enormemente, e vendo que Deus A escolhera para tais obras a gratidão d’Ela não tinha limites e o prazer de se sentir unida com Deus, a alegria de se sentir unida com Deus, devia ser maior na alma d’Ela do que todos os mares e todos os oceanos.
Entretanto, a resposta humílima. Com Deus não se discute: "Eis a Escrava do Senhor; faça-se em Mim segundo a  vossa palavra!" Quer dizer, Ela aceita, Deus manda n’Ela o que Deus quer que se faça. Ela não vai discutir que Ela não é digna; Ela não vai analisar-se a si mesma. Deus quer, é perfeito. Ali está Ela, faça-se! E nesse instante, um mistério divino, do qual nós não temos noção [...] o Espírito Santo ali, no claustro de Maria, gerou a Nosso Senhor Jesus Cristo.
E desde o primeiro instante do ser em que esse primeiro elemento do Corpo d’Ele começou a existir, como Ele era perfeito – começou a existir, começou a pensar; começou a pensar, começou a orar – e conhecendo perfeitamente de que Mãe era Filho, Ele certamente disse a Ela uma palavra de amor. Os Srs. podem calcular qual foi essa primeira palavra de amor d’Ele para Nossa Senhora e qual foi a resposta de Nossa Senhora, sentindo esse carinho que Lhe vinha do Filho Deus... Como é que Ela disse a Ele? Ela disse: Meu Deus?... Ela disse: Meu filho?... Ela não teria dito: Filhinho?... Que riqueza de alma era preciso ter para responder adequadamente a esse primeiro carinho! Que noção dos matizes! Que noção das situações! Que perfeita disponibilidade da alma para corresponder a tudo perfeitamente e oferecer a Ele esta primícia incomparável: o primeiro ato de amor que o gênero humano Lhe oferecia!
É muito bonito na vida de Nossa Senhora fazer-se a correlação entre as coisas. O primeiro ato de amor que Ele deu a Ela quando Ele se encarnou e o último ato de amor que Ele deu a Ela quando Ele morreu. Porque eu não tenho dúvida que Ele antes de morrer disse a Ela, ao menos com a Alma, alguma coisa que Ela entendeu e que era o ato de amor último que fechava o circuito desta vida, que era o ato de amor-rei por onde todo o amor que Ele tinha tido a Ela durante a vida inteira se condensava numa veneração e numa carícia suprema. Ela também. O primeiro ato de amor d’Ela, como terá sido? Como terá sido o último ato de amor d’Ela a este Filho que Ela viu morrer naquela situação tão trágica, tão terrível e que quanto mais sofredor, mais e mais, e mais e mais Ela amava? Ela não se teria lembrado naquele momento extremo e último do primeiro afago, da primeira troca de carícias? Ela não teria se lembrado como é Este que eles estão matando? Oh!... Oh!... Meu Adorado!... [...]
O Srs. podem imaginar o que isso representa de santidade e de união. Nós não temos, não podemos aprofundar isto, nem de longe, mas nem de longe![...] Quanto mistério! Quanta maravilha! Um segredo dentro do Segredo.
Mas se nós, numa pequena meditação pensamos tantas coisas a respeito disto, e nós não somos senão nós, eu pergunto: o que terá Ela pensado durante todo esse tempo?[...]
[...] no Céu aonde Nossa Senhora foi levada, não só em alma, mas em corpo e alma [...] nós veremos Nossa Senhora de perto... Os Srs. não teriam, depois desta reflexão, vontade de se aproximar d’Ela e imaginar que Ela no Seu Trono, tão junto do Trono do Divino filho, se debruça para saber o que os Srs. querem... Os Srs. já se imaginaram pessoalmente nessa situação? E um dos Srs. ou, talvez eu, fazer a Ela esta pergunta: "Minha Senhora, Minha Mãe, podeis me contar tudo o que meditastes desde o momento da Encarnação até ao momento do nascimento de Vosso Filho? Mas eu queria saber tudo, não queria que nada me ficasse ignoto, eu queria conhecer ponto por ponto e... Minha Mãe, perdoai meu atrevimento, mas eu queria contado por Vós mesma!"... Os Srs. podem imaginar o que seria Nossa Senhora, Régia, Magnífica, Bondosíssima, Melíflua como A chamou São Bernardo... - "Filho, começou assim..." Se assim se pudesse dizer, dez eternidades, cem eternidades, mil eternidades... para ouvir só isso... ó que maravilha! E talvez, se o número fosse conectável com o conceito de eternidade (não é conectável), mil eternidades não bastariam para nós sabermos tudo isto que Ela pensou só durante esse tempo; tudo quanto Ele disse a Ela; tudo quanto Ela respondeu; e todas as graças que Lhe deu; e todas as ações de graças d’Ela; e Ela que rezou por este e por aquele, e por aquele outro... Quem sabe se já ali Ela conheceu profeticamente a existência de todos nós e por todos nós rezou?! E que surpresa vendo-A contar, de repente: "e nesse passo, meu filho, eu rezei por ti".
Que alegria! Que comoção! Que agradecimento! E que cântico! Uma vez que é certo que no Céu saberemos todos cantar.


(Extraído de Conferência de 24 de Março de 1984, sem revisão do orador  -  Ver também revista “Dr. Plínio”, n. 108, de março de 2007  )




O Natal, Festa dos homens de boa vontade



Só a boa vontade constrói as moradas de Deus em nossa alma



Os Santos Anjos anunciaram com suas trombetas no primeiro Natal da História: “paz na terra aos homens de boa vontade”, e isto se deu logo após o “glória a Deus no mais alto dos céus”. Enquanto estamos na terra, todos nós precisamos daquela paz anunciada naquele grandioso dia.
Lembremo-nos, porém, de que esta paz é exclusiva aos homens de boa vontade.
Por que a paz é exclusivamente dada aos “homens de boa vontade?” Por que os homens de má vontade não a possuirão? Porque estes são aqueles, que, estando contra a vontade divina, estão em estado de revolta contra Deus. São aqueles chamados também de ímpios e, segundo o Profeta Isaías, “não há paz para os ímpios”.
O que quer dizer “homens de boa vontade”? Quer dizer aqueles homens cujas vontades estejam em completa consonância com a vontade de Deus, aqueles que digam “seja feita a vossa vontade” não só na hora de rezar o Pai-Nosso, mas em todos os atos de sua vida presente, fazendo com que a vontade de Deus seja feita “aqui na terra como no céu”.
Ó homens de boa vontade! Contemplai o Menino Jesus, nascido abandonado num mísero presépio, e fazei-O nascer também em vosso coração! Bem sabeis que vosso coração é tão pobre ou mais do que aquela gruta; tão sujo ou mais do que aquela manjedoura; tão árido e esquecido quanto aquele ermo onde a Sagrada Família procurou abrigo.  Mas ao introduzir nele o Menino Jesus o tornai o lugar mais rico, mais asseado e limpo, mais concorrido do mundo. E assim estareis realizando o terceiro advento de Jesus Cristo: o primeiro deu-se naquele primeiro Natal; o segundo dar-se-á no fim do mundo; e o terceiro estará ocorrendo enquanto viveres e acolhê-Lo em teu interior.
E como acolher Jesus Cristo em teu interior? Olhai bem e pensai: é necessário antes de tudo fazer a vontade d’Ele aqui na terra, da mesma forma como os Santos Anjos a fazem no céu, para que possamos estar possuídos de uma boa vontade e obtenhamos a Sua Paz.  Fazendo-O nosso Hóspede, acolhendo-O em nosso coração, transformamos nosso interior em sua morada. 
Como poderá o cristão fazer uma morada para Deus em seu interior? Fazendo com que nele reine a vontade de Deus.
Lembrem-se disto: toda vez que acolhemos bem em nossa casa um parente, um amigo ou simplesmente um visitante, dando-lhe toda a atenção, todo o conforto de que carece, fazemos de nossa casa a sua morada. Assim também, toda vez que recebemos com afeto nosso irmão, mesmo que ele seja defeituoso, seja incômodo ou chato, ou até mesmo mal cheiroso, não está sendo ele nosso irmão apenas pelo sangue ou pela fé, mas muitas vezes porque tem os mesmos defeitos que nós também carregamos. E, neste caso, a sua morada não será apenas a nossa casa, com tudo o que possamos lhe oferecer de conforto, mas o nosso próprio coração, também com tudo o que podemos oferecer de bom para ele. Podemos ir mais longe: toda vez que perdoamos as ofensas que nos são dirigidas, mesmo que os ofensores não se humilhem e nos peçam perdão, estamos fazendo o papel de Deus que a tudo é capaz de perdoar por nosso amor. Esta atitude, refletindo o desejo de Deus para o bom convívio dos cristãos, revela o império de sua vontade em nós.
Agindo assim, irmãos, fazemos também o papel de anjos que são os mensageiros e intercessores de Deus perante os homens.  Por que? Porque os Santos Anjos não são donos dos dons que vêm de Deus para nós e nem daqueles que levam até Deus provenientes de nossas boas obras. Mas mesmo assim eles levam e trazem tais dons sem desfrutá-los. Da mesma forma, quando agimos com paciência suportando e perdoando os defeitos dos semelhantes; quando levamos conforto ou consolo a um necessitado; quando procuramos espelhar em nossas almas as boas virtudes para que os outros as copiem – não é o nosso perdão que levamos ao nosso semelhante, nem é nossa a fortaleza que lhe damos ao consolá-lo e confortá-lo, nem tampouco são nossas aquelas virtudes que espelhamos como exemplo de vida, mas tudo provém de Deus em benefício dos homens. Assim como os Santos Anjos, somos apenas intercessores daqueles dons.
Eis aqui uma receita para sermos bons cristãos: exercitar a nossa boa vontade, unindo-a à de Deus, consolando, confortando, perdoando, suportando incômodos e defeitos, pois foi assim que Jesus Cristo fez ao Se submeter à vontade do Pai celeste desde o nascimento até àquela morte tão cruel. Sempre trazendo esperança aos homens, sempre confortando, consolando, perdoando,  mesmo às custas de tanto sofrimento. Somente vivendo assim, agindo assim, teremos aquela paz cantada pelos Santos Anjos no nascimento de Jesus, que é fruto da glória de Deus mas é também ela mesma parte daquela glória. A morada de Deus dentro de nós é construída principalmente pela Sua vontade: comecemos a cumpri-La neste Natal, pedindo ao Menino Jesus que tome conta de nosso coração!
     




sábado, 19 de dezembro de 2015

MARIA E SEU DIVINO INFANTE: INSONDÁVEL UNIÃO





Plínio Corrêa de Oliveira


Coração de Maria, no qual foi formado o Sangue de Jesus, preço de nossa  Redenção . rogai por nós.


Esta jaculatória, da Ladainha do Imaculado Coração de Maria, além de sua particular  unção, encerra um significado sumamente elevado e belo, que vem muito a propósito considerarmos nesta véspera de Natal

“Caro Christi, caro Mariae”

Com efeito, pelas leis comuns da reprodução da espécie, o homem traz consigo algo do sangue do pai e algo do sangue da mãe. Entretanto, o preciosíssimo sangue de Nosso
Senhor Jesus Cristo, bem como sua carne sacratíssima, foram exclusivamente formados de Nossa Senhora. E isto porque, em se tratando de milagrosa concepção da parte de uma Virgem, nela não interveio obra de varão. Motivo pelo qual podemos repetir o que, com inteira propriedade, afirmou Santo Agostinho: caro Christi, caro Mariae. A carne de Cristo é, de algum modo, a própria carne de Maria.
Em Nosso Senhor Jesus Cristo não havia senão o sangue da Santíssima Virgem, que Ela, com amor e comprazimento indizíveis forneceu a seu Divino Filho, o Redentor do gênero humano.

O Homem-Deus se fez escravo de Nossa Senhora

A consideração desse fato tão singular e tão maravilhoso nos ajuda a compreender melhor o que pode ter sido o período em que Nosso Senhor esteve em gestação no corpo de Maria.
Não há maior sujeição nesta terra do que a de uma criança à mãe que a carrega no seio, dando-lhe todos os elementos vitais para a constituição de sua parte física. Ora, durante nove meses consecutivos, Nosso Senhor quis pertencer inteiramente a Nossa Senhora. Jesus, o esperado das nações, o homem tão perfeito que não é simplesmente homem, mas é Homem-Deus . porque a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade se uniu hipostaticamente à sua natureza humana . Jesus quis se fazer escravo de Maria.
E desde o instante em que o primeiro elemento do corpo d.Ele começou a existir, como era perfeito! Começou a pensar, começou a orar e, conhecendo perfeitamente de que mãe era filho, deve ter dito a Ela uma palavra de amor. Pode-se calcular qual foi essa primeira palavra de afeto e carinho d.Ele para a Santíssima Virgem, e qual foi a resposta d’Ela ao sentir uma ternura que Lhe vinha do Filho-Deus?
Que terá Ela respondido a Jesus? Meu Deus? Ou Lhe terá chamado meu Filho.? Ou, ainda, com maior desvelo e solicitude, tê-Lo-á agradado dizendo “Filhinho”?
Quanta riqueza de alma é preciso ter para responder adequadamente a esse primeiro carinho do Verbo Encarnado! Que noção dos matizes e das situações! Que exímia e completa disponibilidade de alma para corresponder a tudo perfeitamente, e oferecer a Ele esta premissa incomparável: o ato de amor inicial que o gênero humano Lhe tributava!

Crescente e insondável união

Além disso, quantas e quão elevadas disposições de alma Nossa Senhora deve ter  sentido, quando notava o Filho mexer-se dentro d'Ela? Nesses momentos, por certo Lhe vinham pensamentos como este: Deus se move em Mim! Aquele a quem o Céu e a terra não puderam conter, está no meu claustro, porque Deus assim o quis. Ei-Lo que se move em Mim delicadamente, amorosamente, nobremente, com uma movimentação cheia de símbolos e de mistérios. Ouço, sinto e rezo, porque são mensagens para Eu compreender, são comunicações para Eu entender...
Oh recolhimento! Oh oração! Oh prenúncio do que deveriam ser ao longo dos séculos as almas eucarísticas que têm a felicidade sem nome de, a cada dia, por alguns instantes ter no seu próprio peito a Nosso Senhor Jesus Cristo! Oh maravilha!
E assim como o Santíssimo Sacramento comunica suas graças e se une às almas que se lhe tornam sacrários vivos, tudo indica que, pelas leis da reciprocidade, à medida que a Santíssima Virgem ia dando de seu próprio corpo a Nosso Senhor, Ele como que retribuía, conferindo-Lhe seu espírito. Nossa Senhora ia crescendo, pois, em união com Ele de modo insondável. De tal modo que, quando a obra puríssima das entranhas d’Ela chegou a seu termo e se encontrava prestes a nascer na noite de Natal, o vínculo entre ambos havia atingido um ápice inconcebível. Ela estava pronta para ser, em todos os sentidos da palavra, a Mãe do Redentor.

Diálogo inimaginável

O longo período de indizível e misterioso convívio cessa. Os Anjos se rejubilam e cantam nos Céus. Numa gruta dos arredores de Belém, Jesus vem ao mundo.
Nosso espírito se sente pequeno, ao procurarmos imaginar o embevecimento de Nossa Senhora ao ver a face do Menino Jesus, e o arroubo que sentiu, quando recebeu d.Ele o primeiro agrado externo... Quando O viu voltar-se para São José e manifestar afeto também a ele. Quando, percebendo que Jesus sentia fome, compreendeu que Lhe competia, com seu leite indizivelmente precioso, saciar o Filho de Deus. Quando, ao vê-Lo passar frio e incômodo na manjedoura, se desdobrou em mil cuidados, para melhor agasalhá-Lo e para Lhe aumentar o conforto no rude tabuleiro que lhe servia de berço. E quando, ao sentir o bafo dos animais que O aqueciam, disse-Lhe com inexcedível amor:
“Meu Deus, tão pouco para Quem é tanto”!
E quando o Menino, sem proferir palavras, respondeu-Lhe no fundo da alma: “O que é pouco para Mim, quando tenho a Vós?” Quem pode imaginar semelhante diálogo?!

Somente por meio de Maria chegamos a seu Divino Filho

Pode-se notar, por essas considerações, como a união de almas entre o Menino Jesus e Nossa Senhora é estritamente insondável para a mente humana.
Entretanto, essa mesma insondabilidade nos faz compreender melhor o papel da Santíssima Virgem como intercessora e medianeira; deve, pois, arraigar-se ainda mais em nossas almas a convicção de que, para nos aproximarmos do Divino Infante, é indispensável achegarmo-nos antes a Nossa Senhora. Ficarmos junto d’Ela, amando-A de todo o coração, é a forma mais segura e acertada de estarmos junto de Deus, porque Deus está sumamente próximo de sua Mãe, tanto quanto Ele o possa estar de uma criatura.
Nossa Senhora é a Porta do Céu, a Arca da Aliança. E assim como aquele Menino veio a nós por meio de Maria, assim também somente podemos chegar a Ele por meio d’Ela.

(Extraído da revista “Dr. Plínio”, nº 21, dezembro de 1999)



sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A LEGITIMIDADE DO PODER DE REGÊNCIA POLÍTICA



A priori todo e qualquer poder de regência provém de Deus, sendo Ele o Regedor único e universal de todos os seres. Inclusive a regência dos povos através da política. No entanto, a regência divina não é imperativa e absoluta, para ser perfeita ela pede a colaboração e participação dos regidos. Quando esta co-participação da regência (ou co-regência) existe apenas entre os homens, ela adquire algo de legitimidade, de caráter meramente humano, mas não é perfeita. Não há perfeição sem Deus.
Os povos antigos, que se regiam segundo suas tradições e escolhiam seus chefes entre os patriarcas, quando se afastavam de Deus, logo, logo, perdiam (se mantinham, era por acaso) alguma legitimidade baseada nessa co-regência, pois regiam apenas para si ou para alguns que os rodeavam, desprezando as aspirações de seus regidos. Entre os povos da antiga Mesopotâmia, região em que se desenvolveu a primeira civilização da terra, sempre foi assim. Aqueles aos quais hoje se dá o título de reis (embora chamados como “principais”, ou seja, meros patriarcas tribais, chefes de clãs, eram reis no sentido de regência aqui abordado) regiam seus povos com mãos de ferro, impondo sua vontade sobre os demais e nunca aceitando a co-regência.  Logo vieram os Assírios e outros povos que lhes sucederam, todos com o mesmo método de regência. Ao longo dos anos prevalecia, pois, aquela sentença do livro dos Provérbios: “Sob o governo dos justos está alegre o povo; quando os ímpios tomam o governo, o povo geme” (Prov 29, 2).
Mas, a partir de certa época começou a se constituir o que denominamos de “Impérios”, quase todos formados pela força das armas.  Os povos dominados constituíam vastidões imensas, indo da Ásia à Europa, perpassando pela África, como foram os impérios dos Assírios, dos Medas, o Egípcio, o  Grego, o Romano, etc. Em geral, como os egípcios, os reis (ou chefes de tais impérios) provinham de “casas” familiares e patriarcais da sede do império. Os faraós, por exemplo, que dominaram apenas o Egito, eram descendentes de clãs locais e a ascensão ao trono, ou era imposta pela descendência, ou por algum golpe da família opositora. Todos podem ter uma legitimidade discutível, pois a aceitação popular era imposta pela força ou pelo medo. E se, de início, tinham aceitação pacífica da população, ao passar dos anos iam aos poucos regendo somente para si e seu grupo, tornando-se, portanto, inautêntica a sua regência.
Algumas cidades gregas fizeram tentativas de regências co-participativas, com as chamadas repúblicas ou “democracias” gregas. Mas não passaram de algumas cidades e, mesmo assim, de pouca duração. O único império antigo que tentou estabelecer, no início e por pouco tempo, uma regência política mais participativa da população foi o romano. Antes de se constituírem como um império, era apenas um povo que se auto-regia e escolhia (aparentemente) seus dirigentes. O método de escolha era diferente dos outros povos. Nesse tempo a sociedade romana era dividida em duas classes: a dos patrícios e a dos plebeus. Os patrícios eram os chefes das clãs, os patriarcas das famílias antigas que se uniram para formar o povo. Resolveram constituir a si mesmos, os patrícios, o poder de reger de uma forma coletiva e criaram o Senado. Competia a este legislar. Era uma tentativa de criar uma democracia nos moldes antigos, talvez baseada em alguma experiência grega. Quanto aos demais (especialmente os servos ou escravos), não tinham direito a nenhuma participação da regência, nem sequer de escolha dos dirigentes, por voto ou aclamação. 
Originalmente, pois, o senado romano era uma reunião de chefes de famílias, ou os “patres familiarum”, de onde surgiu o termo “patrício”. Foi também criada a figura do “cônsul”, nomeado pelos senadores para mandato de apenas um ano, que detinha autoridade meramente executiva. Mas, os cônsules não tinham plenos poderes, o termo “cônsul” significava “sentar-se com”, quer dizer, a regência era dual. Em tempos de crise o senado nomeava um “ditador” com poderes especiais, mas este também apenas fazia executar as leis. Lembremos que os antigos “reis” legislavam a seu talante (vejam o exemplo de Talião), o que não ocorria na Roma antiga, pois quem elaborava as leis era o senado.  Portanto, o poder regencial criado pelos patrícios, no senado e nas figuras do “cônsul” e do “ditador”, era apenas a continuidade daquilo que eles já exerciam em suas localidades sobre os plebeus e escravos. Quando Roma tornou-se um grande império esta situação começou a ficar insustentável. Eles tinham necessidade de um rei, de um senhor que regesse com plenos poderes (os povos que dominavam não entenderiam o que seria uma regência co-participativa) e com a imposição da força, embora o regime aristocrático e patriarcal do senado se opusesse a isso.
Uma figura que se tornou popular e começou a adquirir poder entre os romanos (especialmente entre a plebe), foi a do general, do comandante do exército e vencedor de suas guerras. É que o povo antigo prestava mais culto à regência oriunda da força, do império das armas, do que a pacífica. Nessa primeira fase, César foi o general mais popular, sendo nomeado cônsul pelo senado. Quando César expandiu o império ao máximo, por volta de 50 a. C, um pouco mais ou menos, era aclamado pela população como rei, mas foi assassinado pelos próprios senadores, seguindo daí uma guerra interna que durou cerca de 15 anos.  Depois desse episódio, ficou comum que um chefe do exército romano, cheio de glória das batalhas, por isso geralmente aclamado pela população, assumisse o poder e se tornasse, não um rei, não um regedor legítimo, mas  um ditador “ad perpetuam”, e em geral, também, sanguinário e perseguidor. Surge, a partir daí, o termo “imperador” que os historiadores modernos concedem aos tiranos que regiam Roma e seus domínios.  Nesse sentido de legitimidade, pois, Roma nunca teve rei autêntico. Da mesma forma, os imperadores nunca eram escolhidos ou aclamados como tal pela população, mas impostos pela força das armas. Muitos deles mataram o atual titular do cargo e o assumiram em seguida.
Falamos anteriormente em democracia, mas São Tomás discorda que este regime, por si mesmo, seja o mais legítimo. A legitimidade não envolve somente a escolha do governante, mas a quem confere lhe conceder os poderes para reger. O regime do povo, onde o mesmo governa é impossível. Nunca se deu e nunca se dará em povo algum. É certo que, modernamente falando, a democracia é o regime em que o povo escolhe, por eleição, seus governantes. Elege-os, escolhe-os, mas não tem poderes para tirá-los do poder da mesma forma que o elegeu, através do voto[1]. Então este poder de regência é incompleto, pois nomeia procuradores, mas não os destitui. Aliás, quem concede ao povo o poder de escolher, de eleger seus governantes?: uma assembléia de notáveis, uma elite, em geral chamada de “constituinte”. Então esta assembléia de notáveis tem mais poder do que o próprio povo, pois é quem lhe confere a prerrogativa de escolher os governantes. As leis também não são elaboradas pelo povo, nem sequer votadas pelo mesmo, mas por aqueles a quem confiaram o poder de fazê-lo. Assim, o povo pode escolher um governante, como, aliás, o fez o povo hebreu ao aclamar Davi como rei, essa prerrogativa de escolher é natural em todo povo; mas, nunca conseguirá reger-se a si mesmo, não de uma forma plena, mas, talvez, de uma forma mínima através de suas organizações sociais.  A auto-regência é um atributo próprio a cada indivíduo, e a exerce, aliás, em conjunto com seus semelhantes ou superiores; no que diz respeito ao conjunto de indivíduos, à sociedade humana, essa auto-regência só pode ser exercida pelo poder político concedido a regentes nomeados.  Não há condição do povo exercê-la, por si mesmo, de uma forma direta.
Poderia ser questionada a legitimidade das famosas “democracias” gregas, pois, em geral tais regimes (como se viu) davam um pouco do poder de escolha aos regidos, mas não respeitavam em cada indivíduo o direito de auto-reger-se, a ponto de permitirem a escravidão como coisa mais natural do mundo. Além do mais, como se viu, a forma como os regentes eram escolhidos (ou “eleitos”) carecia de autenticidade: houve épocas em que os mesmos eram escolhidos por sorteio, em outras por uma votação feita somente pelos de classe superior, pela nobreza.
A legitimidade do poder político de regência é ligada, pois, a estas questões:
1.            O povo pode escolher o governante, nomeia-o, aclama-o, mas não lhe confere os poderes próprios ao cargo, como o de legislar ou de aplicar as leis: isso cabe a uma “carta magna” elaborada por uma elite de notáveis; em geral estas cartas constituintes não são feitas conforme os anseios populares, mas sempre fruto de conciliábulos e acordo entre os grupos políticos.
2.            O poder de reger só poderá ser tirado por uma comissão de notáveis que tenha recebido tal prerrogativa (no mundo moderno, pelos deputados eleitos pelo povo); quase nunca se ouviu dizer que povo algum tenha destituído seus governantes, pelo menos de uma forma ordeira – as chamadas revoluções populares que acabam por tirar alguém do poder são todas manipuladas por grupos sociais, famílias ou partidos, e nunca por participação espontânea de todo o povo.
3.            A regência plena e perfeita terá que provir de Deus, pois somente Ele confere a todos os homens poderes de reger que promova a verdadeira paz social. E Ele o faz submetendo os regentes a que aceitem a co-regência de seus regidos e do próprio Deus.
4.            Como Ser Supremo da Criação, Legislador e Regedor de todo o Universo, somente Deus pode conceder também o poder de legislar, julgar e conceder o poder de regência a anjos e homens (como ocorre, por exemplo, pelo poder natural de regência dado a um pai). É claro que uma assembléia de notáveis eleitos pelo povo pode ter atribuições próprias de legislar, assim como pode ser criada uma instituição própria a aplicar as leis – julgar (como o faz a magistratura). Mas, não foi o povo que lhes concedeu o poder de legislar e julgar, pois tais atributos são co-naturais na pessoa humana e estão implícitos em toda a sociedade, isto é, os costumes e as normas de vida são conformes as leis divinas e, por isso, influenciam os legisladores. O Mesmo se diga dos juízes ao aplicarem as leis..


COMO ESTA LEGITIMIDADE É ABORDADA PELOS LEGISLADORES ATUAIS

Após a Revolução Francesa (1789) os conceitos de legitimidade política ficaram atrelados aos de democracia, pois tal regime passou a ser apresentado como o mais legítimo pelo fato de facultar ao povo a escolha dos governantes. No entanto, há de se considerar que a legitimidade não envolve apenas a escolha dos regentes políticos, ela é mais abrangente. Escolhido um governante hoje fica-se na impressão que isso basta para que o mesmo faça o que bem lhe entenda sem que alguém possa lhe tirar do cargo. E se houver necessidade disso o povo não é chamado às urnas. Geralmente, como no caso do Brasil, quem tira o governante são os parlamentares e não o povo.
Em alguns países com sistemas parlamentaristas há o costume de que, caso o governo não esteja atuando corretamente, o mesmo convoque novas eleições para assim lhe garantir a continuidade no cargo ou destituição. Teríamos aí uma situação em que o povo poderia decidir a saída de um governante do poder. Mas, isso só ocorre se o próprio governo convoca as tais eleições. Em alguns casos, por questão de cultura e educação, alguns políticos renunciam e dão chance a que se faça nova escolha. Não fica muito claro que foi o povo que decidiu as novas eleições, mas sempre os políticos. Trata-se, mesmo assim, de uma regência popular indireta, e, portanto, não completamente autêntica e legítima.
Pior está ocorrendo no Brasil de hoje. Uma decisão recente do STF considerou aptos para decidir se um grupo que governa continua ou não no cargo uma elite menos representativa ainda, por ser menos numerosa, ao decretar que compete ao Senado e não à Câmara de Deputados tal decisão. Desconsideraram o povo, a maioria, e a Câmara, a maioria de seus representantes, para entregar tal poder a uma elite menos numerosa de notáveis, muito mais manobráveis aos anseios de quem governa.
Não se  respeitou o princípio que se diz ser a base da democracia moderna, que é o de respeito à maioria.



[1] Poder-se-ia argumentar que o governante, hoje, pode ser destituído por aqueles que o povo deu procuração para representá-lo, exercendo indiretamente tal mandato de destituir. Mas, por que para eleger é de uma forma direta e para destituir é assim por meio de procuradores?  

domingo, 13 de dezembro de 2015

OS CATÓLICOS REALMENTE TÊM O QUE APRENDER COM A FILANTROPIA NEOPAGÃ?



Vamos tratar do assunto por partes:

                    O personagem.

Vários sacerdotes se dedicam à atividade de “show man”, como cantores ou apresentadores de TV.  Muitos católicos lhes têm admiração por causa disso, mas tal admiração não passa do aspecto meramente pessoal, personalístico, vendo-os como dotados de boas qualidades artísticas. Em geral não são modelos de virtudes e de santidades.  O que é uma pena, pois o sacerdote deveria viver exclusivamente para sua vocação e, se usar por acaso seus dotes pessoais (como o fazia São João Bosco), deve fazê-lo sempre em prol da propagação das virtudes e da santidade.  É o caso do padre Fábio de Melo, cheio de fãs de suas qualidades artísticas, mas que fica nisso mesmo.

           O fato.

Encontrando-se numa de suas apresentações, o padre-artista resolveu posar numa foto juntamente com um travesti.  Não contente com seu ato impensado defendeu um ponto de vista ousado nas câmaras de sua TV: afirmou dentre outras coisas aquilo que hoje é um lugar-comum em nossa sociedade – que sentia por aquele homossexual um respeito muito grande, que o mesmo merecia ser considerado, que, ao contrário da maioria dos católicos, ele praticava bondade ao levar comida e conforto para crianças pobres, etc.   Chegou a dizer que o trabalho daquele travesti era um  “tapa na cara” dos cristãos.

             É pecado julgar o próximo?

Assunto muito controverso no mundo moderno, não é pecado julgar o próximo.   O que é condenado é fazer juízo temerário, julgar sem caridade.  O ato de  fazer juízo, de julgar, é natural a todo homem, todos o exercem diariamente em nossa vida. Nem sempre julgar é condenar, às vezes é até mesmo perdoar.  No entanto, quando alguém diz que fulano julgou e condenou, se esquece que ao dizer isso está fazendo um julgamento.  Neste momento, muitos dos que estão lendo esta mensagem vão dizer que minha atitude é de julgamento, e, portanto, condenada pela Igreja.  Mas, ao dizer isso estão também me julgando. Não quero dizer que estejam errados por isso, pelo contrário, devem me julgar, sim, como via de regra todos vivem julgando uns os outros. Mas devem fazer um julgamento caridoso e sem nada de juízo temerário.  O padre julgou de uma só  vez todo o seu público católico, acusando-o de hipócrita, mas aquele que defender o público e julgar o padre será logo criticado, porque simplesmente o julgou por cometer erro de apreciação.   Então, o erro não consiste em julgar, mas em “julgar para não ser julgado”, isto é, julgar considerando-se isento de julgamento. São Tomás de Aquino afirma cabalmente que é lícito julgar o próximo, nas condições que  falei acima. Consultem a sua Summa, Questão LX, Art. II (tradução de Alexandre Correia), edição da Escola Superior de Teologia de São Lourenço de Brindes – Universidade Caxias do Sul – Livraria Sulina Editora),
4.     
5         No que consiste a verdadeira caridade.

Apresentando aos católicos um tarado homossexual como modelo da prática da caridade o padre erra em seu julgamento, pois não pratica a verdadeira caridade quem vive em estado de pecado mortal.  São Paulo o diz claramente:  se a  pessoa pegar todos os seus bens e distribuí-los aos pobres, e fizer isso sem caridade, não  fez nada de útil (i Cor 13,1-3).  E a  verdadeira caridade não existe sem amor a Deus, o qual não vigora naquele que vive em estado de pecado mortal.  Como sacerdote ele tem obrigação de saber disso, e sobretudo propagar entre os fiéis da Igreja, e não ir à TV apresentar um homossexual como modelo de caridade  e, por cima de tudo, condenando os cristãos que chamou de hipócritas. Há uma infinidade de gente que anda pelos morros e favelas exercendo algum trabalho dito social, mera filantropia, mas de nada serve para Deus se não o estão fazendo por caridade.

6         Pecados contra a Fé e a Caridade

Podemos dizer publicamente que alguém pecou?  Sim, desde que este pecado seja público e notório e possa ter influenciado as pessoas ao seu erro. No caso, afirmamos categoricamente que o padre Fábio de Melo pecou contra a Fé ao agir com indiferentismo moral, posando ao lado de um homossexual, pois como religioso obrigado a preservar os bons costumes e a moral não poderia igualar-se a um pecador público. Com relação ao pecado de homossexualismo, o Apóstolo São Paulo diz que o mesmo deve sequer ser menciona entre nós, tal deve ser sua rejeição. Também pecou contra a caridade, ao apresentar como modelo tal personagem, insinuando aos católicos que ele é mais santo do que os cristãos pelo fato de andar distribuindo comida a algumas crianças pobres.  Ninguém aventou a possibilidade de tanto malefício que este personagem pode estar fazendo a tais crianças, pois a maioria destes indivíduos que praticam estas taras sexuais abusam dos inocentes, não somente pervertendo-os com ensinamentos imorais, mas até praticando atos abomináveis com eles.


Não é a primeira vez que esse sacerdote faz declarações polêmicas.  De outra vez ele criticou, quer dizer, julgou precipitadamente, os católicos que exageram na devoção à Nossa Senhora.  Exagerou na dose, inclusive, para dar realce a seu preconceito contra os devotos de Nossa Senhora.  Não sei se houve alguma retratação, mas, mesmo que tenha havido não chegou a sanar o mal praticado entre seu público, que mesmo  o admirando mais como artista e “show man” do que como religioso piedoso e santo, muitos confundem as coisas e o seguem em tudo o que ele diz. 

sábado, 12 de dezembro de 2015

VEM, DEUS MENINO, VISITAI ESTE MUNDO PERDIDO E SALVAI TUA GLÓRIA, TUA LEI E TUA RELIGIÃO!



Como se não bastasse , Nosso Deus e Senhor,
O nascer em tão grande desprezo e solidão
Vendo o coração de Vossa Mãe pleno de dor


Pô-Lo em pedra fria pra prestar-Vos adoração
Seguida por gentinha humilde e três reis pagãos
Por Vossa Causa matam crianças: quanta aflição!


Fugistes para longe de tão maldosas mãos,
Porque desde então fostes odiado até à morte!
Rancor repartido com Vossa Mãe e os cristãos:


A Igreja sofreu perseguição de toda sorte
Para gerar a Civilização verdadeira
Feita, em séculos, pelo cristão com braço forte


Tão rejeitado fostes naquela vez primeira
Em que nascestes pequenino e tão amoroso
- Que aquela semente de ódio é hoje touceira


Como se não bastasse ser a Vós tão odioso
Tanto se perseguiu, desprezou, seus seguidores
Do mais sábio doutor ao mais simples e piedoso


Negaram toda a Vossa Obra que em Vossos amores
Na dor fostes Mestre para nosso ensinamento
Em vez de nela prestar a Vós seus louvores


Deixaram de adorar-Vos em Vosso nascimento
Fugiram de Vossa dor e de tanta pobreza
Pois tinham que honrá-Lo só com este ornamento


Terníssima criaturinha, de excelsa beleza!
Mostraste-Vos assim tão pequeno quão amável
E o homem insensível O recusa e despreza


O Natal de Vosso tempo foi quão inefável!
Nos natais seguintes Vossa dor foi aumentando
Até chegar ao nosso século miserável


Adorar-Vos? – Não! – Sacrilégios vão se passando
E a virtude é tida como um grande desabono
Só há desespero – as almas estão se danando!


Este o pesadelo de Vosso primeiro sono:
Coroa de espinhos, cravos, chicotes, cruz e lança
E enquanto Vos matam, ao redor só abandono!


Em Vossa manjedoura, meu Deus, ainda criança
Vos crucificaram, já, nossos atuais pecados
Que nesta vida achamos como terral herança


E como se não bastasse males tão ousados
Querem matar Vossa Mãe, de quem vão invejando
E as almas dos fiéis, que também são crucificados


Querem tornar inútil Vosso sangue, tentando
Esvaziar Vosso Reino dos que predestinastes
Quando nascestes naquele ermo tão miserando


Lembras-Te do primeiro choro que derramastes?
Das espadas que estavam naquele Coração
de Vossa Mãe, tão triste mas não A consolastes?


Ó Rei das dores – a dor nasceu conVosco em vão?

Vem, Deus Menino, visita este mundo perdido
E salvai Tua Glória, Tua Lei e Tua Religião!



sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

ERA NECESSÁRIO QUE CRISTO NASCESSE DE MULHER



Eva e Maria.
O Senhor veio e se manifestou numa verdadeira condição humana que o sustentava, sendo por sua vez esta sua humanidade sustentada por Ele, e, mediante a obediência na árvore da cruz, levou a cabo a expiação da desobediência cometida noutra árvore, ao mesmo tempo que liquidava as consequências daquela sedução com a qual havia sido vilmente enganada a virgen Eva, já destinada a um homem, graças à verdade que o Anjo anunciou à Virgem Maria, prometida também a um homem.
Pois, da mesma maneira que Eva, seduzida pelas palavras do diabo, assim Maria foi evangelizada pelas palavras do Anjo, para levar a Deus em seu seio, graças a obediência à sua palabra.
E se aquela se deixou seducir para desobedecer a Deus, esta se deixou persuadir a obedecê-Lo, do que a Virgem Maria se converteu em advogada da virgem Eva.
Assim, ao recapitular todas as coisas, Cristo foi constituído cabeça, pois declarou guerra a nosso inimigo, derrotou ao que num principio, por meio de Adão, nos havia feito prisioneiro, e esmagou sua cabeça, como encontramos dito por Deus à serpente no Gênesis: “Estabelecerei inimizades entre ti e a mulher, entre tua estirpe e a dela; ela te pisará na cabeça quando tu a ferires”.
Com estas palabras se proclama de antemão que Aquele que havia de nascer de uma donzela e ser semelhante a Adão haveria de esmagar a cabeça da serpente.  E esta descendência é a mesma da qual fala o Apóstolo em sua carta aos Gálatas: “A lei se acrescentou até que chegasse o descendente beneficiário da promessa”. E o expressa ainda com mais clareza em outro lugar da mesma carta, quando disse: “Porém quando se cumpriu o tempo, enviou Deus a seu Filho, nascido de uma mulher”. Pois o inimigo não teria sido derrotado com justiça se seu vencedor não tivesse sido um homem nascido de mulher. Já que por uma mulher o inimigo havia dominado desde o principio ao homem, pondo-se em contra dele.
Por esta razão o mesmo Senhor se confessa Filho do Homem, e recapitula em si mesmo aquele homem primordial do qual se fez aquela forma de mulher: para que assim como noutra raça descendeu para a morte a causa de um homem vencido, ascendamos do mesmo modo para a vida graças a um homem vencedor.
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(Del tratado de san Ireneo; obispo contra las herejías - Libro 5, 19,1; 20, 2; 21, .1: SC 153,, 248,250. 260-264)


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A TERCEIRA VINDA DE CRISTO



Virá a nós a Palabra de Deus.
Sabemos de uma tripla vinda do Senhor. Além da primeira e da última, há uma vinda intermediária.  Aquelas são visíveis, mas esta não. Na primeira, o Senhor se manifestou na terra e conviveu com os homens, quando, como atesta Ele mesmo, O viram e O odiaram.  Na última, todos verão a salvação de Deus e verão ao que traspassaram.
Pelo contrário, a intermediária é oculta e nela somente os eleitos vêem ao Senhor no mais íntimo de si mesmos, e assim suas almas se salvam. De maneira que, na primeira vinda o Senhor veio em carne e fraqueza; nesta segunda, em espírito e poder; e, na última, em glória e majestade.
Esta vinda intermediária é como um camino pelo qual se passa da primeira para a última: na primeira, Cristo foi nossa redenção; na última, aparecerá como nossa vida; nesta, é nosso descanso e nosso consolo.
E para que ninguém pense que é pura invenção o que estamos dizendo desta vinda intermediária, ouvi d’Ele mesmo: O que me ama – nos disse – guardará minha palavra e meu Pai o amará e viremos a ele. Li em outra parte: O que teme a Deus obrará o bem; porém penso que se disse algo mais do que ama, porque este guardará sua palavra. E onde vai guardá-la? No coração, sem dúvida alguma, como disse o profeta: Em meu coração guardo teus conselhos, assim não pecarei contra ti.
Assim é como hás de cumprir a palavra de Deus, porque são ditosos os que a cumprem. É como se a palavra de Deus tivesse que passar pelas entranhas de tua alma; por teus afetos e tua conduta. Faz do bem tua comida, e tua alma desfrutará deste alimento substancioso. E não te esqueças de comer teu pão, não ocorra que teu coração se torne árido: pelo contrario, que tua alma repouse completamente satisfeita.
Se é assim como guardas a palavra de Deus, não cabe dúvida que ela te guardará a ti. O Filho virá a ti em companhia do Pai, virá o grande Profeta que renovará Jerusalém, o que o faz todo novo. Tal será a eficácia desta vinda, que nós, que somos imagem do homem terreno, seremos também imagen do homem celestial. E assim como o velho Adão se espalhou por toda a humanidade e ocupou ao homem inteiro, assim é agora preciso que Cristo o possua todo, porque Ele o criou todo, o redimiu todo, e o glorificará todo.
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(Dos sermões de São Bernardo – (Sermão 5 no Advento do Senhor, 1-3; Opera Omnia, edición Cisterciense, 4. 1966. 188-195)

PONTO ALTO DA HIPOCRISIA NACIONAL




Presenciamos uma grande peça teatral patrocinada por nossos políticos. A meu ver, esta peça passa pelos seguintes passos:
ATO N. 1 – Em preparação a justiça é dotada de super-poderes, prendendo empresários e autoridades comprometidos com a corrupção nacional. As claras evidências de participação de elementos chaves do governo nestes atos de corrupção não chegam, entretanto, a ser comprovadas.
ATO N. 2 – No auge de uma movimentação nacional pela destituição da atual presidente o novo presidente da Câmara se declara em oposição ao governo federal, dando início a uma trama previamente combinada. Escolhido como bode expiatório, ou como “boi de piranha”, Eduardo Cunha chama a atenção sobre si e faz seu papel deixando Dilma em segundo plano.
ATO N. 3 – De repente, o “boi de piranha” começa a por em uso sua estratégia de chantagem e acata o pedido de “impeachment” da presidente, como se isso bastasse para o mesmo ser cumprido e não dependesse de barganhas e conciliábulos entre os políticos de plantão.
ATO N. 4 – Tem início uma polêmica nacional, na qual estão envolvidos diversos setores, até religioso como a CNBB, uns em defesa e outros contra o partido que está no poder. De repente, todos são chamados a emitir sua opinião, a nação é chamada a optar em ser contra ou a favor do “impeachement”. E a discussão passou a ser em quem é contra Dilma ou quem é contra Eduardo Cunha. O ponto principal foi desviado. Na Câmara, todos os quinhentos e tantos deputados querem fazer seus discursos, e a depender deles, esta fase só terminaria daqui a um ano com o pronunciamento de todos. Os do governo vão continuar repetindo, à exaustão, que o “impeachment” é golpe, e os contrários dirão que estão apenas defendendo os interesses da nação. Como ninguém acredita nem num lado nem no outro, não sei de que adianta esta discussão.
ATO N. 5 – A partir de agora a gente tem que fazer um exercício de adivinhação e assim prever o que vai ocorrer doravante. Se o governo ganhar a batalha contra o “impeachement” vai ter mais alguns dias de sossego; se perder, quem vai ter desassossego é o povo com as conseqüentes manifestações de arruaças e greves favoráveis ao PT.  Os exércitos da CUT e MST não costumam agir com moderação, eles constituem a base dos “Black blocs” e não pouparão esforços na luta para manter o “status quo”.  Isso não quer dizer que os procuradores não continuem a prender autoridades e empresários. É provável que permanecendo no poder o PT consiga apenas aumentar seus presidiários. E termine por cair de qualquer jeito. Porque, se não cair de seus cargos públicos, vai continuar caindo da preferência popular.
FECHA-SE O PANO – Não se sabe como este teatro vai um dia acabar. Porque, se hoje ele nada mais é do que uma encenação, no entanto vai aos poucos se tornando realidade, deixando a população na completa falta de confiança em seus políticos e sujeita aos influxos e manifestações oportunistas. Talvez ocorram cenas sangrentas nesta fase, mas aí o teatro já terá baixado o pano. A guerra será apenas na platéia.
É assim nossa democracia. Se o povo foi chamado a eleger seus governantes, porque o mesmo povo não é chamado a optar se o destitui ou não? Em vez dos deputados, porque não se convoca o povo para fazer uma “deseleição”? Não seria mais lógico? Seria menos teatral e menos hipócrita.