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sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

DILEMA DE SÃO NUNO DE SANTA MARIA: CASTIDADE PERFEITA OU OBEDIÊNCIA?

 




No ano de 1373, o pai de São Nuno resolve enviar o seu filho para a corte, contando o mesmo apenas 13 anos de idade. Aquela mudança era necessária para formar no espírito do jovem os ideais de grandeza sem perder a ingenuidade das primeiras lições juvenis. Naquele tempo o jovem amadurecia cedo, e o prior do Crato viu naquele rapazote de apenas 13 anos maturidade suficiente para enfrentar os problemas da corte, que já eram muitos e difíceis.

Aos 16 anos de idade, o pai de Dom Nuno o obriga a contrair matrimônio, embora o rapaz houvesse pedido a dispensa pois houvera feitos votos de castidade.  Disse-lhe certo dia Dom Álvares:

- Nuno, parece-me bem e serviço de Deus e tua honra, que hajas de casar...

Aquilo lhe soava como algo muito estranho, pois nunca havia pensado nisto. Seu ideal era o da Cavalaria, e por isso nunca havia pensado em mulher. E como o jovem ficava cabisbaixo e pensativo, o pai acrescentou:

- Nuno, és homem e farás casa. Achei-te a noiva entre Douro e Minho. Mandei lá João Fernandes, o comendador da Flor da Rosa e de São Brás de Lisboa.  Ela concordou, pondo por condição única a aprovação de el-rei. Já a obtive, e el-rei mandou-a vir à corte.

Como o jovem continuava pensativo, sem saber o que dizer, o pai completa:

- É D. Leonor de Alvim, boa, de boas rendas e cabedal: a viúva de Vasco Gonçalves, de Barroso...  Filha de João Pires de Alvim e de D. Branca Pires Coelho, nossos parentes em quarto grau.  Têm escudo esquartelado: nos dois enxadrez, vermelho e amarelo; e nos contrários, cinco flores-de-lis de ouro, em campo azul. Vai bem com a cruz floretada dos Pereira. Já se pediram as dispensas ao Papa Gregório IX: vêm a caminho. É muito nobre dama e de grande virtude; e a minha vontade manda, se a Deus prover, que te cases com ela. Quero saber de ti o que te parece isto...

Finalmente, após tal insistência do pai, Dom Nuno resolve falar, mas apenas para pedir que lhe desse um tempo para pensar, pois não estava avisado e precisava analisar sua consciência e julgar que resposta daria. O pai concordou com o pedido, mas não imaginava o que poderia se passar na cabeça de seu filho. A mãe de Nuno, D. Iria Gonçalves, imaginava que o filho não aceitaria o casamento porque a noiva era viúva. Foi ela até o filho e lhe garantiu, de fonte certa e segura, que poderia aceitar o casamento, pois a noiva prometida era virgem, já que o casamento nunca havia sido consumado com a morte repentina do marido.

Não, não era este o motivo. Dom Nuno lhe disse que não desejava se casar com pessoa alguma, fosse virgem ou não, pois havia feito particularmente voto de castidade. O ideal que alimentava sua alma era de uma total dedicação à Cavalaria cristã, e para tanto desejava ardentemente permanecer casto. Era comum entre a nobreza cristã desta época surgir inspiração para tais votos entre                 os jovens. Haviam os exemplos de cavaleiros famosos, como Godofredo de Buillon e tantos outros cruzados. Tratava-se do desejo de adquirir uma das mais belas bem-aventuranças quando Nosso Senhor Jesus Cristo disse: "Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus" (Mt 5, 8). Ou então, quando mais adiante falou aos seus discípulos: "Nem todos compreendem esta palavra, mas (somente) aqueles a quem foi concedido. Porque há eunucos que nasceram assim do ventre e sua mãe, há eunucos a quem os homens fizeram tais e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do reino de Deus. Quem pode compreender compreenda"  (Mt 19, 11-12).

O pai não gostou da idéia, e insistiu que deveria prevalecer sua vontade. Ademais, já tinha tomado todas as providências, inclusive obtido previamente a ordem de el-rei e a dispensa da Igreja. Que dispensa era esta? Os cronistas não dizem, mas como não havia impedimento legal com relação ao parentesco, provavelmente era com relação aos votos que o jovem fizera em particular. Desta forma, não havia outra alternativa senão obedecer, embora contrafeito, e aceitar sem nenhuma ressalva cumprir a vontade de seu pai. E o casamento foi realizado...

Seu casamento o fez afastar-se da corte por algum tempo, talvez uns três anos. Foi morar com sua esposa na região do Minho, onde montou uma propriedade rural. Levava, assim, uma vida de fidalgo rural, caçador e monteiro, cercado por seus escudeiros e por seus criados.  Esta ausência o fez ignorar, de algum modo, como andava mal a corte portuguesa. Após algum tempo, porém, teve que se afastar para dirigir as empresas guerreiras de que carecia a nação portuguesa.

Tentativa frustra de casar um guerreiro viúvo

De volta de uma destas expedições guerreiras, Nun'Álvares mais uma vez se dirige para o seu Alentejo, onde se sentia mais à vontade. Quando as cortes se reuniram no ano seguinte, foi ele chamado a Coimbra. De lá soube de uma triste notícia que o deixou muito ferido. Havia falecido em Braga sua esposa, D. Leonor de Alvim, cujo cadáver foi transportado para ser enterrado na cidade do Porto. O casamento durara quase doze anos (de agosto de 1376 a janeiro de 1388), cinco dos quais o Condestável andara afastado da esposa em suas guerras contra Castela.  A única filha foi residir então com sua avó, D. Iria Gonçalves, mãe de Dom Nuno. O Condestável ficava viúvo com apenas 28 anos de idade.

A rainha, D. Filipa, tinha bastante empenho em procurar casar seus nobres. Desta forma, chamou Dom Nuno e lhe disse que iria conseguir uma outra esposa para ele. No entanto, o cavaleiro, o nobre Condestável, desdenhava do casamento, pois se considerava casado apenas com sua sagrada, rija e bela espada, com seu ideal sacrossanto de defender a sua pátria e sua Religião. Se ele precisa estar sempre presente no campo de batalha como poderia dar assistência adequada à sua esposa e filhos? Não, seu ideal era outro, o casamento não se lhe apresentava senão como um óbice a seus desígnios cavalheirescos e guerreiros.

A prometida, logo escolhida pela própria rainha, era a filha do Conde Álvaro Pires de Castro, D. Beatriz, cujo conde já causara estorvos ao Condestável há quatro anos quando começou a sua campanha pela entronização de Dom João em 1384. Sem querer machucar a rainha, que demonstrara tão boa vontade no caso, respondeu-lhe:

- Para oferecer a D. Beatriz os meus braços, é preciso que eles estejam desarmados, e não convém ainda largar a espada.

Mas a rainha insistia, teimava em casar o seu Condestável. Dom Nuno, também teimoso, resolve fugir e foi para o seu Alentejo, onde sempre se refugiava das complicações que encontrava pela corte.  Iniciou logo uma campanha, desta vez contra o mestre de Santiago que atacava Estremoz. Daí partiu para outras investidas guerreiras, em Ourique contra o conde de Niebla, e em Monsaraz contra gascões e castelhanos. Não impedira, porém, que o inimigo levasse cativos vários portugueses para Vila Nueva del Fresno, além da fronteira.  Resoluto, marchou com seus homens ainda de madrugada para libertar seus companheiros. Assaltaram a torre do castelo e travaram renhida batalha. Dom Nuno foi ferido numa coxa, mas todos os cativos que estavam ali foram libertados. E assim, estava tão envolvido em suas campanhas guerreiras que não houve tempo de pensar em novo casamento.

Após a vocação guerreira, a do claustro

A decisão veio quando soube da morte de sua filha, o único laço que ainda o prendia ao mundo profano. Assim que o esquife da filha baixou a sepultura, imediatamente lhe surgiu na alma a decisão de se retirar do mundo (mais ou menos em 1422 ou 1423).  Mas, antes de renunciar ao mesmo mundo, ainda teve que cumprir uma missão: mandou chamá-lo o rei Dom João I para fazer parte da expedição de Ceuta. Era a primeira expedição de Portugal contra os mouros fora de seu território. O Condestável pediu ao rei que o dispensasse porque havia decidido entrar no convento, mas o rei o convenceu sobre a importância de sua presença no comando do exército, fato que tornou a empresa mais eficaz e ter atingido o objetivo final.

Quando retornou de Ceuta, Dom Nuno teve que participar sua decisão ao rei e aos amigos do reino. Estava pedindo que o dispensasse do cargo de Condestável pois estava prestes a entrar no convento e se fazer religioso. Dom João e o infante Dom Duarte insistiam para que ficasse, pois Portugal ainda precisava de seus serviços. De nada valeram seus pedidos.  O bondoso príncipe, com lágrimas nos olhos, pediu-lhe que pelo menos conservasse os títulos que conquistara. Mas o noviço respondeu, alisando o escapulário:

- O Condestável já está morto e amortalhado.

Proibiu, naquele momento, que a partir daquela data o chamassem de conde ou condestável, mas somente de Nuno. Finalmente, no dia 15 de agosto de 1423, quando contava 63 anos de idade, o Condestável Nun'Álvares Pereira deu entrada no claustro do Carmelo em Lisboa, aquele mesmo que ele houvera construído e doado à Ordem. Tomou o nome em religião de Frei Nuno de Santa Maria. Naquela data, vestiu pela primeira vez a túnica talar branca com escapulário marrom. No mesmo instante, entregou ao Prior Frei Gomes de Santa Maria a cota de malha que usara nas batalhas, sua famosa e invencível espada e o relicário que sempre trazia em seu peito. Recebido o hábito, instalou sua cela ao lado da portaria.   Ele agora iria comandar outras batalhas, as do espírito, contra as tentações da carne e em busca das perfeições cristãs. E para tanto, como era costume na época, não descurou de usar seu cilício e rigorosas penitências. Evidentemente que consumou seu desejo de fazer votos de castidade, desta vez não em particular, mas público sob as vistas de seus novos superiores

Tamanha era sua fama que o seu claustro começou a ficar incômodo, pois muitos o queriam visitar. Pretendia fugir para os longínquos desertos de Tebas, onde viveram os primitivos anacoretas. Se havia tomado tal decisão, Dom Nuno procuraria cumpri-la a todo custo, pois não era homem de voltar atrás em seus propósitos. Mas, Dom Duarte correu ao convento, quando soube de sua intenção. Os argumentos do infante foram ouvidos por Frei Nuno e resolveu ficar. Na ocasião, atendeu ele também ao pedido do infante para não mais sair às ruas pedindo esmolas. A partir daquela data, ele só pediria esmolas ao rei.

Viver solitário naquele convento não seria difícil, bastava fazer uma cela num local de difícil acesso aos curiosos. Assim, mandou construir dentro do convento uma outra cela, mais isolada, onde recebeu várias visitas da Virgem Santíssima que o favorecia com constantes aparições.  Foi nesta cela que lhe apareceu também Santo Elias, o Patriarca dos Profetas e Fundador remoto da Ordem do Carmo. Uma das poucas vezes em que permitiu que rompessem o seu isolamento foi quando autorizou a entrada de um embaixador de Castela, vindo a Lisboa ratificar tratados de paz. Frei Nuno, depois de se recolher em oração, mandou que a visita entrasse, que lhe perguntou:

- Nunca mais despireis essa mortalha?

- Só se el-rei de Castela outra vez mover guerra contra Portugal. Em tal caso, enquanto não morrer, servirei ao mesmo tempo a Religião que professo e a terra que me deu o ser.

O embaixador ficou assombrado, teve aqueles mesmos assombros que os castelhanos tinham quando sabiam que Dom Nuno vinha com seu exército para lhes dar combate.  Olhou para Frei Nuno e, vendo-o levar as mãos ao peito e apertar o escapulário, percebeu que por baixo do hábito havia ainda a armadura de guerreiro.  Não, ele ainda não havia morrido. Não havia morrido para a luta, para reparar a injustiça e punir os culpados. Estava perfeitamente visível para o embaixador o seu arnês, que ele propositadamente colocara para dar a entender que poderia voltar ao campo de batalha se fosse necessário.[1]



[1] Extraído, com adaptações, do livro "A Vida de Nun'Álvares", de Oliveira Martins, Lello & Irmão - Editores, Porto, 1983.

 


quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

UMA ESPADA QUE SIMBOLIZA UMA MISSÃO DIVINA

  



Quando ainda era muito jovem Dom Nuno Álvares Pereira, o maior herói português, o famoso Condestável santo, começou a frequentar o paço real e já era conhecido como um cavaleiro cheio de valor e valentia. Assim, a rainha lhe chamou, pôs a mão sobre o seu ombro e lhe disse que queria armá-lo escudeiro real. Dom Nuno, de coração terno e valente, baixou a cabeça perante a rainha e lhe respondeu:

- Se Deus me fizer formoso, dar-me-á bondade, agradando-lhe. De outro modo, valeria pouco. Mas quererá que eu seja tão bom, e coisa que se assemelhe à minha linhagem e àqueles de onde eu venho. Pus a minha esperança em Nosso Senhor...

Era um depoimento todo humilde e cristão, bem de acordo com sua formação religiosa. A rainha o interrompe e manda buscar a espada, previamente aspergida em água benta, cinge-a em sua cintura e manda colocar suas esporas de ouro. Era uma forma diferente de se armar um cavaleiro. Dom Nuno gostaria de ter sido armado de outra forma, como era comum na Ordem Hospitalar, com a vigília de armas, o juramento, etc.  Mas ele era submisso aos desejos da sua rainha, embora ela não fosse querida pelo povo.   Pôs-se, então de joelhos, ocasião em que a rainha desferiu os três golpes convencionais com a parte plana da espada em suas espáduas, dizendo em seguida:

- Deus vos faça bom cavaleiro!

Uma espada torna-se símbolo de missão divina

Algum tempo depois, o rei de Castela vinha aumentando seus propósitos de invadir Portugal. A nação inteira estava dividida, e não havia quase ninguém para liderar uma sadia reação contra o rei estrangeiro e cismático. A salvação estava nas mãos de Dom João, o Mestre de Avis, e Dom Nuno Álvares Pereira. Em Lisboa, a população havia escolhido o Mestre de Avis como regedor e defensor do reino, primeiro passo para sua coroação e aclamação, mas o Mestre dependia dos homens de armas para prosseguir.

Dom Nuno Álvares Pereira corria suas terras procurando aumentar suas tropas. Foi ao receber uma carta da rainha pedindo para juntar-se a ela que resolveu agir prontamente. De modo algum a nação portuguesa poderia voltar às mãos de Castela, principalmente sob o reinado de um cismático, e o valoroso cavaleiro não poderia permitir que isto ocorresse.

Foi até um alfageme, em Santarém, e vendo uma belíssima espada exposta na parede, disse:

- Alfageme, formosa espada é esta... Quereria que assim corrigisses a minha. Podes?

Quando no dia seguinte, Nun' Álvares Pereira foi buscar sua espada, ficou pasmo e quase não a reconheceu, tão bela estava! A folha era a mesma, três dedos de largura; mas cegava de brilhante, parecia de fogo!  De um lado tinha a marca do alfageme: uma cruz com uma estrela na extremidade da haste maior e a legenda "Excelsus super omnes gentes, Dominus";  do lado oposto tinha a cruz floretada dos Álvares, enlaçada em letras com os dizeres "Dom Nuno Alves", e por cima o santo nome de "Maria".   Empunhou-a com amor, pois era ela o instrumento de uma vocação que Deus lhe revelara em sonhos.

O alfageme fitou-o embevecido, sentindo naquele momento o palpitar de um coração heroico. Em seguida, Dom Nuno pergunta:

- Quanto lhe devo, alfageme?

- Senhor, eu por agora não quero de vós nenhuma paga... Ide muito embora; por aqui tornareis conde de Ourém: então me pagareis.

- Não me chames senhor, porque o não sou: quero que vos paguem bem...

Foi inútil insistir, o alfageme, que profetizara daquela forma, se recusou teimosamente em receber qualquer pagamento por seu trabalho. Era difícil para Dom Nuno imaginar naquele momento que se tornaria conde de Ourém, título que pertencia ao "Andeiro" morto por Dom João. Dir-se-ia que foi um anjo o artífice que preparou espada tão bela e destinada a missão tão grandiosa.

Quando São Nuno de Santa Maria começou suas ações guerreiras tinha apenas 24 anos de idade, e os cronistas o descrevem como um homem de rosto comprido, nariz longo e afilado, mas expressa em sua fisionomia, uma decisão dominante. A boca e a testa eram pequenas, o lábio superior curto, e debaixo das sobrancelhas, fortemente arqueadas, luziam fundos os pequenos olhos escuros. Via-se em seu rosto um misto de grave energia e de uma cândida bondade, características dos grandes santos. Havia aprendido a mandar de uma tal forma que nem se ensoberbecia e nem tampouco humilhava ou esmagava o brio de seus comandados.  Seu lema era a lealdade, acima de tudo.  De outro lado, seus homens o respeitavam como se fosse um pai...

Como era um acampamento guerreiro católico

No centro do acampamento, via-se dardejando ao vento o seu pendão santo, que havia idealizado há algum tempo. O fundo do estandarte era branco, tendo uma cruz vermelha ao centro. Em cada quarto dos braços da cruz havia uma imagem piedosa, e nos quatro cantos outros tantos escudos da sua linhagem.  No primeiro quarto superior, via-se a imagem de Jesus Cristo crucificado e aos pés da Cruz, sua Mãe Santíssima de um lado e São João do outro; no outro quarto superior havia a imagem de Maria Santíssima com o Menino Jesus no colo. No primeiro quarto inferior estava a imagem de São Jorge, rezando a Deus, de mãos postas; no outro quarto inferior havia a imagem de Santiago, o Apóstolo das Espanhas, na mesma posição de São Jorge.

Quando estava pare se iniciar algum combate, ele reunia seus homens, falando-lhes como um general experimentado. Dizia-lhes o que os esperava, muita dureza, sofrimento, e talvez a morte. Por isto, tinham que se comportar como se fossem uma família, como se fossem um rebanho unido para enfrentar uma região cheia de feras. Dava as ordens, nomeava os encarregados de várias funções, criava o conselho de guerra e deixava todos prontos para o combate. Sua hoste era uma pequena cidade ambulante, mas unida como uma rocha de granito.

(Extraído, com adaptações, do livro "A Vida de Nun'Álvares", de Oliveira Martins, Lello & Irmão - Editores, Porto, 1983).


domingo, 14 de agosto de 2022

ALJUBARROTA, UMA GUERRA VENCIDA POR UM SANTO

 


A batalha de Aljubarrota, vencida por São Nuno de Santa Maria, o valoroso Condestável de Portugal, ocorreu em agosto de 1385, época em que os católicos passavam pela terrível crise do “cisma do Ocidente”, quando foi estabelecido em Avignon, na França, a sede do Papado e, depois que o Papa resolveu voltar para Roma, alguns cardeais resolverem eleger um outro papa naquela cidade, criando assim uma divisão, ou um cisma.

O reino de Castela sempre ambicionava tomar Portugal e a controvérsia do cisma ficou patente nessa questão de fronteiras e de domínios territoriais. Já haviam tentado invadir Portugal outras vezes, sem sucesso. Corria entre os castelhanos uma história que os fazia mais temerosos ainda de que obtivessem desta vez uma vitória completa. Ambos os reis, tanto de Portugal quanto de Castela, chamavam-se João I. Antes do primeiro cerco, a rainha-mãe de Castela, D. Joana, mandara alguns emissários consultar um piedoso frade franciscano, de Guimarães, sobre a questão da sucessão papal. Em resposta à consulta, o santo frade respondeu:

- Sabei que a rainha que vos mandou morreu; e que o vosso rei D. João não dará obediência ao Papa Urbano, e por isso Deus o castigará. 

O fato era lembrado pelos castelhanos quando se referiam à forma como tiveram que recuar no primeiro cerco à Lisboa. Agora, o teimoso rei retomava o mesmo caminho. Será que não seria castigado novamente? 

Quando Dom Nuno recebeu o chamado do rei, partiu imediatamente ao seu encontro, contando então com um contingente de quase três mil homens. Reunido com os conselheiros reais, fizeram-no ver que a melhor opção de luta era entrar com o seu exército invadindo a Andaluzia: assim o rei de Castela seria obrigado a recuar para proteger seus territórios. Para todos, seria loucura enfrentar o exército invasor, muito mais poderoso e bem equipado do que o português.

O santo Condestável Nun'Álvares Pereira fez ouvir sua possante voz para verberar a opinião dos tímidos, aqueles mesmos que tinham aconselhado o rei a não deixá-lo perseguir as tropas de Castela no cerco do ano anterior quando fugiam da peste. Desta vez, porém, era diferente. Agora ele era o Condestável do reino, era ele quem decidia os destinos da guerra. E ele estava ali para exercer o seu mando. Entrar na Andaluzia, indo a Sevilha cortar duas oliveiras podres, equivalia a perder Lisboa, e, perdida Lisboa, estava perdido o reino.  Será que era isto o que desejavam aqueles conselheiros tímidos? Abandonar Lisboa, sem capitão, à mercê da fome? Nunca! Tinha prometido por cartas à cidade que vedaria a passagem ao castelhano, e haveria de deixá-la à mercê da pilhagem e do saque? Não, nunca! Se el-rei não quisesse, iria ele sozinho! Mas, mudar de propósito, não mudava.

Foi inútil os argumentos. Todo o conselho foi contrário à opinião de Dom Nuno. Assim, partiu ele resolutamente para ir sozinho cumprir o seu propósito. Foi até seus homens, mandou selar os cavalos e em pouco tempo já estavam a caminho de Tomar, por onde deveria passar o exército castelhano. Os que ficaram no conselho apertavam as mãos na cabeça perante a grande loucura. Após a saída do Condestável, acusaram o mesmo perante o rei de rebeldia e insubmissão às suas ordens. Um conselho, porém, fez o rei tomar uma decisão.

Um entendido em leis, o jurista Gil de Ocem, disse ao rei que ele tinha que jogar todas as cartadas, pois não se podia lutar com o rei de Castela se valendo de estratégias e sim com o jogo da sorte e da vontade firme de vencer a qualquer custo. Deste modo, o Mestre de Avis conseguiria de qualquer forma sair com honra do confronto: se vencesse, a honra de vencedor; se perdesse, a honra de ter se batido com valor a defender sua pátria. Era preciso apoiar Dom Nuno.

Dom João I, de Portugal, sorriu e nesta hora, ao ouvir conselho tão vibrante, viu que a razão estava com o Condestável. Despachou então um emissário a Dom Nuno ordenando que voltasse, mas agora já com o propósito de partirem juntos a fim de combaterem o inimigo. Mas a resposta do Condestável, embora não surpreendesse Dom João I, foi dura:

- Não sou homem de muitos conselhos; tinha tomado a determinação de não deixar passar o rei de Castela e não mudei de opinião. Por mercê, deixe-me continuar no meu caminho. Se o rei quiser vir, encontrar-nos-emos em Tomar.  

Em vez dele voltar, o rei que fosse ao seu encontro. Com sua decisão Dom Nuno procurava salvar e arrastar consigo aqueles homens que poderia perder pela timidez. Enquanto esperava o rei, despachou três emissários ao arraial inimigo. Um deles levava uma carta ao rei de Castela, intimando-o a voltar para seu reino sob pena de sofrer batalha. Os dois outros emissários eram espiões com o objetivo de colher informações sobre as forças inimigas.

Dom João I chegou com sua hoste, que juntou-se à de Dom Nuno. Juntas as duas, via-se quão fracas eram para enfrentar o inimigo. Os nobres portugueses haviam se bandeado quase todos para o exército castelhano, poucos eram aqueles que aderiram ao Mestre. Era um exército bisonho, mal armado, sem homogeneidade, composto de cerca de 10 mil homens, tropas improvisadas para aquele momento e quase sem nenhum preparo.Do efetivo de dez mil, sete mil eram combatentes e o restante formava o pessoal de apoio logístico. Mas havia no comando um anjo celeste, com o dom de operar prodígios com recursos tão parcos.

Quando os espiões voltaram, contaram estarrecidos a Dom Nuno como se formava o exército inimigo. O Condestável, após ouvir o relato dos espias, ficou um pouco pensativo, e depois proibiu-lhes com determinação que não contasse nada daquilo aos outros, mas pelo contrário dissesse que os castelhanos eram poucos e mal treinados. E quando o Condestável ordenava, era obedecido.  Os espiões fielmente contaram aos soldados que os castelhanos eram gente muito descoroçoada... sem ânimo para a luta.

No entanto, o exército castelhano era de bom quilate e muito bem organizado. Tanto aparato e poder, de um exército muito mais vistoso do que forte, no entanto, era comandado por um rei jovem, mas doente e irresoluto. Além da falta de comando, sofria o jovem rei de uma doença que o fazia ficar sempre numa liteira. Temendo que poderia morrer a qualquer hora naquela guerra, havia feito o seu testamento. Esta situação deixava os comandados mais próximos muito inseguros. Ao mesmo tempo, corria entre a tropa miúda muitos receios e superstições, muitos dos quais Dom Nuno era mestre em espalhar no inimigo. Parece até que o Condestável de Portugal, por algum dom de discernimento, sabia onde morava a fraqueza de seus inimigos e não se deixou enganar pelas aparências.

Tanta era a confiança dos castelhanos em sua força e poder, que não procuraram embaraçar os movimentos de Dom Nuno, embora estivessem tão próximos e pudessem faze-lo.  Olhando de cima dos outeiros, Dom Nuno traçou ali mesmo em sua mente o plano de guerra. Saiu dali com todo o projeto da batalha construído em seu espírito. Num relance, percebeu como poderia derrotar o inimigo.

Havia no lugar uma fileira de montes, entre os quais um vale que tinha a passagem vedada para o nascente. Em sentido contrário, para o poente, havia um terreno levemente ondulado que ia terminar num lugar chamado Aljubarrota. Depois de Aljubarrota, segue o caminho para o sul em direção de Alcobaça. Era um terreno que numa parte era amplo, mas ia afunilando com os contrafortes dos morros até se fechar completamente a passagem no nascente. Uma espécie de cunha que obrigaria o grande exército castelhano a se bater contra os portugueses apenas nas partes mais apertadas. Uma verdadeira armadilha natural, que só o espírito meticuloso e santo do Condestável percebia.

Depois de analisar bem tais condições, Dom Nuno voltou ao seu acampamento em Porto de Mós, e nessa noite não conseguiu dormir. O dia ainda não tinha amanhecido e manda tocar a alvorada para preparar a partida. Os padres rezaram missa, os cavaleiros e soldados comungaram preparando-se para uma santa morte.

Enquanto os castelhanos não apareciam, Dom João I passava o tempo armando novos cavaleiros, uma forma de manter a moral da tropa elevada. Era auxiliado pelo arcebispo de Braga, Dom Lourenço, que levava no elmo, em vez de uma pluma, a imagem da Virgem Maria.  Havia escolhido aquele local também com outro propósito: evitar as deserções tão comuns nestas batalhas; era impossível que os soldados fossem tentados a fugir, pois só havia uma saída: para frente onde estava o inimigo.

O Condestável ajoelhou-se e rezou fervorosamente. Trazia uma jaqueta de lã verde bordada de rosas sobre a armadura. Portava a mesma espada que o alfageme lhe preparara em Santarém, e uma adaga que só tirava quando estava na igreja assistindo Missa. Em suas orações fervorosas, prometeu à Virgem Maria construir ali uma igreja em Sua homenagem, e à São Jorge também outra.

Tanto o rei quanto alguns de seus homens, como Dom Nuno, haviam jejuado porque era véspera da Assunção de Nossa Senhora, 14 de agosto.

Os castelhanos tinham tanta confiança na vitória que nem sequer formaram para a batalha, continuaram em ordem de marcha e começaram a mover-se como se estivessem recuando. Sem saber para onde, alguns pensaram que haviam desistido da batalha. Mas não.  Temendo o confronto direto naquela trincheira bem fortalecida, planejavam rodear os montes e atacar pela retaguarda.  Percebendo a manobra, Dom Nuno ordenou que seu exército invertesse as posições, passando a vanguarda para o local onde estava a retaguarda, e esta para onde estava aquela; também mudou a disposição das alas esquerda e direita, trocando-se as posições.

Fortuitamente, a nova disposição era mais favorável aos portugueses. Silenciosa e rapidamente, sem que os castelhanos percebessem, pois estavam circundando as colinas em marcha lenta, Nun'Álvares com sua vanguarda foi se postar na estreita garganta, por entre a retaguarda do rei que abriu passagem. Logo em seguida o mesmo movimento foi feito pelas alas.  Uma das vantagens era que agora a vanguarda ficava mais bem defendida, apertada entre dois ribeiros, reforçada com um fosso e toros de madeira, aproveitando os barrancos do terreno e os matagais, disposição feita por orientação dos amigos ingleses.

Quando os dois exércitos encontravam-se alinhados e prontos para a batalha, surgiu do meio dos castelhanos três parlamentares, fato corriqueiro momentos antes da batalha.  Dom João I acolheu-os e, percebendo que um deles era um dos irmãos de Dom Nuno, Diogo, mandou que o Condestável o recebesse. O irmão veio lhe pedir que passasse para o lado dos castelhanos, pois estava irremediavelmente perdido. A desproporção de forças era muito grande. Dom Nuno, secamente, respondeu que não e mandou-o de volta sem mais dizer palavras.

A batalha começou renhida e de difícil definição nos seus primeiros entrechoques. A luta se resumia no corpo a corpo, pois a cavalaria castelhana não tinha condições de avançar naquele terreno fechado e afunilado.

Do alto, o rei Dom João I viu que a retaguarda havia cedido um pouco. Corajosamente, desceu a colina com seus homens e partiu para frente a fim de defender os homens de Dom Nuno. Contam os cronistas que foi guiado nesta investida por Nossa Senhora das Oliveiras. Estava o rei valorosamente combatendo os inimigos, quando um castelhano o consegue desarmar e lança-o ao chão. Ia desferir o golpe mortal contra o rei, mas surge um português que mata o inimigo e livra o rei da morte iminente. Estando o rei envolvido na frente dos combates, isto foi motivo para animar mais ainda os soldados portugueses. Qual o filho que vê seu pai envolvido numa luta e não dá tudo por ele e por sua causa?

Esta era uma grande diferença entre os dois exércitos. Enquanto no exército português o rei combatia valorosamente, no castelhano o monarca encontrava-se doente e impotente para participar da peleja. Na época em que os reis tinham que mostrar seus valores no comando da batalhas, este fator pesou muito a favor dos portugueses.  E assim, foram eles gradualmente repelindo o assédio inimigo, matando cavalos e ginetes, castelhanos ou não

De longe, o rei de Castela, amarrado a uma mula, febril e confuso, notava que a balança estava pendendo contra ele. Haviam desobedecido sua ordem e estavam atacando o inimigo. Nesta situação, não restava outra opção senão mandar seguir o ataque com mais rigor. De lá onde estava acampado mandou a ordem que avançasse então a segunda linha de ataque, contrariando suas próprias determinações anteriores de aguardar com calma para que o inimigo se rendesse pela fome.

Um perigo começou a ameaçar os portugueses. A batalha que se vencia na vanguarda, começou a ser ameaçada na retaguarda, onde os castelhanos tinham mantido uma grande força de ataque e já iniciavam a investida. O Condestável, que percebia muito bem onde estava o maior perigo, correu imediatamente em socorro de seus homens na retaguarda. Chegando lá, restabeleceu o ânimo de sua tropa, repeliu valorosamente o ataque, conjurando o perigo. Deixando sua retaguarda em ordem e sem perigo iminente, voltou para a vanguarda, excitando em seus homens tal valor e coragem que alguns supunham ter chegado à loucura.

Restabelecidas as linhas de combate, restava agora aguardar o curso dos acontecimentos, que seriam favoráveis ao Condestável.  Em alguns instantes, os castelhanos começam a ceder, a recuar, muitos fogem para não morrer. Quando a soldadesca castelhana voltou-se sobre si e debandou em fuga desordenada, os portugueses gritavam de seu lado:

- Já fogem! Já fogem!

Estávamos numa segunda-feira, dia 14 de agosto de 1385, véspera da festa da Assunção de Nossa Senhora, uma das datas mais memoráveis na história de Portugal.

Foi uma terrível carnificina sobre o inimigo que fugia espavorido. Quando os castelhanos viram a tragédia, rapidamente desmontaram o rei da mula em que estava preso para assistir à luta, e depois o colocaram num veloz cavalo. O rei também foge! A notícia corre e a debandada é maior ainda.  Levaram o rei para Santarém, onde julgavam mais seguro. Aquilo fazia com que a derrota fosse mais irremediável.  Chegando a Santarém, o pobre rei dava punhadas de desespero no rosto, chorando e gritando. Quando seus homens mais importantes chegaram a Santarém para ver o que fazer para reorganizar as tropas, o rei, percebendo a gravidade do desastre, já partira. Regressou rapidamente a Castela.

Graças á Nossa Senhora da Assunção

Mas o Condestável não era destes homens que se embriagava fácil com a vitória. Temia ele que os inimigos, poderosos como eram, poderiam se reorganizar e voltar ao ataque. Além do mais, haviam alguns destacamentos castelhanos que não haviam entrado em combate, os quais estavam recolhendo os feridos e procurando os fugitivos, animando-os para uma nova investida.  O desastre fora uma surpresa inesperada e as perdas, embora consideráveis, não eram bastantes para deixar inativo o exército invasor. 

Prudentemente, Dom Nuno manteve-se em sua posição, fortalecendo seu arraial e armando guardas e vigias preparados para o que desse e viesse. Como sempre fazia em suas batalhas, deixava livre quem quisesse desertar, mas animava aqueles que ficavam fiéis com promessas de grandes legados, de alta estima e consideração, de participação inclusive nos butins, que eram sempre vantajosos.

No dia seguinte, terça-feira, era dia de Nossa Senhora da Assunção, a quem o Condestável e seu rei deviam toda aquela vitória fantástica. Como Dom Nuno viu o campo livre de castelhanos, que haviam fugido, resolveu seguir sozinho em romaria a Ourém, para agradecer à Virgem Maria pelos favores concedidos naquela batalha.  Muitos que o viam passar, imaginavam que estava indo ao enterro do irmão, Pedr'Álvares, morto na batalha. Engano, pois o cadáver de seu irmão não foi encontrado para ser enterrado dignamente.

A notícia correu pelo país. Os castelhanos haviam sido vencidos em Aljubarrota pelo Condestável Dom Nun'Álvares Pereira, o rei deles fugira, o exército deles estava destroçado e sendo caçado em todos os lugares em que estavam. As guarnições castelhanas que haviam em Portugal começavam a fugir com medo. Os alcaides portugueses, que antes temiam apoiar Dom João I, finalmente se pronunciavam. A batalha de Aljubarrota mudava o rumo da nação portuguesa. Muitos agora, antes indecisos, queriam apoiar o rei vitorioso.

No sábado seguinte, dia 19 de agosto, Dom João I entrava em Santarém, reduto invencível dos castelhanos, já como rei vitorioso, aceito como rei inconteste daquele povo. Vinha trazendo a sua coroa com o batismo do sangue, o sacrossanto batismo do sangue da guerra que Dom Nuno a muito tempo o animava a receber.

Enquanto isto, em Lisboa, o povo se regozijava com as notícias que lhe traziam os viajantes. No próprio dia 15 de agosto, já chegara um homem com a notícia de que vira o rei de Castela fugindo; outro contara que a vitória dos portugueses, em Aljubarrota, tinha sido total.  Não havia como duvidar daquelas notícias, trazidas por gente séria. Finalmente, estavam salvos! Estavam livres! Abraçavam-se, bailavam, choravam de alegria. Como bons cristãos que eram, logo formaram uma procissão para agradecer à Nossa Senhora pelos favores celestes, concedidos no dia de tão grande festa.

Mas a guerra, para Dom Nuno, não acabou. Ele havia vencido uma batalha, mas sabia que tinha ainda muitas lutas a travar para finalmente jugular a arrogância de Castela. Não podia dormir sobre os louros daquela vitória. Despediu-se do rei e partiu para o campo de batalha. Antes de tudo, tinha que saldar contas com Nossa Senhora, que o protegera, e assim fez uma romaria a Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães. Depois, começou logo a cumprir a promessa de mandar erigir uma igreja em honra de Nossa Senhora no próprio local da batalha.  Dom Nuno era um homem desapegado ao dinheiro, e tudo o que lhe foi dado como ganho em Aljubarrota entregou aos religiosos para iniciar a construção do templo. 

 (Extraído, com adaptações, do livro "A Vida de Nun'Álvares", de Oliveira Martins, Lello & Irmão - Editores, Porto, 1983).

 


sexta-feira, 16 de abril de 2021

COMO FRUSTRAR AS PRETENSÕES DO PODER ESTATAL - Um fato histórico digno de nota.

 


Um exemplo do poder dos legistas ou juristas do direito romano podemos constatar num episódio da vida de São Nuno de Santa Maria, o famoso Condestável de Portugal Dom Nun’Álvares Pereira. Naquele tempo (século XIV) já estava bastante sedimentada a idéia de que o Estado é o senhor de tudo, superior a todos os indivíduos e organismos sociais intermediários. Essa idéia fazia parte de um princípio jurídico defendido pelos legistas do chamado direito romano e predominava em vários países. Na França, desde o tempo de “Felipe o Belo” (início do século XIV) que tal princípio predominava: foi este o motivo da afronta perpetrada por aquele rei (que, por sinal, era neto de São Luís IX) contra o Papa Bonifácio VIII, mandando esbofeteá-lo em praça pública. Para demonstrar que o Estado era superior à igreja, fez com que a autoridade papal sofresse uma humilhação pública. Quer dizer, era uma demonstração de força para comprovar a legitimidade de seu poder de regência e, de outro lado, da ilegitimidade do poder regencial dos papas, que só deveria reger as almas. Era, assim, a demonstração da regência pela força e não pelo amor filial.

Em Portugal, tais princípios demoraram a chegar. A nação encontrava-se em guerras constantes com seu antigo reino, o de Castela, e por mais de uma década lutou bravamente para confirmar sua independência e seu reino. Nessa luta, foi de capital importância a participação do grande Condestável, Dom Nuno Álvares Pereira. Quando, finalmente, o país começou a auto-reger-se, a idéia da supremacia estatal já predominava na Europa por causa da influência dos legistas, e terminou por influenciar os assessores do rei de Portugal.

 A generosidade cristã no desapego às riquezas

Quando a guerra acabou, o Condestável havia concentrado em suas mãos uma riqueza incalculável, formada em geral pelos despojos e pelos butins que arrebatava dos inimigos e dos presentes que recebia do rei e dos amigos. Dizia-se que lhe pertencia a metade do reino. Os invejosos chegavam a espalhar os boatos de que Dom João I resolvera dividir o reino com Nun'Álvares desde o momento em que, juntos, no ano de 1384 partiram para fundar a nova dinastia de Avis.

Muitos eram aqueles que tinham inveja de tais riquezas, e o Condestável mostrou completo desapego às mesmas, resolvendo doar tudo. As pessoas mais beneficiadas com estas dádivas foram seus próprios homens, com os quais dividiu dinheiro, propriedades, jóias e tudo o que ganhara ao longo destes dez anos. Considerava que seus soldados e cavaleiros haviam sido seus sócios naquela empresa, com os quais dividiu sacrifícios e desgostos, e por isso teria que dividir também os louros da vitória.  Sentia vergonha de se encontrar tão rico, ao lado de seus cavaleiros, soldados e peões, seus fiéis companheiros de armas, sem nada possuir ou com poucas posses.  No final, ao terminar de dividir tudo, percebeu que havia ficado apenas com o hábito de sua Ordem, que nunca largara. Tal desapego em doar todos os seus bens deveria causar assombros de admiração, mas em muitos aumentava mais a inveja ao perceberem que Dom Nuno com este ato se elevava ainda mais em magnanimidade, erguendo-o muito acima do comum dos vassalos do reino.

E o ciúme invejoso açulou alguns assessores do rei, principalmente os juristas, a verem um mal naquele ato. Alegavam que Dom Nuno não podia doar aqueles bens, pois não lhe pertenciam e sim ao reino (quer dizer, ao Estado). Aquelas doações representavam uma afirmação pura e simples de soberania aristocrática, contrária ao novo conceito jurídico que surgia na Europa em que o Estado era o único elemento soberano numa nação.  Era como se fosse uma afronta ao novo conceito de monarquia recém-nascido em Portugal com a dinastia de Avis.

Levaram a Dom João I vários argumentos jurídicos, terminando por convencê-lo a chamar o Condestável à corte a fim de rever as doações que fizera a seus homens. A oposição daqueles homens para com suas doações fizera Dom Nuno ficar muito confuso, pois não entendia porque havia ele conquistado todos aqueles bens e não os podia doar a quem quisesse. Percebeu claramente que tal oposição não passava de obra da inveja. Lutou bravamente para manter a validade de suas doações. Como ficaria ele perante seus homens? Como chegaria até eles e pedir tudo de volta para entregar ao rei (ou ao reino), que não era dono de nada daquilo?

Como Nun'Álvares se recusasse a reaver os bens doados para os entregar ao reino, Dom João foi convencido pelos juristas e assessores de que fizesse expropriação de tudo, usando simplesmente o poder da força. Seria um ato arbitrário, mas os legistas haviam preparado uma bem arrumada documentação para reforçar os argumentos do ato real. Quando Dom João I lavrou a sentença, Dom Nuno já havia partido da corte para o Alentejo.

Que pensava fazer? Mandou reunir seu exército, aquele mesmo que o acompanhara durante mais de dez anos, onde estavam os homens mais fiéis que havia, e lhes comunicou o que estava ocorrendo e qual a sua decisão. Disse-lhes que o rei queria tomar todos os bens que ele havia doado, que lhe pertenciam há muito tempo, e perante tal afronta ele havia decidido abandonar o reino e partir para o exterior a procura de outro senhor a quem pudesse servir mais dignamente. Quem quisesse poderia ir com ele, ou então ficasse porque ninguém estava obrigado a segui-lo naquela viagem.  Todos seus homens resolveram partir com seu senhor, e logo de imediato tomaram o rumo da fronteira. Vê-se, nesse ato, o que falamos acima: a plena liberdade com que os medievais serviam a seus senhores, podendo desistir da servidão a qualquer momento, assim o desejasse.

A notícia logo voou até a corte. Quando Dom João tomou conhecimento da decisão de Dom Nuno, sabendo que tipo de caráter ele possuía e do que seria capaz, mandou urgentemente um emissário procurá-lo. Quando o emissário partiu, logo partiram também na mesma direção alguns personagens de grande peso na corte. Tinham a intenção de fazer o Condestável mudar de propósito. Encontraram-no no caminho, e a todos Dom Nuno respondeu que iria pensar nas novas propostas e pedidos do rei, que era muito seu amigo.

Em pouco tempo, o caso ficou resolvido. O rei voltou atrás e anulou as expropriações feitas. As doações ficaram mantidas, mas ele pediu a Nun'Álvares que viesse na corte a fim de assinar um documento protocolar. Era um "jeitinho"  que o bom diplomata de Avis achara para contentar a ambos: aos legistas e a Dom Nuno. O Condestável assinaria um documento transferindo todos os bens para o reino, e no mesmo momento o rei assinaria outro documento doando todos aqueles bens aos atuais possuidores.  

Dentro de pouco tempo o Condestável teve a oportunidade de provar que não guardava nenhuma amargura contra o seu rei.  Tendo o rei de Castela rompido novamente as pazes e invadido algumas localidades portuguesas, Dom João I convocou alguns fidalgos de sua corte para preparar a defesa sem pensar em Dom Nuno.  Sabendo que seu Condestável estava muito magoado com os últimos acontecimentos, preferiu pedir apoio dos outros seus fidalgos mais fiéis. O rei aguardou algum tempo em Santarém pela chegada das forças para repelir os invasores, mas ficou frustrado pela completa deserção de seus melhores homens. Após longa espera, havia se decidido a voltar para Lisboa porque ninguém tinha atendido seu apelo. De repente, vê chegar um destacamento militar composto de mais de mil e duzentas lanças, comandado pelo incansável Nun'Álvares Pereira. Mesmo sem ser convocado, ao saber de que o rei precisava dele, marchou imediatamente ao seu encontro. O rei exultou de contentamento, quase chorava de alegria porque sentia naquele gesto de Dom Nuno a completa reconciliação dos dois.

Numa breve correria, o Condestável fez voltar aos homens do exército real português a antiga alegria de combater pela nova monarquia. Depois de haver vencido aqueles rápidos combates, resolveu repartir o butim de guerra ali mesmo com seus homens, pois queria evitar alguma querela com os juristas da corte. Em seguida, voltou para o seu Alentejo, onde morava com a mãe e a filha, enquanto o rei seguia para Avis.

 (Relato extraído da obra “A Vida de Nun'Álvares - Oliveira Martins - Lello & Irmão - Editores - Porto, 1983)

 

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

A BATALHA DE VALVERDE E A AÇÃO ANGÉLICA DIRIGINDO O SANTO CONDESTÁVEL DE PORTUGAL

 

A 06 de novembro comemora-se a festa do maior herói de Portugal, o famoso Condestável São Nuno de Santa Maria, ou simplesmente São Nun’Álvares Pereira. Relatamos abaixo uma de suas mais grandiosas vitórias, na Batalha de Valverde, que foi ganha graças a um Anjo que lhe guiou.

Enquanto Dom João I partia para o norte a fim de consolidar suas conquistas e se firmar na posse de seus domínios, São Nuno seguiu em direção contrária, a fronteira, onde era necessário alguém como ele para manter os castelhanos longe de seus propósitos de invasão. Era a fronteira o local mais difícil, onde os próprios nobres portugueses viviam, ora indeciso ora propensos a apoiar o inimigo. Indo para lá, São Nuno teria condições de manter os limites geográficos e étnicos de seu país. Seu ímpeto guerreiro não se contentava, agora, em ficar na defensiva; por isso, partiu para invadir o território inimigo, a fim de demonstrar aos castelhanos que Portugal agora tinha um exército e um Condestável invencível no seu comando.

E a situação havia mudado. Seu exército agora era composto de mais de mil lanças, com mais de dois mil peões e besteiros. Avançou intimorato pela fronteira a dentro e, quando se deu conta, já havia avançado mais de vinte léguas em território inimigo, no coração da Estremadura. No entanto, ele sabia que estava sendo espionado e que encontraria batalha mais adiante.  Quando chegam em Vila Garcia, encontram o castelo vazio, pois todos os seus defensores haviam fugido apavorados. Aproveitou e mandou seus homens confraternizarem-se com a população.

Percebendo que o inimigo não tinha coragem de enfrentá-lo, resolveu ir mais adiante: fazer uma romaria em Santa Maria de Guadalupe com seus homens. Parecia que toda a Castela lhe era dócil e lhe pertencia. De repente, ouviram o soar de trombetas. Todos se sobressaltaram, pensando que finalmente o inimigo vinha para o combate. Mas, não. Era apenas um arauto que se aproximava. Vinha da parte do senhor "Barbuda", o Mestre de Alcântara, sobraçando um feixe de varas. Cada vara era o símbolo de uma espada. O arauto ajoelhou-se humildemente e transmitiu a mensagem:

- Senhor Condestável: o mestre de Santiago, Dom Pedro Muñoz, meu amo, ouvindo dizer que estais em sua terra e lhe fazeis estragos nela, vos manda desafiar e vos envia esta vara.

São Nuno recebeu a vara da mão do arauto e respondeu:

- Sede bem-vindo com tais novas.

Mas o arauto continuou:

- Senhor Condestável: o conde de Niebla, Dom João Afonso de Guzmán, ouvindo dizer como andais na terra de el-rei, seu senhor, roubando e destruindo como não deves, vos envia esta vara.

Nova vara foi entregue a São Nuno. O Condestável recebia a vara com a mão direita e passava para a esquerda, num ato solene e grave. Desta vez, nada respondeu, mas esperou que o arauto continuasse.

- Senhor Condestável: o Mestre de Calatrava, Dom Gonçalo Nuñez de Guzmán, sabendo como entras pela terra de el-rei seu senhor, para prejudicar e destruir, vos manda desafiar e vos envia esta vara.

Desta forma, a cena continuou, com o arauto entregando todas as varas que trazia, cada uma representando um poderoso senhor de Castela. O molho de varas era grande, o que poderia causar arrepios ou mesmo terror entre os portugueses.  Mas nada disto ocorreu. São Nuno permaneceu com seu semblante sério a manifestar tremenda frieza.  Quando o arauto terminou de entregar a última vara, São Nun'Álvares lhe responde segurando o feixe na mão esquerda:

- Amigo meu, sede bem-vindo com as novas que trazeis. Nada mais me podia alegrar tanto como essas do desafio. Dizei-o ao seu senhor.

Em seguida, o Condestável volta-se para os seus homens e diz:

- Vedes, amigos, como é certo o que eu vos dizia estes dias? Que o Mestre, meu senhor e meu amigo, não me havia de deixar passar sem nos fazer guerra? Ora, é mister que estejamos prontos para ela. Quem tão boas novas nos trouxe, razão é que tenha boas alvíssaras...

Mandou dar ao arauto cem dobras de ouro, dizendo-lhe:

- Dizei ao Mestre, meu senhor e meu amigo, e aos senhores que com ele estão, quanto lhes agradeço os seus desafios... e mais ainda estas varas, com as quais brevemente os vergastarei...

Para dar mais ênfase à suas palavras, pegou algumas varas e começou a brandi-las açoitando o vento. Em seu semblante, todos percebiam o quanto estava alegre com aqueles gestos.  Aquela ironia tinha duplo efeito: primeiro causar mais terror ao inimigo, notando-o tão dono de si; e em segundo lugar, mostrar aos seus homens que não tinha nenhum medo das bravatas do arauto.

São Nuno não tinha nenhum receio, nenhuma dúvida de que venceria todos os castelhanos juntos que lhe viessem dar batalha. A sua fé, antes de Aljubarrota, era feita de esperança.  Agora era uma certeza bem sedimentada, firme, irredutível de que Deus lhe daria a vitória. Esta certeza era baseada numa Fé autêntica e inabalável.

Depois de aceitar os desafios, São Nuno não ficou parado, avançou mais ainda em território inimigo. Andou mais quinze léguas sem que sofresse combate. O Mestre de Alcântara seguia os invasores à distância, sem se atrever a enfrentá-los. Quando chegou às margens do rio Guadiana, São Nuno ali resolveu acampar.

Estava com o acampamento já terminado quando viu no alto a presença das forças inimigas. Passaram todo o dia vendo-se um frente ao outro, mas sem que ninguém tomasse a iniciativa do ataque. No dia seguinte, as forças portuguesas estavam melhor preparadas para o confronto, mas souberam que os castelhanos ainda esperavam reforços de Sevilha, de Córdoba, de Jaén, da Mancha e do reino de Aragão. E eles não faziam segredo dos reforços que estavam para vir e até usavam isto para tentar amedrontar o inimigo. Os poucos prisioneiros feitos pelos homens de São Nuno falavam destas forças com muita ênfase. Tais notícias seriam de molde a apavorar um ânimo que não fosse tão valoroso quanto o do Condestável.

A situação agora era inversa da batalha de Aljubarrota. Era São Nuno que tinha que forçar passagem entre os castelhanos, tendo que vencer uma posição bem entrincheirada de um exército superior em número e poder. Mas a hoste portuguesa, comandada pelo Condestável, compunha-se de homens aguerridos e submissos a seu capitão como se ele fosse o pai de todos, um homem predestinado por Deus e assistido por um poderoso Anjo.  O exército de Castela era brilhante, com armas novas e reluzentes, comandado por homens bem treinados e experientes, mas faltava-lhes o fator unidade, consistência, disciplina e amor aos comandantes por parte dos soldados.

A hoste de São Nuno formou-se em seu quadrado característico para se proteger.  Para melhor defender-se precisavam passar o rio naquele ponto, onde era raso. Mas quando se propunham a fazê-lo, viram-se de repente cercados de todos os lados pelo inimigo. Os ataques vinham de três direções, pela frente e pelos flancos, impelindo-os de costas contra o rio.  Mas, ao passá-lo, tinham a esperá-los na outra margem grossas tropas inimigas. Dir-se-ia que estavam perdidos.

Cerrado e inexpugnável, o quadrado português avançava compactamente, defendo-se como podia contra a nuvem de lanças, de setas, de pedras e de virotões.  Foram precipitados para o rio de roldão e, sem desfazer a ordem de batalha em que estavam, uma espécie de fortaleza ambulante, passaram o rio a vau, e na outra margem deram de cara com cerrada formação castelhana. Passado o rio, o cerco do inimigo cada vez mais se fechava como uma tenaz, mas os portugueses continuavam seu caminho em busca do local que o Condestável julgava ser adequada para um combate mais vantajoso.  Subiam paulatinamente a encosta próxima, procurando romper as forças adversárias, mas não o conseguiam.

O Condestável era a alma do exército português. Ia de um lado a outro, animando, combatendo, ora na vanguarda ora na retaguarda, sem nenhum esmorecimento, sem pedir nenhuma trégua. Era um homem que nada o abatia, permanecia firme, inabalável, intimorato e aguerrido, comandava naturalmente pela expansão de sua simpatia comunicativa.  Era como se fosse um rochedo em torno do qual se agarravam aquele milhar de homens para defender suas vidas.

O homem da guerra era também o homem místico, pois rezava constantemente quando estava em combate. Era comum ouvir as vozes angélicas que o orientavam nos combates, mudando constantemente de tática, fazendo-o ir vencendo aos poucos, cada centímetro, cada metro do terreno, em busca de um objetivo final. E isto só era obtido porque tudo para São Nuno tinha caráter religioso, tudo dependia da Providência divina, nada acontecia ao acaso, sem que os Anjos não tivessem alguma participação, principalmente naqueles momentos de batalha. Em pleno combate, sua face se iluminava com uma auréola de satisfação, respirava em todos os seus poros heroísmo e santidade. Era como se fosse o próprio Deus dos exércitos a se refletir numa pessoa humana.

Em dado momento, uma seta veio cravar-se em seu pé. Mesmo assim ferido, continuou animando e lutando, ora na retaguarda, ora na vanguarda.  Numa destas intervenções, gritaram da retaguarda que o inimigo estava ganhando aquele setor. Foi para lá o grande herói, postou-se na frente de seus homens, mesmo com o pé ferido, e após breve combate conseguiu repelir a investida inimiga e arrumar a defensiva novamente.  Da mesma forma que veio auxiliar os seus naqueles momentos, assim também partiu talvez para a vanguarda não se sabe.

O certo é que, de repente, o Condestável desapareceu da vista de seus homens. A hoste portuguesa não conseguia mais avançar, ficara ali estática, porque faltava quem os comandasse. Seu comandante simplesmente sumira, não o encontravam em lugar nenhum. Chamavam por Nun'Álvares para um lado e para o outro, mas ele não ouvia lhe chamar, não aparecia nos combates. Para onde fora? Teria morrido ou fugido? Estas cogitações eram impensáveis em seus homens, principalmente o da fuga.  Procuravam-no por toda a parte, aflitos, como quem busca o próprio pai na hora do desespero, em busca de auxílio..

De súbito, Rui Gonçalves depara-se com o Condestável. De joelhos, entre dois rochedos, estava em êxtase, com as mãos postas e os olhos voltados para o céu. Ao seu lado, sua montaria e o pajem segurando a lança e o braçal de seu senhor. Naquela angústia em que se encontrava, foi rezar a Deus quando um Anjo lhe aparece e o deixa fora de si na contemplação das maravilhas divinas.  Rui Gonçalves declarou posteriormente que o viu com a alma transportada para o céu falando com Deus. Ficou ali parado a contemplá-lo, temendo tirá-lo daquele embevecido êxtase. Aquela cena, onde o escudeiro e o amigo Rui ficavam pasmados em silêncio a contemplá-lo, contrastava completamente com o fragor da terrível batalha que se desenrolava nas proximidades.

Passado o primeiro espanto, Rui Gonçalves resolve agir e grita:

- Estamos perdidos!

São Nun'Álvares, meio saindo de seu êxtase, volta-se e diz:

- Rui Gonçalves, caro amigo, ainda não é tempo. Aguardai um pouco e acabarei de rezar.

Neste ínterim, outros companheiros também já o tinham encontrado e começaram a vituperar o Condestável. Um deles foi enfático:

- Nada de rezas, assim morreremos todos!

Quando seus homens começaram a chegar angustiados, São Nuno sai de seu êxtase. Ergue-se, firma-se nos pés, apura o ouvido e as vistas. Põe a mão sobre o ombro de seu alferes, Diogo Gil, aponta para o lado e diz:

- Vês as bandeiras que estão no cume daquele monte? A mais alta deve ser a do Mestre de Santiago.

- Vejo, meu senhor!

- Pois vamos lá com nossas espadas até junto dela! Amigos, avante! Que cada um de nós seja para quatro deles!

Aquelas bandeiras significavam que ali estavam os principais comandantes das tropas castelhanas. Provavelmente reuniam-se em conselho sobre os destinos da batalha. Num arroubo, os portugueses partiram para lá, guiados por São Nuno e sua espada sagrada, e num instante subjugaram todos eles. Vencidos os chefes, o resto foi facilmente entregue às mãos portuguesas.  Num só lance, todo o comando inimigo caíra em mãos do Condestável. Quando souberam do ocorrido, os castelhanos começaram a fugir, pois todas as tropas estavam agora sem comando.

O milagre aconteceu: os portugueses, em número inferior, dentro do território inimigo, venceram o poderoso exército castelhano. Tudo graças ao denodo, à coragem, ao idealismo de um Cavaleiro cristão, que dedicou toda sua vida à fé católica, e por isso foi avisado por um Anjo, em seu êxtase, de que deveria seguir aquele caminho que daria exatamente dentro do comando inimigo.

São Nun'Álvares foi com os seus dormir calmamente em Valverde, e  no dia seguinte seguiu viagem de retorno às suas terras. Após dezoito dias de campanha, havia conquistado muitas riquezas de seus inimigos. Muito maior, porém, foi a lição que dera aos castelhanos, com o intuito de inspirar-lhes medo e respeito. Quando chegou em Elvas, São Nuno reúne seus homens e distribui com eles todo o abundante saque que trouxera.

O reino de Castela em peso entrava em desespero por mais este desastre, causado por um homem que eles desdenhavam com menosprezo. O rei compareceu às cortes em Valadolid vestido de luto, ordenando que houvessem procissões e jejuns para reparar a vergonha e afronta sofrida.  O que mais afetava o orgulho castelhano era considerar que as derrotas haviam sido sofridas exatamente pelas humildes forças portuguesas. Envergonhava-os verem-se vencidos por este punhado de homens, que eles julgavam ser meros rebeldes a seu rei.

 

(Relato baseado no livro "A Vida de Nun'Álvares", de Oliveira Martins, Lello & Irmão - Editores, Porto, 1983).