quarta-feira, 31 de maio de 2017

O MAGNIFICAT, HINO DE SABEDORIA, HUMILDADE E GRANDEZA



(COMENTÁRIOS DE DR. PLINIO CORREA DE OLIVIRA SOBRE A SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA)

Entoado por Nossa Senhora no encontro com Santa Isabel, o Magnificat é um maravilhoso hino inspirado pelo Altíssimo, e Deus cantando sua própria glória pelos lábios da mais amada das suas filhas. É, também, uma linda mensagem, coerente, lógica e séria, que Ele transmitiu a todos os homens de todos os séculos, pela voz virginal de Maria.
O cântico se inicia com a palavra Magnificat – do latim magnus, isto é, grande – para enaltecer Aquele que é a Grandeza personificada, reconhecendo que Deus merece este superlativo de louvor e de honra na sua glória extrínseca, passível de crescimento, por haver realizado n’Ela, Virgem bendita, o cumprimento da maior e mais alvissareira promessa divina feita à humanidade: a Encarnação do Verbo.


A exultação em Deus, seu Salvador

Então a alma d’Ela se apressa em extravasar o seu sentimento de  profunda gratidão, proclamando como o Senhor assim se revelava o magno por excelência.
Em seguida vem a alegria: Et exsultavit spiritus meus in Deo salutari meo – “E o meu espírito exulta!”
Exultar é sentir um júbilo intenso, e não uma qualquer satisfação, como a que poderia experimentar alguém se soubesse que os seus investimentos rendessem um pouco além do esperado. Esta seria uma alegria pequena, perto daquela que se exprime pela palavra “exultação”. Por isso Nossa Senhora a emprega, para significar como seu espírito transbordou de gáudio em relação a Deus, o seu magnífico Salvador.
Essa felicidade se mostra tanto mais intensa quanto, conforme o pensamento que se completa no versículo seguinte, Ela considera a sua pequenez e vê como Deus a salvou de modo extraordinário, super-excelente, não só fazendo d’Ela a Mãe do Verbo Encarnado, mas dispondo que Ela tivesse em toda a existência de Nosso Senhor Jesus Cristo o papel admirável que sabemos.

Legítima alegria por ter sido engrandecida

Depois de afirmar a sua exultação, a Santíssima Virgem manifesta então o motivo dessa imensa alegria: Quia respexit humilitatem ancillae suae – “porque Deus olhou para a humildade da sua Serva”. Em conseqüência dessa atenção do Senhor para com Ela, ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes, isto é, todos os homens até o fim do mundo, vão por sua vez enaltecê-La, chamando-A “bem-aventurada”. Quia fecit mihi magna qui potens est – “porque me grande Aquele que é poderoso”. Percebe-se aqui, mais uma vez, o gáudio de Maria por ter sido objeto de um especial desígnio do Onipotente: Ela, tão humilde, tornou-se grande pela força d’Ele.
Há, nessa mensagem, um interessante ensinamento que deve ser considerado.
Alegrando-se com a grandeza divina, Nossa Senhora ao mesmo tempo se alegra com o fato de ter sido também engrandecida por uma condescendência d’Ele, e sabe que essa sua magnitude Lhe valeria o louvor e a devoção das gerações vindouras. É uma glória única, que a cobre de felicidade, e pela qual, cheia de reconhecimento, agradece a Deus.
Ora, essa atitude de Nossa Senhora aceitando, auferindo e amando a própria excelência, demonstra como é legítimo nos alegrarmos com a grandeza que Deus eventualmente nos conceda. Desde que, a exemplo de Maria, esse júbilo esteja alicerçado no amor a Ele, compreendendo que essa glória estabelece uma relação mais íntima entre nós e o Criador.
Et sanctum nomem eius – “E o Seu Nome é Santo”. Quer dizer, “Deus agiu assim para comigo, e procedeu santamente”. Essa fabulosa obra que o Senhor realiza na sua serva, vinha marcada pela infinita perfeição com que Ele modela tudo quanto sai de suas mãos onipotentes.

Misericórdia para os que temem a Deus

Após ter manifestado de tal maneira a grandeza de Deus e a sua própria, Nossa Senhora evoca o aspecto de bondade: Et misericordia eius e progenie in progenies, timentibus eum – “e a misericórdia d’Ele se estende de geração em geração, sobre aqueles que O temem”.
Significa que o fato de Deus A ter feito tão grande redunda num benefício e numa obra de misericórdia de que se aproveitarão todos os homens em todas as épocas da História. Com uma restrição, porém: timentibus eum – aqueles que teme a Ele.
Eis outra importante lição a ser tirada do Magnificat.
O temor ser divide em servil e reverencial. O temor servil é aquele que tem, por exemplo, um escravo ao fazer a vontade de seu dono pelo receio de sofrer duros castigos se não obedecer. O temor reverencial é aquele que alguém demonstra em relação a outrem, não por medo das penalidades que lhe possa infligir, mas por respeito e veneração pela superioridade dele, por não querer ultrajá-lo nem violar a obediência que deve a ele.
Um exemplo maravilhoso de temor reverencial encontramos nas ardorosas palavras que Santa Teresa de Jesus dirige a Nosso Senhor: “Ainda que não houvesse Céu, eu vos amara; ainda que não houvesse inferno, eu vos temera”. Quer dizer, ainda que Deus não lançasse à geena aqueles que se revoltam contra Ele, por ser Ele quem é e pelos infinitos títulos que Ele possui acima de nós, temeríamos não fazer a vontade d’Ele. É essa a forma altíssima e nobilíssima do temor reverencial.
Então, aos que amam a Deus com um amor tal que até O teme – não apenas por causa do inferno, mas sobretudo por não querer desagradá-Lo na sua infinita santidade -, para estes se abre e inesgotável misericórdia de Deus: et misericordia eius a progenie in progenies, timentibus eum.
Cumpre salientar que, muitas vezes, a bondade divina não se prende a essa restrição, superando-se em requintes de solicitude até mesmo para com homens que pouco ou nenhum temor de Deus experimentavam, antes de serem tocados pela graça e se converterem.
Pode-se supor, por exemplo, que São Paulo na vida de Damasco não tivesse temor de Deus. Mas, atingido por um raio, ele caiu do cavalo, perdeu a visão, e logo ouviu a voz de Nosso Senhor que o interpelava. Quando se levantou, era outro homem, tornando-se o grande Apóstolo dos gentios. Era uma extraordinária ação da misericórdia divina – muito provavelmente a rogos de Maria – estendendo-se sobre uma alma que até então não temia a Deus.

Queda dos soberbos e exaltação dos humildes

Fecit potentiam in brachio suo, dispersit superbos mente cordis suis – “Manifestou o poder do seu braço, e dissipou aqueles que se orgulhavam nos pensamentos do seu coração”.
Entendamos o que significa “manifestar o poder de seu braço”. Trata-se de uma metáfora, pois Deus puro espírito, não possui braço. Este, porém, é no homem o membro pelo qual ele mostra a sua força e executa os decretos de sua inteligência e de sua vontade. Então, ao se referir ao “braço de Deus”, Nossa Senhora nos faz ver como Ele age energicamente em relação aos soberbos e orgulhosos, àqueles que se fecham para a ação da graça e não O temem nem O amam nos seus corações. Para com esses, Deus manifesta o poder de seu braço.
O pensamento se completa no versículo seguinte: Deposuit potentes de sede, et exaltavit humiles – “Depôs de seus tronos os poderosos, e exaltou os humildes”.
Por meio da Encarnação do Verbo, Deus quebrou o poder com que o demônio e seus sequazes neste mundo atormentavam os bons. Então, depôs aqueles de seus tronos, e exaltou aqueles que eram perseguidos.
Alguém poderia objetar: “Mas, Dr. Plínio, não foi o que aconteceu. Deu-se o contrário! Anás, Caifás, Pilatos e congêneres, todos se achavam nos seus tronos, perseguiram e mataram Nosso Senhor!”
É verdade. Mas essa história não está narrada até o fim. Porque depois de Jesus ter sido morto, aconteceu precisamente o que aqueles poderosos queriam evitar. Ele ressuscitou, triunfando sobre a morte e sobre todos os seus algozes. Com Ele, triunfava a Santa Igreja, venciam os Apóstolos e Nossa Senhora, os humildes até então desprezados. E para todo o sempre, serão estes glorificados e exaltados, enquanto Anás, Caifás e Pilatos serão mencionados com vitupério e horror. Então se comprovou a veracidade do dito: deposuit potentes de sedes, et exaltavit humiles.
Essa idéia ainda prevalece na seqüência  do cântico: Esurientes implevit bonis, et divites dimisit inanes – “Cumulou de bens os famintos, e despediu os ricos com mãos vazias”.
Nossa Senhora não pretende fazer aqui uma alusão aos recursos materiais ou financeiros. Ela se refere, antes de tudo, aos que se acham na carência de bens espirituais, aos indigentes das dádivas celestiais. A esses pobres de espírito que, humildemente, suplicam essas graças, Deus os atende na abundância infinita de sua misericórdia. Pelo contrário, aos “ricos”, àqueles que se julgam inteiramente satisfeitos no seu orgulho, Deus os despede de mãos vazias, isto é, sem torná-los partícipes do tesouro de seus dons sobrenaturais.

Em Maria, cumpre-se a promessa feita a Abraão

Por fim, Nossa Senhora volta à idéia central que inspira esse hino maravilhoso: Suscepit Israel puerum suum: recordatus misericordiae suae – Tomou cuidado de Israel, seu servo, lembrando da sua misericórdia”.
Quer dizer, o Povo Eleito receberia em breve o Messias há milênios prometido, a Quem Deus enviaria ao mundo, recordando que sua misericórdia assim havia disposto. Daí a conclusão: Sicut locuus est ad patres nostros, Abraham et semini eius in seacula – “Conforme tinha dito a nossos pais, à Abraão e à sua posteridade para sempre”.
A promessa feira a Abraão, fundador da raça hebraica, e aos descendentes dele ao longo dos séculos, de que o Salvador nasceria de sua progênie, acabava de ser cumprida. Nossa Senhora já trazia em seus claustro materno o Esperado das nações. Ela, uma filha de Abraão, daria à luz o Filho de Deus.
E assim o Magnificat, esta jóia inapreciável, este maravilhoso cântico de sabedoria, humildade e grandeza, muito harmoniosamente se encerra pensando na Encarnação do Verbo, como o fizera na primeira estrofe.


(Revista “Dr. Plínio”, nº 64, julho de 2003).

terça-feira, 30 de maio de 2017

A REALEZA DE NOSSA SENHORA E O SEU SAPIENCIAL E IMACULADO CORAÇÃO


(COMENTÁRIOS DE DR. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA SOBRE A VIRGEM MARIA SANTÍSSIMA) 


Eu gostaria de dizer uma palavra a respeito do Sapiencial e Imaculado Coração de Maria.
Em primeiro lugar, eu devo lembrar aos Srs. que hoje não é propriamente a festa do Imaculado Coração de Maria. Hoje é a festa de Nossa Senhora Rainha.
Entretanto, eu creio que com toda legitimidade nós podemos festejar o Imaculado Coração de Maria no dia de hoje. E isto por uma razão muito simples, é que um dos modos pelos quais Nossa Senhora torna efetivo o seu domínio na terra é exatamente o seu Coração Imaculado e Sapiencial. E há até uma invocação muito bonita de Nossa Senhora, Regina Cordium, Nossa Senhora Rainha dos Corações, que pode ser vista na perspectiva desses dois atributos ou invocações de Nossa Senhora. Primeiro, Nossa Senhora Rainha e em segundo lugar o Imaculado e Sapiencial Coração de Maria.
Como é que tudo isso se coloca, como é que tudo isso se vê e se entende?
Nós sabemos que Nossa Senhora, de direito, é a rainha do céu e da terra. Ela o é de direito por duas razões: em primeiro lugar porque Ela é a Rainha-Mãe de toda a criação, Ela é Mãe de Deus e Ela tem, portanto, na criação, uma situação parecida com a que tem as rainhas-mães nos países de estrutura monárquica. Mas de outro lado também, porque Deus Nosso Senhor entregou a Nossa Senhora a regência efetiva do céu e da terra. Nossa Senhora manda — porque Ele entregou esse poder — Nossa Senhora manda sobre os anjos, Nossa Senhora manda sobre os santos, Nossa Senhora manda sobre todas as almas que estão no purgatório, Nossa Senhora manda sobre todos os homens que estão no mundo. Ela manda até sobre o inferno.
Tudo está completamente e inteiramente sujeito a Ela pela vontade de Deus.
Uma rainha-mãe não é propriamente uma rainha reinante. Ela tem as honras da realeza, mas ela não é a rainha reinante. A rainha Mary, da Inglaterra, por exemplo, é rainha-mãe. Ela foi rainha, esposa — ela nunca foi rainha reinante, ela nunca exerceu a realeza, ela teve as honras da realeza, foi esposa do rei Jorge VI, depois faleceu o rei, a realeza passou para a filha d’Ela, a rainha Elisabeth II e ela passou a ser a rainha-mãe. Ela passou a vida inteira, portanto, cercada das honras da realeza, não portanto do mando da realeza. A rainha Elisabeth II é a rainha reinante, porque na pequena medida de poder que tem uma rainha da Inglaterra, nessa medida ela reina. De maneira que ela é a rainha reinante.
Nossa Senhora não é só a rainha-mãe porque é Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas Ela é rainha reinante porque Deus Nosso Senhor confiou a Ela esse poder.
Agora, esse poder que Ela tem, de direito, como é que ela exerce? Como Ela transforma em fatos esse poder de direito que Ela tem?
No céu Ela exerce de dois modos: em primeiro lugar, porque Ela tem o direito de mandar e sendo todas as almas que estão no céu confirmadas em graça, elas não fazem senão a vontade de Deus. De maneira que é certíssimo que Nossa Senhora mandando nelas em nome de Deus, Nossa Senhora tem o direito de se impor a elas e elas obedecem.
Mas é também verdade que ainda que Deus não tivesse mandado, elas quereriam obedecer a Nossa Senhora. E quereriam pelo extremo amor que elas tem a Nossa Senhora, pelo conhecimento que elas tem de todas as virtudes de Nossa Senhora, da superioridade de Nossa Senhora. Porque toda superioridade confere um mando, ainda que não houvesse essa ordem de Deus, eu estou certo que todos os anjos e todos os santos do céu pela expressão de uma leve, tênue vontade de Nossa Senhora, eles se moveriam todos nessa direção.
E aí é um império que é o império de um coração sobre corações. Em que sentido isso?
O coração, os Srs. sabem – eu já tenho dito isso inúmeras vezes — coração é o órgão físico que é símbolo da mentalidade. Quer dizer, do modo pelo qual a pessoa vê as coisas, e do modo pelo qual quer as coisas.
O Sapiencial e Imaculado Coração de Maria é uma expressão da mentalidade sapiencial e imaculada de Nossa Senhora. E exprime, entre outras coisas também, a sua bondade inefável, sua doçura inefável, sua misericórdia inesgotável.
Por todas essas razões, os anjos e santos do céu, considerando Nossa Senhora, a amam com toda a intensidade — abaixo de Deus, mas a amam. Amam tanto quanto é dado a eles amar, mas a amam. E o resultado é que esse amor é tal que Ela reinaria sobre eles — o coração d’Ela sobre o coração d’Eles, — quer dizer a mentalidade d’Ela sobre a mentalidade d’Eles. Quer dizer, o modo d’Ela ver as coisas super sapiencialmente seria uma regra de sabedoria para eles. A vontade d’Ela, santíssima, sem mancha, imaculada, seria uma regra para a vontade d’Eles ainda que não houvessem as ordens de Deus.
Quer dizer, simplesmente, de Coração a coração, Nossa Senhora domina o céu. Domina o céu e domina o purgatório, porque as almas que estão no purgatório também elas já não pecam mais. Também elas já estão garantidas de irem ao céu. Não há perigo de uma alma no purgatório, por exemplo, revoltar-se com os padecimentos extremos que no purgatório se sofrem. Por quê? Porque elas estão confirmadas em graça e elas vão para o céu. E por causa disso elas pensam como Nossa Senhora pensa, querem o que Nossa Senhora quer, vivem para Nossa Senhora. E por isso, quando Nossa Senhora de vez em quando aparece no purgatório, há para elas uma alegria sem nome. Elas todas cantam, satisfeitíssimas, de dentro de seus tormentos. E Ela leva sempre um número enorme de almas para o céu. E às que Ela não leva para o céu, Ela espalha em torno de Si como que um orvalho que diminui as penas, aumenta a esperança de chegar ao céu e alivia os padecimentos daquelas almas.
Mas é também de Coração a coração que Nossa Senhora domina aquelas almas e reina. E não só pela vontade de Deus.
Na terra, como é que são as coisas? Nós temos na terra, se os Srs. quiserem, a triste liberdade — que é de fato uma servidão, — a triste liberdade de não fazer a vontade de Deus. Em outros termos, nossas paixões nos arrastam. Elas são tiranas que nos levam muitas vezes a fazer o que nós não quereríamos, por pecado nosso, mas nos levam a fazer o que nós não quereríamos. E elas nos dão, assim, a triste liberdade de dizer “não” para Deus.
Uma triste liberdade que é uma escravidão porque se nós fossemos livres em nossas paixões nós nunca diríamos “não” a Deus. Mas essas paixões existem. E nós temos que lutar contra elas. De maneira que, em última análise, há essa servidão nossa: as paixões, que só com a graça de Nossa Senhora nós conseguimos sacudir, conseguimos limitar, e extinguir até. Sem isso, nós seríamos escravos de nossos defeitos.
E há na terra uma luta entre os que obedecem e os que não obedecem a Nossa Senhora. Nossa Senhora tem o direito de ser obedecida por todo o mundo. E nesse sentido, “de direito”, ela é rainha do mundo inteiro. Mas o mundo tem a possibilidade — se bem que não o direito — de desobedecer a Nossa Senhora. De onde, um número enorme de pessoas que desobedecem a Nossa Senhora.
Então, o Sapiencial e Imaculado Coração de Maria como é que torna efetiva a sua autoridade jurídica e indiscutível sobre todo mundo? Torna efetiva de uma forma muito simples. Nossa Senhora, pelo seu Coração, Ela toca os corações, Ela toca as almas, e faz com que as almas recebendo graças muito abundantes, sigam a Ela.
É claro que isto não é automático. Uma pessoa pode resistir à graça. Mesmo a uma graça muito abundante, a pessoa pode resistir. Peca, mas pode resistir. Está bem, mas muitos não pecam por causa da abundância da graça. E por esta forma, recebendo graças caudalosas, servem a Nossa Senhora. Mas essas graças como é que são? É a graça que Ela dá a nossos corações de vermos o Coração d’Ela. De conhecermos e amarmos a sabedoria d’Ela, de conhecermos e amarmos a nota de Imaculada que existe em toda a Pessoa d’Ela. E é por esta forma que Ela se torna obedecida por nós.
De maneira que o Coração d’Ela é um cetro com o qual Ela governa todos aqueles que Lhe obedecem no mundo.
É claro que também, Nossa Senhora manda nos maus. O demônio obedece, absolutamente. E por isso também muitas vezes, na história, acontecem coisas desconcertantes para os bons ou para os que defendem o lado do bem, acontecem coisas desconcertantes em última análise porque Nossa Senhora mandou. E neste sentido, Ela pode também mandar. Mas não é um mandar que force o livre arbítrio pelo qual a pessoa diz “sim” à graça de Deus. Isso não. Força qualquer outra coisa, esse ponto não força.
Quer dizer, Nossa Senhora tem um império de direito sobre todos. Que às vezes Ela torna efetivo e ninguém pode resistir. Mas que muitas vezes é efetivo não por um império dEla mas pelo amor que Ela comunica às muitas almas.
Aí os Srs. tem a razão pela qual tantas pessoas se dedicam, tantas pessoas se imolam, tantas pessoas lutam etc., etc. É por causa do Sapiencial e Imaculado Coração de Maria.
Então, nessas condições eu tenho a certeza de que a festa de Nossa Senhora Rainha é a festa do Coração dEla. O que, aliás, está escrito em Fátima: Nossa Senhora disse “por fim o Meu Imaculado Coração triunfará”. Triunfará quer dizer reinar. O Coração de Nossa Senhora é um coração régio. Se eu pudesse representar o Imaculado Coração de Maria, eu gostaria de representá-lo encimado por uma coroa, para indicar bem o caráter régio do Coração Sapiencial e Imaculado de Maria.
A festa, portanto, tem toda a propriedade – ainda que seja a festa de Nossa Senhora Rainha – tem toda a propriedade para nós cultuarmos e venerarmos o Imaculado Coração de Maria.    
De que maneira? Fazendo nosso esse pedido: tornai meu coração semelhante ao Vosso. Semelhante não quer dizer vagamente parecido, não. Quer dizer parecido em tudo quanto está nos desígnios da Providência que pareça. “Tornai-me sapiencial, de uma sapiencialidade que seja uma participação da vossa; tornai-me puro de uma pureza que seja uma participação da vossa”. E, sapiencial e puro: é preciso ser contra-revolucionário.
Por que? Porque a Revolução é o auge da insensatez e da falta de pureza. É o contrário, de modo escandaloso, mas diretamente o contrário da sabedoria e da pureza, sobretudo da pureza imaculada de Nossa Senhora. Então, o Sapiencial e Imaculado Coração de Maria é Nossa Senhora da Contra-Revolução. É por onde a Revolução mais odeia Nossa Senhora, é por onde nós, filhos da Contra-Revolução, mais nos afirmamos filhos d’Ela.
Os Srs. compreendem quantas razões há para nós aproveitarmos os últimos minutos desta festa para pedirmos graças para nós. Sobretudo essa transformação por onde nosso coração seja confiscado por Nossa Senhora, seja tomado por Nossa Senhora. Isso nós podemos dizer: “Minha Mãe, eu não sou bastante forte para me dar a Vós: dominai-me. Entrai na minha alma com graças tais que eu praticamente não resistirei. Esta porta, minha Mãe, que eu por miséria não abro, arrombai-a. Eu vos espero atrás dela com meu sorriso, meu reconhecimento e minha gratidão”.
Aqui está uma boa oração para a festa de hoje.

(Conferência – 31 de maio de 1975)


O GLORIOSO TÍTULO DE RAINHA



(COMENTÁRIOS DE DR. PLÍNIO SOBRE A VIRGEM MARIA SANTÍSSIMA)

“Nossa Senhora Rainha é um título que exprime o seguinte fato. Sendo Ela Mãe da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e Esposa da Terceira Pessoa, Deus, para honrá-La, deu-Lhe o império sobre o universo: todos os Anjos, todos os Santos, todos os homens vivos, todas as almas do Purgatório, todos os réprobos no Inferno e todos os demônios obedecem à Santíssima Virgem. De sorte que há uma mediação de poder, e não apenas de graça, pela qual Deus executa todas as suas obras e realiza todas as suas vontades por intermédio de sua Mãe.
Maria não apenas o canal por onde o império de Deus passa, mas é também a Rainha que decide por uma vontade própria, consoante os desígnios do Rei.
Nossa Senhora é uma obra-prima do que poderíamos chamar a habilidade de Deus para ter misericórdia em relação aos homens...”

Rainha dos corações

Continua o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira:
“São Luís Grignion de Montfort faz referência a essa linda invocação que é Nossa Senhora Rainha dos Corações.
“Como coração entende-se, na linguagem das Sagradas Escrituras, a mentalidade dos homens, sobretudo sua vontade e seus desígnios.
“Nossa Senhora é Rainha dos corações enquanto tendo um poder sobre a mente e a vontade dos homens. Este império, Maria o exerce, não por uma imposição tirânica, mas pela ação da graça, em virtude da qual Ela pode liberar os homens de seus defeitos e atraí-los, com soberano agrado e particular doçura, para o bem que Ela lhes deseja.
“Esse poder de Nossa Senhora sobre as almas nos revela quão admirável é a sua onipotência suplicante, que tudo obtém da misericórdia divina. Tão augusto é este domínio sobre todos os corações, que ele representa incomparavelmente mais do que ser Soberana de todos os mares, de todas as vias terrestres, de todos os astros do céu, tal é o valor de uma alma, ainda que seja a do último dos homens.
Cumpre notar, porém, que a vontade (isto é, o coração) do homem moderno, com louváveis exceções, é dominada pela Revolução. Aqueles, portanto, que querem escapar desse jugo, devem se unir ao Coração por excelência contra-revolucionário, ao Coração de mera criatura no qual, abaixo do Sagrado Coração de Jesus, reside a Contra-Revolução: ao Sapiencial e Imaculado Coração de Maria.
“Façamos, então, a Nossa Senhora este pedido:
“Minha Mãe, sois Rainha de todas as almas, mesmo das mais duras e empedernidas que queiram abrir-se a Vós. Suplico-Vos, pois: sede Soberana de minha alma; quebrai os rochedos interiores de meu espírito e as resistências abjetas do fundo de meu coração. Dissolvei, por um ato de vosso, minhas paixões desordenadas, minhas volições péssimas, e o resíduo dos meus pecados passados que em mim possam ter ficado. Limpai-me, ó minha Mãe, a fim de que eu seja inteiramente vosso”
(Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado – João S. Clá Dias, pág. 45)

Rainha que vencerá a Revolução

A realeza de Nossa Senhora, fato incontestável em todas as épocas da Igreja, veio sendo explicitada cada vez mais a partir de São Luís Grignion de Montfort, até aquele 13 de julho de 1917, quando Maria anunciou em Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”. É uma vitória conquistada pela Virgem, é o seu calcanhar que outra vez esmagará a cabeça da serpente, quebrará o domínio do demônio e Ela, como triunfadora, implantará seu Reino.
Portanto, devemos confiar  em que Maria já determinou atender as súplicas de seus filhos contra-revolucionários, e que Ela, Soberana do universo, pode fazer a Contra-Revolução conquistar, num relance, incontável número de almas.  Nossa Senhora Rainha poderá expulsar desta Terra os revolucionários impenitentes, que não querem atender ao seu apelo, de maneira que um dia Ela possa dizer: Por fim – segundo a promessa de Fátima – o meu Coração Imaculado triunfou!”.


(op. cit.  pág. 46)

Rainha da Prudência e do Conselho

No Cantus Mariales se diz da Virgem Santíssima que Ela é a Rainha da prudência e do conselho.
Nossa Senhora estando presente entre os Apóstolos, após a Ascensão de seu Divino Filho, é impossível que estes não A tenham consultado acerca de seus trabalhos, seus ensinamentos e escritos. Antes, é de se supor que a Ela freqüentemente recorressem.
Essas relações de Maria com a pregação da Igreja nascente são expressas em bonitos termos por um piedoso autor: “Nossa Senhora foi o oráculo vivo que São Pedro consultou nas suas principais dificuldades; a estrela que São Paulo não cessou de olhar para se dirigir em suas numerosas e perigosas navegações”.
Nada, portanto, se fez senão de acordo com o conselho e a orientação da Santíssima Virgem. Assim se nos depara um lindo quadro: a Igreja nos seus albores, com todos aqueles lances maravilhosos de sua incipiente história, e toda ela inspirada e dirigida por Nossa Senhora.
Verdade é que a São Pedro, como Papa, cabia o poder sobre toda a Igreja. Contudo, é também verdade que o Príncipe dos Apóstolos estava completamente submisso à Mãe de Deus, a qual, por meio dele, dirigia os demais.
Considerar Nossa Senhora como inspiradora do espírito com que  escreveram os Evangelistas, A que deu os dados e as informações de que eles se utilizaram, é algo que nos sugere cenas de rara beleza.
Por exemplo, Maria Santíssima tendo a seu lado São Paulo, São Pedro ou São João Evangelista, e Ela que conta, explica, interpreta e os ajuda a compreender os fatos da vida de Nosso Senhor, realçando este ou aquele episódio, e sendo, deste modo, o aroma do bom espírito perfumando a Igreja inteira.
É o que comenta, em seguida, o mesmo autor: “Diz o Cardeal Hugo que Maria fez de seu coração o tesouro das palavras e das ações de seu Filho, a fim de os comunicar em seguida aos escritores sagrados.  Nenhuma criatura, diz Santo Agostinho, jamais possuiu um conhecimento das coisas divinas e do que se relaciona com a salvação, igual à Virgem Bendita. Ela mereceu ser a mestra dos Apóstolos e é Ela que ensinou aos evangelistas os mistérios da vida de Jesus”.
Assim nos aparece o esplendor da alma santíssima de Nossa Senhora, sua ortodoxia, sua prudência, sua sabedoria e sua santidade, que nos levam a amá-La ainda mais”.
(Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado – João S. Clá Dias pág. 81)


segunda-feira, 29 de maio de 2017

ATITUDE DE ALMA DURANTE O MÊS DE MARIA



(COMENTÁRIOS DE DOUTOR PLINIO CORREA DE OLIVEIRA SOBRE A VIRGEM MARIA SANTÍSSIMA) 

Como não há ficha para hoje de Conferência, a Comissão pede para eu dizer algo sobre como se aproveitar esse mês, todo ele dedicado a Nossa Senhora, principalmente na linha da reparação como tenho insistido.
É realmente uma muito boa idéia e eu poderia indicar o modo seguinte: este mês é dedicado a Nossa Senhora e é um mês de festas. E naturalmente pelo hábito e pela propriedade do assunto, nosso espírito se volta para festejar Nossa Senhora durante esse mês. Acontece que há um princípio de bom senso, pelo qual não se festeja uma pessoa que está passando por um pesar muito grande. Por exemplo, a uma mãe que está com seu filho muito doente, não se vai, durante a doença do filho, fazer para ela uma festa de aniversário. Porque o ânimo d’Ela não dá para isso.
Então é a ocasião de se testemunhar a ela veneração, carinho etc., mas testemunhar por outra forma, quer dizer, solidarizando-se com a dor d’Ela. Dizer duas coisas: eu me lembro que é o seu aniversário, compreendo que boas disposições essa data evoca em mim, mas considerando seu estado, sua situação, eu queria lhe dizer também quanto me pesa vê-la passar por essa provação, e faço votos para a melhora de seu filho. É o que qualquer pessoa sensata diria.
Bem, é o que nós também devemos dizer a Nossa Senhora. Devemos dizer que nos lembramos de todas as razões perenes de alegria que Ela é para todos os católicos, em todas as circunstâncias. Nossa Senhora é de tal maneira causa nostrae laetitiae, como se diz na ladainha Lauretana, que Ela foi razão de alegria para nós, até mesmo na mais triste das situações, que foi quando Nosso Senhor Jesus Cristo morreu. Até nessa ocasião, a presença d’Ela era um elemento de alegria e de satisfação para nós.
De outro lado, por causa disso, compreender que uma atitude de mera comemoração festiva não tem propósito, e que nós devemos, à rememoração de toda alegria que Ela nos dá, juntar a consideração de toda a tristeza que Ela tem nas circunstâncias atuais, e vivermos nessa tristeza. Ter essa tristeza em vista. Ter essa tristeza em vista não é apenas comparecer ao Conferência, ou a uma cerimônia e compungir-se com aquilo naquele momento. Mas é saber na ponta da língua as razões da tristeza d’Ela. E a qualquer momento podermos rememorar isso.
E isto é tão fácil de lembrar: uma conjuração que tenta perpetrar o pior dos crimes, depois do deicídio, que é de fazer cair em erro e, portanto, tentar aniquilar a Igreja Católica Apostólica Romana. Isso é um crime terrível, porque contra a glória de Deus nada se pode planejar de mais nefando, contra a salvação das almas não se pode fazer nada de mais eficaz; para realizar o tentame do demônio não se pode fazer nada que mais lhe convenha porque essa é a substância do tentame do demônio. Liquidar a Igreja Católica é claro que ele não poderá, porque a Igreja é imortal. Mas pode, pelo menos, levar as coisas tão longe quanto nessa linha ir possam. E é preciso dizer que elas são susceptíveis de ir mais longe do que nós imaginávamos.
Ora, esse crime enunciado por essa forma deve nos causar uma indignação sem nome, deve nos causar um protesto de todo nosso ser. Porque nós amaremos a Deus na medida em que odiarmos esse crime. Nós podemos fazer o teste de nosso amor de Deus através da atitude da reação de nossa alma diante desse crime. Se na hora em que tentam matar o Corpo Místico de Cristo minha indignação é pequena, não tem dúvida que o meu amor é pequeno.
Imaginem que uma pessoa vem me matar e eu tenho um amigo que olha: “Ahhn, coitado do Dr.  Plínio! Mau bocado que está passando agora! Enfim, vamos ver como é que ele se sairá disso. Eu agora preciso fazer minha barba”. Eu saro, vem ele de encontro a mim: “Oh! amigo, como eu o estimo!” - Tenha a santa paciência! Eu há pouco estive no pior dos apuros, você foi fazer sua barba. Você teve uma babugem de comiseração a meu respeito e você vem dizer que é meu amigo? Onde é que está a coerência disso? Essa sua amizade que você ostenta a mim, essa amizade é uma caçoada, é um escárnio. Saia com essa sua amizade, não a quero para mim. Amizade de fariseu!
Então, a atitude que nós temos em relação aos inimigos da Igreja é o termômetro de nosso amor à Igreja. E o ódio que nós temos ao crime que se está praticando é o termômetro de nosso amor a Nossa Senhora.

 Pedirmos a Nossa Senhora que não se percam - por nossa culpa - graças que Ela nos conceda

Já passamos da idéia da reparação para uma outra idéia. Essa consideração certamente mostra quanto a reparação é necessária. Mas ela também pode ser que nos mostre que nosso amor é débil, que nosso amor é fraco. Então deveríamos fazer o seguinte pedido a Nossa Senhora - alguém no Grupo fez esse pedido e eu achei muito bonito; eu não vou dar o pedido exatamente como foi formulado, mas eu vou dar em linhas gerais.
E o pedido é esse, nas linhas que eu quero apresentar: Nossa Senhora está continuamente fazendo chover sobre o Grupo graças de amor a Ela; mas também de ódio e combatividade à obra que as forças das trevas fazem contra Ela. Bem, essas graças não são recolhidas tão amplamente como deveriam ser. Muitas delas caem no chão.
Então devemos - os que sejamos sensíveis ao apelo que estou aqui fazendo - dirigir a Nossa Senhora a seguinte súplica: que Ela nos dê todas as graças que os outros não aproveitam; que Ela encha nossas almas com todas as graças dadas e que os outros não aceitam, para reparar assim a tristeza que há nesse caudal de graças que fica sem aproveitamento; e para que ao menos em nós resplandeça o dom feito ao Grupo.
E essa é uma linda súplica que eu recomendo aos que se sentirem movidos interiormente a isso, que façam todos os dias do mês de Maio. Por exemplo, por ocasião da Comunhão. Dizer a Nosso Senhor, por meio de Nossa Senhora, que essas graças se ponham em nossa alma, que nós sejamos o receptáculo de toda combatividade, de todo espírito de intransigência, de toda incompatibilidade com o mal que deve caracterizar o verdadeiro membro do Grupo de "Catolicismo". Os senhores vêem que essa é uma súplica esplêndida e que nós poderíamos, portanto, tomar para nós, fazer nossa.
Parece-me também que seria interessante mudar essa devoção ao longo dos dias. Quer dizer, conservar essa intenção, mas em cada dia do mês de Maio consagrar esse dia a alguma reflexão sobre Nossa Senhora. Como  aqui vamos dar, em cada dia, uma reflexão sobre Nossa Senhora, uma notícia sobre uma devoção a Nossa Senhora; podia se tirar daí, se me lembrarem, diariamente, uma reflexão válida para o dia seguinte, que alimente nosso Rosário, nossa piedade, nesse resto de dia ou no dia seguinte, e que seria um modo de aproveitarmos utilmente o mês de Maio, numa visão verdadeiramente ultramontana.
Em cada dia desse mês eu autorizei que por ocasião do alardo se colocasse, se expusesse à veneração especial de todos uma imagem ou um quadro de Nossa Senhora, dos existentes em nossas sedes. Hoje vai começar pela mais venerável das nossas imagens, que é a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora que vem acompanhando o Grupo, de algum modo desde as suas nascentes. É uma imagem de minha propriedade particular, mas que eu pus na sala da Junta Arquidiocesana da Ação Católica, quando tínhamos a direção da Ação Católica. Quando nós nos retiramos, retirei a imagem que era de nossa propriedade e que passou para o altar de nossa capela e de lá para cá nós a vimos acompanhando até o dia de hoje. Então, essa vai ser a primeira imagem a ser venerada especialmente durante o mês de Maria.

Imagem da Virgem que pediu - milagrosamente - que a levassem do local ante o perigo de profanação

Restar-me-ia, antes de passar aos avisos, fazer um comentário a respeito de uma manifestação de Nossa Senhora, na cidade de Kiev, na Rússia. Estando a cidade assaltada pelos Tártaros e não podendo mais resistir, todos fugiam abandonando tudo. São Jacinto de Cracóvia, digno filho de São Domingos, ardentíssimo devoto de Nossa Senhora, foi despedir-se da imagem antes d’Ele mesmo fugir. Quando se recomendava a Ela, ouviu distintamente a imagem de alabastro murmurar: "E eu? Tu me abandonas? Leva-me". O santo não sabia o que fazer por ser a imagem pesadíssima e ele não poder carregá-la sozinho. Mas apenas a tomou em seus braços, a sente leve como uma pena. A imagem perde todo o seu peso, por um milagre da poderosíssima Mãe de Deus. E naturalmente ele fugiu com ela .

As manifestações de Nossa Senhora através de suas imagens e seu simbolismo

Os senhores vêem aqui neste fato, como Nossa Senhora preza suas imagens, como Ela se sente representada dignamente por suas imagens, e como Ela não deseja que se façam com suas imagens o que não é nem digno nem correto fazer-se a Ela. Ela obrou um prodígio para que sua imagem fosse levada embora de um local onde provavelmente seria profanada etc., por hereges ou outros quaisquer que estariam ameaçando o lugar.
De outro lado, entretanto, os senhores vejam como Nossa Senhora gosta de nos acompanhar presente nas suas imagens, e quer que as imagens d’Ela nos acompanhem. E assim operou um verdadeiro milagre para que essa imagem acompanhasse seus filhos ao longo do êxodo que iam fazer. Uma imagem de alabastro, pesadíssima, fala e é possível facilmente carregá-la... É um modo de dar a entender como Nossa Senhora quer estar presente no meio de seus filhos.
Há alguma aplicação para isso em nossa vida? Se as imagens de Nossa Senhora, se Nossa Senhora de tal maneira quer que suas imagens sejam de seus filhos, é para fazer notar quanto Ela nos acompanha em todas as vicissitudes, em todas as circunstâncias. A imagem d’Ela não nos abandona; muito mais, Ela não nos abandona. Quer dizer, em todas as situações em que nós estejamos, em todas as latitudes, em todas as longitudes, nas maiores elevações da vida espiritual, como nas situações também mais tristes da vida espiritual, há um olhar de Nossa Senhora que nos acompanha; há uma proteção, há uma providência de Nossa Senhora que nos acompanha e que nunca nos abandona. E isso nos deve dar exatamente uma sensação de tranqüilidade em relação às vicissitudes dessa vida.
O pensamento ao longo de todo o dia de amanhã: Nossa Senhora é minha Mãe e não me abandonará; e não me abandona inclusive na situação atual em que eu tanto preciso das graças d’Ela ou para progredir; ou para não regredir ou para qualquer outro fato. Ela não me abandona porque se uma imagem de alabastro, que afinal de contas não é senão alabastro, vai ao encalço dos filhos d’Ela, quanto mais a providência d’Ela, que é simbolizada pela imagem, quanto mais essa providência vai ao encalço dos filhos d’Ela. Nossa Senhora irá ao meu encalço como um bom pastor. E eu posso ter, portanto, essa tranqüilidade ao longo de minha vida: eu tenho a proteção e o olhar de Minha Mãe. Está aí um pensamento para o dia de amanhã, sugerido por essa devoção de Nossa Senhora de Kiev.

("Conferência", 1 de Maio de 1967)


domingo, 21 de maio de 2017

MARIA, CHEIA DE GRAÇAS


(COMENTÁRIOS DE DR. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA SOBRE A SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA - 22)


A propósito da plenitude da graça em Nossa Senhora,  importa considerarmos, ainda, o testemunho de São Luís Grignion de Montfort, acompanhado de sábias ponderações do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira.
Assim se exprime  aquele Santo: “Só Maria acho graça diante de Deus (Lc 1, 30) sem auxílio de qualquer outra criatura. E todos, depois d’Ela, que acharam graça diante de Deus, acharam-na por intermédio d’Ela e é só por Ela que acharão graça os que ainda virão. Maria era cheia de graças quando o Arcanjo Gabriel A saudou (Lc 1, 28) e a graça superabundou quando o Espírito Santo A cobriu com sua sombra inefável” (Lc 1, 28) (“Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, Editora Vozes, Petrópoles, 1961,6ª. Edição,  págs. 46)
Ouçamos agora o comentário que deste trecho nos faz o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:

“O pensamento é muito ligado ao admirável fato do crescimento da graça em Nossa Senhora.
Sempre cheia de graça, houve porém determinado momento em que a Santíssima Virgem, pela sua perfeita fidelidade, e por gratuita predileção de Deus para com Ela, adquiriu naquele instante a plenitude de dons celestiais correspondente: o momento em que o Espírito Santo A desposou, e n’Ela quis que Nosso Senhor Jesus Cristo fosse concebido.
São Luís Grignion, com a exatíssima e ardorosa linguagem que o caracteriza, depois de falar em plenitude, indica que houve um transbordamento de graças a partir do momento em que Nossa Senhora se tornou Esposa do Espírito Santo e Mãe do Salvador.
Tudo leva a crer que a gestação de Nosso Senhor Jesus Cristo, por ter sido perfeita, tenha durado nove meses normais. Nesse período, Maria Santíssima trazia consigo, como num tabernáculo, o Verbo Encarnado. Isso significava um processo interno de produção do corpo d’Ele, a qual deveria corresponder, certamente, um processo de união de alma como Filho que Ela estava gerando. Ela Lhe dava o corpo e Ele A revestia de graças em proporções inimagináveis.
Depois disso, Ela deveria aproveitar, com perfeitíssima fidelidade, os trinta anos de vida oculta de seu Divino Filho. Cada minuto de presença de Nosso Senhor Jesus Cristo na Sagrada Família representava imensa graça para Maria e São José, superiormente correspondida pelos dois.
E a santificação de Nossa Senhora continua até o momento em que, depois da Ascensão de Jesus Cristo, recebe o Espírito Santo para distribuí-Lo a toda a Igreja (em Pentecostes sabemos que o Espírito Santo desceu sobre Ela na forma de uma chama que, em seguida, se derramou sobre todos os Apóstolos).
Enfim, no momento em que Lhe era como que impossível crescer ainda em santidade, de tal maneira sua alma estava repleta de celestiais dons, Nossa Senhora teve a sua “dormição”, como é chamada sua morte, por uma linguagem teológica muito apropriada e muito poética”.


(Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado – João S. Clá Dias,pp. 50/52)


domingo, 7 de maio de 2017

A UNIÃO EUROPEIA VISTA EM SEU NASCEDOURO










Será que vencendo as eleições na França o centro político, indeciso e incoerente, conseguirá manter a União Europeia como está? O "Brexit", a saída da Inglaterra, poderá se ampliar a outros membros?
Na primavera de 1951 se constituía a primeira tentativa de uma federação europeia com o tratado chamado de CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço), assinado por apenas seis países, que expirou em 2002. Mas, já era o início de diversos outros tratados até os atuais, cuja filosofia é a mesma em todos.
Já no ano seguinte, 1952, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira comentava tal federação à luz da Doutrina Católica, em artigo na revista de cultura católica "Catolicismo". Ei-lo:

Plínio Corrêa de Oliveira
Uma das datas mais importantes deste século é sem dúvida a da reunião de Paris, em que os representantes da França, da Itália, da Alemanha Ocidental, e das pequenas potências do grupo Benelux – Bélgica, Holanda, Luxemburgo – decidiram, em princípio, a constituição da Federação Europeia, com a formação de uma só entidade de Direito Internacional Público, e, conseqüentemente, de um governo comum, a se acrescentar, com o caráter de superestrutura, aos vários governos nacionais.Antes da última guerra mundial, passaria por sonhador quem idealizasse tal plano para o século XXI, e por débil mental quem o imaginasse viável para nossos dias. A Europa ainda estava incandescente do ódio franco-alemão que ocasionara o conflito de 1914-1918, e haveria de desempenhar importante papel na deflagração de 1939-1945. Todas as nações europeias, estuantes de vida cultural e econômica própria, marcadas ainda em sua alma pelos ressentimentos, pelas ambições, pelas rivalidades herdadas dos Tempos Modernos, pareciam insusceptíveis de serem englobadas em um todo político por mais vago e frouxo que fosse. Seria necessária a tragédia da segunda guerra mundial e o conseqüente desmantelamento da economia das nações europeias, para que, extenuado o fôlego de sua vida cultural, e sujeitas todas ao risco iminente – e que já dura 7 anos – de uma nova invasão de bárbaros, as doutrinas unitárias encontrassem terreno propício, e o plano de uma Federação Européia se tornasse viável.

O alcance da fundação dos Estados Unidos da Europa
O verdadeiro alcance da formação dos Estados Unidos da Europa foi bem definido pelo Sr. Alcide De Gasperi, Presidente do Conselho de Ministros da Itália, que equiparou este acontecimento ao ato pelo qual as colônias inglesas da América do Norte se uniram para constituir uma Federação, e os cantões suíços renunciaram a ser um conglomerado de nações soberanas, para formar um Estado federal. O exemplo norte-americano é sobejamente conhecido. Sabe-se que a Inglaterra tinha na América do Norte treze colônias inteiramente distintas entre si, e ligadas diretamente à metrópole. Tornando-se independentes, deveriam constituir treze nações diferentes. Entretanto, essas colônias preferiram unir-se em uma só nação de caráter federativo. Menos conhecido, mas igualmente significativo, é o exemplo suíço. Quando, depois da queda definitiva de Napoleão em 1815, o Congresso de Viena reorganizou o mapa europeu, fez da Suíça, que era uma nebulosa política formada de numerosos pequenos cantões independentes, dominados cada qual pela respectiva classe dirigente – patriciado urbano ou aristocracia rural – uma Confederação de 22 cantões perfeitamente independentes entre si, e ligados apenas por um “pacto federal” que em última análise não passava de um tratado de aliança e boa vizinhança. A Suíça continuava, pois, a não ser um Estado, mas um conglomerado de Estados. Esta situação só cessou quando, depois de uma série de lutas cruentas, em que as elites locais reagiam contra a centralização, e os católicos gloriosamente ligados no “Sonderbund” procuravam evitar a hegemonia protestante, os partidários da formação de um Estado suíço venceram. Nasceu daí a constituição suíça de 1843 que, sem suprimir os cantões com seus governos locais (à maneira dos Estados norte-americanos, ou brasileiros) incumbidos da direção dos assuntos também locais, colocava os interesses comuns nas mãos de um só governo central, de caráter federativo. A atual República Suíça estava fundada.
No fenômeno americano, como no suíço, há pois a marcha da independência para a Federação. Os Estados, outrora independentes uns dos outros, passaram a ser simplesmente autônomos, dando lugar à absorção das soberanias locais por um governo central.
É o que, segundo o “premier” italiano soube claramente exprimir, acaba de ser resolvido na Europa. Entre a França e a Alemanha, a Itália e a Holanda, etc., haverá daqui por diante, não os abismos que até agora existiam, mas apenas a linha demarcatória de interesse quase exclusivamente administrativo, que existe entre Ohio e Massachusets, Rio e São Paulo, ou Lucerna e Friburgo.
Como se vê, trata-se de um acontecimento imenso. São nações que desaparecem depois de ter enchido o mundo e a História com a irradiação de sua glória… e um novo Estado Federal que aparece, cujo futuro não é fácil de prever.
Viabilidade do novo plano
O primeiro obstáculo para a cabal realização do plano – que por enquanto existe apenas no papel, como o Exército do Atlântico e outras coisas que tais – está numa provável guerra mundial. Ninguém pode prever o que sucederá a esta Federação em estado germinativo, ao longo da guerra, e depois dela. Tanto poderá consolidar-se de vez, quanto poderá ser queimada no incêndio, sem que sequer se note o traço de suas cinzas.
Ainda que façamos abstração da guerra, outras dificuldades aparecerão. Uma Federação que procura passar a esponja sobre tantos séculos de História, evidentemente não pode ser construída só por um grupo de políticos e homens de gabinete, mediante a assinatura de um tratado. É preciso uma longa propaganda junto aos povos federados, para fazer nascer neles a consciência de que, por cima dos blocos nacionais em que se sentem integrados por vínculos que estão na massa do sangue e são fáceis de perceber, paira um todo federal abstrato, que não está na massa do sangue mas apenas na tinta com que se escreveu um tratado. E enquanto esta consciência não se forma é claro que o novo organismo não começou a ter vida natural e real. Não está aí, porém, a verdadeira dificuldade. O homem contemporâneo, despersonalizado, extenuado, desorientado pela confusão reinante, vivendo na dependência mental – à qual tão gostosamente se entrega – da imprensa, do rádio, da televisão etc., pode facilmente ser persuadido de qualquer coisa. Há técnicos que fabricam em sua alma “consciências” de coisas reais ou irreais, que nunca estiveram efetivamente na mentalidade do público, com a desenvoltura com que os cirurgiões enxertam num organismo humano um pedaço de carne, um dedo ou um olho que até aqui lhe foi absolutamente extrínseco. O perigo está antes na formação de correntes nacionalistas em alguns países “federados”. Mas ainda isto não parece viável. Uma humanidade que, dia a dia, se vai tornando mais ávida de alimento, tranqüilidade e prazeres, não é naturalmente propensa a se entusiasmar por si mesma, em favor de nacionalismos de qualquer espécie…
Assim, pois, resumindo nossa impressão, tudo indica que, exceto uma guerra, nenhum fato natural deterá a constituição da Federação. Tanto mais quanto seus dirigentes já declararam oficialmente que saberão andar passo a passo, montando aos poucos as peças do novo organismo, e começando judiciosamente pelos alicerces.
A Federação é uma novidade?
Se se pergunta se é uma novidade a Federação, a resposta deve ser negativa. A Europa já constituiu, em outros tempos, um grande todo de natureza federal, pelo menos no sentido muito amplo e muito genérico da palavra.
Em 476, o Império Romano do Ocidente deixou de existir. O território europeu, coberto de hordas bárbaras, não possuía Estados definidos e de fronteiras duráveis. Era toda uma efervescência de selvageria, que só foi amainando à medida que a ação dos grandes missionários assegurou, um pouco por toda parte, um início de pujante germinação para a semente evangélica. A esta altura, tornando os costumes menos rudes, a vida menos incerta e turbilhonante, a ignorância menos espessa, estava constituída na Europa um grande conglomerado de povos cristãos que, por sobre todas as suas diversidades naturais, estavam unidos por dois vínculos comuns profundos, nascidos de um grande amor, e de um grande perigo:
a) – sinceramente, profundamente cristãos, adorando pois em espírito e verdade (e não apenas em palavras e rotina) a Nosso Senhor Jesus Cristo, amavam e desejavam verdadeiramente praticar a Sua Lei, e estavam convictos de sua missão de estender o domínio desta Lei até os últimos confins da terra;
b) – como fruto desta fé coerente e robusta reinava em todos os espíritos um mesmo modo de conceber o homem, a família, as relações sociais, a dor, a alegria, a glória, a humildade, a inocência, o pecado, a emenda, o perdão, a riqueza, o poder, a nobreza, a coragem, em uma palavra, a vida;
c) – daí, também, uma forte e substancial unidade de cultura e civilização, a despeito de variantes locais prodigiosamente ricas em cada nação, em cada região, e em cada feudo ou cidade;
d) – diante da dupla pressão dos sarracenos vindos da África, e dos pagãos vindos do Oriente da Europa, a ideia de um imenso risco comum, em que todos deviam auxiliar a todos, para uma vitória que seria de todos.
Todo este conjunto de fatores de unidade encontrou seu grande catalisador em Carlos Magno (742-814), que encarnou aos olhos de seus contemporâneos o tipo ideal do soberano cristão, forte, bravo, sábio, justiceiro e paternal, profundamente amante da paz, mas invencível na guerra, considerando sua mais alta missão pôr a força do Estado ao serviço da Igreja para manter a Lei de Cristo em seus reinos, e defender a Cristandade contra seus agressores. Este homem símbolo realizou seus ideais, e quando Leão III, no ano de 800, na Igreja de Latrão, o coroou Imperador Romano do Ocidente, deu o mais alto remate à obra que Carlos Magno estava levando a efeito: ficava constituído, abrangendo toda a Europa cristã, um grande Império, destinado antes de tudo a manter, a defender, a propagar a Fé.
Este Império durou de 809 a 911. Em 962, o Imperador Othão, o Grande o ressuscitou, dando origem ao Sacro Império Romano Alemão. Assim, com vicissitudes diversas, das quais a mais terrível foi a cisão trágica do protestantismo e a eclosão das tendências nacionalistas, no século XVI, manteve-se pelo menos teoricamente esta grande instituição até 1806, quando Napoleão Bonaparte obrigou Francisco II, o último Imperador Romano Alemão, a aceitar a extinção do Sacro Império, e a assumir o simples título de Imperador da Áustria com o nome de Francisco I.
Não obstante certos períodos de crise, o Sacro Império teve grandes eras de glória, e sua estrutura serviu de fato para exprimir o ideal cristão de uma grande família de povos, unida à sombra maternal da Igreja, para manter a paz, a Fé, a moral, para defender a Cristandade, e apoiar no mundo inteiro a livre pregação do Evangelho.
Que pensar da Federação Européia?
Assim, em princípio, vê-se que a Igreja não se limita a permitir, mas favorece de todo coração as superestruturas internacionais, desde que se proponham um fim lícito. Em essência, pois, só merece aplausos a ideia de aproximar num todo político bem construído, os povos europeus.
As circunstâncias de momento parecem tornar particularmente oportuna a medida. Diante de um inimigo externo comum, lutando com uma crise econômica internacional, nada mais justo e recomendável do que todas as nações da Europa livre convergirem para lutar e vencer.
Mas aprovar a ideia em princípio é uma coisa. Aprová-la incondicionalmente, quaisquer que sejam suas aplicações práticas, é outra. E até esta incondicionalidade não podemos chegar.
Vivemos em uma época de estatização brutal. Tudo se centraliza, se planifica, se artificializa, se tiraniza. Se a Federação europeia entrar por este caminho, aberrará das normas muito sábias do discurso do Papa Pio XII aos dirigentes do movimento internacional em favor de uma Federação Mundial.
Antes de tudo, devemos fazer sentir que a Igreja é contrária ao desaparecimento de tantas nações para constituir um só todo. Cada nação pode e deve manter-se, dentro de uma estrutura supranacional, viva e definida, com seus limites, seu território, seu governo, sua língua, seus costumes, sua lei, sua índole própria. A Alemanha é uma nação, a França outra, a Itália outra. Se alguém as quisesse fundir como quem joga num cadinho jóias de finíssimo valor, para as transformar num maciço lingote de ouro, inexpressivo, anguloso, vulgar, certamente não agiria segundo as vistas de Deus, que criou uma ordem natural na qual a nação é uma realidade indestrutível. Assim, pois, se a Federação Europeia tomar este caminho, será mais um mal, do que um bem. Deve ela ser a protetora das independências nacionais e não a hidra devoradora das nações. As autoridades federais devem existir para suprir a ação dos governos nacionais em certos assuntos de interesse supranacional; nunca para os eliminar. Sua atuação nunca poderá ter em vista a supressão das características nacionais de alma e cultura, mas antes, na medida do possível, seu robustecimento. Precisamente como no Sacro Império, em que cada nação podia desenvolver-se, dentro da órbita dos interesses legítimos e comuns da Cristandade, segundo a sua índole peculiar, sua capacidade, suas condições, ambientes, etc.
De outro lado, a estruturação econômica não deve chegar a um planejamento tal, que implique numa supersocialização. Se o socialismo é um mal, sua transposição para o plano superestatal não poderá deixar de ser um mal ainda maior. No Sacro Império, todo penetrado de feudalismo, de regionalismo sadio, de autonomismo municipal, do autonomismo grupal das corporações, Universidades etc., tal perigo só começou a se infiltrar quando apareceu, com os legistas, a semente do socialismo hodierno. Mas os legistas foram sempre uma excrescência na Cristandade, e sua influência coincidiu precisamente com o declínio do verdadeiro ideal cristão do Estado.
Por fim, permita-se-nos uma afirmação bem franca. Nenhuma sociedade, seja ela doméstica, profissional, recreativa, seja ela Estado, Federação de Estados, ou Império mundial pode produzir frutos estáveis e duráveis se ignorar oficialmente o Homem Deus, a Redenção, o Evangelho, a Lei de Deus, a Santa Igreja, e o Papado. Ocasionalmente, podem alguns de seus frutos ser bons. Mas se forem bons não serão duráveis e, se forem maus, quanto mais duráveis tanto mais nocivos.
Se a Federação Européia se colocasse à sombra da Igreja, fosse inspirada, animada, vivificada por Ela, o que não se poderia esperar? Mas, ignorando a Igreja como Corpo Místico de Cristo, o que esperar dela?
Sim, o que esperar dela? Alguns frutos bons, que convém notar e proteger de todos os modos, sem dúvida. Mas como é fundado esperar também outros frutos! E se estes frutos forem amargos, quanto se pode temer que nos aproximemos assim da República Universal cuja realização a maçonaria há tantos séculos prepara?
 (“Catolicismo”, fevereiro de 1952)