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segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

O QUE PENSAR DOS BAILES?

 





O texto  abaixo é de Dr. Plínio Corrêa de Oliveira:

“Não daríamos por concluída nossa tarefa sem uma observação a respeito dos bailes.  É de toda a evidência, e até uma banalidade, que dançar não constitui, em si, um mal, mas que as circunstâncias que podem existir concretamente fazem, em geral, da dança um mal bastante grave.

Fala-se tanto - e com quanta razão! - da doçura de São Francisco de Sales. O conselho que o Santo Doutor dar a respeito da dança é concludente, e mostra como lhe pareciam perigosas as danças de seu tempo:

"Falo-vos dos bailes, Filotéia, como os médicos falam dos cogumelos; os melhores de nada valem, dizem eles; e eu vos digo que os melhores bailes não são bons. Se por qualquer motivo  de que não conseguirdes desculpar-vos, vos for necessário ir ao baile, velai por que vossa dança seja decente. Dançai pouco, e poucas vezes, pois que do contrário correreis o risco de voas afeiçoar à dança... e outras recreações  que dissipam o espírito de devoção, tornam langorosas as forças, tornam tíbia a caridade e despertam na alma mil variedades de mal afetos; eis porque é necessário  servir-se delas com grande prudência". De que maneira dançar? São Francisco de Sales o explica: "com decoro, dignidade e boa intenção". Que diria o Santo Doutor de certas danças modernas, como a "conga", em que os pares formam longos cordões pelo salão, segurando-se uns aos outros, gesticulando e gritando como crianças? Encontraria ele um meio de se dançar "com decoro" e dignidade a "conga", quando já lhe parecia isto problemático quanto ás danças suaves, artísticas e delicadas de seu tempo?

Certamente não. Muitas pessoas entendem que, porque São Francisco de Sales autorizou, em tese, que se fosse a bailes, fazendo-o embora muito a contra-gosto e cheio de apreensão, se deve com a maior liberalidade estender a quem quer que seja esta autorização. Estas pessoas tomariam o cuidado de aconselhar aos que dançam que façam uso de certos pensamentos salutares durante a dança? E teriam a coragem de aconselhar os pensamentos  que São Francisco de Sales menciona? Quais são eles?  "Pensai, diz o Santo, nas almas que ardem no inferno por causa das faltas que cometeram nos bailes; pensai nos santos religiosos que, enquanto vos divertis, cantam os louvores a Deus; pensai nos homens que no mesmo momento estão sofrendo ou morrendo; pensai em Nosso Senhor, em Nossa Senhora, nos anjos e santos que vos viram no baile, e que tiveram grande pena de ver vosso  coração distraído com tão grande tolice e atento a uma tal sensaboria;  pensai na morte que se aproxima zombando de vós, e que vos faz sinal para que entreis na dança macabra onde os gemidos substituem o violino, e onde fareis vosso trânsito da vida à morte". É interessante ler, neste sentido, a 3a. parte do capítulo XXXIII da jamais assaz louvável "Introdução à Vida Devota".

Vale para quaisquer espécie de reuniões dançantes esta importante observação que faz, em uma interessante monografia sobre "Os Católicos e as novas danças", o insigne dominicano Pe. Vuillermet, O.P., de cuja obra extraímos quase todas as nossas citações sobre danças:

"É raro que as danças frequentes e regulares se conservem como simples distração. Elas se tornam, pelo contrário, e é esta a observação de quase todos os moralistas, uma ocasião de intimidade e de encontros para pessoas que acham assim um meio fácil e aparentemente insuspeito, de dar à sua paixão um alimento de que são sempre ávidas. E mesmo quando não existe este desejo inicial, não é certo que a frequência dos mesmos encontros faz nascer a paixão, tanto mais quanto estes encontros são muitos perigosos porque prolongados? Dança-se hoje durante toda uma festa com a mesma pessoa, o que seria outrora uma grave incorreção; e, depois de ter desaparecido a primeira cerimônia, e quando a familiaridade se vai introduzindo entre o jovem e seu par, não é certo que o pudor se vai debilitando? Não se faz mais a fiscalização dos sentimentos, e insensivelmente os pensamentos e desejos que outrora teriam revoltado a consciência se aclimatam na inteligência e no coração. - Considero, pois, que estas danças frequentes com a mesma pessoa são extremamente perigosas".

Depois de considerações mais indulgentes quanto a pequenas reuniões dançantes absolutamente esporádicas e improvisadas na intimidade de uma família, que entretanto "conservam numerosos inconvenientes  que decorrem da sua natureza", o autor acrescenta a seguinte conclusão: "teoricamente a dança não é imoral... e só se pode tornar tal acidentalmente. Mas não posso negar que, na prática, o acidental seja o mais frequente. As pessoas que pecam por ocasião da dança são incomparavelmente mais numerosas do que as que não pecam. A causa deste fato está, em parte, na diminuição da Fé e no abandono  dos exercícios de piedade, e de outra parte no relaxamento dos costumes que faz com que hoje em dia se permitam, na dança, tais liberdades que é muito raro que a virtude não fracasse durante ela". Estas linhas são de 1924. Que diria o autor das danças de 1942!

Em 1924, a Europa sofria da invasão de certas danças americanas - que hoje nos parecem tão modernas - e que suscitaram entretanto inúmeras condenações da Hierarquia na França. O Cardeal Dubois, o Arcebispo de Chambéry, o Bispo de Lille, condenaram sucessivamente as danças novas. O Arcebispo de Cambrai escreve:

"O tango, o fox-trot e outras danças análogas são diversões imorais em si mesmas. Elas estão proibidas  pela própria consciência, por toda parte e sempre, anteriormente às condenações episcopais e independentemente delas".  E Bento XV, na Encíclica "Sacra prope diem" diz: "estas danças exóticas e bárbaras , recentemente importadas nos círculos mundanos, mais chocantes umas que as outras, são o que há de mais próprio para banir todos os vestígios de pudor". Muitas destas danças provinham das mais baixas camadas de indígenas americanos, e delas disse em sua Carta Pastoral Mons. Charost: "Edulcore-se quanto se queira este enxerto bárbaro, corrija-se com maior ou menor perícia seu despudor nativo. Logo que encontre um temperamento próprio, este enxerto retomará seu ardor e sua violência natural. Ele é o vírus da carne pagã penetrando em um organismo social que dezessete séculos de espiritualismo cristão e de dignidade moral haviam modelado. Ele é mais do que a revolta - de que nenhum cristão foi isento - ele é, no fundo e por tendência, a anarquia do instinto.

Das danças modernas, muitas das quais evidentemente adaptadas e importadas dos "bas-fonds" das velhas danças pagãs de negros norte-americanos, que se poderia dizer?

Quanto aos bailes infantis, porque não reproduzir aqui, como afirmação do que com tanta eloquência disseram nossos Bispos, o que escreveu Luís Veuillot? "Estes bailes infantis são, diz-se, um espetáculo encantador. Sim, para os olhos."

"Mas que triste cena, quando atendermos aos murmúrios da razão. Meninas de oito anos fazem a aprendizagem da vaidade e da faceirice; elas já são hábeis na arte do sorriso, da pose, das atitudes, das inflexões musicais da voz. Os meninos tomam porte e expressões fisionômicas variadas, segundo as indicações maternas: tomam  expressão cavalheiresca, pensativa ou importante; outros se fazem de espertos ou melancólicos, conforme lhes fique melhor. As mães aí estão radiosas. Mas a cena é feia. Percebe-se que os personagens do baile em miniatura foram profanados na flor de sua simplicidade graciosa e ingênua, desde o berço. A impressão de uma pessoa razoável, testemunhas de uma destas festas chamadas de inocência, era de que se experimenta um desejo ardente de chibatear, a torto e a direito, toda a pirralhada"  (Luís Veuillot, "L'Univers, 28.12.1858).

Para encerrar, vejamos o que a este propósito fez aquele que a Santa Igreja aponta como modelo de todos Párocos modernos.

Extraímos nossas citações da magnífica obra de Mons. H. Convert, "Le Saint Curé D'Ars et le Sacrement de Pénitence", ed. Ammenuel Vitte, 1931, pgs. 18-21).

"Tanto o interesse geral do rebanho confiado à guarda de M. Vianney quanto o de certas almas mais particularmente expostas a perder-se exigia o desaparecimento de uma tão perniciosa desordem (as danças). Ele refletiu nisto, e, desde então, se resolveu a aplicar, ao pé da letra, os princípios da Teologia Moral sobre os pecadores ocasionais e os reincidentes, com uma grande bondade, mas também com uma energia de bronze, que nada faria recuar. Ele recusou, com efeito, a absolvição, mesmo no tempo pascal, a todas as pessoas que haviam dançado, ainda que fosse uma vez, no decurso do ano; e, enquanto ele "julgava provável que elas tornariam a cair no seu pecado", afastava-as da participação nos sacramentos. Elas podiam vir confessar-se, e,  de fato, a maior parte continuava a vir; ele as encorajava, exortava-as a mudar de vida, mas não as absolvia. "Se não vos corrigis, lhes dizia, estais condenados!"

"Este procedimento, como se pode conceber, suscitou muitas recriminações; comentou-se abertamente, e de todas as maneiras, de que o Sr. Cura "não era cômodo"; comparou-se o seu método com o de seus confrades mais indulgentes; qualificou-se o Cura D'Ars de "escrupuloso, de ingrato" (no idioma da região, ingrato quer dizer aborrecido, desagradável). Certas pessoas foram confessar-se nas paróquias vizinhas; ele lhes retrucou que elas tinham ido buscar "um passaporte para o inferno". Entre si, estas pessoas o acusavam, dizendo: "Ele quer fazer com que nós prometamos coisas que não podemos cumprir; ele quereria que fôssemos santos, e isto não é muito possível no mundo. Ele quereria que nós jamais puséssemos os  pés na dança, e que jamais frequentássemos os "cabarets" e os jogos. Se tudo isto fosse necessário, jamais faríamos a Páscoa..."  Contudo, "não se pode dizer que não mais se voltará a estes divertimentos, pois que não se sabem as ocasiões que se poderão deparar". A esta argumentação interesseira, ele replicou: "O confessor, enganado, por vossa linguagem artificiosa, vos dá a absolvição, e vos diz: "Sede bem comportados! "Por mim, eu vos digo que fostes calcar aos pés o sangue adorável de Jesus Cristo, que fostes vender vosso Deus como Judas o vendeu aos seus carrascos".

"Que ganhou o Cura D"Ars com tal método? Muitos jovens de ambos os sexos ficaram excluídos dos sacramentos durante anos inteiros... É verdade. Poder-se-á pensar, poder-se-á dizer que foi um mal? De outro modo, eles os teriam recebido nula, senão sacrílegamente; eles teriam aliado as práticas da vida cristã e as desordens do coração; a paróquia teria parecido convertida, sem o estar na realidade; as pompas de Satanás estariam sempre prestigiadas, o príncipe das trevas teria ficado o verdadeiro senhor da situação.  Ora, o Cura D"Ars queria que, de seu rebanho, Jesus Cristo fosse rei sem contraste. Por Jesus Cristo ele se empenhou numa guerra de mais de vinte anos, disputando palmo a palmo o terreno ao inimigo, sacrificando na batalha seu repouso, e, mesmo transitoriamente, sua reputação, derramando seu sangue aos borbotões quase todos os dias, extenuando-se de fadigas e de jejuns. A vitória foi, por fim, completa, definitiva; a piedade e a virtude puderam florescer à vontade sobre esta terra purificada e conquistada para seu único Mestre, e ainda hoje continuamos a saborear os seus frutos.

"De resto, digamo-lo de passagem, não foi somente frente às danças que apareceu a firmeza do Cura D'Ars. "O pecador que não se rendia às suas ternas admoestações - assim depôs seu coadjutor - encontrava-o inflexível em manter as regras e esbarrava numa barreira infrangível".

Acrescenta em nota o mesmo autor: "As danças foram logo abolidas na paróquia, embora experimentasse reaparecer de longe em longe. A partir de 1832 não se fala mais delas. Mas rapazes e moças quiseram se desenfastiar indo dançar na vizinhança. Foi então, sobretudo, que o Santo se armou de uma intransigente firmeza. [1]


(Extraído de “A Felicidade Através da Castidade” - Págs. 176/280 – O texto completo desta obra pode ser obtido enviando mensagem para meu e.mail juracuca@gmail.com )



[1] "Em Defesa da Ação Católica" - Plínio Corrêa de Oliveira – Artpress Papeis e Artes Gráficas Ltda,  págs. 255/260.

 


sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

OCASIÕES DE PERIGO, O BAILE

 


O baile, ou as danças de modo geral, tem sido a preocupação constante de muitos moralistas antigos e de bons pais de família. Toda festa de família, ou entre amigos, tem no baile seu ponto principal. Especialmente no mundo de hoje é voz corrente que trata-se de uma diversão inocente e sem quaisquer efeitos danosos para as virtudes cristãs. Até mesmo grupos de católicos, reunidos em torno de sua paróquia, e ás vezes sob o patrocínio do vigário, pároco ou capelão, fazem seus bailes com muita animação e em completa falta de prevenção de algum malefício que possa causar às almas, especialmente das pessoas mais jovens e imaturas.

Em geral, alegam que não há mal nenhum, pois até Davi dançava em torno da Arca da Aliança. Mas, fazem tal afirmação sem ponderar de que modo e em que circunstâncias o Rei Profeta dançava. Então é bom notar que as danças realizadas entre aquele povo eram, em geral, danças guerreiras, onde havia muito mais a exaltação de feitos gloriosos e guerreiros, e a comemoração de fatos extraordinários.

Basta que busquemos o exemplo na Sagrada Família, da qual nunca se ouviu falar de haver participado de nenhum baile. A festa de casamento realizada em Caná, comentada por São João no seu Evangelho, foi feita sem que houvesse baile ou qualquer tipo de danças. Aliás, poderia até haver algum tipo de baile comemorativo naqueles tempos, mas do qual poderemos indagar se continham passos ou ritmos alucinantes e convidativos para a sensualidade ou para alguma licenciosidade momentânea. Não, certamente que não; se havia alguma dança, especialmente entre os hebreus, era coisa mais séria do que hoje.

A dança de Salomé, pedindo a cabeça de São João Batista, mostra que havia isso entre os pagãos, por causa das cerimônias idolátricas cheias de convites aos vícios e pecados. E alguma coisa de costumes pagãos poderia medrar entre os hebreus, mas não era proveniente da salutar vida religiosa daquele povo, mas copiada de estrangeiros.

Vejamos o que diz dos bailes Francisco Spirago:

“O baile é particularmente perigoso para os que dançam muito ou livremente, ou que, por ocasião do baile têm incorrido já em pecado mortal.

O baile não é por si mesmo coisa torpe ou proibida, senão meio de distrair-se, concluído o trabalho, e de espairecer a alma com honesta diversão; assim mesmo pode ser útil para fomentar a benevolência entre os homens. Entre os judeus (ainda que em forma totalmente diversa do baile moderno), se juntou com certas cerimônias do culto divino.  Assim o rei  David dançou com santo entusiasmo diante da Arca (2 Reis 6, 14), mas as danças em geral tinham o caráter guerreiro naquele tempo. As donzelas hebreias dançavam em coros, em algumas festividades religiosas (Jud. 21, 21; Ex. 15, 20). Até os anjos no céu formam coros e danças diante do Senhor. Porém não se pode dançar no tempo proibido (no Advento, na Quaresma, etc.), ou com pessoa inconveniente (como sucede com frequência nos bailes públicos), nem tais danças em que se fazem gestos ou se tomam posições pouco honestas.

Com tudo isto, na atualidade se pode dissuadir resolutamente o baile a quem quer que seja, porque no mais dos bailes (de parceria), pela mesma posição dos dançarinos (pegados pela mão e pela cintura), se ferem as regras da moralidade e da decência. Para muitos se converte o baile numa paixão, desperta feias inclinações, afugenta o espírito de devoção e é causa de futuras imoralidades.  Ao mesmo tempo o baile é muito contrário à saúde corporal. O respirar um ar adensado pelo pó; a transpiração de muitos que suam; e a respiração agitada; o esfriamento pela bebida inconsiderada em estado de fadiga, a excessiva tensão do esforço (pois em algumas horas saltando se percorre o espaço de várias milhas), produzem às vezes a tísica ou enfermidade do coração. E que desordem se nota no regresso noturno do lugar do baile, na ocasião em que estão superexcitadas as paixões!  Por isto muitos varões apostólicos têm reprovado inteiramente o baile e têm falado como São Efrém: Onde há baile, há tristeza dos anjos e júbilo dos demônios. E em outro lugar: não é possível saltar e bailar aqui e gozar depois dos eternos gozos; pois disse o Senhor: Ai de vós, os que agora ris! Porque chorareis e estareis tristes.

Em certas horas não podem algumas pessoas se recusarem de dançar, por exemplo, nas bodas, festas de família, etc.;  ou quando os pais, esposos, noivos ou parentes solicitam que se faça. Em certos casos, dança pouco e não muitas vezes; o baile seja para ti recreação e não agitação, e não te esqueças da presença de Deus.  O que uma vez, por ocasião do baile, tem caído em pecado mortal, deve evitar, de futuro, todo o possível este perigo; pois do contrário nenhum confessor o poderá absolver (se entende, enquanto tenhas esta intenção). Se alguma pessoa te convida a dançar pode desculpar-se dizendo-lhe com toda verdade: "Perdoe-me você. Me faz mal (à saúde)". Aqui há que apelar para as palavras do Salvador: Se tua mão ou tem pé te escandalizam... (Mt 18, 9); isto é, mais vale renunciar ao baile, e ser um dia bem-aventurado, que dançar agora e condenar-te depois”. [1]

(Extraído de “A Felicidade Através da Castidade” , Págs. 274/275 – O texto completo desta obra pode ser obtido enviando mensagem para o meu e.mail juracuca@gmail.com )



[1] "Catecismo Popular Explanado" - Francisco Spirago - págs. 550/552