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quinta-feira, 23 de setembro de 2021

AGAR, ESCRAVA DE SARA, DEIXOU DESCENDENTES?

A Sagrada Escritura faz suas revelações colocando em destaque sempre os Patriarcas. Eva só é importante enquanto companheira do Patriarca Adão. Depois de Eva, por muito tempo não se fala senão nos homens ou patriarcas. Adão e Eva tiveram muitas filhas, mas na Bíblia só se fala em Caim e Abel. Quando Caim se casou se registra o fato assim: “E Caim conheceu sua mulher, a qual concebeu e deu à luz Henoc”. Quem era esta mulher de Caim? Evidentemente que era uma filha de Adão, merecendo portanto ser pelo menos nominada, mas não se sabe quem foi. Importante é Caim, é Set, é Henoc, porque eram patriarcas. A Sagrada Escritura começa a falar de mulheres para registrar o surgimento da poligamia: “E este tomou duas mulheres, uma chamada Ada, e outra Sela” (Gn 4, 17-19). Mas logo em seguida os filhos masculinos de Ada são citados, Jabel e Jubal, assim como o de Sela, Tubalcain, ao lado de sua irmã Noema. Jabel era designado como um dos que “habitava sob tendas e dos pastores”, Jubal foi o mestre, o pai, dos que tocam cítara e órgão, Tubalcain era artífice em toda qualidade de obras de cobre e de ferro, mas de Noema nada se fala. Ela poderia ter sido, por exemplo, exímia na arte de tecer, mas nada se diz. Em seguida a Sagrada Escritura fala de Set, filho de Adão. Depois, dentre os filhos de Set fala-se apenas de Enós, por que este “começou a invocar o nome do Senhor”. E toda a genealogia de Adão segue assim: gerou filhos e filhas, mas depois de Set aparece apenas citado o nome de Enós, que gerou Cainan, que gerou Malaleel, que gerou Jared, que gerou Henoc, que gerou Matusalém, etc. Henoc também gerou filhos e filhas, mas apenas os filhos são citados. Matusalém gerou Lamec, que gerou Noé. Todos estes patriarcas viveram trezentos, quatrocentos, quinhentos ou até novecentos anos, e geraram filhos e filhas. Mas apenas seus nomes são citados. Por que? Porque eles eram os patriarcas, eram os chefes das clãs, os principais - os demais, dentre os quais as mulheres, não tinham tanta importância para serem citados ou lembrados. Inicialmente, a mulher foi citada como a grande vencedora da serpente: "Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela, e ela te pisará a cabeça com seu calcanhar" (Gên 3-15). Os teólogos vêm no texto uma clara alusão à Maria Santíssima, Mãe do Salvador. Depois, as mulheres começaram a ser referidas de uma forma coletiva (sem citar nomes) nas ocasiões em que causavam a perdição dos homens. Foi assim que “tendo os homens começado a multiplicar-se sobre a terra, e tendo gerado filhas, vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram por suas mulheres...” Na Sagrada Escritura, alguns interpretam que “filhos de Deus” eram aqueles que viviam santamente, os descendentes de Set, mas o próprio Santo Agostinho interpreta o termo "filhos de Deus" como sendo os anjos. A interpretação de Santo Agostinho é corretíssima, pois não haveria motivos para a Bíblia se referir aos "filhos de Deus" como sendo os homens, porquanto era comum os homens tomarem as mulheres para si. Embora não possa se descartar a idéia de se chamar os homens bons também de “filhos de Deus”, que realmente eles o são. Pelo texto se entende, então, que alguns anjos tomaram algumas das filhas dos homens como mulheres. E como se trata de uma ação maléfica, se depreende que tais anjos eram os demônios. De outro lado, as chamadas “filhas dos homens” eram as que praticavam o pecado, as descendentes de Caim. A coisa chegou a tal ponto que geraram gigantes entre eles, “homens possantes e desde há muito afamados” (Gên 6, 4). A decadência era tamanha que Deus resolveu acabar com a humanidade e mandou o dilúvio. Em atenção à Noé, Patriarca puro e fiel a Deus, foi preservada a sua posteridade e dado continuidade ao povoamento da terra pelos homens. Quando tinha quinhentos anos, Noé teve seus filhos. Quais eram os filhos de Noé? Sem, Cam e Jafet. Na hora de entrar na arca, entraram também as mulheres de Noé e dos filhos, mas quem eram elas? Não se sabe, pois seus nomes não são citados. Após o dilúvio, saíram todos da Arca e está escrito: “Estes são os três filhos de Noé, e por eles se propagou todo o gênero humano sobre a terra”. (Gn 9, 10). Se propagou como? A Sagrada Escritura não fala mais sobre as mulheres dos filhos de Noé nem de outras pessoas. A partir daí se começa a descrever toda a genealogia patriarcal da posteridade de Noé. Dois foram, portanto, os principais patriarcas da Humanidade, Adão e Noé, mas seus descendentes citados na Bíblia eram somente patriarcas das épocas em que viveram. Vieram depois os patriarcas do povo eleito, que veremos a seguir. AGAR – Escrava de Sara, esposa de Abraão. Como Sara era estéril a entregou a Abraão para com ela ter filho, segundo costumes daqueles tempos. Dela nasceu o primeiro filho de Abraão, Ismael, o patriarca que deu origem aos ismaelitas, atuais árabes. Como Sara a tratasse mal resolveu fugir para o deserto. Estando lá lhe apareceu um Anjo e lhe ordenou que voltasse para a companhia de sua antiga patroa (Gen 16, 1-16), indicando que a submissão pela escravidão não era condenada por Deus. Depois que nasceu o filho legítimo de Abraão com Sara (Isaac), esta pediu ao patriarca para expulsar Agar e Ismael de sua companhia. Novamente foram para o deserto, onde foram amparados por Deus. São Paulo se refere a Agar como figurando o Antigo Testamento e Sara o Novo (Gál. 4, 24), o filho da escravidão e o filho legítimo. Agarenos – Tribo de nômades árabes, descendentes de Ismael, filho de Agar. Por suas guerras contra atribo de Rubem deviam viver na antiga Transjordânia (I Par 5, 10). Foram vencidos e submetidos pelos israelitas no tempo do rei Saul (I Par 5, 18 e ss). A Wikipédia assim define o termo: Agarenos ou Hagarenos (em grego: Ἀγαρηνοί; transl.: Agarenoi; em siríaco: ܗܓܪܝܐ‎ ou ܡܗܓܪܝܐ; transl.: Hagráyé ou Mhaggráyé é um termo amplamente usado por fontes primitivas siríacas, gregas, coptas e armênias para se referirem aos primeiros conquistadores árabes da Mesopotâmia, Síria e Egito. O nome foi usado na literatura judaico-cristã e em crónicas bizantinas aplicado primeiro aos árabes Hanif[a] e posteriormente às forças islâmicas como sinônimo de sarracenos. O termo siríaco Hagraye pode ser traduzido como "os seguidores ou descendentes de Agar, enquanto Mhaggraye está provavelmente relacionado com o termo árabe Muhajir (primeiros seguidores de Maomé). Alguns estudiosos pensam que os termos podem não ter origem judaico-cristã. Patricia Crone e Michael Cook defendem no seu livro "Hagarism: The Making of the Islamic World" que o termo foi introduzido pelos próprios muçulmanos para descreverem o seu avanço militar para o Levante e Jerusalém em particular, como uma Hijra. O termo ismaelita, que usualmente designa especificamente um ramo do Xiismo é por vezes usado como sinônimo de agareno. Agareno pode ainda designar qualquer muçulmano. Um exemplo disso pode eventualmente ser Ahryani (Aхряни), uma designação para os búlgaros muçulmanos usada em búlgaro coloquial; no entanto a origem deste termo tem também sido explicado como resultado do paralelismo existente entre a expansão do Islão nos Balcãs com o Arianismo antitrinitário.[carece de fontes. Importante notar que os muçulmanos introduziram várias denominações em seus conceitos e na sua história a fim de justificar tratar-se de uma religião monoteísta, como serem descendentes de Abraão, etc., No entanto, a linha patriarcal naqueles tempos era tirada do ramo masculino e não feminino, trata-se de descendentes do Patriarca Abraão, que gerou em Agar o filho Ismael. Da mesma forma passaram chamar Deus pelo nome de Alá, pois trata-se que este era apenas um dos deuses antigos adorados pelo politeísmo em Meca e Medina. Talvez nisso esteja incluído o comentário feito pelos autores acima, Patrícia Crone e Michal Cook, sobre a origem do termo Agareno.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

AS UVAS E O VINHO NAS SAGRADAS ESCRITURAS






Talvez a uva seja a fruta com mais remota existência, sendo falada logo após o dilúvio universal. A primeira referência bíblica sobre o vinho já foi feita com Noé: “Noé, que era agricultor, começou a cultivar a terra, e plantou vinha. E, tendo bebido vinho, embriagou-se, e apareceu nu na sua tenda” ( Gên 9, 20). O episódio é muito conhecido: um dos filhos, Cam, riu-se do pai e por isso teve amaldiçoada sua descendência, enquanto Sem cobriu a nudez do pai e foi abençoado. A Bíblia fala que Noé era agricultor; o fato de ter sido o primeiro a cultivar a uva significava que ele a encontrou na natureza ainda na forma bruta, e a trouxe para suas plantações. No entanto, ele ou algum de seus filhos tinha outra atividade diferente, tendo posto as uvas para fermentar e feito a bebida, talvez fruto de alguma experiência doméstica, daí surgindo o vinho.

O caso dos recabitas com Jeremias
Os recabitas eram descendentes dos cineus, vindos de Madian para a Palestina com Moisés (Num 10, 29), unindo-se política e religiosamente a Israel na conquista da região, habitando ao sul de Judá, mas vivendo ainda como nômades. De início, eles não quiseram seguir Moisés, que os convidou, mas depois foram obrigados a aderir ao povo eleito. O exército caldeu, que invadia a Palestina, impelira-os para Jerusalém. O problema é que viviam muito apegados aos preceitos de seus antepassados, dificultando a assimilação dos costumes do povo eleito. Na passagem a seguir, o Profeta Jeremias propõe àquele povo a adoção de um novo costume, mais civilizado, do consumo do vinho, que é recusado pelos recabitas, cuja recusa é usada pelo próprio Deus como exemplo de quem obedece aos pais,  enquanto o povo de Jerusalém não seguia as ordens divinas.
Vejamos a narrativa da Sagrada Escritura sobre o que houve:
“Palavra que foi dirigida pelo Senhor a Jeremias, no tempo de Joaquim, filho de Josias, rei de Judá, a qual dizia: Vai à casa dos recabitas, fala-lhes e introduzi-los-ás na casa do Senhor, num dos quartos do tesouro, onde lhes dará vinho a beber,
Então eu tomei Jezonias, filho de Jeremias, filho de Habsanias, seus irmãos, todos os seus filhos e toda a casa dos recabitas. Introduzi-os na casa do Senhor, no aposento dos filhos de Hanan, filho de Jagdelias, homem de Deus, que estava junto à câmara dos príncipes, por cima do quarto de Maasias, filho de Sejum, que era guarda do vestíbulo. Pus diante dos filhos da  casa dos recabitas taças cheias de vinho e copos, e disse-lhes: Bebei vinho. Eles, porém, responderam: Não beberemos vinho, porque Jonadab, filho de Recab, nosso pai, deu-nos este preceito: Não beberás jamais vinho, nem vós, nem vossos filhos; não edificareis casa, nem semeareis sementeiras, nem plantareis vinhas, nem as possuireis, mas habitareis em cabanas todos os dias da vossa vida; para que vivais muitos dias sobre a face da terra, na qual viveis peregrinando. Temos, pois, obedecido à voz de Jonadab, filho de Recab, nosso pai, em todas as coisas que nos mandou, de não beber vinho em todos os nossos dias, nós e nossas mulheres, nossos filhos e filhas, e de não edificarmos casas para nossa morada; não temos tido vinhas, nem campos, nem sementeiras; mas temos habitado sob tendas e temos obedecido em tudo conforme o que nos mandou Jonadab, nosso pai. Quando Nabucodonosor, rei de Babilônia, entrou em nossa terra, dissemos: Vinde e entremos em Jerusalém, para fugir do exército dos caldeus, e para escapar do exército da Síria; e ficamos em Jerusalém.”
O exemplo dos recabitas em seguir os preceitos de seus ancestrais foi usado pelo próprio Deus para admoestar os habitantes de Jerusalém, terminando com as seguintes palavras:
“...Assim os filhos de Jonadab, filho de Recab, guardaram com firmeza o preceito que seu pai lhes tinha dado; mas esse povo não me tem obedecido”  (Jer 35, 1-1 e 16).
Comentários:
A expressão “aposentos dos filhos de Hanan” quer significar um lugar especial, talvez onde se exerciam algumas funções sacerdotais no templo, comprovado a seguir pelo termo “homem de Deus”, que nas Sagradas Escrituras significava aquele que é dedicado aos serviços divinos, como os profetas ou os sacerdotes. Jeremias colocou não somente taças contendo vinhos, mas também copos, objetos mais simples, talvez com a intenção de incentivar os convidados a beberem o vinho, pois, certamente, as taças seriam vistas como usadas apenas pelos da alta sociedade, enquanto os copos são objetos mais populares.
A oferta do vinho seria uma tentativa de fazer com que aquele povo aprendesse a se confraternizar com o povo eleito e, assim, tornar-se mais civilizado, pois continuavam sendo nômades e arredios a qualquer fluxo civilizatório. Fazia parte dos conselhos de seus ancestrais não fazer casas para morar e continuar nas tendas, além de não plantarem vinhedos ou consumir o vinho. Essa tendência ao nomadismo e contrária ao convívio social em cidades era comum em alguns povos daqueles tempos.
Como se tratava apenas de um costume arraigado pela tradição de seus pais, sem qualquer sentido aparentemente nocivo, tal recusa não foi mal vista, mas usada como exemplo de uma tribo inteira que segue as recomendações ou mandamentos dados pelos ancestrais.

Deveres de quem dirige um banquete
No Eclesiástico há algumas normas dirigidas a quem dirige um banquete, eis algumas:
“Puseram-te como chefe? Não te ensoberbeças por isso; sê entre eles um dos mesmos.
Tem cuidado deles, e depois disso assenta-te, e cumpridas todas as tuas obrigações, põe-te a comer, a fim de que te causem alegria, e recebas a coroa, como um ornamento precioso, e mostres que eras digno de ser escolhido.
Fala, tu que é os mais velho, pois é a ti que pertence falar primeiro. (Mas) Fala com sabedoria e com prudência, e não impeças a música.
Não desperdices palavras, onde não há quem as ouça, e não ostentes fora do tempo o teu saber.
Correm igual paralelo uma pedrinha de carbúnculo em engaste de ouro, e um concerto de musica em festim de vinho.
Assim como brilha mais um sinete de esmeralda encastoada em ouro, assim a harmonia da música melhor se logra entre um alegre e moderado vinho”  (Eclesiástico 32.1-8).

Apólogo de Isaías sobre a vinha:
“Cantarei ao meu amado o cântico do meu parente sobre a sua vinha. O meu amado adquiriu uma vinha, plantada numa colina fertilíssima, Cercou-a duma sebe e tirou dela as pedras, plantou-a de cepas escolhidas, edificou uma torre no meio, construiu na mesma torre um lagar; esperava que desse boas uvas, mas produziu labruscas.[1]
Agora, pois, habitantes de Jerusalém, e homens de Judá, sede vós os juízes entre mim e a minha vinha. Que coisa há que eu devesse mais à minha vinha, que não lhe tenha feito? Far-lhe-ia acaso injúrias em esperar que ela desse boas uvas, em lugar das labruscas que produziu? Pois agora vos mostrarei o que hei de fazer à minha vinha: Arrancar-lhe-ei a sebe e ficará exposta ao roubo; derrubar-lhe-ei o muro e ficará sujeita a ser pisada. Farei com que fique deserta; não será podada nem cavada; crescerão nela os espinhos; mandarei às nuvens que não derramem sobre ela chuva. A vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá a planta, na qual ele tinha as suas delícias; esperei que praticassem a retidão, e eis que só há iniquidade, e que praticassem a justiça, e eis que somente se ouvem clamores.
Ai de vós que ajuntais casa com casa e ides acrescentando campo a campo, até chegar ao fim de todo o terreno! Porventura haveis de habitar sós no meio da terra? Aos meus ouvidos chegam estas coisas, diz o Senhor dos exércitos, Verdadeiramente que muitas casas grandes e belas virão a ficar desertas, sem habitante. Porque dez geiras de vinhas produzirão apenas um pequeno frasco (de vinho) e trinta alqueires de semente não darão mais que três.
Ai de vós os que vos levantais pela manhã para vos entregardes à embriaguez e para beberdes até à tarde com tal excesso, que venhais a ficar de todo esquentados pelo vinho. A cítara, a lira, o pandeiro, a flauta, o vinho encontram-se nos vossos banquetes; e vós não olhais para a obra do Senhor, nem considerais as obras das suas mãos. Por isso é que o meu povo foi levado cativo, porque não teve ciência. Os seus nobres morreram de fome e a sua multidão mudou-se de sede. Por isso é que a habitação dos mortos alargou o seu seio e desmesuradamente abriu a sua boca;  desceram a ela os seus heróis, o seu povo e os seus homens ilustres e gloriosos. O plebeu terá de se curvar, os grandes serão humilhados e os olhos dos altivos serão abatidos. O Senhor dos exércitos será exaltado (pela retidão do) seu juízo, e o santo Deus será santificado pela (administração da sua) justiça. Serão apascentados os cordeiros segundo o seu costume, e dos campos desertos, convertidos em fertilidade, comerão os estranhos.
Ai de vós que arrastais e iniquidade com cordas de vaidade, e o pecado com os tirantes dum carro! Vós que dizeis: Avie já com isso e sem demora venha a sua obra, para que a vejamos, aproxime-se e cumpra-se o decreto do Santo de Israel, a fim de que nós o conheçamos. Ai de vós os que ao mal chamais bem, e ao bem mal, que tomais as trevas por luz, e a luz por trevas, que tendes o amargo por doce, e doce por amargo!
Ai de vós que sois sábios a vossos olhos, e, segundo vós mesmos, prudentes!
Ai de vós os que sois poderosos para beber vinho, e fortes para fazer misturas embriagantes! Vós os que justificais o ímpio pelas dádivas, e ao justo tirais o seu direito!
Por esta causa, assim como a língua do fogo devora a palha, e a brasa  ardor da chama, assim a raiz deles será como a faísca, e o seu renovo se dissipará como pó; porque rejeitaram a lei do Senhor dos exércitos, e blasfemaram da palavra do Santo de Israel. Por isso o furor do Senhor se acendeu contra o seu povo, estendeu a sua mão sobre ele e o feriu; os montes se abalaram e os seus cadáveres foram lançados como esterco ao meio das praças. Com todos estes castigos não se aplacou o seu furor, mas ainda está levantada a sua mão. Arvorará um estandarte para servir de sinal aos povos de longe e chamá-los-á com um assobio desde os confins da terra; e acorrerão com uma velocidade prodigiosa. Não haverá neles quem sinta cansaço ou fadiga; não dormitarão nem dormirão; ninguém desatará o cinto dos seus rins, nem desatará a correia do seu calçado. As suas setas são agudas e todos os seus arcos estão entesados. As unhas dos seus cavalos são como  pederneira e as rodas dos seus carros têm a rapidez da tempestade. O seu rugido será como o do leão, rugirão como os leõezinhos. Soltarão bramidos, se arrojarão à presa e a levarão, não haverá que lha tire. Soará sobre Israel naquele dia um como bramido do mar; olharemos para a terra, e eis que tudo será trevas de tribulação, e a luz desaparecerá nessa profunda escuridão”  (Is 5, 1-30).

O vinho pode fazer o homem perder o entendimento:
“Mas também estes, por causa do vinho perderam o entendimento, e, por causa da embriaguez, andaram sem poderem ter; o sacerdote e o profeta perderam o juízo por causa da embriaguez, foram absorvidos pelo vinho, andaram cambaleando na embriaguez, não reconheceram o vidente, ignoraram a justiça. Todos os meses se encheram de vômito e de asquerosidade, de modo que não havia já lugar que estivesse limpo. “  (Is 28, 7-8)

As Bodas de Caná
“Três dias depois, celebravam-se umas bodas em Caná da Galiléia e encontrava-se lá a mãe de Jesus. Foi convidado também Jesus com seus discípulos para as bodas. Faltando o vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: Não têm vinho. Jesus disse-lhe: Mulher, que nos importa a mim e a ti isso?
Ainda não chegou a minha hora. Disse sua mãe aos que serviam: Fazei tudo o que ele vos disser. Ora estavam ali seis talhas de pedra, preparadas para a purificação judaica, que levavam cada uma duas ou três metretas. Disse-lhes Jesus: Enchei as talhas de água. Encheram-nas até os bordos. Então disse-lhes Jesus: Tirai agora e levai ao arquitriclínio. Eles levaram.
O arquitriclínio3, logo que provou a água convertida em vinho, como não sabia donde viera (este vinho), ainda que o sabiam os serventes, porque tinham tirado a água, o arquitriclínio chamou o esposo, e disse: Todo o homem põe primeiro o bom vinho, e, quando já (os convidados) têm bebido bem, então lhes apresenta o inferior; tu, ao contrário, tiveste o bom vinho guardado até agora. Este primeiro milagre, fê-lo Jesus em Caná da Galiléia, e manifestou sua glória, e seus discípulos creram nele. (Jo 2, 1-11).
Somente São João narra este episódio no Evangelho. Como tinha sido
ele o Apóstolo a quem Nosso Senhor confiou os cuidados da Virgem
Santíssima, é provável que tenha sido Ela mesma que fez o relato para que
ele o escrevesse, pois morou em sua companhia durante muitos anos.
Vê-se que as vasilhas, talhas de pedras, não eram destinadas ao vinho, mas somente para a água usada nos rituais de purificação, evidenciando-se ainda mais o caráter milagroso da transformação ocorrida em seguida.
Metreta, era uma medida grega equivalente a cerca de 30 litros. Como São João escreveu seu evangelho em grego, refere-se à medida mais comum da Grécia, que talvez fosse usada também na Palestina, região que pertenceu ao império grego por muitos anos.
O arquitriclínio. Pelo prefixo “arqui” nota-se que é uma palavra também de origem grega: era o mestre do banquete e o provador de vinho, o que distinguia entre o vinho bom e o ruim.
Também há a hipótese do próprio São João ter presenciado o milagre, pois lá estavam alguns dos novos discípulos de Jesus. As festas de casamento entre os hebreus eram muito concorridas e as pessoas que presenciaram o primeiro milagre de Jesus eram numerosas. Caná era uma aldeia que distava de Nazaré pouco mais de 6 km, razão porque a Sagrada Família tinha muitos amigos e parentes na localidade. Era chamada de Caná da Galiléia para distingui-la de outra Caná, da tribo de Aser, perto de Tiro.
O texto de São João, muito sucinto, não nos dá uma ideia exata de
como se realizavam as festas de casamento entre os hebreus. Nem
tampouco o Evangelista se detém em alguns detalhes que, ou ele
considerava desnecessários ou não lhe vieram à memória no instante em que
escrevia.

Algumas passagens bíblicas sobre a a uva e o vinho
“...prometemos levar aos sacerdotes, para o  tesouro (da casa) do nosso Deus, as primícias dos nossos alimentos, dos nossos licores, dos frutos de todas as árvores, da vinha, do azeite e pagar o dízimo da nossa terra aos levíticos” (Neemias 10. 37)
“A tua prata converteu-se em escória; o teu vinho misturou-se com água (Isaías 1,22)
“A alegria e o regozijo desaparecerão dos campos, e nas vinhas ninguém exultará, nem mostrará júbilo. Não mais pisarão vinho no lagar os que tinham costume de o pisar; fiz calar a voz dos pisadores”. (Is 16.10)
“O Senhor jurou pela sua destra e pelo seu braço forte: Eu não darei mais o teu trigo por comida aos teus inimigos, nem os filhos alheios beberão o teu vinho, fruto do teu trabalho; mas os que recolherem o trigo o comerão e louvarão o Senhor; e os que acarretarem o vinho bebê-lo-ão nos átrios do meu santuário” (Is 62. 8-9).
[Esta passagem faz referência profética ao que virá após a vinda do Messias, quando a Santa Missa se celebrará com o pão e o vinho, sendo este bebido “no átrio do meu santuário”, quer dizer, no Altar.]
“Eu pisei sozinho no lagar, e nenhum homem dentre os povos estava comigo; eu os pisei no meu furor, e os pisei aos pés da minha ira; o seu sangue salpicou os meus vestidos e manchei todas as minhas roupas. Porque o dia da vingança está no meu coração, é chegado o ano da minha redenção...”  Is 63.3-4)
“Eis o que diz o Senhor: Como quando se acha uma formosa baga num cacho de uva e se diz: Não desperdices, porque é uma bênção, assim farei eu por amor de meus servos, de sorte que não destrua tudo.”  (Is 65.8).
“Eis o que diz o Senhor dos exércitos: até ao último cacho, como na vindima, se rebuscarão os restos de Israel. Leva lá novamente a tua mão (ó caldeu), como o  vindimador ao cesto”  (Jer 6.9).
[A expressão “restos de Israel” se refere aos fiéis a Deus, verdadeiros “restos” perante a quantidade dos infiéis].
“...um canto semelhante aos pisadores de uvas será cantado contra todos os habitantes da terra...” (Jer 25.30).
“A alegria e o regozijo desapareceram do Carmelo e da terra de Moab. Eu tirei o vinho dos lagares, o pisador de uva não cantará já suas costumeiras canções..”  (Jer 48.33).
“A fornicação, o vinho e a embriaguez fazem-lhes perder o sentido”  ((Oseias 4.11).
Falando sobre uma época em que tudo havia sido restaurado, o profeta Amós escreveu; “Eis que vêm os dias, diz o Senhor, em que o que lavra seguirá de perto o que sega, e o que pisa as uvas (seguirá de perto) o que semeia o grão; os montes destilarão doçura e todos os outeiros serão cultivados”  (Amós 9.13).
“Assim como o vinho engana quem o bebe com excesso, assim será o homem soberbo, que ficará sem honra...”  (Habacuc 2.5).
Quando Neemias dirigia os trabalhos de reconstrução do templo após a volta do exílio, dava vinho aos trabalhadores, conforme relata:
“Para isto todos os dias me era preparado um boi e seis carneiros escolhidos, além das aves, e de dez em dez dias eu distribuía vinhos diversos e muitas outras coisas...” (Neemias 5.18).
Além disso, enviava também vinho aos sacerdotes do templo: “prometemos levar aos sacerdotes, para o tesouro (da casa) do nosso Deus, as primícias dos nossos alimentos, dos nossos licores, dos frutos de todas as árvores, da vinha, do azeite, e pagar o dízimo da nossa terra aos levitas” (Neemias 10.37)
Após a reforma na religião, a mudança; “Naqueles dias vi em Judá homens que pisavam nos lagares ao sábado, que acarretavam molhos, e que carregavam sobre jumentos vinho, uva, figo e toda casta de carga, e que as levavam a Jerusalém em dias de sábado”  (Neemias 13.15).
 “Nem se deita vinho novo em odres velhos; doutro modo rebentam os odres, derrama-se o vinho e perdem-se os odres. Mas deita-se vinho novo em odres novos; e assim ambas as coisas se conservam”  (Mt 9.17)
“Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: Eis um glutão e um bebedor de vinho...”  (Mt 11.19)
Na instituição da Eucaristia e de Santa Missa, na Quinta Feira da Paixão, disse Nosso Senhor: “Desta hora em diante não beberei mais deste fruto da videira até àquele dia, em que o beberei de novo convosco no reino do meu Pai. (Mt 26,29).
Na cura do homem da estrada, o Bom Samaritano usou também do vinho, como relata São Lucas: “..e, aproximando-se, pensou-lhe as feridas, lançando nelas azeite e vinho”  (Lc 10.34).
Entre os diáconos, São Paulo exigia morigerados costumes, como no uso do vinho; “Igualmente os diáconos sejam modestos, não de duas línguas, nem dados a muito vinho...” (I Tim 3,8). Quer dizer, não podiam usar de “muito vinho”, porque o exagero na bebida poderia embriaga-los, mas não há restrições ao uso do vinho moderado. Mais adiante, o Apóstolo volta a falar do vinho, desta vez recomendando o seu uso por motivos de saúde: “Não continues a beber água só, mas usa de um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades”  (I Tim 5.23).
No fim do mundo, as uvas e o vinho são relembrados como símbolo da colheita das almas pelos Anjos: “Saiu do altar outro anjo, que tinha poder sobre o fogo, e gritou em alta voz para o que tinha a foice aguda, dizendo: Lança tua foice aguda, vindima os cachos da vinha da terra, porque as suas uvas estão maduras” (Apoc 14.18).
Ao abençoar o filho Judá, disse, a certa altura, Jacó (ou Israel), falando de Redentor que nasceria daquela estirpe: 
“Ele atará à vinha o seu jumentinho, e à videira, ó meu filho, a sua jumenta. Lavará a sua túnica no vinho, e a sua capa no sangue da uva. Os seus olhos são mais formosos que o vinho, e os seus dentes mais brancos que o leite”  (Gên 49, 11-12).
Nas primeiras normas sobre o culto divino já entrava o vinho como parte importante: “Com o primeiro cordeiro oferecerás uma décima parte de um efá de flor de farinha, amassada com azeite de azeitonas pisadas, na medida da quarte parte do hin, e vinho na mesma quantidade para as libações”  (Ex 29.40).
O nazireu era um consagrado a Deus, e após a cerimônia de consagração lhe era permitido beber vinho: “depois disto o nazireu pode beber vinho” (Num 6.20).
“Eu te dei toda a medula do azeite, do vinho, do trigo e tudo o que ofereceu como primícias ao Senhor”  (Num 18.12)
“Derramareis em libação a quarta parte de um hin de vinho para cada cordeiro no santuário do Senhor”  (Num 28.7).
Era um dos prêmios prometidos por Deus aos que seguiam seus mandamentos; “Se vós portanto obedecerdes aos meus mandamentos, que eu hoje vos prescrevo, de amar o Senhor  vosso Deus, e de o servir de todo o vosso coração, e de toda a vossa alma, ele dará à vossa terra as chuvas temporãs e serôdias, para que recolhais o pão, e vinho, e azeite, e feno  dos campos para sustentar os gados, e para que vós mesmos tenhais que comer e com que vos saciar”  (Deut 11.13-15).
O vinho é chamado de “sangue da uva”, tal a sua importância: “..e para que bebesse o mais puro sangue da uva”  (Deut 32.14)
Aos sacerdotes, porém, era vedado o uso do vinho, mas somente  quando estiverem no “tabernáculo do testemunho”: “Disse também o Senhor a Arão: Tu e teus filhos não bebereis vinho, nem qualquer coisa que possa embriagar, quando entrardes no tabernáculo do testemunho, para que não morrais; porque este é um preceito eterno para as vossas gerações, e para que tenhais a ciência de saber discernir entre o santo e o profano; entre o impuro e o puro...” (Lev 10.8-10).
O vinho é também mal visto como princípio de maldade quando usado de forma excessiva:
“Eles comem o pão da impiedade, e bebem o vinho da iniquidade”  (Prov 4,17).
“O vinho é uma fonte de luxúria, e a embriaguez é cheia de desordens; todo aquele que põe nisto o gosto, não será sábio. (Prov 20.1)
“Aquele que ama os banquetes, parará na indigência; o que ama o vinho e a mesa lauta não enriquecerá”  (Prov 21.17).
“A quem se dirá: Desgraçado de ti? Ao pai, de quem se dirá: Desgraçado de ti? Para quem serão as bulhas? Para quem os precipícios? Para quem as feridas sem motivo? Para quem o vermelho dos olhos?
Para quem, senão para aqueles que passam o tempo a beber vinho, e fazem consistir as suas delícias em despejar copos?
Não olhes para o vinho quando te começa a parecer louro, quando a sua cor brilha no copo; ele entra suavemente, mas no fim morde como uma serpente, e espalha o veneno como basilisco.
Os teus olhos verão coisas estranhas, e o teu coração proferirá incoerências.
E tu serás como homem adormecido, no meio do mar, e como um piloto sonolento que perdeu o leme.
E dirás: espancaram-me, mas não me doeu; arrastaram-me, mas eu não senti Quando despertarei eu, e quando acharei mais vinho para beber?”  (Prov 23.29-35).
“Não dês vinho aos reis, porque não há segredo onde reina a embriaguez”  (Prov 31,4)
Porém é recomendado em alguns casos:
“Dá aos aflitos um licor forte, e vinho aos que estão em amargura de coração” (Prov 31.6).
“e o vinho que alegra o coração do homem”  (Salmo 103.15)
 Os filhos de Jó estavam num banquete comendo e bebendo vinho, quando um vendo derrubou a casa em que estavam e matou a todos (Jó 1, 13 e 18).


O USO DO VINHO ATRAVÉS DOS TEMPOS
Após Noé haver descoberto as propriedades da uva e do vinho, conforme vimos, os homens foram, ao longo dos anos, aperfeiçoando o cultivo da uva e podução de vinhos.
Nos primórdios tempos dos hebreus, as uvas, colhidas em cestos eram jogadas no lagar, uma cuba profunda de pedra, bem colocada no chão, bem esculpida na mesma rocha (Is 5: 2). Alguns furos feitos na parte inferior deste tanque permitia que o líquido caísse num tanque mais baixo, que também costumava ser esculpida na rocha (Jer. 6: 9; Is. 5: 2). Um homem, ou dois, se o lagar era grande, andavam pisando nas uvas (Neemias. 13:15; Jb. 24:11).
No Egito, como provavelmente na Palestina, os pisoteadores, para evitar quedas, se apegavam a cordas que pendiam acima deles. Com suas canções definiam o ritmo de seu trabalho (Is. 16:10; Jer. 25:30;48:33). O suco da uva preta manchava suas peles e roupas (Is. 63: 1-3). O líquido que caía no tanque inferior era derramado em odres ou panelas de barro (Jó 32:19). Quando a fermentação alcançava o grau desejado, o vinho passava para outros recipientes (Jer. 48:11,12).
Os hebreus bebiam o suco da uva em forma de mosto, assim como veio da vinícola ou como mosto fermentado. Eles usaram o vinagre obtido por uma fermentação mais longa do vinho. Nos tempos antigos, o mosto servia para transformá-lo em xarope ou mel de uva. Os autores latinos mencionam várias formas de conservação das uvas e até do mosto. Foi feita uma tentativa de impedir a fermentação para ter um líquido rico em açúcar. Os romanos adoçaram a comida com mel ou suco de uva concentrado obtido por ebulição do mosto.
Entre os hebreus, as várias bebidas que vieram da videira tinham nomes diferentes:
(1) "Tîrõsh" (em grego "Gleukos") designava o suco espremido na hora de a uva e o vinho novo. O historiador judeu Flávio Josefo usa o termo grego "Gleukos" ao falar de suco de uvas espremido sobre o copo de Faraó (Ant. 2: 5, 2; Gn. 40:11), demonstrando a forte influência da cultura helênica na Palestina. Os antigos distinguiram entre o suco obtido deste caminho e o líquido obtido das uvas na vinícola. Quando fermentado o mosto tornava-se intoxicante (Os.4:11).
Quando o Espírito Santo veio no Pentecostes, os Apóstolos foram acusados ​​de estarem cheios de mosto (Atos 2:13). Os acusadores disseram “mosto” talvez para ridicularizar, pois era uma bebida de inferior qualidade que o vinho. Há exegetas que afirmam que "Tîrõsh" não significa nem deve ser mosto nem vinho novo, mas apenas as uvas vintage, mas há muitos textos que refutam essa afirmação infundada (por exemplo, Joel. 2:24; Neemias 10.37 e 18:12; Is 62: 8, 9; 65: 8;  Dt 7:13; 11:14; 12:17).
(2) O termo hebraico "Ãsis", derivado de um outro que significa "Prensagem", designava suco de uva ou outra fruta, especialmente o não fermentado. Mas também se aplicava a bebidas fermentadas (Is 49:26; Amós 9:13). Os hebreus de bom grado bebiam o mosto, mas eles preferiam o vinho envelhecido (Lc. 5:39; Eclo. 9:10), talvez por dar mais status social.
(3) Já o termo hebreu "Yayin" está relacionado o semítico do qual o grego "Oinos" e o latim "vinum". Aram. "Hamar" ou "Hemer" significava a mesma bebida; a primeira passagem bíblica no que o termo «yayin» aparece é encontrado em Gn. 9:21 onde isso significa "Suco de uva fermentado". Não há razão para atribuir a esse termo nas outras passagens, não tem significado diferente. O grego "Oinos" tem o mesmo significado que "yayin". No entanto, se o adjetivo «novo» acompanha «oinos», a expressão significa então leve, fermentado ou não. Há exegetas que afirmam que esta expressão deve ser sinônimo de bebida não fermentada;  o fato é que, mais tarde, os hebreus bebiam «Yayin» durante a Páscoa, uma vez que era absolutamente proibido consumir fermento durante os sete dias desta solenidade. Mas este é um argumento inválido, porque os fermentos de vinho não foram considerados leveduras. Na Palestina, havia uma grande variedade de vinhos; os do Líbano eram famosos. Os tiranos compraram o vinho de Helbón.
Quando instituiu a Santa Ceia, Nosso Senhor Jesus mencionou "o fruto da videira "(Mt 26:29), expressão usada desde os tempos antigos, imemorial para os hebreus, por ocasião das solenidades da Páscoa e véspera de sábado. Os gregos também usavam essa expressão no senso de bebida fermentada. Em geral os textos bíblicos mencionam o suco da uva preta (Is. 63: 2; Rev. 14: 18-20) e dá o nome de "o sangue das uvas" (Gn 49:11; Dt. 32:14). O termo hebraico «Mesek», mistura, indica um vinho reduzido com água ou com sabor  Esse termo parece ter tido um significado pejorativo porque foi aplicado em tudo para vinhos misturados com drogas entorpecentes ou excitantes. Os hebreus não tinham conhecimento da destilação. Nos vinhos aromatizados usavam nomes indicando seu "buquê", "mimsak" (Pv 23:30; Is.65:11); "Meseq"; Cant. 7: 3; 8: 2).
(4) O "shêkãr" era uma bebida forte feita a partir de sucos de frutas, não eram as uvas. Assim, o "shêkãr" foi obtida por fermentação da cevada, mel, tâmaras, romãs, vinho a palma do suco de maçã. "O shêkãr" causou embriaguez (Is 28: 7; 29: 9). O termo "shêkãr" é usado apenas uma vez para indicar a libação com vinho puro (Num. 28: 7).
(5) Outros nomes de vinhos: 'sõbe', um termo derivado de uma raiz o que significa beber imoderadamente (Is 1:22; Os. 4:18; Naum. 1:10); "Sh'marim" designa as fezes do vinho e, portanto, o vinho envelhecido, de qualidade superior por ter passado muito tempo no banquinho.
Usos do vinho: (a) Medicinal (Pr. 31: 6; Lc. 10:34; 1 Tim. 5:23); (b) ritual (Êx 29: 39-41; Lv 23:13); (c) doméstica: na Palestina, como em todos os outros países mediterrânicos, o vinho leve sempre foi um complemento da comida (Núm. 6:20; Dt. 14:26; 2 Cr. 2:15; Neemias. 5:18; Mt 11:19; I Tim. 3: 8). Pão e vinho, fundamentos da comida, simbolizavam a comida como um todo (Sl. 104: 14, 15; Pr. 4:17). Se oferecia vinho aos convidados (Gn 14:18); estava presente nas festas (Jó. 1:13,18; JN. 2: 3). Os hebreus, pessoas de costumes simples, eram expostos ao abuso de vinho, especialmente em festas. Seu consumo foi proibido aos sacerdotes quando eles tinham do que oficiar no Tabernáculo (Lev. 10: 9). Foi recomendado juízes que não bebiam vinho (Pr. 31: 4, 5; cf. Ec. 10:17; Is. 28: 7). Ele como excesso de bebida foi evitado de várias maneiras:
(A) O vinho foi baixado com água (2 Mac. 15:39;). A água quente foi misturada com o vinho, forma como era  servido na Páscoa..
(B) Um mordomo mestre presidia os banquetes (Ec. 32: 1, 2; Jo. 2: 9,10) Um de seus deveres era determinar em que proporção do que misturar o vinho, que permaneceu concentrado até tempo para consumi-lo e determinar quanto o convidado poderia beber. No tempo de Nosso Senhor havia inclusive um encarregado de provar o vinho, chamado de “arquitriclínio” no Evangelho de São João, termo grego que significava “provador de vinho” e era quem dirigia o banquete.
(C) Houve avisos severos que alertaram os hebreus quanto ao perigo de permanecer no vinho, de misturar bebidas fortes. A degradação daqueles que não sabem é mostrada na Bíblia. eles sabem como moderar (Gênesis 9:21; Pr. 23: 29-35; Is 5:22).
(D) Houve numerosos provérbios que estigmatizaram a loucura de embriaguez (Pr. 20: 1; 21:17; 23:30, 31; Hab. 2: 5).
(E) a embriaguez, como os hebreus bem sabiam, é um sério pecado que Deus julga e castiga ( Is 5:11, 17; I Cor.5:11; 6: 9-10; Gál. 5:21; Ef. 5:18; I p. 4: 3).









[1] Labruscas – castas de uvas pretas, de inferior qualidade.

sábado, 25 de julho de 2020

APÓLOGO DE ISAÍAS SOBRE A VINHA





 As figuras de linguagem da Sagrada Escritura, como parábolas e apólogos, são aplicáveis a qualquer época. No entanto, algumas delas aplicam-se inteiramente aos dias de hoje, como esta a seguir: 

“Cantarei ao meu amado o cântico do meu parente sobre a sua vinha. O meu amado adquiriu uma vinha, plantada numa colina fertilíssima, Cercou-a duma sebe e tirou dela as pedras, plantou-a de cepas escolhidas, edificou uma torre no meio, construiu na mesma torre um lagar; esperava que desse boas uvas, mas produziu labruscas.[1]
Agora, pois, habitantes de Jerusalém, e homens de Judá, sede vós os juízes entre mim e a minha vinha. Que coisa há que eu devesse mais à minha vinha, que não lhe tenha feito? Far-lhe-ia acaso injúrias em esperar que ela desse boas uvas, em lugar das labruscas que produziu? Pois agora vos mostrarei o que hei de fazer à minha vinha: Arrancar-lhe-ei a sebe e ficará exposta ao roubo; derrubar-lhe-ei o muro e ficará sujeita a ser pisada. Farei com que fique deserta; não será podada nem cavada; crescerão nela os espinhos; mandarei às nuvens que não derramem sobre ela chuva. A vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá a planta, na qual qual ele tinha as suas delícias; esperei que praticassem a retidão, e eis que só há iniquidade, e que praticassem a justiça, e eis que somente se ouvem clamores.
Ai de vós que ajuntais casa com casa e ides acrescentando campo a campo, até chegar ao fim de todo o terreno! Porventura haveis de habitar sós no meio da terra? Aos meus ouvidos chegam estas coisas, diz o Senhor dos exércitos, Verdadeiramente que muitas casas grandes e belas virão a ficar desertas, sem habitante. Porque dez geiras de vinhas produzirão apenas um pequeno frasco (de vinho) e trinta alqueires de semente não darãomais que três.
Ai de vós os que vos levantais pela manhã para vos entregardes à embriaguez e para beberdes até à tarde com tal excesso, que venhais a ficar de todo esquentados pelo vinho. A cítara, a lira, o pandeiro, a flauta, o vinho encontram-se nos vossos banquetes; e vós não olhais para a obra do Senhor, nem considerais as obras das suas mãos. Por isso é que o meu povo foi levado cativo, porque não teve ciência. Os seus nobres morreram de fome e a sua multidão mudou-se de sede. Por isso é que a habitação dos mortos alargou o seu seio e desmesuradamente abriu a sua boca;  desceram a ela os seus heróis, o seu povo e os seus homens ilustres e gloriosos. O plebeu terá de se curvar, os grandes serão humilhados e os olhos dos altivos serão abatidos. O Senhor dos exércitos será exaltado (pela retidão do) seu juízo, e o santo Deus será santificado pela (administração da sua) justiça. Serão apascentados os cordeiros segundo o seu costume, e dos campos desertos, convertidos em fertilidade, comerão os estranhos.
Ai de vós que arrastais e iniquidade com cordas de vaidade, e o pecado com os tirantes dum carro! Vós que dizeis: Avie já com isso e sem demora venha a sua obra, para que a vejamos, aproxime-se e cumpra-se o decreto do Santo de Israel, a fim de que nós o conheçamos. Ai de vós os que ao mal chamais bem, e ao bem mal, que tomais as trevas por luz, e a luz por trevas, que tendes o amargo por doce, e doce por amargo!
Ai de vós que sois sábios a vossos olhos, e, segundo vós mesmos, prudentes!
Ai de vós os que sois poderosos para beber vinho, e fortes para fazer misturas embriagantes! Vós os que justificais o ímpio pelas dádivas, e ao justo tirais o seu direito!
Por esta causa, assim como a língua do fogo devora a palha, e a brasa  ardor da chama, assim a raiz deles será como a faísca, e o seu renovo se dissipará como pó; porque rejeitaram a lei do Senhor dos exércitos, e blasfemaram da palavra do Santo de Israel. Por isso o furor do Senhor se acendeu contra o seu povo, estendeu a sua mão sobre ele e o feriu; os montes se abalaram e os seus cadáveres foram lançados como esterco ao meio das praças. Com todos estes castigos não se aplacou o seu furor, mas ainda está levantada a sua mão. Arvorará um estandarte para servir de sinal aos povos de longe e chama-los-á com um assobio desde os confins da terra; e acorrerão com uma velocidade prodigiosa. Não haverá neles quem sinta cansaço ou fadiga; não dormitarão nem domirão; ninguém desatará o cinto dos seus rins, nem desatará a correia do seu calçado. As suas setas são agudas e todos os seus arcos estão entesados. As unhas dos seus cavalos são como  pederneira e as rodas dos seus carros têm a rapidez da tempestade. O seu rugido será como o do leão, rugirão como os leõezinhos. Soltarão bramidos, se arrojarão à presa e a levarão, não haverá que lha tire. Soará sobre Israel naquele dia um como bramido do mar; olharemos para a terra, e eis que tudo será trevas de tribulação, e a luz desaparecerá nessa profunda escuridão”  (Is 5, 1-30).

 [1] Labruscas – castas de uvas pretas, de inferior qualidade.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

HISTÓRIA DE SANSÃO TERIA INSPIRADO A LENDA DE HÉRCULES NA MITOLOGIA?



Os hebreus andavam por todo o Mediterrâneo e redondezas e procuravam disseminar o conteúdo de seus livros sagrados. Aquelas populações, ao ouvirem relatos tão fantásticos, mas não aceitando a revelação divina porque eram pagãos e adoravam a animais e seres inferiores, começaram a copiar tais relatos inventando coisas fabulosas com seres semelhantes.  Os gregos, mais cultos, passaram a documentar tais relatos em escritos. Diz-se que só há um manual mitológico da Grécia antiga, chamado de “Biblioteca Mitológica”, escrito por um tal de “Pseudo-Apolodoro”, que tentou conciliar os contos e poesias fazendo um resumo das lendas. Nada se sabe sobre este autor, a não ser que viveu entre o século I ou II antes de Cristo. Fala-se de um outro Apolodoro, o verdadeiro, que viveu por volta de 160 a 120 a.C. Apesar de ser algo assim tão obscuro e sem muita comprovação histórica, os estudiosos, a partir da Renascença, começaram a lhes dar crédito e divulgar  seus contos míticos e fabulosos.
Quando os Santos Anjos apareciam aos Profetas, em geral, tomavam diversas formas, sendo a mais comum a humana e muitas vezes a de animais.
 (v. Ez 1, 5-28). Tais relatos eram repetidos em todas as populações do Mediterrâneo pelos hebreus.

A lenda de Hércules teria sido inventada ao ouvirem as histórias fantásticas de Sansão?

É possível. Hércules é o nome em latim dado pelos antigos romanos ao heroi da mitologia Héracles, filho de Zeus (Júpiter para os romanos) e de Alcmena. As antigas fontes romanas indicam que o herói grego "importado" veio substituir um antigo pastor mitológico chamado pelos povos da Itália de Recaranus ou Garanus, e que é famoso por sua força física e bravura. Enquanto o mito de Hércules incorporou muito da iconografia e da própria mitologia do personagem grego, ele também tinha um número de características e lendas que eram marcadamente romanas. Este tipo de lendas era comum na região do Mediterrâneo e aqueles povos facilmente copiavam-nas uns dos outros, dando aos personagens novos nomes e um legendário local.
Na cultura popular, os europeus adotaram o Hercle etrusco, uma figura heroica que já havia sido influenciada pela cultura grega - especialmente nas convenções acerca de sua representação - mas que havia, no entanto, experimentado um desenvolvimento autônomo. O Hercle etrusco aparece nos desenhos elaboradamente entalhados nos versos dos espelhos de bronze etruscos feitos no século IV a.C.
As versões literárias gregas de sua vida e feitos foram apropriadas pelos romanos a partir do século II a.C., essencialmente inalteradas, porém a literatura latina sobre Hércules adicionou certos detalhes anedóticos próprios, alguns deles ligando o herói à geografia do Mediterrâneo Ocidental.
As façanhas imaginadas pela mitologia em torno de Hércules são muito exageradas, envolvendo seres mitológicos, isto é,  entidades que nunca existiram, mas tidos como divinos, e que povoavam a mente dos autores de tais relatos. São comumente chamadas de “12 trabalhos de Hércules”:
Ei-las: matou o leão da Neméia ; matou a Hidra de Lerna; capturou o javali de Erimanto; capturou a corça de Cerinia; expulsou as aves do lago Estinfalis; limpou as estrebarias de Aúgias; capturou o touro de Creta; capturou os cavalos de Diómedes; obteve o cinturão de Hipólita, rainha das Amazonas; buscou os bois de Gerião; buscou os pomos de ouro do jardim das Hespérides; capturou o cão Cérbero.

SANSÃO -  Quando a lenda de Hércules espalhou-se pela Mediterrâneo e adjacências, a história de Sansão já corria a região há séculos. E, apesar de certa semelhança no tocante à força descomunal de um mortal, o personagem mitológico transformou completamente a história bíblica para adaptá-la aos costumes pagãos daqueles tempos. As lendas sobre Hércules surgiram no Mediterrâneo muitos séculos depois de Sansão (entre 5 a 6 séculos,  mais ou menos), isto é, esta foi a época em que foram passadas para documentos escritos, porque, provavelmente, já corriam pelos povos de forma oral.
Sansão, quer dizer “filho do sol” ou “pequeno sol” em hebraico. Um dos juízes de Israel, filho de um varão da tribo de Dan, chamado Manué. Era nazireu ou nazireno, isto é, consagrado a Deus antes do nascimento, ainda no ventre da mãe. Nasceu dotado de força prodigiosa, simbolizada esta por sua enorme cabeleira. Sua história e suas façanhas estão narradas no livro Juízes (Jz 13 a 16). Foi juiz do povo de Israel por vinte anos (Juízes 16:31), aproximadamente de 1157 a.C. a 1177 a.C.,sendo o sucessor de Abdon e o antecessor de Eli. Não era um líder de todos os israelitas, mas foi suscitado por Deus para lutar contra os filisteus, que tinham bastante força guerreira. Sansão causou maior dano aos inimigos fomentando com seus exemplos a resistência nacional, embora fosse apenas um herói local. Sua força prodigiosa, vinda de Deus, o fazia realizar proezas heróicas e fantásticas. Deixou-se dominar pela paixão humana e aceitou de boa vontade o convívio com Dalila, que o traiu, cortando sua vasta cabeleira, onde dizia estar sua força. Dentre suas extraordinárias façanhas a Sagrada Escritura narra as seguintes:
“...E quando tinham chegado às vinhas da cidade, apareceu um leão novo, feroz, e que rugia, e se pôs diante de Sansão. Mas o espírito do Senhor se apossou de Sansão, que despedaçou o leão, fazendo-o em quartos como se fora um cabrito sem ter coisa alguma na mão.” (Jz 14, 5-6). Curioso é que esta demonstração de força ele o fez no momento de se casar, fato que se deu algum tempo após a morte deste leão, pois houve tempo de abelhas produzirem mel em seu cadáver (Jz 14, 8-9)
“E partiu, e tomou trezentas raposas, e ajuntou-as umas às outras pelas caudas, e no meio atou uns fachos: e tendo-lhes chegado fogo, largou-as, para irem cada uma para seu cabo. Elas partiram logo a correr pelo meio das searas dos filisteus. E incendiadas estas, tanto os trigos enfeixados, como os que ainda estavam por segar, se queimaram de tal modo que o mesmo fogo consumiu também as vinhas e olivais”  (Jz 15, 4-5).
“E chegando ao lugar da queixada, e saindo-lhe ao encontro os filisteus com apupadas, caiu sobre ele o espírito do Senhor: e como o linho costuma consumir-se ao cheiro do fogo, assim quebrou ele, e desfez as cordas, com que estava ligado. E pegando na queixada de um jumento, que achou à mão, e que jazia ali, matou com ela mil homens, e disse: Eu com a queixada de um jumento, com a queixada de um potro de um jumento os derrotei, e matei mil homens”  (Jz 15, 13-16).
Suas façanhas fantásticas incluíam, inclusive, milagres como este: “Abriu pois o Senhor um dos dentes molares na queixada do jumento, e saíram dele águas. E bebendo delas Sansão recobrou alento e recuperou as forças”  (OJz 15, 19).
Carregou as portas da cidade às costas. Quando se diz “portas da cidade” são aquelas enormes portas que os soldados, para entrar nas cidades, têm que derrubar com instrumentos pesados, tipo aríetes. Mas, para Sansão, tudo era fácil: “Sansão porém dormiu ate a meia-noite: levantando-se depois pegou em ambas as portas com os seus postes e fechaduras, e pondo às costas, as levou até o alto do monte, que olha para Hebron”  (Jc 16, 3).
Na hora da morte, obtém de Deus força para destruir todos os inimigos: “E abraçando-se com as duas colunas, em que a casa se sustinha, e pegando numa com a mão direita e na outra com a esquerda, disse: Morra Sansão com os filisteus: e sacudindo com grande força as colunas, caiu a casa sobre todos os príncipes, e sobre todo o povo que ali estava: e foram muitos mais os que matou morrendo, do que os que matara antes quando vivo”  (Jz 16, 29-30)
“