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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A Felicidade e os Novíssimos do Homem

 


(Pequeno conto sobre os Novíssimos do Homem)

Juraci Josino Cavalcante

Porciúncula ficou viúva repentinamente, e lá no sítio onde morava era dificílimo não somente o socorro de um médico, mas até mesmo de quem levasse o cadáver de seu marido para o cemitério. Não tendo filhos ou parentes para lhe fazer companhia, ficou sozinha na casa velando o corpo do marido enquanto um mensageiro se dirigia ao povoado mais próximo em busca de auxílio.

Na presença do corpo inanimado viu-se então, aquela viúva, na contingência de meditar sobre a morte. Asdrúbal era um homem forte, robusto e ainda jovem quando faleceu. Prometia muito futuro para o casal, que havia se transferido para aquele lugar logo após o casamento. Era um recanto longínquo, mas que possuía boas terras para serem cultivadas, podendo garantir o sustento da família então nascente. Dona Porciúncula olhava para o corpo inerte de Asdrúbal e pensava em mil coisas, ali sozinha, a espera do carro que iria transportar o corpo do finado.

Que transformação! Era este o primeiro pensamento dela. Aquele que pela manhã havia lhe falado com voz forte e sonora antes de partir para o trabalho no campo; aquele que pouco antes lhe prometera muitos afagos e favores e que prometera viver em sua companhia por muitos e muitos anos, jazia ali mudo para sempre. Aquele cujo semblante lhe transmitira tanta alegria e esperanças, agora permanecia hirto, empertigado, pele amarelecida, cabelos endurecidos, olhos estáticos. Seus olhos não mais viam, sua boca não mais falava e tudo era sinistro em seu corpo. Não, não era mais o mesmo Asdrúbal: a morte o transformara completamente. As mãos e os pés estavam com uma cor meio azulada. Não havia mais nenhum sinal de vitalidade no corpo. Era o início da decomposição.

Sentada, pensativa e triste, levantou os olhos e divisou na parede uma pequena estrofe poética que o próprio marido havia dependurado:

“Ó tu mortal que me vês

Olha bem como estou:

Eu já fui o que eu és

E tu serás o que eu sou”

 

Ao lado da poesia, um esqueleto humano.

Porciúncula assustou-se e clamou; “Meu Deus! Daqui a algum tempo nada mais restará do Asdrúbal a não ser um esqueleto como aquele!” Arrepiou-se e pensou em rezar. Lembrou-se que havia trazido entre seus pertences um rosário e foi procurá-lo para rezar. A oração era o melhor lenitivo para a sua alma e também para a do morto. O tempo passava e ela rezava contrita, constantemente assaltada, vez por outra, por pensamentos de toda espécie. Estava absorta em suas orações quando lhe pareceu ouvir a voz do defunto:

- Você também, Porciúncula, um dia terá o mesmo fim! Todos nós estamos sujeitos à morte. Eu apenas a enfrentei antes...

A voz era bem nítida, mas soava apenas em seu interior. Mesmo assim, resolveu pensar alto.

- Custa a crer que isso seja verdade: por que temos medo de morrer? – indagou a si mesma.

Ouviu novamente a mesma voz:

- Não deveríamos ter medo porque é a hora em que vamos nos encontrar com nosso Criador, motivo principal de nossa existência.

- Por que este medo, então?

- Por causa do pecado de Adão e Eva, nossos primeiros pais. Depois do pecado original todos os homens ficaram sujeitos à dor, ao sofrimento e à morte e, ao morrer, ao juízo divino. Talvez imperceptivelmente sentimos em nosso interior um medo maior deste juízo do que da própria morte. E isso por causa de nossos pecados. Por aí você vê a gravidade do pecado. Lembre-se sempre que um dia também me fará companhia na outra vida...

- Mas, vai demorar... se Deus quiser.

- Não, não vai demorar. Nossa vida na terra passa muito rápido. A minha durou pouco mais de 20 anos, e é como se estivesse nascido ontem. Alguns vivem menos, outros vivem mais, mas no final parece que o tempo passado é o mesmo.  Nossos avós, por exemplo, viveram bem mais, 70 ou 80 anos, mas veja como passou rápido!

- Como você está mudado...

- Sim, realmente a morte nos deixa mudados. Principalmente o nosso corpo. Olhe bem para o seu rosto, vá até um espelho e veja como ele está...

- Muito bem, estou me olhando no espelho e vejo quanto sou ainda jovem e saudável. Portanto, deverei viver muitos anos ainda...

- Pense bem como ele se transformará um dia, sendo assim tão belo e saudável, como aliás todo o corpo, que será apenas uma matéria inerte. Inicialmente desaparecerá todo o sangue: esta tez rosada que você tem, igual à minha quando eu vivia, ficará igual a esta de meu cadáver. Olhe agora para ele e veja como se encontra a minha pele, descorada, lívida; veja minhas mãos, meus pés, todo o corpo, compare-o com o seu e lembre-se que um dia ele ficará igual ao meu agora.

As vozes soavam em seu interior como se alguém falasse de verdade aos seus ouvidos.  Pôs-se, então, a chorar e a se lembrar de seus pecados, que eram muitos. Com o terço na mão, indagou:

- Que fazer se eu nunca me preparei para a morte?

Como resposta, a voz soou novamente em seu interior:

- O mais breve possível procure colocar em ordem sua alma. Vá a um sacerdote, se confesse, descarregue sua consciência, e depois comungue para que Nosso Senhor Jesus Cristo a confirme em estado de graças, trazendo-lhe paz de espírito. Assim preparada, cotidianamente, Deus lhe dará forças para enfrentar a morte com tranquilidade.

- E o que vem depois da morte?

- Para a alma virão as consequências da vida que levamos na terra. Irá para o Céu, para o Purgatório ou para o Inferno. Logo após a morte somos julgados por Nosso Senhor Jesus Cristo, é o juízo particular. Se estivermos com a alma pura, sem mácula e em união com a Vontade e a graça divina, iremos então diretos para o Céu; se ainda tivermos muitas falhas a corrigir, isso será feito no Purgatório, de onde as almas sairão um dia purificadas para o Paraíso Celeste. Por último, se a pessoa tiver sido má, em consequência da vida ímpia e maldade levada na terra, demonstrando encontrar-se em franca oposição a Deus, será precipitada no Inferno.

- Isso quanto à alma; e quanto ao corpo?

- Este se desmanchará, se decomporá completamente. Primeiramente vai ser pasto de vermes. Quando não houver mais carne os vermes vão comer uns aos outros. Imagine você, com este belo corpo, e uma multidão de vermes andando pelo seu rosto, alguns entrando pelo nariz, outros pelos ouvidos e pela boca, indo até às entranhas, comendo a língua, a garganta, as faces, etc. Dentro de pouco tempo começarão a surgir enormes buracos e outras multidões de vermes deles sairão, misturando-se com a terra e com a água purulenta que o corpo ainda expelirá. Sua alma, onde estiver, vai pensar em quão inútil foi o desvelo, o cuidado e a vaidade que teve aquele corpo, outrora tão formoso e agora aos poucos virando lama fedorenta e asquerosa.

- Lama asquerosa?

- Sim; em pouco tempo, lá embaixo da terra, a água purulenta misturada com a terra e com os vermes, farão de nosso corpo uma simples lama fedorenta e de causar asco. Ninguém suportará o seu mau cheiro! Tanto assim que não se guarda defunto ao ar livre, tem que ser debaixo da terra, pois do contrário ninguém suportaria o fedor. Compare um pouco com aquela lama que corre de nossa pocilga...

Porciúncula treme, soluça e sai de perto do cadáver, correndo para bem longe a fim de não ouvir mais aquelas vozes interiores. Sua consciência, no entanto, em breve mostrar-lhe-á que sua atitude de nada adiantou, pois lá foram os pensamentos voltavam ao mesmo assunto. Fica vagando pensativa. Ao longo de sua caminhada em redor da casa, de repente se depara com a pocilga, pára e fica contemplando a lama que lá escorria. Apesar do mau cheiro, aproxima-se da lama e numa parte de águas mais claras fica olhando para seu rosto refletido nela. E pensava; “Será que um dia eu vou realmente ficar daquele jeito que ele falou? Será que ficarei naquele estado e ainda com tal mau cheiro?”.

Repentinamente, o vento trouxe até ela um repugnante mau odor da lama, levando-lhe à memória as palavras de Asdrúbal. A ideia da morte para ela ficou muito mais viva, então. Resolve voltar para a casa e enfrentar a situação na presença do corpo do marido. Lá retorna novamente suas orações e fica aguardando o transporte que o garoto foi buscar no povoado.

Pelo cair da tarde chega o automóvel. De início, o motorista alegou algumas dificuldades para transportar o cadáver, pois estava sem o caixão e não devidamente preparado. Mas ali não havia como fazê-lo e, assim, após muita insistência da viúva e um pouco compadecido resolveu aceitar a empreitada. Acomodaram o defunto na parte traseira do veículo, ficando na frente o motorista e dona Porciúncula. O garoto, que residia próximo, ficou na casa para cumprir algumas determinações da viúva.

A viagem não era tão longa, mas estava ficando escuro e o motorista começou a viagem acelerando bastante o veículo. No entanto, decorridos alguns quilômetros, o carro quebra. Após diversas tentativas de consertá-lo o dono do veículo só o conseguiu quando já era noite. Vendo que transportava apenas um cadáver e a viúva, o motorista tomou uma decisão drástica, alegando que temia fazer aquela viagem à noite por temer dos mortos. Tirou o corpo do cadáver de dentro do carro, colocou-o no chão e disse para a viúva que não poderia continuar a viagem. Nem sequer tinha coragem de trazê-los de volta para o lugarejo de onde vieram. Alegou, também, que ela deveria ter dito a ele que não tinha dinheiro no momento, e que só o teria quando chegasse na cidade. Prometeu que iria atrás de outro que a pudesse transportar, caso houvesse algum no lugarejo. E partiu celeremente.

Largada numa estrada erma e inóspita, dona Porciúncula pôs-se a chorar ao lado do corpo do marido. Lembrou-se do rosário e começou a rezar novamente. Foi ao mato, quebrou dois galhos e fez uma tosca cruz. Não havia luz nenhuma, não tinha lua no céu, e tudo estava escuro. Não ouvia outros ruídos a não ser o coaxo dos sapos e o zumbido dos insetos.

Após longo tempo naquela aflição, cansou e adormeceu. Mas logo acordou sobressaltada. Era a solidão, o tédio, o abandono completo, que não a deixava dormir, além do desconforto de estar no chão duro e cascalhado. O silêncio da noite espessa só era rompido pelos grilos, sapos e demais insetos que infestavam as matas. E, por cima de tudo, tinha medo de aparecer uma cobra e picá-la. Invadida por um medo pavoroso, começou a chorar. Desta vez sua mente não foi afetada pela ideia de morte, mas de medo, de terror, de pavor. Seus pensamentos começaram a se voltar para sua alma, e lembrou como deveria ser terrível a perdição eterna, mil vezes pior do que aquela aflição.

Lembrou de suas aulas de catecismo quando era criança, quando lhe disseram que no Inferno sofria terrível solidão e desespero a alma condenada. Olhava para o cadáver, ali estendido á sua frente, e começava a se lembrar do que lhe parecia ter ouvido dele pela manhã. Em seguida corria o olhar pelos arredores e só via escuridão, causando-lhe terrível sensação de pavor. Pensou em fugir dali, mas não conhecia o caminho. Tentou andar um pouco na estrada, mas logo voltou, pois não lhe agradava a ideia de deixar ali abandonado o corpo de seu marido. Pôs-se novamente de joelhos perante a precária cruz que armara e começar a rezar o rosário, entrecortando as orações com altos soluços.

A certa altura pareceu-lhe ouvir novamente a voz do marido. Petrificada pelo medo, ficou muda e estática ouvindo o que ele dizia:

- Tu tens medo, mas não tens a mínima ideia do pavor que se tem na  presença da Justiça Divina aquele que pecou. As trevas que cobrem este lugar nada são se comparadas com as do Inferno, onde gemem os réprobos eternamente. A solidão que aqui campeia não reflete nem a pálida ideia da terrível solidão do Inferno, onde a pior ausência é a do próprio Deus. Aqui tu ainda tens ainda consolo nas orações. Reza, pois, que Deus se lembrará de ti.

Tomando coragem, respondeu:

- Aquele amigo que nos visitou naquele dia falou que o Inferno não existe. Disse que Deus é muito bom para permitir que os seres criados por Ele sejam condenados a um tal suplício eterno.

- É tudo mentira. O Inferno existe, sim. Negar a existência do Inferno é a melhor maneira de se preparar para cair nele. Quem julga que a Bondade de Deus não castiga é porque deseja pecar à vontade sem criar problemas de consciência. E assim evita o temor. E quem não tema a Deus torna-se indiferente a Ele e suas Leis, não praticando seus Mandamentos. Não praticando seus Mandamentos torna-se uma pessoa ímpia. Sem temer a justiça divina o ímpio apega-se a seus vícios, passando a detestar tudo o que o possa contraria, como por exemplo o Decálogo e as virtudes cristãs. Na hora da morte se desespera, falta confiança em Deus caindo, portanto, no Interno, no qual não acreditava ou negava a existência.

- Mas, ele existe do jeito que falam? Será que não há também muita imaginação das pessoas?

- Ele não é exatamente do jeito que falam, mas muito pior. Olhos humanos nesta terra jamais viram; ouvidos jamais ouviram, enfim, pessoas vivas jamais vislumbraram o tanto de tormentos que se passa no Inferno. Apenas Deus permite que nos seja dado ter uma vaga ideia, e no entanto às vezes tão dura para nós, mas que verdadeira.

- Que tipo de sofrimentos se passa por lá?

- Em primeiro lugar, a perda de Deus; depois vem o remorso de consciência; em terceiro lugar a certeza de que seu destino ali é eterno, não acaba nunca; depois vem o sofrimento pelo fogo, que queima mas não consome.

- Como assim, queima, mas não consome?

- Todo fogo arde e queima por sua própria natureza, mas o do inferno não consome, isto é, deixa sem alteração o que está nele ardendo, deixa intacta sua natureza íntima e composição. Mas, ainda tem um último tipo de sofrimento, que é a escuridão completa e um terrível cheiro sufocante; embora haja completa escuridão os condenados podem se ver uns aos outros.

- Qual é o maior sofrimento deles?

- É a ausência de Deus e a presença constante do demônio, que nunca deixa de atormentá-los. Como consequência vêm outros tormentos, como desespero, ódio a Deus, blasfêmias, maldições, etc.

- Existem realmente aqueles tanques cheios de enxofre, com os diabos de tridente assando as almas, etc.?

- Lá existem não somente tais coisas imaginadas pelo homem, mas há coisas piores imaginadas pelos próprios demônios, que possuem inteligência superior e a usam naquele lugar com único fim de manifestar seu ódio a Deus e às criaturas. Nisso eles são “especialistas”. Existem tormentos especiais reservados para punir cada tipo de pecado praticado na terra e não redimido. Cada alma é atormentada com o que pecou, de forma horrível, indescritível. Há também lá horríveis prisões subterrâneas, abismos insondáveis e sem fim, em geral cheios de animais peçonhentos lá postos para atormentar seus habitantes.

- E tais animais existem por lá? Como isso é possível se tudo lá é espírito?

- Chegará o dia em que os corpos serão ressuscitados e as almas os tomarão de volta. Aí começará o inferno material que se juntará ao espiritual. Assim como no Céu há o “Céu Empíreo”, destinado aos corpos humanos, no inferno também haverá um lugar destinado aos mesmos, acompanhados também de tudo o que a natureza material humana requer. Os animais são imaginados entre nós para representar certos males e destinados a atormentar os homens.

- Incrível isso: animais destinados a atormentar o homem?

- Sim, porque lá tudo tem tal finalidade. Existem supostos animais deste tipo que enxameiam numa só pessoa e dela não largam, picando-a, aferroando-a, enchendo-a de peçonhas e pelos repelentes. Já imaginou, uma pessoa vaidosa, que na terra vivia se enfeitando com finas roupas e perfumes agradáveis, destas que não toleravam sequer um sujinho nas mãos ou corria de uma simples formiguinha com nojo, e no entanto lá se ver coberta de tais animais asquerosos por toda a eternidade? Isto não causa terrível tormento?

- Claro! Não quero nem pensar.

- Agora, consciente de tudo isso, reza e pede a Deus que lhe dê a oportunidade de se preparar condignamente para a morte e alcançar da misericórdia divina o perdão de teus pecados. Medita sempre nos novíssimos do homem e nunca pecarás, diz a Sagrada Escritura...

- O que vem a ser os novíssimos do homem?

- São os passos que nos esperam no fim da vida: a morte, o juízo, o Purgatório, o Paraíso e o Inferno. E então se meditares na morte, na justiça com Deus te julgará em seguida pelo que obraste enquanto vivestes, no Purgatório que purificará teus vícios e defeitos, no Paraíso que premiará tua vida se tiveres morrido na amizade de Deus, ou, finalmente, no Inferno que te punirá eternamente se tiveres morrido na ira divina. Temos também o Juízo Universal, quando todos os povos serão julgados por Deus no fim do mundo.

Estava absorta neste diálogo interior (parecendo recordar-se de lições catequéticas recebidas no passado) quando começou a ouvir um pequeno ruído distante, parecendo ser de um carro que se aproximava. Rezava aos pés de sua tosca cruz neste momento e a voz de Asdrúbal não se ouvia mais. O ronco do carro foi se aproximando, quando ela percebeu que já havia sinais dos primeiros albores da manhã.

O padre Adolf era um velho missionário Austríaco, remanescente dos sacerdotes tradicionais que andavam pelos sertões, pelas brenhas e matas, povoados distantes e abandonados, pregando missões, confessando, celebrando missas e ministrando alguns sacramentos, como batismo, extrema unção e comunhão a sadios e enfermos. Quando viu a viúva dando sinais com a mão, e aos pés o defunto com a cruz, imediatamente mandou parar o carro.

Tanto o padre Adolf quanto seu motorista, o senhor Tolentino, ficaram horrorizados e indignados com o procedimento do motorista que havia deixado a viúva com o corpo do finado ali na beira da estrada. Acomodaram o defunto no carro, junto com a viúva, parte traseira do veículo, e continuaram a viagem. Enquanto viajavam, dona Porciúncula contou sua triste história.

Inicialmente, ela não quis falar do que lhe parecera ouvir ser a voz de Asdrúbal. Mas, por curiosidade, fez diversas perguntas ao padre sobre a morte e o Inferno. O Padre Adolf ouvia suas perguntas e confirmava aquilo que a Doutrina Católica ensinava sobre o assunto. Além do que ela ouvira, o padre acrescentou mais alguns princípios que a voz de Asdrúbal não falara. A certa altura, perguntou a viúva:

- Padre, mas é justo que Deus condene alguém a um castigo eterno, que dure para sempre? O pecado que ele cometeu não foi aqui na terra? Por que Deus não faz ele cumprir sua pena aqui mesmo?  Como é que um crime é finito e pode ser punido com pena infinita? Não há desproporção injusta nisso?

- A pena é eterna porque tudo na outra vida é eterno – pena e glória. Mas não é o fato de aqui se cometer que nos faz merecedor de castigo aqui mesmo. Isto porque aqui o cometemos, com atos finitos, mas a ofensa é feita a Deus, que é eterno e infinito. Tanto nossos méritos como deméritos provêm de atos finitos, mas como consequências infinitas. Quer dizer, o ato é finito, mas a ofensa é infinita por causa da infinitude do Ofendido. Daí a razão de ser infinita a pena ou o prêmio.

- Não haverá um dia em que Deus acabe com o inferno e levem todos para o Céu, como ato supremo de sua Bondade para com os seres por Ele criados? Poderia criar um Céu menor para eles...

- Nós todos não conseguimos, às vezes, entender bem tais coisas por causa de nosso curto entendimento. Mas, os que lá estão o entendem muito bem. E os condenados lá estão porque o quiseram e de lá nunca desejam sair. Isso porque eles não toleram a presença de Deus, e o Paraíso nada mais é do que a visão de Deus. De modo que, precipitá-los no Inferno, afastados da presença de Deus, além de ser um ato essencialmente de justiça, de algum modo é também um ato de misericórdia. Deus os amaldiçoa e os condena porque eles assim o querem. Sofreriam mais estar na presença de Deus do que ali naquele suplício, se que é que alguém pudesse sofrer algo por estar perante Deus.  De outro lado, seria injusto levá-los para o Céu se nada fizeram para merecê-lo.

- E que merecimentos têm os outros?

- Ora, muitos. Veja a vida dos santos, por exemplo. Quanto sofrimento, quanto amor a Deus e ao próximo, quanto sangue derramado. Você acharia justo, por exemplo, que vivessem na glória eterna, lado a lado, um Santo como Santo Agostinho e Lutero? Um São Tomás ao lado de um Hitler?

- Claro que não!

-Pois é: entre eles há um abismo intransponível. Os santos e bem-aventurados no Céu; os réprobos e condenados no Inferno. Não imaginas como é terrível o inferno!

- Não, padre, não me fale sobre o Inferno, por favor. Eu sei muito bem dos padecimentos que lá sofrem as almas condenadas. Gostaria que me falasse sobre o Paraíso celeste...

- Se sabes tanta coisa assim sobre o Inferno, diga-me um pouco do que sabe.

Dona Porciúncula passou a repetir, mais ou menos, tudo o que lhe parecera ouvir antes da voz de Asdrúbal sobre os sofrimentos do Inferno. O padre Adolf ficou admirado, pois ela lhe transmitiu corretamente tudo o que ensina a Doutrina Católica sobre o assunto.

- Muito bem, é isso mesmo. Mas fique sabendo de uma coisa. Para nós torna-se um pouco mais fácil falar sobre o Inferno do que sobre o céu; isto porque a vida moderna é cheia de tribulações, de padecimentos e da falta de Fé. As pessoas entendem melhor o que é o penar do que o gozar a glória. Isto ocorre porque na sociedade atual não existe uma vida social que procure se assemelhar com o Paraíso celeste: as pessoas não procuram copiar o céu e seus anjos e santos, mas copiam o contrário.

- Como seria isso possível?

- Deus está no Céu distribuindo de uma forma completa, com todos os seres por Ele criados, sua infinita Bondade. Aqui na terra devemos também viver em sociedade procurando a prática desta Bondade, mesmo de uma forma tão humana e pequena como somos. E isto pode ser feito construindo uma Civilização baseada nesta Bondade, onde tudo espelhe o Paraíso celeste. Onde haja entendimento, paz de espírito, degustamento de bens apetecíveis e salutares não só ao nosso corpo mas á nossa alma. Se vivêssemos assim, seria mais fácil entendermos como é o Céu, embora de uma forma bem mitigada, bem longínqua mesmo da realidade, mas ao nosso alcance. Pois ninguém consegue, neste mundo, entender o que se goza no Paraíso. Mesmo sem entender completamente devemos nos esforçar para criar em nós uma ideia a mais próxima possível. Isso até nos ajudaria a aumentar o amor a Deus.

- Não entendo: como seria possível copiar o Céu? Ora, lá se vive espiritualmente, lá se goza dos bens da alma não é verdade?

- Principalmente os da alma, mas também os do corpo, pois todos serão ressuscitados para habitar e gozar do Céu Empíreo.

- Céu Empíreo? E existe este Céu? Não há um só céu?

- Há este Céu, sim. Assim como somos formados por duas substâncias – espiritual e corporal – na outra vida, no Paraíso, desfrutaremos dos gozos de bens espirituais e materiais. E isto se dará neste Céu, chamado de Empíreo porque será formado de substâncias materiais, embora de uma matéria diferente da nossa. Nosso corpo glorioso, após a ressurreição, deverá viver num paraíso todo composto de coisas também materiais e gloriosas. Todos os nossos sentidos degustarão os prazeres ara os quais foram criados, de forma diáfana, sábia, celeste.

- Dê-me um exemplo.

- Nossos sentidos do corpo são o paladar, o olfato, a visão, a audição e o tato; pois bem, no Céu Empíreo todos desfrutaremos destes sentidos em mais alto grau e perfeição. Pela visão veremos coisas fantásticas, cerimônias monumentais, luzes esplendorosas, anjos magníficos; pela audição ouviremos sons extasiantes, como de músicas instrumentais e vocais, coisas impossíveis de se imaginar aqui na terra; pelo olfato sentiremos aromas excelentes, como de essências refinadíssimas ou de perfumes celestes; pelo paladar sentiremos o gosto de comidas e bebidas e comidas inebriantes, se é que se pode usar tal termo de comparação. No Céu Empíreo haverá também mansões magníficas, palácios maravilhosos, jardins encantadores, ambientes aconchegantes e cativantes para o corpo ressurreto, o qual não sentirá cansaço nem ócio, pois será composto de outras substâncias, será glorioso, eterno, na presença de Deus.

- E como vamos copiar isso aqui na terra?

- Através da Civilização. E somente a Civilização verdadeira, que é a Católica, será capaz de criar ambiente para se viver estes princípios em sociedade, pois somente ela contém os elementos equilibrados de doutrina para realizar tudo isso. Nossa natureza decaída  necessita muito de equilíbrio doutrinário para não cair nos vícios capitais, como o da preguiça, do ócio, e entendermos errado no que consiste o degustamento de nossos sentidos. Precisa criar aqui, nem que seja palidamente, uma espécie de pequeno céu empíreo, imitando entre nós as grandezas de Deus, onde sua Bondade possa ser facilmente entendida e distribuída entre as pessoas. Se assim o fizermos as pessoas entenderão melhor uma explicação sobre o Céu.

- Então poderemos viver um céu aqui na terra? Isso é possível?

- De algum modo, sim; mas não nos esqueçamos que estamos num “vale de lágrimas” e que as consequências do pecado original nos acompanham até o momento de nossa morte. Acredito que, no dia em que a Igreja consiga trazer esta espécie de céu aqui para o nosso convívio social, os Santos Anjos aqui descerão e cantarão para que o possamos ouvir.

- De que tamanho é o Céu? Cabe tanta gente lá?

- Não conseguimos imaginar o tamanho do Paraíso celeste. No entanto, há um santo, São Luís Grignion de Montfort, que nos dá uma ideia aproximada deste tamanho. Diz ele que as estrelas do primeiro céu são 17 vezes maior do que a terra, as do segundo céu 90 vezes e são 45 estrelas, as do terceiro céu são 54 vezes maiores do que a terra e são em número de 294, as do quarto céu são 35 vezes maiores e somam 217 estrelas, as do quinto céu são 18 vezes maiores e são inumeráveis. Pois bem, o Céu ou firmamento onde ficam estas estrelas tem um circuito de cinquenta milhões de léguas, e no entanto o Céu é ainda mais extenso.

- Acho realmente difícil, como disse, imaginar como seria o Paraíso celeste...

- Estivestes à noite em perturbação por causa do abandono em que ficaste com o cadáver do teu marido. Mas, lembra-te das noites serenas e tranquilas em que contemplavas o firmamento estrelado; depois, procura lembrar-te, e juntar a essa noite serena, aqueles dias claros e de sol brilhante; depois passa a imaginar como seria o melhor de nobreza, de formosura, de riquezas que existem sobre a terra. Pensa tudo isto e eleva teu espírito a outro mundo; lá no Paraíso existem milhares de milhões de anjos, serafins e querubins, em quantidade muito superior a tais estrelas de que falei e com tal brilho que as ofusca todas um só deles. O menor deles é, portanto, mil vezes mais belo do que todo nosso mundo em que vivemos, possui mais riqueza do que toda a terra, é mais formoso do que nosso sistema solar. Agora, que maravilha contemplar todos juntos! Considera muito mais ainda o auge da bem-aventurança que é a presença de Deus, a Santíssima Trindade! E lá está a Santíssima Virgem Maria, repleta de formosura, de uma beleza, de uma riqueza, de um encanto tal, que a todos arrasta atrás de Si para louvar a Deus, formando um só conjunto harmonioso.

O padre Adolf não conseguiu levar a conversa mais adiante, pois o carro já estava entrando na pequena cidade, e o senhor Tolentino o advertia do fato. Tanto o padre quanto o motorista tiveram muita caridade com a viúva, indo tomar todas as providências para realizar um enterro digno para o marido dela. Após rezar todas as orações de encomendação do corpo, inclusive com certa pressa por causa do estado avançado de decomposição do mesmo, o padre pediu á dona Porciúncula que o procurasse depois na igreja a fim de conversarem com mais calma. Tinha a intenção de instruir a pobre mulher na doutrina católica e ver se conseguia arrancar dela uma boa confissão. Até este momento ela nada dissera sobre as vozes que supunha ter ouvido do seu marido.

Após o almoço já estava ela a procura do padre, um tanto para a conversa que ele a convidara, mas também um tanto interessada em conseguir uma carona no carro dela na volta pra casa. Em seu pensamento, porem, não conseguia esquecer as vozes de Asdrúbal ao lhe falar sobre a morte e as penas do inferno. Por causa disso estava invadida de um grande temor. Por outro lado, as explicações do padre haviam lhe despertado um grande desejo do Céu e lhe inspirava aumentar o amor a Deus. Tais sentimentos haviam lhe invadido a alma, fazendo com que ela fosse rezar recolhida na igreja, chegando a lhe provocar certos soluços. E assim, quando chegou à presença do padre os olhos estavam úmidos e avermelhados de tanto chorar. Em parte isso ocorria também por causa das saudades do marido, demonstrando angústia e desalento em seu semblante.

- Por que tanto chorar, dona Porciúncula? Peça a Deus a graça de resignação. Foi Deus que assim o quis, e se Ele o quis foi para o seu bem.

- Veja bem, padre. Estava agora rezando o rosário naquela igrejinha. Este deve ser o terceiro ou quarto que rezo de ontem pra hoje. Não tenho rezado pouco, não encontro outro consolo e paz de espírito senão nas orações, pois não tenho ninguém para consolar-me. Só Deus mesmo.

- Muito bem. Assim é que se faz. Mas, precisamos conversar um pouco sobre sua alma. Venha aqui, abra seu coração e conte-me tudo o que tem em seu interior. Só assim poderei lhe dar melhor os princípios e a doutrina necessários para viver em paz a partir de hoje.

- Padre, em virtude dos apuros que passei nestes últimos dias estou muito alquebrada, parecendo que estou doente. Não seria deixar isso para outro dia? Prometo que virei lhe procurar especialmente para esta conversa. Agora estou muito cansada e chocada com tudo o que aconteceu. Estando boa  de saúde e mais calma terei mais disposição para esta conversa.

- Ilusão pura! O momento é este. Provavelmente nunca mais nos veremos. Lembre-se que estou passando aqui apenas raramente, e assim mesmo muitas vezes com pressa. Na realidade, a senhora está com algum receio. É o respeito humano, não é?

- Acho que é.

- Coragem! Não lhe custa nada. Basta ser sincera e contar tudo o que sente em seu interior.

- Tenho muitas dúvidas. Temos um corpo que vale muito, pois eu o vejo e dele dependo para tudo; mas nossa alma, não – não a vejo e não sinto a sua importância. Que diz disto?

- Teu corpo sem tua alma nada vale. Pense bem. Os químicos já fizeram o cálculo do quanto vale nosso corpo: a sua gordura só dá pra fazer um pedacinho de sabão; o seu ferro, uma pequena chave; o seu açúcar só adoça uma xícara de chá; o fósforo dá prazer algo em torno de 2 mil palitos de fósforos e o magnésio só dá para uma fotografia. Calcule quanto valem estas coisas e veja que só dará alguns míseros trocados em dinheiro. Isto é quanto vale nosso corpo, só ele, sem a alma.

- E com a alma?

- Tem valor infinito. Foi comprado pelo preço preciosíssimo do sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu na cruz para nos salvar em corpo e Elma e nos abrir as portas do Céu. Nada no mundo vale mais do que isto para nós. É a eternidade que está em jogo. Imagina que encontrando-se numa região isolada, te aparecem dois grupos, um à esquerda e outro à direita. À tua esquerda o grupo está liderado pelo o príncipe das trevas, assentado num trono de fumaça e rodeado de demônios, e ao redor desta corte infernal muitos pecadores, que, dominados pelo espírito do mundo, lhes rendem suas homenagens. Observarás com atenção redobrada em todos os desventurados vassalos desse rei abominável; verás que uns estão fora de si, levados pelo espírito da cólera, da raiva e da vingança; outros estão dominados pelo espírito da preguiça, ocupando-se somente de frivolidades e vaidades; outros tantos estão embebidos de intemperança, igualam-se a loucos e a brutos empavesados do orgulho, violentos e insuportáveis; alguns cheios de inveja, outros corrompidos até à podridão pela impureza e muitos outros pela avareza. Verás como todos estão ali sem repouso e sem ordem, desprezando-se mutuamente, odiando-se uns aos outros, dilacerando-se, destroçando-se e matando-se. Eis o que é o mundo, tiranizado por este rei sem compaixão.

- Falaste-me do grupo da esquerda. Diga-me algo sobre o outro, o da direita.

- À tua direita encontrarás Jesus Cristo crucificado, o qual, com ternura inexprimível de compaixão e amor, apresenta a Seu Pai Suas orações e o Seu Sangue a fim de obter a redenção destes infelizes escravos; acompanhando-O há numeroso grupo de devotos que com seus anjos estão em volta d’Ele, e seguem-No aonde Ele vai. Verás como as almas deste grupo são puras e cândidas, e como se amam umas às outras, tantas e tantas outras a quem a morte dum marido ou duma mulher tornou de novo livre o seu amor e que se consagram a Deus pela mortificação, caridade e humildade; verás quanta felicidade têm estes filhos de Deus, cujas consciências andam limpas e tranquilas. Decide, portanto, por este último grupo. Vem, aproveita a oportunidade que se lhe apresenta. Confessa-te, conta teus pecados a fim de obter de Deus o perdão e a remissão deles. Quando foi a última vez em que te confessastes?

- Faz muitos anos. Eu era muito jovem ainda. Quando fiquei adulta, imaginei que não precisava porque sempre pensei que para estar com Deus bastaria a consciência tranquila, não fazer mal a ninguém, e assim poderia obter o perdão de certas faltas. Não é isso mesmo?

- O que você entende pela expressão “estar com Deus?”. O que quer dizer isto?

- É o que disse antes: não fazer mal a ninguém, praticar sempre o bem e estar com a consciência tranquila.

- Não, isso não basta para estar com Deus. É preciso estar com as três pessoas da Santíssima Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. É impossível estar somente com uma das três Pessoas, como com o Pai, por exemplo, cumprindo o que Ele prescreveu nos dez mandamentos. Necessitamos estar também com o Espírito Santo, seguindo os preceitos da Igreja que Ele anima e praticando seus Sacramentos, e com o Filho, recebendo-O em Corpo, Sangue, Alma e Divindade na Eucaristia, após fazer uma boa confissão. Somente após isto estarás completamente com Deus.

Após algum momento de silêncio, dona Porciúncula começou a soluçar, indicando haver sido tocada em seu interior. Desta vez o pranto era mais sincero, partia do mais fundo do coração e não mais resistia ao chamado da graça divina. Desabrochou completamente sua alma e contou tudo o que lhe vinha na mente, tanto de sua vida passada quanto presente.

O bom padre ficou surpreso com toda a narração. E mais ainda quando soube que dona Porciúncula não era completamente ignorante em matéria de Religião: em sua infância e parte da juventude havia passado algum tempo morando com uma tia que lhe ensinara alguns princípios do Catecismo e da Doutrina Católica. Sabia rezar e conhecia a finalidade dos Sacramentos da Igreja, havia feito a primeira comunhão, e algumas outras depois. No entanto, tudo era um tanto longínquo para ela. Relembrando estas coisas resolveu fazer uma confissão completa e prometeu levar nova vida doravante.

Quando terminou a confissão, não mais chorava. Seu semblante era outro. Seu rosto irradiava felicidade. Estava possuída de um contentamento interior muito expressivo, embora moderado. Deste modo, imaginava: “a quem participar esta paz de alma, tamanha felicidade interior?” Sua alma estava ali aliviada de todos os pesos de sua consciência. Parecia passar por um leve êxtase.

Saindo do Confessionário foi rezar na capelinha perante um altar de Nossa Senhora. De repente, pareceu-lhe ouvir novamente a voz de Asdrúbal:

- A felicidade que sentes nada mais é do que a posse da graça divina: agora, sim, Deus está contigo com toda a Santíssima Trindade. Deverás tentar manter fielmente a posse desta graça a fim de que possas ao final da vida ter uma boa morte e ganhes o Paraíso celeste.

- Como mantê-la?

- Ser a fiel a Deus. Toda vez que pecares, confessa logo que possas o teu pecado e mantém firme o desejo de sempre se arrepender e o propósito de mudar de vida. Combate teus defeitos.

- Devido as dificuldades em achar um padre, só posso me confessar uma vez por ano, por ocasião da Páscoa.

- Quantas vezes melhor; mas se não for possível, aqui neste ermo, faça-o pelo menos uma vez por ano, como falou, mas faça-a bem feita. Assim fazendo manterás a fidelidade a Deus em sua toda a Sua Trindade Santíssima e renovarás sempre em seu interior esta paz que gozas agora.

- E se eu pecar e não me confessar logo, estando por exemplo longe daqui lá no sítio, perco esta felicidade que sinto agora?

- Desde que, tão logo, faça um ato de contrição e um firme propósito de nunca mais pecar, mesmo que teus pecados sejam muitos e frequentes (como também muitos e frequentes os arrependimentos), recuperarás toda ou parte desta felicidade que sentes agora. Vai depender do grau de teu arrependimento.

As vozes somem. Porciúncula lembra-se, então, da advertência do padre de que aquelas vozes nada mais eram do que a própria consciência dela, avisando-a sobre qual o reto caminho a seguir na vida. No entanto, para ela era tudo tão claro, o som da voz tão nítido e perceptível aos ouvidos, que não teve qualquer dúvida de que realmente ouvira a voz de Asdrúbal.

E a caminho de casa, embora na companhia do padre Adolf e do senhor Tolentino, dona Porciúncula somente meditava em tudo o que ouvira, em tudo o que se passara, e renovava constantemente seus propósitos de mudar de vida, sob a inspiração de seus novíssimos e da paz de alma que lhe inundava o ser.

 

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quinta-feira, 29 de maio de 2025

UM MEDIEVAL VISITA O SÉCULO XXI

 




 

O pequeno Rivière era muito meditativo, e por amar muito a Religião e a Pátria sonhava frequentemente com as duas. Consternava-lhe ver quão decadentes viviam as pessoas: sua época, o século XIII, já era profuso em costumes e ideias revolucionárias. Na cidade em que morava as pessoas muito comumente procuravam deleitar-se com os prazeres da vida, e tudo faziam para evitar qualquer sacrifício, dureza, cruz, sofrimento. E assim, muitos riam folgadamente, passeavam despreocupadamente, viajavam a procura de aventuras e novidades e, sobretudo os jovens, tinham como objetivo de suas vidas não mais o heroísmo e sim o romantismo amoroso.

E o jovem pensava: aonde vai dar tudo isto? “Se continuarem assim – dizia -, abandonando o dever pela busca do prazer, que restará de nossa juventude? Que será de nosso futuro?”

O sacrifício, antes tido como decorrência natural do pecado original, agora passa a ser desprezado a qualquer custo: deste modo, as roupas, as modas, os costumes, as preferências de todos, tudo enfim, tendia a caminhar para a gostosura da vida. E o garoto franzia o seu semblante, dia e noite, presenciando cenas, ouvindo conversas, vendo fatos que contradiziam, embora com pouca ênfase em alguns casos, todos os princípios cristãos para os quais houvera nascido e criado.

E foi assim que, certa noite, Rivière sonhou. Era um sonho bem diferente dos que costumava ter. Foi algo muito inusitado para ele. Em seu sonho ele se encontrava num mundo completamente diferente. Achava-se num futuro bem distante de seu tempo, quase oito séculos após. Em sua época já se falava que haveria um futuro cheio de paz e tranquilidade. Mas, na realidade, o que ele presenciava de paz em seu sonho era completamente diferente do que as pessoas imaginavam em sua época. Ele ficou muito chocado com o que viu:

- Que lugar estranho! – pensava. Para que tanto rebuliço? E quantas pessoas juntas! Quanta multidão a caminhar de um lado para o outro! Por que será que estão assim reunidos andando ao léu sem destino? Não vejo ninguém chamando-os para alguma batalha, nem tampouco para alguma peregrinação religiosa, e no entanto eles andam com pressa, embora sem rumo e sem um objetivo definido...

Repentinamente foi abordado por alguém que o observava:

- Olá, rapaz! Não está sentindo calor? Ou está vindo do frio?

- Calor? Que calor? Nós geralmente sentimos muito calor quando estamos empenhados numa batalha – sentimos o calor da luta. A que calor está se referindo?

- O calor do tempo, ora essa! Não ver que o sol está a pino? Por que não tira estas roupas pesadas? Refresque-se!

- Refrescar-me? Em minha terra nós nos refrescamos quando estamos cansados após dura batalha ou renhido trabalho, mas neste caso entramos em casa e nos recostamos a um leito.

- Não me diga que em sua terra as pessoas usam estas roupas pesadonas em pleno verão, suando deste jeito... é verdade? Se for assim, de que terra você veio?

- Olhe, amigo, antes do desconforto do meu corpo está a paz de minha alma, e porque a prezo muito é que procuro vestir-me dignamente; quanto ao corpo, porém, não é verdade que estou suando mais do que o senhor, nem tampouco sentindo mais calor...

- Pode chamar-me de você mesmo, pois eu não sou senhor. Quero ver você provar o que disse: como posso estar suando ou sentindo mais calor que você se uso roupa leve e fina?

- É simples: o calor não vem diretamente para o meu corpo, pois o mesmo está protegido pela roupa. Quanto ao senhor, verifique que nos lugares onde a roupa não cobre, ou protege menos, o suor é mais intenso. Se quer um exemplo melhor, veja aquele palacete quadrado ali defronte, onde várias pessoas estão vestidas apenas com alguns trapos e sendo servidas por alguns lacaios muito bem vestidos. Veja... ali em frente, senhor.

- Já disse que não sou nenhum senhor. Chame-me apenas de você. Estava se referindo àquele hotel quando mencionou “palacete quadrado”? As pessoas ali que você diz usarem trapos nós chamamos de turistas e o que denomina de “lacaios” nada mais são do que os garçons que os estão servindo.

- Turistas? Garçons? O que vem a ser isso?

- Ah, que ignorância! Turistas são estas pessoas que vivem viajando e se hospedando em hotéis, isto é, hospedarias, com piscinas e outras diversões. E garçons são estes homens que lhe servem bebidas e comidas enquanto se divertem. Vamos lá, que quer dizer sobre o calor que estão passando ali?

- Não importa como são chamados, pois, na realidade trata-se de lacaios servindo a seus senhores. Veja que os chamados “garçons” estão todos bem vestidos, com roupas “pesadas” como falou, alguns até de gravatas, enquanto que os “turistas” estão vestidos apenas com alguns trapos de panos. No entanto, não se vê um só garçom com calor e suando, enquanto entre os turistas há alguns que até estão se abanando de tanto calor.

- Nunca tinha notado isso. Como se explica?

- É que o calor vem direto para o corpo dos mal vestidos, que estão sem a proteção das roupas, enquanto que os garçons têm o corpo protegido pela roupa e sofrem menos os efeitos do tempo. Afinal, como se chama o senhor?

- Por que teima em chamar-me de senhor?  Veja que não sou tão velho assim. Para nós o termo senhor significa velhice, decadência, enquanto “você” é um tratamento mais igualitário e denota juventude. Deixemos isso de lado. Diga-me de onde veio e seu nome.

- Meu nome é Rivière: como vê sou jovem ainda, mas mesmo assim já estou me preparando para ser armado cavaleiro pelo meu senhor, o grande duque de Lyon. Venho sendo adestrado há bastante tempo pelo duque. Por enquanto estou sendo apenas seu pajem, mas ele me prometeu...

Rivière foi interrompido por uma estrepitosa gargalhada. Após breve silêncio, o estranho falou:

- Pois meu nome é Estrofe do Pé Quadrado e tudo o que você está dizendo bem demonstra sua insanidade mental. É pena, tão jovem e já um tanto desmiolado...

- Ah,é? Pois fale-me um pouco do senhor: quem é, de onde veio, o que faz aqui e o que pretende na vida em seu futuro.

- Apesar de não gostar que me chame de senhor, pois isto me aborrece, vou lhe falar um pouco de minha pessoa. Como disse, meu nome é Estrofe do Pé Quadrado, um nome estranho realmente mas muito do agrado de meu pai, que era poeta: como nasci aleijado deste pé esquerdo, ele por ironia e irreverência colocou-me tal nome. Hoje em dia, é bom que saiba, as pessoas usam muito de ironia e irreverência.

- Que horror! Ironia e irreverência – que absurdo!

- Por que se espanta? Saiba que vivemos numa época em que tudo caminha para a irreverência. E a ironia também está muito em voga. Como é lá na sua terra?

- Pois em minha terra, ou em meu tempo, os nomes das pessoas são postos conforme determinadas tradições religiosas ou de família, geralmente em homenagem a santos nossos protetores. Ao contrário, nós primamos pela reverência e respeito ás pessoas. Respeitamos muito a dignidade da pessoa humana. Por isso o tenho chamado de senhor.

- Pelo que vejo você não é deste mundo: onde nasceu? Em que época?

- Como já disse, sou de Lyon, França. Nasci em 1294, portanto, no final da Idade Média.

- Vou acreditar no que diz, somente para ver até onde quer chegar. Sendo assim, encontramo-nos, eu e você, nesta movimentadíssima avenida de Nova Yorque, conversando sobre nossas terras ou nossas eras históricas, sendo eu deste século XXI e você da Idade Média – uma diferença de quase oito séculos. Na realidade, estou aqui de passagem.

- Turista também?

- Um pouco de turista, mas muito mais de comerciante, pois venho sempre aqui fazer compras.

- Nasceu em que país?

- Sou brasileiro, nasci em São Paulo. Aqui estou a negócios, e você?

- Não sei como cheguei até aqui. Tudo é muito estranho, estou confuso e perplexo. Não entendo certas coisas que estou presenciando. Por exemplo, o que são aqueles bólides luminosos andando sobre caminhos negros lá embaixo?

- São veículos, espécie de carruagens de seu tempo, mas movidos por si mesmo, que chamamos de automóveis. As estradas negras chamamos de auto-estradas, e a cor escura é devida ao breu ou asfalto de que são feitas.

- E naquelas ruas,  para que tantas cordas esticadas naqueles postes?

- São fios elétricos. Através deles corre energia elétrica para acender as luzes e mover as máquinas e aparelhos elétricos em geral.

- E por que as pessoas andam assim tão confusamente pelas ruas? Veja quanta multidão andando ao léu sem destino... quanta balbúrdia, e como se vestem de maneira ridícula!

- As pessoas que você vê estão andando pelas calçadas, pois se andarem pelas ruas podem ser atropeladas pelos carros. Quanto às roupas,  não vejo nada de ridículo nas que as pessoas estão vestidas hoje em dia: ridículo está você aí com este jaquetão grosseiro!  As roupas modernas são leves, alegres, poucas pra não fazer calor, a fim de que as pessoas se sintam mais á vontade e livres, acabando com aquela ideia de sufoco que havia antigamente. O importante é a liberdade, que começa pelos movimentos do corpo.

- Mesmo que esta liberdade leve a pessoa para a imoralidade?

- Imoralidade? Nós não sabemos mais o que é isso: há muito tempo que não existe mais moral em nosso mundo.

- Não sei como pode haver uma sociedade onde não haja respeito pela moral. Como é, então, o relacionamento entre as pessoas? Há dignidade? Existem leis superiores para serem cumpridas e manter a paz? Há também alguns costumes que levem as pessoas a um mútuo respeito? Tanta liberdade não acaba suprimindo alguns direitos como, por exemplo, o da privacidade?

- Chega de tanta pergunta. Estou gostando agora mais da conversa porque esqueceu-se de chamar-me de senhor. Vamos em frente. Nós baseamos nossa convivência social, meu rapaz, apenas na luta pela sobrevivência. Ou então, pelo dinheiro, ou pela posição social. Somente isto faz com que as pessoas andem se respeitando uns aos outros. Por causa da posição social respeita-se o delegado, o juiz, o prefeito, o governador; por causa do dinheiro respeita-se o gerente de banco, o financista e o homem de negócios, como o comerciante ou o industrial. A dignidade só existe para quem tem dinheiro e posição social. E todos assim gozam de liberdade, vivendo somente para este fim: a luta pela sobrevivência.

- Ah! Agora entendo porque não quer que o chame de senhor. Neste seu mundo quem não possui dinheiro e posição social torna-se um pária. Não há respeito pelos pobres. Onde está a dignidade do homem como filho de Deus? Meu Deus, que horror!

- É o século XXI, meu chapa! Nós vivemos hoje a lei da selva: não a selva da floresta, mas a selva de pedra das grandes cidades, onde tudo converge para esta luta de que lhe falei. Quem não vencer neste mundo fará parte da escória e para este nossa sociedade tem reservado apenas alguns. cortiços, certas favelas, um submundo terrível, pois não há outra saída. Quanto aos demais, os que conseguirem se superar e vencer na vida, gozarão felizes a doçura do “bom viver”, com automóveis e aviões de luxo, viagens turísticas, luxuosos hotéis de veraneio e clubes com piscinas super-confortáveis. É a vida, meu caro! Alguns têm que penar para outros gozar!

- Como é triste teu mundo.

- Triste? Você está louco! Dê uma olhada nestas ruas e veja quantas casas de diversões e entretenimento irá encontrar. Aposto em que em sua terra, ou em seu tempo, nada disso havia.

- Não vejo tais diversões como fruto de uma verdadeira alegria. Não acredito que depois de tanto frenesi as pessoas não se sintam com a consciência pesada.

- Como é que a consciência pode ficar pesada?

- Pode ficar pesada e doer, sabendo-se que o resto do mundo pena muitas misérias e  há muita injustiças a corrigir, enquanto se diverte e se goza a vida de uma forma assim tão despreocupadamente.

- Não, meu caro, nós não temos problemas de consciência. Encontramos na vida moderna vários recursos com que possamos abafar a consciência. Procuramos sempre a fuga da dor, principalmente disso que se chama “dor da consciência”.

- Como é feito isso?

- Simplesmente não nos preocupamos com os outros! É cada um por si. E agindo assim não há como a consciência possa doer, ela parece nem sequer estar viva.

- Entendo. Gostaria de deixar patente, no entanto, que isto não lhes traz uma autêntica alegria. Não pode ser autêntica uma alegria que procura abafar a consciência ao ponto de deixá-la quase morta. A verdadeira alegria está no interior de cada um, onde deve morar com toda a força nossa consciência. Só pode ser verdadeira e autêntica esta alegria quando, ao nos divertirmos, a justiça, a paz e a união campearem ao nosso redor. Se o homem se diverte e goza, mas seus irmãos tudo sofrem, esta alegria é falsa. Mais ainda se a consciência não desperta e não lhe chama a atenção para a realidade que o cerca.

De repente, ambos percebem que há uma grande discussão numa rua onde se aglomerava pequena multidão. Perguntaram a um transeunte, tendo o mesmo dito que se tratava de um problema corriqueiro, uma briga por causa do lugar na fila.

- Como é isso? – pergunta Rivière – uma briga por causa de lugar na fila?

- Sim, isso ocorre com frequência hoje em dia. O sujeito está numa fila qualquer, ou para fazer uma compra, ou para ser atendido num banco, ou mesmo para embarcar num transporte, e de repente alguém “fura” a fila, isto é, passa na frente do outro. E daí surge a briga, pois o que está na frente não suporta ver o outro lhe passar na frente. É assim também na sociedade, de um modo geral, pois ninguém suporta ver outro passar na sua frente, e muita gente briga por causa disso.

- Mas, brigar por causa de um lugar numa fila?

- Sim, é um direito de quem estar na fila ter seu lugar respeitado – se alguém entra na frente está ferindo um direito...

- Oh mas que direito mais bobo? Como é que se briga por causa de uma coisa tão banal?

- No seu tempo ninguém brigava na fila?

- Não era costume haver filas no meu tempo, a não ser para se receber a Sagrada Comunhão, na Santa Missa. E aí, o normal é o contrário: as pessoas fazem questão de ceder seu lugar a outras.  Trata-se de um direito tão secundário, tão pequeno, que a gente pode ceder a outro sem qualquer dificuldade. Aliás, aprendemos que ser educado consiste exatamente em ceder alguns pequenos direitos nossos a outras pessoas. Se causam incômodos é para que nos acostumemos com eles.

- Já vi que você é um filósofo. Mas nosso mundo não vive mais de filosofia. Voltando ao assunto anterior, diga-me, como é que as pessoas se divertiam em seu tempo?

- Era algo muito diferente do que chamam hoje de diversão. Tínhamos naquele tempo cavalgadas, caçadas, jogos de armas, todo e qualquer passatempo era feito para aperfeiçoar o caráter das pessoas. Tudo era muito honesto e tão natural que a alegria se externava espontaneamente.

- Dir-lhe-ei o mesmo: como poderia ser verdadeira esta alegria em seu tempo se haviam guerras, injustiças praticadas pelos nobres, violência contra os pobres, etc?

- Era verdadeira nossa alegria porque a paz campeava em toda a sociedade e a justiça era aplicada em todo o corpo social. Haviam temporários rompimentos de paz, haviam alguns princípios de justiça feridos, mas logo, logo, eram corrigidos e reparados, pois haviam mecanismos sociais para reparar todos estes males, que sempre ocorrem entre os homens. Enquanto seu mundo é voltado para dentro de cada um, completamente egoísta, sem pensar senão no gozo e no prazer pessoal, o nosso, pelo contrário, tinha filosofia de vida completamente contrária: praticamos a caridade, amamos ao próximo como a nós mesmos e por amor a Deus, vivemos da abnegação e do sacrifício, temos cavaleiros que vivem para a proteção dos mais fracos, os pobres, os órfãos e as viúvas, nos preocupamos mais com a felicidade dos outros do que com a nossa. E isto nos torna mais felizes ainda.

- Pode ser verdade, mas não acredito no que diz. Não acreditamos, homens do século XXI, mais em ninguém. Para nós todos os homens são egoístas, interesseiros e ladrões. Todos são filhos do pecado e aqui pecam, alguns secretamente, os hipócritas, e outros abertamente, os sinceros. Não acreditamos mais em honestidade, em abnegação desinteressada, coisas do tipo amor ao próximo, não acreditamos mais em virgindade, etc. Pergunte por aí e não vai encontrar mais nenhum rapaz ou moça que saiba o que é castidade.

- Volto a repetir: como é triste o teu mundo! Nunca imaginaríamos que a busca desenfreada do prazer levasse o homem a tal decadência.

- Pois é: assim como não acreditamos no homem de nosso tempo, também não acreditamos no do seu. Acho que não é verdade que as pessoas de sua época eram abnegadas, desinteressadas, como dissestes. Pelo contrário, acho que eram todas interesseiras, egoístas e exploradoras umas das outras. Foi por causa delas que chegamos ao grau de miséria humana ainda existente no mundo atual.

- Seria impossível a construção da Civilização Cristã, palpitante na época medieval, sem que houvessem homens assim como lhe falei. Veja as catedrais góticas: quais interesses egoístas levariam os homens a construí-las? Veja as cruzadas à Terra Santa: que interesses pessoais e egoísticos levariam os homens a enfrentar uma guerra tão longínqua, sem qualquer objetivo expansionista ou de riquezas? Veja também os mosteiros, construídos em quantidade imensa: quais interesses egoístas em construir locais de oração, onde alguns se enclausuravam durante toda a vida, no mais completo recolhimento? E isto foi, meu caro senhor, o ponto alto da Idade Média.

- Já ouvi falar de algo assim, mas acho que tudo não passa de lendas.

- Então leia os compêndios de História, pesquise, procure conhecer o  período histórico de que falamos. O senhor precisa vencer sua descrença, e acreditar pelo menos na História de seus antepassados, que não são lendas, mas fatos que ocorreram em locais determinados com pessoas reais, e estão devidamente documentados. Além do mais, tanto as catedrais como os mosteiros e outros monumentos estão ainda de pé para atestar perante as gerações futuras  o que foi a Idade Média na alma de nosso povo.

- Por que continua me chamando de senhor?

- Porque assim o manda o respeito que tenho por sua dignidade, de ser dono de si, de deter o livre arbítrio e ser livre como deve ser todo filho de Deus. Nós nos chamamos de senhor por causa disso, e o senhor por que me chama de você o tempo todo?

- Porque somos todos iguais e este tratamento nos nivela, não dar a ideia de diferença e desigualdade. Nele não há destaque, não há distinção. Você é qualquer um, é igual a outro qualquer...

- Mas, não é verdade. Nós não somos qualquer um: somos filhos de Deus e detentores da dignidade própria desta condição. Além do mais, não somos iguais, somos completamente diferente e desiguais uns dos outros. Por isso, é necessário que sejamos tratados de forma diferente.

 

·                     *                      *                      *                      *                       *

 

 

 

Os sinos tocam pausadamente. As badaladas vão se sucedendo harmoniosamente, alternando sons graves e agudos de diversas igrejas. “Não, não pode ser – pensa Rivière – estes sinos não podem estar tocando no meio desta babilônica cidade. Estes toques me fazem lembrar meu mundo, minha cidade, minha querida Idade Média do século XIII e não no inferno desta babel”.

Sim, era verdade, os sinos da catedral e das outras igrejas de Lyon estavam tangendo. Logo, Rivière percebeu que seu sonho era um pesadelo. Levantou-se lépido da cama, pois não queria chegar atrasado à Santa Missa. Além do mais, o duque o estava esperando como sempre, e dormira além do normal. Ao sair, porém, na rua, ouviu certo murmúrio na praça. Eram comuns desde algum tempo aquelas azáfamas de vendedores que vinham de outras cidades. Um deles oferecia livros romanescos da cavalaria decadente: “O cavaleiro que salvou a princesa da prisão do castelo!” – gritava oferecendo seus cordéis. Era o título da obra. Alguns compravam, embora poucos soubessem ler.

Rivière vendo tudo isso, considerou pensativo:

- E pensar que tudo começou por aí. Estou presenciando o início do processo revolucionário em tudo o que se passa na minha cidade, cujo apogeu acabo de contemplar num terrível sonho que tive.

Soube de notícias do movimento renascentista que já se iniciara, uma tentativa de restaurar o mundo pagão depois que os grandes santos e doutores da Igreja haviam sepultado no pó da História aquelas velhas filosofias de vida que tantas misérias haviam produzido na humanidade antiga. Depois que a Igreja havia extirpado a escravidão, depois que as ciências, as artes, a cultura de modo geral começavam a tomar um impulso cristão e sadio, depois, principalmente, que predominava na sociedade católica um salutar convívio social e surgiam estudos para equacionar problemas seculares, os homens então começaram a querer retornar ao mundo romano-helênico e outros já decaídos.

E, aproveitando a ocasião, rezou algumas ladainhas e rosários pelo homem do século XXI. Pois, que solução poderia dar para problemas de tais magnitudes? Será que eles acreditariam, se lhes dissesse que estavam caminhando para aquela confusão vista em sonhos em época tão distante?

E o homem do século XXI? Seria ele capaz de sonhar como seria o futuro da humanidade, sete ou oito séculos após tanta decadência?

 (Extraído de "Choque de Mentalidades" - págs. 136/142 - séries de contos inéditos de minha autoria sob temas contrarrevolucionários)