sexta-feira, 18 de outubro de 2019

PAGANISMO INDÍGENA PERANTE AS ORGIAS,. BEBEDEIRAS E O VÍCIO DE FUMAR







Sem nenhum preceito moral que os contivesse em seus impulsos, os índios quando se entregavam (e ainda se entregam) aos vícios da orgia, faziam-no de forma descontrolada. Além do uso exagerado do fumo e da bebida, nesta oportunidade algumas tribos fazem também o uso de drogas alucinógenas. Quando faziam uma dessas festas, bebiam por vários dias seguidos. O pastor protestante francês Jean de Léry (século XVI) testemunhou uma festa em que eles passaram três dias e três noites consecutivas bebendo, e, mais ainda, “depois de bêbados a mais não poder, vomitaram quanto tinham bebido e recomeçaram bem mais dispostos que antes...  O curioso é que nada comem durante as bebedeiras...”.
O padre Claude d’Abbeville (século XVII) descreve uma dessas orgias:
“Nunca senti tanto espanto como quando entrei numa dessas cabanas onde estava havendo uma cauinagem; no primeiro plano se achavam esses grandes vasilhames de barro cercados de fogo e com bebida fumegando; mais adiante, inúmeros selvagens, homens e mulheres, alguns completamente nus, outros descabelados, outros ainda revestidos de penas multicores, uns deitado expirando a fumaça do tabaco pela boca e pelas narinas, outros dançando, saltando, cantando e gritando. E todos tinham a cabeça enfeitada e a razão tão perturbada pelo cauim que reviravam os olhos a ponto de parecer encontrar-me em presença de símbolos ou figuras infernais. E se na verdade o Diabo se deleita na companhia de Baco e busca por meio da dança perder as almas, há de por certo comprazer-se infinitamente nas reuniões desse miserável povo, que sempre lhe pertenceu pela barbárie, pela crueldade e  pela embriaguez, e que somente encontra satisfação em dançar e cauinar quando se apresenta uma oportunidade, durante dois a três dias seguidos, sem repouso nem para dormir, até que todos os potes se esvaziem. E o que é mais estranho, bebem e fumam sem comer o que quer que seja”. [1]
Todos os cronistas confirmam o que se diz acima. O padre Simão de Vasconcelos chegou a contar 32 tipos de bebidas alcoólicas ou alucinógenas. Varnhagen acrescenta que no Alto Amazonas é comum os índios fazer uso da coca e também de uma substância chamada “ypadu”, droga ainda hoje cultivada e usada não só pelos índios como entre os brancos, para isso existindo lá uma seita iniciática de seu consumo com o nome de “Santo Daime”.

Sobre a origem do fumo
Sobre o fumo, que era usado em qualquer dia, Gabriel Soares diz que “tomam este fumo por mantença, e não podem andar sem ele na boca, aos quais dana o bafo e os dentes, e lhes faz mui ruins cores. Esta cangoeira de fumo é um canudo que se faz de uma folha de palma seca, e tem dentro três e quatro folhas secas da erva santa, a que os índios chamam  petum...”[2] O padre Manuel da Nóbrega, por sua vez, afirma que o fumo também ajuda a digestão e a outros males corporais e a “purgar a fleuma do estômago”, parecendo querer dizer se for usado como medicamento.
Indiscutivelmente o fumo é originário das Américas.  Jean de Léry informa que a nicotina, “cujo nome diz prover do senhor Nicot, que primeiro a remeteu de Portugal para a França, é originária da Flórida...”  O cronista português Damião de Góes, por sua fez, diz que a “Erva Santa” , ou a planta do fumo, foi levada do Brasil para Portugal por Luiz de Góes. Da Flórida ou do Brasil, o fato é que a planta foi introduzida na Europa no século XVI pelos viajantes que retornavam das Américas. 



[1] “História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e Terras Circunvizinhas – Claude d’Abbeville – Ed. Itatiaia e Ed. Universidade de São Paulo, 1975, pág. 239
[2] “Tratado Descritivo do Brasil em 1587” – Gabriel Soares de Sousa – Typografia José Ignácio da Silva, 1879, pág. 296


quinta-feira, 17 de outubro de 2019

REDES SOCIAIS, NOVO RECURSO DA REVOLUÇÃO UNIVERSAL?







PRONGÓSTICOS SOBRE OS RUMOS DA REVOLUÇÃO NOS DIAS ATUAIS
Em que pé encontra-se, nos dias atuais,  a Revolução gnóstica e igualitária denunciada por Dr. Plínio Corrêa de Oliveira em sua obra “Revolução e Contra-Revolução”? Façamos uma análise.
1. É indiscutível que as forças secretas ainda têm certo domínio sobre os rumos da Revolução, haja vista seu grande poderio sobre as finanças, a política e os vários ramos da atividade humana. Em palestras para seus discípulos, a certa altura Dr. Plínio havia dito que a Revolução estava derrotada, ela havia sido vencida, estava morta. Mas, não entrou em maiores detalhes, pois certamente ele quis dizer que ela havia sido derrotada em seus planos maiores de implantação do reino de Satanás. Sim, ela não chegou a atingir seu objetivo maior. Mas, seu predomínio sobre a humanidade continuava, e sempre vai crescendo e se tornando cada vez mais sufocante e imperante.
2. Por causa desse predomínio sobre os rumos da humanidade a Revolução continua seu curso, embora rastejando como se fosse uma cobra ferida em sua cabeça. No entanto, tudo indica que ela não dispõe hoje de líderes capazes de levar a termo seus objetivos mais radicais. O que se nota hoje é uma total carência de tais lideres. Falta aquele homem carismático que consiga carregar multidões atrás de si. De tal forma esta carência de líderes é evidente que o Papa Francisco já reclamou disso, e anos atrás um dirigente da ONU se referiu a essa carência de líderes, lamentando que a humanidade andava sem rumos por causa disso. Barack Obama, pensando talvez que tal líder fosse o Lula chegou a dizer “esse é o cara”. Talvez tenha sido a última esperança revolucionária, hoje afundado num mar de ilícitos e preso por causa de seus crimes.
3. Mesmo rastejando e ferida de morte, que rumos a Revolução tem em mira hoje, sempre dirigida pelas forças secretas e por hordas de demônios que cada dia que passa saem dos infernos com tais fins? O objetivo final delas sempre foi a república universal, coisa meio etérea para muitos, mas bem definida para eles: uma situação em que toda a terra seja dominada por uma entidade comum, mas na realidade anárquica e destituída do caráter regencial que deve ter todo governo. O corpo místico do demônio nunca conseguiria ser implantado em toda a terra tendo características bem definida e com finalidades bem explícitas. Isso causaria uma recusa monumental de todos os homens. Por causa disso a própria república universal não é uma coisa bem clara para o povo, é algo nebuloso.
4. Enfim, a ausência aparente do poder é uma característica que a Revolução sempre teve em mira. Foi o ponto alto da Revolução da Sorbonne de 1968: diziam que os objetivos não eram o poder, mas a destruição deste. A fim de caracterizar aquela revolução como se fosse uma coisa espontânea e sem diretriz de regência do poder, eles não aceitavam nenhuma organização oficial fazendo parte do movimento, e os panfletos e manifestos não deveriam ter autor, sendo comum os pixamentos em paredes para dizer que ali estava a voz popular e não de nenhuma organização.
5. Será que não ocorre algo parecido nos dias de hoje? A opinião publica sempre foi manobrada pela mídia oficial, representada pelas emissoras de rádio e TV e pelas revistas e jornais. Este predomínio, no entanto, nunca conseguiu fazer com que a maioria aderisse aos desígnios da Revolução. Pelo contrario, o que se notou foi uma afastamento completo da opinião pública, por exemplo, do socialismo e do comunismo. Estas bandeiras foram abandonadas pela Revolução em prol de algo mais profundo e inadvertido. De repente, os mentores da Revolução descobriram que seria mais abrangente para seus objetivos que fosse desmontado o poder da mídia oficial, e em seu lugar surgisse outra, inteiramente espontânea e do meio popular. Trata-se das redes sociais. A internet passou a ser o instrumento dos protestos, dos indignados, daqueles que pretendem mudar os rumos da política de um país, mas não dispõem de meios para isso. E foi assim que fizeram experiências inéditas, como a “primavera árabe”, os “indignados” da Europa e o movimento “ocupem wall street” nos EUA. As pessoas se comunicavam pelos seus celulares, divulgavam suas propostas de revoltas e depois combinavam sair às ruas para protestar. A coisa pegou, pois muita gente se sente importante em participar de algo que muda os rumos da política e da história, nem tanto indo às ruas mas simplesmente publicando o que bem lhe aprouver, e sem precisar sair de casa. É por isso que há tantas “fakes news” nas redes sociais, pois ali é como uma “terra de ninguém”, onde qualquer um diz o que quer e publica o que bem lhe aprouver sem qualquer constrangimento. Foi detonada uma onda de revolução baseada na liberdade de expressão mais radical e profunda, pois a depender exclusivamente de cada indivíduo e não da mídia oficial.
6. Precisamos ver sobre tais prismas a onda conservadora que varre o mundo, demonstrando força popular tão intensa que está destruindo o poder dos regimes socialistas e comunistas ainda remanescentes. Aparentemente, isso é uma coisa boa, pois conseguimos deitar por terra regimes tão maléficos. Mas, o que vem depois? O que é que se constrói em cima de um regime socialista ou comunista que cai? Nada. Geralmente, o caos. Vejam o exemplo do Egito, que derrubou uma ditadura, mas até hoje o país não se encontrou, e caminha para outra ditadura. A “primavera árabe” nada trouxe de benefício duradouro nem no Egito, nem nos outros países onde predominou. De outro lado, as “primaveras” que derrubam regimes nunca funcionou em certos países, como Cuba, China, Coréia do Norte, etc., pois estes já caminham para o caos e anarquia da forma como estão sendo governados, indicando que o movimento é dirigido a certos regimes e em determinados países.
7. Agora vejamos o caso do nosso Brasil. O movimento conservador que hoje domina as redes sociais está desmantelando a esquerda, e isso é muito bom. Nota-se, inclusive, que as forças secretas parecem ter interesse nisso, pois a própria maçonaria, oficialmente, fez campanha pelo impeachment de Dilma, e provavelmente apóia Bolsonaro. Talvez tenha visto que rumos a coisa estava tomando e fez opção apenas para participar do poder. Mas, há indícios de orientação dada por organizações mais poderosas da Europa, como foi o caso em outros países. Lutando por uma causa boa, que é a destruição das esquerdas, a maioria da população não percebe que está para vir depois disso apenas o caos e a anarquia. Por quê? Por que o Brasil, pela forma como está organizado legalmente, é um país quase ingovernável. Tanto um governo de esquerda quanto de direita pouco conseguiria fazer em prol de seus ideais. A prova disso é que o PT passou tantos anos no governo e não conseguiu implantar um regime inteiramente socialista. Conseguiu algo, mas muito pouco em comparação daquilo que são seus planos. O próprio ex governador da Bahia, Jaques Wagner, lamentou isso, achando que deveriam ter sido mais radicais e implantado completamente um regime tipo Cuba. Ora, se o país está assim, ingovernável, qualquer um que assuma o poder só terá fracassos pela frente. Nesse caso, as força secretas optaram por apoiar intensamente um candidato conservador, que represente realmente o pensamento das aspirações de grande maioria da população, para, no poder, causar frustração ao povo, simplesmente porque além de não conseguir fazer o que prometeu talvez seja até desmoralizado perante seu público e venha a cair. Isso deve causar maior desesperança nos poderes políticos, objetivo maior da Revolução e das forças malignas. E tudo em nome de uma nova revolução, feita pelas redes sociais, dita pacífica. Eles não têm pressa e esperam que depois dessa fase as esquerdas ressurjam com nova roupagem mais agradável, quem sabe abertamente tribalistas, pacifistas, etc.
8. O manual que segue o pessoal dirigente dos sites e dos grupos de comunicação na internet é o mesmo. Pode-se ver que é o mesmo por causa da unidade no modo de proceder. Este Manuel foi publicado pelo americano Gene Sharp, e está disponível para qualquer um pela internet. Lá, o autor dá regras de “como fazer uma revolução pacífica”. Prestem atenção, por exemplo, que os grupos que saem às ruas têm o cuidado e não pertencer (ou não demonstrar que pertencem) a nenhum partido ou representação oficial; todas as manifestações devem ser pacíficas, isto é, sem quebrar nada, sem agredir ninguém; notem que os blacks blocs já não saem às ruas, nem se fala mais neles. O candidato Bolsonaro prega que não tem compromissos com partido e se inscreveu no mais fraco de todos; faz apologia aberta de usar as redes sociais e despreza a mídia oficial, recusando até de comparecer a debates pela TV. É uma demonstração de que as redes sociais aglutinam muito mais do que a mídia oficial, atraindo milhões em torno de seus ideais. Ideais que já existiam na mente de cada um, mas faltava quem hasteasse a bandeira e os levasse a termo.
9. Enfim, onde vamos parar? Sim, vamos parar em bom porto. Não por causa dos mentores de tal revolução, mas por causa do bom senso que deve predominar na população. Mal imaginavam os idealizadores de tal movimento revolucionário que a opinião pública sadia e nacionalista iria crescer tanto e se solidificar, constituindo num cerne duro capaz de dar novos rumos à nação. Espera-se que não seja o caos e anarquia que predomine, pois nosso povo, de tradições cristãs, tem propósitos tão grandiosos que deverá impulsionar doravante nossos governantes para a construção de um Brasil novo e completamente contra-revolucionário. Mesmo que as esquerdas ganhem as eleições não têm mais condições de implantar seus programas mais radicais, ou serão obrigados e deixar o cargo e recuarão sempre, porque finalmente temos já formada uma opinião pública visceralmente oposta a tais programas. Acredito que esta opinião pública tão coesa e sadia tenha sido fruto do Anjo do Brasil, trabalhando com nossos santos e fundadores para a formação de uma nova sociedade que antecede o Reino de Maria. As redes sociais foram meros veículos para a divulgação de tal mentalidade.

OBS: Estamos apenas reeditando nossa postagem de 16.10.2018, com o título ONDE VAMOS PARAR?

https://quodlibeta.blogspot.com/2018/10/onde-vamos-parar-1.html



segunda-feira, 14 de outubro de 2019

PREPARA-SE HOJE A MESMA PERSEGUIÇÃO HAVIDA NA VENEZUELA EM 1984?








A perseguição venezuelana de 1984

O Texto a seguir foi divulgado por EX ARAUTOS MINAS GERAIS, anteriormente já publicado por nosso blog em 24.08.2017 quando já estava no auge a plena perseguição que hoje se move contra o povo daquele país por um governo tirano e socialista. Procede a indagação: perante a perseguição caluniosa movida atualmente contra os Arautos do Evangelho, com características semelhantes às de 1984, não se vislumbra que pretendem o mesmo tais perseguidores, inimigos de nossa Fé e a serviço do inimigo comum dos cristãos? A todo custo eles pretendem afastar de seu caminho aqueles que possam impedi-los de expandir seu império sobre os homens, daí usar de recursos vis, baixos, verdadeiramente canalhas, para conseguir seus objetivos. Vejam o texto a seguir e deduzam se algo semelhante não pode estar ocorrendo nos dias de hoje (no método e no tipo de calúnias), embora possa se dizer que o clima não é o mesmo da Venezuela daqueles anos, principalmente por causa do grande desprestígio que hoje goza a mídia oficial.


“Aqueles que não lembram o passado estão condenados a repeti-lo”. Essa frase, do escritor George Santayana (pseudônimo de Jorge Agustín Nicolás Ruiz de Santayana y Borrás), parece ser bastante adequada para a história que vamos transcrever. Trata-se de uma narração escrita em 1988, para o livro ‘Um homem, uma Obra, uma Gesta – Homenagem a Plinio Corrêa de Oliveira”. Lendo-a, conseguimos entender de onde vem a impressão de ‘déjà-vu’ que acontece quando nos deparamos com algumas das calúnias da ‘seita anti-arautos‘. É um fenômeno que se repete: quando a doutrina cobra uma postura, incomoda, e não pode ser refutada, apela-se para uma perseguição basicamente emocional ou baseada em questões deturpadas. Confiram:


Núcleo Venezolano de Defensa de la Tradición, Familia y Propiedad foi fundado em outubro de 1971, a partir de um grupo de universitários que haviam conhecido a Plinio Corrêa de Oliveira e aderido a seus ideais. Essas pessoas também instituíram a “Asociación Civil Resistencia”, conhecida pela revista universitária “Resistencia”, e que foi a denominação mais conhecida do grupo de discípulos de Dr. Plinio naquele país.
Dentre as ações memoráveis, destaca-se a visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, que vertera lágrimas milagrosamente em Nova Orleans (EUA), que chegou à Venezuela sob os auspícios da TFP, em 1976, sendo venerada por mais de 150 mil pessoas. Em 1978 a entidade difundiu em campanha pública milhares de exemplares do texto “Diálogos Sociais”, onde, em linguagem simples e acessível, era exposta a doutrina social católica sobre temas do momento: propriedade privada, livre iniciativa, família etc.
Em 1984, ante a possível aprovação de projetos de lei que poderiam afetar a fundo o futuro do País, a Associação Civil Resistencia julga seu dever fazer ouvir sua voz no campo dos princípios. Publica então o manifesto O socialismo gerou a maior crise sócio-econômica das últimas décadas – e a lei de Custos, Preços e Salários vai agravá-la. O documento mostrava que a Venezuela estava sendo conduzida gradualmente para onde não queria nem devia ir: rumo ao Estado socialista.
O semanário “Tribuna Popular”, do Partido Comunista, ataca violentamente, em primeira página, a campanha de Resistencia.
Apenas trinta e seis dias depois da campanha de Resistencia a respeito da lei de Custos, preços e salários, o governo socialista do Presidente Lusinchi começa a desencadear contra a entidade o mais violento “estrondo publicitário” da história do País, dando origem a verdadeira perseguição ideológico-religiosa.
A polícia caraquenha invade o imóvel da sede social da entidade, alegando ter recebido denúncia (anônima) de que ali havia menores seqüestrados. Procede ela à vistoria, obviamente nada encontrando.
Depois de um pequeno hiato, a campanha publicitária toma no mês de outubro proporções gigantescas.
Em poucas semanas, cerca de 600 notícias de jornais contra Resistencia são publicadas tão-só em Caracas (das quais 100 em apenas dois dias…), sendo levadas ao ar nada menos que 20 horas de programação de TV. As acusações estapafúrdias se repetem sem cessar, como, por exemplo, a de que todos os anos, no mesmo dia, um membro de Resistencia praticava o suicídio ritual.
Resistencia e o Bureau Tradicão, Família, Propriedade (também atingido pelo “estrondo”) se defendem serenamente, refutando uma a uma, sem exceção, todas as acusações concernentes a seus respectivos âmbitos. As portas das redações dos jornais se fecham para suas respostas, mas elas são publicadas como anúncios pagos. Não há tréplicas. Os instigadores do “estrondo publicitário” retomam as mesmas acusações, como se nada tivesse sido dito pela TFP em sua defesa (o mesmo método de sempre, em todos os lugares…).
De seu lado, o ministros do Governo Lusinchi se associam ao coro, comparecendo diversas vezes à televisão para atacar Resistencia.
Cinco ou seis famílias – os jovens de Resistencia eram cinqüenta – se mostram inconformes com o fato de seus filhos colaborarem com Resistencia. De início, começam a molestá-los. Depois se põem a difamar publicamente o conjunto dos jovens de Resistencia, entre os quais seus próprios filhos, pela imprensa e televisão, fato inconcebível, e até do qual o público venezuelano não conhecia precedentes. Pouco depois, pedem à Procuradoria Geral da República e à Polícia Política (DISIP) que retirem a liberdade de movimento dos jovens de Resistencia, proibindo-os de ausentar-se do País, e ao mesmo tempo solicitam aos corpos de segurança do Estado que os interroguem em presença de psicólogos, para averiguar se sofreram lavagem cerebral em Resistencia ou na TFP brasileira, que haviam visitado durante as férias.
Os órgãos policiais do Governo socialista Lusinchi, que pareciam estar à espera da desconcertante iniciativa dos pais inconformes, no dia seguinte ao pedido se colocam em ação, começando imediatamente os interrogatórios e prolongando-os por oito dias. Alguns dos jovens têm que permanecer até onze horas consecutivas na polícia, sem que lhes seja permitido comer e, em muitos casos, nem beber. A ferocidade policial é alternada com provocações e diversos processos de pressão moral e psíquica.
Tudo lhes foi perguntado, desde qual era a influência da cor vermelha em sua vida, até assuntos íntimos. Ou relativos à liturgia. Ao mesmo tempo, mulheres da polícia os coagiam com convites lascivos, narrações obscenas, e deboches. Alguns tiveram que se submeter a exames toxicológicos, testes psiquiátricos e neurológicos e “avaliações” antropométricas.
A sede de Resistencia volta a ser vistoriada (e o é quatro vezes em poucas semanas…), sem que seja possível impugnar de forma documentada a associação. Sempre ‘suposições’. Diante da nítida perseguição policialesca, esses jovens (o mais velho mal chegava aos 30 anos) reafirmam publicamente sua profissão de fé católica e se mantêm firmes na sua adesão aos princípios da organização que integram. Seria, portanto, de esperar que, da parte da Hierarquia da Igreja da Venezuela, lhes chegasse alguma palavra de conforto. Em vez disto, Resistencia foi atacada publicamente por um Bispo e vários Sacerdotes. O Cardeal José Ali Lebrun, Arcebispo de Caracas (que recebera em seu Palácio, abençoara e desejara sorte ao candidato presidencial marxista, o ex-guerrilheiro comunista Teodoro Petkoff), nega-se a receber os membros de Resistencia quando estes lhe solicitam uma entrevista, e até quando a ele recorrem pelo telefone, o Prelado corta a ligação depois de lhes fazer uma áspera invectiva. Nos mesmos dias, recebe demoradamente em audiência o grupinho de pais hostis. Nenhum dos membros do Episcopado venezuelano responde, nem sequer nos limites mínimos de cortesia prescritos pelas boas praxes, a uma filial e respeitosa circular, em que Resistencia pede alguns esclarecimentos e se põe à disposição para qualquer elucidação.

Uma Comissão Parlamentar de Inquérito
Na segunda semana de novembro, o “estrondo publicitário” é marcado, sobretudo, por uma tumultuosa sessão da Comissão de Política Interior do Congresso para interpelar os dirigentes de Resistencia. Nela, os discursos anti-Resistencia se sucedem, e os dirigentes da entidade têm poucas oportunidades para se fazerem ouvir. O discurso inicial, do deputado David Morales Bello, Presidente da Comissão, já prejulga Resistencia, pois afir­ma tratar-se de uma associação legal apenas na aparência, mas ilegal nos fatos, por violar a Constituição. O deputado não aduz qual­quer prova a suas acusações. Os outros dis­cursos são do mesmo gênero: a Comissão con­dena Resistencia antes mesmo de começar a ouvi-la
Em sentido contrário, o deputado Dr. José Rodri­guez Iturbe, democrata-cristão, levanta-se pa­ra pedir que seja examinado, antes de mais nada, se há provas dos fatos alegados, e quais deles são ilegais. Sua proposta é acolhida agressivamente pela mesa.

A suspensão das atividades por decreto
O fechamento de Resistencia e do Bu­reau pelo governo socialista sobrevém no dia 13 de novembro de 1984, em meio a uma sucessão frenética de acontecimentos.
No dia anterior, o Comitê Executi­vo da Ação Democrática, partido integran­te da Internacional Socialista, ao qual es­tá filiado o Presidente Lusinchi, pedira formalmente que Resistencia fosse fecha­da, e que não se permitisse sua atuação no País.
Pela manhã do dia 13, realiza-se um de­bate na TV, de quase três horas, ao qual com­parecem os jovens de Resistencia, tendo ter­minado com vantagem para estes, co­mo prova o fato de o Governo ter proibido a reprise do programa, já anunciada pela emissora de televisão.
Estranhamente, como “adivinhando” que algo de sensacional estava por suceder, um batalhão de jornalistas e fotógrafos apre­senta-se nos portões da sede, acompanhados pelos pais inconformes. Surge também uma chusma de agitadores (alguns dos quais por­tando paus e facões) liderados por dois depu­tados socialistas dos que mais se destacaram na luta contra Resistencia.
A polícia fora prevenida com insistência pe­la entidade visada, mas entretanto não compare­ce. Seguem-se brados de slogans, o arromba­mento do grande portão, a invasão dos jar­dins e o apedrejamento da sede. Tudo com transmissão simultânea pela TV.
No começo da noite, quando o show re­volucionário chega a seu climax, comparece diante das câmaras de televisão o Ministro da Justiça, Manzo Gonzales, e lê o decreto da suspensão das atividades de Resistencia e do Bureau, decreto esse assinado por ele e pe­lo Ministro do Interior, Octavio Lepage, em nome do Presidente Lusinchi.

Até adversários estranham
Nos dias seguintes, conhecidas persona­lidades do mundo político, jurídico e jornalís­tico venezuelano – inclusive o ex-presidente Rafael Caldera – saem a público para mani­festar sua estranheza ante a medida ditatorial do Governo Lusinchi. A maioria delas diz não concordar com Resistencia, mas verbera com vigor esse atentado contra o regime de liberdade, juridicamente vigente no País. O Cardeal Lebrun, contudo, declara que “as autoridades competentes do País atuaram con­forme as leis do Estado proibindo o funciona­mento da organização”.
A TFP brasileira fez publicar comunica­do intitulado Perseguição ideológico-religio­sa na Venezuela – Nuvem negra baixa sobre o País irmão, o qual põe em realce a inocên­cia de Resistencia e o inequívoco caráter per­secutório da atitude governamental. Es­se comunicado foi publicado pelas diversas TFPs em alguns jornais de toda a América do Sul.

O veredito da Justiça
A batalha prosseguiu, entretanto, jun­to ao Poder Judiciário, onde tramitavam vá­rios processos de caráter penal, civil e admi­nistrativo em que Resistencia e o Bureau ora eram autores, ora réus.
Os mais importantes eram duas averiguações penais, que termina­ram, ambas, inocentando completamente Resistencia.
A primeira dessas vitórias se concre­tizou em 19 de dezembro de 1984, quando a Procuradoria (Fiscalía) Geral da Nação desis­tiu de formalizar recurso à Corte Suprema de Justiça contra a sentença absolutória das instâncias inferiores, com o que foi encerrada a investigação originada da primeira vis­toria na sede da entidade – em agosto de 1984 – por não existir nada que indicasse a prática de qualquer delito por parte dos mem­bros da associação.
No segundo processo penal houve mui­tas delongas e vicissitudes; finalmente, no dia 30 de dezembro de 1985, o Juiz do 14° Juiza­do Criminal de Primeira Instância do Distri­to Federal, Dr. Saúl Ron Braasch, declarou terminada a averiguação judicial “por não se revestirem de caráter penal os fatos denuncia­dos”. E no dia 15 de maio de 1986 o Juiz do 10° Juizado Superior Criminal proferiu senten­ça definitiva, que confirmou a decisão de pri­meira instância, declarando que a ação penal estava extinta por se tratar de coisa julgada.
Era o veredito inapelável da Justiça, mostrando que a atroz perseguição carecia de qualquer fundamento.

Exílio voluntário
Mas, como se compreenderá facilmente à vista dos fatos acima narrados, considerando o procedimento violento e arbitrário do go­verno, os militantes de Resistencia se sentiram privados do benefício das garantias legais con­feridas aos cidadãos venezuelanos pela consti­tuição. E entenderam ser preferível deixar sua Pátria querida, à espera de dias melhores em que pudessem retornar para servir nela a cau­sa da civilização cristã. Em consequência, muitos deles emigraram e passaram a integrar as TFPs de outros países.
Posteriormente foi possível comprovar que muitas das acusações veiculadas contra Resistencia foram alimentadas pelo norte-americano Lyndon LaRouche, mentor de uma rede de organizações cívicas, culturais, financeiras e políticas, e de uma cadeia de agências de notícias. Esse aparato midiático alimentou de inverdades delirantes o “estrondo” venezuelano em toda a duração (cfr. “Ultimas Noticias”, Caracas, 13-10-84 e “2001”, Caracas, 14-2-85). Posteriormente, Lyndon LaRouche foi condenado a 15 anos de prisão pela Justiça norte-americana, por estelionato (“Folha de S. Paulo”, 28-1-89).


HÁ MAIS DE 30 ANOS QUE SE PERSEGUEM CATÓLICOS NA VENEZUELA

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sábado, 12 de outubro de 2019

O QUE O SÍNODO DA AMAZÕNIA DIZ DISSO? INFANTICÍDIOS E ABORTOS, BÁRBAROS COSTUMES INDÍGENAS






A matança de inocentes, inclusive de nascituros ou dos fetos através de abortos, é um costume  que se disseminou em quase todos os povos pagãos. Em alguns deles as crianças eram oferecidos aos ídolos, como ocorreu com os caldeus das primeiras civilizações antigas. Entre os indígenas a matança de inocentes não tem, porém, nenhum pretexto idolátrico ou alguma razão aparente. Trata-se apenas de desvencilhar-se de um “incômodo”  e nada mais...
São José de Anchieta conta que uma velha índia enterrou uma criança viva, logo após nascer, pelo simples fato do pai dela haver abandonado a mãe e se juntado a outra índia. Explicou que fez isto para evitar que o menino “ficasse mestiço de duas sementes”.  Matam os nascituros até mesmo como vingança por causa de alguma irritação do marido que lhe causou alguma humilhação ou desdita.  Há também casos que as demais parentas matam o filho caso a mãe venha a morrer após o parto, pois não há quem lhe dê de mamar. Comenta São José de Anchieta: “coisa que assim sem mais piedade, a criança viva e a mãe morta, ambas em uma cova”  sepultavam. Sim, sepultavam viva a própria filha...
O aborto e o infanticídio não são, portanto, prerrogativas decorrentes do progresso tecnológico e social da vida moderna, é um costume que tem sua origem nos povos pagãos, especialmente entre os índios. E como praticam, especialmente os abortos? Di-lo São José de Anchieta: “As índias, ou iradas contra seus maridos ou, as que não os têm, por medo ou por outra qualquer ocasião muito leviana, matam os filhos, ou bebendo para isso algumas beberagens, ou apertando a barriga, ou tomando alguma carga excessiva e de muitas maneiras, que a crueldade humana faz inventar”.[1]
Parece que a maioria dos casos tinha como causa a vingança contra os maridos. A esse propósito Afonso Arinos transcreve o relato feito por Moncquet sobre um inglês que convivia com uma índia há muitos anos e, chegando ao porto um navio, nele embarcou sem levar consigo a índia que já tinha um filho dele. Furiosa, a índia pegou o filhinho e saiu despedaçando o corpo com sanha feroz pela praia, atirando metade do cadáver no mar em direção do navio que se afastava do porto.[2]
Pior do que isso eles faziam. Não só matavam as crianças, mas em alguns casos as comiam em seus festins antropofágicos. São narrados vários casos em que os filhos eram também mortos e comidos juntamente com os pais, ou então, engordados para serem comidos depois...
Mas, este problema persiste até hoje, pois já foram denunciadas várias tribos ou etnias que continuam praticando o infanticídio entre eles. O tema é bastante discutido no âmbito do direito, havendo algumas organizações que defendem o costume sem levar em consideração o sagrado direito á vida. Quem quiser ver este problema atual com mais profundidade veja o seguinte artigo https://jus.com.br/artigos/61370/infanticidio-indigena
Ou, com mais detalhes, o vídeo a seguir:




[1] “Cartas – Correspondência Ativa e Passiva – Pe. Joseph de Anchieta, SJ – Ed. Loyola, 1984, pág. 159
[2] Vide a obra “O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa” – Afonso Arinos de Mello Franco – Livraria José Olympio Editora/MEC, 1976, pág. 28


sexta-feira, 11 de outubro de 2019

É LÍCITO JULGAR O PRÓXIMO?







Fazer juízo é um ato comum entre os homens, e todos nós o fazemos cotidianamente sem mesmo o perceber. E a maioria das pessoas tem o costume de fazer julgamentos apressados, inclusive considerando apenas a questão da culpabilidade do próximo ou de si mesmo perante algum fato. Quebrou-se algum objeto dentro de casa, surge logo a questão: de quem foi a culpa? Como se o fator culpa fosse o mais importante. Aqui entra um fator muito importante, e que os santos levam em consideração para sua própria perfeição: de quem quer que seja a culpa, o primordial não é isso, mas, sim, que valores estão em jogo quando ocorre esse tipo de coisa, se o do objeto ou se o apego ao mesmo. Quando alguém acusava algum santo (Santa Teresinha do Menino Jesus é um exemplo deste procedimento) de fatos assim corriqueiros, geralmente eles não se desculpavam, julgando que bem poderiam realmente ter cometido aquilo, e, neste ato, estão implicitamente fazendo um justo juízo de si mesmos.
O ato de julgar é, portanto, muito importante em nossa perfeição. Devemos apenas ter cuidado ao exercê-lo, como adverte São Paulo: “E tu, ó homem, que julgas aqueles que fazem tais coisas e (também) as fazes, julgas porventura que escaparás ao juízo de Deus?” (Rom 2, 3)
Vejamos o que diz São Tomás de Aquino sobre a licitude do ato de julgar:
“O segundo se discute assim. – Parece que não é lícito julgar.
1.    – Pois, a pena só é infligida a um ato ilícito. Ora, os que julgam incorrem em pena, em que não incorrem os que não julgam, segundo o Evangelho: “Não julgueis para que não sejais julgados” .(Mt 7, 1);.  Logo, é ilícito julgar.
2.    Demais – A Escritura diz: “Quem és tu, que julga o servo alheio? Para seu senhor está em pé ou cai” (Rm 14, 4) . Ora, o Senhor de todas as coisas é Deus. Logo, a nenhum homem é lícito julgar.
3.    Demais - Nenhum homem é sem pecado, conforme àquilo da Escritura: “”Se dissermos que estamos sem pecado, nós mesmos nos enganamos” (I Jo 1, 8).   Ora, a quem peca não é lícito julgar, conforme àquilo da Escritura: “És inescusável tu, ó homem qualquer, que julgas; porque no mesmo que julgas a outro, a ti mesmo te condenas, porque fazes essas mesmas coisas que julgas” (Rm 2, 1)   . Logo, a ninguém é lícito julgar.
Mas, em contrário, a Escritura: “Estabelecerás juízes e magistrados de todas as tuas portas, para que julguem o povo com retidão de justiça”. (Deut 16, 18)..
SOLUÇÃO  – O juízo é justo na medida em que é um ato de justiça. Ora, como do sobredito resulta, três condições se exigem para que um juízo seja um ato de justiça: primeiro, que proceda de uma inclinação justa; segundo, que proceda da autoridade do chefe; terceiro, que seja proferida pela razão reta da prudência. A falta de qualquer delas torna o juízo vicioso e ilícito. – De um modo quando vai contra a retidão da justiça. E, então, o juízo se chama “pervertido” ou “ injusto”. – De outro modo, quando julgamos daquilo para o que não temos autoridade. E, então, o juízo se chama “usurpado”. – De terceiro modo, quando falta a certeza da razão; assim, quando julgamos do que é duvidoso ou oculto, levados por leves conjecturas. E, então, chama-se o juízo “suspeitoso” ou “temerário”.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA PERGUNTA – O Senhor, no lugar citado, proíbe o juízo temerário que incide sobre a intenção do coração ou sobre outras coisas incertas, como diz Agostinho – Ou proíbe, com as palavras citadas, julgar das cousas divinas, as quais, sendo-nos superiores, não devemos julgá-las, mas simplesmente crê-las, como diz Hilário. – Ou proíbe o juízo não procedente da benevolência, mas, do espírito amargo, como diz Crisóstomo.
RESPOSTA À SEGUNDA – O juiz é constituído ministro de Deus; donde o dizer a Escritura: “”Julgai o que for justo”; e depois acrescenta: “é o juízo de Deus”.
RESPOSTA À TERCEIRA – Os réus de pecados graves não devem julgar os que também o são dos mesmos ou de pecados menores, como diz Crisóstomo àquilo do Evangelho: “Não queirais julgar”. O que sobretudo se deve entender dos pecados públicos; porque então o nosso juízo gera o escândalo nos corações dos outros. Se, porém, não forem públicos, mas ocultos, e, por dever, tivermos que dar o nosso juízo, podemos acusar ou julgar com humildade e temor. Por isso, diz Agostinho: “Se nos encontrarmos no mesmo vício que outrem, gemamos com ele e o incitemos a tornar-se melhor, esforçando-nos também nós para consegui-lo, Nem contudo, por isso, ao julgar os outros, nós nos condenamos, por atrairmos sobre nós um novo motivo de condenação; mas, ao condenar a outrem, mostremo-nos merecedores da mesma condenação, por um pecado igual ou semelhante”..[1]

Indicando que o juízo faz parte da virtude da Sabedoria, assim fala São Boaventura sobre o mesmo:
“A sexta coluna da casa da sabedoria é a maturidade de juízo; e isto se adverte quando diz: “não se meta a julgar”. Há maturidade no juízo quando o homem não julga temerariamente. De onde se diz no Eclesiástico: “O juiz sábio fará justiça ao seu povo”, isto é, ao povo sobre o qual tem autoridade. Mas se passa dos limites da autoridade, não é juiz sábio, senão o juízo será temerário. Se alguém julga sem autoridade, aquele, quem é? Nada, certamente. É necessário também que o juízo do sábio tenha a retidão do zelo e a claridade do conhecimento. Do primeiro se disse: “A boca do justo derramará sabedoria, e a língua falará judiciosamente”. Justo juiz é o que se move por um justo zelo, aprova todo o bem e reprova o mal; porém o que não tem reto zelo não pode julgar bem. O amor e o ódio pervertem o juízo. Se me odeias não podes julgar-me retamente; e por que não? Porque te parece que tudo o que há em mim é mal, - Desta forma é necessário que o juiz tenha a claridade do conhecimento. Como julgaria bem de uma coisa desconhecida? Por isso, quando os inimigos de Job o argüiam que não era justo, dizendo: “O justo Deus não o castiga, e, contudo, a ti te castiga”, quiseram julgar de coisas ocultas.[2] Job, ouvindo estas coisas, respondeu-lhes dizendo: “”Arrependei-vos e vinde, e não encontrarei entre vós nenhum sábio”. Por isso disse o Bem-Aventurado Santiago: “não se meta a julgar”; não quer dizer que o homem não deva julgar, em seu devido lugar e a seu devido tempo, de uma coisa sobre a qual tenha certeza, autoridade e reto zelo, do contrário os homens julgam o mal como bem, e ao contrário, o bem como mal. O homem deve ser mais inclinado a escusar com clemência que a julgar mal. Agora todos são julgados de “sentenças iníquas”. Deve, pois, o homem não ultrapassar os limites da autoridade nem julgar temerariamente sem a retidão de zelo e sem a claridade do conhecimento. São Mateus disse: “Não julgueis aos demais se não quereis ser julgados”. É suma necedade que os homens julguem os defeitos interiores dos outros e não tenham cuidado de si mesmos. São Gregório disse:”Quanto mais curioso é o ânimo para indagar das coisas alheias, tanto mais néscio é para conhecer as próprias”. [3]
A dificuldade que sentimos em exercer um julgamento sobre o próximo é por causa da semelhança de situação: trata-se de seres feitos da mesma carne, mesmo espírito, com vida terrena compatível entre si, e por causa disso não passível, em sua essência, de exercer juízo sobre os outros. Isso ocorre porque, na concepção comum das pessoas, só pode julgar quem tem autoridade para tanto, aquele que foi investido no cargo de juiz. E isso é verdade no que diz respeito ao juízo público, mas não no que diz respeito ao juízo interior, ao juízo particular de cada um. No entanto, tal juízo é necessário para que possamos nos exercitar na regência mútua e atingirmos a perfeição para a qual fomos criados, podendo até a chegar a ser público, conforme o caso, mesmo que não estejamos investidos do cargo apropriado.


[1] Summa, Questão LX, Art. II (tradução de Alexandre Correia), edição da Escola Superior de Teologia de São Lourenço de Brindes – Universidade Caxias do Sul – Livraria Sulina Editora),
[2] Para se “julgar coisas ocultas” é  necessário clareza de conhecimento, que  é o mesmo que discernimento dos espíritos, necessário também para se exercer o juízo em certos casos.
[3] Obras de San Buenaventura – vol. V – BAC, págs. 509/510.