SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

QUE MENTALIDADE ESTÁ POR TRÁS DE TRAGÉDIAS COMO A DE LAS VEGAS?




Mais um massacre para a triste história da vida moderna americana, o “american way of life”. O que diverge este dos demais é apenas as características pessoais do agressor e alguns detalhes menores.
Um outro massacre, ocorrido em 2012, teve características parecidas em alguns aspectos. Refiro-me ao ocorrido na escola de Sandy Hook, quando um jovem atirador surgiu de repente matando professores e alunos.
Naquela oportunidade, o ex-governador do Arkansas, Mike Huckabee, declarou que a causa do masscre na escola de Newtown é o fato do Estado haver sistematicamente removido Deus das escolas públicas. As opiniões divergem, de outro lado a maioria dos órgãos da mídia aponta como causa a fácil proliferação de armas naquele país. O que, também, não é verdade.
Mike Huckabbe erra porque Deus não foi removido somente das escolas, mas de toda a sociedade. A começar pelas próprias famílias, onde Deus foi banido da grande maioria dos lares.
Vejamos um pequeno exemplo dessa ausência de Deus: o presidente americano daquela época, Barack Obama, em discurso, dizia que a primeira coisa a fazer quando chegar em casa seria... abraçar os filhos, quando todos esperavam que ele dissesse: rezar com os filhos. Se é ateu e não reza deveria pelo menos pedir aos cristãos que rezassem pelas vítimas. Deu, portanto, mau exemplo, pois muitos de seus concidadãos estavam naquele instante rezando. Quanto ao atual, quando falava do massacre de Las Vegas apenas o classificou como coisa de muita maldade. Nada de orações ou de sentimentos de pesar cristão pelo ocorrido.

Mas, finalmente, que mentalidade é essa que produz tais monstros, capazes de matar tantos inocentes e, depois, suicidar-se?
Monstro é o termo usado pela mídia, e não surpreende que o seja. Mas, dizem, trata-se de um monstro cujo comportamento era padrão, tratando-se (o criminoso) geralmente de alguém de comportamento dito como “normal”.  O assassino de Sandy Hook era um rapaz calmo, estudioso e “bem comportado”. O autor do massacre de Las Vegas é um homem “normal”, sem problemas financeiros, rico e viciado nas roletas de cassinos. Que mentalidade foi gerada nesses homens, tão “pacatos”, para, de repente, explodir em ódio catastrófico?
Vários outros massacres foram produzidos por indivíduos tidos como “bem educados” e de cuja vida não pode se dizer que sofriam carências materiais. Todos eram de classe média e boa situação financeira. Possuíam em sua casa todos os recursos para uma vida dita feliz para os padrões modernos, como televisão, computadores, celulares de última geração e, sobretudo, armas modernas, caras e eficientes para matar. Uns usavam luvas, outros câmaras de filmar, e a maioria, calmamente, sabia mais apertar o gatilho certeiro do que folhear, por exemplo, um livro qualquer sobre moral ou religião. E nenhum deles tinha problema mental grave.
Vamos analisar essas mentalidades. Em primeira lugar, é óbvio, são pessoas sem Deus e sem religião. Em seu interior tais pessoas alimentaram durante anos uma vida inteiramente virtual, cheia de ídolos, de fantasias e de futilidades, vida essa que a educação pela imagem faz brotar e crescer nas pessoas de hoje. Sem manifestar publicamente em seu dia a dia, alimentam ódios pelo mundo real e exterior, o qual representa tudo o que se opõe ao seu mundo virtual e interior. A par disso tais pessoas geralmente posuem tudo o que desejam, seus pais lhes deram boas escolas, roupas caras, boa habitação para morar, mas, especialmente isso, nunca lhes causaram dissabores, nunca disseram “não” a seus caprichos. Alguns pais até achavam bonito e riam quando o filho, desde pequeno, fazia malcriações ou diziam palavrões, chutavam outras crianças, etc. É certo que a maioria não era vista como violenta, pareciam pacatos dentro de casa e no convívio com parentes, vizinhos e amigos. Mas, era como um vulcão que parecia morto e que de repente explode. O jogador de cassino de Las Vegas tem uma característica diferente, pois era filho de um bandido. E nem seus pais, nem seus professores, nem seus amigos e vizinhos viam que ali ardia uma fornalha de ódio.
Por que não viam? Porque vivendo sem religião não aprenderam a prescrutar o interior, a alma das pessoas. Num mundo virtual e superficial, as pessoas de hoje não conseguem ver o que há no interior da alma de cada um. Acostumados a ver tudo cor de rosa, a ver o mundo como uma maravilha destinada ao gozo dos prazeres, não sabem distinguir onde está a maldade. Especialmente, não percebem onde entra a ação preternatural, do demônio e seus asseclas, e muito menos a ação dos Anjos bons.
Agora, para encobrir mais ainda a realidade interior de que falamos, a mídia começa a dar como causa do massacre a proliferação de armas entre os americanos. Sim, não se pode negar que esta pode ser uma das causas, mas não a maior, nem única, nem a principal. A principal e maior  causa é a falta de religiosidade e de princípios morais que campeia em nossa sociedade, e não somente entre tais assassinos, mas entre seus familiares e conterrâneos.
Falou-se acima em “monstros”. Outros criminosos são assim denominados “monstros” pela nossa sociedade. Por exemplo, aqueles que cometem o abominável crime de pedofilia. A alcunha de “monstro” procura esconder onde essa monstruosidade foi gerada. Dentre os pedófilos, por exemplo, a principal causa é a pornografia desenfreada que grassa em nossa sociedade. No dia em que se fechar para sempre a edição de revistas pornográficas e de mulheres nuas, os moteis e os ambientes de perdição sexual, talvez tais crimes sejam menos frequentes, pois as causas, aquilo que vem gerando estas monstuosas taras terão desaparecido.
Do mesmo modo, a causa da monstruosidade praticada em tais massacres não pode estar nas armas, nem em outros instrumentos usados pelos criminosos, mas na vida atéia e sem Deus que se leva, sem levar em consideração que somos assediados cotidianamente por anjos, tanto do mau quanto do bem, com vantagens para os primeiros por causa de vida material e puramente agnóstica. Ao lado da facilidade com que adquirem armas tais, estes indivíduos também, como o resto da população, vivem assistindo filmes policiais de violências inauditas, os quais lhes servem de inspiração. E ninguém ver que também nestes filmes está um dos motivadores de tais mentalidades.
Na década de 60 houve um outro massacre que estarreceu os Estados Unidos: a chacina comandada por Charles Manson numa rica mansão, onde foi morta, mesmo grávida, a atriz Sharon Tate, num ritual diabólico. O assassino confesso, hoje em prisão perpétua, parecia um pacato cidadão, mas foi capaz de efetuar um monstruoso crime juntamente com alguns amigos. Na época não havia ainda a prática de suicídio do criminoso após tais crimes, mas foi ela a primeira a inspirar outros casos.
Parece até que a chacina de Newtown (em 2012) serviu de exemplo para outras que os espíritos malignos inspirariam no futuro, como esta de Las Vega, exemplo por conter traços de frieza, maldade, crueldade e desesperança. É o que tais casos procura incutir nas pessoas: desesperança; ao contrário do que ensina nossa Fé Católica, onde a Esperança é uma das principais virtudes que nos leva a caminhar em busca da vida eterna.

Veja também nossa postagem anterior sobre o mesmo tema:


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

BEATA ANNA CATARINA DE EMMERICH, VÍTIMA EXPIATÓRIA EXORCÍSTICA




Vidente alemã nascida em 8 de setembro de 1774 e falecida a 09 de fevereiro de 1824. Catharina Emmerich era de origem humilde, filha de camponeses da Westfália, que viviam na aldeia de Flamske, onde ela nasceu. Foi batizada no dia do nascimento o que lhe mereceu dos céus muitíssimas graças e dons celestiais. Ainda criança, via com freqüência seu Anjo da Guarda e brincava com o Menino Jesus. Falava de suas visões às outras crianças com toda a naturalidade, mas logo teve que precaver-se e calar tudo pensando que não estava sendo modesta.
Apesar de várias tentativas, somente conseguiu abraçar a vida religiosa quando contava com 28 anos de idade. Foi admitida no Convento das Agostinianas de Duelmen em setembro de 1802. No início de sua vida conventual teve algumas dificuldades com as outras freiras por causa de suas visões. Mas ela comenta tais dificuldades com a maior naturalidade: “Eu vivia em paz, com Deus e com todas as criaturas. Quando trabalhava no jardim, vinham as avezinhas pousar sobre minha cabeça e meus ombros e cantávamos juntas os louvores de Deus. Via sempre o meu Anjo da Guarda ao meu lado e, ainda que o mau espírito me assustasse e me agredisse, não me podia fazer mal. O meu desejo do Santíssimo Sacramento era tão irresistível, que muitas vezes deixava de noite a minha cela para ir rezar na igreja, quando estava aberta; se não, ficava ajoelhada diante da porta ou perto do muro, mesmo no inverno ou prostrada no chão, com os braços estendidos e em êxtase. Assim me encontrava o capelão do convento, Abbé Lambert (sacerdote francês, exilado da pátria por não prestar juramento  exigido pela constituição atéia), que tinha a caridade de vir mais cedo para dar-me a Sagrada Comunhão. Mas, logo que se aproximava para abrir a igreja, eu voltava a mim, indo depressa á mesa da Comunhão, onde achava o meu Deus e Senhor”
A situação ficou difícil para ela e suas confrades religiosas por volta de 1811 quando o convento teve que ser fechado por causa da guerra. Ficou  hospedada numa casa humilde até se restabelecer a ordem. No ano seguinte, Nosso Senhor lhe aparece e imprime em seu corpo os estigmas da Paixão. O capelão Abbé Lambert e o seu confessor, Pe. Limberg, viram-na sangrar dois dias depois, mas compreendendo tudo ficaram calados para proteger a privacidade da vidente. Ela também procurou, no início, esconder os sinais das chagas a fim de evitar ser mal compreendida pelas pessoas. A partir de então não pôde mais tomar alimento, a não ser água misturada com vinho, e raras vezes um pouquinho de suco de cereja ou ameixa. Seu único alimento era a sagrada Comunhão, e assim viveu até o final de seus dias.
No entanto, seu estado de completa abstinência e os estigmas da Paixão logo se tornaram notícia na cidade.  Em março de 1813 o vigário de Duelmen, Pe. Rensing, encarregou dois médicos para, juntamente com o confessor da vidente, fazerem um exame das chagas. Depois, o prefeito de Munster, sede do bispado, foi visitá-la acompanhado de um delegado de polícia. Após a visita determinou que oito médicos e cirurgiões do exército empregassem todos os meios disponíveis para fazer cicatrizar as feridas da extática. Sem resultado, é claro. No mesmo mês foi iniciado também um inquérito eclesiástico sobre o seu estado místico. Durante 10 dias, Catharina Emmerich foi vigiada por 20 pessoas para comprovar que o sangue dos estigmas vinham de causas naturais. Em parte, era a incredulidade dos homens, nesta época de ateísmo e irreligiosidade, duvidando dos milagres da Providência Divina, mas servindo aos desígnios de Deus. Os autos foram enviados às autoridades eclesiásticas, onde se constatava o caráter sobrenatural dos estigmas nas mãos, nos pés, no coração e na cabeça, e se reconhecia o estado virtuoso e santo da religiosa.
Seis anos depois, era a vez da investida maçônica contra a religiosa, proveniente de uma ordem das autoridades civis para “desmascarar o embuste”. Foi criada uma comissão de médicos naturalistas, os quais tentaram levar a vidente para a casa do conselheiro do Tribunal de Contas, Mersmann. Como ela se recusou a ir, e também a dar autorização para ser submetida a certos tipos de testes ou exames, foi levada à força.

Vítima expiatória para fulminar a conjuração anticristã
Tendo vivido no período que se seguiu à Revolução Francesa, Catharina Emmerich passou a conviver com os passos seguintes dados pela grande conjuração anticristã que se espalhava por toda a Europa. Monsenhor Henri Delassus assim comenta em sua obra “La Conjuration Antichrétienne”, publicada em 1910, no pontificado de São Pio X :
“A Igreja estava então, como ainda está hoje, numa das horas mais críticas da sua história. 1820, como vimos, foi o ano em que a Grande Loja entrou em plena atividade, e sabemos qual missão lhe foi dada. “Ora, diz um dos historiadores de nossa heroína, o que Anna Catharina fazia, no estado de contemplação, contra essa conjuração infernal, era uma obra tão real, acompanhada de resultados tão positivos quanto tudo o que se faz na esfera da via habitual. O martírio ao qual se submetia não era somente uma paixão, mas também uma ação, como em Nosso Senhor Jesus Cristo o sacrifício do Calvário foi uma obra, a obra da Redenção. Um dia ela pensou sucumbir ao peso das dores que a crucificavam; seu anjo exortou-a à resignação dizendo-lhe: “Cristo ainda não desceu da cruz. É preciso perseverar com Ele até o fim”.
“É através da participação nos sofrimentos da divina Paixão que, no momento em que o inferno faz mais esforços para retomar a posse do mundo, as pessoas escolhidas por Deus triunfam sobre ele e obtêm a vitória para a Igreja, depois a paz num crescendo de glória”.
Quer dizer, Anna Catharina Emmerich sofria com Nosso Senhor Jesus Cristo, e sofrendo com Ele sofria também com Seu Corpo Místico, a Santa Igreja Católica. Sofria como vítima expiatória por causa dos abomináveis pecados de Revolução que dominavam o seu tempo, os quais terminavam por favorecer a causa de satanás e a conjuração universal contra a Igreja.  Vítima expiatória que visava também exorcizar todos os demônios que infestavam sua época e dominavam as organizações das forças secretas e anticristãs.
Sobre a efetiva participação das forças secretas na demolição da Igreja, Catharina Emmerich teve a seguinte visão:
“Tive a visão de uma grande igreja. Junto dela vi muitas pessoas distintas, entre as quais vários estranhos, com aventais e colheres de pedreiro. Pareciam enviados para demolir essa igreja. Já começaram a destruí-la por intermédio das escolas que entregam à incredulidade. Toda espécie de pessoas juntam-se a eles. Até padres estavam lá, e mesmo religiosos. Isso me causou tal aflição que chamei meu divino Esposo em socorro. Supliquei-Lhe que não deixasse o inimigo triunfar desta vez”.
Eis um exemplo de intercessão expiatória de Catharina Emmerich em prol da Igreja, conforme narra Monsenhor Delassus:
“...Os príncipes da Alemanha haviam convocado uma assembléia, na qual vários padres católicos se mostraram animados dos mesmos sentimentos dos leigos que a compunham. O mais perigoso, no dizer de Catharina, era o vigário-geral Wessenberg, de Constance. Essa assembléia redigiu dois projetos de organização interna e externa da Igreja. Catharina viu na sala das deliberações o demônio sob a forma de um cão que lhe disse: Esses homens aí fazem verdadeiramente a minha obra. Catharina ofereceu-se como vítima de expiação e Deus lhe impôs uma obra de reparação que durou quinze dias”;
Sobre a ação deletéria dos educadores que corrompia a juventude, influenciados por filósofos racionalistas e anticristãos, como Kant, Schilling e Hegel, Catharina Emmeric declarou em 1823:
“Tive uma visão sobre a situação deplorável dos jovens estudantes de hoje. Vi-os em Munster, assim como em Bonn, correndo pelas ruas. Tinham nas mãos pacotes de serpentes, cujas cabeças sugavam, e ouvi estas palavras: “São serpentes filosóficas”. Vi que muitos pastores deixavam-se tomar por idéias perigosas. Oprimida de tristeza, desviei os olhos dessa visão que me enchia de angústia e rezei pelos bispos”.
No entanto, a vidente e extática não se restringia a rezar e expiar, ela também agia. Onde se fizesse necessário ela se fazia presente para defender a Santa Igreja, embora sob uma forma espiritual. Seu Anjo da Guarda a transportava em espírito para o lugar onde as potestades do mal estavam a agir. Declarou haver feito várias “viagens” a diversos países onde as forças da conjuração anticristã atuavam com denodo.
Sobre a situação de Paris, declarou:
“Pareceu-me que minavam debaixo dessa grande cidade, na qual o mal está no ponto máximo. Havia vários demônios ocupados nesse trabalho. Eles já estavam bem adiantados e eu acreditava que com tantos e tão pesados edifícios ela logo iria desabar”.
“Em seguida entrei na Espanha. Vi por todo o país uma longa cadeia de sociedades secretas. E meu anjo me disse: “Hoje Babel está aqui”.


“Desse desditoso país fui conduzida para uma ilha onde nasceu São Patrício (Irlanda). Aí os católicos estavam muito oprimidos. Mantinham relações com o Papa, mas em segredo.
“Da ilha de São Patrício fui conduzida a uma outra grande ilha (Inglaterra). Vi aí a opulência, os vícios, muitas misérias e numerosos navios”.
Chegando em Roma, falou da situação do Papa:
“Cheguei a São Pedro e São Paulo. Vi um mundo tenebroso, cheio de desgraça, mas como que atravessado por raios de luz, pelas inumeráveis graças emanadas dos milhares de santos que aí repousam. Vi São Pedro numa grande tribulação e numa grande angústia. Eu o vi rodeado de traições.  Vi que em casos extremos de desgraça ele tem visões e aparições. Vi muitos e piedosos bispos, mas eram fracos e o mau partido tomava a dianteira. Vi a igreja dos apóstatas ter muito crescimento. Vi as trevas que saíam dela espalharem-se pelos arredores, e vi muita gente desertar da Igreja legítima e se dirigir para a outra dizendo: “Aqui tudo é mais natural”.
Em outra visão, dias depois, voltava a falar do Papa:
“A aflição do Santo Padre (Pio VII) e da Igreja é tão grande que devemos implorar a Deus noite e dia. O Santo Padre, mergulhado em aflição, trancou-se, para subtrair a exigências perigosas.  Ele está muito fraco e completamente esgotado pela tristeza, pelas preocupações e pela oração. A principal razão para se manter fechado é que não pode mais se fiar senão em poucas pessoas.  Mas há perto dele um velho padre muito simples e muito piedoso que é um amigo e, por causa da sua simplicidade, considera-se não valer a pena ser afastado. Ele vê e observa muitas coisas que comunica fielmente ao Santo Padre. Informei-o enquanto ele rezava a propósito dos traidores e das pessoas mal intencionadas existentes entre os altos funcionários que vivem na intimidade do Santo Padre, a fim de que lhe seja dado conhecimento disso”.
Segundo Monsenhor Delassus, Catharina Emmerich visitava espiritualmente com freqüência os Papas de seu tempo:
“Catharina viu o Papa (Pio VII) numa grande tribulação e numa grande angústia. Com efeito, nesse momento ele estava submetido a provas mais penosas do que tinha sido sua prisão pelos satélites de Napoleão e aquilo que se seguiu. Ela diz que em momentos de grande aflição ele foi favorecido com visões. Vemos na sua história que ela mesma foi freqüentemente conduzida por seu anjo junto a ele, como também junto ao seu sucessor, Leão XII[1]. Ela ia para perto deles, não corporalmente, mas à maneira dos espíritos. Ela lhes transmitia os conselhos e mesmo às vezes as admoestações que seu guia celeste lhe sugeria. Essas comunicações eram produzidas através das iluminações de espírito a espírito, como nos mostra São Tomás relativamente aos anjos que se entretêm entre si, ou através de palavras faladas e ouvidas? Não o sabemos, mas esse desconhecimento não deve fazer-nos rejeitar a possibilidade dessas mensagens. Posto que Deus aceitava as orações e os sofrimentos de sua serva para o bem da Igreja, podemos admitir que Ele a enviasse junto ao Pastor supremo para esclarecê-lo, encorajá-lo e fazer com que evitasse os perigos que seus inimigos e os traidores a seu serviço lhe armavam, sem que, no entanto, ela deixasse seu leito de dores. Ela própria, ao mencionar uma mensagem da qual foi incumbida junto a um eclesiástico, nos dá uma idéia do modo como essas comunicações são recebidas”.
Dizia Catharina Emmerich: “Precisei ir até Munster, junto ao vigário-geral. Tive de dizer-lhe que ele estragava muitas coisas por causa do seu rigor, que ele devia dispensar mais cuidados ao seu rebanho e permanecer mais em casa para aqueles que tinham necessidade de vê-lo. Foi como se ele tivesse encontrado no seu livro uma mensagem que lhe sugerisse esses pensamentos. Ficou desgostoso consigo mesmo”.
Estes avisos e admoestações feitos ao Santo Padre, o Papa, faz parte da promessa que Nosso Senhor fez da assistência que o Divino Espírito Santo sempre deu à Santa Igreja Católica.  E na maioria dos casos essa assistência é dada utilizando-se dos próprios fiéis, pois Deus sempre age por causas segundas. Monsenhor Delassus lembra da assistência que receberam os Papas Gregório XVI e Pio IX por intermédio da mística Maria Moerl. Leão XIII foi lembrado por uma religiosa, Condessa Drotz zu Vischering, sobre o desejo de Nosso Senhor de ver o gênero humano consagrado ao Seu Sagrado Coração.
Além destes avisos de pessoas, ou mesmo de admoestações caridosos e sutis de videntes e místicos, os Papas também são guiados por visões ou sonhos. Foi assim que Leão XII teve uma pavorosa visão enquanto celebrava a Santa Missa: A terra apareceu-lhe toda envolta em trevas; e de um abismo entreaberto ele viu sair uma legião de demônios que se espalhavam pelo mundo para destruir as obras católicas e atacar a própria Igreja, que ele viu extremamente reduzida. Então São Miguel apareceu e repeliu os espíritos malignos para o abismo. Após esta visão, Leão XIII instituiu as orações do exorcismo que eram rezadas nas Santas Missas até o advento do Concílio Vaticano II.  Viu também que a ação de São Miguel seria completa apenas quando os efeitos de tais exorcismos fossem completos.
A Beata Anna Catharina Emmerich, anos antes, teve visão semelhante. Viu ela que um terço dos demônios que estavam no inferno seriam soltos em torno de cinqüenta ou sessenta anos antes do ano 2000, aos quais Deus daria certo tempo para agir na terra, mas findo este tempo seriam novamente sepultados no inferno. Quer dizer, seriam exorcizados de uma forma que não permaneceriam nos “ares”, fazendo algum mal aos homens, mas seriam projetados de volta para o inferno.

A “igreja naturalista”  faz parte dos planos do reino do demônio
A “Bondade natural” é um logro que conduz fatalmente os homens para uma falsa religião. Seu sucedâneo no plano mundial seria a “Igreja naturalista”. Aquilo que para Monsenhor Delassus, o Cardeal Merry del Val e o Papa São Pio X (posteriores a Catharina Emmerich)  já era um corpo vivo, digamos, o corpo místico do demônio, em franca ascensão e progresso, ao tempo dela era patente apenas em suas visões.
Monsenhor Delassus comenta:
“Várias vezes Anna Catharina fala da igreja dos apóstatas, que também chama de igreja das trevas e cujos progressos ela mostra. Ela também assinala nessa igreja a presença e a influência de certos cúmplices dos principais chefes da franco-maçonaria. Que igreja é essa? Ela não o precisa, senão pela frase que lemos acima: “Aqui tudo é mais natural”, e que parece indicar que com isso ela compreendia os propósitos daqueles que desertam da ordem sobrenatural para se porem mais à vontade no naturalismo”.
Mas a construção deste maldito templo satânico, que era o corpo místico do demônio e sua falsa igreja, só seria possível com a destruição da Igreja de Cristo. Daí a atuação constante dos demolidores:
“Fileiras de trabalhadores ocupados no trabalho de destruição estendiam-se através do mundo inteiro, e fiquei espantada com a coordenação com que tudo era feito. Os demolidores destacavam grandes pedaços do edifício. Esses sectários são numerosos e entre eles há apóstatas. Realizando o trabalho de destruição eles precisam seguir certas prescrições e certas regras. Usavam aventais brancos, debruados com uma faixa azul e guarnecido de bolsos. Tinham colheres de pedreiro fixadas na cintura. Ademais, têm vestimentas de toda espécie. Entre eles existem personagens distintos dos outros, grandes e corpulentos, com uniformes e cruzes, os quais, contudo, não trabalhavam diretamente, mas marcavam nas paredes das igrejas, com a colher de pedreiro, o que era preciso demolir. Vi com horror que havia entre eles padres católicos. Freqüentemente, quando os demolidores não sabiam bem como agir, eles se aproximavam, para se instruírem a respeito, de um dos seus, que tinha um grande livro no qual estava traçado todo o plano a seguir para as destruições, e este marcava exatamente, com a colher de pedreiro, o ponto que devia ser atacado; e logo um pedaço caía sob as marteladas. A operação prosseguia tranqüilamente seu ritmo e caminhava infalivelmente, mas sem despertar atenção e sem ruído, tendo os demolidores os olhos à espreita”.

Objetivos gerais dos demolidores
Anna Caharina Emmerich viu como os demolidores trabalhavam em visões. Monsenhor Delassus viu-os na realidade de seus dias:
“Vemos hoje que um plano de destruição foi traçado com antecedência com uma sabedoria diabólica. Vemos que os operários encarregados da execução encontram-se divididos por todos os países do mundo, que os papéis foram distribuídos e que cada qual recebeu o significado da tarefa que lhe incumbe. Eles cavam no lugar que lhes foi assinalado; param quando as circunstâncias o exigem, para retomar em seguida o trabalho com um novo ardor. Em todos os países católicos o assalto é conduzido simultaneamente ou sucessivamente contra a situação que o clero secular ocupava no Estado e nas diversas administrações; contra os bens que lhe permitiam viver, render a Deus o culto que Lhe é devido, ensinar a juventude a aliviar a miséria; contra as ordens religiosas e as congregações.  Relativamente à França, o plano geral da guerra que devia ser desfechada contra os católicos foi apresentado na Câmara dos Deputados no dia 31 de maio de 1883, por Paul Bert. Na execução desse plano, Ferry, Waldeck, Combes, Loubet, Briand, Clemenceau não exerceram nenhuma política pessoal. Eles executaram aquilo cujas linhas o chefe misterioso traçara, indo consultar seus subalternos, os depositários do pensamento, quando ficavam hesitantes ou embaraçados.  Após os doze primeiros anos desse trabalho, o episcopado da França pôde dizer: “O governo da República tem sido a personificação de um programa de oposição absoluta à fé católica”. Desde então, a cada ano tem abatido uma nova parte do edifício erguido por nossos pais, a Igreja da França. Catharina Emmerich via os franco-maçons e seus ajudantes distribuídos em diversas equipes, cada qual com uma tarefa determinada. Foi o que vimos. Gambetta foi encarregado da declaração de guerra. Paul Bert levou a picareta ao ensino. Naquet à constituição da família, Jules Ferry ao culto, Thévenet, Constans, Floquet, etc., expulsaram o clero de todas as suas posições; Waldeck-Rousseau atacou as congregações religiosas; Combes, Clemenceau, Briand, conceberam e buscaram a separação entre a Igreja e o Estado”.
“Para os trabalhos de demolição no interior da Igreja há também engenheiros que podemos facilmente nomear: um ataca a Sagrada Escritura, outro a Teologia, um terceiro a filosofia, este a História, aquele o culto. Sobretudo, há associações internacionais encarregadas , como vimos, de disseminar no pública, e particularmente na juventude, o espírito refratário ao dogma”.
“Anna Catharina, que assim via os franco-maçons e seus cúmplices ou seus “inocentes úteis”  se assanharem em demolir a Igreja, de dentro e de fora, também via o clero e os bons fiéis se esforçarem para entravar o trabalho deles e mesmo reerguer as ruínas já feitas, mas, diz ela, “com pouco zelo”. Os defensores pareciam-lhe não ter nem confiança, nem ardor, nem método. Eles trabalhavam como se ignorassem absolutamente do que se tratava e quanto era grave a situação. Era deplorável”.
Em suas visões, a Bem-Aventurada via que o objetivo principal dos demolidores era Roima, era o Papado:
“Vi, um dia, o Papa em oração. Ele estava rodeado de falsos amigos. Vi sobretudo um homem-negro trabalhar para a ruína da Igreja com grande atividade. Ele diligenciava em cativar os cardeais através de adulações hipócritas”.
Monsenhor Delassus narra que, numa carta reservada, um maçom que tinha o codinome de “Nubius”, comentava:
“Algumas vezes passo uma hora da manhã na casa do velho cardeal Somaglia, o Secretário de Estado;  cavalgo, seja com o duque de Laval, seja com o príncipe Cariati, ocasião em que freqüentemente encontro cardeal Bernetti.  Daí corro para a casa do cardeal Palotta; depois visito em suas células o Procurador-Geral da Inquisição, o dominicano Jabalot, o teatino Ventura ou o franciscano Orioli. À noite, começo nas casas de outros essa vida tão bem ocupada aos olhos do mundo”.
Em outras visões, a Bem-Aventurada fala detalhadamente deste personagem:
“Vi muitas pessoas piedosas aflitas com as intrigas do homem-negro. Ele tinha o aspecto de um judeu.
“O pequeno homem-negro, que vejo tão freqüentemente, tem muitas pessoas que faz trabalhar para ele sem que elas conheçam o objetivo. Há também cúmplice seus na nova igreja das trevas”.
“Eu o vi realizar muitas subtrações e falsificações”.
“De um lugar central e tenebroso, vejo partirem mensageiros que levam comunicações a diversos lugares. Vejo essas comunicações saírem da boca dos emissários como um vapor negro que cai no peito dos ouvintes e acende neles o ócio e a raiva”.
Após uma de suas visões, declara Catharina Emmerich:
“Precisei ir a Roma. Vi o Papa fazer demasiadas concessões em importantes negócios tratados com os heterodoxos. Existe em Roma um homem-negro que sabe obter muitas coisas mediante adulações e promessas. Ele se esconde atrás dos cardeais; e o Papa, no desejo de obter uma certa coisa, consentiu numa outra coisa que será explorada de uma maneira nociva. Vi isto sob a forma de conferências e troca de escritos.  Vi em seguida o homem-negro vangloriar-se cheio de jactância diante do seu partido. “Eu o venci, disse ele, nós logo veremos o que acontecerá à Pedra sobre a qual está construída a Igreja”.   Mas ele se vangloriou cedo demais.  Precisei encontrar-me com o Papa.  Ele estava de joelhos e rezava. Eu lhe disse aquilo que eu estava encarregada de lhe fazer chegar ao conhecimento. E o vi subitamente levantar-se e tocar a campainha. Mandou chamar um cardeal que encarregou de retirar a concessão que fizera.  O cardeal, ouvindo isso, ficou completamente perturbado e perguntou ao Papa de onde lhe vinha aquele pensamento. O Papa respondeu que nada tinha a explicar sobre isso. “Basta, disse ele, deve ser assim”.  O outro saiu inteiramente estupefato”.
Entendendo o motivo pelo qual Nosso Senhor lhe mostrava tudo isto, disse ela: “Espero ajudar os que resistem a essas seduções tomando sobre mim as dores da Paixão de Cristo”.   Após estas palavras seu corpo enrijeceu-se e tomou a posição de uma pessoa estendida sobre a cruz. Um suor frio correu na sua fronte. Era a vítima expiatória sofrendo a Paixão do Corpo Místico de Cristo, a Sua Santa Igreja.
Depois, falando sobre o caráter exorcístico de sua vocação dizia:  “Vejo como no fim Maria estende seu manto sobre a Igreja e como os inimigos de Deus são expulsos”.

Visões proféticas sobre a Igreja e a “bagarre”
As visões da Bem-Aventurada Catharina Emmerich abarcam toda a História do Universo e a Obra divina. Desde a criação do mundo até a vinda do Anticristo.  Sobre os dias que viriam após sua época, viu de uma forma simbólica o crescimento do corpo místico de satanás da seguinte forma:
“Eu vejo as trevas se adensarem. Ameaça uma grande tempestade, o céu está coberto de um modo apavorante. Há poucas pessoas que rezam e a aflição dos bons é grande. Vejo por toda a parte as comunidades católicas oprimidas, humilhadas, arruinadas e privadas de liberdade. Vejo muitas igrejas fechadas. Vejo grandes misérias se produzirem em todos os lugares. Vejo guerras e sangue derramado.
“Tive a visão de uma imensa batalha. Toda a planície estava coberta por uma espessa fumaça.  Vinhas estavam cheias de soldados, de onde atiravam continuamente. Era um lugar baixo; viam-se grandes cidades ao longe.  Vi São Miguel descer com numerosa tropa de anjos e separar os combatentes. Mas isso só acontecerá quando tudo estiver perdido.  Um chefe invocará São Miguel e então a vitória descerá”.
“Vi São Miguel pairando sobre a igreja de São Pedro, brilhante de luz, usando uma vestimenta vermelho-sangue e segurando na mão um grande estandarte de guerra. Verdes e azuis combatiam contra os brancos, que pareciam sofrer a derrota. Todos ignoravam porque combatiam. Entretanto, o anjo desceu, foi aos brancos e eu o vi várias vezes à frente de todas as suas coortes. Então eles ficaram animados de uma coragem maravilhosa, sem que soubessem de onde isso lhes vinha.  O anjo multiplicava seus golpes entre os inimigos, as tropas inimigas passavam para o lado dos brancos, outros fugiam para todos os lados”.
Sobre a demolição da Igreja a Bem-Aventurada teve diversas visões, chegando ao ponto de vê-La a tal ponto destruída que só restava de pé o Santíssimo Sacramento.  Nisto ela viu um homem que defendia a Igreja: “Eu estava acabrunhada de tristeza e me perguntava onde estava aquele homem que eu tinha visto outrora permanecer sobre a Igreja para defendê-la, usando uma vestimenta vermelha e segurando uma bandeira branca”.  Se ela não via neste momento o homem que “outrora” defendia a Igreja é porque este já havia entrado na glória, pois em seguida é Nossa Senhora em pessoa que luta pela igreja: “Então vi uma mulher cheia de majestade avançar pela grande praça que fica diante da igreja. Ela tinha seu amplo manto erguido sobre os dois braços, e ela se levantou suavemente no ar. Ela se postou sobre a cúpula e estendeu sobre a Igreja, em toda a sua extensão, o manto que parecia faiscar de ouro”.  Com esta intervenção, vários demônios “mantenedores” de que falamos neste trabalho foram exorcizados: “Os demônios acabavam de tomar um instante de repouso; mas quando quiseram voltar ao trabalho foi-lhes absolutamente impossível aproximar-se do espaço coberto pelo manto virginal”.  Os anjos bons agora ocupavam tais espaços, preparando o ambiente para a vinda do Reino de Maria.
É chegado a hora em que, após o Varão da Destra de Nossa Senhora ter subido aos céus, com o seu holocausto  como que “comprou” de Deus um mais poderoso auxílio angélico para os bons que combatiam: “Entretanto, os bons puseram-se a trabalhar com uma atividade incrível.”.  Inicialmente meio moles, por causa de certos “provectos”, mas depois aguerridos por causa da presença de “muitos jovens fortes e vigorosos”. Na descrição a seguir há uma referência a um movimento dentro da Igreja para a restauração de tudo: “Vieram homens muito velhos, impotentes, esquecidos, depois muitos jovens fortes e vigorosos, mulheres e crianças, eclesiásticos e seculares; e o edifício foi logo inteiramente restaurado”.  
Depois de tudo isto, o Reino de Maria: “Vi tudo se renovar e uma igreja que se erguia até o céu”. Em outra visão: “Vi uma imagem desse tempo distante que não posso descrever. Mas vi sobre a terra a noite se retirar e a luz e o amor retomarem uma nova vida. Tive nessa ocasião visões de toda espécie sobre o renascimento das Ordens religiosas. O tempo do Anticristo não está tão próximo como alguns crêem. Haverá ainda precursores, e vi em duas cidades doutores de escola dos quais poderiam sair esses precursores”.
No Reino de Maria os conspiradores anticristãos continuarão atuando: “Os homens de avental branco continuaram a trabalhar, mas sem ruído e com grande circunspecção. Eles estão temerosos e têm sempre o olho à espreita”.
Não há como negar que a Bem-Aventurada Anna Catharina Emmerich foi vítima expiatória, isto foi proclamado por ocasião de sua beatificação. E, como tal, vítima expiatória exorcística, pois pelo seu holocausto (junto aos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo) diversos demônios encarregados da conjuração anticristã entre os homens foram exorcizados.  Não se sabe se, ao voltarem todos para o inferno lá ainda permanecem, pois tais são os pecados dos homens que muitos deles podem ter voltado ou ainda ter permanecido em algum lugar na terra.





[1] Foi eleito sucessor de Pio VII em 28 de julho de 1823. Na sua política externa procedeu às negociações de diversas concordatas, vantajosas para o papado.. Condenou as sociadades bíblicas (de tendências protestantes) e reorganizou o sistema educacional. Era fortemente opositor da Carbonária e da Maçonaria..

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

AS SETE DORES DE NOSSA SENHORA




(Comentários de dr. plinio corrêa de oliveira sobre a santíssima virgem maria)

Hoje é festa das Sete Dores de Nossa Senhora, colocada, com muita felicidade, logo depois da festa da Exaltação da Santa Cruz. “ Festa estendida a toda Igreja por Pio VIII, em memória da proteção da Santíssima Virgem na libertação de Pio VII”.
Sobre isto comenta D. Guéranger:
“No decurso da oitava da Natividade, o pensamento do sofrimento não se apresentava ao espírito do fiel, mas se nós nos tivéssemos posto a questão “o que será essa criança”, nós teríamos visto exatamente que se todas as nações devessem um dia proclamá-la bem-aventurada, Maria deveria sofrer antes com seu Filho, para a salvação do mundo. Ela mesma, pela voz da liturgia, nos convida a considerar sua dor: “Ó vós todos que passais pelo caminho, parai e vede se há uma dor igual à minha dor. Deus me pôs e estabeleceu na desolação. Minha dor é obra de Deus”.
“É Ele que, predestinando-A a ser Mãe de seu Filho, uniu indissoluvelmente sua pessoa à vida, aos mistérios, aos sofrimentos de Jesus para ser, na obra da Redenção, sua fiel cooperadora. É preciso que o sofrimento seja um bem muito considerável, para que Deus, que ama tanto Seu Filho, tenha dado sofrimento a Ele. E como depois de Seu Filho, Ele ama a Santa Virgem mais do que qualquer criatura, Ele quis dar a Ela também o sofrimento como o mais rico dos presentes. Por Maria, o sofrimento não dava só no Calvário; o sofrimento lhe veio com Jesus, “essa criança incômoda” como disse Bossuet, porque Jesus, entrando em qualquer lugar, entra com Sua cruz; e a traz com seus espinhos, e a distribui a todos que a amam”.
“A solenidade desse dia, que nos mostra, sobretudo, Maria no Calvário, nos lembra, nessa dor suprema de todas as dores, conhecidas ou não, que encheram a vida de Nossa Senhora. Se a Igreja se deteve no número de sete, é porque esse número exprime sempre a idéia de totalidade ou universalidade. Para compreender, com efeito, a extensão e intensidade dos sofrimentos de Nossa Senhora, é preciso conhecer o que foi seu amor por Jesus. E seu amor aumentou seu sofrimento. A natureza e a graça concorrem juntas para produzir no coração de Maria impressões profundas. Nada é mais forte e mais premente do que o amor que a natureza dá para um filho e aquele que a graça dá para um Deus”.
São tantos pensamentos excelentes, que se seria tentado a desenvolver excessivamente este Conferência. Mas em todo caso, vamos nos concentrar sobre duas idéias que estão aqui: a primeira das idéias é que Nosso Senhor, tendo amado com amor infinito ao Seu Verbo Encarnado, Nosso Senhor Jesus Cristo, e tendo amado com um amor inferior a esse, mas superior a todos os outros amores, a Nossa Senhora, lhes deu tudo quanto há de bom. E por isso lhes deu aquela imensidade de cruzes que é representado pelo número sete. São sete dores, quer dizer, são todas as dores. E Nossa Senhora das Dores poderia ser chamada perfeitamente Nossa Senhora de todas as Dores, porque não houve dor que Ela não tivesse.
Por causa disso, se é verdade que todas as gerações A chamarão bem-aventurada, a um título menor, mas imensamente real, todas a gerações A poderiam ter chamado “infeliz”. Ora, se isso é assim, nós deveríamos compreender melhor, quando a dor entra na nossa vida, que é uma prova de amor de Deus. E que enquanto a dor não penetrar em nossa vida, nós não temos todas as provas de amor de Deus. E eu acrescentaria, e justificarei daqui a pouco isto, nós não temos a principal prova de amor de Deus.
O que quer dizer isto? Há muitas pessoas que eu olho e vejo a cara. E no fundo da cara vejo isto: falta-lhe ainda sofrer. Falta, no fundo, uma nota de maturidade, uma nota de estabilidade, uma nota de racionalidade, uma elevação que só tem aquele que sofreu, e aquele que sofreu muito; e quem leva uma vida sem sofrimento, leva uma vida em que essa nota não transparece na fisionomia, e o que é muito pior, não transparece na alma.
Nós devemos compreender isso, e quando começam a aparecer os contratempos, dificuldades em nosso apostolado, mal entendidos com os amigos dentro do Grupo, mal entendidos com os nossos chefes, saúde que anda mal, negócios que andam mal, encrencas dentro de casa, nós não deveríamos tomar isso como um bicho de sete cabeças, como o espírito hollywoodiano gostaria que se tomasse, quer dizer como uma coisa que não devia acontecer. Como foi que aconteceu uma coisa dessas? ... Não senhor!
Quem não sofre é que deve se perguntar: como está me acontecendo isto, pois não estou sofrendo nada? Porque o normal é sofrer. Aquele a quem Deus ama, aquele a quem Nossa Senhora ama, este sofre, porque Deus não vai recusar a este filho, aquilo que Ele deu em abundância aos dois entes que Ele mais amou, que são Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora.
Os senhores compreendem, então, que o normal é sofrer. E os senhores tenham isto por normal em sua vida: tentações, provações, crises nervosas, toda espécie de coisa, a gente deve pedir para que passem, mas na medida em que não passarem, a gente deve bendizer a Deus, bendizer a Nossa Senhora. São Luís Grignion chega a dizer que quem não sofre deve fazer peregrinações e orações pedindo sofrimento, embora ele condicione este pedido à aprovação de um diretor espiritual, porque é um pedido muito grave. Mas é porque quem não sofre, não vai indo tão bem quanto podia ir, e às vezes vai indo inteiramente mal.
Aí os senhores têm a frase estupenda de Bossuet, a respeito de Nosso Senhor Menino, “aquele menino incômodo”. Como todos aqueles que querem seguir a Nossa Senhor são incômodos! Às vezes temos a sensação experimental disso. Começamos a dar um conselho, um exemplo, começamos a pedir um sacrifício, o semblante de nosso interlocutor vai denunciando que ele nos está vendo incômodo. Como seria mais fácil dizer uma piada alegre, fazer uma brincadeira, acabar tudo com um tapinha nas costas e dispensar de uma obrigação!
Como mandar seria agradável, se fosse isto! Mas mandar é o contrário: mandar é estar exigindo que nosso subordinado tome as coisas a sério, que as olhe pelo seu lado mais profundo. Que veja as coisas pelo seu lado mais alto, mais sério, mais sublime, que veja de frente a sua própria alma, que se examine a si mesmo detidamente, que procure corrigir efetivamente e seriamente os seus defeitos. E como isto é incômodo!
Pois bem, o peso de sermos incômodos é um dos maiores pesos, e também esse nós devemos carregar. Nas nossas famílias nos acham incômodos porque lhes lembramos o dever. A resignação alegra essa incomodidade. A coragem de sermos incômodos em todas as circunstâncias; o votarmos a amizade de preferência aos nossos amigos incômodos, quando a incomodidade d’Eles consiste em nos lembrar o dever, são as virtudes que, no dia das Sete Dores de Nossa Senhora devemos pedir a Nossa Senhora.
Ela, que também teve um Filho que lhe trouxe tantos divinos incômodos, e que nos convidando a meditar sobre a dor d’Ela, nos convida a meditar sobre a seriedade e a sublimidade da sua e de nossa existência, e que a esse título é também para nós maternal e estupendamente incômoda.

("Conferência", 15 de setembro, 1965 ou 1966 )


Ver também “Revista Dr. Plínio”, nº 66, setembro de 2003

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

NOSSA SENHORA DE COROMOTO, PADROEIRA DA VENEZUELA



(COMENTÁRIOS DE DR. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA SOBRE A SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA0

...Embora eu já tivesse ouvido falar várias vezes de Nossa Senhora de Coromoto, nunca soube de detalhes de sua história. Só recentemente vim a conhecê-los, e tocou-me enormemente imaginar uma imagem tão majestosa sendo o veículo para tanta misericórdia. Através dela se tem a verdadeira idéia de majestade unida à misericórdia. É uma Rainha com fisionomia extremamente elevada e nobre, com porte muito digno e olhar pairando nas mais altas paragens do espírito, e ao mesmo tempo cheia de uma misericórdia inefável. A misericórdia não é demagógica, vulgar, uma condescendência com o pecado, uma afabilidade criminosa em relação ao mal, mas um ato de bondade generoso, gratuito, de quem converte o vence o mal, que vem muito de cima, mas entra a fundo e é capaz de toda espécie de regenerações.
Há um sacrossanto contraste entre a majestade e a misericórdia. Não há verdadeira majestade sem misericórdia, nem verdadeira misericórdia sem majestade.
A história do índio Coromoto, ao qual apareceu a Santíssima Virgem, fez-me lembrar as aparições de Nossa Senhora a um índio em Guadalupe, no México. A Mãe de Deus tratou-o com uma ternura especial, uma bondade, como não se vê nas outras aparições – mesmo em Fátima, onde Ela se manifestou tão condescendente e bondosa. Esse índio sentia tanta liberdade para com Nossa Senhora que, em vez de chamá-la “minha Rainha”, tratava-A de “minha filhinha”. E a Santíssima Virgem tomou tão bem esse tratamento, que uma ampliação fotográfica recente da imagem de Guadalupe mostra que na pupila dos olhos de Nossa Senhora está a figura do índio, tornando-o imortalizado aos olhos d’Ela. Estar na menina dos olhos significa ser o centro da atenção, do cuidado, e isto realizou-se ao pé da letra.
Tudo isso levou-me também a pensar a respeito do que disse Santo Antonio Maria Claret, após assistir as últimas sessões do Concílio Vaticano I, há cem anos atrás. Vendo, já naquela época, os sinais de desagregação da Europa, afirmou querer morar na América, porque aqui floresceriam santos maiores do que os surgidos na Europa. Essa afirmação me pareceu extraordinária.
Há mais. Antes de ser confessor da Rainha da Espanha, Isabel II, Santo Antonio Maria Claret tinha sido Arcebispo de Santiago de Cuba, e saíra deste país por ser perseguido pelos inimigos da Igreja, apesar de seu apostolado com a população do lugar, em favor da qual ele praticara magníficos milagres. No navio que o conduzia, predisse o futuro próximo de Cuba, sua separação da Espanha e submissão aos Estados Unidos. E apresentava isso como uma série de apostasias e castigos. Naturalmente, uma apostasia causa outra, e por fim se chegou à atual e miserável situação de Cuba.
Parecia-me curioso que ele, falando de Cuba com tal energia e precisão, previra tanta santidade na América Latina. Isso significava a presença de um grande perdão e uma imensa misericórdia, ao lado do abismo representado pelo anúncio dessa severidade.
E, afinal, como a santidade tem sua origem, sua causa primeira, numa misericórdia de Deus para conosco, eu achava muito razoável que houvesse esse nexo entre a profecia de Santo Antonio Maria Claret, de um lado, e de outro o fato de Maria Santíssima ter-Se manifestado tão carinhosa, condescendente, em relação a esse índio do México. Nossa Senhora de Guadalupe foi proclamada pela Santa Sé Patrona da América Latina e, evidentemente, esse índio representava, para o olhar d’Ela, a América Latina inteira, e todos nós somos simbolizados por esse índio. De certo modo, pode-se dizer que cada um de nós está na menina dos olhos da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe.

Apesar da extrema maldade do índio, Maria Santíssima manifesta sua inesgotável misericórdia

Essas considerações estavam reunidas em meu espírito quando soube do fato ocorrido em Guanare, Venezuela, com o índio Coromoto, em seus detalhes. Através destes, se vê que é impossível a um homem levar mais longe a obstinação no mal, e inimaginável por nós que a Mãe de Deus chegasse a  extremo sua “obstinação” em convertê-lo. Realmente é a última palavra em matéria de condescendência: depois de o índio ter querido flechar e golpear Nossa Senhora, Ela fez um milagre, deixando nas mãos dele um pergaminho com sua imagem, e depois o converteu! Não se pode excogitar misericórdia mais excelsa, mais excelente, do que essa.
Alguém poderia observar que o pecado dos que mataram Nosso Senhor Jesus Cristo foi um pecado maior do que o desse índio, tentando agredir a Santíssima Virgem. Tudo quanto toca à Pessoa Divina de Nosso Senhor Jesus Cristo ultrapassa qualquer dimensão e não pode ser comparado com absolutamente nada. Porém é preciso considerar que em sua Paixão Jesus estava na prostração, na humilhação própria à sua natureza humana. Nossa Senhora, em Guanare, Se apresentou em visão, de forma esplendorosa, mostrando-Se superior a tudo quanto o índio conhecia, e de uma maneira evidente, como Nosso Senhor não fez com seus verdugos. Apesar disso, a maldade dele foi tão grande que tentou agredi-La. Não afirmo ter sido isso mais grave do que o deicídio, mas, sob certo aspecto, revela uma dureza de alma ainda maior. Pois bem, para esse homem, a Mãe de Deus manifestou tanta bondade e misericórdia.

“À sua bondade soberana ninguém resiste”

Que ensinamentos retiramos desse fato? Antes de tudo, para Nossa Senhora a maldade humana não consegue opor obstáculos decisivos. De um jeito ou de outro, se a Santíssima Virgem quer mesmo, e até o fim, Ela acaba vencendo a maldade humana. Portanto, se em determinado momento da História da Humanidade Nossa Senhora quiser praticar um ato de generosidade excelso em relação a um homem, ou a uma série de homens, Ela poderá fazê-lo e vencerá, porque à sua bondade soberana ninguém resiste.
A Santíssima Virgem é soberana em tudo, inclusive em sua bondade. Querendo, Ela derruba todos os obstáculos, como Rainha cheia de suavidade, de tal maneira que ume pessoa, liberta dos grilhões do vício, dos apegos maus, realiza o verdadeiro livre arbítrio, o qual consiste em se confiscado por Nossa Senhora. Trata-se de um verdadeiro confisco, porém a Mãe de Deus quando confisca, liberta. Ela não cobre o indivíduo de algemas, mas torna-se sua senhora, e ele torna-se senhor de suas más inclinações, de seus vícios, de seus pecados, de tudo quanto impede que sua alma voe para o bem. Essa é a própria substância da definição do livre arbítrio, segundo a Doutrina Católica.

A misericórdia de Nossa Senhora se estende aos povos e às instituições

Outra lição muito importante que decorre das aparições da Virgem Maria ao índio Coromoto é a seguinte: se Nossa Senhora fez isso com esse homem, não poderá realizá-lo com as pessoas de um continente, ou de uma parcela da Humanidade, especialmente suscitada para ser d’Ela, e para seu futuro reino? Maria Santíssima não tem o poder de provocar a conversão da América Latina? Pobre América Latina, tão endurecida, opaca e apagada na Fé que recebeu, na pureza e elevação dos costumes que já não possui; tão longe das esperanças dos santos e dos missionários que vieram cá, para fazer um novo reino de Deus, a fim de compensar, no balanço das coisas entre a Terra e o Céu, o que a Santa Igreja estava perdendo com a apostasia protestante! Essa conversão não ocorrerá de um momento para outro?
Por fim, voltamos nossos olhos para nosso Movimento.
Vendo as coisas bem de frente, tendo Nossa Senhora desígnios sobre nosso Movimento e sua atuação na América Latina, não é bem verdade que o episódio de Coromoto, a graça desse perdão, que dulcifica qualquer dureza e vence qualquer ingratidão, precisa começar dentro de casa? E que devemos pedi-la para nós e para toda essa parte da Humanidade, aonde Nossa Senhora quis fazer esse milagre extraordinário? E não é verdade também que, apesar de todas as nossas fraquezas e infidelidades, temos razões especialíssimas para confiar, e nunca devemos consentir num pensamento de desespero, à vista de uma graça tão extraordinariamente grande?
Aqui está o ponto central da meditação a respeito de Nossa Senhora de Coromoto, que visa mais especialmente nosso Movimento – porque tem uma missão muito em ordem a isso – e, dentro dele, cada um de nós. Mas essa meditação deve também ter em vista a América Latina, como sendo especial protagonista do dia de amanhã, no Reino de Maria.

Coromoto e Fátima: íntima relação

Finalmente, podemos nos perguntar qual a relação de tudo isso com as profecias de Fátima. São os mistérios de Nossa Senhora... A realização das promessas da Virgem de Fátima purificará e preparará as almas para o Grand Retour.(*) Quando ele vier, receberemos a graça da misericórdia, da conversão completa.
Com esta visualização, temos um grande enriquecimento para o conjunto de nossas concepções sobre o futuro da História, isto é, a idéia do Grand Retour fundada num milagre extraordinário como foi o de Guanare. É um fato concreto que nos dá uma esperança especial e nos explica em algo como vai ser o Grand Retour.
Poder-se-ia objetar que não foram apresentadas provas que demonstram a veracidade da história de Nossa Senhora de Coromoto. A prova é: em Guanare está o pergaminho contendo a imagem, com base na qual foi tirada essa estampa que estou comentando, colocada num belíssimo relicário de ouro. Todo o povo, desde quando ocorreu o milagre, vai venerá-lo, indicando assim que já naquele tempo se espalhou sua fama; foi, portanto, admitido por todos os que conheciam aquele índio e sua família, que os fatos relacionados à imagem e a eles eram reais. E essa versão e essa crença foram conservadas através das gerações.
Mas, para mim, isso que poderia ser uma prova histórica muito boa é de pouca importância. O importante é saber que Nossa Senhora é assim, conforme nos ensina a Doutrina Católica. Portanto, ainda que as aparições de Nossa Senhora de Coromoto não tivessem acontecido, elas são reais na sua substância: a misericórdia de Maria Santíssima pode chegar até lá. Se pedirmos, seremos atendidos.
E, para esse efeito, poderíamos fazer uso da seguinte jaculatória: “Nossa Senhora de Coromoto, cuja misericórdia a dureza do coração do índio pecador não conseguiu deter, tende pena de mim, entretanto tão pecador e tão endurecido”.

(Conferência de 16/7/72).

(Excerto de texto publicado na revista “Dr. Plínio” n. 139, de outubro de 2009, págs. 19/23)


(*) Na revista “Dr. Plínio” n. 86, de maio de 2005, está explicitado o que seja o “Grand Retour”, ou “Grande Retorno” em português, ao seio da Igreja.: “Uma conversão completa, um total repúdio a todo o mal que havíamos feito, e um amor inteiro às virtudes e a todo o bem que éramos chamados a praticar e a realizar. Em suma, um vôo à santidade, que abarca o perfeito amor a Deus e ao próximo, com o deliberado propósito de extinguir a Revolução sobre a face da Terra”.


sábado, 9 de setembro de 2017

ORAÇÃO APROPRIADA PARA AS CALAMIDADES PÚBLICAS




TRISÁGIO À SANTÍSSIMA TRINDADE  - Origem do triságio

O santíssimo triságio não é invenção do engenho humano, senão obra do mesmo Deus, que Ele inspirou ao prfeta Isaías quando este ouviu que o cantavam os Serafins, para exaltarem a glória do Criador.
Na escola dos mesmos Serafins e na dos outros coros angélicos foi onde o aprendeu milagrosamente aquele menino que, como São Paulo, foi arrebatado ao céu, segundo referem as histórias eclesiásticas. No ano 447, e sendo Teodósio Júnior imperador do Oriente, sentiu-se um terremoto quase universal, violentíssimo, e que pela sua duração e espantosos estragos se fez o mais célebre de todos quantos até então se tinham visto. Foram incalculáveis os prejuízos que seis meses de abalos quase contínuos causaram nos mais suntuosos edifícios de Constaninopla e em toda a famosa muralha do Quersoneso. Abriu-se a terra em muitos pontos e ficaram sepultadas em suas entranhas cidades inteiras; secaram-se as fontes e apareciam outras novas, e era tal a violência dos abalos que arrancava árvores corpulentíssimas, apareciam montanhas onde primeiro havia planuras, e profundos abismos onde havia antes montanhas. O mar lançava às praias peixes de grandeza enorme; e as praias e navios ficavam sem águas, que iam inundar grandes ilhas.
Em semelhante conflito, achou-se prudente abandonar os povoados e assim o fizeram os habitantes de Constantinopla com o imperador Teodósio, sua irmã Pulquéria, São Proclo, então patriarca daquela Igreja, e todo o clero. Reunidos num lugar chamado Campo dirigem ao céu grandes clamores e fervorosas súplicas, pedindo o socorro em necessidade tão apertada. Um dia, entre oito e nove horas da manhã, foi tão extraordinário o abalo que fez a terra, que pouco faltou para que não causasse os mesmos estragos que o dilúvio universal. A este espanto sucedeu admiração do prodígio seguinte:
Um menino de poucos anos foi arrebatado pelos ares à vista de todos os do Campo, que o viram subir até perdê-lo de vista. Depois de algum tempo desceu à terra, do mesmo modo que subira ao céu, e logo em presença do Patriarca, do Imperador e da multidão pasmada, contou que sendo admitido nos coros celestes ouviu os anjos cantarem estas palavras: Santo Deus, Santo forte, Santo imortal, tende misericórdia de nós; e que ao mesmo tempo lhe mandaram que comunicasse a todos esta visão. Ditas estas palavras, aquele inocente menino morreu.
São Proclo e o Imperador, ouvida esta relação, mandaram unanimemente que todos entoassem em público este sagrado cântico, e imediatamente cessou o terremoto, e ficou quieta a terra.
Daqui nasceu o uso do Triságio, que o Concílio geral Calcedonense prescreveu a todos os fiéis, como um formulário para invocar a Santíssima Trindade nos tempos funestos e nas calamidades; daqui veio merecer a aprovação de tantos Prelados da Igreja, que apoiaram o uso dele, enriquecendo-o com o tesouro das indulgências e daqui finalmente veio que se pusesse método, que se imprimisse e reimprimisse tantas vezes, e sempre com universal aplauso e aceitação dos fiéis, que o consideram como um escudo impenetrável contra todos os males que Deus manda à terra em castigo de nossos pecados. (1)

 Oferecimento

Para ganhar as indulgências, os que rezarem o Triságio

Rogamos-te, Senhor, pelo estado da Santa Igreja e Prelados dela; pela exaltação da fé católica, extirpação das heresias, paz e concórdia entre os príncipes cristãos, conversão de todos os infiéis, hereges e pecadores; pelos agonizantes e caminhantes, pelas benditas almas do purgatório e mais piedosos fins de nossa Santa Madre Igreja. Amém.
V. Bendita seja a santa e indivídua Trindade, agora e sempre por todos os séculos dos séculos.
R. Amém.
V. Abri, Senhor, meus lábios.
R. E a minha boca anunciará vossos louvores.
V. Meu Deus, em meu favor benigno atende.
R. Senhor, apressai-vos a socorrer-me.
V. Glória seja ao Eterno Pai.
    Glória seja ao Eterno Filho.
    Glória ao Espírito Santo.
R. Amém. Aleluia.

(no tempo da Quaresma se diz conforme abaixo):

Louvor seja a ti, Senhor, Rei da eterna glória.

Ato de Contrição

Amorosísimo Deus, trino e uno, Pai, Filho e Espírito Santo, em quem creio, em quem espero, a quem amo com todo o meu coração, corpo, alma, sentidos e potências; por serdes Vós meu Pai, meu Senhor e meu Deus, infinitamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas; pesa-me, Trindade Santíssima, pesa-me, Trindade misericordiosíssima, pesa-me, Trindade amabilíssima, de vos ter ofendido só por serdes Vós quem sois; proponho, e vos dou palavra, de nunca mais vos ofender e de morrer antes do que pecar; espero de vossa suma bondade e misericórdia infinita, que me perdoareis todos os meus pecados, e me dareis graças para perseverar num verdadeiro amor e cordialíssima devoção a vossa sempre amabilíssima Trindade. Amém.

Hino

Já se afasta o sol radioso,
Ó luz perene, ó Trindade,
Infunde em nós ardoroso
O fogo da caridade.

Na alvorada te louvamos
E na hora vespertina;
Concede-nos que o façamos
Também na glória divina.

Ao Pai, ao Filho e a Ti,
Espírito consolador,
Sem cessar como até aqui
Se dê eterno louvor. Amém.

Oração ao Pai

Ó Pai Eterno, fora o prazer de vos possuir, eu não vejo mais do que tristeza e tormento, embora digam outra coisa os amadores da vaidade. Que me importa que diga o sensual que sua felicidade está em gozar de seus prazeres? Que me importa que diga também o ambicioso que seu maior contentamento é gozar de sua glória vã? Eu pela minha parte nunca cessarei de repetir com vossos Profetas e Apóstolos, que a minha suma felicidade, meu tesouro e minha glória é unir-me a meu Deus, e manter-me inviolavelmente unido a Ele.
Recita-se um Pai-Nosso, uma Ave-Maria, e nove vezes:
Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos exércitos, cheios estão os céus e a terra de vosso glória.
(responde-se, se possível em coro):
Glória ao Pai, glória ao Filho, glória ao Espírito Santo.

Oração ao Filho

Ó Verdade eterna, fora da qual eu não vejo outra coisa senão enganos e mentiras. Oh! E como tudo me aborrece à vista de vossos suaves atrativos! Oh! Como me parecem mentirosos e asquerosos os discursos dos homens, em comparação das palavras da vida, com as quais Vós falais ao coração daqueles que vos escutam. Ah! Quando será a hora em que Vós me tratareis sem enigma e me falareis claramenteno no seio de vossa glória? Oh! Que trato! Que beleza! Que luz!

Recita-se um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e nove vezes:
Santo, Santo, Santo, Senhor Deus, etc.

Oração ao Espírito Santo

Ó Amor, ó Dom do Altíssimo, centro das doçuras e da felicidade do mesmo Deus; que atrativo para uma alma ver-se no abismo de vossa bondade e toda cheia de vossas inefáveis consolações! Ah! Prazeres enganadores! Como haveis de poder comparar-vos com a menor das doçuras que um Deus, quando quer, sabe derramar sobre uma alma fiel? Oh! Se uma só partícula delas é tão deliciosa, quanto mais será quando Vós as derramardes como uma torrente sem medida e sem reserva? Quando será isto, meu Deus, quando será?

Recita-se um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e nove vezes:
Santo, Santo, Santo, Senhor Deus, etc.

Antífona

A ti, Deus Pai, a ti, Filho Unigênito, a ti, Espírito Santo, Paráclito, santa e indivídua Trindade, de todo coração te confessamos, louvamos e bendizemos. A ti seja dada a glória pelos séculos dos séculos. Amém.
V. Bendigamos ao Pai, e ao Filho e ao Espírito Santo.
R. Louvemo-lo e exaltemo-lo em todos os séculos.

Oração

Senhor Deus uno e trino, dai-me continuamente vossa graça, vossa caridade e a vossa comunicação para que no tempo e na eternidade vos amemos e glorifiquemos. Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo numa deidade por todos os séculos dos séculos. Amém.

Deprecação devota à Santíssima Trindade

(A cada invocação se responde: ”Toda criatura vos ame e glorifique”)

V. Pai eterno, onipotente Deus;
R. Toda criatura, etc.
V. Verbo divino, imenso Deus;
R. Toda criatura, etc.
V. Espírito Santo, infinito Deus;
- Santíssima Trindade e um só Deus verdaeiro;
- Rei dos Céus, imortal e invisível;
- Criador, conservador, governador de todo o criado;
- Vida nossa, em quem, de quem e por quem vivemos;
- Vida divina, e uma em três pessoas;
- Céu divino de excelsitude majestosa;
- Céu supremo do céu, oculto aos homens;
- Sol divino e incriado;
- Círculo perfeitíssimo de capacidade infinita;
- Alimento divino dos anjos;
- Belo iris, arco de clemência;
- Astro primeiro e trino, que iluminais o mundo;

(A cada invocação, responde-se: “Livrai-nos, trino Senhor”)

V. De todo mal de alma e corpo;
R. Livrai-nos, etc.
- De todo pecado e ocasião de culpa;
- De vossa ira e indignação;
- Da morte repentina e improvisa;
- Das insídias e assaltos do demônio;
- Do espírito de desonestidade e das suas sugestões;
- Da concupiscência da carne;
- De toda ira, ódio e má vontade;
- Das pragas da peste, fome, guerra e terremoto;
- Dos inimigos da fé católica;
- De nossos inimigos e de suas maquinações;
- Da morte eterna;
- Por vossa Unidade em Trindade e Trindade em Unidade;
- Pela igualdade essencial de vossas pessoas;
- Pela sublimidade do mistério de vossa Trindade;
- Pelo inefável nome de vossa Trindade;
- Pelo portentoso de vosso nome, uno e trino;
- Pelo muito que vos agradam as almas que são devotas de vossa Santíssima Trindade;
- Pelo grande amor com que livrais de males aos povos onde há algum devoto de vossa Trindade amável;
- Pela virtude divina, que nos devotos de vossa Trindade santíssima, reconhecem os demônios contra si mesmos;

(A cada invocação, responde-se: “Rogamo-Vos, ouvi-nos”)

V. Nós pecadores;
R. Rogamo-Vos, etc.
- Que saibamos resistir ao demônio com as armas da devoção à vossa Trindade;
- Que embelezeis cada dia mais, com as cores da vossa graça, vossa imagem que está em nossas almas;
- Que todos os fiéis se esmerem em ser muito devotos de vossa Santíssima Trindade;
- Que todos alcancemos as muitas felicidades que estão vinculadas para os devotos dessa vossa Trindade adorável;
- Que ao confessarmos o mistério de vossa Trindade, se desfaçam os erros dos infiéis;
- Que todas as almas do purgatório gozem muito refrigério em virtude do mistério de vossa Trindade;
- Que vos digneis ouvir-nos pela vossa piedade;
- Santo Deus, Santo Forte, Santo Imortal, livrai-nos, Senhor, de todo mal.(2)

Obséquios ou oferecimentos à Santíssima Trindade

1. Ó beatíssima Trindade, eu vos prometo que com todo esforço e empenho hei de procurar salvar minha alma, visto como Vós a criastes à vossa imagem e semelhança e para o céu. E também por amor vosso procurarei salvar as almas de meu próximo.
2. Para salvar minha alma e dar-vos glória e louvor, sei que hei de guardar a divina lei; eu empenho minha palavra de a guardar como a menina de meus olhos e procurar, outrossim, que os outros a guardem.
3. Aqui na terra hei de exercitar-me em louvar-Vos e espero fazê-lo depois com maior perfeição no céu; e por isso com freqüência rezarei o triságio e o verso: “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”. E procurarei, além disso, que os outros Vos louvem. Amém.

Fonte:  “Caminho Reto e Seguro para se chegar ao Céu”, de Santo Antonio Maria Claret. Editora Ave Maria, São Paulo - págs. 155/166)
  
(1)  - O Papa Clemente XIV concedeu 100 dias de indulgência para cada dia que se reze: 100 mais três vezes no dia, nos domingos, na festa da Santíssima Trindade e durante a sua oitava, e Indulgência Plenária a qauem o rezar todos os dias durante um mês, confessando e comungando no dia do m~es que se escolher.

(2) -  Invocação semelhante Nosso Senhor ensinou à Santa Faustina: “Santo Deus, Santo Forte, Santo Imortal, tende piedade de mim e de todos os pecadores, etc” , jaculatória que a Santa rezava entre uma dezena e outra do terço.