SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

SANTO AMBRÓSIO E A MISSÃO DA IGREJA DE CONTER OS PODERES DA TERRA




PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA 

Hoje é festa de Santo Ambrósio, bispo, Confessor e Doutor da Igreja. Lutou contra Teodósio, Imperador do Ocidente, pela liberdade da Igreja. Combateu os hereges. Conversão de Santo Agostinho. Amanhã também é festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora.
Santo Ambrósio era um homem de um talento enorme, famoso em toda a Cristandade do seu tempo, em todas as vastidões do Império Romano, pelos seus trabalhos, pela sua influência sobre o público, escritor fecundo, etc.
Santo Agostinho conta em suas memórias ("As Confissões") que a ele lhe deve sua conversão. Ele tinha verdadeira admiração por Santo Ambrósio.
"Não me era permitido interrogar Ambrósio sobre o que eu queria e como queria – escreve Santo Agostinho nas "Confissões" –, porque sempre tinha junto a si pessoas necessitadas. No pouquíssimo tempo em que não estava com tais pessoas, [Ambrósio] refazia o corpo com o alimento necessário, ou o espírito com a leitura. Mas, quando lia, os olhos divagavam pelas páginas e o coração penetrava-lhes o sentido, enquanto a voz e a língua descansavam. Nas muitas vezes em que me achei presente [em sua casa] – porque a ninguém era proibida a entrada, nem havia o costume de lhe anunciarem quem vinha –, sempre o via ler em silêncio e nunca doutro modo. Assentava-me e permanecia em longo silêncio – quem é que ousaria interrompê-lo no seu trabalho tão aplicado? –, afastando-me finalmente. Imaginava que, nesse curto espaço de tempo, em que, livre do bulício dos cuidados alheios, se entregava a aliviar a sua inteligência, não se queria ocupar de mais nada. Lia em silêncio, para se precaver, talvez, contra a eventualidade de lhe ser necessário explicar a qualquer discípulo, suspenso e atento, alguma passagem que se oferecesse mais obscura no livro que lia. Vinha assim a gastar mais tempo neste trabalho e a ler menos tratados do que desejaria. Ainda que a razão mais provável de ler em silêncio poderia ser para conservar a voz, que facilmente lhe enrouquecia. Mas, fosse qual fosse a intenção com que o fazia, só podia ser boa, como feita por tal homem" ("Confissões", Cap. VI).
Em outros termos, de ver Santo Ambrósio trabalhar, e de estar no ambiente criado por aquele Doutor da Igreja, Santo Agostinho sentia que aquilo fazia muito bem para sua alma. Por isso, por causa de alguns colóquios que ambos tiveram, sermões que dele ouviu e também pela leitura das obras de Santo Ambrósio, pode-se dizer que este último cooperou muito consideravelmente para o fato que talvez seja o mais importante da vida de Santo Ambrósio: haver convertido Santo Agostinho que, por si só, é um capítulo na história do mundo e da Igreja.
Os senhores vêem aí duas coisas bonitas em Santo Ambrósio:
1) O apostolado de presença. Nós insistimos tanto sobre o alcance desse apostolado. Muitas pessoas pensam que valem – para o nosso Movimento – na medida em que falam, atuam e trabalham. É claro que isso tudo é muito bom. Mas há um apostolado de presença que pode ser muito melhor do que tudo isto. E desse fato deu provas muito eloqüentes Santo Ambrósio em face de Santo Agostinho.
2) De outro lado também os senhores estão vendo a confiança na Providência divina. Se Santo Ambrósio fosse intemperante, teria interrompido todos os seus trabalhos e passado a dedicar-se quase que exclusivamente em fazer apostolado com Santo Agostinho, e depois iria trabalhar desordenadamente, em outra hora... Ou pior: minguaria seus livros, faria uns livrinhos superficiais, por ter atendido Santo Agostinho.
Santo Ambrósio, não. Homem confiante na Providência, confiante no amor de Deus, na Igreja Católica, fazia o que estava nas suas possibilidades. Era vontade de Deus que escrevesse um livro, escrevia. Santo Agostinho que aproveitasse o tempo que lhe fosse possível. Deus haveria de prover... e Deus proveu! Quer dizer, essa confiança na Providência de também não querer fazer loucuras, de não querer fazer absurdos, de ser temperante inclusive no próprio zelo apostólico, é uma coisa rica em lições.
Mais especialmente rica em lições - debaixo de um certo ponto de vista - é o fato de Santo Ambrósio ter entestado com Teodósio.
Há fatos na vida da Igreja que ficam como símbolos para todos os séculos da história eclesiástica.
Santo Ambrósio teve um atrito com o imperador Teodósio, que era um dos maiores magnatas, dos homens mais influentes de seu tempo. E isto a propósito de questões de seu pecado público. No momento em que Teodósio ia entrar na igreja, encontrou Santo Ambrósio com todo o seu clero, do lado de fora, proibindo-o. E enfrentando o imperador, este se arrependeu e se humilhou.
Essa atitude do poder espiritual em relação ao poder temporal lembra um princípio ao qual devemos ser sumamente afeitos: todas as grandezas humanas, sejam elas de que natureza e título forem, por mais que sejam exaltadas e glorificadas na sociedade civil, se se apresentam com vistas a enfrentarem a glória de Deus, é missão do clero humilhá-las.
É missão do clero, quando essas potências humanas não andam bem, enfrentá-las e colocá-las em seu devido lugar. É missão do clero, por esta forma, tornar claro que todas as coisas humanas, por mais altas que sejam, em face de Deus, não são nada! Em face da eternidade, elas passam e se reduzem a nada! E que, afinal de contas, a única coisa que fica sempre, que vale, e está acima de tudo, é a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, ou seja a Igreja de Deus.
Bossuet afirmou isso em termos magníficos: "a missão da Igreja é a contenção dos poderes da Terra."
E isso está exatamente nos tais contrafortes tão característicos da doutrina defendida pelo mensário "Catolicismo". Sendo nós a favor de uma hierarquia social e política altamente apurada, destilada e de grande glorificação do poder civil recebido por uma delegação divina, entretanto nós entendemos que - por maior que tudo isso seja - também deve ter o seu limite, deve ter um freio. E que esse freio é dado precisamente pela severidade do poder eclesiástico.
Quanto isto é diferente de um vigário que treme diante de algum poderoso! O que se gostaria de ver é o contrário: a força, a ortodoxia representada pelo clero fazendo recuar, com olhar pastoral e terrível, a algum poderoso heterodoxo, ou a um plutocrata endinheirado: "Ó ricaço, guarde esse seu dinheiro. Eu não preciso disso e ninguém precisa disso; isso serve para sua condenação. Jogue isso no bueiro e volte atrás porque aqui vale tal princípio, aqui vale tal regra! E ainda que fiquemos condenados ao extremo da pobreza, ao extremo da perseguição, Deus se rirá de sua fortuna, Deus se rirá de sua arrogância. Nós ficaremos aqui pobres e sós, no cumprimento do nosso dever!"
Ver o dinheiro humilhado, a força material humilhada, ver até o talento humilhado e até a própria aristocracia do sangue humilhada quando ela vai de encontro à Lei de Deus, isto é o contraforte de todas as grandezas humanas! E esse seria o papel do clero nessa espécie de harmonia do universo.
Acho importante ressaltar isso porque quando tratamos a respeito de rei, de nobreza, de hierarquia social, etc., no fundo da cabeça fica algo e esse algo tem sua razão de ser.
Nós conhecemos qual é a fraqueza humana. E sabemos como os homens podem facilmente ser arrastados por ela se se encontram numa situação proeminente. Temos uma sensação de que não é próprio ao homem – caído no pecado original – ficar exaltado tão alto sem ter nenhum freio.
Sabemos que não é pelos inferiores que se limita o poder dos superiores, mas é pelos superiores que se limita o poder dos superiores e que o poder dos máximos deve ser limitado pela própria Igreja de Deus. Aí se estabelece o equilíbrio, aí se compreende o contrapeso e se entende a harmonia profunda da própria ordem de coisas que nós sustentamos.
O exemplo de Santo Ambrósio, portanto, se põe diante de nós como portador de um ensinamento profundo. E fazendo sentir melhor a harmonia de nossas teses, ele nos dá ainda uma convicção maior e mais equilibrada de tais teses.

Santo do Dia – 07 de dezembro de 1964





quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O POVO BRASILEIRO E O ESPÍRITO DE CONTRADIÇÃO


(Análise sobre o espírito de nosso povo feita por Dr. Plinio Corrêa de Oliveira)

Há verdades que aos homens impressionam como o ouro. Há outras que lhes são suaves e perfumadas como o incenso.
Quanto à mirra, é mais modesta. A raiz etimológica dessa palavra se relaciona com o vocábulo "mur", que em árabe quer dizer "amargo". Os especialistas descrevem a mirra como uma resina gomosa, em forma de lágrima, dotada de gosto amargo, aromática, vermelha, semitransparente, frágil e brilhante. Seu odor é agradável, mas um pouco penetrante. Como se vê, tem ela a beleza discreta, austera, forte, do sangue. E seu perfume é o da disciplina e da sobriedade.
Diríamos que no campo ideológico a grande verdade representada pela mirra é o princípio de contradição (*), pelo qual o sim é sim e o não é não Todas as outras são ouro e incenso, mas só valem se apreciadas num ambiente perfumado pela mirra. E é desta mirra que larga, muito, muito largamente necessita o Brasil.
Não se confunda o princípio de contradição, que é quinta-essência da lógica, da coerência, da objetividade, com o espírito de contradição. Este é um vício que resulta do prazer jactancioso de contrariar o próximo: é volúvel, e faz do sim, não e do não sim, conforme convenha à posição arbitrariamente tomada de momento.
Somos um povo que tem o defeito de suas qualidades. Propensos habitualmente a tudo que é bom, infelizmente não somos ao mesmo tempo infensos a tudo quanto é mau. Em geral, os outros povos, quando amam uma verdade, odeiam o erro que lhe é contrário. E reciprocamente, quando amam o erro detestam a verdade que a ele se contrapõe. Em última análise, é pelo jogo desse princípio que se explicam as grandes fidelidades, como as grandes apostasias. Na psicologia do brasileiro, o ódio explícito e declarado à verdade e ao bem é raro. Neste sentido somos um dos melhores povos da terra. Mas quando se trata, para nós, de deduzir do amor à verdade e ao bem uma atitude militante contra o erro e o mal, o caso é outro. E no fundo isto se dá porque o princípio de contradição é antipático à pacateza brasileira. Uma expressão muito conhecida exprime em linguagem popular o princípio de contradição: "pão, pão; queijo, queijo". Mas em inúmeros casos confundimos pão com queijo.
Esta tendência de espírito se reflete em muitos aspectos da nossa mentalidade. O Brasil é uma República. Entretanto, em nenhum lugar o monarca destronado e a monarquia deixaram mais saudades. Separamo-nos de Portugal numa atmosfera borrascosa. Entretanto, no tratado em que a antiga Metrópole reconhecia nossa independência asseguramos a D. João VI até o fim de seus dias o título de Imperador do Brasil. O quadro corrente, e por assim dizer oficial do Marechal Deodoro, proclamador da República, apresenta-o com o peito constelado com as insígnias do Império que derrubou. Expulsamos em 1930 o Presidente Washington Luiz. Restaurado o regime constitucional regressou ele ao Brasil num ambiente de respeito e de simpatia tão gerais, que com exceção de D. Pedro II nenhum homem público reuniu em torno de si unanimidade maior. Porque então foi destituído? Dessas pitorescas contradições, poder-se-ia fazer uma longa lista. E o assunto Getúlio Vargas - ainda quente demais para ser abordado num artigo desta índole - forneceria a este respeito farta documentação.
Talvez, à vista destas reflexões, algum leitor sorria, como quem está em presença de um amável desfeito. Pois não deixa de ter algo de simpático e tranqüilizador um tal cúmulo de bonomia.
Mas estudemos este assunto no terreno da moral. Trata-se de analisar esta tendência psicológica, para ver se é conforme à Lei de Deus. E não é com meros sorrisos, mas com muita seriedade que se resolvem os problemas morais.
Aquele que veio ao mundo para pregar as Bem-aventuranças, nos deixou por preceito que fossemos fiéis ao princípio de contradição: "seja vossa linguagem sim, sim; não, não" ( Mt. 5, 37 ). E se tal deve ser nossa linguagem, tal deve ser nosso pensamento. Em matéria de moral, mais do que em qualquer outra, todo excesso é um mal, ainda que seja de qualidades tão simpáticas quanto a bonomia, e a suavidade de trato. E um mal que conforme o caso pode tornar-se muito grave.
Exemplifiquemos. No terreno religioso, não é bem verdade que o amortecimento do princípio de contradição nos conduz com muita freqüência a atitudes lamentáveis? Quantos são os católicos que se julgam no direito de discordar da Igreja em algum ou em muitos pontos? Com isto, embora se ufanem de católicos, pecam contra a fé. Porque? Simplesmente porque imaginam possível um "tertium genus" entre ser católico e não ser. O mesmo se diga da naturalidade com que se admite entre nós uma categoria de católicos "não praticantes"! Claro que os há no mundo inteiro. Mas parece-nos que em nenhum país eles têm tão pouca consciência do que seu estado apresenta de cacofônico, de antitético, em uma palavra, de contraditório. Por fim, mais um exemplo. Quantas famílias temos, modelarmente constituídas! Porque progridem tanto as modas imorais? É que essas famílias, que prezam tanto a virtude, são por vezes pouco enérgicas no combate ao vício. Em todos estes casos o que nos falta? Viveza no princípio de contradição lapidarmente definido por Nosso Senhor, quando mostrou a incompatibilidade entre o "sim" e o "não".
Este artigo se vai alongando. Não resisto entretanto ao desejo de indicar outro exemplo. Todos se queixam da anemia de nossa vida partidária, de nossa atonia em matéria de ideologia política, e do predomínio das questões pessoais em nossa vida pública. Uma das causas deste fato está na carência do princípio de contradição. Pois se em face de uma idéia que temos por certa não nos arregimentamos para a defender resolutamente contra as que lhe são opostas, como pode haver partidos de verdadeiro conteúdo ideológico?
O amortecimento do princípio de contradição gera o gosto, a mania das soluções intermediárias, eu quase diria a servidão às soluções intermediárias. Dados dois caminhos, escolher sempre o do meio, o que não é carne nem peixe: é no que se cifra para muita gente toda a sabedoria. Ora, se rejeitar por princípio as soluções intermediárias é um erro, erro também é adotá-las por princípio. Pois há casos em que a Sabedoria as condena formalmente: "Oxalá fosses frio ou quente; mas, como és morno, nem frio nem quente, começarei a vomitar-te de minha boca" ( Apoc. 3,15-17 ).
A pessoa viciada nas soluções intermediárias é a vitima ideal de todos os velhacos. Pois a habilidade do velhaco consiste precisamente em fazer com que o ingênuo aceite, com algum disfarce, aquilo que, a nu e sem maquilagem, ele repudiaria. Os hereges são useiros e vezeiros em velhacarias desta natureza. Rejeitado o pelagianismo, obtiveram eles a adesão de inúmeros ingênuos por meio do semi-pelagianismo. Condenado o arianismo, puseram eles em circulação o semi-arianismo. Fulminado o protestantismo, inventaram o baianismo (**) e o jansenismo. Condenados o comunismo e o socialismo fabricam um "socialismo mitigado", que em última análise não é senão comunismo velado. E assim por diante.
Que essa tática é particularmente desenvolvida em nosso tempo, nada mais notório. Estamos no século da 5ª coluna. E que uma das formas mais hábeis de solapar os meios católicos é esta, as mais altas Autoridades Eclesiásticas de nossos dias já o disseram. Disse-o Sua Eminência o Cardeal Saliège, Arcebispo de Toulouse, quando afirmou em declaração mundialmente famosa, que tudo se passa como se houvesse uma ação articulada para "preparar no seio do Catolicismo um movimento de acolhida ao comunismo" ( cf. CATOLICISMO, nº 37, de janeiro de 1954, pág. 8 ).
E assim nada mais perigoso para o Brasil, nesta hora, do que o amortecimento do princípio de contradição. E nada mais necessário do que trabalhar para que, em nosso país, este princípio tome mais força, mais cor, mais eficiência em toda a vida mental.
Não sei se um leitor não brasileiro compreenderá bem toda esta problemática. Duvido bastante. Mas para um brasileiro isto é bem mais inteligível. E é inteligível sobretudo para Vós, Senhor Jesus, que, deitado num berço rústico, sondais entretanto até o fundo as almas e os corações. Para Vós que, sendo a Sabedoria incriada, e tendo nascido d'Aquela que é a Sede da Sabedoria, conheceis totalmente a índole de cada povo, a todos amais, a todos quereis santificar. Para Vós que desde toda a eternidade tão particularmente amastes o povo brasileiro, e o predestinastes a uma grandeza que encherá a história de amanhã.
Nossa obra é principalmente de mirra. Jornal feito para católicos militantes e praticantes, queremos que eles Vos amem sem mescla de qualquer outro amor. Que só sirvam a um Senhor. Que sejam cada qual em seu coração uma cidade sem divisão, contra a qual nada pode o Inimigo. Que não olhem para trás, ao empunhar o arado, e que no afã de semear não se esqueçam de arrancar a erva daninha.
De certo modo, os católicos militantes e praticantes são, também eles, sal da terra e luz do mundo. Em parte depende da cooperação deles que o mundo não se corrompa, nem caia nas trevas. Queremos que eles sejam um sal muito e muito salgado, uma luz posta no mais alto da montanha, e muito brilhante. Neste sentido, Senhor, é nossa cooperação. Este o presente de Natal que acumulamos durante o ano inteiro, para Vos oferecer. Outros Vos darão o incenso de suas inúmeras obras, capazes de um bem inapreciável. Nós nos inserimos nessa grande obra queimando em abundância, no solo bem amado do Brasil, a mirra austera mas odorífera do "sim, sim; não, não".
Que Maria Santíssima aceite essa mirra em suas mãos indizivelmente santas e Vo-las ofereça. Ela terá para Vós então o encanto do ouro, e do incenso, com alguma coisa a mais: e isto lhe virá do suor, do sangue de alma, e das lágrimas de um apostolado que tem suas horas muito amargas... Mas na Cruz está a luz. E neste amargor o melhor da alegria e da beleza de nosso apostolado.
(Plinio Corrêa de Oliveira -  excerto do artigo “Apparuit Benignas et Humanitas Salvatoris Nostri Dei” - “Catolicismo” Nº 60 - Dezembro de 1955)

NOTAS
(*) "Princípio de Contradição", segundo São Tomás de Aquino, é o princípio primeiro e supremo do pensamento, o juízo mais simples e universal de todos, que se traduz na seguinte verdade: é impossível que uma coisa seja e não seja ao mesmo tempo. Por ter a evidência primeira desse princípio o homem é capaz de conhecer e de pensar. Sem percebê-lo, o aplicamos continuamente.  Sem ele, não conseguiríamos distinguir o que é do que não é, nem um ser de outro; não teríamos noção da hierarquia que há entre os seres da Criação; não poderíamos separar o homem da natureza irracional e do cosmo. A partir do "Princípio de Contradição" e das outras evidências primeiras vinculadas a ele, a razão não só conhece a distinção universal entre verdade e erro, senão que é capaz de ir passando do conhecimento de uma coisa a outra. Adquire assim verdades sucessivas, sempre contrastando, explícita ou implicitamente, o que é do que não é;  o que é mais com o que é menos; o verdadeiro com o falso.

(**)Baianismo – doutrina protestante pregada por Miguel de Bay ou Baius (falecido em 1589), professor de exegese bíblica da universidade de Louvain, na Bélgica.




quarta-feira, 22 de novembro de 2017

MEDALHA QUE REPRESENTA NOSSA SENHORA CALCANDO A SERPENTE AOS SEUS PÉS




(COMENTÁRIOS DE DR. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA SOBRE A SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA)

Os senhores conhecem bem o fato - em vários "Santos do Dia" de anos anteriores, por mim comentado - de que Nossa Senhora, nas primeiras décadas do século passado, apareceu a uma santa religiosa, hoje canonizada pela Igreja, Santa Catarina Labouré, em um convento de Paris, da Rue du Bac. É uma religiosa das Irmãs de Caridade de São Vicente de Paulo. E várias vezes, durante a noite, um anjo sob a forma de criança, conduziu essa religiosa à capela do convento, que estava, entretanto, fechada por várias portas, trancadas a chave, intransponíveis, etc. Conduziu essa religiosa até a capela aonde Nossa Senhora se encontrava sentada em uma cadeira que até hoje se conserva ali. E lhe dirigiu a palavra, comunicou-lhe várias coisas e, sobretudo, lhe comunicou esta devoção à Medalha Milagrosa.
Essa medalha representa Nossa Senhora das Graças, quer dizer, Nossa Senhora calcando aos pés uma serpente. É a Imaculada Conceição, que calcou aos pés a Serpente infernal, de acordo com o que está dito na Sagrada Escritura. E com as mãos abertas e, delas, partindo feixes de luz resplandecentes.
A invocação de Nossa Senhora das Graças quer dizer Nossa Senhora que tem em suas mãos todas as graças, porque Ela é depositária de todos os tesouros de Deus. Mas quer dizer também Nossa Senhora dadivosa, misericordiosa, que quer dar todas as graças e que por isso tem as mãos abertas, Ela deseja dar tudo. Ela é a Mãe de Misericórdia, Ela quer tocar todas as almas, Ela quer inundá-las de benefícios.
Ela quer encher o mundo inteiro das manifestações soberanas e celestes de Sua bondade e de Seu poder! E determinou que as pessoas que trouxessem essa medalha - que tem, então, no seu aspecto principal Nossa Senhora e os dizeres: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós”. E com as outras características que acabo de declarar, determinou que essas pessoas fossem especialmente protegidas pela Providência Divina e que recebessem d’Ela graças enormes, especialmente no que diz respeito à boa morte.
É celebre o fato de que a grande maioria das pessoas que morrem usando essa medalhinha, ainda que sejam atéias ou muito afastadas de Deus, pelo uso dessa medalhinha acabam se entregando a Nosso Senhor, se arrependendo à última hora pelos rogos onipotentes de Maria.
É compreensível - e é disso que quero tratar, porque se revela aí um traço muito bonito da Sabedoria divina - que Nossa Senhora queira ligar esta devoção a Ela enquanto Rainha e Mãe de todas as graças, com um grande número de graças. É compreensível. É compreensível também que tenha dito: “Quem usar uma medalha com a minha efígie e com esses dizeres, recomenda-se a Mim mais especialmente e eu, por causa disto, ajudarei a essa pessoa”.
Mas Nossa Senhora põe uma lei. Ela indicou tudo: indicou a forma ovalada da medalha, indicou umas iniciais com o nome d’Ela etc., para serem usadas no verso da medalha. Ela indicou uma porção de pormenores a que a medalha tem que se conformar para verdadeiramente corresponder às suas exigências. A tal ponto que em grande número de rosários, no entroncamento dos dois braços do rosário existe a Medalha Milagrosa. E quando se oscula o terço, quando há nele a Medalha Milagrosa, é de bom alvitre oscular a medalha e o terço, não só o terço.
Muitas vezes, por exemplo, na parte de cima, colocam rosas; um bispo conhecido disse que o simples fato de serem colocadas rosas em relevo, de maneira a tirar o caráter ovalado da medalha, faz com que ela não corresponda às exigências de Nossa Senhora. É essa caracteristicamente a medalha. Se nessa face houvesse, em saliência, rosas, poderia já não corresponder à devoção e poderia, portanto, já não merecer as graças que foram prometidas por Nossa Senhora nessa ocasião. Por quê? Porque a medalha era ovalada. Isso não quer dizer o seguinte: Nossa Senhora não dará nenhuma graça! Medalha, qualquer que seja sua forma, é um objeto de piedade. Mas isso quer dizer apenas que não tem as garantias daquela promessa.
Podemos perguntar por que Nossa Senhora foi tão estrita na definição, no estabelecimento de todas essas condições. E alguém poderia perguntar o seguinte: isso não será uma mesquinharia e não está abaixo das grandezas de Nossa Senhora querer ser obedecida em tais ninharias? Não seria muito mais sapiencial que Nossa Senhora abrisse mão disto e que não exigisse minudências, minúcias tão exatas como estas?
Nós devíamos ver na própria minúcia uma manifestação de sabedoria, porque Nossa Senhora não faz nada  que não seja perfeito. Então, devemos nos perguntar qual é a razão dessa minúcia, porque essa minúcia deve ter uma razão. E a razão, evidentemente, é de adestrar em nós duas virtudes: em primeiro lugar, a virtude da fé e, em segundo lugar, a virtude da obediência.
A virtude da fé quer dizer crermos firmemente que Ela quis que isso fosse assim. Crermos na sua revelação na íntegra e crermos que houve uma manifestação da Sua vontade, uma autêntica manifestação de Sua vontade. Ela indicou também esses pormenores e um resquício da virtude da obediência no seguinte: Ela é a Rainha e tem o direito de mandar aquilo que Ela quiser; e a menor das vontades d’Ela nos deve ser muito preciosa.
Não só muito preciosa - porque vem de uma autoridade excelsa,  Ela é a Mãe de Deus e Rainha do universo - mas muito preciosa porque tudo quanto Ela quer é perfeito e nossa vontade deve unir-se muito à vontade d’Ela. Devemos dizer: “minha Mãe, Vós o quisestes assim, e porque Vós o quisestes assim, eu quero assim, porque eu quero o que Vós quereis. Eu não só faço o que Vós quereis que eu faça, mas eu quero que Vós queirais que eu queira, e como vós quereis que eu queira isto, que eu tenha essa medalha assim, e com essas minúcias para gozar de tais graças, eu me conformo humildemente à Vossa vontade soberana. Eu amo este gesto pelo qual Vós quereis exercer sobre mim a Vossa realeza e eu, por causa disso, me dobro; eu executo o que Vós quereis, reconhecendo que não sou senão uma criança nas Vossas mãos, que eu não sou senão um filho e um escravo nas Vossas mãos e que devo fazer tudo aquilo que Vós quereis”.
Para os senhores compreenderem bem como este ato de obediência, assim, é grande, eu tenho lido livros de vida espiritual que dizem que naquele fruto cuja ingestão era proibida a Adão e Eva no Paraíso, naquela proibição de comerem o fruto daquela árvore, não havia outra coisa senão um ato de vontade de Deus. A fruta não tinha nada de nocivo ao homem. Se não fosse uma proibição de Deus, os homens poderiam comer daquela fruta. Era uma coisa na aparência tão insignificante querer comer uma fruta, mas aquela ordem versando sobre uma coisa tão insignificante devia ser obedecida. Porque Deus é Senhor, porque Deus é nosso Pai.
E nós devíamos fazer a vontade d’Ele, porque Ele é Rei e porque é nosso Pai cheio de bondade e só pode querer um coisa boa. E foi por causa de um ponto tão pequeno em que não houve obediência, que houve a catástrofe do pecado original e todas as conseqüências que vieram depois.
Isto é, meus caros, uma lição magnífica de anti-liberalismo. O revolucionário, o liberal, de bom grado - quando ele é assim, meio disfarçado, meio moderado - pensa o seguinte: “e daí? É linha geral da vontade de Nossa Senhora, eu faço. Mas nas minúcias, eu não creio que Nossa Senhora queira me obrigar à minúcia! Nas minúcias faço como entendo eu”. Ou então: “por que Nossa Senhora exigiu as minúcias tais, eu não estou de acordo que Nossa Senhora exija minúcias tais? Eu acho contra a minha dignidade obedecer em coisinhas assim. Eu vou fazer o que entender”.
Isso é liberalismo puro e desagrada a Deus. Nossa Senhora, quando recebeu a mensagem angélica de que seria a Mãe de Deus, teve como resposta um ato de obediência: “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Sua palavra”. O que quer dizer isso? Significa obedecer! Quer dizer, dobrar a nossa vontade na hora de receber as maiores honras ou de executar as maiores ordens, como nas menores, porque Deus tem o direito de ser obedecido em toda linha!
Nesse sentido a Medalha Milagrosa é, de algum modo, a festa da santa obediência. E temos uma boa ocasião de pedir a Nossa Senhora que nos dê o espírito de obediência, por exemplo, no que diz respeito à prática dos Mandamentos. Obedecer aos Mandamentos inteiros, inclusive em matéria que possa significar a mínima falta, a mínima imperfeição, por amor à vontade de Deus. Por amor à vontade da Igreja católica que tem seus mandamentos e tem poder de ditar os seus mandamentos. Por isso a gente obedece meticulosamente, inclusive nas menores coisas.
Eu termino com uma comparação. Os senhores sabem que a Igreja, nos áureos tempos - para Ela todos os tempos são áureos e, portanto, o espírito d’Ela nunca muda - tinha uma liturgia muito meticulosa. E na Missa e nos outros atos de culto, Ela determinava aos padres os mínimos gestos que deviam fazer. Os senhores acham que um padre que relaxasse um pouco aquele gesto e fizesse aquilo meio trocado, seria um bom padre? Todo mundo diria não! Por quê? Porque a Igreja deve ser obedecida pelos seus ministros até nas pequenas coisas! Aí nós sentimos ao vivo a importância da obediência até nas pequenas coisas.
Que nossa vida seja assim também! Obediente até nas pequenas coisas. Obediente a Deus Nosso Senhor, a Nossa Senhora, que é nossa Medianeira junto a Ele; à santa Igreja Católica que é nossa medianeira junto a Nossa Senhora e junto a Deus e àqueles que a obediência colocou para nos corrigir.
Portanto, também às pequenas autoridades de nosso Grupo. Quando mandarem fazer alguma pequena coisa, obedecer, fazer como mandaram. Por quê? Porque nós devemos amar toda forma de autoridade, em todas as suas manifestações e, de bom grado, com a flexibilidade de alma sermos obedientes a essa autoridade. Isto é um dos aspectos contra-revolucionários e anti-liberais que se depreende da devoção à Medalha Milagrosa.

("Conferência", 26 de novembro de 1970)




terça-feira, 21 de novembro de 2017

A MEDALHA MILAGROSA E A VIRTUDE DA OBEDIÊNCIA





(COMENTÁRIOS DE PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA SOBRE A SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA) -


Quando esta revelação foi divulgada, verificou-se que a Medalha Milagrosa era ocasião de um número enorme de graças de conversão, das mais extraordinárias, com que se patenteou ou se documentou mais uma vez que esta devoção era muito desejada por Nossa Senhora. Por causa disso estabeleceu-se o excelente costume de colocar, no ponto de entroncamento das contas do Rosário, a Medalha Milagrosa. Porque o uso da Medalha Milagrosa é cercado de toda a espécie de graças. E essa devoção preparou as almas, muito poderosamente, para a definição de um dos mais importantes dogmas de Nossa Senhora, que é o da Imaculada Conceição.
Vale a pena portanto nós fazermos aqui uma análise da Medalha e de tudo quanto ela simboliza, para compreendermos o que a Providência Divina teve em vista quando favoreceu com tantas graças essa devoção que Ela mesma revelou a Santa Catarina Labouré.
Nós temos, numa face da Medalha, Nossa Senhora calcando o mundo. Quer dizer, pondo os pés sobre o mundo na afirmação de Sua realeza sobre toda a Terra.
É exatamente essa a doutrina da realeza de Nossa Senhora que veio lembrada em Fátima, como uma vitória da Contra-Revolução: "o comunismo espalhará os seus erros por toda parte; o Papa terá muito que sofrer; a Igreja será perseguida; por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará." Quer dizer, a Revolução será derrotada e teremos então a vitória do Coração Imaculado de Maria.
Essa doutrina da realeza de Maria está afirmada desse lado: Nossa Senhora calcando o mundo aos pés e também uma serpente; o que está inteiramente coerente, concludente, com os demais símbolos da Medalha. Porque desse lado da Medalha está escrito: "Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós". Quer dizer, é a Imaculada Conceição.
Mas não é pura e simplesmente a Imaculada Conceição, porque há aqui um atributo que não se encontra nas imagens da Imaculada Conceição como tal. E que é o seguinte: Nossa Senhora está com as mãos abertas, em sinal de aquiescência, em sinal de atendimento, e de Suas mãos partem feixes luminosos imensos, que são graças e os favores que pelas mãos d'Ela - quer dizer pela ação d'Ela, por meio d'Ela - descem ao mundo. E então nós temos aqui algo que faz pensar na Mediação Universal de Nossa Senhora. As graças todas que vêm de Deus e que, pelas mãos de Nossa Senhora, que são as mãos distribuidoras das graças de Deus numa quantidade enorme, se precipitam sobre o mundo. Exatamente, a vitória sobre a Revolução dar-se-á no momento culminante das vicissitudes da Santa Igreja e, pois, com a realização completa das profecias de Fátima ("por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará").
Quer dizer, aqui nós temos uma série de conceitos que se conjugam para dar uma visão grandiosa da vitória de Nossa Senhora no mundo.
Essas graças que descem são a conversão dos pecadores, mas são também o castigo dos irredutíveis à graça divina, e para a proteção daqueles que se mantiveram fiéis até ao fim. E as graças para que os fiéis continuem fiéis. Tudo isto sai das mãos de Nossa Senhora como de um manancial. E Ela está afável, risonha, acolhedora para todos aqueles que, tendo em vista esse conjunto de fatos, esse conjunto de símbolos, de atributos, de noções, se dirigem confiantes a Ela pedindo as graças que precisam.
O verso da Medalha não é menos simbólico. Ele contém os elementos de várias devoções que se conjugam. Por que? Eu mostrei que, na Medalha, onde está a imagem de Nossa Senhora, está lembrada a Imaculada Conceição, por causa da jaculatória. Deste outro lado, vemos doze estrelas, como na coroa de Nossa Senhora que esmaga a Serpente, da qual fala o Apocalipse. E depois nós temos um M central, que é o M de Maria, que é o nome de Nossa Senhora, e sobre o qual está uma cruz. Isso lembra muito a São Luís Grignion de Montfort, "O Tratado da Verdadeira Devoção", a "Carta aos Amigos da Cruz" .
E depois as duas grandes devoções (que constituem, no fundo, uma só devoção): ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, e que se encontram abaixo desse M. São todas as graças dadas nos tempos modernos para a luta contra a Revolução: a afirmação da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, o dogma da Imaculada Conceição que deveria ser definido algumas dezenas de anos depois da aparição da Medalha Milagrosa; as devoções ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, e que foram para evitar a Revolução na França; e de outro lado a obra de São Luís Maria de Grignion de Montfort, que foi também dada para evitar a Revolução. E uma e outra devoções dadas também para lutar contra a Revolução e para abatê-la.
De maneira que esses símbolos todos se conjugam como uma espécie de compêndio dos temas ou dos pontos mais sensíveis para a piedade católica, que lembram mais a piedade católica, objeto natural de suas inclinações, de seus atos de devoção, de sua confiança, e que, portanto, devem ser vistos nesse sentido pelos católicos.
Os senhores têm aí a razão pela qual essa Medalha foi objeto de tantas graças. E, por causa disso, nós devemos amar muito essa Medalha, vendo nela como que um programa para nós. E usá-la sempre, tê-la sempre conosco.
Os senhores compreendem, por esta forma, como a piedade católica sabe fazer bem as coisas. Porque outra devoção esplêndida e que sempre os católicos tiveram, da Idade Média para cá, foi o Rosário. Então, colocar essa Medalha unindo as dezenas do Rosário, é uma idéia harmoniosa, felicíssima, adequadíssima, muito razoável, constituindo um todo de objeto de piedade que nos deve falar muito à alma, e que deve despertar muito a nossa devoção.
Vamos pedir a Nossa Senhora que, pelas graças da Medalha Milagrosa, Ela apresse o dia de sua vitória de um lado. E que, do outro lado também, Ela nos ajude a sermos fiéis durante todas as tormentas que se aproximam. Porque nós nos devemos lembrar bem disso: a perseverança é uma graça inestimável. Com efeito, do que adianta a gente ter uma fé e outras virtudes, se depois vai cair em pecado? Essa perseverança não é fruto de nossas qualidades pessoais, não é o fruto de nada que parte de dentro de nós. Ela é um fruto da graça, que se trata de pedir humildemente, de implorar com insistência, e à qual se trata de corresponder. Portanto precisamos pedir as graças que nos asseguram a perseverança. E é isso que nós então devemos especialmente pedir.
Há tantas almas que o demônio vai levando para os rumos mais péssimos, mais execráveis. Talvez nem todo mundo tenha a idéia de qual é a ação, a força do demônio, na época em que estamos.
Não me lembro qual foi o Doutor da Igreja que disse que os demônios que pairam pelos ares e que não foram levados ao inferno - mas que o serão no fim do mundo, e que pairam para a perdição das almas - são tão numerosos que se eles pudessem ser vistos obscureceriam até o sol, porque formariam uma espécie de capa em torno da Terra. E são os demônios predispositivos que atuam - segundo li em certo autor - sobre as almas, não diretamente para as levar ao pecado, mas para criar um clima que torna, depois, a tentação dos outros demônios como que irresistível. Não é irresistível, mas é como que irresistível, avassaladora. E se o mal hoje em dia tem tanta possibilidade de progressão, é porque ele encontra, por toda parte, o clima psicológico preparado.
Alguém poderia perguntar se no tran-tran da vida espiritual, uma pessoa é tentada pelo demônio todos os dias ou passam-se muitos dias em que as tentações são sobretudo naturais, não são preternaturais e, portanto, em que o demônio não atua. A minha impressão pessoal não tem nenhuma autoridade para afirmar nada nesse sentido, mas minha impressão pessoal é que nessa pergunta haveria ingenuidade. E que muitas vezes por dia, no tran-tran da vida espiritual, o normal é que o demônio tente as pessoas. Não serão tentações sensíveis, é evidente. Mas é desse jeito, daquele jeito, uma ação. Pode ser também um pulo violento... e os pulos violentos não são os mais perigosos.
Então, nós devemos compreender que essa Medalha, com todos esses símbolos, e recomendada por Nossa Senhora, é um dos penhores da aliança d’Ela com seus verdadeiros devotos. É um dos meios, uma espécie de escudo que Ela dá para a luta contra todas essas tentações do demônio. E que essa invocação de Nossa Senhora das Graças, ou Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, é particularmente eficiente por tudo quanto Ela contém. E pela Imaculada Conceição que está esmagando a cabeça do demônio, é particularmente eficiente nesta luta contra o poder das trevas, que tanto e tanto nós devemos conduzir nos dias de hoje.
Há uma razão a mais, portanto, para nós nos aferrarmos nesses símbolos, para nós nos aferrarmos a essa Medalha, para nós nos aferrarmos ao escapulário do Carmo, para nós nos aferrarmos ao Rosário. Termos sempre conosco esses objetos de devoção como meio para ação contra o demônio. E essa é uma consideração que me parece particularmente importante nos dias que passam.
Era o que eu tinha a dizer a esse respeito.



(Conferência de 27 de novembro de 1964)

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

MEDALHA MILAGROSA: UMA PORTA DO CÉU SE ABRIU PARA O MUNDO



(COMENTÁRIOS DE DR. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA SOBRE A SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA)


Quem visita a Capela da Rue du Bac, em Paris, onde Nossa Senhora apareceu a Santa Catarina Labouré e lhe pediu a cunhagem da Medalha Milagrosa, sente-se envolvido por uma intensa impressão de paz, de céus abertos, como se não existissem obstáculos entre a Terra e a feliz eternidade. No íntimo de sua alma, o fiel ouve a voz de Nossa Senhora, exorável, disposta a atender todos os nossos pedidos, com sua maternal benignidade transpondo distâncias incontáveis para se tornar acessível a todos. Tudo isso faz daquela capela um lugar de serenidade realmente privilegiado.
Serenidade, calma e paz autênticas, ou seja, toques de sobrenatural que afagam nossa alma com verdadeira unção, verdadeira consolação e verdadeira confiança, e nos infunde a plena certeza de que, em última análise, Nossa Senhora nos alcançará as graças tão desejadas por nós.

A época das aparições da Rue du Bac

As aparições da Santíssima Virgem se deram em 1830, sendo a mais importante delas no dia 27 de novembro, quando revelou a Santa Catarina os tesouros de dádivas celestiais destinados ao mundo com a difusão da Medalha Milagrosa.
Cumpre recordarmos que, naquela época, a par de um grande reflorescimento da prática da religião Católica, havia também fortes manifestações de laicismo e ateísmo hostis à Igreja, de maneia que um fosso abismal separava o catolicismo do anticlericalismo. Ecos dessa animosidade eu mesmo conheci, no Brasil dos anos 20. Portanto, quase um século depois das aparições da Rue du Bac.
Tão profundo era esse valo divisório entre as coisas da Igreja e as da sociedade civil que, ao se transpor os umbrais do ambiente profano e ingressar no religioso, era como se deixássemos um país para entrar em outro. Lembro-me de quando comparecia à bênção do Santíssimo Sacramento na Igreja do Coração de Jesus, após a qual, saindo do templo, observava o edifício daquilo que então era o internato do Liceu, desdobrado em duas alas em torno de todo o quarteirão.
As janelas dos andares inferiores permaneciam fechadas e protegidas por grades. Ao contrário daquelas dos andares superiores através das quais, no lado onde eu sabia situado o dormitório dos meninos, podia-se ver algumas luzes azuis acesas: sinal de que as crianças já dormiam. E o relógio da torre ainda não marcava nove horas da noite...
Recordo-me da impressão que causava em mim o entrar na sociedade profana – insisto, nos anos 20 – e perceber o contraste entre o coruscante, o assanhado, o divertido daquele mundo, e o dormitório extenso, onde um grande número de meninos repousava sob a supervisão de um padre pronto a acordar ao menor sinal de perturbação, para restabelecer a ordem e a tranqüilidade!
Encantava-me saber que aqueles meninos dormiam placidamente, aos cuidados de um sacerdote que representava ali a eterna tradição da Igreja ordenativa, moralizante, disciplinadora. Alegrava-me ver que, enquanto todos se achavam imersos no sono noturno, as luzinhas azuis simbolizavam a maternalidade da Igreja a envolver seus filhos em brumas amigas; a vigilância de quem sabe sorrir sem fechar os olhos, sempre ciente do que se passa. Tudo isso me dava a impressão de haver naquele ambiente uma austeridade, uma sacralidade, uma ordenação que o mundo fora não conhecia. Era outro universo.
Pois bem, numa atmosfera análoga a essa tiveram lugar, na Paris de 1830, as revelações de Nossa Senhora a Santa Catarina Labouré.


O sobrenatural se desenrola numa modesta capela

Era esta uma freira da congregação das Filhas da Caridade, fundadas por Santa Luísa de Marillac e São Vicente de Paulo. Essas religiosas se distinguiam sempre por sua extrema e abnegada solicitude cristã, dedicando-se aos cuidados dos pobres, órfãos e enfermos nos hospitais e Casas de Misericórdia.  Até há pouco eram conhecidas pelo seu hábito característico: túnica escura com gola branca engomada, a cabeça adornada por uma touca bretã, estilizada pela inspiração e pelas mãos da Igreja. Essa cobertura se desdobrava em duas abas largas, lembrando vagamente as asas de uma gaivota em vôo. Na cintura, como é natural nos hábitos religiosos, pendia um grande rosário.
Não tive contato assíduo com essas freiras, mas encontrei-me com muitas delas. Em geral pessoas robustas, fortes e prontas para o trabalho. Olhar límpido, reto, atitude despretensiosa de quem preferia passar desapercebida. Realizavam obras de misericórdia temporal como ocasião para obras de misericórdia espiritual. Ou seja, elas aproveitavam a ocasião de cuidar de um paciente terminal para trazer um padre junto a ele, para convidar uma criança a ir ao catecismo da paróquia, ou se encontravam uma pessoa desventurada na rua, procuravam ajudá-la em todo o necessário, etc. Enfim, faziam tudo quanto pudessem para atender aos infortúnios, as carências materiais e, sobretudo, as espirituais, nos mais variados ambientes por onde costumavam se infiltrar.
A elevação desse apostolado das Irmãs de Caridade de São Vicente de Paulo era tão grande, e as admiravam tanto por isso, que costumavam ser tidas como o próprio símbolo da religião numa de suas expressões mais belas e comovedoras.
O seu principal convento situa-se num antigo e aristocrático bairro da capital francesa, o Faubourg Saint-Germain, e se tornou conhecido pelo nome da rua em que foi edificado: Rua du Bac.
Devemos imaginar a cidade de Paris nos idos de 1830, bem menor e menos populosa do que é hoje, silenciosa, tranqüila, ainda sem ruídos de motores e luzes de néon.  Podemos pensar na rua calçada com pedras, sobre as quais, vez por outra, o eco das patas de um cavalo ou das rodas de uma carruagem interrompia a longa calada da noite. No dormitório das freiras de São Vicente, não havia luzinha azuis, mas talvez alguns candeeiros acesos. Todas as religiosas repousam, entre elas Santa Catarina Labouré.
Nesse ambiente modesto, puro e elevado, completamente diverso do mundo exterior, o maravilhoso sobrenatural começa a se desenrolar.

Colóquios com a Rainha do Céu

A primeira aparição ocorreu na véspera da festa de São Vicente de Paulo, em 18 de julho de 1830, como que preparada por uma atitude da vidente repassada de ingenuidade, inocência e caráter filial muito bonitos. Ela ouvira no dia anterior uma exposição sobre a devoção a Nossa Senhora, e sentiu um ardente desejo de vê-La. E foi se deitar com o pensamento de que, naquela mesma noite, encontrar-se-ia com a Santíssima Virgem.
E foi o que aconteceu. Como nos relata a própria Santa Catarina Labouré, por volta das onze e meia da noite, ela ouve alguém lhe chamar. Corre a cortina de seu leito e vê um menino de 4 ou 5 anos que lhe diz: “Vinde à capela, a Santíssima Virgem vos espera”.
A sana demonstra um pouco de receio, temendo que as outras religiosas a surpreendessem fora da cama, mas o menino a tranqüiliza, ela se veste e começa a segui-lo pelos corredores do convento. Detalhe curioso, registrado pela vidente que muito se admirou do fato: por todos os lugares onde passaram as candeias estavam acesas.
Ela entra na capela e sua surpresa é ainda maior ao notar todas as velas acendidas nos candelabros, como se estivessem preparados para uma Missa do Galo. O menino a conduz até o presbitério, ao lado da cadeira em que se sentava o vigário. Sana Catarina se ajoelhou, enquanto a criança permaneceu de pé. Ela, sempre com o receio de que alguma freira passasse por ali e os encontrasse, pedindo-lhe explicações que não saberia dar...
Afinal, o menino lhe advertiu: “Eis a Santíssima Virgem”. A vidente ouviu um frou-frou, um roçar de vestido de seda, mas ainda não distinguia Nossa Senhora. Então o menino insistiu – já não com voz de criança, mas em tom vigoroso – que a Rainha do Céu estava presente. Nesse momento Sana Catarina viu Mãe de Deus sentada na cadeira do vigário, deu um salto para junto d’Ela e, genuflexa, apoiou suas mãos nos joelhos de Maria.
Quer dizer, uma cena fabulosa, uma aparição cercada de afabilidade extraordinária. Compreende-se, pois, que Santa Catarina tenha registrado esse instante como o mais doce de sua vida, impossível de ser descrito em palavras. Recebeu ali diversos conselhos e orientações de Nossa Senhora, os quais preferiu manter em sigilo.

A Medalha Milagrosa

Podemos bem conceber como Sana Catarina se sentiu após esse encontro com Nossa Senhora, e como seu coração latejava de um intenso desejo de revê-La. Alguns meses depois, ela seria largamente atendida. O segundo e mais importante encontro se deu na tarde do sábado 27 de novembro de 1830. Assim o relata um cronista das diversas aparições de Maria:
“Na sua capela da Rue du Bac, as Filhas da Caridade – Irmãs e noviças – a reúnem para a meditação vespertina. Recolhimento e religioso silêncio. De repente, em meio à sua piedosa contemplação, Catarina Labouré julga ouvir o roçar de um vestido de seda... A Santíssima Virgem ali?
“Qualquer pensamento é impossível diante da inconcebível beleza de Maria. Ela usa um vestido de seda alvíssima como a aurora. Da mesma cor é o véu que Lhe desce da cabeça até os pés. Estes repousam sobre volumoso globo, que parece fixo num ponto do espaço. As mãos, elevadas à altura do peito, sustentam graciosamente um outro globo, menor que o pedestal e encimado por uma cruz. A Virgem tem o olhar voltado para o céu. Seus lábios oram. Ela oferece o globo ao Mestre, seu Filho.
“De súbito o globo desaparece e as mãos permanecem estendidas. Os dedos se cobrem de anéis guarnecidos de cintilantes pedrarias, que emitem raios deslumbrantes para todos os lados. Mil fulgores preciosos se fundem num só brilho transcendente. Mil irradiações circundam a santa figura.
“A Virgem pousa os olhos sobre Catarina em contemplação, abismada num mundo de sensações, de sentimentos, de descobertas, de revelações inexprimíveis. No fundo de seu coração, a noviça ouve uma voz que lhe diz:
“ – Este globo representa o mundo inteiro, e especialmente a França, e cada homem em particular.
“A chuva de raios redobra em força, em magnificências.
“ – Eis o símbolo das graças que Eu derramo sobre aqueles que mas pedem. As pedras que permanecem na sombra (dirá ainda, uma outra vez, a Santíssima Virgem) simbolizam as graças que se esquecem de me pedir”.[1]
Segundo narração de Santa Catarina, formou-se em torno de Nossa Senhora um quadro de forma ovalada, no alto do qual estavam escritas em letras de ouro as seguintes palavras: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós”. E novamente ela ouviu uma voz que lhe mandava cunhar uma medalha conforme aquele modelo. E a promessa: ‘Todos os que a usarem, trazendo-a ao pescoço, receberão grandes graças, que serão abundantes para quem a portar com confiança”.
Em seguida, diz a vidente, o quadro pareceu girar e ela viu o reverso da medalha: no centro, o monograma da Santíssima Virgem, composto pela letra “M” encimada por uma cruz, a qual tinha uma barra em sua base. Embaixo, os Corações de Jesus e de Maria, o primeiro coroado de espinhos, e o outro, transpassado por um gládio.
Era o desenho da Medalha Milagrosa, como esta seria amplamente conhecida e difundida pelo mundo inteiro, alcançando graças e favores celestiais para incontável número de pessoas, milagres de ordem física, como a cura de doenças, e também de ordem espiritual, reformas de vida e conversões das mais inesperadas.

Desígnios de alta misericórdia para o mundo

Por exemplo, célebre se tornou a conversão de um prelado apóstata, o arcebispo francês Mons. Duprat. Ele abandonou a Igreja Católica e se tornou secretário de finanças de outro famoso bispo renegado, Talleyrand.
Conta-se que Mons. Duprat, sabendo chegado aos seus últimos dias, relutava em se confessar e emendar. Algum zeloso parente ou conhecido, preocupado com a salvação eterna dele, prendeu a Medalha Milagrosa no travesseiro do arcebispo. Foi o bastante para que a graça o tocasse. Dias depois ele pedia que lhe trouxessem um padre: “Mudei de idéia, desejo me confessar”. O sacerdote se apresentou, o filho pródigo fez as pazes com Deus, com a Igreja e com a sua consciência. Não se passou muito tempo, e morreu readmitido no seio da Esposa mística de Cristo.
Casos como esse se multiplicaram ao longo dos anos e ainda hoje se verificam pelo mundo afora. Assim como tantas outras formas de amparo e benefício oriundos do uso da Medalha.
Lembro-me, aliás, deste outro fato. Uma senhora da aristocracia francesa mantinha no salão nobre de sua residência, magnificamente decorada, um quadro com a Medalha Milagrosa, manchada e amassada no centro. Os visitantes que ela recebia em casa, estranhavam aquilo exposto com tanta evidência num recinto esplêndido, em meio a objetos de alta categoria, e perguntavam a razão disso. A senhora respondia:
“ – Guardo esta medalha porque meu filho era um estróina, e estando num mau lugar, levou um tiro. A bala acertou diretamente na medalha, e em vez de perfurá-la, de modo inexplicável apenas a danificou, como para autenticar o fato extraordinário, e caiu no chão. Diante do prodígio, meu filho se converteu e hoje é um católico exemplar. Eu desejo, então, que minhas visitas conheçam este favor recebido de Nossa Senhora e saibam agradecer. Por isso esta medalha está aqui”.
É simplesmente incontável o número de episódios semelhantes, onde foram obtidas graças preciosas através da Medalha Milagrosa. Motivo pelo qual ela é objeto de tanta devoção, tendo sido destinada por Maria Santíssima a ser um maravilhoso meio de se realizarem desígnios de sua alta misericórdia para o mundo.

Expressão do carinho materno de Maria

É interessante frisar, ainda, que essa particular proteção da Virgem Santíssima em relação a nós transparece muito na sua prerrogativa de Mãe da Divina Graça.
Quantos já não nos sentimos, ao aproximarmos de uma imagem sob essa invocação, recebidos por um sorriso d’Ela, envolvidos por uma espécie de doçura que nos prometia compaixão,pena, a convicção de sermos atendidos e favorecidos por um ato de inesgotável bondade?
É a certeza de que Nossa Senhora sempre se acha disposta a nos socorrer e amparar com sua clemência, seja em nossas carências materiais e físicas, seja marcadamente em nossas lacunas espirituais, ajudando-nos a vencer nossos defeitos, as tentações e o pecado. Portanto, Nossa Senhora das Graças podia se dizer Nossa Senhora da Misericórdia, que nunca, nunca, nunca nos deixará desamparados.
E creio jamais ser suficiente insistir nesta verdade: Mãe da Divina Graça significa a tesoureira de todas as graças de Deus. As dádivas celestiais constituem um tesouro inexaurível, posto nas mãos de Nossa Senhora e por Ela difundido àqueles que recorrem à sua intercessão.
Maria é a dispensadora de todas as graças e também a Mãe dos que Lhe suplicam favores. Mãe dos miseráveis, dos aflitos, daqueles que quase perderam a esperança, aos quais Ela reanima, e faz reacender em seus corações a chama da Fé.
Basta considerarmos uma imagem de Nossa Senhora das Graças para compreendermos o quanto este título exprime o carinho materno de Maria em relação a nós. Acolhe-nos de braços abertos, o sorriso nos lábios, repassada de um convite amorável para nos aproximarmos e convivermos um pouco com Ela. Envolve-nos com uma afabilidade e uma promessa de perdão sem limites, insondável. E nos faz ouvir no fundo da alma a sua voz carinhosa: “Tendes a Mim, sou inteiramente sua. E por causa disso, todos os caminhos para o Céu lhe são franqueados...”

(Extraído da revista “Dr. Plínio”, n. 92, novembro de 2005, pp. 18/25).
















[1] Cf. Pierre Molaine, L’Itinéraie de la Vierge Marie.