SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

terça-feira, 20 de junho de 2017

SÃO LUÍS DE GONZAGA, PATRONO DA JUVENTUDE E DA CASTIDADE



A marquesa de Castiglioni, D. Marta, era estéril e pedia constantemente a Nosso Senhor que lhe desse um filho, e que o mesmo servisse a Deus como religioso. Fez votos de oferecer o filho a Deus e pouco tempo depois, veio o mesmo a nascer, o que seria o primeiro de seus três rebentos.  
Não fora fácil aquele nascimento. Porfiavam ainda os médicos que não era possível que o menino sobrevivesse, e o marquês, Dom Ferrante, instava a que se procurasse salvar a alma da criança. A experimentada parteira, logo que viu o menino o suficiente para poder receber a água do batismo, antes que nascesse totalmente, batizou-o.  Estávamos a 9 de março de 1568.   
O marquês, como era soldado, queria que seu filho o fosse também. Assim, quando Luís tinha apenas 4 anos mandou fazer uns arcabuzes e outras armas em tamanho pequeno a fim de que a criança pudesse carregá-las.  Além disso, quando preparava a armada contra Tunis, levou o filho consigo ao local onde deveriam se reunir a fim de que o garoto criasse interesse pelas coisas militares. Também, quando haviam paradas militares fazia-o ir à frente das tropas  com as armas pequenas que mandara fazer para que ele as conduzisse.
Quando o marquês partiu finalmente para a guerra, enviou de volta seu filho para Castiglioni. A criança tinha aprendido,  pelo trato e conversação com os soldados, algumas palavras livres e descompostas que eles de ordinária empregam. Chegando em Castiglioni começou a empregar tais palavras com a maior naturalidade, sem saber ao menos o que elas significavam.  Um dia o seu preceptor o repreendeu por causa disso, e de tal modo que desde aquele momento nunca mais se ouviu uma palavra descomposta sair de sua boca, e,  se escutava outros dize-las, baixava os olhos de vergonha,  ou virava o rosto, mostrando seu profundo desagrado.
São Luís sempre considerou aquelas palavras, ditas de forma tão ingênua e inocente, como os piores pecados que havia praticado em sua vida, e delas chorou até o último momento de sua morte.
Chegado aos sete anos, que é quando começa a amanhecer a luz da razão, decidiu dedicar-se inteiramente ao serviço de Deus.  De maneira que chamava a este tempo o de sua conversão. E quando ele dava conta de sua consciência a seus diretores espirituais contava como um dos mais assinalados benefícios que tinha recebido de Deus que aos sete anos o tivesse convertido do mundo à Seu serviço.
São Luís esteve desde a mais remota infância convivendo entre pessoas da alta nobreza, pois foi nascido na corte de seu pai e passou anos na do grão-duque de Florença,  na do duque de Mântua e na do próprio rei de Espanha. Tendo sempre que tratar com príncipes e senhores, com todo gênero de pessoas de categorias tão elevadas, mas que numa época onde tais convívios eram cheios de vícios e de maus costumes, no entanto conseguiu conservar sempre pura e limpa a vestidura branca da inocência batismal.
São Roberto Belarmino, Cardeal,  declarou o seguinte sobre São Luís:: provavelmente se pode crer que a Divina Providência, em todos os tempos, tem alguns santos confirmados em graça enquanto estão vivos.  "Eu para mim - completou - acho que um desses confirmados em graça é nosso irmão Luís Gonzaga, porque sei quanto se passa na sua alma".
Com a idade de nove anos, seu pai montou para ele uma casa em Florença, a fim de que continuasse a educação na corte do grão-duque.
Ali, alimentou especial devoção por uma imagem de Nossa Senhora da Anunciata. Lendo um livro do padre Gaspar Loarte sobre os mistérios do Rosário, sentiu-se abrasado em desejos de fazer algo por Sua Senhora. Veio-lhe o pensamento de que seria serviço muito aceite que ele, para imita-La quanto fosse possível na sua pureza, lhe consagrasse com particular voto sua virgindade. Com este pensamento, estando um dia em oração diante da imagem da Anunciata,  fez em honra da Virgem voto a Nosso Senhor de perpétua castidade, a qual conservou durante toda a vida, inteira e perfeitamente.
Afirmam seus confessores, e em particular o Cardeal São Roberto Belarmino, que São Luís em toda sua vida não sentiu nunca o mais mínimo estímulo ao movimento carnal do corpo, nem um pensamento ou representação lasciva da mente contrária ao propósito do voto que fizera.
Para se medir a altura de tão grande privilégio dado por Deus, basta lembrar que o Apóstolo São Paulo pediu por três vezes a Deus que lhe tirasse o estímulo da carne, que ele chamava agulhão.  São Jerônimo por muito tempo fez rigorosas penitências com mesmo fim e Santo Afonso Ligório reclamava deste "agulhão" ainda no final da vida com mais de 90 anos.
Ainda que ele não tivesse batalhas nesta matéria, pelo menos de forma visível aos circunstantes, a estima e o grande amor por esta virtude fazia-o estar sempre em guarda do coração e sentinela dos sentidos, especialmente dos olhos. Para se resguardar na posse de virtude tão delicada, São Luís fugia sempre do trato com mulheres. Aborrecia tanto sua vista, que quem o visse assim proceder pensaria que tinha por elas alguma antipatia natural. Se acontecia alguma vez, estando em Castiglioni, que a marquesa sua mãe lhe enviasse algum recado através de algumas de suas damas, ele saía à porta de seu aposento, sem deixá-la entrar.  Fixos os olhos em terra, respondia ao recado e com isso despedia-se sem olhar na face.
Nem mesmo com a mãe ele gostava de falar a sós. E se alguma vez acontecia que, estando a falar com ela, os presentes saíam, logo ele procurava uma ocasião para também sair. E se não a encontrava, cobria seu rosto de um desagrado e uma vergonha virginal, indício do recato com que andava na guarda desta sublime virtude.
Quando esteve na corte de Sabóia, encontrou-se uma ocasião com um nobre já idoso, que não corava de pronunciar indecências em presença do santo jovem e de vários outros mancebos. São Luís exclamou indignado: "Pense nesses cabelos brancos - a gente havia de cuidar que nessa idade findavam semelhantes tolices".  E retirou-se imediatamente do recinto, deixando o infrator envergonhado.
Em 1580 esteve São Carlos Borromeu, arcebispo de Milão, visitando a diocese de Bréscia, e chegou a Castiglioni.  Depois do sermão visitou São Luís, então com 12 anos e quatro meses. Estiveram os dois a sós em práticas espirituais tão longo tempo, que ficaram espantados todos os que os aguardavam. Consolava-se o arcebispo de ver a tenra planta tão forte  no meio dos espinhos da corte, sem arte de jardineiro, mas só com as graças do céu. O menino alegrava-se em estar com o santo bispo, cuja fama de santidade já era grande, tomando suas palavras e avisos como vindos do próprio Deus. Fez na ocasião sua primeira comunhão.
Certo dia, o santo menino teve o seguinte pensamento, contado depois a seu diretor espiritual: "Olha Luís, que grande bem o da Religião! Estes padres estão livres dos laços do mundo, afastados das ocasiões de pecado. O tempo que os do mundo gastam sem proveito em procurar os bens transitórios e prazeres vãos, eles empregam com grande mérito em procurar os bens do Céu, e tem a certeza de que seus esforços não ficaram malogrados. Os religiosos são verdadeiramente os que vivem segundo a razão e não se deixam tiranizar pelas paixões;  não pretendem honrarias vãs, não fazem caso dos bens da terra, caducos e frágeis, não estão em comparação de uns com os outros, não têm inveja dos outros, mas estão sempre contentes em servir a Deus.  Por que estranhar que sejam alegres e sem medo, nem sequer da própria morte, do juízo e do inferno, se trazem sempre a consciência limpa, se dia e noite acumulam novos tesouros, se estão sempre ocupados ou com Deus ou por Deus? O testemunho da boa consciência dá-lhes aquela paz e tranqüilidade interior, de onde provam a serenidade que transparece por fora. Aquela esperança bem fundada que eles têm dos bens do céu, aquele se lembrar a quem eles servem e em cuja corte estão, a quem não alegrará? E tu, Luís, o que fazes, o que dizes, o que pensas, por que não tomas um estado tão feliz? Olha as magníficas promessas que Deus faz a estes.  Olha as grandes comodidades para acudir as suas devoções, sem estorvos"
São Luís estava visitando sempre o convento dos barnabitas, onde se confessava e comungava com freqüência. Anteriormente, o menino já havia tomado a decisão de deixar a seu irmão menor, Rodolfo, a posse do marquesado de Castiglioni, do qual era herdeiro por ser o mais velho. Continuava sua meditação:
"Se deixando o estado a teu irmão Rodolfo, como estás resolvido, queres ficar no século em sua companhia, forçoso será que vejas muitas coisas que não sejam de teu gosto.  Se ficas calado, eis o escrúpulo de consciência. Se falas, tornar-te-ás pesado, e não quererão ouvir-te.  Mesmo que queiras ser eclesiástico ou sacerdote, não alcançarás teu desejo.  Pelo contrário, tendo uma maior obrigação de dizer com perfeição do que os leigos ficas nos mesmos perigos que eles,  e talvez até maiores.  Não ficas livre de respeitos humanos, mas obrigado a empregar teu tempo em cumprimento, seja com este senhor, seja com outro.  Se não tens trato com mulheres, nem visitas às parentes, serás apontado; se cumpres com elas, eis teu propósito que vai por terra.  Se queres aceitar dignidades e bispados, ficas mais no mundo do que agora estás. Se não aceitas, dirão que és pouca coisa e que desonras tua casa, e por mil caminhos te apertarão para te fazer aceitar".
Estava ele levantando as dúvidas, para depois surgir a solução:
"Entrando em Religião, de um golpe cortas com todos esses empecilhos. Ficas livre de todos os respeitos do mundo, e atinges um estado no qual gozes de quietude, e podes servir a Deus com perfeição".  Estas e outras razões se dava si próprio, segundo ele contou. Finalmente, depois de se ter encomendado a Deus com grande afinco, para que o iluminasse, após muitas comunhões oferecidas com este fim, julgando que Deus o chamava para este estado, resolveu-se a deixar o mundo e entrar numa Ordem religiosa, ordem onde pudesse fazer  votos perenes de castidade e pudesse guardar o de obediência e pobreza evangélica.
Por causa de sua pouca idade, não quis participar seu propósito a ninguém. Pouco depois, teve que acompanhar seus pais até à corte real, em Madri, onde tornou-se companheiro de estudos dos príncipes reais.
Seu confessor escreveu mais tarde sobre o jovem santo:  "Conheci na Espanha a Luís, e notei nele uma pureza rara de consciência. Tanto que durante todo aquele tempo, que foi de alguns anos, não só não achei nele pecado mortal, o qual ele aborrecia sumamente e jamais tinha cometido, mas muitas vezes não achei matéria de absolvição. Adverti também nele uma singular modéstia e recato nas palavras, não tocando com elas a ninguém, nem de mil léguas, em coisa mínima que fosse. Não é pouca coisa dizer que um senhor tão jovem, vivendo em tais palácios, não se achasse nele matéria de absolvição, nem sequer de pecados veniais.  Da modéstia e recato que tinha no olhar, ele próprio confessou que apesar de que viajou de Itália a Madri com a imperatriz, e ia cada dia na casa dela, e tendo mil ocasiões de vê-la de longe e de perto, jamais fitou-a uma só vez no rosto".
Naquele tempo não se importava de usar roupas velhas e algumas, principalmente as interiores, remendadas. Não usava qualquer objeto de ouro ou jóias, coisa comum entre os fidalgos.  Por causa disto, sofria severas repreensões de seu pai, acusando-o de desonrar a família com trajes pouco dignos de sua posição.
Suas conversas na Corte eram tão graves e religiosas, que sua simples presença fazia com que as pessoas ficassem compostas e sérias. E como não escutavam nunca dele palavras nem viam ações que não fossem mais do que honestas, era comum fazerem comentários dizendo que "o marquezito não era de carne como os demais", quer dizer, era um anjo.
Após permanecer um ano e meio em Madri, finalmente tomou a resolução de entrar na Companhia de Jesus. Moveu-o a isto quatro razões: a primeira, porque nela a observância estava no primeiro rigor e pureza; a segunda, porque lá faz-se votos de não pretender qualquer cargo eclesiástico; a terceira, por ver na Companhia tantos meios de estudo e de instrução da juventude; a quarta razão era porque a Companhia se ocupava especialmente em combater os hereges e na conversão dos gentios.
Lutou por mais de quatro anos para convencer seu pai a autorizar seu ingresso na Companhia de Jesus. E a autorização paterna surgiu exatamente por causa da fervorosa luta que o jovem vinha travando para preservar sua pureza. Procurava proteger sua inocência como se faz um baluarte para defender uma cidade contra a invasão inimiga. E para isto se utilizava de austeras penitências, que naqueles tempos era recurso comum entre os santos.  Inúmeras vezes levava noites em claro fazendo rigorosas penitências, de joelhos no duro chão.
Certo dia, disciplinou-se São Luís com maior violência a fim de mover os céus que lhe concedesse a graça da autorização paterna para ingressar na Companhia. Alguns criados da casa ouviram os estrépitos dos golpes de sua auto-disciplina e conseguiram observar o que ocorria por uma fresta da porta. A cena era tocante, os criados não queriam ficar omissos, e por isso correram e foram contar tudo ao marquês, o qual, comovido, disse:
- Deixa, meu filho, poupa a tua vida. Leva a cabo o teu propósito, em nome de Deus, e segue em paz.
Era, afinal, a tão esperada autorização para ingressar na Ordem. Vencida a mais difícil batalha de sua vida, por fim, em Mântua, na presença do Imperador e de muitos nobres, quando tinha 17 anos, leu o notário o instrumento de renúncia dos seus direitos de primogenitura em favor de seu irmão Rodolfo. Após assinar, disse ao irmão: "Qual de nós vos parece, meu irmão, que está mais contente - vós, com os vossos estados, ou eu com a minha pobreza? Tende por certo que é maior a minha alegria que a vossa". Estava assim desimpedido o caminho para que o jovem aspirante pudesse fazer os votos de ingresso na Ordem que Deus lhe inspirara.
Não completou seis anos na Companhia de Jesus,  falecendo mártir da caridade ao atender os empestados de Roma no ano de 1591, a 21 de junho, data em que é festejado. Sua mãe chegou a assistir a cerimônia de beatificação de São Luís, ocorrida já em julho de 1604. Foi canonizado por Bento XIII em 1724 e pelo mesmo Papa eleito como o patrono da juventude. 



(Dados extraídos de "Vida de San Luís Gonzaga, patrono de la juventud", do pe. Virgílio Cefari, SJ - e de "Santos  de Cada dia", de José Leite, S.J.9-*)


quarta-feira, 14 de junho de 2017

MILAGRE EUCARÍSTICO DE DAROCA E A INSTITUIÇÃO DA FESTA DE CORPUS CHRISTI

 

Na cidade de Daroca, localizada no nordeste da Espanha, os habitantes se orgulham de seu passado histórico e de sua importância durante os tempos romanos. É protegida por muros altos em todos os lados e possui mais de cem torres para vigilância e observação. Está a cerca de 75 quilômetros de Zaragoza e foi escolhida pelo Senhor para uma notável manifestação sobrenatural eucarística. É a primeira povoação espanhola, e talvez do mundo, que estabeleceu uma festa pública em honra do Santíssimo Sacramento.
O passado da cidade ainda parece vivo mostrando muros e castelos medievais, torres, praças e ruas conforme o traçado romano daquela época. Nas igrejas e museus podem ser encontradas a inestimável arte romana e dos mouros, observando-se também a predominância do estilo gótico e a influência do Renascimento.
Todavia, embora tenha toda esta riqueza histórica, o maior tesouro de Daroca é a relíquia dos Sagrados Corporais, que data de 1239, quando aconteceu o milagre. Por aquele ano, quando a cidade de Valencia estava sob o reinado do Rei católico Dom Jaime, o rei sarraceno Zaen Moro decidiu tomar a cidade com as tropas que haviam chegado do norte da África. O rei católico vendo as intenções do sarraceno, e sabendo que a força militar espanhola era menor, ordenou oferecer uma Santa Missa ao ar livre, e encorajou os soldados assim como os oficiais, a receberem a Sagrada Eucaristia. O Rei Jaime assegurou aos militares que se eles fossem fortalecidos espiritualmente com o Corpo do Senhor, poderiam lutar sem medo porque receberiam a proteção e a ajuda Divina.
As tropas cristãs de Daroca, Teruel e Calatayud se dispunham a conquistar dos mouros o Castelo de Chio, Luchente, distante três léguas de Jativa. Estávamos a 23 de fevereiro de 1239. O Capelão celebrara, momentos antes, a Santa Missa na qual consagrou seis hóstias destinadas à Comunhão dos seis capitães daquelas tropas: Jiménez Pérez, Fernando Sánchez, Pedro, Raimundo, Guilhermo e Simone Carroz. O sacerdote ficou confuso e aterrorizado com o estrondo de canhões, os tiros, gritos e toda a confusão que se formou, pois os mouros iniciavam um ataque de surpresa. Foi obrigado a interromper a Missa, escondendo as sagradas espécies que já estavam consagradas, envoltas nos corporais, num pedregulho do monte.
Num intervalo da batalha, quando os sarracenos se retiraram para agrupar as suas forças, os soldados católicos se ajoelharam diante do altar para dar graças a Deus por aquela primeira vitória alcançada. Saindo os cristãos parcialmente vitoriosos, os comandantes pediram ao sacerdote que lhes desse a Comunhão em ação de graças ao Senhor pela vitória alcançada. Sem perca de tempo, o padre Mateo tentou encontrar o lugar onde havia escondido as Hóstias e teve grande dificuldade, porque em face da confusão reinante ficou em dúvidas quando ao local. Mas por fim encontrou os Corporais e logo abriu para verificar se estava tudo bem com as Hóstias Consagradas. Ficou perplexo com o que viu! As seis Hóstias tinham desaparecido e ficaram em seu lugar seis manchas de sangue no Corporal. Tinha acontecido uma notável manifestação milagrosa. Apressado, o sacerdote subiu ao altar improvisado e mostrou aos militares o Corporal com as manchas do Sangue do Senhor, para reverência e veneração de todos.
Os comandantes se regozijaram ante o que viram. Tomaram isto como um sinal de Jesus de que iam ser vitoriosos. Fizeram com que o sacerdote levantasse o corporal manchado de sangue num mastro como se fosse um estandarte.  Voltaram á batalha contra os mouros e o castelo de Chio foi recapturado. O mérito desta batalha deu-se ao milagre eucarístico.
A notícia do milagre circulou ligeira e inclusive despertou ciúmes nos habitantes das cidades vizinhas. Como a celebração da Santa Missa foi realizada no campo, bem distante da cidade de Valência, as três cidades: Teruel, Catalayud e Daroca, reivindicaram que o milagre havia acontecido dentro de suas jurisdições territoriais. Todas as três queriam ficar com a custódia dos Santos Corporais. O assunto foi debatido durante muito tempo e depois de muitas palavras, decidiram que a disputa seria resolvida através da sorte. Embora fosse um critério incomum, foi o escolhido de comum acordo entre as partes. Através da sorte seria indicada a cidade que ficaria na posse dos Panos Sagrados. Concordaram ainda, que os Corporais, devidamente acondicionados e protegidos, seriam colocados sobre uma mula e o animal deveria escolher qual a direção e o caminho a seguir.
E assim foi feito! A mula deixou o monte onde estava e iniciou sua jornada, seguida pela assistência composta dos guerreiros e sacerdotes com velas acesas.  Depois de vaguear durante 12 dias, num percurso de cerca de 200 milhas, dobra os joelhos e cai morta em frente à Igreja de São Marcos (hoje Igreja da Trindade), em Daroca. Então Daroca foi a cidade escolhida. Há vários relatos que se referem à viagem da mula, quando ocorreram muitos milagres em seu percurso, ouviram-se cantos e músicas angelicais ao lado de fúria de demônios que abandonavam pessoas que tinham possuído, ao lado, também, de conversões de vários pecadores. O Corporal ficou nesta igreja até que se trasladou para a de Santa Maria. Estávamos a 7 de março de 1239, festa de São Tomás de Aquino (que era vivo e tinha cerca de 14 anos de idade), um grande devoto e defensor da Eucaristia. Mais tarde, São Tomás foi nomeado o protetor do Milagre Eucarístico de Daroca.
Os habitantes felizes com o desfecho, providenciaram a construção de uma igreja, para ser a depositária dos preciosos Panos de linho. Num altar especial colocaram os dois Corporais dentro de molduras e vidros protetores, a fim de que os fiéis pudessem apreciar e venerar as seis manchas com o Sangue do Senhor. Atualmente a Igreja em Daroca onde estão os Corporais Sagrados é denominada, Igreja de Santa Maria Colegiada, ou simplesmente “A Colegiada”. Nas paredes foram pintadas cenas admiráveis do milagre, e junto ao altar existem muitas imagens e estátuas feitas de alabastro, multicoloridas, no estilo medieval.
No ano de 1261, no reinado do Papa Urbano IV, a cidade de Daroca e o seu cabido resolveram enviar uma delegação à Roma a fim de informar detalhadamente Sua Santidade sobre as maravilhas operadas por Deus no portentoso milagre.  E tinha aumentado tanto a piedade dos fiéis que foi necessário construir fora dos muros da cidade uma pequena torre de pedra para abrigar a Santa Relíquia. O Papa Urbano IV era contemporâneo da Beata Juliana de Liege, a monja que passou  sua vida tentando instituir a Festa do Santíssimo Sacramento e foi ele quem declarou a autenticidade do milagre de Daroca. Um ano depois, em 1262, instituiu a Festa de Corpus Christi. Acredita-se que o Papa tenha visto no milagre de Daroca um sinal divino para que fosse instituída a festa de Corpus Christi.
Chegou também ao Papa os informes de dois grandes santos, São Boaventura e São Tomás de Aquino, conclamando a Igreja para uma veneração pública das Sagradas Espécies, o que inclinou o ânimo do Santo Padre  na assinatura dos decretos que instituíram na Igreja a soleníssima festa de “Corpus Christi”, ordenando que desde então se fizessem procissões públicas e solenes e que nelas se levasse o Santíssimo Sacramento para ser adorado.
São Vicente Ferrer, em 1414, pregou na torre onde estavam as relíquias e converteu na ocasião 110 judeus. De tal forma repercutiu tal milagre em toda a Cristandade que a partir de então começaram a vir peregrinos de todo o mundo para venerar aquelas relíquias. 
Em 1444, o Papa Eugênio IV concedeu um ano de jubileu para Daroca, cada 10 anos. Este foi o mesmo Papa que reconheceu como autênticos os milagres eucarísticos de Walldürn, na Alemanha e de Ferrara, na Itália.


quarta-feira, 31 de maio de 2017

O MAGNIFICAT, HINO DE SABEDORIA, HUMILDADE E GRANDEZA



(COMENTÁRIOS DE DR. PLINIO CORREA DE OLIVIRA SOBRE A SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA)

Entoado por Nossa Senhora no encontro com Santa Isabel, o Magnificat é um maravilhoso hino inspirado pelo Altíssimo, e Deus cantando sua própria glória pelos lábios da mais amada das suas filhas. É, também, uma linda mensagem, coerente, lógica e séria, que Ele transmitiu a todos os homens de todos os séculos, pela voz virginal de Maria.
O cântico se inicia com a palavra Magnificat – do latim magnus, isto é, grande – para enaltecer Aquele que é a Grandeza personificada, reconhecendo que Deus merece este superlativo de louvor e de honra na sua glória extrínseca, passível de crescimento, por haver realizado n’Ela, Virgem bendita, o cumprimento da maior e mais alvissareira promessa divina feita à humanidade: a Encarnação do Verbo.


A exultação em Deus, seu Salvador

Então a alma d’Ela se apressa em extravasar o seu sentimento de  profunda gratidão, proclamando como o Senhor assim se revelava o magno por excelência.
Em seguida vem a alegria: Et exsultavit spiritus meus in Deo salutari meo – “E o meu espírito exulta!”
Exultar é sentir um júbilo intenso, e não uma qualquer satisfação, como a que poderia experimentar alguém se soubesse que os seus investimentos rendessem um pouco além do esperado. Esta seria uma alegria pequena, perto daquela que se exprime pela palavra “exultação”. Por isso Nossa Senhora a emprega, para significar como seu espírito transbordou de gáudio em relação a Deus, o seu magnífico Salvador.
Essa felicidade se mostra tanto mais intensa quanto, conforme o pensamento que se completa no versículo seguinte, Ela considera a sua pequenez e vê como Deus a salvou de modo extraordinário, super-excelente, não só fazendo d’Ela a Mãe do Verbo Encarnado, mas dispondo que Ela tivesse em toda a existência de Nosso Senhor Jesus Cristo o papel admirável que sabemos.

Legítima alegria por ter sido engrandecida

Depois de afirmar a sua exultação, a Santíssima Virgem manifesta então o motivo dessa imensa alegria: Quia respexit humilitatem ancillae suae – “porque Deus olhou para a humildade da sua Serva”. Em conseqüência dessa atenção do Senhor para com Ela, ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes, isto é, todos os homens até o fim do mundo, vão por sua vez enaltecê-La, chamando-A “bem-aventurada”. Quia fecit mihi magna qui potens est – “porque me grande Aquele que é poderoso”. Percebe-se aqui, mais uma vez, o gáudio de Maria por ter sido objeto de um especial desígnio do Onipotente: Ela, tão humilde, tornou-se grande pela força d’Ele.
Há, nessa mensagem, um interessante ensinamento que deve ser considerado.
Alegrando-se com a grandeza divina, Nossa Senhora ao mesmo tempo se alegra com o fato de ter sido também engrandecida por uma condescendência d’Ele, e sabe que essa sua magnitude Lhe valeria o louvor e a devoção das gerações vindouras. É uma glória única, que a cobre de felicidade, e pela qual, cheia de reconhecimento, agradece a Deus.
Ora, essa atitude de Nossa Senhora aceitando, auferindo e amando a própria excelência, demonstra como é legítimo nos alegrarmos com a grandeza que Deus eventualmente nos conceda. Desde que, a exemplo de Maria, esse júbilo esteja alicerçado no amor a Ele, compreendendo que essa glória estabelece uma relação mais íntima entre nós e o Criador.
Et sanctum nomem eius – “E o Seu Nome é Santo”. Quer dizer, “Deus agiu assim para comigo, e procedeu santamente”. Essa fabulosa obra que o Senhor realiza na sua serva, vinha marcada pela infinita perfeição com que Ele modela tudo quanto sai de suas mãos onipotentes.

Misericórdia para os que temem a Deus

Após ter manifestado de tal maneira a grandeza de Deus e a sua própria, Nossa Senhora evoca o aspecto de bondade: Et misericordia eius e progenie in progenies, timentibus eum – “e a misericórdia d’Ele se estende de geração em geração, sobre aqueles que O temem”.
Significa que o fato de Deus A ter feito tão grande redunda num benefício e numa obra de misericórdia de que se aproveitarão todos os homens em todas as épocas da História. Com uma restrição, porém: timentibus eum – aqueles que teme a Ele.
Eis outra importante lição a ser tirada do Magnificat.
O temor ser divide em servil e reverencial. O temor servil é aquele que tem, por exemplo, um escravo ao fazer a vontade de seu dono pelo receio de sofrer duros castigos se não obedecer. O temor reverencial é aquele que alguém demonstra em relação a outrem, não por medo das penalidades que lhe possa infligir, mas por respeito e veneração pela superioridade dele, por não querer ultrajá-lo nem violar a obediência que deve a ele.
Um exemplo maravilhoso de temor reverencial encontramos nas ardorosas palavras que Santa Teresa de Jesus dirige a Nosso Senhor: “Ainda que não houvesse Céu, eu vos amara; ainda que não houvesse inferno, eu vos temera”. Quer dizer, ainda que Deus não lançasse à geena aqueles que se revoltam contra Ele, por ser Ele quem é e pelos infinitos títulos que Ele possui acima de nós, temeríamos não fazer a vontade d’Ele. É essa a forma altíssima e nobilíssima do temor reverencial.
Então, aos que amam a Deus com um amor tal que até O teme – não apenas por causa do inferno, mas sobretudo por não querer desagradá-Lo na sua infinita santidade -, para estes se abre e inesgotável misericórdia de Deus: et misericordia eius a progenie in progenies, timentibus eum.
Cumpre salientar que, muitas vezes, a bondade divina não se prende a essa restrição, superando-se em requintes de solicitude até mesmo para com homens que pouco ou nenhum temor de Deus experimentavam, antes de serem tocados pela graça e se converterem.
Pode-se supor, por exemplo, que São Paulo na vida de Damasco não tivesse temor de Deus. Mas, atingido por um raio, ele caiu do cavalo, perdeu a visão, e logo ouviu a voz de Nosso Senhor que o interpelava. Quando se levantou, era outro homem, tornando-se o grande Apóstolo dos gentios. Era uma extraordinária ação da misericórdia divina – muito provavelmente a rogos de Maria – estendendo-se sobre uma alma que até então não temia a Deus.

Queda dos soberbos e exaltação dos humildes

Fecit potentiam in brachio suo, dispersit superbos mente cordis suis – “Manifestou o poder do seu braço, e dissipou aqueles que se orgulhavam nos pensamentos do seu coração”.
Entendamos o que significa “manifestar o poder de seu braço”. Trata-se de uma metáfora, pois Deus puro espírito, não possui braço. Este, porém, é no homem o membro pelo qual ele mostra a sua força e executa os decretos de sua inteligência e de sua vontade. Então, ao se referir ao “braço de Deus”, Nossa Senhora nos faz ver como Ele age energicamente em relação aos soberbos e orgulhosos, àqueles que se fecham para a ação da graça e não O temem nem O amam nos seus corações. Para com esses, Deus manifesta o poder de seu braço.
O pensamento se completa no versículo seguinte: Deposuit potentes de sede, et exaltavit humiles – “Depôs de seus tronos os poderosos, e exaltou os humildes”.
Por meio da Encarnação do Verbo, Deus quebrou o poder com que o demônio e seus sequazes neste mundo atormentavam os bons. Então, depôs aqueles de seus tronos, e exaltou aqueles que eram perseguidos.
Alguém poderia objetar: “Mas, Dr. Plínio, não foi o que aconteceu. Deu-se o contrário! Anás, Caifás, Pilatos e congêneres, todos se achavam nos seus tronos, perseguiram e mataram Nosso Senhor!”
É verdade. Mas essa história não está narrada até o fim. Porque depois de Jesus ter sido morto, aconteceu precisamente o que aqueles poderosos queriam evitar. Ele ressuscitou, triunfando sobre a morte e sobre todos os seus algozes. Com Ele, triunfava a Santa Igreja, venciam os Apóstolos e Nossa Senhora, os humildes até então desprezados. E para todo o sempre, serão estes glorificados e exaltados, enquanto Anás, Caifás e Pilatos serão mencionados com vitupério e horror. Então se comprovou a veracidade do dito: deposuit potentes de sedes, et exaltavit humiles.
Essa idéia ainda prevalece na seqüência  do cântico: Esurientes implevit bonis, et divites dimisit inanes – “Cumulou de bens os famintos, e despediu os ricos com mãos vazias”.
Nossa Senhora não pretende fazer aqui uma alusão aos recursos materiais ou financeiros. Ela se refere, antes de tudo, aos que se acham na carência de bens espirituais, aos indigentes das dádivas celestiais. A esses pobres de espírito que, humildemente, suplicam essas graças, Deus os atende na abundância infinita de sua misericórdia. Pelo contrário, aos “ricos”, àqueles que se julgam inteiramente satisfeitos no seu orgulho, Deus os despede de mãos vazias, isto é, sem torná-los partícipes do tesouro de seus dons sobrenaturais.

Em Maria, cumpre-se a promessa feita a Abraão

Por fim, Nossa Senhora volta à idéia central que inspira esse hino maravilhoso: Suscepit Israel puerum suum: recordatus misericordiae suae – Tomou cuidado de Israel, seu servo, lembrando da sua misericórdia”.
Quer dizer, o Povo Eleito receberia em breve o Messias há milênios prometido, a Quem Deus enviaria ao mundo, recordando que sua misericórdia assim havia disposto. Daí a conclusão: Sicut locuus est ad patres nostros, Abraham et semini eius in seacula – “Conforme tinha dito a nossos pais, à Abraão e à sua posteridade para sempre”.
A promessa feira a Abraão, fundador da raça hebraica, e aos descendentes dele ao longo dos séculos, de que o Salvador nasceria de sua progênie, acabava de ser cumprida. Nossa Senhora já trazia em seus claustro materno o Esperado das nações. Ela, uma filha de Abraão, daria à luz o Filho de Deus.
E assim o Magnificat, esta jóia inapreciável, este maravilhoso cântico de sabedoria, humildade e grandeza, muito harmoniosamente se encerra pensando na Encarnação do Verbo, como o fizera na primeira estrofe.


(Revista “Dr. Plínio”, nº 64, julho de 2003).

terça-feira, 30 de maio de 2017

A REALEZA DE NOSSA SENHORA E O SEU SAPIENCIAL E IMACULADO CORAÇÃO


(COMENTÁRIOS DE DR. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA SOBRE A VIRGEM MARIA SANTÍSSIMA) 


Eu gostaria de dizer uma palavra a respeito do Sapiencial e Imaculado Coração de Maria.
Em primeiro lugar, eu devo lembrar aos Srs. que hoje não é propriamente a festa do Imaculado Coração de Maria. Hoje é a festa de Nossa Senhora Rainha.
Entretanto, eu creio que com toda legitimidade nós podemos festejar o Imaculado Coração de Maria no dia de hoje. E isto por uma razão muito simples, é que um dos modos pelos quais Nossa Senhora torna efetivo o seu domínio na terra é exatamente o seu Coração Imaculado e Sapiencial. E há até uma invocação muito bonita de Nossa Senhora, Regina Cordium, Nossa Senhora Rainha dos Corações, que pode ser vista na perspectiva desses dois atributos ou invocações de Nossa Senhora. Primeiro, Nossa Senhora Rainha e em segundo lugar o Imaculado e Sapiencial Coração de Maria.
Como é que tudo isso se coloca, como é que tudo isso se vê e se entende?
Nós sabemos que Nossa Senhora, de direito, é a rainha do céu e da terra. Ela o é de direito por duas razões: em primeiro lugar porque Ela é a Rainha-Mãe de toda a criação, Ela é Mãe de Deus e Ela tem, portanto, na criação, uma situação parecida com a que tem as rainhas-mães nos países de estrutura monárquica. Mas de outro lado também, porque Deus Nosso Senhor entregou a Nossa Senhora a regência efetiva do céu e da terra. Nossa Senhora manda — porque Ele entregou esse poder — Nossa Senhora manda sobre os anjos, Nossa Senhora manda sobre os santos, Nossa Senhora manda sobre todas as almas que estão no purgatório, Nossa Senhora manda sobre todos os homens que estão no mundo. Ela manda até sobre o inferno.
Tudo está completamente e inteiramente sujeito a Ela pela vontade de Deus.
Uma rainha-mãe não é propriamente uma rainha reinante. Ela tem as honras da realeza, mas ela não é a rainha reinante. A rainha Mary, da Inglaterra, por exemplo, é rainha-mãe. Ela foi rainha, esposa — ela nunca foi rainha reinante, ela nunca exerceu a realeza, ela teve as honras da realeza, foi esposa do rei Jorge VI, depois faleceu o rei, a realeza passou para a filha d’Ela, a rainha Elisabeth II e ela passou a ser a rainha-mãe. Ela passou a vida inteira, portanto, cercada das honras da realeza, não portanto do mando da realeza. A rainha Elisabeth II é a rainha reinante, porque na pequena medida de poder que tem uma rainha da Inglaterra, nessa medida ela reina. De maneira que ela é a rainha reinante.
Nossa Senhora não é só a rainha-mãe porque é Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas Ela é rainha reinante porque Deus Nosso Senhor confiou a Ela esse poder.
Agora, esse poder que Ela tem, de direito, como é que ela exerce? Como Ela transforma em fatos esse poder de direito que Ela tem?
No céu Ela exerce de dois modos: em primeiro lugar, porque Ela tem o direito de mandar e sendo todas as almas que estão no céu confirmadas em graça, elas não fazem senão a vontade de Deus. De maneira que é certíssimo que Nossa Senhora mandando nelas em nome de Deus, Nossa Senhora tem o direito de se impor a elas e elas obedecem.
Mas é também verdade que ainda que Deus não tivesse mandado, elas quereriam obedecer a Nossa Senhora. E quereriam pelo extremo amor que elas tem a Nossa Senhora, pelo conhecimento que elas tem de todas as virtudes de Nossa Senhora, da superioridade de Nossa Senhora. Porque toda superioridade confere um mando, ainda que não houvesse essa ordem de Deus, eu estou certo que todos os anjos e todos os santos do céu pela expressão de uma leve, tênue vontade de Nossa Senhora, eles se moveriam todos nessa direção.
E aí é um império que é o império de um coração sobre corações. Em que sentido isso?
O coração, os Srs. sabem – eu já tenho dito isso inúmeras vezes — coração é o órgão físico que é símbolo da mentalidade. Quer dizer, do modo pelo qual a pessoa vê as coisas, e do modo pelo qual quer as coisas.
O Sapiencial e Imaculado Coração de Maria é uma expressão da mentalidade sapiencial e imaculada de Nossa Senhora. E exprime, entre outras coisas também, a sua bondade inefável, sua doçura inefável, sua misericórdia inesgotável.
Por todas essas razões, os anjos e santos do céu, considerando Nossa Senhora, a amam com toda a intensidade — abaixo de Deus, mas a amam. Amam tanto quanto é dado a eles amar, mas a amam. E o resultado é que esse amor é tal que Ela reinaria sobre eles — o coração d’Ela sobre o coração d’Eles, — quer dizer a mentalidade d’Ela sobre a mentalidade d’Eles. Quer dizer, o modo d’Ela ver as coisas super sapiencialmente seria uma regra de sabedoria para eles. A vontade d’Ela, santíssima, sem mancha, imaculada, seria uma regra para a vontade d’Eles ainda que não houvessem as ordens de Deus.
Quer dizer, simplesmente, de Coração a coração, Nossa Senhora domina o céu. Domina o céu e domina o purgatório, porque as almas que estão no purgatório também elas já não pecam mais. Também elas já estão garantidas de irem ao céu. Não há perigo de uma alma no purgatório, por exemplo, revoltar-se com os padecimentos extremos que no purgatório se sofrem. Por quê? Porque elas estão confirmadas em graça e elas vão para o céu. E por causa disso elas pensam como Nossa Senhora pensa, querem o que Nossa Senhora quer, vivem para Nossa Senhora. E por isso, quando Nossa Senhora de vez em quando aparece no purgatório, há para elas uma alegria sem nome. Elas todas cantam, satisfeitíssimas, de dentro de seus tormentos. E Ela leva sempre um número enorme de almas para o céu. E às que Ela não leva para o céu, Ela espalha em torno de Si como que um orvalho que diminui as penas, aumenta a esperança de chegar ao céu e alivia os padecimentos daquelas almas.
Mas é também de Coração a coração que Nossa Senhora domina aquelas almas e reina. E não só pela vontade de Deus.
Na terra, como é que são as coisas? Nós temos na terra, se os Srs. quiserem, a triste liberdade — que é de fato uma servidão, — a triste liberdade de não fazer a vontade de Deus. Em outros termos, nossas paixões nos arrastam. Elas são tiranas que nos levam muitas vezes a fazer o que nós não quereríamos, por pecado nosso, mas nos levam a fazer o que nós não quereríamos. E elas nos dão, assim, a triste liberdade de dizer “não” para Deus.
Uma triste liberdade que é uma escravidão porque se nós fossemos livres em nossas paixões nós nunca diríamos “não” a Deus. Mas essas paixões existem. E nós temos que lutar contra elas. De maneira que, em última análise, há essa servidão nossa: as paixões, que só com a graça de Nossa Senhora nós conseguimos sacudir, conseguimos limitar, e extinguir até. Sem isso, nós seríamos escravos de nossos defeitos.
E há na terra uma luta entre os que obedecem e os que não obedecem a Nossa Senhora. Nossa Senhora tem o direito de ser obedecida por todo o mundo. E nesse sentido, “de direito”, ela é rainha do mundo inteiro. Mas o mundo tem a possibilidade — se bem que não o direito — de desobedecer a Nossa Senhora. De onde, um número enorme de pessoas que desobedecem a Nossa Senhora.
Então, o Sapiencial e Imaculado Coração de Maria como é que torna efetiva a sua autoridade jurídica e indiscutível sobre todo mundo? Torna efetiva de uma forma muito simples. Nossa Senhora, pelo seu Coração, Ela toca os corações, Ela toca as almas, e faz com que as almas recebendo graças muito abundantes, sigam a Ela.
É claro que isto não é automático. Uma pessoa pode resistir à graça. Mesmo a uma graça muito abundante, a pessoa pode resistir. Peca, mas pode resistir. Está bem, mas muitos não pecam por causa da abundância da graça. E por esta forma, recebendo graças caudalosas, servem a Nossa Senhora. Mas essas graças como é que são? É a graça que Ela dá a nossos corações de vermos o Coração d’Ela. De conhecermos e amarmos a sabedoria d’Ela, de conhecermos e amarmos a nota de Imaculada que existe em toda a Pessoa d’Ela. E é por esta forma que Ela se torna obedecida por nós.
De maneira que o Coração d’Ela é um cetro com o qual Ela governa todos aqueles que Lhe obedecem no mundo.
É claro que também, Nossa Senhora manda nos maus. O demônio obedece, absolutamente. E por isso também muitas vezes, na história, acontecem coisas desconcertantes para os bons ou para os que defendem o lado do bem, acontecem coisas desconcertantes em última análise porque Nossa Senhora mandou. E neste sentido, Ela pode também mandar. Mas não é um mandar que force o livre arbítrio pelo qual a pessoa diz “sim” à graça de Deus. Isso não. Força qualquer outra coisa, esse ponto não força.
Quer dizer, Nossa Senhora tem um império de direito sobre todos. Que às vezes Ela torna efetivo e ninguém pode resistir. Mas que muitas vezes é efetivo não por um império dEla mas pelo amor que Ela comunica às muitas almas.
Aí os Srs. tem a razão pela qual tantas pessoas se dedicam, tantas pessoas se imolam, tantas pessoas lutam etc., etc. É por causa do Sapiencial e Imaculado Coração de Maria.
Então, nessas condições eu tenho a certeza de que a festa de Nossa Senhora Rainha é a festa do Coração dEla. O que, aliás, está escrito em Fátima: Nossa Senhora disse “por fim o Meu Imaculado Coração triunfará”. Triunfará quer dizer reinar. O Coração de Nossa Senhora é um coração régio. Se eu pudesse representar o Imaculado Coração de Maria, eu gostaria de representá-lo encimado por uma coroa, para indicar bem o caráter régio do Coração Sapiencial e Imaculado de Maria.
A festa, portanto, tem toda a propriedade – ainda que seja a festa de Nossa Senhora Rainha – tem toda a propriedade para nós cultuarmos e venerarmos o Imaculado Coração de Maria.    
De que maneira? Fazendo nosso esse pedido: tornai meu coração semelhante ao Vosso. Semelhante não quer dizer vagamente parecido, não. Quer dizer parecido em tudo quanto está nos desígnios da Providência que pareça. “Tornai-me sapiencial, de uma sapiencialidade que seja uma participação da vossa; tornai-me puro de uma pureza que seja uma participação da vossa”. E, sapiencial e puro: é preciso ser contra-revolucionário.
Por que? Porque a Revolução é o auge da insensatez e da falta de pureza. É o contrário, de modo escandaloso, mas diretamente o contrário da sabedoria e da pureza, sobretudo da pureza imaculada de Nossa Senhora. Então, o Sapiencial e Imaculado Coração de Maria é Nossa Senhora da Contra-Revolução. É por onde a Revolução mais odeia Nossa Senhora, é por onde nós, filhos da Contra-Revolução, mais nos afirmamos filhos d’Ela.
Os Srs. compreendem quantas razões há para nós aproveitarmos os últimos minutos desta festa para pedirmos graças para nós. Sobretudo essa transformação por onde nosso coração seja confiscado por Nossa Senhora, seja tomado por Nossa Senhora. Isso nós podemos dizer: “Minha Mãe, eu não sou bastante forte para me dar a Vós: dominai-me. Entrai na minha alma com graças tais que eu praticamente não resistirei. Esta porta, minha Mãe, que eu por miséria não abro, arrombai-a. Eu vos espero atrás dela com meu sorriso, meu reconhecimento e minha gratidão”.
Aqui está uma boa oração para a festa de hoje.

(Conferência – 31 de maio de 1975)


O GLORIOSO TÍTULO DE RAINHA



(COMENTÁRIOS DE DR. PLÍNIO SOBRE A VIRGEM MARIA SANTÍSSIMA)

“Nossa Senhora Rainha é um título que exprime o seguinte fato. Sendo Ela Mãe da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e Esposa da Terceira Pessoa, Deus, para honrá-La, deu-Lhe o império sobre o universo: todos os Anjos, todos os Santos, todos os homens vivos, todas as almas do Purgatório, todos os réprobos no Inferno e todos os demônios obedecem à Santíssima Virgem. De sorte que há uma mediação de poder, e não apenas de graça, pela qual Deus executa todas as suas obras e realiza todas as suas vontades por intermédio de sua Mãe.
Maria não apenas o canal por onde o império de Deus passa, mas é também a Rainha que decide por uma vontade própria, consoante os desígnios do Rei.
Nossa Senhora é uma obra-prima do que poderíamos chamar a habilidade de Deus para ter misericórdia em relação aos homens...”

Rainha dos corações

Continua o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira:
“São Luís Grignion de Montfort faz referência a essa linda invocação que é Nossa Senhora Rainha dos Corações.
“Como coração entende-se, na linguagem das Sagradas Escrituras, a mentalidade dos homens, sobretudo sua vontade e seus desígnios.
“Nossa Senhora é Rainha dos corações enquanto tendo um poder sobre a mente e a vontade dos homens. Este império, Maria o exerce, não por uma imposição tirânica, mas pela ação da graça, em virtude da qual Ela pode liberar os homens de seus defeitos e atraí-los, com soberano agrado e particular doçura, para o bem que Ela lhes deseja.
“Esse poder de Nossa Senhora sobre as almas nos revela quão admirável é a sua onipotência suplicante, que tudo obtém da misericórdia divina. Tão augusto é este domínio sobre todos os corações, que ele representa incomparavelmente mais do que ser Soberana de todos os mares, de todas as vias terrestres, de todos os astros do céu, tal é o valor de uma alma, ainda que seja a do último dos homens.
Cumpre notar, porém, que a vontade (isto é, o coração) do homem moderno, com louváveis exceções, é dominada pela Revolução. Aqueles, portanto, que querem escapar desse jugo, devem se unir ao Coração por excelência contra-revolucionário, ao Coração de mera criatura no qual, abaixo do Sagrado Coração de Jesus, reside a Contra-Revolução: ao Sapiencial e Imaculado Coração de Maria.
“Façamos, então, a Nossa Senhora este pedido:
“Minha Mãe, sois Rainha de todas as almas, mesmo das mais duras e empedernidas que queiram abrir-se a Vós. Suplico-Vos, pois: sede Soberana de minha alma; quebrai os rochedos interiores de meu espírito e as resistências abjetas do fundo de meu coração. Dissolvei, por um ato de vosso, minhas paixões desordenadas, minhas volições péssimas, e o resíduo dos meus pecados passados que em mim possam ter ficado. Limpai-me, ó minha Mãe, a fim de que eu seja inteiramente vosso”
(Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado – João S. Clá Dias, pág. 45)

Rainha que vencerá a Revolução

A realeza de Nossa Senhora, fato incontestável em todas as épocas da Igreja, veio sendo explicitada cada vez mais a partir de São Luís Grignion de Montfort, até aquele 13 de julho de 1917, quando Maria anunciou em Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”. É uma vitória conquistada pela Virgem, é o seu calcanhar que outra vez esmagará a cabeça da serpente, quebrará o domínio do demônio e Ela, como triunfadora, implantará seu Reino.
Portanto, devemos confiar  em que Maria já determinou atender as súplicas de seus filhos contra-revolucionários, e que Ela, Soberana do universo, pode fazer a Contra-Revolução conquistar, num relance, incontável número de almas.  Nossa Senhora Rainha poderá expulsar desta Terra os revolucionários impenitentes, que não querem atender ao seu apelo, de maneira que um dia Ela possa dizer: Por fim – segundo a promessa de Fátima – o meu Coração Imaculado triunfou!”.


(op. cit.  pág. 46)

Rainha da Prudência e do Conselho

No Cantus Mariales se diz da Virgem Santíssima que Ela é a Rainha da prudência e do conselho.
Nossa Senhora estando presente entre os Apóstolos, após a Ascensão de seu Divino Filho, é impossível que estes não A tenham consultado acerca de seus trabalhos, seus ensinamentos e escritos. Antes, é de se supor que a Ela freqüentemente recorressem.
Essas relações de Maria com a pregação da Igreja nascente são expressas em bonitos termos por um piedoso autor: “Nossa Senhora foi o oráculo vivo que São Pedro consultou nas suas principais dificuldades; a estrela que São Paulo não cessou de olhar para se dirigir em suas numerosas e perigosas navegações”.
Nada, portanto, se fez senão de acordo com o conselho e a orientação da Santíssima Virgem. Assim se nos depara um lindo quadro: a Igreja nos seus albores, com todos aqueles lances maravilhosos de sua incipiente história, e toda ela inspirada e dirigida por Nossa Senhora.
Verdade é que a São Pedro, como Papa, cabia o poder sobre toda a Igreja. Contudo, é também verdade que o Príncipe dos Apóstolos estava completamente submisso à Mãe de Deus, a qual, por meio dele, dirigia os demais.
Considerar Nossa Senhora como inspiradora do espírito com que  escreveram os Evangelistas, A que deu os dados e as informações de que eles se utilizaram, é algo que nos sugere cenas de rara beleza.
Por exemplo, Maria Santíssima tendo a seu lado São Paulo, São Pedro ou São João Evangelista, e Ela que conta, explica, interpreta e os ajuda a compreender os fatos da vida de Nosso Senhor, realçando este ou aquele episódio, e sendo, deste modo, o aroma do bom espírito perfumando a Igreja inteira.
É o que comenta, em seguida, o mesmo autor: “Diz o Cardeal Hugo que Maria fez de seu coração o tesouro das palavras e das ações de seu Filho, a fim de os comunicar em seguida aos escritores sagrados.  Nenhuma criatura, diz Santo Agostinho, jamais possuiu um conhecimento das coisas divinas e do que se relaciona com a salvação, igual à Virgem Bendita. Ela mereceu ser a mestra dos Apóstolos e é Ela que ensinou aos evangelistas os mistérios da vida de Jesus”.
Assim nos aparece o esplendor da alma santíssima de Nossa Senhora, sua ortodoxia, sua prudência, sua sabedoria e sua santidade, que nos levam a amá-La ainda mais”.
(Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado – João S. Clá Dias pág. 81)