SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A VERDADEIRA "CULTURA" INDÍGENA




A vida promíscua dos índios hoje não é muito diferente quando os nosso primeiros colonizadores chegaram ao Brasil no século XVI. Naquele tempo foi na forma abaixo que nos relataram onde havia a verdadeira “cultura” indígena.
A promiscuidade é responsável por muitas das aflições oriundas de certos flagelos, como por exemplo os insetos parasitos chupadores de sangue humano. Existem várias espécies de piolhos, pulgas, percevejos, carrapatos e outros parasitos que infestam o convívio das tabas indígenas. Em geral produzem efeitos terríveis para o homem: causam coceiras e comichões, além de transmitir diversas doenças, dentre as quais a peste bubônica.
São três os tipos de piolhos: o da cabeça, o do corpo e o da virilha. O piolho do corpo como raramente é encontrado na pele, pois prefere esconder-se na roupa, era pouco comum entre os índios. Quanto ao piolho da cabeça era mais comum, vivendo em cardume nos fios de cabelo. Tais insetos aumentam consideravelmente em ambientes de intensa promiscuidade e falta de asseio. O piolho da virilha propaga-se muito entre os de vida sexual promíscua, o que é comum entre os indígenas.
Existem mais de 1.600 espécies de pulgas; enquanto que poucas atacam especificamente o homem, todas são transmissoras de doenças. Das pulgas que infernizam a vida dos índios as mais comuns são a pulga do rato e o penetrante bicho-de-pé. As pulgas do rato (“Xenopsylla cheopis”) são encontradas em clima tropical e é transmissora da peste bubônica. É comum encontrar-se referências a bicho-de-pé entre os índios, os quais não os tiram.
Os percevejos são insetos de hábitos noturnos. Durante o dia escondem-se em frestas e gretas de casas ou habitações mal construídas, de madeira ou palha. O incômodo maior do percevejo é sua picada e o mal cheiro que exala quando é esmagado.
Os carrapatos também não produzem maiores danos a não ser o incômodo de sua comichão. Em geral agarram-se tenazmente às suas vítimas. Embora seja observado sua existência preferentemente onde existem animais do campo, como gado bovino, sabe-se que sua origem é nas matas, pois não prolifera em pastagens limpas e bem cuidadas.
Algumas espécies de ácaros parasitam o homem e podem ser vetores de doenças graves. Seus sintomas são também a grande comichão e a sensação de calor quando a vítima se deita para dormir: trata-se da sarna, que não só infesta cães e gatos, mas também o homem.
Ora, o controle profilático de tais insetos só se faz por um meio: asseio sanitário e vida social não promíscua. Como poderiam os indígenas viver sem tais flagelos se conviviam comunitariamente em palhoças, aos montes, dormindo em redes infectas ou no chão, despidos e sem qualquer proteção a não ser o fogo? Gabriel Soares de Souza descreve como encontrou tal flagelo entre os índios:
“Digamos logo dos mosquitos, a que chamam “nhitinga”... Estes são amigos de chagas, e chupam-lhe a peçonha que; e se vão pôr em qualquer cossadura da pessoa sã, deixam-lhe a peçonha nela, do que se vêm muitas pessoas a encher de boubas.  Estes mosquitos seguem sempre em bandos as índias, que andam nuas, mormente quando andam sujas do seu costume...”
A quantidade dos mosquitos que há entre os índios é proporcional ao tamanho da selva onde moram. Assim, continua Gabriel Soares o seu relato, nomeando-os como “marguis”, “pium”, nhatium-açu”, etc. Detém-se ele mais detalhadamente sobre pulgas e piolhos:
“Pulgas há no Brasil, a que os índios chamam tunguaçu, e nenhuns piolhos do corpo entre a gente branca;  entre os índios se criam alguns nas partes em que dormem, como estão sujas, os quais são compridos com feição de pernas, com os piolhos ladros, e fazem comichão no corpo.
“(...) e que os índios chamam tungas, os quais são pretinhos, pouco maiores que ouções. Criam-se em casas despovoadas, como as pulgas em Portugal, e em casas sujas de negros que as não limpam, e dos brancos que fazem o mesmo, mormente se estão em terra solta e de muito pó, em os quais lugares estes bichos saltam como pulgas nas pernas descalças; mas nos pés é a morada a que eles são mais inclinados, mormente junto das unhas...”[1]
Do que se tem notícia, o único meio usado pelos índios para combater os insetos é o fogo. Este por sua vez causa-lhes problemas nos olhos, pois tendo que se manter sempre aceso à noite o excesso da fumaça é prejudicial. Os insetos, como piolhos, pulgas e percevejos, porém, proliferam no próprio corpo humano, atraídos pela sujeira ou mesmo se aculturando no ambiente em que moram os agrupamentos humanos. Esta é uma das razões que explicam as constantes migrações de tribos: dentro de pouco tempo uma taba torna-se um lugar insuportável de se viver, e a única cultura que lá fica é a destes insetos.




[1]  “Tratado Descritivo do Brasil em 1587” – Gabriel Soares de Sousa – Typografia José Ignácio da Silva, 1879, págs. 222 e 253

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O MISTÉRIO DA NOITE DE NATAL







Santa Teresa Benedita da Cruz, OCD. (Edith Stein) publicou uma meditação sobre o Natal no final de seus exercícios espirituais, em 9 de junho de 1939, onde a temática principal é a dualidade de mistérios que envolveu a Encarnação do Verbo: o da própria Encarnação e o da iniquidade. Os martírios a seguir o de Cristo (Santo Estêvão e os Inocentes) dão bem uma idéia do que representava para a luta entre o bem e o mal, o nascimento do Salvador.

Eis como ela introduz o tema:

“Todos nós já sentimos essa felicidade na véspera de Natal, mesmo quando o céu e a terra ainda não se uniram. A estrela de Belém ainda é uma estrela à noite escura.  Apenas dois dias depois, a Igreja tira as roupas brancas e se veste com a cor do sangue, no quarto dia da  púrpura da tristeza.  Santo Estêvão, o Protomártir, o primeiro a seguir o Senhor no martírio e os Santos Inocentes de Belém de Judá, os filhos do peito brutalmente decapitados pelos soldados de Herodes, são o cortejo do Menino do Presépio. O que significa isto ? Onde está a alegria dos exércitos celestiais? Onde a beatitude silenciosa da véspera de Natal? Onde a paz na terra? "Paz na terra para homens de boa vontade". Mas nem todos têm boa vontade.
É por isso que o Filho do Pai Eterno teve que descer da grandeza da sua glória para a pequenez da terra, já que o mistério da iniqüidade a cobriu com as sombras da noite.
A escuridão cobriu a terra e Ele veio a nós como a luz que brilha na escuridão, mas a escuridão não a recebeu. Ele trouxe aqueles que o receberam luz e paz; paz com o Pai do céu, paz com todos os que são igualmente filhos da luz e do Pai celestial e a paz profunda e íntima do coração. Mas de nenhuma maneira a paz com os filhos das trevas. O Príncipe da paz não lhes traz paz, mas a espada. Para eles é uma pedra de tropeço, contra a qual eles colidem e batem.
Esta é uma verdade difícil e muito séria de que não devemos nos esconder com o encanto poético do Menino de Belén. O mistério da Encarnação e o mistério do mal estão intimamente unidos. À frente da luz que veio de cima, a escuridão do pecado torna-se mais escura e mais sombria. O Menino na manjedoura estende seus braços pequenos e seu sorriso parece predizer o que os lábios do homem dirão mais tarde: "Venha para mim, todos vocês cansados ​​e sobrecarregados, para que eu descanse" (Mt.11,28). Para os que ouviram o seu chamado, aos pobres pastores, a quem o brilho dos céus e a voz dos anjos lhes anunciaram as boas novas nos campos de Belém e que, no caminho, responderam a esse chamado dizendo: "Nós iremos Belém "(Lc.2,15); também para os reis que, do Extremo Oriente, seguiram com fé simples a estrela maravilhosa, para todos eles o derramamento de graça que emanava das mãos do pequeno filho foi derramado e foram "cheios de grande alegria" (Mt.2 , 10).
Essas mãos concedem e exigem ao mesmo tempo: você é sábio, deixe de lado sua sabedoria e faça-se simples como crianças; os reis, dê suas coroas e tesouros e se incline humildemente diante do Rei dos Reis e aceite sem hesitação as obras, dores e sofrimentos que seu serviço exige. De vocês, filhos, que não podem dar nada de forma voluntária, de você as mãos do Menino Jesus tomam a ternura de sua vida, quase antes de começar. Ela não poderia ser melhor empregada do que no sacrifício para o Senhor da Vida.
Siga-me! Desta forma, as mãos da Criança são expressas, assim como serão os lábios do homem (Mc 1,17). Assim falou seus lábios ao discípulo que o Senhor amou e que agora também pertence a sua comitiva. O próprio João, o mais jovem de todos, o discípulo com o coração de uma criança, seguiu-o sem perguntar onde e para o que. Ele deixou o barco de seu pai e seguiu o Senhor em todos os seus caminhos até o topo do Gólgota.
Siga-me! Estêvão fez o mesmo. Ele seguiu os passos do Senhor na luta contra o poder das trevas e contra a cegueira da incredulidade inveterada; ele finalmente deu testemunho dele com Sua palavra e com Seu sangue. Ele também o seguiu no espírito; no espírito de Amor que luta contra o pecado, mas que ama o pecador e, mesmo diante da morte, intercede diante de Deus por seus assassinos.
Estas são as figuras da luz que se ajoelham ao redor da manjedoura: os ternos filhos inocentes, os pastores fiéis, os reis humildes, Santo Estêvão, o discípulo entusiasmado e João, o apóstolo do amor. Todos seguiram o chamado do Senhor. Diante deles estende a noite fechada da incompreensível dureza do coração e da cegueira do espírito: a dos escribas, que poderia apontar com precisão para o tempo e lugar onde o Salvador do mundo deveria nascer, mas quem, no entanto, não conseguiram deduzir a partir de lá uma decisão: "Vamos a Belém" (Lc.2,15); e a do rei Herodes, que queria tirar a vida do Senhor da Vida.
Em frente à Criança reclinada na manjedoura, os espíritos estão divididos. Ele é o Rei dos Reis e Senhor sobre a vida e a morte. Ele pronuncia o seu "segue-me" e aquele que não está com ele está contra ele. Ele também nos diz e nos coloca diante da decisão entre luz e escuridão”.
  
(“El Mistério de La Nochebuena” – Edith Stein – Biblioteca de Formación para Católicos – www.alexandriae.org, págs. 3/4 )


PRECE AO MENINO JESUS







Ó fogo que sempre ardes, abrasa-me. Ó Verbo Encarnado, fizeste-vos homem para acender em nós o fogo do amor divino; como pudestes pois encontrar tanta ingratidão nos corações dos homens? Nada poupastes para vos fazer amar por eles; sacrificastes o vosso sangue e a vossa vida. Como pois resistem eles a tanta bondade? Ignoram o que fizestes por eles? Ah! Eles sabem e creem que por amor deles descestes do Céu para vos revestir da carne humana, vos sobrecarregar de suas misérias, viver entre dores e padecer uma morte ignominiosa. Como pois passam sua vida sem sequer pensar em Vós? Amam os parentes, amam os amigos, amam até os animais. Se deles recebem qualquer sinal de afeto, procuram remunerá-los; só a Vós não testemunham nem amor nem reconhecimento. Mas, ai de mim, gemendo sobre a ingratidão dos homens, acuso-me a mim mesmo de haver sido mais do que os outros culpado para convosco. Mas, a vossa bondade me encoraja. Com tanta paciência me tendes suportado, a fim de me perdoar e abrasar no vosso amor, contanto que me arrependa e Vos ame. Sim, meu Deus, quero arrepender-me e me arrependo de toda a minha alma de Vos ter ofendido; quero amar-Vos de todo o meu coração. Confesso, meu Redentor, que meu coração já não merece ser aceito por Vós, porque Vos abandonou para se apegar às criaturas; mas vejo que o quereis ainda apesar de sua indignidade; eu vo-lo consagro e vo-lo dou com toda a minha vontade. Inflamai-o pois todo inteiro de vosso santo amor e fazei que doravante não ame outra coisa fora de Vós, bondade infinita, digna dum infinito amor. Amo-Vos, meu Jesus, amo-Vos soberano Bem, amo-Vos, único amor de minha alma. Ó Maria, minha Mãe, que sois a Mãe do Belo Amor, obtende-me a graça de amar o meu Deus; é de Vós que o espero. Amém.


(SANTO AFOSO MARIA DE LIGÓRIO - “Encarnação, Nascimento e Infância do Menino Jesus” – de Santo Afonso Maria de Ligório – Coleção Clássicos da Espiritualidade Católica, págs. 17/18)

sábado, 23 de dezembro de 2017

UM CONTO DE NATAL ORIUNDO DA REVOLUÇÃO FRANCESA





O NATAL DO CHOUAN

Nas margens do Couesnon, nessa região de Fougères que, de 1793 a 1800, foi teatro da epopeia dos Chouans (camponeses do noroeste da França que se insurgiram contra a Revolução Francesa em defesa do Trono e do Altar), numa noite de inverno de 1795, um destacamento de soldados da república revolucionária seguia por um atalho bordejando a floresta. De ombros caídos, com ar aborrecido e fatigado, vergados ao peso de enorme mochila e da espingarda que levavam a tiracolo, lá iam, conduzindo um camponês que, ao cair da noite, emboscado nos juncos, fizera fogo sobre o pequeno grupo. A bala atravessara o chapéu do sargento e, fazendo ricochete, fora quebrar o cachimbo que um dos soldados fumava. Imediatamente perseguido, acossado, encurralado contra uma escarpa, o homem fora preso e desarmado. Seguia de mãos amarradas, com ar impassível e duro. Os seus pequenos olhos claros espiavam de fugida as sebes que orlavam o caminho e os atalhos tortuosos que se abriam aos lados. Dois soldados levavam enroladas nos braços as extremidades da corda que lhe apertava os pulsos.
Na encruzilhada de Servilliers,  o sargento mandou fazer alto; os homens, derreados, ensarilharam as armas, atiraram as mochilas para a erva, apanharam ramos secos, juncos e folhas, que amontoaram no meio da clareira,  fizeram uma fogueira, enquanto dois deles amarravam solidamente o camponês a uma árvore, com a corda que lhe prendia as mãos. O Chouan, com os olhos vivos e singularmente móveis, observava todos os gestos dos seus guardas. Não tremia, não dizia palavra: mas, a angústia contraía-lhe as feições – era evidente que julgava a morte próxima.
A sua ansiedade não passou desapercebida a um dos “azuis” (soldados da Revolução) que o amarravam. Era um adolescente franzino, de ar zombeteiro e vicioso. Enquanto apertava os nós, ia troçando da aflição do prisioneiro, naquela fala característica de certos bairros populares de Paris:
- Não se assuste, flor! Não é para já; ainda tens pelo menos seis horas de vida.
- Amarre-o bem, Pedrinho! Não o podemos deixar voar...
- Não se aflija, sargento Torquatus – respondeu o rapaz – havemos de o levar sem novidades ao general. Sabes, cão – continuou, dirigindo-se ao camponês,que retomara o aspecto impassível – não imagines que vais ser tratado como “ci devant” (nobres que, em geral, eram guilhotinados). A República não é rica, e há falta de guilhotinas; mas hás de ter a tua continha de bons balaços de chumbo; seis na cabeça, seis no corpo. Vai pensando nisso, meu lindo, até amanhã de manhã. Sempre te distrais...
Dito isso, Pedrinho foi sentar-se entre os camaradas, ao pé do fogo. E tirando do saco um pedaço de pão grosseiro, começou a comer tranquilamente. Quando acabou de comer o pão, Pedrinho pôs-se a limpar a espingarda. Escolheu uma bala de calibre , segurando-a delicadamente entre os dedos, disse ao camponês, que lhe seguia todos os movimentos com o olhar:
- Estás a ver, meu menino? Esta é para ti!
Introduziu-a no cano da espingarda e, a servir de bucha, meteu um papel amarrotado. Todos os homens desataram a rir, e cada um disse uma graça, ao prazer maldoso de saborear a agonia do infeliz.
- Tenho aqui uma dose igual para te servir! – gritou um.
- Vais ficar que nem uma peneira...- gracejava outro.
- Eu guardo-me para o fim: uma em cada ouvido! – gritou o sargento. E de  repente, enfurecido: - Ah! Canalha de Chouan – berrou, aproximando-se dele – se eu pudesse matar com um tiro mais de mil da tua casta!...
O camponês, silencioso, permanecia calmo sob a saraivada de ameaças. Parecia escutar um ruído longínquo, que os gritos e risadas dos soldados o impediam de ouvir. E de repente baixou a cabeça e concentrou-se: do fundo da floresta, subia no ar calmo da noite a voz de um sino, que a aragem dos bosques trazia, clara e ritmada... Quase a seguir, outro sino, mais grave, ecoou do lado oposto do horizonte, e depois mais outro, fino e melancólico, ouvindo-se lá muito longe.
Os “azuis”, surpreendidos, interrogaram-se:
- Que é isto?... por que será que estão a tocar?... Será um sinal?... Ah! Bandidos! Estão a dar o alarme!
Falavam todos ao mesmo tempo, alguns correram a pegar nas armas. O camponês levantou a cabeça e, fitando-os com os olhos claros, disse:
- E Natal.
- É... o quê?
- É Natal. Estão a tocar para a Missa da meia-noite.
Os soldados, resmungando, tornaram a sentar-se em volta da fogueira. E um silêncio caiu. Natal... A Missa da meia-noite. Essas palavras que há tanto tempo não ouviam impressionaram-nos: vinham-lhes á ideia vagas imagens de horas felizes, de ternura, de paz.
De cabeça baixa, escutavam aqueles sinos que falavam a todos uma língua esquecida. O sargento Torquatus pousou o cachimbo, cruzou os braços  fechou os olhos como um diletante que saboreia uma sinfonia. Depois, como envergonhado daquela fraqueza, voltou-se para o prisioneiro  perguntou num tom duro:
- És cá do lugar?
- Sou de Clogés, aqui perto.
- Então ainda há padres-curas lá na tua terra?
- Os “azuis” não chegaram a toda a parte, não atravessaram o Couesnon, e daquele lado ainda se vive em liberdade. Estão a ouvir? É o sino de Parigué que está a tocar agora. O outro, o mais pequeno, é o do castelo do senhor de Bois-Guy, e acolá, mais longe, é o sino de Montours. Se o vento estivesse de jeito, até se ouvia o sino grande de Landéans.
Um dos soldados, Gilles, que permanecera silencioso durante as ameaças feitas ao Chouan, ouvia agora com grande atenção e parecia particularmente tocado. Os demais, após um fugaz movimento de ternura, haviam fechado definitivamente seus corações.
Nesse instante, de todos os cantos do horizonte, subia na noite o badalar das aldeias longínquas: era uma melodia doce, cantante, harmoniosa, que ora se ampliava, ora diminuía ao sabor do vento. Gilles, de cabeça baixa, escutava. Pensava em coisas há muito esquecidas; via a igreja de sua aldeia natal, resplandecente de velas acesas, o presépio de grandes rochedos musgosos, onde brilhavam lamparinas vermelhas e azuis; ouvia subir, na memória, os alegres cantos de Natal, essas músicas que tantas gerações entoaram, ingênuas loas, tão velhas como a França, onde há pastores, flautas, estrelas e criancinhas – e que falam também de paz, de perdão, de esperança... Ele sentia degelar o coração ao bom calor dessas imagens suaves, de que andava há tanto tempo afastado.
Os sinos ao longe continuavam a tocar. Torquatus determinou que todos fossem repousar, e designou Gilles para a primeira hora de ronda. Em pouco tempo o improvisado acampamento estava montado, e os “azuis”, exaustos pelo peso daquele dia, e desejosos de esquecer o som daqueles sinos que lhes haviam trazido tantas recordações de uma infância católica e feliz, ressonavam estirados sobre mantas de dormir.
A fogueira crepitava ainda, mas com menos ardor. Só Gilles e o Chouan permaneciam acordados.O “azul” então, com cuidado, procurando não pisar nos gravetos secos que podiam estalar, aproximou-se da árvore onde, amarrado, o Chouan o olhava...o adivinhava!
- Sabes, disse o soldado quase ao ouvido do prisioneiro, na minha terra fazia-se um grande berço na igreja, punha-se um Menino Jesus lá dentro, ladeado por Nossa Senhora e São José.
E inopinadamente, acrescentou: Queres ficar livre? Eu te solto!
- Mas, e tu? Vais morrer em meu lugar? Eles te esquartejam.
- Eu fujo também. Estou farto desta Revolução à qual me levaram a aderir. Minha família sempre foi católica. Em casa, desde a infância aprendi a respeitar o Rei.
- Então vem comigo, respondeu o Chouan. – Volta à fidelidade. Eu te levarei a um padre que não fez o juramento revolucionário, para que te confesses. Defenderemos juntos Nosso Senhor Jesus Cristo e o Rei legítimo.
A essa altura, o ex-azul, com uma faca afiada cortava as cordas que prendiam o prisioneiro. Em questão de instantes ambos se embrenhavam na floresta por caminhos que só o Chouan conhecia. Os sinos já não se ouviam mais nos ares, mas nos corações daqueles dois homens eles continuavam a tocar.
Era Natal!

(Adaptação de um conto de G. Lenôtre, publicado em “Lendas de Natal”, Editora Verbo, Lisboa, 1966).





sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

MARIA E SEU DIVINO INFANTE: INSONDÁVEL UNIÃO



(COMENTÁRIOS DE DR. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA SOBRE A SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA)

"Coração de Maria, no qual foi formado o Sangue de Jesus, preço de nossa  Redenção . rogai por nós".

Esta jaculatória, da Ladainha do Imaculado Coração de Maria, além de sua particular  unção, encerra um significado sumamente elevado e belo, que vem muito a propósito considerarmos nesta véspera de Natal

“Caro Christi, caro Mariae”

Com efeito, pelas leis comuns da reprodução da espécie, o homem traz consigo algo do sangue do pai e algo do sangue da mãe. Entretanto, o preciosíssimo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como sua carne sacratíssima, foram exclusivamente formados de Nossa Senhora. E isto porque, em se tratando de milagrosa concepção da parte de uma Virgem, nela não interveio obra de varão. Motivo pelo qual podemos repetir o que, com inteira propriedade, afirmou Santo Agostinho: caro Christi, caro Mariae. A carne de Cristo é, de algum modo, a própria carne de Maria.
Em Nosso Senhor Jesus Cristo não havia senão o sangue da Santíssima Virgem, que Ela, com amor e comprazimento indizíveis forneceu a seu Divino Filho, o Redentor do gênero humano.

O Homem-Deus se fez escravo de Nossa Senhora

A consideração desse fato tão singular e tão maravilhoso nos ajuda a compreender melhor o que pode ter sido o período em que Nosso Senhor esteve em gestação no corpo de Maria.
Não há maior sujeição nesta terra do que a de uma criança à mãe que a carrega no seio, dando-lhe todos os elementos vitais para a constituição de sua parte física. Ora, durante nove meses consecutivos, Nosso Senhor quis pertencer inteiramente a Nossa Senhora. Jesus, o esperado das nações, o homem tão perfeito que não é simplesmente homem, mas é Homem-Deus . porque a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade se uniu hipostaticamente à sua natureza humana . Jesus quis se fazer escravo de Maria.
E desde o instante em que o primeiro elemento do corpo d.Ele começou a existir, como era perfeito! Começou a pensar, começou a orar e, conhecendo perfeitamente de que mãe era filho, deve ter dito a Ela uma palavra de amor. Pode-se calcular qual foi essa primeira palavra de afeto e carinho d.Ele para a Santíssima Virgem, e qual foi a resposta d’Ela ao sentir uma ternura que Lhe vinha do Filho-Deus?
Que terá Ela respondido a Jesus? Meu Deus? Ou Lhe terá chamado meu Filho.? Ou, ainda, com maior desvelo e solicitude, tê-Lo-á agradado dizendo “Filhinho”?
Quanta riqueza de alma é preciso ter para responder adequadamente a esse primeiro carinho do Verbo Encarnado! Que noção dos matizes e das situações! Que exímia e completa disponibilidade de alma para corresponder a tudo perfeitamente, e oferecer a Ele esta premissa incomparável: o ato de amor inicial que o gênero humano Lhe tributava!

Crescente e insondável união

Além disso, quantas e quão elevadas disposições de alma Nossa Senhora deve ter  sentido, quando notava o Filho mexer-se dentro d'Ela? Nesses momentos, por certo Lhe vinham pensamentos como este: Deus se move em Mim! Aquele a quem o Céu e a terra não puderam conter, está no meu claustro, porque Deus assim o quis. Ei-Lo que se move em Mim delicadamente, amorosamente, nobremente, com uma movimentação cheia de símbolos e de mistérios. Ouço, sinto e rezo, porque são mensagens para Eu compreender, são comunicações para Eu entender...
Oh recolhimento! Oh oração! Oh prenúncio do que deveriam ser ao longo dos séculos as almas eucarísticas que têm a felicidade sem nome de, a cada dia, por alguns instantes ter no seu próprio peito a Nosso Senhor Jesus Cristo! Oh maravilha!
E assim como o Santíssimo Sacramento comunica suas graças e se une às almas que se lhe tornam sacrários vivos, tudo indica que, pelas leis da reciprocidade, à medida que a Santíssima Virgem ia dando de seu próprio corpo a Nosso Senhor, Ele como que retribuía, conferindo-Lhe seu espírito. Nossa Senhora ia crescendo, pois, em união com Ele de modo insondável. De tal modo que, quando a obra puríssima das entranhas d’Ela chegou a seu termo e se encontrava prestes a nascer na noite de Natal, o vínculo entre ambos havia atingido um ápice inconcebível. Ela estava pronta para ser, em todos os sentidos da palavra, a Mãe do Redentor.

Diálogo inimaginável

O longo período de indizível e misterioso convívio cessa. Os Anjos se rejubilam e cantam nos Céus. Numa gruta dos arredores de Belém, Jesus vem ao mundo.
Nosso espírito se sente pequeno, ao procurarmos imaginar o embevecimento de Nossa Senhora ao ver a face do Menino Jesus, e o arroubo que sentiu, quando recebeu d.Ele o primeiro agrado externo... Quando O viu voltar-se para São José e manifestar afeto também a ele. Quando, percebendo que Jesus sentia fome, compreendeu que Lhe competia, com seu leite indizivelmente precioso, saciar o Filho de Deus. Quando, ao vê-Lo passar frio e incômodo na manjedoura, se desdobrou em mil cuidados, para melhor agasalhá-Lo e para Lhe aumentar o conforto no rude tabuleiro que lhe servia de berço. E quando, ao sentir o bafo dos animais que O aqueciam, disse-Lhe com inexcedível amor:
“Meu Deus, tão pouco para Quem é tanto”!
E quando o Menino, sem proferir palavras, respondeu-Lhe no fundo da alma: “O que é pouco para Mim, quando tenho a Vós?” Quem pode imaginar semelhante diálogo?!

Somente por meio de Maria chegamos a seu Divino Filho

Pode-se notar, por essas considerações, como a união de almas entre o Menino Jesus e Nossa Senhora é estritamente insondável para a mente humana.
Entretanto, essa mesma insondabilidade nos faz compreender melhor o papel da Santíssima Virgem como intercessora e medianeira; deve, pois, arraigar-se ainda mais em nossas almas a convicção de que, para nos aproximarmos do Divino Infante, é indispensável achegarmo-nos antes a Nossa Senhora. Ficarmos junto d’Ela, amando-A de todo o coração, é a forma mais segura e acertada de estarmos junto de Deus, porque Deus está sumamente próximo de sua Mãe, tanto quanto Ele o possa estar de uma criatura.
Nossa Senhora é a Porta do Céu, a Arca da Aliança. E assim como aquele Menino veio a nós por meio de Maria, assim também somente podemos chegar a Ele por meio d’Ela.

(Extraído da  revista “Dr. Plínio”, nº 21, dezembro de 1999)