SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

segunda-feira, 24 de abril de 2017

MAGNIFICAT: CÂNTICO DE JUBILOSA DESPRETENSÃO


(COMENTÁRIOS DE DR. PLINIO SOBRE A SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA) 

Por haver recebido a excelsa comunicação de que seria a Mãe do Salvador, Nossa Senhora apressou-se em partir ao encontro de Santa Isabel, nas montanhas da Judéia. Ao chegar, exaltada por sua prima e profundamente reconhecida pelo ápice de dons com que fora galardoada, Maria entoou seu imortal Magnificat.


Deus, autor da grandeza de Nossa Senhora

O pensamento fundamental desse cântico poderia ser assim expresso por Nossa Senhora: “Deus realizou em mim coisas extraordinárias, as quais são obras d’Ele e não minha. Não sou autora de toda essa grandeza. Foi Ele que houve por bem depositá-la em mim, e Eu a aceitei em obediência aos seus superiores desígnios. Essa grandeza, portanto, enquanto habita em mim tornou-se minha, mas a causa dela vem de fora e do alto. Por mim mesma, não sou senão uma pequena criatura”.
De fato, embora concebida sem pecado, e tendo correspondido á graça do modo mais perfeito possível, Nossa Senhora era uma mera criatura, e assim tais grandezas não podiam ter origem na natureza d’Ela. Provinham-Lhe de Deus Nosso Senhor. Este é o pensamento despretensioso e fundamental do Magnificat.
Cabe aqui uma aplicação a nós, filhos e devotos de Maria, que tanto desejamos imitá-La. Se era essa a posição que a Imaculada tomava em face de suas excelências, a fortiori deve ser a nossa diante das graças que Deus nos concede, a nós que somos pecadores a dois títulos. Primeiro, porque concebidos no pecado original; segundo, porque agravamos essa condição com as faltas perpetradas em nossa vida, de sorte que, mesmo perseverando no estado de graça, trazemos conosco o fardo dos pecados que outrora cometemos.
De outro lado, as honras que possam nos caber são incomparavelmente menores que as de Nossa Senhora. Desse modo, é preciso nos esforçarmos em adquirir o mais elevado grau de despretensão ao nosso alcance. Não incorramos no erro dos presunçosos, que julgam inerentes à sua própria natureza, e não a um dom ou misericórdia de Deus, todas as suas qualidades e aspectos bons.
Pelo contrário, compenetremo-nos de que todo o bem existente em nós é dado e favorecido pela graça divina, embora conte com nossa voluntária aceitação e nosso empenho em desenvolvê-lo. São qualidades e talentos que não nasceram de nossa natureza decaída, mas foram nela depositados pela generosidade do Criador. Se formos despretensiosos, teremos consciência disso, não nos embevecendo com o que devemos a Deus.
Esse é, precisamente, o ensinamento que nos deixou Nossa Senhora, quando elevou aos céus o seu Magnificat.

Alegre e contínua retribuição a Deus

Diz Ela: “A minha alma engrandece o Senhor”. Ou seja, canta, vê, admira, ama e proclama com amor a grandeza de Deus, Aquele que domina, Aquele que pode, Aquele que é tudo.
“E o meu espírito exulta em Deus meu Salvador”.
Então a alma d’Ela se transporta em santas alegrias, porque Deus “lançou os olhos sobre a baixeza de sua serva”, e por isso “de hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada”.
Nossa Senhora proclama a magnitude de Deus por ter deitado olhar sobre Ela, por Lhe ter conferido uma tal excelência que todas as nações passariam a aclamá-La como bem-aventurada. E ao reconhecer que isto Lhe vem d’Ele, seu espírito atinge o ápice da alegria!
Como não ver nessa atitude a perfeição da despretensão? Nada de falsa ou dolorosa probidade: “Ó Senhor! como gostaria de dizer que tudo vem de mim, mas sou obrigada a declarar o contrário”, etc. Não! – “Meu espírito exulta em proclamar que veio de Vós”.
Ao mesmo tempo, porém, Ela afirma a glória que Deus Lhe outorgou: “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada”. A palavra bem-aventurada encerra um matiz que a faz designar uma pessoa não apenas nimbada de felicidade, mas também aquela que alcançou êxito em todas as suas realizações. Portanto, acertar na vida, ser bem-aventurado, é tornar-se santo e servir a Deus.
E Nossa Senhora continua a cantar: “Porque fez em mim grandes coisas Aquele que é poderoso, e cujo nome é santo”. O adjetivo poderoso tem aí todo o cabimento, pois Ela se reconhece objeto de maravilhas tais, que só um Ser onipotente as poderia operar. Ora, Maria se sabia não-onipotente. Logo, proclamava que apenas Deus podia ter feito n’Ela aquelas “grandes coisas”.
É um modo indireto de dizer: “O que foi realizado comigo é tanto que eu, simples escrava, por mim mesma jamais o teria alcançado. O Todo-Poderoso, cujo nome é santo, fez essas maravilhas, essas excelências que só poderiam sair de suas divinas mãos”. Em última análise, trata-se de uma contínua e alegre retribuição a Deus da grandeza d’Ela.

Uma cordilheira de misericórdias

“E cuja misericórdia se estende de geração em geração, sobre aqueles que O temem”.
Nossa Senhora manifesta neste trecho a idéia de que a misericórdia da qual Ela foi objeto é o lance supremo de uma imensa série de misericórdias que, desde o início até o fim do mundo, alcança os que têm o temor de Deus. Pode-se dizer que este seria o Everest, o ponto muitíssimo mais alto da compaixão divina, acima de um universo de montículos, colinas, montes e montanhas de misericórdias que ao longo da história têm sido espargidas sobre os homens.
É como se Maria Santíssima dissesse: “Essa misericórdia é ainda mais bela porque é o marco central de um incontável número de excelsas benevolências dispensadas por Ele, o Rei, o Deus, o Pai de todas as misericórdias”.

A soberba é causa de decadência

Continua a Santíssima Virgem: “Manifestou o poder de seu braço; transtornou aqueles que se orgulhavam nos pensamentos de seu coração”.
Ou seja, ao passo que estende sua misericórdia aos que O temem, Nosso Senhor mostra o poder de seu braço confundindo os desígnios dos soberbos. Quem são estes? Os que se vangloriam e se exibem pretensiosos em relação a Deus, que não consideram a grandeza d’Ele, nem Lhe têm temor. E que, portanto, não O amam. Para estes, não há misericórdia. Então Deus os humilha, os quebra, os dissipa, mostrando sua força.
Essa atitude de Nosso Senhor com os que se afirmam independentes d’Ele é um belo convite para estabelecermos uma filosofia da história. Para isto, temos de observar não só os acontecimentos históricos, mas também os fatos de nossa vida cotidiana, e neles verificar a confirmação desta regra: os homens tementes a Deus, conscientes de que não valem nada, atribuindo seus predicados e aptidões à misericórdia divina, progridem na vida espiritual. Os que são voltados a adorar-se a si próprios, a considerar tudo quanto têm como vindo deles mesmos, estes são os soberbos que Deus dissipa, e declinam na prática da virtude.
Quantas vezes não observamos, nessa ou naquela alma, um processo de decadência cuja causa é a pretensão? Em determinado momento, a pessoa começou a se embevecer consigo mesma: “Que maravilhosa, grande e estupenda criatura sou eu, considerada nos predicados morais de minha natureza!” É o primeiro passo de uma lamentável deterioração.
Portanto, Nossa Senhora lança o principio: os soberbos não vão para a frente, enquanto progridem os que temem a Deus. Donde tudo nos coloca em relação a Ele numa postura de inteira despretensão.

O triunfo dos humildes

“Depôs do trono os poderosos, e exaltou os humildes”.
Temos aqui uma seqüência do pensamento anterior. O poderoso é o que atribui a si todo o poder, que precede a Deus e não O teme, julgando-se capaz de tudo fazer sem Ele. Esse é deposto de seu trono, ou seja, daquilo do que se ensoberbece. O humilde, pelo contrário, é glorificado e favorecido por Nosso Senhor, obtém resultados nas suas ações, na sua vida interior, no seu apostolado, etc.
Completando essa linha de pensamento, Maria acrescenta: “Cumulou de bens os famintos, e despediu os ricos com as mãos vazias”.
Os famintos são os necessitados, os que se abaixam diante de Deus e Lhe suplicam auxílio. Estes são atendidos, e saem repletos de bens. Os ricos são os orgulhosos, aqueles que se aproximam de Nosso Senhor dizendo não precisarem de nada. Então são mandados embora sem receberem qualquer benefício.

Cumpre-se a promessa do Messias

Em seguida, a Santíssima Virgem faz uma referência à exaltação do Povo Eleito,  por nele ter se verificado a Encarnação do Verbo. Diz Ela: “Tomou cuidado de Israel, seu servo, lembrando da sua misericórdia; conforme tinha dito a nossos pais, a Abraão, e à sua posteridade para sempre”.
Com efeito, Deus havia misericordiosamente prometido que o Messias, seu Filho unigênito, se encarnaria e nasceria do povo de Israel. Ele se lembrou de sua promessa, gerando Jesus Cristo nas entranhas puríssimas de Maria.
A Igreja, muito belamente, completa esse hino maravilhoso com o “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo; assim como era no princípio, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém”.
Esta seria uma interpretação do Magnificat como o cântico da despretensão jubilosa de Nossa Senhora.


“Minha alma engrandece a Igreja Católica!”

Para concluir, cabe ainda um último desdobramento dessas considerações.
Como eu gostaria de, com toda a alma, cantar o Magnificat em relação à Igreja Católica! Como é verdadeiro dizer: Magnificat anima mea Ecclesiam, et exultavit spiritus meus, in matre salutari mea – A minha alma engrandece a Igreja Católica e o meu espírito exulta na Igreja minha mãe!
E assim por diante, que lindíssima paráfrase do Magnificat poderíamos fazer contemplando a Igreja, que é a Arca da Aliança, a imagem visível de Deus e de Nossa Senhora na terra.
Sirvam, pois,,estas palavras de incentivo para que reportemos todos os nossos dons, nossas virtudes e predicados a Deus em Jesus, a Jesus em Maria, e a Maria na Santa Igreja Católica Apostólica Romana, da qual nos vem tudo o que temos de bom. Dessa maneira, o enlevo, o encanto, o entusiasmo, a fidelidade, a dedicação de nossa vida, nossa alma e nosso sangue sejam inteiramente oferecidos para o serviço e glorificação da Esposa Mística de Cristo.                                                        

 (Revista “Dr. Plínio”, nº 26, maio de 2000)




sábado, 25 de março de 2017

NA ANUNCIAÇÃO, GRANDEZA E HUMILDADE DE MARIA



(COMENTÁRIOS DE DR. PLINIO SOBRE A SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA - 21)



A Anunciação é a festa em que celebramos este fato culminante da história do mundo: Deus, através do Arcanjo São Gabriel, comunica a Nossa Senhora que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade haveria de assumir nossa natureza, a fim de resgatar o gênero humano.
As circunstâncias em que se realizaram esses eternos desígnios do Altíssimo não poderiam ser mais singelas nem mais maravilhosas.
Em sua modesta casa de Nazaré, uma Virgem, há pouco desposada com um varão igualmente virgem, encontrava-se imersa em subidas contemplações. De modo muito piedoso e razoável, supõe-se que Maria, com base no Antigo Testamento, procurava meditar e imaginar como seria o Messias, de cuja mãe desejava ser a mais dedicada das servas.
Pode-se conjecturar que, ao completar Ela no seu espírito a composição da figura do Salvador, apareceu-Lhe o Anjo dirigindo-Lhe as célebres palavras: “Ave, ó cheia de graça, o Senhor é contigo; bendita és Tu entre as mulheres”.
E Maria se perturbou, perguntando-se o que significava aquela saudação. Um Anjo tão eminente, tão extraordinário, aparecer a Ela, tão pequena! (a seus próprios olhos), e chamá-La “cheia de graça”? Ela estava, então, repleta de dons divinos? “Bendita sois Vós entre as mulheres”, quer dizer que, em meio a todas as filhas de Deus que houve, há e haverá até o fim dos tempos, Ela seria a bendita por excelência? Existiam tantas mulheres santas no Antigo Testamento, e quantas outras vinda viriam pela história afora, e justamente Ela era a escolhida? Na sua humildade, Maria ficou perplexa: “Como é isto? É um Anjo que está falando, mas não compreendo como suas palavras se podem aplicar a mim”.
O celeste mensageiro, por sua vez, responde de forma curiosa, pois assim começa: “Não temas, Maria”. O que indica que Ela manifestara um certo temor. Mas, concebida sem pecado original, sem ter sombra da menor imperfeição, como poderia Nossa Senhora ter medo de São Gabriel e do que este Lhe dizia?
Na verdade, na presença de um Anjo, e sobretudo na de um Arcanjo, a criatura humana está colocada diante de um ser de tal densidade que este lhe causa não pequeno susto. Anjos houve que, aparecendo a homens, foram por estes tomados como o próprio Deus. E Nossa Senhora, na sua sensibilidade imaculada e perfeita, sentiu essa presença angélica de forma impressionante. Além disso, recebendo aquela saudação inusitada, prenúncio dos altíssimos planos do Senhor para com Ela, pode-se bem conceber que em sua humildade tenha temido não dar cabo da extraordinária missão que Lhe seria confiada.
Perplexidade e receio que só aumentaram, quando São Gabriel, a princípio tranqüilizando-A, prosseguiu no seu anúncio: “Não temas, Maria, porque achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás em teu seio, e darás à luz um Filho...”, etc.
Ela havia feito voto de virgindade perpétua e, segundo a tradição católica, entendera-se com São José para que ambos permanecessem fiéis aos seus propósitos de castidade perfeita até o fim da vida. Entretanto, chega-Lhe agora da parte de Deus um aviso que contraria de frente seus mais entranhados anseios. Nova indagação: “Como se fará isso?”
O Anjo Lhe explica ser a vontade de Deus que d’Ela nasça o Messias, concebido pela ação do próprio Espírito Santo no seu claustro imaculado. Tudo se esclarece. A serenidade e a paz reinam no coração da Santíssima Virgem, que pronuncia então esta frase admirável: Ecce ancilla Domini; fiat mihi secundum verbum tuum – “Eis a Escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a vossa palavra!”
Quer dizer, esse anúncio era uma palavra vinda de Deus, da qual Ela não podia duvidar. Assim sendo, estava inteiramente à disposição. E desse diálogo, cuja beleza e simplicidade nos deixam abismados, resultou a Encarnação do Verbo!

Mãe de Deus, Esposa do Espírito Santo

Com efeito, a maior parte dos intérpretes afirma que, às palavras “Eis aqui a Escrava do Senhor...”, nesse preciso momento, pela ação do Espírito Santo, Jesus foi concebido no seio puríssimo de Maria.
Quem pode imaginar a fisionomia esplendorosa d’Ela, nessa hora em que a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade se tornou seu Esposo, e Ela engendrou o Menino Jesus?! A adoração que teve pelo Divino Filho, logo no primeiro instante em que, de seu sangue e carne virginais, Ele começou a ser formado? Maravilha tanto mais inimaginável quanto Jesus, Homem-Deus perfeitíssimo, assim que passou a viver encarnado em Maria, conheceu-A e amou com uma insondável dileção. E os dois começaram a se querer num mútuo amor que durará por toda a eternidade. Oh assombroso convívio de almas!
Por outro lado, devemos considerar o relacionamento d’Ela com o Espírito Santo, seu Divino Esposo.
Em geral, no ato dos desponsórios, costuma o marido oferecer à sua consorte um presente tão rico e magnífico quanto esteja ao alcance de suas posses. Pensemos então no valor das prendas com que o Todo-Poderoso terá adornado a alma de sua fidelíssima Esposa! Que acúmulo de graças e de esplendores! Mais ainda. A partir do Mistério da Encarnação, Nossa Senhora passou a receber d’Ele orientações, diretrizes, atos de amor e consolações de uma sublimidade indizível, que tinham nexo com as relações entre Ela e Deus Pai, entre Ela e seu adorável Filho. Assim se estabeleceu um convívio altíssimo, em que Maria era, a um título único e muito especial, a Filha do Pai Eterno, a Mãe do Verbo Encarnado e a Esposa do Divino Espírito Santo.

Virgindade, humildade e grandeza

Analisando esse comércio de almas entre Nossa Senhora e a Santíssima Trindade, voltemos nossos olhos para as virtudes e predicados marianos que transparecem de modo singular na Anunciação.
Em primeiro lugar, a pureza. Ela é a Virgem das virgens, e o foi antes, durante e depois do parto, não perdendo sua integridade um só instante. E todo o procedimento d’Ela durante o fato da Encarnação revelou-se perfeitamente virginal.
De outro lado, consideremos a humildade de Nossa Senhora; como Ela se fez pequena em toda a medida, ao se ver abençoada pelo Altíssimo de uma forma tão extraordinária. Era Ela quem Deus havia destinado, desde todo o sempre, para ser sua Mãe, porque A julgou digna de semelhante missão. Ele preparou a alma e o corpo d’Ela, para que em tudo fosse inteiramente proporcionada – tanto quanto o pode ser uma criatura humana – à honra da maternidade divina. Porém, Ela que era digna por excelência, não fazia de si uma alta idéia, nem se deixava levar por conceituados enfatuados de sua própria pessoa. Não! Pelo contrário, ficou perturbada, pois julgava aqueles elogios feitos pelo Anjo inteiramente descabidos para Ela. Mas, bastou que São Gabriel Lhe convencesse de que tal anúncio vinha de Deus, para Nossa Senhora se submeter.
Assim, da humildade e da pureza conjugadas em Maria Santíssima, resultou sua aceitação dos desígnios do Pai Eterno a respeito de seu Divino Filho.
Terceiro predicado a se ressaltar: no momento em que concebeu o Verbo Encarnado, Ela inteira foi elevada a uma condição superior a todos os Anjos e a todos os Santos reunidos. Ou seja, se somássemos toda a santidade que houve, há e haverá em todos os Anjos e Santos, desde o começo até o fim do mundo, e comparássemos esse resultado com a perfeição de Nossa Senhora, Ela se mostraria incomparavelmente mais santa do que toda essa montanha de virtude que Deus foi suscitando na Igreja ao longo dos séculos!
O que significa não podermos ter noção de qual foi e é a grandeza espiritual da Santíssima Virgem. Se Moisés, ao suplicar a Deus a graça de poder vê-Lo, ouviu esta resposta: “Tu não me podes ver, porque, se me vires, morrerás”, somos todos levados a cogitar no que nos aconteceria, se nos fosse dada a suprema felicidade de contemplar nesta vida a face de Nossa Senhora, com todo o seu esplendor e formosura. Quem sabe, não morreríamos também...

Na Paixão de Jesus, outro “fiat mihi”

Agora, a esse momento de submissão e grandeza de Maria, no início da existência terrena de Jesus, corresponde outro ato de suma humildade d’Ela – não menos grandioso – quando seu Divino Filho estava prestes a expirar na Cruz.
Ele viera ao mundo a fim de resgatar as criaturas humanas do pecado, obter-lhes o perdão do Pai, e abrir novamente as portas do Céu. Essa augusta missão do Filho de Deus estava presente no fundo de quadro das meditações de Nossa Senhora, e Ela provavelmente compreendeu que a Anunciação do Anjo comportava tudo isto: as promessas, o futuro, a glória, mas também o preço da glória: a dor!
Assim, chegado o tempo da Paixão, Deus quis o consentimento da Santíssima Virgem para que o Filho d’Ela fosse imolado, e Ela mesma O oferecesse como vítima expiatória por nossas culpas. Se outros fossem os desejos de Nossa Senhora, Jesus não sofreria a morte, Deus o libertaria das mãos de seus inimigos, e sua vida teria um rumo diverso. Contudo, a humanidade não seria resgatada. Por isso Nossa Senhora consentiu no holocausto do Divino Redentor.
Ela O contemplava estertorando na Cruz, Ela o ouvia exalar esse brado lancinante: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”, e aceitava que tudo isso acontecesse, para o gênero humano ser redimido e as almas poderem entrar na bem-aventurança eterna. Como era desígnio de Deus que Ela quisesse, Ela quis! E foi este o seu outro “ecce ancilla Domini, fiat mihi secundum verbum tuum”, de extrema e verdadeira beleza.

Imitemos Nossa Senhora da Anunciação

Para encerrar, recolhamos um fruto concreto dessas reflexões.
Encarnando-se no seio de Maria Santíssima, no momento da Anunciação, Jesus se deu a Ela com um tal amanhecer de alma, com um espírito tão cheio de louçania, que não se tem  palavras para descrever a felicidade que nesse dia inundou a pessoa de Nossa Senhora. As promessas eram superlativas! Nada menos que o resgate do gênero humano.
Entretanto, o próprio fato da Redenção, com os sacrifícios indizíveis que comportaria para Mãe e Filho, indica bem como caminham as promessas de Deus: passam pelas esperanças mais alegres e pelos desmentidos aparentes mais terríveis. E a alma tem de ir se habituando às promessas, ás alegrias e aos pretensos desmentidos, como o fez Nossa Senhora. Ela disse “sim” a tudo, e dessa inteira submissão Lhe adveio toda a sua gloriosa dignidade. Pois a verdadeira glória consiste, antes de qualquer coisa, em aceitar e fazer sempre a vontade de Deus.
Eis a conseqüência que para nós devemos tirar: nos momentos de alegria e, sobretudo, nos de dor e provação, saibamos imitar Nossa Senhora, dizendo “sim” aos desígnios de Deus a nosso respeito.
À maneira de uma gota de orvalho em que se reflete o sol, saibamos espelhar em nós as virtudes de Nossa Senhora da Anunciação, Isto é, sejamos humildes, pequenos, mas fortes, puros e confiantes. Que do entusiasmo de nossa pureza, de nossa força e de nossa confiança partam contínuos atos de amor e glorificação a Nosso Senhor Jesus Cristo, a Maria e à Santa Igreja Católica Apostólica Romana!


(Revista “Dr. Plínio”, nº 24, março de 2000)



terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA AUMENTA NOSSA CAPACIDADE DE SOFRER





 (COMENTÁRIOS DE DR. PLINIO SOBRE A SANTÍSSIMA  VIRGEM MARIA – 21)

Em plano muito mais elevado, podemos esperar de Nossa Senhora aquilo que um filho espera de sua mãe?
Há duas espécies de mães: a boa e a pseudo-boa. A mãe pseudo-boa – helás! Por demais freqüente nos povos latinos – tem pena do filhinho e não quer que ele sofra, tenha “dodói”. Ela pactua com todas as traquinagens do filho, com todas as suas faltas no cumprimento do dever, com toda a sua moleza, dispensando-o de todas as regras e prejudicando irremediavelmente a formação do seu caráter.
Mas há outro tipo de mãe que sabe que, dada a contingência atual do homem, não há outro meio para ele senão sofrer, sofrer e sofrer  muito para dilatar a alma, santificá-la, engrandecê-la. Sabe que é preciso sofrer para lutar na vida, que é preciso sofrer para viver, sofrer enfim em todas as circunstâncias. Sabe que, em última análise,  que o homem vale na medida do que sofre. Esta mãe cuida de aliviar os sofrimentos de seus filhos na medida que isto seja possível e não lhes cause prejuizo. Mas toda a medida de sofrimento que verdadeiramente a educação exija, uma boa mãe quer que o filho a atinja. Ela simplesmente limita-se a ampará-lo no sofrimento, de tal forma que ele trenha força e coragem para sofrer o que deve. Mas ela quer que ele sofra. Nossa Senhora procede por essa forma.
Haveria ilusão em tomar as vidas de santos, os florilégios de Nossa Senhora, e ver de modo unilateral certas graças excepcionais que Ela concede. Por exemplo, São Francisco de Sales, no auge de uma tentação atroz relacionada com o problema angustiante da predestinação, emagrecendo, definhando, numa esterilidade espiritual pavorosa, com uma “procella tenebrarum” dentro da alma, aproxima-se de uma imagem de Nossa Senhora e recita o “Memorare”: imediatamente as nuvens se dissipam e ele se sente cheio de paz e de tranqüilidade; a crise espiritual estava resolvida.
Tendo-se um sem número de casos destes, não se pode deixar de sentir uma impressão profundamente edificante e muito útil para a vida espiritual. Mas ela não deve ser unilateral.
Nossa Senhora alivia a miúdo as provações de nossa vida espiritual como uma boa mãe que reduz o sofrimento do filho na medida do indispensável. Mas há um limite necessário para todo sofrimento, e não é um limite pequeno. Dele Nossa Senhora não nos tira.
Não se pense que a devoção a Nossa Senhora é uma espécie de morfina para a vida espiritual, que, uma vez ingerida, dissipa todas as dores. Não, Nossa Senhora – e São Luís Grignion insiste sore isto – não tira do ombro do fiel o peso da cruz, mas lhe dá forças abundantes para carregá-la. Ela lhe dá o amor à cruz e ao sofrimento. Este é o fruto da devoção à Nossa Senhora.
A graça de possuir uma grande intimidade com Nossa Senhora
Devemos compreender, portanto, que na devoção à Nossa Senhora há duas coisas a pedir: reconhecendo que somos homens fracos, que não somos atletas na vida  espiritual, devemos pedir a Ela que nos socorra nas aflições que nos parecem muito pesadas. É um esplêndido pedido, e Ela no-lo atenderá muitas vezes.
Sempre que, na medida da Providência de Deus, for possível socorrer-nos, Ela o fará. Mas devemos nos lembrar de que há uma certa medida de dor que devemos suportar, e por inteiro. Nós mesmo não sabemos bem qual é essa medida; Ela o sabe.
Precisamos então pedir-Lhe forças para suportar. Neste ponto, neste equilíbrio destes dois pedidos, é que está a providência de Nossa Senhora.
Imaginemos um homem que leva sua vida quotidiana. Esta sempre tem dois aspectos diferentes: há períodos da vida de todos os dias que vivemos da rotina comum. É o trabalho de ir e voltar da escola, de preparar a lição, de visitar um parente. É uma engrenagem comum, um quase prosaísmo quotidiano.
Mas há outro aspecto da vida do homem, que são as ocasiões dos grandes sofrimentos, em que ele não tem apenas os aborrecimentos da vida de todos os dias, mas em que arca com um peso de sofrimentos excepcionalmente grandes.
Imaginemos, numa e noutra destas fases da vida espiritual, uma pessoa que saiba verdadeiramente praticar a devoção de São Luís Grignion. Ela se lembrará, nas pequenas dificuldades da vida quotidiana, que tem em Nossa Senhora uma Mãe. Lembrar-se-á não só várias vezes durante o dia, mas terá disto uma consciência habitual e permanente. Quando ela estiver em dificuldades, quando tiver problemas, ainda que sejam minúsculos, pedirá o socorro de Maria, dirigir-se-á a Ela. Em todas as circunstâncias correntes da vida, estará rezando à Virgem Santíssima. A pessoa viverá numa permanente intimidade com Nossa Senhora, para tudo pedindo-Lhe socorro. Numa perplexidade pedir-Lhe-á que a faça ver o verdadeiro caminho. Nas grandes ocasiões, pedir-lhe forças para suportar o peso das provações excepcionais, obtendo com isso energia para os atos de heroísmo que muitas vezes a vida espiritual exige de cada um.
Se uma pessoa souber oferecer todos os seus atos em união com Nossa Senhora e, segundo as intenções d’Ela, souber pedir constantemente o Seu auxílio em todos os momentos – por exemplo, se está distraída na leitura, pedir a Ela que a faça, apesar disto, tirar frutos; se sai à rua e vê alguém que está cometendo um pecado, pedir por aquela alma; se tem uma tentação, pedir forças para resistir; se vê uma alma que sofre, pedir por ela – se esta pessoa souber, enfim, recorrer continuamente à Nossa Senhora, sua vida espiritual crescerá maravilhosamente. Podemos dizer que não há melhor programa para a vida espiritual. Isto exige, porém, toda uma compenetração e todo um esforço de vontade.
Nossa Senhora: panacéia para a vida espiritual
Das provações inerentes à vida espiritual ou impostas pela fidelidade à Igreja há uma muito árdua, pela qual todos devemos passar. É a sensação de aridez, de estagnação, de imobilidade aparente de todas as coisas. Entra ano, sai ano, e a vida espiritual parece não progredir; é a vida de apostolado que se debate sempre nos mesmos problemas; é algo que vai acontecer, e se consegue evitar; depois, é outro mal que está para surgir, consegue-se impedir;  novamente outro imprevisto, e chora-se porque não se o evitou, mas fica-se vigilante para outro que está para acontecer. Nos primeiros momentos ter-se-á a sensação de uma montanha russa. Mas esta diverte quando se lhe dá uma volta. Mas passar nela alguns anos é humanamente insuportável, e sentimo-nos tentados a acabar com aquele sobe-e-desce, a fim de vivermos como um homem particular qualquer.
Este prolongamento contínuo da mesma ordem de coisas aparentemente imóvel é como navegar no mar sem ponto de referência. Fica-se navegando, sabe-se por um ato de fé nas estrelas que se está mudando de posição, mas, exceção feita disto, não se tem noção de movimento. E quanto de esforço despendido para se navegar! Seria a sensação dos remadores de uma galera, que tivessem a impressão de que o barco não se movia do lugar. É a sensação de enfaramento, de monotonia, que por vezes pode-se ter na vida espiritual e na de apostolado.
Para tais ocasiões a solução é o recurso a Nossa Senhora; rezar e Ela que é o remédio para tudo. Costuma-se dizer que não se devem admitir panacéias. Há uma exceção: Nossa Senhora é verdadeiramente uma panacéia, exceto para a má vontade de quem positivamente não quer ser bom. “Qui creavit te sinte te, non salvabit te sin te”; “Aquele que te criou sem teu concurso, não te salvará sem a tua colaboração”, diz Santo Agostinho.
Esta verdadeira devoção a Nossa Senhora nos dá possibilidades de eficácia incalculáveis no serviço da Igreja.
Tomemos, por exemplo, um contra-revolucionário que pratica seriamente esta devoção e que assista a uma reunião de formação. O mérito de ter comparecido à reunião reverte às mãos de Nossa Senhora e Ela, que conhece melhor os interesses da Igreja do qualquer homem, aplicá-lo-á de acordo com Sua Sabedoria. E assim, além do apostolado que faz, comparecendo às reuniões, pode fazer um bem maravilhoso em algum outro plano.
Bem pode ser que esteja participando de um modo invisível, sem o saber, dos mais altos destinos da Igreja, da luta entre a Esposa de Cristo e a Anti-Igreja. Ele não o sabe, mas Nossa Senhora terá nisto aplicado seus méritos, e está produzindo frutos que ele nem sequer pode imaginar. É o que há de mais certo, pois Nossa Senhora não esbanja os nossos méritos. Ela os aplica com a máxima sabedoria possível. Portanto, o que fazemos quando os confiamos à Sua Sabedoria, é aproveitá-los ao sumo”.


Extraído de comentários de Plinio Corrêa de Oliveira sobre o TRATADO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO À SANTÍSSIMA VIRGEM - (1951) – Capítulo V – Motivos que nos recomendam esta devoção


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

PELO CARÁTER ALUCINÓGENO, QUAL A DIFERENÇA DA MÚSICA PARA AS DROGAS?



Há muitos anos presenciei numa pequena cidade do interior baiano uma apresentação espetacular de um trio elétrico. Nunca tinha visto em toda a minha vida algo tão espetacular, com uma riqueza de tecnologia e brilho, visando exclusivamente causar alucinação, pela música, nas multidões.  Tal era o estado de euforia das multidões perante aquele espetáculo de cores, brilho e som, que pareciam a meus olhos um amontoado de possessos vindos dos infernos. Para mim aquele estado de euforia é diabólico, não pode ser normal. As pessoas ficam fora de si, dão a impressão de estar suspensas no ar, durante o pula-pula infernal e diabólico.
A propósito, veio-me a interrogação: que papel tem a música em provocar alucinação nas massas? A música pode também ter caráter alucinógeno, a semelhança das drogas?
E a resposta quem vai dá é um especialista, o guru indiano Maharishi Nahesh Yogi, morto em 2008, o inspirador de várias músicas dos Beatles quando era mestre deles.  Certo dia lhe perguntaram porque ele não aderia ao uso de drogas, tipo LSD, como o fazia seus amigos Beatles, com o objetivo de ficar “fora de si”, em êxtase, em estado de completa alucinação. Respondeu ele, não sei se querendo esconder o fato de também usar drogas, que sua música substitui a droga perfeitamente em trazer alucinação e extasiamento às pessoas. Portanto, aquele tipo de música podia muito bem substituir a droga. Aí está a explicação porque as mocinhas que ouviam os Beatles ficavam tão alucinadas quando os viam nos palcos cantando suas canções.
É verdade. A música pode não causar problemas de saúde tão graves como as drogas alucinógenas, mas causa sérios transtornos psíquicos ao estimular os baixos instintos. Quem ouve um trio elétrico e se extasia com aquelas músicas, imediatamente passa a se comportar animalescamente, perdendo completamente o auto-controle sobre si mesmo.
Existem músicas que podem fazer a pessoa relaxar, nos causar bons efeitos se forem acompanhadas de ordem, de harmonia, de sentido cultural, etc., Existem músicas que convidam o homem á contemplação das coisas mais altas, elevando o espírito humano, como o canto gregoriano, por exemplo. Estas não possuem caráter alucinógeno, como as de carnaval, demasiadamente excitantes e provocantes dos baixos instintos humanos. Esta última é uma música que gera impulsos irrefletidos: pular sofregamente, dar murros, gritar, enfim, entrar em êxtase.
Daí se conclui que ela tem o mesmo efeito alucinógena do que uma droga tipo cocaína, crack ou LSD.  Com a diferença que é aceita pacificamente por toda a sociedade. Sem nenhuma censura.





segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

UM "FIAT" QUE ECOOU NA HISTÓRIA



 (COMENTÁRIOS DE DR. PLINIO SOBRE A SANTÍSSIMA  VIRGEM MARIA - 20)


No linguajar comum do homem hodierno, certos conceitos como os de esplendor, de pompa e glória, tendem a se confundir com a idéia de riqueza e a reduzir-se, em última análise, a uma questão econômica.
Ora, a Anunciação ocorreu numa casa pobre, mas foi um episódio esplendoroso, pois nele deu-se a conhecer o nascimento milagroso de um Menino, o qual reinaria no trono de David e teria o império sobre toda a Terra nos séculos futuros.

As cogitações de Nossa Senhora sobre o mistério que Lhe era anunciado

As interrogações de Nossa Senhora – “Se Eu não conheço varão, como dar-se-á isso?” – nos leva ao seguinte pensamento: ou Ela havia recebido de Deus a revelação de que seria sempre virgem, ou, pelo menos, sentira profundamente na alma o convite para a virgindade perpétua e não restava a menor dúvida de que este chamado vinha de Deus.
Estava implícito em suas palavras esta reflexão: “Sei que para conciliar essas atitudes aparentemente contraditórias de Deus – que me inspira a virgindade, porém me quer como mãe do Salvador -, acontecerá uma maravilha, porque Ele nunca se contradiz”.
O Evangelho narra que Ela cogitava sobre o que seria essa saudação.
Maria não colocava em dúvida que aquele Anjo viesse realmente da parte de Deus, pois o tratou como um emissário do Altíssimo. Mas a cogitação d’Ela incidia sobre o mistério incidente na saudação: como explicar que seu Filho pudesse ter todo aquele poder que Lhe era anunciado?
Como descendente de David, Nossa Senhora sabia que o Filho d’Ela nascido também o seria. Tinha ciência e que São José, seu esposo, era da mesma estirpe real, e que, embora o Menino não nascesse dele, seria descendente do Rei-Profeta segundo a lei.
Há uma bonita expressão usada pelos teólogos: “Caro Christi, caro Mariae” – a carne de Cristo é a carne de Maria. Ou seja, d’Ela Jesus herdou a carne e o sangue do grande monarca de Israel.
Ao se ler a narração evangélica, fica-se com a forte impressão de que Nossa Senhora cogitava notadamente sobre o significado das palavras “lhe dará o trono de David”, e sobre a natureza do reino que seria outorgado a seu Filho. Daí a sua interrogação: tratava-se do nascimento do Messias, cuja vinda Ela tanto ansiava?
A resposta do Anjo começa por dizer: “Não temas, ó Maria!”
Ela tinha, portanto, um certo temor.
Como se explica que, concebida sem pecado original, e isenta de qualquer imperfeição moral, Ela pudesse ter medo de um Anjo?
A presença de um espírito angélico, e sobretudo de um Arcanjo, é algo de tal densidade que deixa perplexo o ser humano. Era natural que Maria sentisse todo o peso da presença do mensageiro celeste. Porém, não foi o Anjo que Lhe causou temor, mas a comunicação da impressionante missão que a Ela cabia, pois na sua humildade teve receio de não corresponder de modo perfeito aos sublimes desígnios de Deus.
Mas a explicação do Anjo: “Tu encontraste graça diante de Deus”, inundou-A de tranqüilidade e paz.
Os exegetas afirmam que no momento em que Ela proferiu o “Ecce ancilla Domini”, o Espírito Santo concebeu Nosso Senhor no claustro imaculado da Santíssima Virgem.
Assim, daquele diálogo, tão simples mas tão belo, teve como esplendorosa conseqüência a Encarnação do Verbo.

A vida e as cogitações de Nossa Senhora em Nazaré

Nossa Senhora guardou as promessas do Anjo no interior de sua alma, e ao ver o Menino Jesus, segundo expressão do próprio Evangelho, crescer em sabedoria, idade e graça diante de Deus e dos homens, naturalmente pensava na missão que Lhe estava reservada.
Sabendo que seu Filho era Deus, Nossa Senhora julgava explicável que Ele obtivesse os êxitos mais retumbantes e extraordinários. E terá Ela pensado, ao ver Jesus se tornar moço, que em certo momento Ela sairia de casa paterna para dar cumprimento à sua missão?
Porém, essa hora ainda demoraria a chegar. Durante trinta anos, Ele quis viver  apenas com Ela e São José. Ao que tudo indica, o chefe da Sagrada Família faleceu antes de Nosso Senhor começar sua vida pública. A tradição nos atesta que Nossa Senhora e Jesus  estavam presentes à cabeceira de São José no momento de ele exalar seu derradeiro suspiro: razão pelo qual, o grande Patriarca é também o padroeiro da boa morte.
Como gostaríamos de assistir essa cena! Um leito pobre, Nossa Senhora de um lado, e de outro, Nosso Senhor, atraindo para Si a atenção de Maria e a do moribundo, aos quais dirigia sublimes palavras de conforto. Nossa Senhora, com sua insondável solicitude, servia a São José, orando por ele e também o consolando... Que revoada de Anjos!
Em certo momento, as sombras da morte se tornam mais próximas. São José começa a notar que aquele convívio, para ele até certo ponto um Céu, iria cessar. Mas, de outro lado, sabia que lhe aguardava uma gratíssima missão: chegando ao Limbo dos Patriarcas, anunciaria que o Messias se tinha encarnado no seio da Virgem Maria. Provavelmente, só com a menção dos nomes de Jesus e de Maria aquele lugar inteiro se teria iluminado...
Após a morte de São José, Nossa Senhora terá pensado a respeito de Jesus:
“Quando começará Ele sua vida pública, e cessará nosso convívio? Com quem ficarei? Que notícias terei d’Ele? Quando terá início o seu Reino? Assistirei a implantação dele, estando ainda na Terra ou já no Céu?
“Inúmeras vezes, conversando com Ele, notei que sua fisionomia foi se tornando mais tristonha. E na medida em que a tristeza pode ser comparada a uma sombra, foi se tornando sombria. Ele me tem falado de um imenso sacrifício que deve padecer. Sei que é a morte de Cruz, à qual se referem as Escrituras, e que Ele mesmo já me anunciou. Vejo-me, de um lado, cercada de esplendor, e de outro, da perspectiva do fracasso tenebroso”.
Passam-se os dias, os meses e os anos... Trinta anos viveu Jesus sob o mesmo teto com Ela, adornando sua alma com maravilhas cada vez maiores.
Um dia – pode-se conjeturar -  Ele se aproxima d’Ela e, com veneração e carinho ainda mais intensos, envolvendo-A com o olhar, Lhe diz: “Minha Mãe, chegou o momento!”
Talvez tivesse dito isso com um sorriso cheio de saudades, mas saudades antecipadas, cheias de sorriso. Era a missão d’Ele que ia começar e desfecharia na sua glória.
Ele sabia que, essencialmente, caminharia em direção à Cruz. Mas nesse percurso recrutaria os Apóstolos, os discípulos e todos os elementos da Igreja nascente. Pregaria durante três anos sua maravilhosa doutrina, praticaria milagres que haveriam de impressionar e persuadir o mundo inteiro, fundaria a Igreja, instituiria os Sacramentos. E depois morreria...
O que Mãe e Filho se terão dito nessa despedida? Terá sido uma surpresa que durou um minuto? Ou Ele A avisou com um mês de antecedência?
Nessa hipótese, para Nossa Senhora esse mês terá parecido um minuto, porque Ela quisera uma despedida muito mais prolongada?
São maravilhas que nos serão reveladas no Céu, e  diante das quais não temos palavras para manifestar nossa veneração e adoração.
Após Nosso Senhor ter iniciado a vida pública, Nossa Senhora é procurada pelas santas mulheres e se incorpora a essa família de almas cujos cuidados Jesus Lhe confia.



“Conversas” de Nossa Senhora com o Espírito Santo

Todas essas considerações nos parecem de extrema beleza.  Porém, como são restritas diante de realidades ainda mais altas!
Sabemos, por exemplo, que Nossa Senhora é a Esposa do Divino Espírito Santo. Quantas graças a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade Lhe concedia, para que conhecesse e meditasse em tudo quanto acontecia?
Quantas perguntas não terá feito ao Divino Consorte, dirigindo-se a Ele com as palavras: “Meu Rei, meu Senhor e meu Esposo?”
Se o relacionamento d’Ela com seu marido segundo a lei, São José, era tão bonito e tocante, como não terá sido com o Divino Espírito Santo?
Por exemplo, no momento da Encarnação, Ele se tornou Esposo d’Ela. Ora, no ato dos desponsórios, o homem oferece à sua mulher um presente magnífico. Que dádiva extraordinária o Divino Espírito Santo terá concedido a Maria? Que graças? Que esplendores? Tal escapa à nossa pobre imaginação...

Esperanças e apreensões de Nossa Senhora

Durante a vida pública, ao contemplar as pregações e milagres de Nosso Senhor, parecia a Nossa Senhora que a promessa da glória estava se realizando. Mas, de outro lado, com seu discernimento dos espíritos incomparável, Maria Santíssima percebia que Satanás rondava pelo ambiente, e sentia o ódio que ele incutia em algumas almas.
Pensemos noutra circunstância. Como diz São Tomás de Aquino em seu belíssimo hino eucarístico Lauda Sum: In suprema nocte cenae, na última noite da ceia, véspera da Paixão, recumbens cum fratribus, estando sentado com os irmãos, que são os Apóstolos, Nosso Senhor celebrou a primeira Missa.
Provavelmente, Nossa Senhora se encontrava no Cenáculo, e recebeu também a Comunhão. Que maravilha não terá sido a Primeira Comunhão de Nossa Senhora! Mas, Ela ouviu igualmente a terrível profecia: “Um de vós há de Me trair”. Viu Judas sair de modo apressado do Cenáculo, com essa intenção.  O Evangelho narra a cena de modo tocante, com palavras que têm um caráter muito simbólico: “Fora, era noite...”
Ela viu Nosso Senhor sair em seguida. Talvez Ele tenha se despedido d’Ela. Ter-Lhe-á dito que era chegada sua hora, ou A deixou na dúvida?
Ele e os discípulos se retiraram depois de terem cantado um hino pascal, e penetraram naquela mesma noite, na qual ecoavam os passos de Judas.
O que terá acontecido com Nossa Senhora nos instantes seguintes?
Provavelmente, o fundo de quadro da meditação d’Ela eram as promessas de triunfo recebidas na Anunciação.
Porém, havia o preço da glória, não mencionado pelo Arcanjo naquele jubiloso encontro, e esse preço era a dor.
Pensemos, então, na Virgem Dolorosa, na hora mais terrível da Paixão, no meu entender o momento em que Nosso Senhor exclamou em altos brados: “Meu Pai, Meu Pai, por que Me abandonastes?”
É um brado de sofrimento e de dilaceração, mas são também as palavras iniciais de um Salmo cujo triunfante tom final parece prenunciar a Ressurreição.
Que sentimentos terão ido na alma santíssima de Maria, ao ouvir esse clamor de Jesus?
Por outra parte, Ela vislumbrou, antes da morte d’Ele, o primeiro clarão de alegria, quando O ouviu dizer ao bom ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso”.
Essa afirmação significava que Nosso Senhor nunca perdera de vistas, mesmo em meio às dores mais lancinantes, que Ele estava assim abrindo para a humanidade as portas do Céu.

As promessas divinas se realizam em meio a aparentes desmentidos

Das presentes reflexões nos é dado tirar uma conclusão que pode ser resumida em poucas palavras.
Com a Anunciação, foi comunicada a Nossa Senhora, e através d’Ela a todo o gênero humano, a Encarnação do Verbo. Com o seu “Sim!”, o Verbo se fez carne e habitou entre nós.
No dia da Anunciação, a Palavra de Deus raiou num amanhecer de alma repleto de louçania, com promessas superlativas.
Mas se as promessas de Deus suscitam as mais alegres esperanças, elas soem passar também por aparentes e terríveis desmentidos. É o modo de agir da Providência.
Nesse sentido, a Anunciação foi também a proclamação de que a autêntica glória não consiste em não sofrer humilhações e derrotas, mas, sim, em lutar pela Verdade.
A alma santíssima de Nossa Senhora, habituando-se às promessas, às alegrias e aos desmentidos, constitui para os católicos o sublime exemplo de submissão à vontade de Deus, manifestada por Ela, de modo inigualável, no humilde “Fiat” que ecoou por toda a sua vida.

(Revista “Dr. Plínio”, n. 72, março de 2004)