SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

segunda-feira, 18 de junho de 2018

MARIA, CHEIA DE GRAÇAS





A propósito da plenitude da graça em Nossa Senhora, importa considerarmos, ainda, o testemunho de São Luís Grignion de Montfort, acompanhado de sábias ponderações do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira.
Assim se exprime aquele Santo: “Só Maria achou graça diante de Deus (Lc 1, 30) sem auxílio de qualquer outra criatura. E todos, depois d’Ela, que acharam graça diante de Deus, acharam-na por intermédio d’Ela e é só por Ela que acharão graça os que ainda virão. Maria era cheia de graça quando o Arcanjo Gabriel A saudou (Lc 1, 28) e a graça superabundou quando o Espírito Santo A cobriu com sua sombra inefável (Lc 1, 28)”
Ouçamos agora o comentário que deste trecho nos faz o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:
“O pensamento é muito ligado ao admirável fato do crescimento da graça em Nossa Senhora.
Sempre cheia de graça, houve porém determinado momento em que a Santíssima Virgem, pela sua perfeita fidelidade, e por gratuita predileção de Deus para com Ela, adquiriu naquele instante a plenitude de dons celestiais correspondente: o momento em que o Espírito Santo A desposou, e n’Ela quis que Nosso Senhor Jesus Cristo fosse concebido.
São Luís Grignion, com a exatíssima e ardorosa linguagem que o caracteriza, depois de falar em plenitude, indica que houve um transbordamento de graças a partir do momento em que Nossa Senhora se tornou Esposa do Espírito Santo e Mãe do Salvador.
Tudo leva a crer que a gestação de Nosso Senhor Jesus Cristo, por ter sido perfeita, tenha durado nove meses normais. Nesse período, Maria Santíssima trazia consigo, como num tabernáculo, o Verbo Encarnado. Isso significava um processo interno de produção do corpo d’Ele, a qual deveria corresponder, certamente, um processo de união de alma como Filho que Ela estava gerando. Ela Lhe dava o corpo e Ele A revestia de graças em proporções inimagináveis.
“Está dito tudo – pensará alguém. Ora, precisamente, não está tudo dito”.
Depois disso, Ela deveria aproveitar, com perfeitíssima fidelidade, os trinta anos de vida oculta de seu Divino Filho. Cada minuto de presença de Nosso Senhor Jesus Cristo na Sagrada Família representava imensa graça para Maria e São José, superiormente correspondida pelos dois.
E a santificação de Nossa Senhora continua até o momento em que, depois da Ascensão de Jesus Cristo, recebe o Espírito Santo para distribuí-Lo a toda a Igreja (em Pentecostes sabemos que o Espírito Santo desceu sobre Ela na forma de uma chama que, em seguida, se derramou sobre todos os Apóstolos).
Enfim, no momento em que Lhe era como que impossível crescer ainda em santidade, de tal maneira sua alma estava repleta de celestiais dons, Nossa Senhora teve a sua “dormição”, como é chamada sua morte, por uma linguagem teológica muito apropriada e muito poética.


(Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado – João S. Clá Dias,pp. 50/52)





sábado, 2 de junho de 2018

A DEVOÇÃO AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS E A CONTRA-REVOLUÇÃO





Plinio Corrêa de Oliveira



Os senhores sabem que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus encontra-se na raiz de todos os movimentos contra-revolucionários maiores ou menores, mais conhecidos ou menos, que eclodiram a partir do momento em que Santa Margarida Maria recebeu essa revelação no século XVII. Ela recebeu a incumbência de, em nome do Sagrado Coração de Jesus, [pedir] ao rei Luís XIV, que consagrasse a França ao Sagrado Coração e que pusesse nas armas da França o Coração de Jesus.
Ela prometia ao rei que desde que ele se resolvesse atacar os inimigos da Igreja, o Coração de Jesus o ampararia, conduziria seu reinado a uma grande glória etc., etc.[1]. O Sagrado Coração de Jesus estava esperando de Luiz XIV é que ele mudasse a orientação que tinha e se pusesse à testa da Contra-Revolução. Uma vez que fizesse isso, haveria para ele um reinado de glória e haveria para a França um verdadeiro apogeu, mas um apogeu católico. É evidente que nesse caso, a devoção ao Sagrado Coração se teria estendido pelo mundo inteiro, teria havido, na França, clima para as pregações de São Luiz Grignion de Montfort e para que também se generalizassem pelo mundo inteiro — São Luiz Grignion também viveu no tempo de Luiz XIV — e teria se conseguido evitar a Revolução Francesa. Mediante esse pedido feito ao rei, a Revolução, na forma que tinha ao tempo de Santa Margarida Maria, teria estancado; a forma péssima que tomou depois e que foi a Revolução Francesa, teria sido prevenida.
Portanto, essa devoção, logo no seu primeiro movimento, em sua primeira indicação da parte do Sagrado Coração, tem um sentido nitidamente contra-revolucionário.
O professor Furquim[2], estudando detidamente isso, chama a atenção para que os vários movimentos contra-revolucionários se esboçaram nos séculos XVIII e XIX tinham ligação com o Sagrado Coração de Jesus. Os senhores sabem que os "Chouans" também levaram o Sagrado Coração no distintivo, e que essa devoção tem sido, invariavelmente, preconizada pelos bons, tem inspirado os bons e tem sido para eles uma causa de alento, enquanto tem sido detestada pelos maus.
O que dizem os maus contra a devoção ao Sagrado Coração de Jesus? Primeiro uma coisa que pensam ser um argumento decisivo: "por que adorar o Coração de Jesus? Não poderíamos fazer uma linda devoção às Sagradas mãos de Jesus? Aos Sagrados olhos de Jesus? Então, decompomos blasfemamente Jesus e vamos fazer uma adoração a cada parte do corpo. Então, fazemos uma adoração às orelhas, que ouvem todas as súplicas do homem, à boca, que falou, às mãos que abençoaram (não dizem que também fustigaram...). Então, não vale a pena fazer essa devoção".
"Depois, dizem eles, é uma devoção sentimental. O coração é o emblema do sentimento para o sentimentalismo. Portanto é uma devoção sentimental, sem conteúdo teológico e não deve ser admitida".
Na realidade, a Santa Sé, várias vezes, por meio de  documentos pontifícios solenes[3], substanciosos, magníficos, recomendou essa devoção cobriu de indulgências a devoção das primeiras sextas-feiras, ligadas à devoção ao Sagrado Coração de Jesus, porque é a comunhão feita em reparação às ofensas que o Sagrado Coração de Jesus recebe. Ela cumulou de indulgências as confrarias e arqui-confrarias que Ela mesma instituiu em favor da devoção do Sagrado Coração de Jesus. Ela aprovou e estimulou a construção de igrejas, altares e imagens em louvor do Sagrado Coração.
Quanto ao ministério da Igreja, essa devoção é, tem sido aprovada de modo superabundante e tem tudo para merecer nossa confiança. De outro lado, esse argumento de que não se pode ter uma devoção a cada parte do sacratíssimo corpo de Nosso Senhor, não tem sentido nenhum. De fato, privadamente falando, podemos adorar a Nosso Senhor em suas mãos santíssimas, podemos e devemos adorá-Lo em seus olhos infinitamente expressivos, significativos, régios, doutorais e salvadores. Pensar que com um só olhar Nosso Senhor regenerou São Pedro, e adorar Nosso Senhor inclusive em seus olhos divinos, evidentemente é uma coisa que se pode fazer.
Apenas a Igreja, que tem muito o senso do ridículo, e que compreende que o ridículo fica a um passo do sublime, compreende que os espíritos vulgares teriam facilidade em pôr sarcasmo contra uma coisa que assim desmembrada realmente choca um pouco a sensibilidade humana, mas que nada tem de contrário ao raciocínio e que até muito adequadamente pode fazer-se. Por exemplo, conta-se de pedras da via sacra - sobretudo de uma - no caminho de Nosso Senhor, que teria a marca de seus pés divinos. Ao adorar seus pés divinos enquanto palmilharam a terra para ensinar, enquanto encheram-se do pó dos caminhos para ensinar e salvar, para combater o mal, adorar esses pés enquanto serviram para carregar a cruz, enquanto se encheram de sangue para nossa Redenção, enquanto suportaram os cravos da Paixão, é perfeitamente verdadeiro, legítimo, necessário.
E até um lindo modo de adorarmos a Nosso Senhor Jesus Cristo é nos unirmos às disposições e meditações de Nossa Senhora, na ocasião em que Nosso Senhor foi descido da cruz, quando Ela teve seu corpo sacratíssimo no colo, exangue. Ela contemplou cada parte desse corpo machucado com uma dor, com uma profundidade de conceitos, de amor, de veneração, de respeito, de carinho. Ela considerou cada uma dessas partes, adorou, com certeza, cada uma dessas partes em sua significação e sua função específica; mediu a ofensa feita à divindade no ter flagelado aquela parte e com isso - afinal de contas - Ela praticou essa devoção.
Portanto, é apenas uma questão de conveniência, uma questão de senso das aparências, senso das proporções, se ousasse exprimir-se assim, que leva a Igreja a não promover a adoração de cada uma das partes do corpo de Nosso Senhor.
O que é, propriamente, a devoção ao Sagrado Coração? É a devoção ao órgão de Nosso Senhor, que é o Coração. Mas na Escritura, o coração não tem o significado sentimental que tomou no fim do século XVIII, mais ou menos, e certamente no século XIX. Não exprime o sentimento. Quando diz a Escritura: “A ti disse o meu coração: eu te procurei”, o coração aí é a vontade humana, é o propósito humano, é propriamente, a santidade humana. Aí quando Nosso Senhor diz isso, diz: "na minha vontade santíssima, Eu quero". O Evangelho diz: “Nossa Senhora guardou todas as coisas em seu coração e as meditava”. Os senhores percebem que não é o coração sentimental, mas a vontade d’Ela, a alma d’Ela que guardava aquelas coisas e pensava sobre elas. O coração é a vontade da pessoa, o seu elemento dinâmico que considera e pondera as coisas. O Sagrado Coração de Jesus é a consideração disso em Nosso Senhor, simbolizado pelo coração, porque todos os movimentos da vontade do homem podem ter no coração uma repercussão. Nesse sentido, então, é o órgão adequado para exprimir isso. E é nesse sentido, então, que se adora o Santíssimo Coração de Jesus.
Por correlação, por conexão, existe a devoção imensamente significativa, do Imaculado Coração de Maria. O Imaculado Coração de Maria é um escrínio dentro do qual encontramos o Sacratíssimo Coração de Jesus.
A essa devoção Nosso Senhor prometeu um caudal de graças. Comentei o ano passado as promessas do Coração de Jesus a quem fizer as nove primeiras sextas-feiras. A mais marcante delas, talvez, é que as almas que fizerem as nove sextas-feiras não morrerão sem terem a graça especial de se arrependerem antes. Não quer dizer que elas certamente irão para o Céu. Quer dizer que terão uma grande graça antes de morrer; não quer dizer que vão perceber que vão morrer, mas no momento relacionado com a morte, elas terão uma grande graça, tão grande que todas as esperanças se podem ter de sua salvação.
Os senhores compreendem quanto empenho há na Igreja em que essa devoção seja conhecida, seja apreciada, seja medida com a razão, porque devoção sentimental não tem sentido. Devoção varonil é a que procura conhecer a razão de ser da coisa e ama a coisa pela sua razão de ser; assim é que um homem e uma mulher forte do Evangelho pensam a respeito das coisas de piedade. Então, pensar nisso, querer isso, dirigirmos nossa alma ao Coração de Jesus como fonte de graças calculadas para a época de Revolução, calculada para as épocas difíceis que deveriam vir e pedir que o Coração de Jesus, regenerador pelo sangue e pela água que d’Ele saiu, nos lave. Isto é propriamente a oração magnífica que nas sextas-feiras e, sobretudo, na primeira sexta-feira do mês, e na Sexta-feira da Paixão se deve considerar.
Assim, termino insistindo nesse ponto. Já falei que aquele centurião que perfurou com uma lança o Coração de Jesus, ao praticar esse ato de violência contra esse verdadeiro sacrário que era o Coração Sagrado de Jesus, da água e do sangue que saíram do flanco de Nosso Senhor, uma parte jorrou em seus olhos, e ele imediatamente se curou e recuperou a vista. Para nós isto é altamente eloqüente.
Quer dizer que quem tem devoção ao Sagrado Coração de Jesus pode pedir uma graça igual, não para a vista física, da qual, graças a Deus, nenhum de nós carece, mas para a vista mental, se queremos ter senso católico, se queremos ter senso da Revolução e da Contra-Revolução, se queremos ter a percepção de como a Revolução e a Contra-Revolução trabalham em torno de nós, se queremos ter senso para distinguir em nós o que é Revolução e Contra-Revolução, se queremos ter conhecimento de nossos defeitos, se queremos ter conhecimento das almas dos outros para fazer bem aos outros, se queremos ter um bom discernimento para os estudos, se queremos ter distâncias psíquicas para termos equilíbrio mental e nervoso e para nos curarmos  — o quanto possível — de molezas de toda ordem, podemos e devemos recorrer ao Sagrado Coração de Jesus que, com uma graça jorrada dEle — como a água que curou o centurião — possa eliminar a cegueira de nossas almas, porque somos cheios de cegueiras de todos os graus e ordens.
Peçamos ao Sagrado Coração de Jesus, por intermédio do Coração Imaculado de Maria — porque só assim, por intermédio de Nossa Senhora é que se obtém dEle as graças que nos curem dessa múltipla cegueira —, e teremos feito um esplêndido pedido e estaremos a caminho de conseguir uma magnífica graça.

(Conferência "Santo do dia", 4 de março de 1965)


[1] cfr. Marguerite-Marie Alacoque, Vie et oeuvres, Saint Paul, Paris-Fribourg, 1990, t. II, pp. 335-337, 343-344, 435-436
[2] Fernando Furquim de Almeida, que foi um dos mais antigos discípulos de Dr. Plinio, era colaborador freqüente do mensário de cultura católica “Catolicismo”;
[3] cfr. Por exemplo, a encíclica "Inscrutabile divinae Sapientiae" do Papa Pio VI, em 1775

sábado, 26 de maio de 2018

LIBERDADE DE EXPRESSÃO, UM IDEAL VAZIO E SEM CLARA DEFINIÇÃO


              
Liberdade, seja ela qual for, como a de expressão, a de locomoção, tornou-se um intocável “dogma” dos juristas republicanos da era moderna. Mas, a liberdade de expressão tem destaque porque ela privilegia especialmente os órgãos de imprensa (hoje chamados de mídia, ou “mass media” nos EUA), que desejam agir sem restrições legais para divulgar suas notícias ou seus pensamentos.
A revista “Veja”, em sua edição de 17.06.2015, traz em seu editorial um elogio umbroso à medida tomada pelo STF que, em sua unanimidade, votara uma semana antes contra dois dispositivos do Código Civil, os quais garantiam ao indivíduo total privacidade no caso de divulgação biográfica. Quer dizer, o órgão supremo de nossa justiça considera que dois artigos do CC são inconstitucionais. Teriam outros artigos na mesma linha? Então um código tão importante para a vida cotidiana dos cidadãos foi aprovado contendo dispositivos que ferem a constituição? Ou trata-se apenas de interpretação momentânea, feita ao sabor de pressão da mídia?
A propósito, vou tratar aqui apenas da confusão que fazem em torno da expressão “liberdade de expressão”.

1.    1. Geralmente a lei que protege a tal liberdade visa quase que exclusivamente o Estado, que não pode se arrogar o direito de reprimir a livre manifestação de seus cidadãos. Foi com tal objetivo que foram criados vários dispositivos legais, isto é, visam antes de tudo evitar que o governo possa tolher a liberdade individual ou coletiva de seus dirigidos. Quando a temática passa a ser discutida no que diz respeito aos direitos de pessoa a pessoa, aí a legislação deve procurar evitar que um direito possa prejudicar outro. No caso, um indivíduo que use de sua liberdade de expressão não pode ir de encontro a outra pessoa.

2.    2Nem a Constituição, nem lei nenhuma pode garantir que qualquer pessoa possa divulgar o que quiser, sem nenhum respeito aos outros direitos sociais. Nesse sentido a colisão de direitos deve favorecer àqueles que precisam preservar sua idoneidade moral, que tem um valor incalculavelmente maior do que as idéias de quem quer que seja.

3.  3.   O tema em questão é porque andaram divulgando biografias de algumas personalidades, na qual mostravam fatos ocultos, os quais, ao serem divulgados, prejudicariam a imagem dos mesmos. Baseados nessa interpretação esdrúxula dos direitos, o STF simplesmente acha que os autores de tais livros podem, sim, divulgar o que quiserem porque estarão simplesmente manifestando uma liberdade constitucional.  Quanto a outros direitos, como, por exemplo, o da moralidade pública, do respeito à privacidade, que são bens muito maiores do que a liberdade de expressão, nada valem para tais ministros. A liberdade de expressão é um bem supremo, superior a qualquer outro, segundo eles.

4.    4. Mas, essa maneira de ver não vale para outros. Por exemplo, um autor divulgou, anos atrás, um livro criticando os judeus. Foi condenado, inclusive obrigado a retirar o livro de circulação, porque manifestara em seu texto pensamento anti-semita. Não se discute aqui se a idéia, o teor do livro do autor, era bom ou mal. Para serem coerentes com o mesmo princípio, tais ministros deveriam considerar que o autor do livro anti-semita simplesmente cumpriu um dispositivo constitucional que era de expressar livremente o que pensa.

5.    5. A liberdade é um direito, sim. Ela não se circunscreve apenas ao de ir e vir, mas também o de manifestar livremente seu pensamento. Podemos manifestar nossos pensamentos de várias formas, ou falando, criticando, ou então escrevendo, que é o caso dos literatos ou jornalistas. No entanto, quando usamos desta liberdade para a divulgação de idéias anti-sociais, como é o caso do próprio anti-semitismo, ou de princípios que pervertem a sociedade, como a permissividade sexual ou a propagação do uso de drogas, por exemplo, nesse caso o princípio não pode prevalecer porque estará ferindo outros direitos sociais, como o da moralidade social, o da honestidade, etc., Então, o legislador deve deixar bem patente que a liberdade de expressão não pode ser plena e abranger todos os pensamentos que o homem tem, mas deve obedecer os limites que a própria sociedade concede a outras liberdades.



sexta-feira, 25 de maio de 2018

COMO ESTAR COM DEUS?




A fim de que Deus possua completamente o nosso templo interior, é necessário que tenhamos a posse das três Pessoas da Santíssima Trindade, e isso é feito pelo Exame de Consciência, da Confissão e da Comunhão sacramental:
1)    DEUS PAI - No ato do auto-julgamento (o exame de consciência), a pessoa está sob influência e regência do Pai Eterno, que nos inspira a melhor forma de fazê-lo;

O Padre Eterno, a primeira revelação divina no templo da alma
As manifestações de Deus Pai, no Novo Testamento, sempre mostram uma relação de afeto e veneração com o Filho e revelada aos homens. Manifestou-se no batismo de Jesus (Mt 3, 17), dizendo: “este é o meu Filho amado em quem pus minhas complacências”, frase repetida na Transfiguração sobre o Monte Tabor (Mt 17, 5), parecendo ter sido estas as únicas vezes em que Deus Pai se manifestou publicamente para dar testemunho de Jesus. Aliás, tais cenas revelam uma manifestação da Santíssima Trindade e não só do Pai Eterno.
Nosso Senhor disse que tudo o que fazemos ou o que imaginamos, tudo o que pensamos, enfim, é segredo do Pai (Mt 6, 1-4). Por isso, recomenda orar ao Pai em segredo (Mt 6,6 e 6, 18), pois não serão nossos gestos ou palavras que O farão nos ouvir (Mt 6,7-8).  O Pai perdoa a quem perdoa  (Mt 6, 14/15) e só nos concede coisas boas (Mt 7, 11).  Por fim, só entrará no reino dos céus quem faz a vontade do Pai (Mt 7, 21).
A ação de Deus Pai (que, aliás, é sempre conjunta com as outras duas pessoas divinas, pois todas Elas agem ao mesmo tempo) se circunscreve sempre ao interior mais profundo das almas. E da mesma forma procede do Pai as revelações mais importantes, pois é Ele quem revela (a Sabedoria) aos pequeninos e as esconde aos “sábios”  (Mt 11,25).   Foi Deus Pai quem revelou a São Pedro o caráter divino da natureza de Jesus (Mt 16, 17): “Não foi a carne e o sangue que to revelou, mas meu Pai que está nos céus”,
De outro lado Pai e Filho têm tal união que se completam, pois “ninguém conhece mais o Pai do que o Filho” (Mt 11, 26-27) e vice-versa. Assim também como todas as coisas que são reveladas, inclusive a própria revelação feita a São Pedro, Ele o faz através do Filho, e é o Filho quem revela o Pai (Mt 11,27).
Enfim, Deus Pai se revela no interior de seus filhos verdadeiros, trata-se da luz primeira, dos primeiros conhecimentos que o homem tem em seu interior sobre Deus. Esta imagem primeira, estes sinais mais recôndito de Deus, o homem o encontrará dentro de sua própria alma. Para tanto basta que use a “luz da razão” e consulte sua consciência..
Aquele, pois, que procurar obscurecer sua própria luz da razão e apagar em seu interior a imagem de Deus, estará destruindo o templo divino e, como conseqüência, construindo o de satanás em seu lugar. É um homem morto não só para a vida da Graça, mas até mesmo para a vida natural para a qual foi também criado.
O nome de Pai é mais apropriado a Deus do que o nome de Deus, conforme escreveu São Cirilo de Alexandria:
“O Filho não manifestou o nome do Pai apenas revelando-o e dando-nos uma instrução exata sobre a Sua divindade, uma vez que tudo isso tinha sido proclamado antes da vinda do Filho, pela Escritura inspirada. O Filho também nos ensinou, não só que Ele é verdadeiramente Deus, mas que é também verdadeiramente Pai, e que é assim verdadeiramente chamado, pois tem em Si mesmo e produz para fora de Si mesmo o Filho, que é co-eterno com a Sua natureza.
O nome de Pai é mais apropriado a Deus do que o nome de Deus: este é um nome de dignidade, aquele significa uma propriedade substancial. Porque quem diz Deus diz o Senhor do universo. Mas quem nomeia o Pai específica a característica da pessoa: mostra que é Ele que gera. Que o nome de Pai é mais verdadeiro e mais apropriado que o de Deus mostra-no-lo o próprio Filho pelo modo como o usa. Pois Ele não dizia: «Eu e Deus», mas: «Eu e o Pai somos um» (Jo 10, 30). E dizia também: «Foi a Ele, ao Filho, que Deus marcou com o Seu selo» (Jo 6, 27).
Mas, quando mandou os seus discípulos batizarem todos os povos, ordenou expressamente que o fizessem, não em nome de Deus, mas em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28, 19)”..[1]
É comum nos depararmos com este paradoxo: não conhecemos e nem sequer sabemos onde encontrarmos a nossa própria intimidade, o âmago de nossa própria alma. Se não sabemos nem sequer onde se encontra o âmago, o mais profundo das cogitações de nossa alma, como podemos, pois, saber onde se encontra também o próprio Deus dentro de nós?  O homem desconhecendo a si mesmo, não sabendo quem ele realmente é, também não poderá conhecer seu Criador.

“Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14, 2)
O que significa a expressão “Casa do meu Pai?”. Trata-se do Templo de Deus. Foi assim que Ele se expressou ao expulsar os vendilhões do Templo de Jerusalém: “Está escrito: a minha casa é uma casa de oração e vós fizestes dela um covil de ladrões” (Lc 19, 45-46). A Casa de Deus, o Templo de Deus e as moradas celestes são a mesma coisa, embora o Templo citado acima diga respeito ao edifício de Jerusalém. E, no entanto, diz-se que o Templo de Deus encontra-se no interior do homem; à semelhança de como está Ele também no céu, encontra-se no coração e na alma do homem. Vale a mesma afirmação para o coração, este interior profundo do homem, que sendo templo de Deus deve ser antes de tudo “casa” de oração.
Existem várias passagens no Evangelho em que Nosso Senhor fala das moradas, ora referindo-se às moradas celestes, ora às do interior do homem. Por exemplo: “Na casa de meu pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vo-lo teria dito. Vou preparar o lugar para vós. Depois que eu tiver ido e vos tiver preparado o lugar, virei novamente e tomar-vos-ei comigo para que, onde eu estou, estejais também vós” (Jo 14, 2-3). E mais adiante: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele morada”  (Jo 14, 23).
A morada pode ser entendida como um lugar geralmente destinado a acolher pessoas de uma forma permanente. Assim como as moradas celestes são destinadas a acolher os bem-aventurados por toda a eternidade, as moradas de Deus no nosso interior são destinadas a acolhê-Lo com o fim de adorá-Lo, reverenciá-Lo, obedecê-Lo, prestar-Lhe culto, etc, isto tudo de uma forma permanente, com intenções de tornar-se eterna na outra vida. Desta forma, as moradas celestes, a que se referia Nosso Senhor nas passagens acima, queria dizer tanto os lugares destinados aos bem-aventurados na outra vida quanto as moradas que existem no interior de nossa alma. No Céu, são os tronos celestes para o descanso eterno de nossa alma, e em nós são as moradas interiores para que nelas Deus reine e seja adorado.
Da mesma forma, o fato de Nosso Senhor dizer que são muitas as moradas, quer também significar a grande diversidade de vida espiritual que cada um pode ter para se chegar até Deus, ou, como são diversas as batalhas para conquistá-las até chegar a Ele. Neste sentido também, existem tanto as moradas celestes quanto as de Deus no interior de nossa alma. Nosso interior pode ter, neste sentido, dois grandes castelos senhoriais: um destinado a ser templo de Deus e outro destinado à Sua morada. Melhor ainda, a mesma morada pode servir ela mesma de templo. Aliás, uma só, não, várias moradas, como disse o próprio Nosso Senhor. Assim, mesmo tendo Deus Pai em nosso interior como luz primeira de nossa existência, precisamos preparar uma morada para Deus Filho e o Espírito Santo. São Paulo disse: “Por essa causa dobro os meus joelhos diante do Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, do qual toda a família, quer nos céus, quer na terra, toma o nome, para que, segundo as riquezas de sua glória, vos conceda que sejais corroborados em virtude, segundo o homem interior, pelo seu Espírito, e que Cristo habite pela fé nos vossos corações, de sorte que, arraigados e fundados na caridade, possais compreender, com todos os santos, qual seja a largura e o comprimento, a altura e a profundidade; e conhecer também o amor de Cristo, que excede toda a ciência, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus”  (Ef 3, 14-19)
Qual a finalidade das moradas celestes? Dar descanso, gozo e paz (descanso não só como fim de nossas tribulações, mas como êxtase nas coisas de Deus; gozo dos bens eternos e paz que é fruto da tranqüilidade da ordem), pois esta é a finalidade de toda morada. E permitir à contemplação do Eterno sem qualquer obscuridade de nosso  espírito humano.
 Por causa disso, as moradas celestes devem ser compostas de substâncias espirituais e corporais próprias do Empíreo (destinadas a acolher também as propriedades do corpo ressurrecto: translucidez, sutileza, agilidade, ubiqüidade etc.), além de dons, virtudes e graças para sustentar, alimentar e engrandecer corpo e alma.  Os quais foram necessários à ascese na terra de uma forma imperfeita quanto ao nosso uso, mas perfeitíssimos no céu por causa de estarmos imersos em Deus.
Temos no interior de nossa alma os reflexos das celestes moradas de Deus, as quais se tornam realidade com a vinda da Santíssima Trindade para morar em nós.  Assim, Deus pode morar em nosso interior de uma forma natural, como reflexo de Suas perfeições (somos imagem e semelhança de Deus) e também de uma forma completa através da ascese. Nós somos também uma morada de Deus no verdadeiro sentido da palavra, como citamos acima (Jo 14, 23).
Como, então, poderemos chegar às moradas divinas existentes no interior de nossa alma? Veremos que devemos travar numerosas e renhidas batalhas para o mister. Devemos seguir não somente o Decálogo, mas os conselhos evangélicos e andar nos passos de Nosso Senhor.. E neles vamos encontrar a fórmula que fará com que o próprio Nosso Senhor venha fazer em nós a Sua morada e nos leve para a Morada d’Ele:
“Depois que eu tiver ido e vos tiver preparado o lugar, virei novamente e tomar-vos-ei comigo para que, onde eu estou, estejais vós também. E vós conheceis o caminho para ir onde vou” (Jo 14, 3-4):
Pelo que se viu acima, somente iremos depois que Nosso Senhor foi, e somente iremos para o lugar que Ele nos preparou juntamente com Ele mesmo. Da mesma forma, só iremos com Ele depois de “conhecer o caminho” que Ele também já trilhou (quer dizer, o da Cruz e da santificação);
Como é este caminho? Ele mesmo o responde: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vai ao Pai senão por mim”  (Jo 14, 6). Para se ir ao Pai (portanto, para as moradas celestes) tem-se primeiro que seguir o caminho (que é a Cruz), a verdade (que é a Fé) e a vida (que é o amor a Deus, a caridade), e tudo isto ninguém o fará se não for por intermédio de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Como Deus “habita” em nós
a) de forma “natural”
Segundo São Tomás de Aquino, Deus está em nós, naturalmente falando, de três maneiras diferentes:
- por potência  (todas as criaturas estão sujeitas a seu império);
- por presença (por causa de sua onipresença) e
- por essência (porque opera em toda parte e em toda parte Ele é a plenitude do ser e causa primeira de tudo). Estas três maneiras são as mesmas com que Deus também está não só nos homens mas em toda a criatura, sendo que nos homens está de uma forma especial por sermos sua imagem e semelhança. Assim está Ele também em qualquer homem, quer seja pagão ou cristão, pecador ou não, até mesmo entre os condenados no inferno.
b) pela lei da Graça
A Santíssima Trindade faz-se presente na alma humana, transmitindo-lhe a vida divina: o Pai vem a nós e continua em nós a gerar o Filho; com o Pai recebemos o Filho em nosso interior, e como fruto do amor de ambos recebemos o Espírito Santo. Fazem as três pessoas divinas sua morada em nossa alma e nos adotam como filho: se acolhemos, pois, em nossa morada o nosso Criador, Redentor e Santificador, transmitem-nos assim participação na vida divina.
O mesmo São Tomás de Aquino também explica como se dá esta outra forma com que Deus habita em nosso interior:
“Acima do modo comum, pelo qual Deus habita em toda criatura, há um modo especial, por que Ele habita exclusivamente na criatura racional, e é como o conhecido está naquele que conhece, e o amado no amante.
“Mas, como a criatura que conhece e ama (trata-se do conhecimento pela fé e do amor pela caridade) alcança a Deus mesmo na sua operação, resulta disso que Deus, por este modo de presença, não só está presente na criatura, mas nela habita, como em um templo” [2]
Como, então, estando Deus em nosso interior precisamos nos dirigir a Ele? É que Deus não se satisfaz em morar em nosso interior apenas da forma natural, como fomos criados, mas principalmente da maneira sobrenatural. O primeiro tipo de morada, o natural, é como se fosse uma casa vazia; já o sobrenatural, é a mesma casa totalmente preparada para receber um hóspede, com móveis, limpeza, decoração, etc. Então esta segunda forma de morada não é sempre predominante nas almas, podendo estar ausente por causa dos pecados, de nossas fraquezas ou das más inclinações.  Além do mais, Deus pede que façamos uma ascese em Sua busca para sermos perfeitos e felizes como Ele.

O desejo de contemplar a Deus
Santo Anselmo tem significativo texto sobre o desejo intenso de possuir Deus dentro de si mesmo:
“Eia, homenzinho, deixa um momento tuas ocupações habituais; entra num instante em ti mesmo, longe do tumulto de teus pensamentos. Lança fora de ti as preocupações esmagadoras; aparta de ti vossas inquietações trabalhosas.
Dedica-te por um instante a Deus e descansa pelo menos um momento em sua presença. Entra no aposento de tua alma; excluí tudo, exceto Deus e o que possa ajudá-lo a buscá-Lo; e assim, fechadas todas as portas, segue após Ele. Diz, pois, alma minha, diz a Deus: “Busco vossa face; Senhor, desejo ver vossa face”.
E agora, Senhor, meu Deus, ensina meu coração onde e como buscar-Vos, onde e como encontrar-Vos.
Senhor, se não estás aquí, onde Vos buacarei, estando ausente? Se estás em todos os lugares, como não encontro vossa presença? Certo é que habitas numa claridade inacessível. Porém onde se encontra essa inacessível claridade? Como me aproximarei dela? Quem me conduzirá até aí para ver-Vos nela? E assim, com que sinais, sob qual coisa Vos buscarei? Nunca jamais Vos vi, Senhor, Deus meu; não conheço vossa face.
Que fará, altíssimo Senhor, este vosso desterrado tão longe de Vós? Que fará vosso servidor, ansioso de vosso amor e tão longe de vossa face? Deseja Vos ver e vosso rosto está muito longe dele. Deseja aproximar-se de Vós e vossa morada é inacessível. Arde no desejo de encontrar-Vos e ignora onde vives. Não suspira mais que por Vós e jamais viu o vosso rosto.
Senhor, Vós sois meu Deus, meu dono, e, contudo, nunca Vos vi. Me tens criado e renovado, me tens concedido todos os bens que possuo e ainda não Vos conheço. Me criaste, enfim, para Vos ver, e, todavía, nada é feito  para aquilo para o qual fui criado.
Então, Senhor, até quando? Até quando Vós esquecereis de nós, apartando de nós vosso rosto?  Quando, finalmente, nos olharás e nos escutarás? Quando encherás de luz nossos olhos e nos mostrará vosso rosto? Quando voltarás para nós?
Olha-nos, Senhor; escuta-nos, ilumina-nos, mostrai-Vos a nós. Manifesta-nos novamente vossa presença para que tudo nos ocorra bem; sem isso tudo será mal. Tem piedade de nossos trabalhos e esforços para chegar até Vós, porque sem Vós nada podemos.
Ensina-nos a buscar-Vos e mostrai-Vos a quem vos busca; porque não posso ir em vossa procura a menos que Vós me ensine, e não posso Vos encontrar se não Vos manifestas. Desejando Vos buscarei, buscando Vos desejarei, amando Vos acharei e encontrando-Vos vos amarei”.[3]


2)    DEUS ESPÍRITO SANTO - No ato da Confissão (exposição dos fatos vistos no exame como pecados ao Confessor e conseqüente arrependimento e absolvição) quem opera é o Divino Espírito Santo, responsável pela nossa santificação;

Através do exame de consciência fazemos um auto-julgamento, mas é na Confissão que cumprimos a vontade de Deus, submetendo-nos à justiça divina por intermédio do Confessor. É um tribunal tão poderoso, o da Confissão, que, após o mesmo, todos aqueles pecados são apagados da alma, é como se nunca tivessem sido cometidos. O perdão é total. Ninguém vai ainda ser argüido no Juízo após a morte sobre aqueles declarados ao confessor e absolvidos, pois naquele momento a pessoa já foi submetida a seu julgamento, que é divino, pois o Espírito Santo, por intermédio de Nosso Senhor Jesus Cristo, deu este poder aos sacerdotes. De outro lado, aqueles pecados que forem retidos, isto é, não perdoados na Confissão, ficarão para ser argüidos no momento do juízo da hora da morte.
Este poder de perdoar ou não os pecados, através da Confissão, foi manifestado por Nosso Senhor Jesus Cristo como provindo do próprio Espírito Santo, conforme explica São João no Evangelho: “Dizendo isso, soprou sobre eles e lhes disse: Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; aqueles aos quais retiverdes ser-lhes-ão retidos” (Jo 20, 22-23)

3)    DEUS FILHO - Por fim, está nossa alma pronta pare receber a Terceira Pessoa da Santíssima, o Filho, na forma da Hóstia Consagrada, completando assim a total regência da Trindade Santíssima em nós.

Feito isso, está perfeita a regência divina em nós. Deus reina completamente em nosso coração pela presença da Trindade Santíssima. O templo divino, presente em nosso coração, vai a partir daí encontrar-se completamente ocupado pela Santíssima Trindade, não apenas nas formas naturais, como visto acima, mas sobrenatural, fazendo-nos partícipe da vida divina pela Graça e posse do mesmo Deus. Deus Pai nos inspirou e nos regeu quando fizemos o exame de consciência; Deus Espírito Santo também nos regeu na hora da Confissão, cumprindo assim a vontade divina; finalmente, a regência se completou com a posse do Verbo Encarnado, o Filho de Deus Verdadeiro, ao recebê-Lo na forma Eucarística, na comunhão sacramental. Está completa a regência da Santíssima Trindade em nós.

A terceira vinda de Cristo
É desta forma que se conclui a terceira vinda de Cristo, imaginada por São Bernardo:
“Virá a nós a palavra de Deus.
Sabemos de uma tripla vinda do Senhor. Ademais da primeira e da última, há uma vinda intermediária. Aquelas são visíveis, mas esta não. Na primeira, o Senhor se manifestou na terra e conviveu com os homens, quando, como o afirmou Ele mesmo, O viram e O odiaram. Na última, todos verão a salvação de Deus e verão ao que traspassaram. A intermediária, em troca, é oculta, e nela somente os eleitos vêem o Senhor no mais íntimo de si mesmos, e assim suas almas se salvam. De maneira que, na primeira vinda o Senhor veio em carne e debilidade; nesta segunda, em espírito e poder; e, na última, em glória e majestade.
Esta vinda intermediária é como uma estrada por onde se passa da primeira para a última: na primeira, Cristo foi nossa redenção; na última, aparecerá como nossa vida; nesta, é nosso descanso e nosso consolo.
E para que ninguém pense que é pura invenção o que estamos dizendo desta vinda intermediária, ouvi-o a Ele mesmo: o que me ama – nos disse – guardará minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos a ele. Li em outra parte: O que teme a Deus obrará o bem; mas penso que se disse algo mais daquele que ama, porque este guardará sua palavra. E onde vai guardá-la? No coração, sem dúvida alguma, como disse o Profeta: Em meu coração escondo teus conselhos, assim não pecarei contra ti.
Assim é como hás de cumprir a palavra de Deus, porque são ditosos os que a cumprem. É como se a palavra de Deus tivesse que passar pelas entranhas de tua alma, teus afetos e tua conduta. Faz do bem tua comida e tua alma desfrutará com este alimento substancioso. E não esqueças de comer teu pão, não ocorra que teu coração se torne árido: pelo contrário, que tua alma repouse completamente satisfeita.
Se é  assim como guardas a palavra de Deus, não cabe dúvida que ela te guardará a ti. O Filho virá a ti em companhia do Pai, virá o grande Profeta que renovará Jerusalém, O que o faz todo novo. Tal será a eficácia desta vinda, que nós, que somos imagem do homem terreno, seremos também imagem do homem celestial. E assim como o velho Adão se difundiu por toda a humanidade e ocupou ao homem inteiro, assim é agora necessário que Cristo o possua todo, porque Ele o criou todo, o redimiu todo, e o glorificará todo”.[4]


[1]São Cirilo de Alexandria (380-444), bispo e Doutor da IgrejaComentário ao evangelho de João, 11, 7; Pg 74, 497-499(a partir da trad. Delhougne, Les Pères

[2] Suma Teológica I, Q XLIII, a. 3
[3]Del libro Proslógion de san Anselmo, obispo (Cap. 1: Opera omnia, edición Schmitt, Seckau [Austria] 1938, 1, 97-100)

[4]Dos sermões de São Bernardo, Sermão 5 no Advento do Senhor, 1-3; Opera Omnia, edições cistercienses, 4, 1966, 188-1905

quinta-feira, 24 de maio de 2018

AUXILIADORA DOS CRISTÃOS




Nossa Senhora Auxiliadora dos Cristãos! Por que o título de Auxiliadora? Nossa Senhora tem como maior glória o ser auxiliadora? Para Ela não é glória maior ser Mãe de Deus? É claro! Para Ela não é glória maior ser co-Redentora do gênero humano? É claro! Para Ela não é glória maior ter sido concebida sem pecado original? É claro! Por que, então, Nossa Senhora Auxiliadora? Por que tanta insistência em torno desta invocação: Nossa Senhora Auxiliadora?
Compreende-se, pois Ela, Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo e nossa Mãe, está permanentemente disposta a nos ajudar em tudo aquilo que nós precisamos. São Luís Maria Grignion de Montfort tem uma expressão que parece exagerada, mas que está absolutamente dentro da verdade: se houvesse no mundo uma só mãe reunindo em seu coração todas as formas e graus de ternura que todas as mãe do mundo teriam por um filho único, e essa mãe tivesse um só filho para amar, ela o amaria menos do que Nossa Senhora ama a todos e cada um dos homens.
De maneira que Ela de tal modo é Mãe de cada um de nós e nos quer tanto a cada um de nós – por desvalido que seja, por desencaminhado que seja, por espiritualmente trôpego que seja – que quando qualquer homem se volta para Ela, o primeiro movimento d’Ela é um movimento de amor e de auxílio. Porque Nossa Senhora nos acompanha antes mesmo de nos voltarmos para Ela. Ela vê nossas necessidades e é por sua intercessão que nós temos a graça de nos voltarmos para Ela. Deus nos dá a graça de nos voltarmos para Ela, nós nos voltamos e a primeira pergunta d’Ele é: “Meu filho,  o que queres?”
Mas nós temos dificuldades em ter isto sempre em vista. Por quê?
Porque nós não vemos, e, na nossa miséria, muitas vezes somos daqueles que não crêem porque não vêem. Nós esquecemos. Não duvidamos, mas esquecemos, nos sentimos tão deslocados que dizemos: “Mas será mesmo? Depois, aconteceu-me isto, aconteceu-me aquilo, aconteceu-me aquilo outro, eu pedi a Ele a não fui atendido: por que vou crer que agora serei socorrido?  Mãe de Misericórdia... para mim, às vezes sim, mas às vezes não... Nesta próxima provação, por que confiar que serei socorrido, ó Mãe de Misericórdia?!”
É nessas horas, mais do que nunca, que devemos dizer: “Auxilium Christianorum, ora pro nobis!” Nas horas em que nós não compreendemos, não temos noção do que vai acontecer, nós devemos repetir com insistência: “Auxilium Christianorum! Auxilium Christianorum! Auxilium Christianorum!” Porque para todo caso há uma saída. Nós às vezes não vemos a saída que Nossa Senhora dará ao caso, mas Ela já está dando uma saída monumental.
A esse título, portanto, muito especial, nós devemos repetir sempre: “Auxilium Christianorum!” Nossa insuficiência proclama a vitória d’Ela, canta a glória d’Ela. Por isso, esta prece deve estar nos nossos lábios em todos os momentos: “Auxilium Christianorum, ora pro nobis! Auxilium Christianorum, ora pro nobis!
Meus caros, rezemos, portanto,  “Auxilium Christianorum! Auxilium Christianorum! Auxilium Christianorum!”  em todas as circunstâncias de nossa vida, e nossa vida acabará tal que, na hora de morrer, quando nós estivermos no último alento e ainda dissermos “Auxilium Christianorum!” , daí a pouco o Céu se abrirá para nós.
(Plinio Corrêa de Oliveira, in revista “Dr. Plínio”, nº 62, maio de 2003).