SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

terça-feira, 26 de junho de 2018

NOSSA SENHORA DO PERPÉTUO SOCORRO



(Comentários de Dr. Plinio Correa de Oliveira sobre a Virgem Maria Santíssima)



Este quadro é de inspiração bizantina, e não se deve ver nele o gênero de beleza que apresentam as imagens ocidentais, como, por exemplo, Nossa Senhora Auxiliadora, Nossa Senhora do Carmo, Nossa Senhora de Fátima, etc. Analisando-as, percebe-se que seus rostos são entalhados com requinte e esmero, como a face de uma boneca. Embora não seja esse o tipo de graciosidade refletida na fisionomia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, pintada há vários séculos, entretanto ela nos revela uma intensa expressão.

Difundida na Igreja pelos padres redentoristas, trata-se de uma linda invocação, pois indica a misericórdia invariável de Maria Santíssima. O perpétuo socorro é um auxílio, um ato de clemência, de piedade, ininterrupto, que nunca se detém nem se suspende. “Nunca” significa em nenhum minuto, em nenhum lugar, em nenhum caso. Por pior que seja a situação de quem recorra a Nossa Senhora, sendo a Mãe de misericórdia, Ela sempre o atende.

 

Sobre o fundo áureo da glória

 

Esse quadro possui um fundo dourado, bastante usado durante o antigo império romano do Ocidente e do Oriente, e parte da Idade Média, nas pinturas de personagens iminentes, os quais não eram  representados pelos artistas em salas, quartos ou paisagens, mas sobre o ouro, a fim de exprimir a idéia de que estavam desligados de qualquer outra coisa que não fosse a glória. Assim, essa imagem representaria o esplendor da Rainha do Céu, com sua fronte circundada por uma auréola ricamente lavorada, como o é também a que emoldura a face do Divino Filho ao braço da Mãe.

Nossa Senhora está revestida de um manto azul que Lhe envolve igualmente a cabeça. Constitui uma espécie de xale, no qual refulge um adorno semelhante a uma estrela. Sob esse manto, a Santíssima Virgem traja uma túnica vermelha frisada com galões de ouro e enfeixada, à altura do pescoço, por uma pedra preciosa.

Todos esses aspectos têm seu simbolismo, por isso devemos notá-los antes de apontar o valor e o alcance de cada um deles.

O Menino Jesus se acha sentado sobre a mão esquerda de Nossa Senhora, inteiramente encostado n’Ela, como uma criança muito familiarizada com sua mãe e tendo prazer de estar junto a seu regaço. Entretanto, se distrai com alguma coisa para a qual está olhando. Dir-se-ia haver, da parte do artista, uma certa imperícia, pois o Divino Infante é um tanto grande para ser carregado dessa forma por Maria Santíssima, dando a impressão de desequilíbrio nas proporções dos personagens. O próprio tipo do corpo d’Ele, sem falar do tamanho, transmite mais a idéia de um adolescente do que um menino. Seja como for – e apesar de algum crítico por demais exigente apontar outros aparentes defeitos, que não são senão expressões do estilo próprio da época e dessa cultura – tal imagem é considerada uma grande e interessante obra de arte.

Vestindo uma túnica verde, o Menino-Deus traz na cintura um tecido róseo e, sobre o ombro, uma capa dourada que lhe envolve o resto do corpo. Sendo esta muito ampla, forma numerosas pregas, as quais me parecem bem estudadas, dando a impressão, juntamente com a túnica e a faixa, e naturalidade.

Em cada lado da imagem há um anjo ostentando instrumentos da Paixão. Ambos aparecem de asas e auréolas. O da direita, com vestes vermelhas, porta a Cruz que, curiosamente, possui três braços de tamanhos distintos. O da esquerda, de túnica verde, segura uma lança e a esponja na qual foi embebido o fel oferecido a Nosso Senhor no alto do Calvário.

 

Extraordinário efeito materno

 

A imagem de Maria é sobremaneira expressiva, devido à atitude profundamente materna que Ela  demonstra. É a Mãe que carrega seu Filho com naturalidade e afeto extraordinários, transparecendo a intimidade magnífica da Santíssima Virgem com o Menino Jesus. A expressão de seu olhar é recolhida, de quem reza. Ela segura o Filho com desvelo e, ao mesmo tempo, com imenso respeito e veneração. Está certa de que tem nos braços o próprio Deus encarnado e a sua atitude é de adoração.

A face de Nossa Senhora talvez pudesse ser um pouco mais bem desenhada. Embora a boca seja delicada, o pescoço parece rígido demais, e o nariz se estende num comprimento excessivo. Mas esses pormenores secundários não diminuem o sopro da arte autêntica, patenteado na expressão recolhida e carinhosa da fisionomia, bem como na nobreza do porte.

 

Tocantes simbolismos

 

Analisemos agora o simbolismo. Nossa Senhora está revestida de uma túnica vermelha e um manto azul. Nos primeiros séculos do Cristianismo, a cor azul distinguia as virgens e a vermelha, as mães. De maneira que essa conjugação cromática nos apresenta Maria como a Virgem-Mãe. Trata-se de uma bela combinação, um simbolismo acertado e discreto que define Nossa Senhora.

No meu entender, o simbolismo mais  tocante está contido no gesto com que a Mãe segura as mãos do Menino Jesus, envolvendo-as suavemente, indicando como Ela governa seu Divino Filho. Tal atitude representava, nos tempos antigos, a homenagem e a obediência do inferior para com o superior, e do poder deste sobre aquele, pois uma pessoa que segura as mãos de outra evidentemente a domina por inteiro. Então, para mostrar como a virgem pode junto a Deus, através da oração, com muita naturalidade o artista representou o Menino Jesus prestando este ato de submissão à sua Mãe Santíssima. A posição d’Ele é tão natural e freqüente entre as crianças que, sem conhecer esse simbolismo, não se diria que o pintor teve a intenção de exprimi-lo.

É próprio de quadros como esse que o significado dos símbolos quase não aflore, e assim, quem o contemple, pode ter o gosto de adivinhar o sentido de cada um deles. Trata-se de uma ocupação piedosa e nobre, que retém a atenção e é incomparavelmente superior às distrações do tipo palavras-cruzadas, por exemplo...

Nossa Senhora segura o Menino Jesus o qual olha para dois anjos portando instrumentos de sua Paixão. Quer dizer, ao mesmo tempo em que se lembra n’Ela a Virgem e Mãe, recorda-se n’Ele o Redentor do gênero humano, esperado pelos Patriarcas e Profetas.

 

O socorro por um fio

 

Pormenor pitoresco, no pé esquerdo do Divino Infante vê-se a sandália bem presa, porém a do pé direito está desatada, quase caindo, como que obrigando-O a um movimento necessário para retê-la. Penso que esta última significa a situação da alma pecadora, sustentada pelo Menino-Deus para não cair no abismo da perdição. Indica, portanto, o perpétuo socorro: é Nossa Senhora que intercede pelo faltoso, junto ao Filho que Ela segura nos braços e pode salvar o homem acabrunhado de culpas.

Tenho conhecido em minha vida tantas almas suspensas, como esta sandália, e depois se erguerem e ficarem firmes como a outra, que não seria desprovida de beleza se tal não fosse a explicação desse pormenor.

Aliás, no verso de um “santinho” dessa imagem que me foi presenteado certa vez, vinha esta linda interpretação: “A sandália desatada, quiçá símbolo de um pecador preso ainda a Jesus por um fio, o último – a devoção a Nossa Senhora”.

Nos ângulos superiores do quadro há algumas letras gregas que significam “Mãe de Deus”; à direita do Menino Jesus, outras que querem dizer “Jesus Cristo”. As que aparecem acima do anjo à esquerda significam “São Miguel Arcanjo”, e as que estão sobre o anjo á direita, “São Gabriel”.

Por fim, a estrela que refulge no manto de Nossa Senhora indica, uma vez mais, seu perpétuo e maternal socorro, sua misericórdia infatigável a nos guiar em meio às vagas tormentosas desta vida, rumo ao Céu.

 

(Revisa “Dr. Plínio”, nº. 87, de junho de 2005, pp. 26/30).

 

 

quinta-feira, 21 de junho de 2018

QUAL O SISTEMA POLÍTICO MAIS PERFEITO?




A propósito da atual situação política do país, grande parte decorrente da constituição aprovada em 1988, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira (que foi deputado constituinte na década de 30) publicou importante obra em que critica gravíssimas falhas no sistema representativo que a mesma pleiteava.  Vejamos a seguir parte importante da referida obra, onde podemos verificar que analisa muito bem a situação política em que ficaria o país decorrente daquela constituição:

Monarquia parlamentarista, República presidencialista ou República parlamentarista?
Para entender este artigo
Democracia é a forma de governo em que a direção do Estado cabe ao povo. O pressuposto da democratização política é a igualdade de todos perante a lei.
A situação ideal na democracia é aquela em que a vontade popular é unânime. Ocorre então o chamado consenso. Mas, na prática, tal situação raramente acontece. E, quando isso se verifica, é por pouco tempo.
Assim, na democracia se atribui força decisória à maioria.
Nos países de muito pequena população, a democracia se exerce pela manifestação direta da vontade de cada cidadão, expressa em reunião plenária, em praça pública. A contagem dos votos se faz na hora. Tal é a chamada democracia direta.
Esta ocorreu, por vezes, em remotas eras. Por exemplo, na Grécia antiga. Mas, via de regra, é impraticável em nações contemporâneas. Excepcionalmente, a democracia direta ainda tem vigência, no plano municipal, em alguns cantões da Suíça atual. Um vestígio da democracia direta são o referendum e o plebiscito.
Hoje, a democracia é normalmente indireta, ou seja, representativa.
Os cidadãos elegem representantes que votam as leis e dirigem o Estado segundo as intenções do eleitorado.
O poder político de fazer ou de revogar leis (Legislativo) é exercido habitualmente, nas democracias representativas, de modo colegiado, através de parlamentos ou congressos. As decisões são tomadas pela maioria dos representantes populares (deputados ou senadores). A maioria parlamentar representa — pelo menos em princípio — a maioria do eleitorado.
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A mais básica das condições para que uma eleição seja representativa é que o eleitor tenha efetivamente opinião formada sobre os diversos assuntos em pauta no prélio eleitoral. A opinião do eleitor sobre estes diversos assuntos constitui o critério segundo o qual ele escolhe o candidato de sua confiança.
Em outros termos, se cada eleitor não tiver opinião formada acerca desses temas, o candidato eleito será livre de agir unicamente segundo suas convicções pessoais.
Porém, neste caso, ele não representa a quem quer que seja. E uma câmara toda constituída por deputados sem representatividade é vazia de conteúdo, de significado, de atribuições, em um regime de democracia representativa.
Ou seja, ela é inexistente e incapaz de atuar.
O exercício autêntico da democracia supõe a existência, no País, de instituições privadas e públicas idôneas para estudar os problemas locais, regionais e nacionais, e propor-lhes soluções, bem como para a difusão destas em larga escala, com o propósito de suscitar a tal respeito controvérsias esclarecedoras.
Igualmente é necessária, para a formação da opinião nacional, a cooperação dos meios de comunicação social que, por sua própria natureza, dispõem de peculiar influência na missão de informar e de formar seus leitores ou ouvintes. Para tal, devem eles refletir as principais tendências da opinião e, pelo diálogo como pela polêmica, manter o público informado da atuação e das metas das várias tendências ou opiniões.
É necessário ainda que tais instituições e órgãos de comunicação social se empenhem em erradicar do espírito público certa imprevidência otimista e sistemática, muito disseminada em nosso povo. Baseada no pressuposto de que "Deus é brasileiro", essa atitude imprevidente induz a negligenciar temerariamente o estudo e a reflexão sobre os problemas do bem comum, e a imaginar suficiente o mero "palpite" (emitido em via de regra tão-só com base em simpatias ou fobias pessoais) para dar fundamento ao voto. Voto este que, assim obviamente inidôneo e irrefletido, só pode dar origem a leis ineptas e governos incompetentes, que singrem despreocupadamente os mares do absurdo.
A falta de seriedade no clima pré-eleitoral, simbolizada com dramático poder de expressão pela presença cada vez mais marcante de shows nos comícios políticos, prova que, no Brasil hodierno, o debate sério tende rapidamente a desaparecer. E, quando existe, interessa pouco. O que constitui uma prova a mais de quanto urge extirpar de nosso País o voto não sério, tornando freqüente, interessante, conclusiva a exposição — quando não o debate dialético ou polêmico dos grandes temas nacionais.
Se tal não se fizer, não adianta clamar, bradar ou uivar a favor da democracia. Presentemente, o principal fator da precariedade dela não reside em seus adversários, porém nela mesma, isto é, no estado de espírito com que a praticam tantos e tantos dos que a louvam e aclamam.
* * *
Considerada a problemática do ponto de vista não do processo eleitoral, mas dos representantes, deve-se observar que, no Brasil, "político" tornou-se freqüentemente sinônimo de "político-profissional", sobretudo quando se trata de político que não tem haveres pessoais suficientes para se manter sem o concurso dos honorários correlatos com o exercício de funções na vida pública.
Político profissional é aquele que dedica à atividade política uma parcela muito preponderante (quando só isto) de seu tempo e de suas energias; que no êxito da carreira política põe o melhor de suas esperanças e ambições; e ao qual resta, para outras atividades, uma parcela pouco expressiva de sua atuação no exercício de alguma profissão rendosa.
Assim, mesmo fora dos períodos pré-eleitoral e eleitoral, de si tão absorventes, o político-profissional passa o tempo cultivando o seu eleitorado para conseguir eleger-se, ou reeleger-se.
Sobretudo está o político-profissional atento em conseguir favores para os seus cabos eleitorais, a fim de que estes lhe consigam, por sua vez, os eleitores de que precisa.
Uma vez eleito, o exercício do mandato lhe absorve quase todo o tempo. E pouco lhe resta para outras atividades. Tanto mais quanto, logo depois de eleito, deve começar a preparar sua reeleição. A situação normal do político-profissional é a de um candidato permanente.
Em relação a tais políticos-profissionais, a opinião pública se mostra — por motivos diversos — bem pouco entusiasmada. Se bem que essa disposição de alma seja eventualmente injusta em relação a este ou àquele político-profissional, o fato é esse. E não há exagero em dizer que grande parte dos votos em branco ou nulos, das últimas eleições, se deveu à verdadeira saciedade que o público sente em relação a candidatos que figuram habitualmente no amplo rol dos políticos-profissionais.
O que seria, de outro lado, um político não profissional? Alguém que, financeiramente independente, só faz política por amor à arte, pelo gosto da fama, ou até da celebridade com que o macrocapitalismo publicitário premeia os políticos do inteiro agrado dele? Ou o homem abonado, e ao mesmo tempo lutador desinteressado, que fosse levado à ação política por mero idealismo religioso ou patriótico? Ou, por fim, o homem idealista que, embora não abonado, arrisca para si e para sua família a aventura de sacrificar gravemente sua profissão habitual, com o objetivo de se consagrar, com honestidade modelar, ao serviço da Pátria?
Tal é a elevação desse último gênero de perfil moral que, por isso mesmo, o político não profissional é inevitavelmente raro em nossos tristes e convulsionados dias.
Ademais, parece certo que a essa última categoria não se ajusta bem o qualificativo de "profissional". Pois, por homem "financeiramente independente" parece entender-se mais bem o que vive de rendas, sem profissão definida. E, portanto, com possibilidade de consagrar à política todo o seu tempo. O que contribui obviamente para serem ainda mais raros os políticos não profissionais. Pois o número de pessoas "financeiramente independentes", ou seja, abonadas, vai decrescendo rapidamente dia a dia.
Talvez fosse preferível qualificar esse gênero de homem público, de político por mero idealismo.
Entretanto, além dos políticos-profissionais e dos políticos por mero idealismo, há que considerar ainda um terceiro gênero. Ou seja, o daqueles a quem, sem fazer mero jogo de palavras, se poderia designar como profissionais-políticos.
Trata-se, neste caso, de profissionais que, tornando-se insignes pela categoria e abundância de seu trabalho profissional, adquirem realce na própria classe ou meio social.
Tendo atingido esta situação, é normal que neles pensem muitos eleitores para o exercício de altas funções públicas de caráter eletivo.
Quando alguém se destaca de modo notável em qualquer setor de atividade, na respectiva profissão por exemplo, adquire com isso uma autêntica representatividade daquele setor.
Assim, se um Carlos Chagas, ou um Oswaldo Cruz, estivesse vivo hoje, ele se destacaria certamente como representante natural da classe médica em todo o País. Na Câmara, pela natureza de sua celebridade, e pelo cunho específico de seu mandato, seria ele o porta-voz dos colegas. Porém não só deles. Os habitantes da região onde nasceu, seus companheiros e amigos no campo das relações sociais e do lazer etc., todos os brasileiros inteirados de seus feitos e de seus méritos através da mídia, se sentiriam — a um título ou a outro — representados por ele.
Análoga coisa se pode dizer de outras profissões, como comerciantes, industriais, agricultores, professores, militares, diplomatas, bem como funcionários públicos das mais diferentes atividades, engenheiros, advogados e técnicos de toda ordem.
Esta enumeração, meramente exemplificativa, de modo nenhum exclui, a seu modo, os representantes de quaisquer outros grupos sociais ou profissionais, desde os mais elevados na escala social, até os mais modestos: proprietários rurais tanto como bóias-frias ou colonos, proprietários urbanos tanto quanto locatários, empresários industriais ou comerciais como trabalhadores na indústria ou comércio. E há que incluir ainda, nessa lista, grupos ou categorias naturais de outra índole, como associações de filatelia, de enxadrismo, de esportistas, de atividades recreativas honestas etc.
Enfim, as pessoas notáveis de todos os ramos de atividade devem ser particularmente viáveis como candidatos a um mandato eletivo, especialmente quando este tem missão constituinte.
Por sua vez, estes não aspiram naturalmente a ser deputados ou senadores ad aeternum.
A eleição para um mandato legislativo lhes é honrosa, lhes enriquece o curriculum vitae. Mas a necessidade de estar sempre na vanguarda da profissão ou campo de atividade em que adquiriram destaque, impede que eles dediquem toda a sua existência à política. Sua notabilidade profissional é o pedestal de seu êxito político.
E, portanto, é só excepcionalmente que eles limitam tal atividade em benefício de sua notoriedade política. A notoriedade é a causa do seu mandato; não é o mandato a causa de sua notoriedade.
É a esse elevado tipo de profissional que se deve designar honrosamente de profissional-político.
Já aludi anteriormente à missão das grandes instituições sociais, em tal matéria. Convém tratar mais especialmente de duas delas.
Em primeiro lugar, cumpre ressaltar o papel de uma instituição de importância ímpar, ainda mesmo nos dias que correm, isto é, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Este organismo episcopal se vem utilizando do enorme prestígio — do qual gozou antes de eclodir a atual crise na Santa Igreja, e que, em certa medida, ainda conserva — para modelar a seu gosto a opinião pública, no tocante a determinados problemas sócio-econômicos de relevo. Entretanto, com isto tem ele relegado para segundo plano uma série de temas de primordial importância religiosa e moral no que diz respeito, não só ao bem comum espiritual, como ao bem comum temporal.
Essa inversão de valores é gravemente responsável pelo minguamento progressivo do prestígio da CNBB.
Fizesse ela cessar essa inversão, e reprimisse eficazmente tantas extravagâncias e abusos que, sob a ação da crise na Igreja, se tem alastrado no Brasil como alhures, e esse prestígio poderia voltar ao seu primitivo esplendor.
Em segundo lugar, cabe falar da mídia, a qual se tem mostrado muito uniforme.
Uma mídia mais ricamente diferenciada, do ponto de vista ideológico, doutrinário e cultural, poderia servir de meio de expressão e de conseqüente aglutinação de inúmeras almas que se calam. E a vida pública brasileira adquiriria assim a amplitude e a vitalidade que lhe faltam.
Não é difícil admitir que toda essa vida, comprimida pelo anonimato a que a relega o capitalismo publicitário, se "vingue", recolhendo dentro de si as riquezas de pensamento que muitas vezes possui.
Daí resulta em parte a monotonia da nossa vida pública: "monotonia" no sentido etimológico do termo. A "mono-tona ", sim, que instila o tédio político no grande público. E produz a "a-tonia" de considerável parte do eleitorado.
Concluindo. Um país que fosse movido muito mais por intuições do que por um pensamento político e por uma cogitação doutrinária séria, não poderia chamar-se um país-de-idéias. A ser ele democrático, constituiria uma democracia-sem-idéias.

(Publicado em  Catolicismo, N° 491 – Dezembro de 1991 – Ano XLI, pags. 17-21. O texto deste artigo é uma condensação bastante sucinta da primeira parte da obra do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira "Projeto de Constituição angustia o País", Editora Vera Cruz, São Paulo, 1987. Esta obra empolgou a opinião pública a tal ponto, que os propagandistas da TFP chegaram a vender, dela, mais de mil exemplares diários)


segunda-feira, 18 de junho de 2018

MARIA, CHEIA DE GRAÇAS





A propósito da plenitude da graça em Nossa Senhora, importa considerarmos, ainda, o testemunho de São Luís Grignion de Montfort, acompanhado de sábias ponderações do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira.
Assim se exprime aquele Santo: “Só Maria achou graça diante de Deus (Lc 1, 30) sem auxílio de qualquer outra criatura. E todos, depois d’Ela, que acharam graça diante de Deus, acharam-na por intermédio d’Ela e é só por Ela que acharão graça os que ainda virão. Maria era cheia de graça quando o Arcanjo Gabriel A saudou (Lc 1, 28) e a graça superabundou quando o Espírito Santo A cobriu com sua sombra inefável (Lc 1, 28)”
Ouçamos agora o comentário que deste trecho nos faz o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:
“O pensamento é muito ligado ao admirável fato do crescimento da graça em Nossa Senhora.
Sempre cheia de graça, houve porém determinado momento em que a Santíssima Virgem, pela sua perfeita fidelidade, e por gratuita predileção de Deus para com Ela, adquiriu naquele instante a plenitude de dons celestiais correspondente: o momento em que o Espírito Santo A desposou, e n’Ela quis que Nosso Senhor Jesus Cristo fosse concebido.
São Luís Grignion, com a exatíssima e ardorosa linguagem que o caracteriza, depois de falar em plenitude, indica que houve um transbordamento de graças a partir do momento em que Nossa Senhora se tornou Esposa do Espírito Santo e Mãe do Salvador.
Tudo leva a crer que a gestação de Nosso Senhor Jesus Cristo, por ter sido perfeita, tenha durado nove meses normais. Nesse período, Maria Santíssima trazia consigo, como num tabernáculo, o Verbo Encarnado. Isso significava um processo interno de produção do corpo d’Ele, a qual deveria corresponder, certamente, um processo de união de alma como Filho que Ela estava gerando. Ela Lhe dava o corpo e Ele A revestia de graças em proporções inimagináveis.
“Está dito tudo – pensará alguém. Ora, precisamente, não está tudo dito”.
Depois disso, Ela deveria aproveitar, com perfeitíssima fidelidade, os trinta anos de vida oculta de seu Divino Filho. Cada minuto de presença de Nosso Senhor Jesus Cristo na Sagrada Família representava imensa graça para Maria e São José, superiormente correspondida pelos dois.
E a santificação de Nossa Senhora continua até o momento em que, depois da Ascensão de Jesus Cristo, recebe o Espírito Santo para distribuí-Lo a toda a Igreja (em Pentecostes sabemos que o Espírito Santo desceu sobre Ela na forma de uma chama que, em seguida, se derramou sobre todos os Apóstolos).
Enfim, no momento em que Lhe era como que impossível crescer ainda em santidade, de tal maneira sua alma estava repleta de celestiais dons, Nossa Senhora teve a sua “dormição”, como é chamada sua morte, por uma linguagem teológica muito apropriada e muito poética.


(Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado – João S. Clá Dias,pp. 50/52)





sábado, 2 de junho de 2018

A DEVOÇÃO AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS E A CONTRA-REVOLUÇÃO





Plinio Corrêa de Oliveira



Os senhores sabem que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus encontra-se na raiz de todos os movimentos contra-revolucionários maiores ou menores, mais conhecidos ou menos, que eclodiram a partir do momento em que Santa Margarida Maria recebeu essa revelação no século XVII. Ela recebeu a incumbência de, em nome do Sagrado Coração de Jesus, [pedir] ao rei Luís XIV, que consagrasse a França ao Sagrado Coração e que pusesse nas armas da França o Coração de Jesus.
Ela prometia ao rei que desde que ele se resolvesse atacar os inimigos da Igreja, o Coração de Jesus o ampararia, conduziria seu reinado a uma grande glória etc., etc.[1]. O Sagrado Coração de Jesus estava esperando de Luiz XIV é que ele mudasse a orientação que tinha e se pusesse à testa da Contra-Revolução. Uma vez que fizesse isso, haveria para ele um reinado de glória e haveria para a França um verdadeiro apogeu, mas um apogeu católico. É evidente que nesse caso, a devoção ao Sagrado Coração se teria estendido pelo mundo inteiro, teria havido, na França, clima para as pregações de São Luiz Grignion de Montfort e para que também se generalizassem pelo mundo inteiro — São Luiz Grignion também viveu no tempo de Luiz XIV — e teria se conseguido evitar a Revolução Francesa. Mediante esse pedido feito ao rei, a Revolução, na forma que tinha ao tempo de Santa Margarida Maria, teria estancado; a forma péssima que tomou depois e que foi a Revolução Francesa, teria sido prevenida.
Portanto, essa devoção, logo no seu primeiro movimento, em sua primeira indicação da parte do Sagrado Coração, tem um sentido nitidamente contra-revolucionário.
O professor Furquim[2], estudando detidamente isso, chama a atenção para que os vários movimentos contra-revolucionários se esboçaram nos séculos XVIII e XIX tinham ligação com o Sagrado Coração de Jesus. Os senhores sabem que os "Chouans" também levaram o Sagrado Coração no distintivo, e que essa devoção tem sido, invariavelmente, preconizada pelos bons, tem inspirado os bons e tem sido para eles uma causa de alento, enquanto tem sido detestada pelos maus.
O que dizem os maus contra a devoção ao Sagrado Coração de Jesus? Primeiro uma coisa que pensam ser um argumento decisivo: "por que adorar o Coração de Jesus? Não poderíamos fazer uma linda devoção às Sagradas mãos de Jesus? Aos Sagrados olhos de Jesus? Então, decompomos blasfemamente Jesus e vamos fazer uma adoração a cada parte do corpo. Então, fazemos uma adoração às orelhas, que ouvem todas as súplicas do homem, à boca, que falou, às mãos que abençoaram (não dizem que também fustigaram...). Então, não vale a pena fazer essa devoção".
"Depois, dizem eles, é uma devoção sentimental. O coração é o emblema do sentimento para o sentimentalismo. Portanto é uma devoção sentimental, sem conteúdo teológico e não deve ser admitida".
Na realidade, a Santa Sé, várias vezes, por meio de  documentos pontifícios solenes[3], substanciosos, magníficos, recomendou essa devoção cobriu de indulgências a devoção das primeiras sextas-feiras, ligadas à devoção ao Sagrado Coração de Jesus, porque é a comunhão feita em reparação às ofensas que o Sagrado Coração de Jesus recebe. Ela cumulou de indulgências as confrarias e arqui-confrarias que Ela mesma instituiu em favor da devoção do Sagrado Coração de Jesus. Ela aprovou e estimulou a construção de igrejas, altares e imagens em louvor do Sagrado Coração.
Quanto ao ministério da Igreja, essa devoção é, tem sido aprovada de modo superabundante e tem tudo para merecer nossa confiança. De outro lado, esse argumento de que não se pode ter uma devoção a cada parte do sacratíssimo corpo de Nosso Senhor, não tem sentido nenhum. De fato, privadamente falando, podemos adorar a Nosso Senhor em suas mãos santíssimas, podemos e devemos adorá-Lo em seus olhos infinitamente expressivos, significativos, régios, doutorais e salvadores. Pensar que com um só olhar Nosso Senhor regenerou São Pedro, e adorar Nosso Senhor inclusive em seus olhos divinos, evidentemente é uma coisa que se pode fazer.
Apenas a Igreja, que tem muito o senso do ridículo, e que compreende que o ridículo fica a um passo do sublime, compreende que os espíritos vulgares teriam facilidade em pôr sarcasmo contra uma coisa que assim desmembrada realmente choca um pouco a sensibilidade humana, mas que nada tem de contrário ao raciocínio e que até muito adequadamente pode fazer-se. Por exemplo, conta-se de pedras da via sacra - sobretudo de uma - no caminho de Nosso Senhor, que teria a marca de seus pés divinos. Ao adorar seus pés divinos enquanto palmilharam a terra para ensinar, enquanto encheram-se do pó dos caminhos para ensinar e salvar, para combater o mal, adorar esses pés enquanto serviram para carregar a cruz, enquanto se encheram de sangue para nossa Redenção, enquanto suportaram os cravos da Paixão, é perfeitamente verdadeiro, legítimo, necessário.
E até um lindo modo de adorarmos a Nosso Senhor Jesus Cristo é nos unirmos às disposições e meditações de Nossa Senhora, na ocasião em que Nosso Senhor foi descido da cruz, quando Ela teve seu corpo sacratíssimo no colo, exangue. Ela contemplou cada parte desse corpo machucado com uma dor, com uma profundidade de conceitos, de amor, de veneração, de respeito, de carinho. Ela considerou cada uma dessas partes, adorou, com certeza, cada uma dessas partes em sua significação e sua função específica; mediu a ofensa feita à divindade no ter flagelado aquela parte e com isso - afinal de contas - Ela praticou essa devoção.
Portanto, é apenas uma questão de conveniência, uma questão de senso das aparências, senso das proporções, se ousasse exprimir-se assim, que leva a Igreja a não promover a adoração de cada uma das partes do corpo de Nosso Senhor.
O que é, propriamente, a devoção ao Sagrado Coração? É a devoção ao órgão de Nosso Senhor, que é o Coração. Mas na Escritura, o coração não tem o significado sentimental que tomou no fim do século XVIII, mais ou menos, e certamente no século XIX. Não exprime o sentimento. Quando diz a Escritura: “A ti disse o meu coração: eu te procurei”, o coração aí é a vontade humana, é o propósito humano, é propriamente, a santidade humana. Aí quando Nosso Senhor diz isso, diz: "na minha vontade santíssima, Eu quero". O Evangelho diz: “Nossa Senhora guardou todas as coisas em seu coração e as meditava”. Os senhores percebem que não é o coração sentimental, mas a vontade d’Ela, a alma d’Ela que guardava aquelas coisas e pensava sobre elas. O coração é a vontade da pessoa, o seu elemento dinâmico que considera e pondera as coisas. O Sagrado Coração de Jesus é a consideração disso em Nosso Senhor, simbolizado pelo coração, porque todos os movimentos da vontade do homem podem ter no coração uma repercussão. Nesse sentido, então, é o órgão adequado para exprimir isso. E é nesse sentido, então, que se adora o Santíssimo Coração de Jesus.
Por correlação, por conexão, existe a devoção imensamente significativa, do Imaculado Coração de Maria. O Imaculado Coração de Maria é um escrínio dentro do qual encontramos o Sacratíssimo Coração de Jesus.
A essa devoção Nosso Senhor prometeu um caudal de graças. Comentei o ano passado as promessas do Coração de Jesus a quem fizer as nove primeiras sextas-feiras. A mais marcante delas, talvez, é que as almas que fizerem as nove sextas-feiras não morrerão sem terem a graça especial de se arrependerem antes. Não quer dizer que elas certamente irão para o Céu. Quer dizer que terão uma grande graça antes de morrer; não quer dizer que vão perceber que vão morrer, mas no momento relacionado com a morte, elas terão uma grande graça, tão grande que todas as esperanças se podem ter de sua salvação.
Os senhores compreendem quanto empenho há na Igreja em que essa devoção seja conhecida, seja apreciada, seja medida com a razão, porque devoção sentimental não tem sentido. Devoção varonil é a que procura conhecer a razão de ser da coisa e ama a coisa pela sua razão de ser; assim é que um homem e uma mulher forte do Evangelho pensam a respeito das coisas de piedade. Então, pensar nisso, querer isso, dirigirmos nossa alma ao Coração de Jesus como fonte de graças calculadas para a época de Revolução, calculada para as épocas difíceis que deveriam vir e pedir que o Coração de Jesus, regenerador pelo sangue e pela água que d’Ele saiu, nos lave. Isto é propriamente a oração magnífica que nas sextas-feiras e, sobretudo, na primeira sexta-feira do mês, e na Sexta-feira da Paixão se deve considerar.
Assim, termino insistindo nesse ponto. Já falei que aquele centurião que perfurou com uma lança o Coração de Jesus, ao praticar esse ato de violência contra esse verdadeiro sacrário que era o Coração Sagrado de Jesus, da água e do sangue que saíram do flanco de Nosso Senhor, uma parte jorrou em seus olhos, e ele imediatamente se curou e recuperou a vista. Para nós isto é altamente eloqüente.
Quer dizer que quem tem devoção ao Sagrado Coração de Jesus pode pedir uma graça igual, não para a vista física, da qual, graças a Deus, nenhum de nós carece, mas para a vista mental, se queremos ter senso católico, se queremos ter senso da Revolução e da Contra-Revolução, se queremos ter a percepção de como a Revolução e a Contra-Revolução trabalham em torno de nós, se queremos ter senso para distinguir em nós o que é Revolução e Contra-Revolução, se queremos ter conhecimento de nossos defeitos, se queremos ter conhecimento das almas dos outros para fazer bem aos outros, se queremos ter um bom discernimento para os estudos, se queremos ter distâncias psíquicas para termos equilíbrio mental e nervoso e para nos curarmos  — o quanto possível — de molezas de toda ordem, podemos e devemos recorrer ao Sagrado Coração de Jesus que, com uma graça jorrada dEle — como a água que curou o centurião — possa eliminar a cegueira de nossas almas, porque somos cheios de cegueiras de todos os graus e ordens.
Peçamos ao Sagrado Coração de Jesus, por intermédio do Coração Imaculado de Maria — porque só assim, por intermédio de Nossa Senhora é que se obtém dEle as graças que nos curem dessa múltipla cegueira —, e teremos feito um esplêndido pedido e estaremos a caminho de conseguir uma magnífica graça.

(Conferência "Santo do dia", 4 de março de 1965)


[1] cfr. Marguerite-Marie Alacoque, Vie et oeuvres, Saint Paul, Paris-Fribourg, 1990, t. II, pp. 335-337, 343-344, 435-436
[2] Fernando Furquim de Almeida, que foi um dos mais antigos discípulos de Dr. Plinio, era colaborador freqüente do mensário de cultura católica “Catolicismo”;
[3] cfr. Por exemplo, a encíclica "Inscrutabile divinae Sapientiae" do Papa Pio VI, em 1775

sábado, 26 de maio de 2018

LIBERDADE DE EXPRESSÃO, UM IDEAL VAZIO E SEM CLARA DEFINIÇÃO


              
Liberdade, seja ela qual for, como a de expressão, a de locomoção, tornou-se um intocável “dogma” dos juristas republicanos da era moderna. Mas, a liberdade de expressão tem destaque porque ela privilegia especialmente os órgãos de imprensa (hoje chamados de mídia, ou “mass media” nos EUA), que desejam agir sem restrições legais para divulgar suas notícias ou seus pensamentos.
A revista “Veja”, em sua edição de 17.06.2015, traz em seu editorial um elogio umbroso à medida tomada pelo STF que, em sua unanimidade, votara uma semana antes contra dois dispositivos do Código Civil, os quais garantiam ao indivíduo total privacidade no caso de divulgação biográfica. Quer dizer, o órgão supremo de nossa justiça considera que dois artigos do CC são inconstitucionais. Teriam outros artigos na mesma linha? Então um código tão importante para a vida cotidiana dos cidadãos foi aprovado contendo dispositivos que ferem a constituição? Ou trata-se apenas de interpretação momentânea, feita ao sabor de pressão da mídia?
A propósito, vou tratar aqui apenas da confusão que fazem em torno da expressão “liberdade de expressão”.

1.    1. Geralmente a lei que protege a tal liberdade visa quase que exclusivamente o Estado, que não pode se arrogar o direito de reprimir a livre manifestação de seus cidadãos. Foi com tal objetivo que foram criados vários dispositivos legais, isto é, visam antes de tudo evitar que o governo possa tolher a liberdade individual ou coletiva de seus dirigidos. Quando a temática passa a ser discutida no que diz respeito aos direitos de pessoa a pessoa, aí a legislação deve procurar evitar que um direito possa prejudicar outro. No caso, um indivíduo que use de sua liberdade de expressão não pode ir de encontro a outra pessoa.

2.    2Nem a Constituição, nem lei nenhuma pode garantir que qualquer pessoa possa divulgar o que quiser, sem nenhum respeito aos outros direitos sociais. Nesse sentido a colisão de direitos deve favorecer àqueles que precisam preservar sua idoneidade moral, que tem um valor incalculavelmente maior do que as idéias de quem quer que seja.

3.  3.   O tema em questão é porque andaram divulgando biografias de algumas personalidades, na qual mostravam fatos ocultos, os quais, ao serem divulgados, prejudicariam a imagem dos mesmos. Baseados nessa interpretação esdrúxula dos direitos, o STF simplesmente acha que os autores de tais livros podem, sim, divulgar o que quiserem porque estarão simplesmente manifestando uma liberdade constitucional.  Quanto a outros direitos, como, por exemplo, o da moralidade pública, do respeito à privacidade, que são bens muito maiores do que a liberdade de expressão, nada valem para tais ministros. A liberdade de expressão é um bem supremo, superior a qualquer outro, segundo eles.

4.    4. Mas, essa maneira de ver não vale para outros. Por exemplo, um autor divulgou, anos atrás, um livro criticando os judeus. Foi condenado, inclusive obrigado a retirar o livro de circulação, porque manifestara em seu texto pensamento anti-semita. Não se discute aqui se a idéia, o teor do livro do autor, era bom ou mal. Para serem coerentes com o mesmo princípio, tais ministros deveriam considerar que o autor do livro anti-semita simplesmente cumpriu um dispositivo constitucional que era de expressar livremente o que pensa.

5.    5. A liberdade é um direito, sim. Ela não se circunscreve apenas ao de ir e vir, mas também o de manifestar livremente seu pensamento. Podemos manifestar nossos pensamentos de várias formas, ou falando, criticando, ou então escrevendo, que é o caso dos literatos ou jornalistas. No entanto, quando usamos desta liberdade para a divulgação de idéias anti-sociais, como é o caso do próprio anti-semitismo, ou de princípios que pervertem a sociedade, como a permissividade sexual ou a propagação do uso de drogas, por exemplo, nesse caso o princípio não pode prevalecer porque estará ferindo outros direitos sociais, como o da moralidade social, o da honestidade, etc., Então, o legislador deve deixar bem patente que a liberdade de expressão não pode ser plena e abranger todos os pensamentos que o homem tem, mas deve obedecer os limites que a própria sociedade concede a outras liberdades.