SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

domingo, 6 de agosto de 2017

A QUEM APROVEITA A VENEZUELA SER DOMINADA POR REGIME COMUNISTA?




A situação do mundo hoje é convulsa e difícil de ser compreendida. Isto porque as coisas que ocorrem parecem não ter lógica, o homem moderno perdeu completamente o sentido de direção, de rumo, de saber para onde vai  o que fazer da vida. E isso ocorre também com governos e até nações inteiras.
Vejamos a situação da ideologia que dominou quase que completamente o século passado: o marxismo e sua consequência política mais imediata que é o comunismo, ou, como alguns chamam também o “capitalismo de Estado”, quando todas as riquezas, fontes de produção e de serviços, além de todos os cidadãos, passam a pertencer única e exclusivamente ao Estado. Vai completar um século que ocorreu um golpe para implantar este regime na Rússia, sendo chamado originalmente de “ditadura do proletariado”. Aos poucos este regime foi invadindo (pela força, astúcia e  rios de dinheiro) os países vizinhos da Rússia, formando um conglomerado de nações cativas sob a alcunha de União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Em pouco tempo já se implantava no mundo o maior império de que a História já se ouviu falar, dominando a China, grande parte de países asiáticos e da África.
Nas Américas, houve várias tentativas de se implantar tal regime, sendo uma das mais violetas a do México, a menos de dez anos após o golpe na Rússia.  Mas, tanto lá como em outros países, tipo Brasil, Argentina e Chile, além de outros da América do Sul assolados por guerrilhas cruéis, tais tentativas foram frustradas graças a sadias reações das populações. Somente em Cuba tal regime se fez implantar nas Américas, perdurando até hoje com quase sessenta anos de todo tipo de violências e misérias que lhe são afins.
No entanto, a partir da última década do século passado a ideologia marxista comuno-socialista começou a perder fôlego. Vários países se livraram da opressão comunista, como a Hungria, a Polônia, a Lituânia, no Leste Europeu. A própria Rússia abrandou a ditadura do proletariado e instituiu um regime de meias liberdades, sendo porém dominado por partido único (o PC) até hoje. De outro lado, os partidos comunistas e socialistas mais poderosos do mundo começaram a minguar por falta de contingentes ou carência de audiências. O PC italiano, por exemplo, era o mais rico e poderoso do Ocidente, e hoje vive à míngua. Os partidos socialistas mais poderosos dominavam a política na França, Espanha, Portugal  e Grécia, mas já não se pode dizer o mesmo hoje, embora continue a influenciar na promulgação de leis de cunho nitidamente socialistas. O que queremos destacar, porém, é que mediante o fracasso retumbante da doutrina e dos princípios marxistas implantados em vários países, tudo em torno deles fenece e tende a morrer de inanição.
Como se justifica, então, que após um século da primeira experiência comunista na Rússia haver demonstrado seu mais terrível fracasso através dos anos ainda surjam políticos que queiram implantá-la em seu país? Como entender que a Venezuela possa trilhar pelo mesmo caminho já tão sobejamente provado da pobreza, da fome e da miséria, que é a consequência do regime marxista, seja comunista ou socialista?
Talvez a resposta esteja numa tática diferente que a Revolução universal quer aplicar no mundo. Não, o rumo mais avançado da Revolução hoje já não é mais o velho e decrépito comunismo. Muito mais avançou ela (a Revolução universal) na Europa com a corrupção moral e dos costumes, com a retumbante licenciosidade e liberdade sexual e da promiscuidade estonteante nos costumes sociais e morais daquela sociedade. Avançou porque corrompeu e deixou toda a Europa sujeita, por exemplo, ao avanço do islamismo sem provocar qualquer comoção ou reação de rechaço. Mole e sensual, nada faz o europeu para enfrentar a tão absurda “invasão” muçulmana, pior do que se fosse dominado por regime comunista. Acomodou-se também com leis facínoras como as do aborto e eutanásia, ou com leis imorais como aprovação de casamentos homossexuais, gozando placidamente uma vida cheia de deleites sem se incomodar com o resto do mundo, se há guerras e injustiças em outros povos. Fora isso, lá não se fala mais em socialismo, comunismo, marxismo ou coisas congêneres. A fim de manter este clima de vida gozosa e fruitiva, sem qualquer perturbação aparente, a visão de uma regime comunista deve ser afastada para longe.
Mas, alguma coisa nova surgiu por lá e ganha corpo no resto do mundo. É a Revolução feita pelas tão decantadas “redes sociais”. Ela já se fez presente em alguns países. Operou com sucesso na famosa “primavera árabe”, derrubando governos como o do Egito, e já se fez presente na Europa com o movimento chamado de “Indignados”. Nos Estados Unidos teve um similar, com o título de “Ocupem Wall Street”. Esta Revolução, feita assim de forma mágica através das redes virtuais, nada produziu de positivo até agora. Por que? Porque ela mesma se define como sem meta, sem rumo, sem governo, sem partido, enfim, promove caos e anarquia. Sua bandeira é apenas um rosto fantasmagórico com o nome de “anonymus”, indicando que não tem nome, além de não ter rumo certo.
De onde vem tudo isto? Tudo indica que o manual que orienta tais grupos foi elaborado pelo americano Gene Sharp, que tem o nome de “como fazer uma revolução pacífica” ou coisa que o valha. E mesmo que alguns não sigam o manual diretamente, de uma forma indireta sofrem os efeitos do mesmo por aqueles que o aplicam e divulgam suas normas. Por exemplo, todos estes movimentos se dizem “espontâneos”, como se tivessem surgido naturalmente e não pertençam a grupos organizados; não podem ter partidos políticos ou ostentar bandeira disso ou daquilo, tem que ser anônimo, sem ideologia. E se algum grupo se apresenta desta forma está aplicando a tática ensinada por Gene Sharp, Tais métodos de ação são divulgados profusamente via internet.
E que ligação tem o problema da Venezuela com isso? É que a Revolução precisa mostrar ao público um alvo para que essa Revolução seja detonada. E nada mais visível para ser combatido do que um regime comunista nas Américas, implantado exatamente num país outrora senão rico pelo menos em ascensão e há anos sob domínio de leis e governos socialistas. Assim fica mais fácil unir muita gente em torno das redes sociais e combater o inimigo comum. E nisso pode haver muitas vantagens como derrubar um regime opressivo, ditatorial e difusor de fome e misérias. Mas, há também muitas desvantagens como, por exemplo, deixar a sociedade no caos, sem rumo, porque eles não apresentam solução para o que vem depois. O “anonymus” quer apenas o “direito” de estar na rua fazendo protestos, queimando pneus, atirando pedras, destruindo tudo como os “Black blocs”, não possui nenhuma proposta positiva de reconstrução da sociedade em sólida bases morais. Quando Maduro cair, haverá uma organização mais presente nas redes sociais para fazer o mesmo com os que virão depois, sejam comunistas ou não.

A história de Nossa Senhora de Coromoto, a Padroeira da Venezuela, diz um pouco sobre o que espera a Providência daquele povo. A história conta que a Santíssima Virgem Maria apareceu a um cacique na aldeia de Coromoto, mas o mesmo jogou-lhe uma pedra. Naturalmente, a imagem sumiu sem sofrer os efeitos da pedrada, mas ela ficou para sempre gravada milagrosamente na pedra que o índio jogou, e até hoje pode ser vista indelevelmente. Perante tal milagre, o índio se converte com todo seu povo. Assim, a “pedrada” de hoje pode ser a implantação do comunismo, mas espera-se que a Providência reverta isso de forma milagrosa e produza efeitos contrários completamente alheios e diferentes daqueles que os “anonymus” querem disseminar na Venezuela, fazendo com que aquele povo retome o rumo de uma verdadeira civilização cristã. 

SANTA LÍDIA E A EXPANSÃO DO CRISTIANISMO NA EUROPA



Assim era chamada a Santa por causa de sua origem: Lídia era uma província do Egito, colonizada pelos filhos de descendentes de Ludim (Gen 10, 13). Soldados ludianos muitas vezes tomaram parte em guerras contra o Povo Eleito (Jer 46,9; Ez 27, 10, e I Mac 4, 25).  Nossa santa era natural da cidade de Tiatira, mas residindo em Filipos, na Macedônia, onde o Apóstolo São Paulo, em companhia de Silas, Timóteo e Lucas, chegou na segunda viagem missionária, entre os anos 50 e 53.
Tiatira que ficava, pois, na região chamada Lídia, na parte ocidental da Ásia Menor, era conhecida pela sua indústria de tingimento e é provável que Lídia tivesse aprendido ali as habilidades que vieram a tornar-se a sua profissão. A existência de fabricantes de corante tanto em Tiatira como em Filipos é comprovada por inscrições descobertas por arqueólogos. É possível que Santa Lídia se tivesse mudado por causa do trabalho, quer para cuidar do seu próprio negócio, quer como representante de alguma firma de tintureiros tiatirenos, não se sabe ao certo. Mais tarde, já em Filipos, Lídia vendia a púrpura tíria[i], quer o corante, quer o vestuário e tecidos tingidos com ele. Parece que era ela quem dirigia a sua casa, o que pode ter incluído escravos ou servos, e, portanto, possivelmente era viúva ou solteira, haja vista que não se menciona se era casada.
O corante púrpura era extraído de várias fontes. O mais caro era de certos tipos de moluscos marinhos. Segundo Marcial, poeta romano do Século I, um manto da mais fina púrpura de Tiro, outro centro fabricante dessa substância (sempre citada ao lado de Sidônia), chegava a custar 10.000 sestércios, ou 2.500 denários, o equivalente ao salário de 2.500 dias de um trabalhador. É óbvio que essas roupas eram artigos de luxo ao alcance de poucos.
Santa Lídia é descrita por São Lucas, nos Atos dos Apóstolos, como "adoradora de Deus", o que indica que poderia ser uma gentia convertida ao judaísmo.
Pelo fato de negociar com tecidos é a padroeira dos tintureiros, tendo sido a primícia do cristianismo na Europa. Os missionários de Cristo, após terem pisado o solo europeu, aguardaram o sábado para encontrar os correligionários hebreus em algum lugar, na margem do rio Gangas, onde presumiam que eles pudessem se reunir (na falta de uma sinagoga) para a oração em comum e para a leitura de alguma página da Escritura. Assim descreve São Lucas como ocorreu este encontro:
"No sábado, saímos porta afora, às margens do rio, onde supúnhamos que se fizesse oração. Sentados, dirigimos a palavra às mulheres que se haviam reunido. Uma delas, chamada Lídia, negociante de púrpura, da cidade de Tiatira, adoradora de Deus nos escutava. O Senhor lhe abriu o coração, de sorte que ela aderiu às palavras de Paulo. Tendo sido batizada ela e a sua família, fez este pedido, dizendo: Se julgais que eu sou fiel ao Senhor, entrai em minha casa e ficai nela. E forçou-os (a isto). (At 16, 11-15).
Supõe-se que Lídia fosse abastada e tivesse muita autoridade na família, uma vez que o tecido com que trabalhava era precioso, e seu testemunho foi suficiente para que seus familiares pedissem o batismo, aceitando os missionários em casa como hóspedes. Sabe-se também que São Paulo era tecelão e pode ter havido algum encontro entre os dois do tipo “negocial” fora do religioso.
Esta deve ter sido a primeira conquista cristã em terra europeia, fora de Roma, é claro: Lídia, desde então, foi tida como protótipo e símbolo de todas as mulheres que trariam entre as paredes de seu lar a chama da fé em Cristo. A rica comerciante, dócil à graça, havia anteposto os interesses do espírito aos interesses econômicos, abandonando o comércio para recolher-se com outras mulheres num lugar de oração, junto às margens do rio Gangas. Lídia, trazida à sua alma pelas palavras do Apóstolo e pela graça batismal, pediu com doce insistência, ou melhor, obrigou os missionários a aceitarem a sua hospitalidade.(At 14, 14-40).
Dessa maneira, a casa de Lídia tornou-se o primeiro centro comunitário, a primeira igreja na Europa. Mais tarde, depois de Paulo e Silas terem sido soltos da prisão, eles foram novamente ao lar de Lídia. Encorajaram ali os irmãos e então partiram de Filipos (Atos 16, 36-40).. Pode ser que os crentes na recém-formada congregação ou igreja filipense usassem a casa de Lídia como local para reuniões. É lógico imaginar que sua casa tenha continuado a ser um centro de atividades cristãs na cidade.
O culto a Santa Lídia é uma tradição das mais antigas da Igreja Católica, foi inscrita na lista dos santos católicos pelo cardeal César Barónio em 1607. A santa é festejada no dia 3 de agosto


O PAPEL DE SANTA LÍDIA NA PROPAGAÇÃO DO CRISTIANISMO NA EUROPA

Os episódios e comentários a seguir foram extraídos de uma biografia de São Paulo, de autoria do alemão Joseh Holzner:

“Lídia, a comerciante de púrpura de Filipo  (Act 16, 11-15)
Foi um grande dia da história do gênero humano, quando São Paulo e seus três companheiros puseram seus pés pela primeira vez ns Macedônia, em solo europeu. Noutros tempos viveu aqui um valente, são e nobre povo, que pela atrevida empresa de um jovem rei não somente foi célebre no mundo, mas também, no pensamento da Providência, já séculos antes havia de preparar ao Evangelho o caminho sobre a terra. Com uma simplicidade e grandeza admiráveis, disse a Sagrada Escritura no início do Livro dos Macabeus: “E sucedeu que depois que Alexandre da Maceônia derrotou Dario, rei dos persas e medos, tomou por assalto todas as fortalezas, vencendo todos os reis da terra e penetrado até nos últimos termos do orbe, emudeceu o mundo diante dele... Depois caiu enfermo e conheceu que havia de morrer”. (I Mac 1, 1-8). Mesmo os maiores homens, chamados Alexandre ou César, são somente preparadores do caminho e criados de Deus. Eles haveriam de abrir os sulcos em que o divino Semeador pudesse espalhar sua semente. Entre todos os povos da antiguidade os macedônios foram os que mais assemelharam-se aos romanos. Desde o ano 167 antes de Cristo os romanos foram senhores do país e o dividiram em quatro distritos de governo, dos quais os mais importantes foram Tessalônica e Filipos.
Ao longe já se via o templo de Diana da pequena cidade marítima de Neápolis (hoje Kawalla), a qual está situada em forma de teatro sobre um saliente rochedo banhado pelo mar. Um círculo, no pavimento da igreja de São Nicolau assinala hoje o lugar onde São Paulo desembarcou.  Junto à pequena cidade, nossos viajantes, ora pela famosa estrada romana Via Egnacia, ora por um caminho escavado na rocha, subiram ao monte costeiro Pangeo até à altura do desfiladeiro, onde se abriu ante seus olhos uma vista admirável até o norte. Viram sob a planície do vale, rico em fruteiras, na qual se levantava defronte, sobre o último prolongamento da montanha, Filipos com sua acrópole. Era uma paisagem cheia da antiga poesia bucólica. Agora estava ali os mensageiros de uma nova liberdade, os arautos de um novo conquistador do mundo, que sem espada havia feito mais pela liberdade do mundo que todos os campeões da liberdade juntos. O imperador Augusto havia elevado Filipos à categoria de colônia militar romana com direito municipal itálico e isenção de tributos. Os veteranos se julgavam romanos genuínos e haviam levado consigo, com suas divindades romanas, Minerva, Diana, Mercúrio e Hércules, a honradez e conduta romanas. Pela estrada militar romana que atravessava toda Macedônia de leste a oeste e à outra parte do Adriático ia por Brindis até Roma, sentiam-se unidos com a capital do mundo e o Júpiter Capitolino. Desta forma, Filipos veio a ser uma cidade provincial típica romana, uma Roma pequena com foro, teatro, acrópole e muralhas fortificadas. Os cidadãos estavam orgulhosos de sua constituição favorável à liberdade e à maneira dos cônsules elegiam cada ano dois prefeitos ou “arcontes”, chamados também pelo povo de “estrategas”. Quando estes iam ao foro para pronunciar sentença, precediam-lhes como em Roma dois litores.
Mas em meio a estes romanos viviam ainda os descendentes dos nativos da Macedônia e Trácia que o rei Filipo havia estabelecido aqui noutro tempo para cavar em busca de ouro no Pangeo. Eram todavia intratáveis. Os homens, ásperos, soberbos e teimosos; as mulheres, livres e ansiosas por independência, falavam retamente sobre política e tinham parte nas eleições e turbulências políticas. Se aqui as mulheres se faziam cristãs, podiam exercer grande influência.  Sobretudo as almas das mulheres, tão sensíveis para o celestial, facilmente se lhes comunicava fervor religioso, porque estavam em parte imbuídas em doutrinas orientais misteriosas com seus hinos sublimes e ideias de imortalidade. São Paulo encontrou aqui, sobretudo entre as mulheres, adeptos entusiastas. Filipos prometia ser um proveitoso campo de missão.
Nos dias seguintes indagaram as perspectivas e pontos de contato para a pregação do Evangelho. Assim chegou o sábado. Viviam poucos judeus em Filipos. Não havia nenhuma sinagoga, porque faltava o número dos escribas requeridos segundo a lei rabínica para formar um tribunal. Mas, se não conseguiram possuir uma sinagoga pelo menos havia de ter um lugar fechado, rodeado de um muro ou cercado de sebe como lugar de oração. Os rabinos sabiam que o povo sem o exercício público de religião logo haviam de cair na indiferença ou no ateísmo. São Lucas teve conhecimento de dito lugar, e conduziu seus compatriotas para a porta da cidade, ao longo do curso do rio Gangas. Ali viram logo o lugar rodeado de uma parede baixa de jardim. Com admiração sua encontraram dentro do cercado somente algumas mulheres, parte judias, parte gentias tementes a Deus, que rezavam suas devoções da manhã. Majestosamente ao fundo o Pangeo alçava seu cume nevado e ao lado o arroio murmurava sua melodia. Estas mulheres não sabiam muito seguramente, mas tinham um vivo interesse religioso; e àquele que tem isso Deus o leva mais adiante. Aqui ante estas mulheres conseguiu São Paulo dar livre curso a seu coração. Poucas vezes terá tido um público tão agradecido. Neste grupo de mulheres causa maravilha ver a uma senhora bem vestida, especialmente interessada no que toca a religião, a qual não era de Filipos, mas uma piedosa pagã vinda de Tiatira, na Lídia. Por isso era chamada de Lídia. Era uma rica comerciante, que, sem dúvida, depois da morte de seu esposo, do qual nada sabemos, continuou na cidade seu negócio com telas de púrpura. Sua pátria, Tiatira, era conhecida desde os tempos de Homero (Ilíada 4, 141) pelo comércio de púrpura. A púrpura era um tecido precioso e o comércio com ele exigia grande capital. Lídia era uma daquelas almas cristãs por natureza, que, logo ao ouvir falar de Jesus, o reconhecem ao ponto como o caminho, a verdade e a vida. É uma representação encantadora saber que a este ato religioso da manhã assistiram também, além de Lídia, Evodia e Sintique, que mais tarde rivalizaram entre si, e às quais São Paulo em sua carta aos filipenses exortou tão afetuosamente à paz. Assim, pois, temos já várias pessoas conhecidas nesta cidade.
Temos de ser muito reconhecidos a São Lucas pela formosa palavra com que introduz a conversação de Lídia, e que nos descobre sua compreensão do coração da mulher e da obra da graça: “O Senhor lhe abriu o coração para que escutasse atentamente as palavras de São Paulo”. Era uma mulher prudente e refletida. Uma hábil mulher de negócios analisa tudo detalhadamente. Mas aqui não há para ela nenhuma demora. Com extraordinária rapidez se resolve receber o batismo. Talvez tenha sido no mesmo dia, na noite de sábado para o domingo, quando São Paulo e seus companheiros com as mulheres recém convertidas desceram o sussurrante Gangas, onde se efetuou a solenidade do batismo. A resoluta comerciante Lídia, com seu jeito enérgico e vigoroso voz de dona de casa, logo também dispôs que todos seus criados recebessem o batismo. Mais ainda, dada sua energia é de suspeitar que não somente em Filipos, mas também em sua terra Tiatira foi uma apóstola de Cristo, e teve parte no louvor que São João no Apocalipse escreve por ordem de Jesus ao anjo da comunidade de Tiatira: “Conheço tuas obras, tua caridade, tua fé, teus serviços e tua paciência” (Apoc 2, 19).
Sua segunda ação como cristã foi convidar todos os missionários a deixar seu albergue e alojar-se em sua espaçosa casa de comércio: “Se me tendes por fiel ao Senhor”, disse. Isto estava cordialmente falado. Lídia tinha realmente boas razões: Sua casa era o único lugar adequado para as reuniões de culto da futura comunidade cristã. O que também seu pundonor cristão, sua necessidade material,  sua ambição feminina encontrassem certa satisfação em abrigar a primeira igreja cristã e favorecer os missionários, quem poderia vituperá-la por isso? “Assim nos obrigou!”, acrescenta São Lucas, risonho. Era uma honra para Lídia que São Paulo aceitasse o convite. Ela foi uma coluna para a igreja apostólica, uma amiga maternal do Apóstolo, de todos os mensageiros da fé e da recente comunidade. Quando São Paulo escreve depois : “Vós o sabeis, filipenses meus: quando comecei a pregar o Evangelho entre vós, e depois saí da Macedônia, nenhuma comunidade entrou comigo numa relação do mútuo dar e recebe senão somente a vossa... Também à Tessalônica me haveis enviado mais de uma vez algo para socorrer minha necessidade” (Filipenses 4, 15-16), sem dúvida muitas destas dádivas passaram pelas mãos de Lídia.
Quem haveria de pensar que o Evangelho faria sua entrada na Europa tão calada e ocultamente? Não solenemente como no Areópago ante os filósofos, não dramaticamente como em Chipre ante o homem de Estado, mas em forma de idílio como uma manhã de verão fresca pelo rocio ou como uma deliciosa aurora no Oriente. Estes suaves e contudo vigorosos tons de sentimento introduziu a mulher no Evangelho já no tempo de Jesus. E em Filipos continua ecoando. Quando o Evangelho veio para a Europa, chegou primeiramente para as mulheres, porque os homens não estava presentes, como também entre os samaritanos foi uma mulher a que Jesus iniciou no mistério do reino de Deus. As mulheres foram as últimas ao pé da cruz, na sepultura, assim as primeiras junto ao sepulcro vazio. Nas tristes histórias de hipocrisias, ódios, perseguições, injúrias, deserções e covardes fugas não encontramos no Evangelho mulher alguma. Os homens, como mensageiros da fé,e missionários e defensores dos interesses religiosos estão, na verdade, mais na luz do reverbero; porém, onde estaria a Europa cristã sem a mulher cristã em casa como mãe, esposa, irmã, como auxiliadora virginal-maternal da miséria de todas as classes? São Paulo teve para este lado da feminilidade uma profunda compreensão e foi o primeiro em empregar a mulher ativamente na missão. Ele aprecia a mulher dotada de gênio, como Priscila que instrui ao douto Apolo. Em qualquer de suas cartas dispensa saudações e reconhecimento para as mulheres. Reconhece os serviços de Cloe em Corinto, de Febe em Cencreas, a quem confia sua carta aos romanos, e o ser pequena mulher a mãe Rufo que foi também para ele uma mãe. Quando escreve ao rico comerciante Filemon não esquece de saudar sua esposa Apfia. Aprecia especialmente o trabalho da mulher de família e a educação dos filhos, pela qual a mulher adquire o céu; aprecia as filhas virgens de Filipe de Cesarea, dotadas de profecia; seu cuidado se dirige também às boas viúvas, que se destacavam no campo da caridade e por isso eram mantidas pela comunidade (I Tim 5, 3-16). Como profundo conhecedor do gênero humano tem uma olhada para todos os bons lados do caráter feminino. As nobres mulheres de Filipos como santas figuras estão às portas da Europa, como se quisessem recordar a todas suas irmãs desta parte do mundo que as mulheres da Europa têm na Igreja cristã um santo destino, de ser sacerdotisas, às quais se confiou em primeiro lugar o sagrado fogo que fez feliz e grande a nossa parte do mundo.
Mas tampouco devemos esquecer àqueles nobres varões, como Epafrodito, a quem São Paulo chama seu “companheiro de armas, co-militante e colaborador”, que visita o Apóstolo preso em Roma e lhe traz presentes. Também Clemente e Sicigo (se realmente esta última palavra é um nobre mesmo) e muitos outros.estão ao lado daquelas mulheres, e em verdade com tal constância que São Paulo sabe estar escritos seus nomes no livro da vida (Fil. 4, 3)
Nenhuma comunidade foi tão amada por São Paulo como Filipos. Ela foi em solo europeu seu primeiro amor, “seu gozo e sua coroa” (Fil. 4, 1). “Deus é testemunho de como os amo a todos vós do fundo do coração” (Fil. 1, 8).

(“San Pablo – Heraldo de Cristo” – de Josef Holzner – Editorial Herder, Barcelona, 1956 – págs. 180/185)



Breve história da “púrpura tíria”
TIRO foi o principal porto marítimo da antiga Fenícia, no território conhecido atualmente como Líbano. Essa cidade tinha um próspero comércio de tecido púrpura. Foi por causa de Tiro que essa cor viva ficou conhecida no Império Romano como “púrpura tíria”.
Por causa de seu alto preço, a cor púrpura veio a ser associada com realeza, honra e riquezas. Inclusive, por meio de um decreto imperial na Roma antiga, uma pessoa comum que se atrevesse a vestir um traje completo tingido de púrpura da melhor qualidade era considerada culpada de alta traição.
Esse corante especial, tanto naquela época como atualmente, é extraído de certos moluscos em pequenas quantidades — uma gota de cada. Os tírios usavam os moluscos “múrices”, principalmente o brandaris e o trunculus, encontrados em diversas regiões ao longo da costa do Mediterrâneo. Podiam-se obter diferentes tons desse corante, dependendo do local exato onde os moluscos eram apanhados.
 A “púrpura tíria” (também chamada de “púrpura de Tiro” em grego: πορφύρα, porphyra; em latimpurpura) é uma tinta natural de coloração vermelho-púrpura, extraída de caramujos marinhos, e que provavelmente foi produzida pela primeira vez pelos antigos fenícios. Esta tinta tinha grande valor na Antiguidade por não desbotar - ao contrário, ela se torna gradualmente mais brilhante e intensa com a exposição ao tempo e à luz do sol.
A púrpura tíria era cara; segundo o historiador Teopompo, do século IV a.C., "a púrpura para as tintas valia o seu peso em prata em Cólofon", na Ásia Menor. Estes custos transformavam os produtos têxteis que utilizavam a púrpura tíria em símbolos de status, e as antigas leis suntuárias ditavam e até proibiram o seu uso. A produção dos animais que forneciam a tinta era controlada com rigor durante o Império Bizantino, e subsidiada pela corte imperial, que restringia seu uso para a pintura das sedas imperiais; o filho de um imperador no poder era chamado de porfirogênito (porphyrogenitos, "nascido na púrpura"), tanto referindo-se à Pórfira, o pavilhão do Grande Palácio de Constantinopla revestido de pórfiro onde os herdeiros do trono nasciam, quanto à púrpura que futuramente trajariam.
A substância consiste de uma secreção mucosa da glândula hipobranquialde um dos diversos caramujos marinhos encontrados no Mediterrâneo Oriental, o gastrópode marinho Murex brandaris, o murex espinhoso Bolinus brandaris (Linnaeus, 1758), o murex listrado Hexaplex trunculus, e o Stramonita haemastoma.
No hebraico bíblico, a tinta extraída do Murex brandaris era conhecida como argaman (ארגמן). Outra tinta, extraída do Hexaplex trunculus, produzia uma cor índigo chamada de tekhelet (תְּכֵלֶת‎), usada em vestes trajadas para funções rituais.
Diversas espécies de moluscos da família Muricidae, como por exemplo o Plicopurpura pansa (Gould, 1853), das regiões tropicais do Oceano Pacífico oriental, e Plicopurpura patula (Linnaeus, 1758) da região do Caribe, no Oceano Atlântico ocidental, também produzem uma substância semelhante (que se transforma numa cor púrpura duradoura após exposição à luz do sol), e esta característica foi também explorada pelos habitantes locais nas regiões de ocorrência destes animais. Alguns outros gastrópodes predatórios, como os membros da família Epitoniidae, parecem produzir uma substância similar, que ainda não foi estudada nem explorada comercialmente. O molusco Nucella lapillus, do Atlântico Norte, também pode ser usado para produzir tintas púrpura e violeta.
Na natureza estes moluscos utilizam esta secreção como parte de seu comportamento predatório, e para funcionar como uma camada antimicrobiana que cobre seus ovos. O molusco secreta esta substância quando é tocado ou atacado fisicamente por humanos, portanto a tinta pode ser extraída através de um processo de "ordenha", que embora seja mais trabalhoso é um recurso renovável, ou através do método destrutivo, que consiste da coleta dos moluscos e do esmagamento de suas conchas. Segundo David Jacoby,[9] "doze mil conchas de Murex brandaris não produzem mais que 1,4 g de tinta pura, suficiente apenas para colorir a bainha de uma única veste."






terça-feira, 1 de agosto de 2017

DOIS PEQUENOS CONTOS SOBRE A LIBERDADE

O primeiro é de autoria de Alphonse Daudet. (século XIX), “A cabra de Monsieur Séguin”, um romancista francês que se perverteu nos ambientes mundanos de seu tempo. Ao entrar em alguns dos salões literários e mundanos, teve a companhia de uma das damas da imperatriz Eugenie (uma nobre decadente que se casou com Napoleão III), através da qual contraiu uma doença venérea extremamente grave e complicações pelo resto da vida, fazendo-o andar de muletas. De modo geral seus textos são irreverentes e anti-clericais, salvando-se o pequeno conto abaixo por dar um exemplo de como a falsa liberdade torna-se um malefício e não um bem.
O segundo, “O Sonho de Fulgêncio”, é de autoria de Amélia Rodrigues, uma escritora católica baiana que viveu no final do século XIX até o início do século XX. Há uma pequena semelhança nos contos, dando a impressão de que Amélia Rodrigues se inspirou em Alphonse Daudet para criar o seu. Mas, a semelhante é realmente muito pequena, pois a escritora católica mostra detalhes muito mais profundos a respeito desta liberdade tão ansiosamente procurada pelo homem, mas de forma geral mal praticada.


A cabra de Monsieur Séguin
Alphonse Daudet
Ao Sr. Pierre Gringoire, poeta lírico em Paris.

Meu amigo, tu serás sempre o mesmo! Oh, pobre Gregório!
Oferecem-te um lugar de cronista em um bom jornal de Paris, e tu tens a petulância de recusar...
Mas, olha-te, infortunado rapaz! Olha a tua roupa esfarrapada, tua face magra que apregoa a fome. Eis aí, portanto, aonde te conduziu a paixão das belas rimas!
Enfim, não tens vergonha?!
Mas, a vergonha não lhe vem à face! Queres permanecer livre, viver à tua maneira, até o fim...
Pois bem, a ti e a todos que pensam como tu, peço que escutem um pouco a história da "Cabra do Sr. Séguin." Verás o que se ganha em querer viver livre!
* * *
O Sr. Séguin nunca tivera sorte com suas cabras; elas arrebentavam a corda,fugiam para a montanha, e lá no alto, o lobo as comia. Nem os carinhos do dono, nem o medo do lobo, nada as retinha. Eram, ao que parece, cabras independentes, querendo a qualquer preço a amplidão e a liberdade. O estimável Sr. Séguin, que  nada compreendia do caráter dos seus animais, estava consternado e dizia:
- É o fim! As cabras se aborrecem em minha casa, não conservarei nenhuma delas...
Entretanto, ele não se desencorajava, e, depois de perder seis cabras do mesmo modo, comprou uma sétima. Somente, desta vez, teve o cuidado de a prender enquanto muito nova, para que ela se habituasse melhor a permanecer em sua casa.
Ah! Gregório, como era bonita a cabrinha do Sr. Séguin! Como era linda, com seus olhos doces, sua barbicha de sub-oficial, seus cascos negros e luzentes, seus cornos zebrados e seus longos pelos brancos que a cobriam como uma sobrepeliz, e, ademais, dócil, carinhosa, deixando-se ordenhar sem se agitar, sem meter os pés no balde. Um amor de cabrinha...
O Sr. Séguin tinha atrás da casa um curral cercado de plantas espinhentas. Foi lá que ele pôs a nova pensionista. Ligou-a com uma canga de madeira ao mais belo sitio do prado, tendo o cuidado de lhe deixar bastante corda. De vez em quando, ia ver se ela se encontrava bem. A cabra se achava muito feliz e pastava a erva de tão boa vontade que o Sr. Séguin estava encantado.
"Enfim", pensava o pobre homem, "eis aí uma cabra que não se aborrecerá em minha casa!"
O Sr. Séguin se enganava... e a cabra se aborreceu.
Um dia, ela disse para si mesma, contemplando a montanha:
"Como deve ser bom estar lá em cima! Que prazer saltar entre a vegetação, sem esta maldita corda que esfola o pescoço da gente! É bom para o burro ou para o boi pastar num cercado!... As cabras necessitam de largueza."
A partir desse momento, a erva do cercado lhe pareceu sem gosto. Sobreveio-lhe o tédio. Emagreceu e seu leite diminuiu. Dava dó vê-la arrastar a corda o dia inteiro, a cabeça voltada para o lado da montanha, com a boca aberta, fazendo "méééé"... tristemente.
O Sr. Séguin notou logo que a cabra tinha qualquer coisa, mas não sabia o que era... Uma manhã, quando acabava de a ordenhar, a cabra voltou-se e lhe disse no seu patoá:
- Escute, Senhor Séguin, eu enlanguesço em sua casa, deixe-me ir à montanha.
- Ah! Meu Deus! Ela também! - gritou o sr. Séguin estupefato, e com o susto deixou tombar o balde; depois, sentando-se se na relva ao lado de sua cabra disse com muita ternura:
- Como, Branquinha, queres deixar-me!
- Sim, Senhor Séguin.
- É pasto que te falta aqui?
- Oh, não, Senhor Séguin...
- Talvez estejas amarrada a distância curta demais. Queres que te alongue a corda?
- Não vale a pena, Sr. Séguin.
- Então, que é que te falta? Que queres?
- Quero ir para a montanha, Sr. Séguin...
- Mas, pobrezinha, tu não sabes que há o lobo na montanha... Que farás quando ele vier?
- Dar-lhe-ei chifradas, Sr. Séguin...
- O lobo pouco se importa com teus chifres. Ele comeu cabritas muito mais chifrudas do que tu... Sabes da pobre e velha Renaude, que estava aqui o ano passado, uma senhora cabra forte e malvada como um bode? Ela lutou com o lobo a noite inteira... depois, pela manhã, o lobo a comeu!
- Ai dela! Pobre Renaude! -- disse a cabrinha horrorizada, mas voltando a seu desejo, continuou:
- Isso não importa, Senhor Séguin, deixe-me ir à montanha!
- Divina Providência! - disse o Sr. Séguin - que acontece às minhas cabras?  Outra mais que o lobo vai comer... Pois bem, não! Não deixarei que isso aconteça! Eu te salvarei, a teu pesar! E porque receio que rompas a corda, vou fechar-te no estábulo, e ali ficarás por um tempo. Isso é para teu bem...
Em seguida, o Sr. Séguin levou a cabra para um estábulo, cuja porta fechou com duas voltas de chave. Infelizmente, esquecera-se da janela, e, mal virou as costas, a pequena roeu a corda e se foi...
Estás contente Gregório? Ris? Sei que estás contra a atitude do Sr. Séguin e que és do partido das cabras sedentas de liberdade! Continuemos nossa história, e vejamos se rirás por muito tempo.
Quando a cabra branca chegou à montanha, foi um encantamento geral!
Jamais os velhos pinheiros tinham visto nada assim tão lindo. Receberam-na como a uma pequena rainha. Os castanheiros se curvavam até o chão para acariciá-la com a ponta de seus ramos. As florzinhas da montanha se abriam à sua passagem e a cheiravam quanto podiam. Enfim, a montanha inteira fez-lhe festa.
Imagina, Gregório, como nossa cabra era feliz! Nada de corda, nada de canga... nada que a impedisse de pular, de pastar à sua maneira... E quanta erva havia! Até lhe ultrapassava os chifres, meu caro! E que erva! Saborosa, fina, recortada, feita de mil plantas... Era muito diferente do capim do cercado. E as flores, oh! Grandes campânulas azuis, digitalis de púrpura, com longos cálices, toda uma floresta de flores selvagens, transbordando sucos capitosos!...
A cabra branca, meio farta, espojava-se lá dentro com as pernas para o ar e rolava ao longo das encostas, de cambalhota com as folhas caídas e as castanhas...
Em seguida, saltava repentinamente e endireitava-se sobre as patas. Upa! Ei-la que partia, cabeça para a frente, através de cerrados e capoeiras, ora sobre um pico, ora no fundo de uma ravina, no alto, embaixo, por toda a parte... Dir-se-ia haver dez  cabras do Sr. Séguin na montanha.
É que a Branquinha não tinha medo de nada.
Ela franqueava de um salto grandes torrentes que lhe atiravam à passagem poeira úmida de espuma. Então, toda gotejante, ia estender-se nalguma rocha plana e se fazia secar ao sol... Uma vez, avançando à beira de um planalto, com uma flor de citisa entre os dentes, vislumbrou lá embaixo, bem lá embaixo, na planície, a casa do Sr. Séguin com o cercado atrás... Isso a fez rir até as lágrimas...
Como é pequeno! - disse ela - como pude permanecer lá dentro?
Pobrezinha! Ao ver-se empoleirada tão alto, acreditava-se pelo menos tão grande quanto o mundo.
Em resumo, foi uma linda jornada para a cabra do Sr. Séguin. Pelo meio do dia, correndo à direita e à esquerda, ela caiu no meio de um bando de gamos que despedaçavam, para comer, uma vinha selvagem. Nossa pequena corredora, de roupa branca, causou sensação.
De repente o vento esfriou. A montanha se tornou violeta; era a noite que vinha chegando...
- Já?! - disse a cabrinha e se deteve muito espantada.
Embaixo, os campos estavam inundados de bruma. O cercado do Sr. Séguin desaparecia na penumbra e da casinhola não se via senão o teto com um pouco de fumaça. Ela ouviu as campainhas de um rebanho que se recolhia e sentiu a alma muito triste... Um corujão que voltava ao ninho a assustou com as asas, ao passar.
Ela estremeceu... depois foi um brado na montanha:
Auuuu! Auuuu!
Ela pensou no lobo! O dia inteiro a louca não tinha pensado nisso... No mesmo instante, uma trompa soou bem longe, no vale. Era o bom Sr. Séguin que tentava um último esforço.
- Auuu! Auuu! Auuu!... Fazia o lobo.
- Volta! Volta!... - gritava a trompa.
Branquinha teve vontade de voltar, mas lembrando-se da canga, da corda, da cerca do curral, pensou que já agora não mais se podia voltar àquela vida, e que era melhor ficar.
A trompa não soou mais... A cabra ouviu atrás de si um rumor de folhas. Voltou-se e viu na sombra duas orelhas curtas, muito direitas, com dois olhos que reluziam em meio às trevas... Era o lobo!
Enorme, imóvel, sentado sobre as patas traseiras, estava ali, olhando para a cabrinha branca e saboreando-a por antecipação. Como sabia que a comeria, o lobo não se apressava... passado alguns instantes ele se pôs a rir maldosamente.
- Ah, ah, ah, ah! A cabrinha do Sr. Séguin! - e passou a grossa língua vermelha sobre as beiçolas carnudas.
Branquinha sentiu-se perdida... Por instantes, lembrando-se da história da velha Renaude que se tinha batido a noite toda para ser devorada pela manhã, disse para si mesma que talvez fosse melhor deixar-se comer imediatamente. Depois, tendo mudado de idéia, caiu em guarda, a cabeça baixa e o chifre para a frente, como corajosa cabra do Sr. Séguin que era... Não que tivesse esperança de matar o lobo - as cabras não matam o lobo - mas unicamente para ver se poderia resistir tanto tempo quanto a Renaude...
Então o monstro avançou e os pequenos chifres começaram a dança.
Ah, a valente cabrinha lutava com todas as forças! Mais de dez vezes (eu não minto, Gregório) ela forçou o lobo a recuar para retomar alento. Durante essas tréguas de um minuto, a gulosa colhia, às pressas, um brotinho da erva querida, depois retornava ao combate, com a boca cheia... Isso durou toda a noite. De quando em quando a cabra do Sr. Séguin olhava as estrelas dançarem no céu claro e dizia consigo mesma:
- Oh, tomara que eu resista até a madrugada...
Uma após outra, as estrelas se extinguiram. Branquinha redobrou as chifradas, o lobo as dentadas... Um pálido clarão apareceu no horizonte... O canto enrouquecido do galo subiu de uma fazenda.
- Enfim! - disse o pobre animal, que não esperava senão pelo dia para morrer; e ela estendeu-se por terra em sua bela pelagem branca, toda malhada de sangue...
Aí, o lobo se atirou sobre a cabrinha e a devorou.
Adeus, Gregório!
A história que ouviste não é um conto de minha invenção. Se algum dia vieres à Provença, nossos caseiros te falarão freqüentemente da "chèvre du monsieur Séguin, que se battégue tout la nouit avec le loup, e piei, pour la matine, le loup la mangé” -- A cabra do Sr. Séguin, que se bateu toda a noite com o lobo, e depois, pela manhã, o lobo a devorou.
Ouviste, Gregrório?
Le loup la mangé -- O lobo a devorou!


O sonho de Fulgêncio - Amélia Rodrigues
Aquele tresloucado Fulgêncio tinha fugido da casa de seu senhor.
E, todavia, o seu senhor era bom; tão bom que não se podia absolutamente imaginar outro ideal de senhor. Criara o servo em seus braços, desde pequenino; tratara-o nas moléstias; dera-lhe a alegria da infância, prados em que corresse, afetos que o confortassem; ensinara-lhe muitas coisas úteis, letras e artes; mostrara-lhe as fontes puras da felicidade perfeita...
Mas, apenas o servo ficou rapaz, leu ou disse-lhe alguém que a servidão era uma coisa triste e feia e cruel, mesmo naquelas condições honrosíssimas; sopraram-lhe aos ouvidos a palavra “liberdade”, e essa palavra agitou-lhe os nervos, num deslumbramento contínuo.
- Foge!... quebra as cadeias! Governa-te a ti mesmo, infeliz! Não curves a cabeça a poder algum! És dono de teu ser, de teus sentidos, de tua vontade. Oh, que bela conquista, a independência!
Assim lhe cantara dentro do cérebro a voz da mocidade, o sangue quente dos desejos sôfregos e, fora, a voz tentadora de outros libertos.
Contudo, uma réstia de luz  teimava em atravessar-lhe a mente O seu olhar inquieto espraiava-se longe, examinando o mundo.
- Ser livre!... fazer o que quiser, sem dar contas a ninguém!... Sim, deve ser essa a felicidade completa. Posso fugir, posso; mas... onde irei que deixe de ser servo?
Em toda parte há tiranos...
- Entrarás pelas brenhas... beberás a chama do sol e os aromas da natureza virgem, grandiosa, embriagante. A natureza é tua mãe, portanto deve ser a tua única senhora. No seio dela serás rei, forte como os leões, alcandorado como as águias, dormindo embora ao relento, mas respirando a plenos haustos a ventania dos píncaros ou a brisa meiga dos vales...
E o servo sonhou, noites e noites mal dormidas, com o espectro do sol da Liberdade, um espectro em forma de mulher a sorrir, com veste de íris e largas asas de borboleta espalmadas no horizonte sem fim... e de seus lábios espiralou um hino, um grito, apóstrofe:
- Oh Liberdade! És minha deusa, eu te adoro!
A face amorável do senhor tornou-se-lhe odiosa; a casa parecia-lhe estreita, mesquinha, deprimente, sem futuro, sem atrativos; a comida já não tinha sabor: os companheiros de lavoura davam-lhe tédio, com os seus ares de calcetas[1] imundos e simplórios...
Fugiu. Internou-se nos matagais. Comeu frutos áureos e doces, pendurados em ramos de esmeralda. Bebeu água cristalina em rios mansos, à sombra de cipoais em flor; embriagou-se com o sono de bromélias ardentes ou com o cheiro capitoso das palmeiras novas; ouviu trinados de aves, fragor de trovões, estrondo de torrentes a cair espumando prata...
E julgou-se feliz, e cantou, com voz de estentor[2] que atroava em penedias e vales, o hino que o seduzira:
- Oh Liberdade! És minha deusa, única! Eu te adoro!...
Passaram os tempos – tudo passa!... -  e mudou-se o cenário. Já não eram tapetes de relva, eram seixos agudos que os seus pés encontravam. Fez-se noite no céu; fez-se noite nos campos. Rugiam-lhe em torno panteras e tigres, de olhar vermelho e dentes a ranger...  Alapardava-se em furnas lóbregas[3] para dormir, se dormia. Tinha fome e sede, e já não achava nem frutos, nem água fresca rolando em pérolas na concha azul da rocha ao seu alcance...
Deu, depois, em brejos negros, em charnecas áridas. Mordiam-no insetos, serpentes se lhe enrolavam no corpo, asquerosas, geladas, cortantes... A roupa lhe caíra em pedaços...
E vinha-lhe à memória um retalho de versos lidos outrora, o diálogo entre o Lavrador e o Peregrino, do grande poeta luso[4] que, com outros, lhe ensinara o amor à Liberdade:

O Lavrador
Ó Senhor tão moço, d’olhos cor d’esperança,
Ides de caminho para algum lugar?
O Peregrino
Vou dar volta ao mundo...
O Lavrador
Sem arnês ou lança?
Ó Senhor tão novo, d’olhos cor d’esperança
Penas e misérias é que ireis achar!

Quais seriam esse arnês e essa lança tão preciosas ao combate da vida? A fé talvez?... Mas a fé, sobretudo a fé cristã, já não fizera branca-rota? Assim lh’o tinham afirmado os companheiros de prazer. Mesmo aquele poeta...
Não! ... a fé traz consigo a lei; a lei é uma cadeia: não pode ser elemento da felicidade. Para ser feliz... basta ser livre!...
 E suspirou, repetindo:
- Liberdade, és minha deusa única.  Eu te adoro!
Caiu um dia, enfim, exausto, quase morto, no fundo de paulento barranco. Lá ficou só, muito tempo. Seus amigos, os pássaros, voavam longe; suas namoradas, as flores, perfumavam outros viandantes. A fome era atroz, o frio era intenso... Sentia-se velho, alquebrado, incapaz de um esforço. O desespero retorcia-lhe os membros; clarões de raiva impotente lhe passavam nos olhos.
E gemia:
-Oh! Natureza! Não és tu minha mãe? Não foi de ti que nasci? Por que me matas? Qual foi meu crime? Amar a liberdade?... Mas a liberdade não é direito do homem? Teu maior e mais belo direito? Eu quis viver com teus filhos todos, Natureza! Os filhos que ficam no teu ninho, apegados contigo! E morro sem que tu me consoles. Mas a vida não é um dom teu, um dom que eu devia, até o fim, aproveitar para o gozo, como os meus irmãos animais?
E rugia, mordendo a lama, sentindo nos membros trôpegos o contato dos vermes.
- Meus irmãos todos são felizes em ti, mãe Natureza, quando o homem não os faz sofrer. Estes vermes que comem vasa... estes lagartos cinzentos que moram nos troncos podres... Por que razão só o homem, teu filho mais nobre, mais rico e perfeito, só o homem te encontra dura, cruel, indiferente aos gritos de fome... ou de gula?... Por que razão?
Veio-lhe um calapso[5], um momento de trégua na sua agitação. Fez-se-lhe algo de bonança no cérebro; pensou mais calmo e recordou:
- Eu era servo. Sou servo ainda. Não há fugir à lei que me prende. Todavia, lá em casa, era servo-filho. Aqui... sou servo-escravo. Escravo estrangeiro... miserável... esmagado.  Lá... não me faltava nada. Tinha tudo, tudo o que podia ter com justiça e legítimo prazer. Desejei mais do que isso. A visão da Liberdade estonteou-me.  Oh, sim!... ser livre!... Mas... livre como? Eis preso de novo, e sempre pior. Livre para que, afinal de contas, se lá meu senhor me amava e aqui não tem quem me ame; se lá eu tinha alimentos e aqui morro ao desamparo; se lá eu sorria inocente, aqui choro de remorsos, sem ter quem me enxugue as lágrimas... Li outrora, no Evangelho de Cristo, a página do Filho Pródigo. É justamente o meu caso. Ele voltou à casa paterna. Voltarei também?... Por que não?... Meu Senhor é tão bom! Farei um esforço para sair desta lama. Sim, bastará um esforço...
E, animado, puxou os pés que estavam presos ao barro pegajoso. Sorriu. A recordação da casa onde vivera a infância perpassou-lhe no pensamento, em traços fortes e consoladores.
Viu-a, toda branca, lá longe, - qual em contos de fada, a luzinha d’oiro no cimo da montanha, dizendo ao perdido nas trevas que em seu seio havia um abrigo. Como se lembrava!... Aqui era o pátio vasto... os jardins cheios de angélicas; ali o milharal espigando... os parreirais pesados de uvas... e pertinho, o lar, a chama alegre da lenha seca, o cheiro da sopa quente após a labuta diária...
Suspirou. Olhou em torno e sentiu repugnância. Desprendeu as mãos do paul, fraco, trêmulo, receoso, mas com brilhos de esperança no olhar. Queria subir a montanha, entrar novamente naquela mansão de paz e conforto.
Em seguida olhou para si mesmo e... teve horror.
- Estou nu – murmurou – tenho a pele coberta de escaras, chagas ainda... crostas de barro... Sinto que as pernas se me vergam. É tarde!... É tarde... não posso...
Agachou-se no chão, desesperado.
- Ele me expulsará, por indigno. Afastará de mim o seu rosto!... Não vou. Morrerei aqui. Pelo menos, tudo isto é meu. Pedras, lodo, bichos nojentos, tudo é meu. Acostumei-me ao cheiro bruto destas coisas corruptas... cheiro que outros chamam fétido e eu chamo perfume. E nisso gozo ainda minha liberdade. Sou livre, chamo-lhes como me apraz!
Pendeu a fronte, fechou as pálpebras... e apesar disso via ao longe, via sempre a luzinha da casa senhorial, tão meiga, tão suave, em cima da montanha...
- Ali está o perdão, o amor, a paz... bem o sei; não posso calar, no meu íntimo, a voz que m’o diz. Meu senhor é bom... infinitamente bom... Que importa? Se a liberdade é a guerra, quero a guerra, porque adoro a Liberdade!
Engalfinhou as mãos na borda de um calhau limoso e escorregou de novo no tremedal. Sentia vertigens mórbidas... sabia que estava louco, absolutamente louco, mas deixou-se descer...
E desceu... e a luzinha continuava a brilhar, muito quieta, pondo um fio de ouro na escuridão ambiente, fio que vinha tocar quase a cabeça de Fulgêncio.
Ele percebeu, e chorou.
- Meu Senhor!... Oh, meu Senhor!... tu me chamas?... Por que te fugi?!... Onde estás?!... Anda... vem cá... ah, não!... não venhas!... Fica em tuas alturas... Apaga essa luz... Tira-a de cima de mim!...  Não quero vê-la... não quero!... É a razão, é a fé!... Mas aqui estou cativo em redes fatais... Agora essa luz!
E a luzinha apagou-se... e Fulgêncio afundou-se ainda mais no barranco negro...
Extinguiu-se-lhe a consciência, a idéia da vida moral. Engoliu vasa, e achou-a gostosa. Sentiu sanguessugas no peito e acho delícia em suas mordeduras. E foi descendo... até que a vasa o sepultou para sempre...

Fulgêncio,  o servo, é a alma pecadora – a alma do século de hoje.
Feita para Deus, ela foge de Deus, atraída pela voz de sereia da falsa liberdade.
Foge de Deus para gozar à larga, e afunda-se nos pântanos mais asquerosos; torna-se vil, e nem percebe a própria degradação, ou percebe-a fracamente.
Coitadinha!
A luz da graça lhe aparece enfim, no cimo da montanha da fé. É a única estrela na sua noite pesada de treva e de abandono. Ela a vê, suavíssima; compreende-a, deseja ir até onde está a mansão salvadora, mas o vício, o mau hábito da rebeldia a tem cativa, a ela que sonhara ser livre, inteiramente livre!
Precisamente. Será sempre escrava, e da pior das escravidões.
Ah! Se ela voltasse ao lar donde fugira, ao coração de seu Senhor e de seu Pai, que feliz seria de novo!...
Almas que refulgistes ao sair do batismo cristão e por desgraça agora estais caídas nos charcos do mal, coragem! Quebrai os laços, desprendei-vos da lama, e subi, montanha acima, até os braços do vosso Criador. Ele vos espera e há de receber-vos em festa e coroar-vos de rosas imortais.
Homens do século de hoje, Fulgêncios sequiosos de gozo e de independência, não esqueçais que a verdadeira liberdade é a dos filhos de Deus. Procurai o reino de Deus, se quereis ser livres e atingir o vosso alto destino.

           (Transcrito de “Do Meu Archivo – Contos e Phantasias” – Livraria Editora N. S. Auxiliadora – Salvador(BA), 1929 – págs. 208/216)





[1] Argola colocada no tornozelo de um prisioneiro que se une à sua cintura através de uma corrente de ferro, ligando-o, por sua vez, a um outro preso.
[2] indivíduo de voz possante.
[3] escuras
[4] Trata-se da obra “Os Simples”, de Guerra Junqueiro
[5] calapso” é como consta no original; seria “colapso”?