quinta-feira, 8 de agosto de 2019

SÃO DOMINGOS DE GUSMÃO, EXTIRPADOR DE HERESIAS







Hoje é festa de São Domingos (Caleruega, Burgos, 24-6-1170 - Bolonha, 6-8-1221), confessor, é apostolo da devoção ao Santo Rosário, Fundador da Ordem dos pregadores (dominicanos). Lutou contra os albigenses.
A respeito de São Domingos temos um trecho da obra “Diálogo da Divina Providência”, em que Deus trata com Santa Catarina de Sena, que foi terceira dominicana, a respeito de seu Fundador:
“Foi precisamente sobre a luz, disse Deus e Santa Catarina de Sena, que o pai dos pregadores estabeleceu o seu princípio. E fez dele o objeto próprio de sua arma de combate. Ele tornou para si o ofício do Verbo, meu Filho, disseminando minha palavra, dissipando as trevas, e esclarecendo a Terra. Maria, pela Qual Eu o apresentava ao mundo, fez dele o extirpador das heresias (op. cit., 158).
É interessante esse trecho porque mostra todo o valor que Deus dá à missão de extirpador das heresias.
Agora, um trecho do famoso Dom Guéranger em sua obra “L'Année Liturgique”, em seu comentário relativo à festa de São Domingos.
“Assim, a Ordem, chamada a ser o principal apoio do Pontífice na perseguição das falsas doutrinas, deveria – em um certo sentido – justificar melhor ainda esta expressão (“extirpador das heresias”) do que o seu patriarca: os primeiros tribunais da Santa Igreja, a Inquisição romana, o Santo Ofício, investido da missão do Verbo com o gládio com duas lâminas (Apoc. 19, 11-16) para converter ou castigar, não teve instrumento mais fiel e mais seguro do que a Ordem dominicana”.
Os senhores podem aquilatar bem como penetrou a "heresia branca" também na hagiografia.
Considerem a vida de qualquer santo escrita na concepção da "heresia branca", de modo geral figura sempre isto: “Ele foi muito bom... perdoou muito, curou muitos doentes, agradava muito as criancinhas...” Ou seja, a santidade quer dizer ser dulçuroso no trato. A bem dizer, nunca os senhores verão elogiar o seguinte: “Velou pela doutrina, odiou e extirpou a heresia”. Porque isto parece à “heresia branca” uma cogitação de caráter intelectual e não moral. Portanto não se trata de manifestação de virtude. Seria até antipático, porque a pessoa que combateu a heresia, fez sofrer outros. E, pois, assim se tornou antipática.
Havia um alto personagem da Igreja aqui no Brasil, que deu ao seu secretário este conselho (era um tempo um pouco antiquado em que ainda a santidade era apresentada como norma...): “Padre Fulano, o senhor tome como norma de santidade: qualquer ato que lhe pareça bom, mas que possa fazer sofrer alguém, não o faça porque não é bom. Pois o bem nunca faz sofrer a ninguém”.
Esta é a mentalidade estritamente “heresia branca”! Ela não compreende nem de longe a necessidade de se defender a doutrina. Menos ainda compreende a necessidade de corrigir os que erram: “Isso não é virtude, é uma preocupação de caráter intelectual. É uma elucubração de caráter estudioso. Isso não é virtude...” dizem os adeptos dessa mentalidade.
Ora, é o contrário que é verdade. O amor de Deus tem como expressão necessária o amor daquele que a boa doutrina diz a respeito de Deus. Porque eu não posso amar Deus como Ele não é. Eu tenho que amar a Deus como é. E sei como Deus é de acordo com a boa doutrina. E o amor meu a Deus é o amor que a boa doutrina me diz a respeito de Deus. Portanto é o que a boa doutrina me diz a respeito de Nosso Senhor Jesus Cristo, Verbo de Deus encarnado, daquilo que Ele ensinou e fez. A ortodoxia não é senão o amor de Deus.
De maneira que uma pessoa pretender ter virtude sem ter ortodoxia, é uma verdadeiro absurdo; é a mesma coisa que pretender ter virtude sem ter amor de Deus. E ser ortodoxo sem odiar o mal é outro absurdo.
Portanto, virtude primeira: ortodoxia. Porque é um dos aspectos do amor de Deus. E quem diz ortodoxia, diz combatividade. Quanto mais combativa, mais ortodoxa, tanto mais ama a Deus .
Continuamos agora com a leitura de outro trecho de Dom Guéranger a respeito da Ordem de São Domingos e o liberalismo:
“Tanto quanto Santa Catarina de Sena, o ilustre autor da Divina Comédia (Dante) não teria nunca imaginado que devesse haver um tempo onde o primeiro atributo da família dominicana, que lhe dava direito ao reconhecido amor dos povos, seria discutido em certa escola apologética, e lá afastada como um insulto, ou dissimulada com mal estar. Nosso tempo põe sua glória em um liberalismo que mostrou o que era multiplicando as ruínas e filosoficamente não repousa senão sobre a estranha confusão entre licenciosidade e liberdade. Seria necessário um tal desabamento intelectual para que não se compreendesse mais que uma sociedade onde a fé é a base das instituições como ela é o princípio da salvação eterna, nem um crime é igual àquele de abalar o fundamento sobre o qual repousa assim o interesse social, o mais precioso dos particulares. Nem o ideal da justiça nem o da liberdade não consistem em deixar à mercê do mal e do maligno os fracos que não podem defender-se a si mesmos.
“A cavalaria fez desta verdade seu axioma e foi esta a sua glória. Os irmãos de Pedro Mártir (os dominicanos) dedicaram sua vida a proteger contra as insídias do ‘forte armado’ (Lc. 11, 21) o contágio que ‘se esgueira pela noite’ (Sal. 90, 6), a segurança dos filhos de Deus. Esta foi a honra da ‘tropa santa que Domingos conduz por um caminho que é todo cheio de proveitos e no qual não se extravia’ (Dante, Paraíso, X, 94-96)”.
É uma bonita afirmação da legitimidade da Inquisição, da legitimidade das guerras santas, da legitimidade da polemica, que o irenismo hoje tanto quer negar.
Eu gostaria de acentuar este pensamento: sempre que se dá ao erro a possibilidade de se disseminar, ali se dá ao mesmo tempo apoio a uma perseguição à verdade. E sempre que se dá ao mau ou ao mal a liberdade, apoia-se uma perseguição ao bom e ao bem. Porque está na índole do erro de ser contagioso. Depois do pecado original, o homem tem uma apetência de erro. Donoso Cortés, numa página magnífica que já foi estudada aqui em reunião, dizia que o milagre da Igreja não consistiu em ser aceita pelos homens por ser boa, santa, mas apesar de ser boa e santa. Os homens têm uma enorme atração pelo erro e pelo mal. Se se deixa o erro e o mal livres, permite-se que eles sublevem os homens. Portanto não há pior tirania e não há pior crueldade do que advogar a liberdade para o erro e para o mal.
Dom Guéranger comenta muito bem: o que fazia o cavaleiro andante? Andava de um lado para o outro para defender as viúvas, os órfãos e os fracos. Pergunta-se: as almas ignorantes não são mais desamparadas do que as viúvas, os órfãos e os fracos? As almas que têm maus pendores em conseqüência do pecado original não estão mais expostos ao erro do que as viúvas, os órfãos e os fracos do tempo da cavalaria andante? E o que é mais importante: defender almas ou defender corpos? Evidentemente defender almas.
De maneira que toda a nobreza da cavalaria andante incide e se concentra nos que, em nossos dias, combatem o erro e o mal denodadamente.
Há uma melancólica observação histórica, que não posso deixar de fazer: os senhores considerem o que foi a Ordem dominicana. Reflitam um pouco no que ela é no Brasil de hoje, e os senhores compreenderão a enorme decadência das melhores instituições de nosso século.
Assim os senhores. compreenderão igualmente que o pior mal de nosso século não consiste em que os comunistas sejam o que são e que tenham o poder que têm. Mas que aqueles que deveriam combater o comunismo sejam o que são e adotem as posições erradas que adotam hoje. Essa é a questão.
Na festa de São Domingos, é inteiramente a propósito darmos à nossa oração da noite de hoje o caráter de uma reparação àquele santo Fundador por toda a ofensa que essa torção de seu admirável instituto sofre – em tantas partes, pelo menos –, e pedirmos que ele nos defenda de seus filhos que tenham se transviado.

  (Plínio Corrêa de Oliveira, reunião "Santo do Dia", de 4 de agosto de 1965)



domingo, 4 de agosto de 2019

SÃO JOÃO MARIA VIANEY: MODELO DOS SACERDOTES







Notem que São João Vianney não tem “apenas” o título de santo ou intercessor. O Papa Pio XI, quando o canonizou, instituiu-o como modelo de todos os párocos do mundo. Portanto, o que São João Vianney diz é modelo para os outros dizerem coisas análogas. E o que fez é modelo para outros fazerem. Vamos ler suas palavras que são modelo para as pregações sacerdotais.
Trechos do Catecismo sobre a Impureza, escrito por São João Batista Vianney:
“Há almas que são tão mortas, tão apodrecidas que marasmam na sua infecção sem o perceber, e não podem mais se desvencilhar dela; tudo as leva ao mal, tudo lhes lembra o mal; mesmo as coisas mais santas. Elas têm sempre essas abominações diante dos olhos, semelhantes ao animal imundo que se habitua à porcaria e se agrada nela, que se rola nela, que nela dorme, que ronca sujice. Essas pessoas são objeto de horror aos olhos de Deus e dos santos Anjos”.
“Ó, meus filhos! Se não houvesse algumas almas puras para indenizar Deus e desarmar sua justiça, haveríeis de ver como seríamos punidos. Só em ver uma pessoa, reconhece-se se ela é pura. Há nos olhos um ar de candura e de modéstia que leva a Deus. Vê-se em outras, ao contrário, que têm um ar todo inflamado. Satanás põe-se-lhes nos olhos para fazer cair os outros e arrastá-los ao mal”.
Os senhores estão vendo que é uma exposição soberba do que é a impureza, dos seus efeitos na alma, de como Deus a vê e acaba com essa frase magnífica a respeito do papel de Satanás. Satanás está posto nos olhos do impuro, para olhar os outros e levá-los para o mal. O olhar do impuro contamina com sua impureza.
Qual impuro? Não é qualquer impuro, mas esse impuro que está no marasmo, que afundou, que não sai mais, que não muda mais, que está completamente liquidado pela impureza. Esse impuro se torna então um habitáculo de Satanás.
Os senhores vêem nesse trecho a força dessa pregação. Imaginem que, se de todos os púlpitos da Cristandade, se ouvissem afirmações dessas... eu lhes pergunto se a impureza não recuaria enormemente. O que aconteceria com as modas imorais se se falassem coisas dessas? Porque uma pessoa do sexo feminino que tem o hábito de usar mini-saia, está inteiramente nesse caso. Pode comungar quinze vezes por dia, que não escapa.
Se todos os pregadores dissessem isso, como o mundo estaria diferente. Então, por que o mundo não é como deveria ser? Antes de tudo, porque os pregadores não pregam o que deveriam pregar. E por que não pregam o que deveriam pregar? Porque não são o que deveriam ser. Temos que nos colocar francamente nessa posição.
Por que eu estou repetindo isso, que nós sabemos tão bem? É para mostrar – sempre insisto nesse ponto e nunca será suficiente insistir – que não se trata de um conflito entre uma opinião nossa e a opinião de pregadores. Trata-se de um conflito entre vinte séculos de ensinamento da Igreja, vinte séculos de pregação da moral verdadeira e da prática da moral verdadeira pelos santos, de canonizações contínuas de modelos exímios de santidade, que protestam contra o que hoje se passa.
Então, na nossa tomada de posição, não há uma opinião individual que se levanta contra a opinião de uma instituição, mas há a fidelidade a esses vinte séculos que se prolongam pela noite dos dias de hoje. Há a fidelidade ao legado dos santos, ao legado dos mártires, dos Papas, ao legado dos pastores; ao legado, enfim, de tudo quanto é a Esposa Mística de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Igreja Católica. E é em nome disso e por fidelidade a isso, que protestamos. A nossa luta não é de indivíduos contra indivíduos, mas é uma luta da fidelidade contra a infidelidade.
Essas palavras do Santo Cura d’Ars exprimem bem isso e é por tal motivo que estou repetindo. Eu quero que os senhores apalpem com a mão, que os senhores tomem – para usar uma palavra de hoje – a vivência de que isso não é apenas uma opinião de A, de B ou de C, ou minha, mas que é muito mais do que isso: é a fidelidade a vinte séculos de história da Igreja Católica. Isso é o que me parece fundamental para dizer aqui.

(Santo do Dia, 08 de agosto de 1966)




quarta-feira, 31 de julho de 2019

SANTO INÁCIO DE LOYOLA, FUNDADOR DA COMPANHIA DE JESUS






SANTO INÁCIO DE LOYOLA 

Plínio Corrêa de Oliveira

Quem passasse outrora pelos arredores de Azpeitia, na província basca de Guipuzcoa, veria, em uma altura que domina todos os arredores, um imponente castelo-forte, edifício quadrado, guarnecido de seteiras, ameias, torreões, e ao qual enormes pedras de cantaria davam um aspecto de majestosa solidez.
Esse castelo, construído no século XIII, era o solar dos Oñaz y Loyola, “fidalgos de linhagem, cota de armas e solar conhecido”, ligados às principais famílias de Espanha e titulados de “parientes mayores”, remontando sua árvore genealógica a 1180. Família de guerreiros, em mil refregas tremulou vitorioso o pendão em que se viam as insígnias dos Loyola: dois lobos ou leões segurando uma panela ou “olla”.
A “olla” representava o direito de alimentar as tropas por sua própria conta. Os lobos simbolizam o valor e a força que os nobres põem ao serviço de Deus e do Rei.
Nos fins do século XV era senhor do castelo de Loyola, como chefe da família, D. Beltran Yáñez de Oñaz y Loyola, que havia desposado D. Marina Sáenz de Licona y Balda.
Foi do matrimonio desses fidalgos que, em 1491 nasceu aquele que devia ser uma das maiores entre as grandes glórias da Santa Igreja de Deus: Santo Inácio de Loiola.
O Senhores de Loyola, “cristianos viejos” que eram, deram a seu filho uma educação cristã, como convinha a um descendente dos heróis que haviam derramado seu sangue na luta contra o turco infame (muçulmanos, n.d.c.). Aos sete anos, D. Iñigo – assim se assinou o Santo até 1546 – foi mandado à luxuosa corte de D. João Velaszques de Cuellar, e mais tarde aos paços de Carlos V, para receber as últimas lições de “bem viver e alta cortesia”.
No fim de alguns anos, D. Iñigo é oficial das tropas do vice-rei de Navarra. Extraordinariamente inteligente, “muito bom escrivão”, elegante, músico e bom poeta, soldado destemido, o jovem Loyola seria um cavaleiro perfeito. Infelizmente, porém, embora muito afeiçoado à sua fé, vivia de modo pouco conforme a ela. Mas era audaz, rijo, valente, animoso em enfrentar empresas árduas, prudente em dirigi-las e constante em leva-las a cabo.
É importante conhecer-se o nobre nascimento de S. Inácio porque, como a graça não destrói mas aperfeiçoa a natureza, o Santo conservou, depois de sua conversão, tudo o que de mais magnífico e admirável se encontrava no caráter dos fidalgos de sua época.
Nesse tempo Carlos V estava em luta com o seu constante inimigo, Francisco I de França. D. Iñigo foi designado para governador da cidade de Pamplona. Cercada a praça de guerra pelos franceses, o jovem Grande de Espanha tudo fez para bem defende-la. Mas outros eram os planos da Providência. O fidalgo Loyola feriu-se no joelho esquerdo e os franceses apoderaram-se da cidade. Muito ferido, retirou-se para o castelo de seus pais, onde esperou a cura.
Qual não foi seu desapontamento quando verificou que o estado em que sua perna ficara prejudicava de maneira irreparável a sua elegância incomparável e a graça de seus movimentos fáceis, graça essa conhecida e comentada. Mandou pois quebrar de novo a perna para ser convenientemente encanada, não temendo a brutalidade dos métodos então empregados no tratamento de fraturas.
Durante todo esse período, foi ele tomado de tédio, acabando por ordenar que lhe trouxessem livros. Os únicos que havia no castelo eram “A vida de Cristo”, de Ludolfo de Saxônia, o Cartuxo, e a “Flos Sanctorum”. Aborrece-se o cavaleiro ao deparar com estes títulos. Mas, à falta de outros, pôs-se a lê-los.
E eis que o jovem e brilhante oficial é vencido pela graça divina e, depois de hesitar por algum tempo, toma a resolução de fazer o que fizeram os Santos.
E imediatamente começa a pôr em prática sua resolução.
Assim que teve forças, levantou-se e, a custo, apoiado a uma bengala, prostrou-se de joelhos ante uma imagem da Santíssima Virgem e Lhe pede que aceite o compromisso que ele toma de servir para sempre sob Sua bandeira. No mesmo instante, formidável abalo seguido de espantoso estrondo produziu uma larga fenda na parede do quarto em que se achava D. Iñigo. Era o demônio que manifestava seu ódio impotente contra aquele que seria um de seus piores inimigos.
Logo que a doença o permitiu, Iñigo partiu da casa paterna, com intenção de nunca mais voltar. Depois de visitar o Duque de Nájera, seu tio, dirigiu-se ao Mosteiro Beneditino de Monserrate. Ao iniciar essa peregrinação, fez voto de castidade perpétua.
Chegado ao Mosteiro, pediu para se confessar com um dos Monges do Patriarca São Bento. Confessa-se com grandíssima dor de seus pecados, troca suas ricas vestes por uma túnica de tecido grosseiro, e faz a “vigília de armas” diante do altar da Virgem, como o faziam os futuros cavaleiros na véspera do dia em que deviam ser armados. Era o dia 25 de março (festa da Encarnação do Verbo, n.d.c.) de 1522.
Fugindo à afluência de peregrinos, o novo cavaleiro de Nossa Senhora se dirige a Manresa, onde se abriga em uma hospedaria destinada aos indigentes, pois de agora em diante ele também é um mendigo.
Impedido de seguir para a Terra Santa, conforme era sua intenção, o fidalgo mendigo ficou bastante tempo em Manresa (foto acima, tal qual se apresenta em nossos dias este histórico local). Foi aí que fez seu noviciado espiritual, com grandes penitencias, muitas consolações e, depois, terríveis tentações e escrúpulos.
À tempestade seguiu-se a bonança. Santo Inácio recebeu então extraordinárias luzes divinas e admiráveis revelações. Essas revelações ele as coligiu em um livro “em todos os pontos de vista prodigioso”, como diz a Santa Liturgia: o livro dos Exercícios Espirituais.
Em 29 de março de 1523, depois de viajar à custa de esmolas, chegou a Roma. Daí, vencendo com sua férrea força de vontade enormes dificuldades e obstáculos, vai em peregrinação à Palestina.
Em fevereiro de 1524, Santo Inácio, que contava então 33 anos de idade, começa a estudar latim e ciências.
Em 1526, ei-lo na Universidade de Alcalá, onde ouve dialética, teologia e filosofia. Já então tinha vários discípulos espirituais e várias senhoras, entre as quais algumas penitentes, confiavam-lhe a direção de suas consciências. Três jovens foram arrebatados pelos seus ideais apostólicos e se uniram a ele: João de Arteaga, Lopez de Caceres e Calixto.
Mas em Alcalá e Salamanca (para onde se passou e onde adquiriu mais um sócio) Santo Inácio foi preso e julgado pela Inquisição, que temia que aqueles homens fossem hereges, e muito se espantava de vê-los discorrer sobre pontos difíceis da doutrina católica sem serem formados. Embora provado que a doutrina que ensinavam era perfeitamente ortodoxa, foi-lhes proibido continuar ensinando determinados pontos mais complexos. Diante disso Iñigo se põe a caminho para Paris. A 2 de fevereiro de 1528, chega à principal metrópole do saber da Europa, e se torna um entre os quatro mil estudantes que frequentavam as aulas da cidade universitária.
Aí conhece o tomismo cujo imenso valor percebe imediatamente.
Aos 44 anos de idade, depois de muito lutar com a falta de dinheiro e outras dificuldades, Santo Inácio é doutor. Graças a esse contato com as principais universidades poderá, mais tarde, traçar normas admiráveis para a formação intelectual dos membros da sua Ordem.
Santo Inácio havia tomado a resolução de formar apóstolos imbuídos dos seus princípios. Mas tem que sofrer algumas desilusões: os seus quatro primeiros discípulos o abandonam e os três que recrutou em Paris, seguem o exemplo dos primeiros.
Ensinado por essas defecções, o Santo faz novos recrutas, aos quais propõe o modo de viver que levariam os membros da futura Companhia. Esses recrutas, que seriam os generais da gloriosa milícia, foram: o Bem-aventurado Pedro Fabro, São Francisco Xavier, Laynez, Salmerón, Bobadilha e Simão Rodrigues (para ler comentários do Prof. Plinio a quadros da época representando a vários deles, basta clicar aqui, n.d.c.).
Em 1534 reuniu-se esse pequeno grupo na igreja de Montmartre, em Paris, e, depois da Santa Comunhão, todos fizeram o voto de abandonar o mundo e entregar-se exclusivamente ao serviço de Deus. Estava fundada praticamente a Companhia de Jesus. Inácio foi para Roma, onde exerceu a sua missão.
Em 24 de julho de 1537, Santo Inácio recebe juntamente com os companheiros que ainda não eram Sacerdotes a Sagrada Ordem do Presbiterado.
Aos 27 de setembro de 1540, Paulo III, que já o conhecia e estima, assinava a Bula “Regimini Militantis Ecclesiae” em que aprovava a Companhia de Jesus. Santo Inácio foi eleito o primeiro Geral da Ordem por ele fundada, cargo que só aceitou depois de muitas insistências de seus companheiros.
Desde então a Companhia não cessou de prosperar. Os Reis logo pediram a Santo Inácio alguns Padres para fundações em seus reinos. O primeiro foi Dom João III de Portugal, que desejava nada menos de sete Padres. Recebeu dois dos que tinham prestado compromisso na cripta de Montmartre: Afonso Rodrigues e Francisco Xavier. Este, porém, logo que a fundação de Portugal poude dispensar-lhe os serviços, recebeu ordem de partir para a Índia.
Apesar de extremamente ocupado, Santo Inácio não deixava de ensinar as crianças, de fundar recolhimentos, de preparar novos Jesuítas. Preocupava-se constantemente com a situação alemã. Tão ativo foi o Santo espanhol que chegou a circunscrever em muitos lugares a obra nefasta do protestantismo, apesar de sua Companhia contar poucos anos de existência.
Uma de suas obras foi a fundação do Colégio Romano (foto acima) em Roma, obra que só por si bastaria para imortaliza-lo.
Santo Inácio, antes de seu glorioso trânsito (31 de julho de 1556), poude ver os primeiros grandes frutos de sua obra. São Francisco Xavier deitava as sementes do catolicismo no Japão e nas Índias. Em Mogúncia, Colônia e outras cidades alemãs, a pseudo-reforma protestante foi completamente sufocada no nascedouro.
Não admira pois que essa Companhia de Santo Inácio seja a Ordem mais caluniada da Igreja. O seu Fundador, pouco antes de morrer, revelou aos seus Padres que ela sofreria perseguição por amor à Justiça, como aconteceu a Nosso Senhor Jesus Cristo, porque o servo não é melhor que o seu Senhor.
Inúmeras outras coisas se poderiam dizer sobre aquele a quem a Sagrada Liturgia chama “mestre especializado na formação dos Santos”; “seu amor suavíssimo e dulcíssimo de Pai” (palavra do R. Ribadeneira, um dos Jesuítas formados pelo Santo Fundador), sua intransigência quando se tratava de expulsar um membro indigno, seu amor aos pobres, seus dons místicos, seu amor à Sagrada Liturgia, sua prudência, e tantas outras coisas que encheriam vários livros para serem contadas. Todavia há uma palavra que é sua e que resume de modo perfeito toda a sua vida:
“Omnia ad majorem Dei gloriam” (tudo para a maior glória de Deus).

(“Legionário”, 30 de julho de 1944, n. 625, pág. 4)



domingo, 28 de julho de 2019

AS MORADAS DE DEUS - ONDE ENCONTRAR DEUS DENTRO DE SI MESMO




Como, pois, encontrar Deus dentro de si mesmo? Procurando suas moradas interiores. E, não tanto a porta, mas a luz com que podemos iluminar o caminho em busca destas moradas, é a luz da razão, o “lúmen rationis”, o qual produzirá em nossa alma o clarão inicial com o Dom do Entendimento. É claro que esta luz não terá nenhum brilho para iluminar o nosso entendimento se não for alimentada por uma luz sobrenatural, a da graça divina.
Todo homem possui um dom natural, através do qual tem capacidade de analisar, distinguir e definir o que é bom do que é mau. Primeiramente, a “luz da razão”  ou luz natural faz com que sua inteligência seja iluminada. Em segundo lugar, funciona o que São Tomás de Aquino chama o “Princípio de Contradição”, por onde o homem percebe as coisas boas e as coisas más. Desta forma temos aqui explicitado o início do Dom do Entendimento na alma humana.
Foi baseado nesses princípios que Deus determinou no Deuteronômio: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma e com toda a tua força. E estas palavras, que  hoje eu te intimo, estarão (gravadas) no teu coração, e tu as ensinarás a teus filhos, e as meditarás sentado em tua casa, e andando pelo caminho, e estando no leito, e ao levantar-se. E as atarás à tua mão como um sinal, e elas estarão como um frontal diante dos teus olhos, e as escreverás sobre o limiar e sobre as portas da tua casa” (Deut 6, 5-9). A Revelação primeira de Deus ao homem vem para esta “luz interior”, seguida do conhecimento dos princípios para que se chegue aos fins.
Este lugar recôndito da alma humana, esta luz primordial, é onde Deus Se revela e faz com que o homem conheça os mais elementares mistérios da Criação e da natureza divina. Foi assim que São Pedro recebeu uma revelação divina, através desta luz natural e interior toda sacral: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isso, e sim o meu Pai que está nos céus”  (Mt 16, 17).  Esta revelação foi uma iluminação divina que tocou o centro da alma de São Pedro (o seu “lumen rationis”) diretamente de Deus, sem qualquer intermediação, abrindo seu entendimento para compreender aquelas sublimes verdades eternas que ele externou em seguida a Jesus. Não foi a carne, isto é, algum ser humano, que o revelou, nem tampouco o sangue, ou seja, algum pensamento seu ou de algum ensinamento herdado de antepassados. Foi um Dom, o do entendimento, que Deus lhe deu gratuitamente naquele momento, e com ele aquela revelação.
Segundo São Boaventura, o Dom do Entendimento é “Regra das Circunspecções morais”, “Porta das Considerações Essenciais”  e “Chave das Contemplações Celestes”.
a) Regra das Circunspecções morais – “Inteligência te darei e ensinar-te-ei o caminho que deves seguir; fixarei sobre ti os meus olhos. Não queirais ser como o cavalo e o mulo, que não têm entendimento. Com o cabresto e com o freio sujeita (ó Senhor) as suas queixadas, quando não quiserem aproximar-se de ti.(Sl 31, 8-9).  Mostra-nos assim a conveniência de sermos morigerados, não agindo nunca pelos ímpetos dos sentidos mas segundo os juízos intelectuais (Sl 48,13).  Nos ensina o entendimento prudencial (Prov 2, 3-5), evitar o mal e fazer o bem (Josué 1, 7) e esperar o Sumo Bem: memória das coisas passadas, inteligência das presentes e circunspecção das futuras .
b) Porta das Considerações Essenciais – Procede esta:
1. Da luz interior. Nossa alma tem impressa sobre si uma certa luz natural, pela qual tem capacidade para conhecer os primeiros princípios, ou, como o denomina São Tomás, o “Princípio de Contradição”. Mas só esta luz não basta, porque conhecemos os princípios enquanto conhecemos também os fins;
2. Da freqüência da experiência. De muitas sensações se forma uma lembrança, de muitas lembranças uma experiência, de muitas experiências se forma um universal, que é princípio de arte e ciência (Eclo 34, 9).
3. Da iluminação da luz eterna. A certeza vem de Deus (Dan 2, 21). Disse São João: “O Verbo era luz verdadeira que ilumina a todo homem que vem a este mundo”  (Jo 1, 9). Esta iluminação é ajudada pelos Anjos (Dan 8, 15), mas só Deus tem poder sobre a alma. O Anjo a ajuda como alguém que abre uma janela, mas é o sol que ilumina o interior da casa.
c) Chave das Contemplações Celestes -  Nos faz penetrar já no Dom da Sabedoria (que veremos mais adiante).

O que é a Revelação
De um modo geral, revelação é um conhecimento intelectual em que é desvendada uma ou mais verdades ocultas. “Stricto senso”, a Revelação por excelência é o conhecimento dos planos de Deus na Criação, a Encarnação do Verbo, os mistérios da Fé (a Natureza de Deus, a Santíssima Trindade, etc.) e as operações divinas na Criação.   “Lato senso”, Revelação são todas as coisas novas de Deus, ou da vida divina, que antes eram desconhecidas pela inteligência, mas que se referem a coisas acidentais e não falam diretamente da Revelação “stricto senso”.   Um exemplo desta Revelação divina temos no Apocalipse de São João, enquanto nas últimas aparições mariais tivemos vários exemplos de revelações “lato senso”.
Os meios com que Deus faz suas revelações são: 
a) Os Santos Anjos, os Santos Bem-Aventurados e os próprios homens que vivem na terra, de uns para os outros (“Abraão e seus profetas”, no dizer do pobre Lázaro da parábola), etc.
b) A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade fez a principal Revelação de Deus, quando realizou na Sua pessoa os planos divinos;
c) Meios acessórios: visões e sonhos (nos sentidos corporais) e visões espirituais;
d) a luz interior ou locuções verbais (v. adiante).
O fim último das revelações é fazer com que os anjos e os homens, conhecendo mais perfeitamente Deus em seu interior possa amá-Lo mais. As revelações proféticas visam menos os profetas do que as pessoas a quem estes orientam e dirigem.

As locuções verbais
Locuções são coisas percebidas pelo entendimento sem intervenção direta dos sentidos ou da razão. Podem ser: sucessivas, formais e substanciais.
1. Locuções sucessivas – São palavras e conclusões (pensamentos) que o espírito, recolhido em si, vai formulando em meio à meditação; é como se outra pessoa dentro dela fosse raciocinando, respondendo ou ensinando. A pessoa discorre como instrumento do Espírito Santo.
2. Locuções formais – O espírito as recebe sem concurso próprio, são frutos diretos da ação angélica no interior da alma para instruí-la sobre ponto da Fé e inclinando a vontade para um fim bom. Seria uma espécie de graça atual. Podem também ocorrer locuções formais inspiradas pelo demônio, tentando inclinar a alma para o pecado, despertando um apetite desordenado.
3. Locuções substanciais – Distinguem-se das formais pelo efeito forte e formal que produzem na alma, produzem o que dizem. É o próprio Deus movendo a alma para Si. É um ato de afeto de Deus que repercute no interior da alma, atraindo-a fortemente para Ele. As locuções substanciais é o meio mais comum com que Deus não só ilumina mas atrai as almas pela sua luz natural.
A forma mais perfeita com que Deus faz suas revelações é através das locuções verbais, pois inspira na alma um amor mais perfeito às coisas celestes.

“Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14, 2)
O que significa a expressão “Casa do meu Pai?”. Trata-se do Templo de Deus. Foi assim que Ele se expressou ao expulsar os vendilhões do Templo de Jerusalém: “Está escrito: a minha casa é uma casa de oração e vós fizestes dela um covil de ladrões” (Lc 19, 45-46). A Casa de Deus, o Templo de Deus e as moradas celestes são a mesma coisa, embora o Templo citado acima diga respeito ao edifício de Jerusalém. E, no entanto, diz-se que o Templo de Deus encontra-se no interior do homem; à semelhança de como está Ele também no céu, encontra-se no coração e na alma do homem.
A morada pode ser entendida como um lugar, o qual é destinado a acolher pessoas. Assim como as moradas celestes são destinadas a acolher os bem-aventurados, as moradas de Deus no nosso interior são destinadas a acolhê-Lo com o fim de adorá-Lo, reverenciá-Lo, obedecê-Lo, prestar-Lhe culto, etc. Desta forma, as moradas celestes, a que se referia Nosso Senhor na passagem acima, queria dizer de lugares destinados aos bem-aventurados na outra vida. São os tronos celestes.
Da mesma forma, o fato de Nosso Senhor dizer que são muitas as moradas, quer também significar a grande diversidade de vida  espiritual que cada um pode ter para se chegar até Deus. Neste sentido, existem as moradas celestes e as de Deus no interior de nossa alma. Nosso interior pode ter, neste sentido, dois grandes castelos: um destinado a ser templo de Deus e outro destinado à Sua morada. Melhor ainda, a mesma morada pode servir ela mesma de templo. Aliás, uma só, não, várias moradas, como disse o próprio Nosso Senhor. Assim, mesmo tendo Deus Pai em nosso interior como luz primeira de nossa existência, precisamos preparar uma morada para Deus Filho e o Espírito Santo. São Paulo disse: “Por essa causa dobro os meus joelhos diante do Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, do qual toda a família, quer nos céus, quer na terra, toma o nome, para que, segundo as riquezas de sua glória, vos conceda que sejais corroborados em virtude, segundo o homem interior, pelo seu Espírito, e que Cristo habite pela fé nos vossos corações, de sorte que, arraigados e fundados na caridade, possais compreender, com todos os santos, qual seja a largura e o comprimento, a altura e a profundidade; e conhecer também o amor de Cristo, que excede toda a ciência, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus”  (Ef 3, 14-19)
Qual a finalidade das moradas celestes? Dar descanso, gozo e paz (descanso não só como fim de nossas tribulações, mas como êxtase nas coisas de Deus; gozo dos bens eternos e paz que é fruto da tranqüilidade da ordem), pois esta é a finalidade de toda morada. E permitir à contemplação do Eterno sem qualquer obscuridade de nosso  espírito humano.
 Por causa disso, as moradas celestes devem ser compostas de substâncias espirituais e corporais próprias do Empíreo (destinadas a acolher também as propriedades do corpo ressurrecto: translucidez, sutileza, agilidade, ubiqüidade etc.), além de dons, virtudes e graças para sustentar, alimentar e engrandecer corpo e alma.  Os quais foram necessários à ascese na terra de uma forma imperfeita quanto ao nosso uso, mas perfeitíssimos no céu por causa de estarmos imersos em Deus.
Temos no interior de nossa alma os reflexos das celestes moradas de Deus, os quais se tornam realidade com a vinda da Santíssima Trindade para morar em nós.  Assim, Deus pode morar em nosso interior de uma forma natural,  como reflexo de Suas perfeições (somos imagem e semelhança de Deus) e também de uma forma completa através da ascese. Nós somos também uma morada de Deus no verdadeiro sentido da palavra: “Se alguém me ama, guardará as minhas palavras, meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele morada”  (Jo 14, 23).
Como, então, poderemos chegar às moradas divinas existentes no interior de nossa alma? Seguindo não somente o Decálogo, mas os conselhos evangélicos. E neles vamos encontrar a fórmula que fará com que o próprio Nosso Senhor venha fazer em nós a Sua morada e nos leve para a Morada dEle:
“Depois que eu tiver ido e vos tiver preparado o lugar, virei novamente e tomar-vos-ei comigo para que, onde eu estou, estejais vós também. E vós conheceis o caminho para ir onde vou” (Jo 14, 3-4):
Pelo que se viu acima, somente iremos depois que Nosso Senhor foi, e somente iremos para o lugar que Ele nos preparou juntamente com Ele mesmo. Da mesma forma, só iremos com Ele depois de “conhecer o caminho” que Ele também já trilhou (quer dizer, o da Cruz e da santificação);
Como é este caminho? Ele mesmo o responde: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vai ao Pai senão por mim”  (Jo 14, 6). Para se ir ao Pai (portanto, para as moradas celestes) tem-se primeiro que seguir o caminho (que é a Cruz), a verdade (que é a Fé) e a vida (que é o amor a Deus, a caridade), e tudo isto ninguém o fará se não for por intermédio de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Como Deus “habita” em nós
a) de forma “natural”
Segundo São Tomás de Aquino, Deus está em nós, naturalmente falando, de três maneiras diferentes: por potência  (todas as criaturas estão sujeitas a seu império), por presença (por causa de sua onipresência) e por essência (porque opera em toda parte e em toda parte Ele é a plenitude do ser e causa primeira de tudo).
b) pela lei da Graça
A Santíssima Trindade faz-se presente na alma humana, transmitindo-lhe a vida divina: o Pai vem a nós e continua em nós a gerar o Filho; com o Pai recebemos o Filho em nosso interior, e como fruto do amor de ambos recebemos o Espírito Santo. Fazem as três pessoas divinas sua morada em nossa alma e nos adotam como filho: acolhemos, pois, em nossa morada o nosso Criador, Redentor e Santificador, dando-nos o caráter de participação na vida divina.
Como, então, estando Deus em nosso interior precisamos nos dirigir a Ele? É que Deus não se satisfaz em morar em nosso interior apenas da forma natural, como fomos criados, mas principalmente de uma maneira sobrenatural. Então esta segunda forma de morada não é sempre predominante nas almas, podendo estar ausente por causa dos pecados.  Além do mais, Deus pede que façamos uma ascese em Sua busca para ser perfeitos como Ele.
Segundo São Boaventura, o sumo bem consiste na busca da felicidade, e estando o sumo bem em Deus, acima pois de nós, ninguém pode tornar-se feliz  se não subir acima de si mesmo, não por ascensão corporal, mas de coração. “Ora, não podemos elevar-nos acima de nós senão por uma força superior que nos eleve. Por mais que se disponham os degraus interiores, se o auxílio divina não nos acompanha, nada se consegue” [1]
Deus exige de nós uma contínua oração para subirmos até Ele, embora esteja Ele dentro de nós, de forma oculta e reservada, sempre mais de forma natural do que sobrenatural a depender de nós mesmos. Através desta contínua oração seremos iluminados para conhecer os degraus interiores de ascensão até Deus.
Explica também São Boaventura que Deus se manifesta nos seres criados através de vestígios e imagens. No homem, Deus encontra-se como imagem e semelhança, mas no restante da criação material Deus manifesta-se como vestígio. Temos, na criação, vestígios de Deus em tudo aquilo que admiramos e no qual buscamos as perfeições divinas. Para chegarmos a contemplar o Primeiro Princípio, que é espiritualíssimo, e que está muito acima de nós, necessitamos passar pelos vestígios. Assim, temos na criação vestígios corporais (que estão tanto em nós, no nosso corpo, quando nos outros seres materiais), imagens e semelhanças (refletidas em nós e nos anjos) e eviternos (termo que, a rigor, significa espírito).
São Boaventura colheu este ensinamento dos vestígios e imagens de Deus em Santo Agostinho, e expôs um modo de conhecê-los para mais apropriadamente aproximar-se de Deus e poder amá-Lo. O vestígio é uma manifestação imprecisa e distante, um sinal vago sobre determinada realidade. Desta forma, todos nos seres corpóreos encontram-se apenas vestígios das perfeições divinas. Quanto à imagem, não: ela manifesta Deus em nós de uma forma mais precisa, mais clara e direta, porque é uma semelhança expressa. A Santíssima Trindade manifesta-se de forma mais perfeita, levando sua imagem a todo o ser humano, através da alma, daí porque o homem é vestígio de Deus enquanto corpo e imagem e semelhança enquanto espírito.  

Santa Teresa de Jesus e as moradas interiores:
Com uma rica imaginação, Santa Teresa de Jesus construiu uma série de castelos ou moradas interiores, onde Deus vem morar. Nossa alma está cheia de moradas, situadas no alta, embaixo, ao lado, no meio, et.c. No centro da alma, a principal morada, é onde se  passam as coisas mais secretas entre Deus e a alma.
Ensina Santa Teresa como podemos entrar no castelo (ou nessas moradas), sendo eles dentro de nós mesmos. A porta principal, por onde se tem acesso a todas as moradas de Deus é a oração. Não é ainda uma morada, mas uma porta, pela qual se entra em todas as moradas que há ali. É um grande portão que dá acesso a um condomínio fechado de várias moradas. Mas a oração deve estar com a atenção primeira voltada exclusivamente para Deus, que está no centro do castelo. Desta forma, deve-se evitar entrar levando consigo as muitas sevandijas[2] que o mau odor de fora atraiu (amor-próprio, auto-suficiêncxia, etc.).

Primeira morada – conhecimento de si mesmo
A primeira morada (ou segunda porta) é o conhecimento de si mesmo. Logo na porta de entrada a pessoa verá a grandeza e majestade de Deus contrastando com a sua própria baixeza: “...assim a alma no próprio conhecimento: creia-me e voe algumas vezes a considerar a grandeza e a majestade do seu Deus. Aqui achará a sua baixeza, melhor que em si mesma, e mais livre das sevandijas, que entram nas primeiras moradas que são as do próprio conhecimento...”[3]
 O conhecimento de si mesmo, contrastando nossa pequenez e baixeza com a grande e a majestade divinas, serve para nos estimular o santo temor de Deus. Nesta primeira morada é muito renhido o combate para nela entrar, pois tem aqui o demônio o seu maior empenho: “Terríveis são os ardis e manhas do demônio para que as almas não se conheçam a si mesmas nem entendam seus caminhos”.[4]. É tão importante esta morada que é também o conhecimento de si mesmo que São Luís Grignion de Montfort pede nos exercícios de preparação da Consagração à Nossa Senhora. [5]

O conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo
A segunda morada já é divina pois temos nela a companhia de Nosso Senhor. São Paulo parece falar desta morada quando disse: “que Cristo habite pela fé nos vossos corações, de sorte que, arraigados e fundados na caridade, possais compreender, com todos os santos, qual seja a largura e o comprimento, a altura e a profundidade; e conhecer também o amor de Cristo, que excede toda a ciência, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus”  (Ef 3, 15-19)
Da mesma forma, São Luís Grignion também pede-a na preparação da Consagração à Nossa Senhora: O conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. [6] Nesta morada se faz ouvir a voz de Cristo no interior: “Não digo que estas vozes e chamamentos sejam como outros que direi depois, mas são palavras que se ouvem a gente boa, ou sermões ou com o que se lê em bons livros e outras muitas coisas que tendes ouvido, com as quais Deus chama; ou enfermidades, trabalhos e também com uma ou outra verdade que Ele ensina naqueles instantes em que estamos em oração...”[7]
 Santa Teresa chama a essa morada de “ouvir” a voz de Cristo porque é nela que o nosso Entendimento guarda para si as coisas boas do espírito, predispondo a alma para o amor a Deus. Novo renhido combate a alma travará com o demônio, o qual tudo fará para que a pessoa recue em seus bons propósitos: “todo o inferno se juntará para fazê-la tornar a sair para fora”[8]. E o conhecimento de Nosso Senhor só é perfeito através da sagrada cruz. É a hora de abraçar a Cruz – a nossa empresa!  “...abraçai-vos com a Cruz que vosso Esposo tomou sobre Si e entendei que esta deve ser a vossa empresa. A que mais puder padecer, que padeça mais por Ele e será a que melhor se liberta. O demais, como coisa acessória, se vo-lo der o Senhor, dai-Lhe muitas graças”[9]
Chegando a essa morada, impossível voltar atrás: “Ora, pensar que havemos de entrar no Céu e não entrar em nós, conhecendo-nos e considerando nossa miséria e o que devemos a Deus e pedindo-Lhe muitas vezes misericórdia, é desatino”.[10] Conhecendo-se a si mesmo, é chegado o momento de abraçar a cruz.
Nesta morada, ouviremos interiormente a voz suave de Nosso Salvador, que disse: “Aquele que quiser vir após Mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”  S. Luís Maria Grignion de Montfort, em sua obra “Circular aos Amigos da Cruz” nos ensina como dar ouvidos a tais conselhos. Toda a perfeição cristã consiste nisto: 1º ) querer ser santo (aquele que quiser vir após Mim); 2º) desapegar-se de tudo (renuncie a si mesmo); 3º) padecer com resignação (tome a sua cruz), e 4º) obrar o Bem (siga-Me).
Como é doce e suave a voz interior de Cristo. Ele diz assim “aquele que quiser”, faz tudo depender da própria vontade nossa, nada é imposto. Mas há uma condição para isto, e é seguir após Ele, quer dizer, no mesmo caminho que Ele houver trilhado, porque se nos desviarmos, tudo se perde. Da mesma forma Ele exige que renunciemos a nós mesmos, para em seguida nos pedir a parte mais difícil: tomar nossa cruz. Não pede para tomar outra cruz, de outra pessoa, seja menos ou mais pesada, mas a nossa própria cruz.
São Luís nos ensina como devemos carregar nossa cruz: “...carregue com alegria, abrace com entusiasmo e leve com valentia sobre seus ombros a própria cruz e não a de outro: - a cruz, que minha Sabedoria a fabricou com número, peso e medida; a cruz, cujas dimensões: espessura, altura, largura e profundidade, tracei com minha própria mão com extraordinária perfeição; - a cruz, que a tenho fabricado com um pedaço da que levei ao Calvário, como fruto do amor infinito  que te tenho; a cruz, que é o maior regalo que posso fazer a meus eleitos neste mundo; a cruz, constituída, quanto à sua espessura, pela perda dos bens, as humilhações, menosprezos, dores, enfermidades e sofrimentos espirituais que, por minha permissão, lhe sobrevirão dia a dia até á morte; a cruz, constituída, enquanto a seu comprimento, por uma série de meses ou dias em que se verá cumulado de calamidades, prostrado no leito, reduzido à mendicância, vítima de tentações, sequidões, abandonos e outros apertos espirituais; - a cruz, constituída, quanto à sua largura, pelas circunstâncias mas duras e amargas de parte de seus amigos, servidores ou familiares; - a cruz, constituída, por último, quanto à sua profundidade, pelas aflições mais ocultas com que o atormentarei, sem que possa achar consolo nas criaturas. Estas, por ordem minha, lhe voltarão as costas e se unirão a mim para fazer-lhe sofrer.
Que a carregue. Que a carregue: que não a arraste, nem a recuse, nem a recorte, nem a esconda. Em outras  palavras, que a leve com a mão no alto, sem impaciência nem repugnância, sem queixas nem críticas voluntárias, sem meias tintas nem complacências, sem rubor nem respeito humano.
Que a carregue. Que a leve estampada na frente, dizendo como São Paulo: O que está em mim, Deus me livre de gloriar-me mais que da cruz de nosso Senhor Jesus Cristo (Gal. 6, 14), meu Mestre.
Que a leve às costas, a exemplo de Jesus Cristo, para que a cruz seja a arma de suas conquistas e o cetro de seu império.
Por último, que a plante em seu coração pelo amor, para transformá-la em sarça ardente, que dia e noite se abrase em puro amor de Deus, sem que chegue a consumir-se.
A cruz. Que carregue com a cruz, posto que nada há tão necessário, tão útil, tão doce nem tão glorioso como padecer algo por Jesus Cristo”.[11]

Terceira morada – o santo temor de Deus
Chegamos à terceira morada, o santo temor de Deus, assim expresso na Sagrada Escritura:
“Beatus vir, qui tinet Dominus” (Salmo 111, 1), Isto é, feliz o homem que teme o Senhor.
“A judiciis enim tuis timui” – Eu temo, ó Senhor, os teus juízos.  (Sl 118, 120).
“Qui timet Deum, nihil negligit” – Quem teme a Deus, nada negligencia. (Ecl 7, 19).
Dele também fala dois grandes santos:
“Quod non fecit Dominus, fecit baculus” – Aquilo que não pôde obter o temor de Deus, obteve o bastão (Santo Agostinho)
“Por mais que o homem seja poderoso, rico, ilustrado e forte, se não teme a Deus, não vale nada.  Donde, no Salmo: “Não faz o Senhor caso da força do cavalo, nem se compraz em que o homem tenha pés robustos. Se compraz, sim, naqueles que o temem e nos que confiam em sua misericórdia” (Sl 146, 10-11); (São Boaventura). 
“Em terceiro lugar, vale o temor de Deus para obter a ilustração da divina sabedoria, porque “o princípio da sabedoria é o temor do Senhor”(Prov 9, 10). É, com efeito, o temor do Senhor principio extrínseco e princípio intrínseco da sabedoria e complemento da mesma; porque há temor servil, e este é iniciativa da sabedoria, porque, assim como a corda ou pêlo grosso introduz o fio e não fica com  o fio, assim o temor servil introduz a sabedoria e não permanece com a sabedoria. Outro temor é o da vingança e ofensa de Deus, e este é princípio intrínseco da sabedoria e raiz da sabedoria. O terceiro temor é o da reverência filial, e este é o complemento da sabedoria, porque “o complemento da sabedoria consiste em temer a Deus” (São Boaventura).
Através do temor de Deus se estimula no interior da alma os outros dons do Espírito Santo, especialmente a humildade, a esperança e confiança, assim bem como a entrega completa à vontade de Deus. As pessoas que desta forma possuem o temor de Deus, diz Santa Teresa, “são muito desejosas de não ofender a Sua Majestade, e até mesmo dos pecados veniais se guardam, e amigas de fazer penitência; têm suas obras de recolhimehto, gastam bem o tempo, exercitando-se em obras de caridade com os próximos, muito concertadas no seu falar e vestir e governo da casa, as que a têm” [12]
A estas alturas a pessoa aprende a afastar para longe de si os falsos temores, os quais tiram da pessoa a virtude da Confiança. Santa Teresa define esta estado de espírito da seguinte forma: “Como vamos com tanto senso, tudo nos ofende, porque tudo  tememos; e assim, não ousamos passar adiante, como se nós pudéssemos chegar a estas moradas e outros andassem o caminho. Pois como isto não é possível, esforcemo-nos, irmãs minhas, por amor do Senhor; deixemos nossa razão e temores em Suas mãos; esqueçamos esta fraqueza natural que tanto nos pode ocupar” [13]
Ocorre também nestas moradas um grande perigo de voltar às anteriores, pois as almas “Por mais determinadas que estejam em não ofender o Senhor, semelhantes pessoas procederão com acerto não se metendo em ocasiões de O ofender; porque, como estão perto das primeiras moradas, com facilidade poderão voltrar a elas” [14]   Santa Teresa diz isto porque é muito volúvel a alma humana sem a graça divina, e até este momento (apesar de tudo o que se faz é sempre através de graças divinas) Deus espera mais que a pessoa caminhe em direção dEle, faz muita coisa depender de certo esforço pessoal. E aí, entra a ação dos sntidos, da memória das coisas passadas, as ocasiões, e a pessoa pode fraquejar e fazer um recuo, e num limiar importante das moradas interiores, pois a seguinte será uma das moradas mais profundas e deificantes.

O amplexo da alma com Deus, a morada do amor
O leitor deve ter  percebido que ora utilizamos o termo “morada”, no singular, ora “moradas”, no plural. É preciso que se explique: não existe uma só morada – a primeira, a segunda, a terceira, nunca existem sozinhas. Como se trata algo de espiritual, uma morada está dentro da outra: por isso quando se entra na segunda e terceira, ou qualquer uma seguinte, não se está apenas naquela que se entrou. A alma continua com as moradas anteriores, embora tenham influênxia secundária nas etapas seguintes do caminho da perfeição.
Nas moradas anteriores, é como se a alma fosse adentrando em vários conjuntos residenciais, os chamados condomínios fechados, situados dentro de círculos. Nos três primeiros círculos é como se fosse ainda a periferia das moradas divinas no interior da alma. A pessoa pode ir de um a outro, às vezes voltando ao primeiro, ao segundo, indo de novo ao terceiro, porque nestas moradas a alma encontra apenas vestígios de Deus, por onde O amará de forma indireta. Chegamos, porém, ao centro principal das morada interiores, de onde dificilmente se poderá retornar ao início. É a quarta morada.
Santa Teresa diz que é necessário ter vivido muitos anos nas moradas anteriores para se chegar às quartas moradas, pois o Rei do castelo exige muito preparo de seus visitantes. E aqui que se encontra o centro da alma, onde Deus opera suas maravilhas, onde ausculta nossos pensamentos e desejos. É onde também há segredis que nem nós mesmos entendemos.
Para se entrar na quarta morada não é necessário nenhum esforço nosso, pois tudo aí depende só de Deus. Compete-nos apenas estar preparado. É a hora em que o Rei sai de seu castelo e vem ao nosso encontro para receber-nos em suas dependências reais. Daí em diante só caminharemos nas moradas interiores com Ele, não de forma indireta como nas anteriores, mas com sua presença viva.
É onde temos mais embevecimento com as coisas divinas. Diz Santa Teresa: “Como estas moradas estão mais pertos de onde está o Rei, é grande a sua formosura e há coisas tão delicadas para ver e entender, que o entendimento não é capaz de poder achar maneira de dizer sequer alguma coisa que venha tão ajustada, que não fique bem obscura para os que não tenham experiência...”[15]. Assim, torna-se necessário recebermos um Dom interior, o Dom do Entendimento, para que possamos entender tudo o que ocorre nestas moradas.
Mas o que é o entendimento? Segundo São Boaventura, o Dom do Entendimento é “Regra das Circunspecções morais”, “Porta das Considerações Essenciais”  e “Chave das Contemplações Celestes”.
a) Regra das Circunspecções morais – “Inteligência te darei e ensinar-te-ei o caminho que deves seguir; fixarei sobre ti os meus olhos. Não queirais ser como o cavalo e o mulo, que não têm entendimento. Com o cabresto e com o freio sujeita (ó Senhor) as suas queixadas, quando não quiserem aproximar-se de ti.(Sl 31, 8-9).  Mostra-nos assim a conveniência de sermos morigerados, não agindo nunca pelos ímpetos dos sentidos mas segundo os juízos intelectuais (Sl 48,13).  Nos ensina o entendimento prudencial (Prov 2, 3-5), evitar o mal e fazer o bem (Josué 1, 7) e esperar o Sumo Bem: memória das coisas passadas, inteligência das presentes e circunspecção das futuras .
b) Porta das Considerações Essenciais – Procede esta:
1. Da luz interior. Nossa alma tem impressa sobre si uma certa luz natural, pela qual tem capacidade para conhecer os primeiros princípios, ou, como o denomina São Tomás, o “Princípio de Contradição”. Mas só esta luz não basta, porque conhecemos os princípios enquanto conhecemos também os fins;
2. Da freqüência da experiência. De muitas sensações se forma uma lembrança, de muitas lembranças uma experiência, de muitas experiências se forma um universal, que é princípio de arte e ciência (Eclo 34, 9).
3. Da iluminação da luz eterna. A certeza vem de Deus (Dan 2, 21). Disse São João: “O Verbo era luz verdadeira que ilumina a todo homem que vem a este mundo”  (Jo 1, 9). Esta iluminação é ajudada pelos Anjos (Dan 8, 15), mas só Deus tem poder sobre a alma. O Anjo a ajuda como alguém que abre uma janela, mas é o sol que ilumina o interior da casa.
c) Chave das Contemplações Celestes - Nos faz penetrar já no Dom da Sabedoria
Santa Teresa diz que este dom de entendimento não é o pensamento ou a imaginação: “Porque, como o entendimento é uma das potências da alma, tornava-se-me duro estar ele tão volúvel, às vezes, pois de ordinário voa o pensamento tão rápido, que só Deus o pode atar quando assim nos ata, de maneira que parece estarmos de algum modo desatados deste corpo”. [16]








[1] Itinerário da Mente para Deus – Cap. I
[2] Sevandijas – insetos que parasitam nas coisas podres.
[3] Obras Completas – Santa Teresa de Jesus – Carmelo do Coração Imaculado de Maria – Porto – pág. 652
[4] p. cir. pág. 654
[5] Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem – Ed. Vozes, pág. 270
[6] Idem, pág. 271
[7] Obras de Santa Teresa –op. cit. – pág. 660
[8] op. cit. pág. 663
[9] idem, pág. 665
[10] idem, pág. 666
[11] San Luís Maria Grignion de Montfort – Obras – BAC – págs. 218/219
[12] op.cit. pág. 671
[13] op. cit. pág. 678
[14] op. cit. pág. 681
[15] op. cit pág; 683
[16] op. cit. pág. 687