SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

domingo, 20 de janeiro de 2019

O MILAGRE DAS BODAS DE CANÁ





Meditação de Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias - Jesus com Maria nas Bodas de Caná
Fazei tudo o que Ele vos disser".(Jo. 2, 5)
No segundo mistério luminoso contemplamos: a realização do primeiro milagre de Jesus, nas Bodas de Caná. (Jo 2, 1-11)
Preparação:
Vamos fixar nossa atenção ao entrarmos em meditação em Caná da Galiléia. Caná era uma cidade de maior tamanho e influência que Nazaré. Devemos imaginar uma casa daqueles tempos, tamanho talvez médio, ali se encontravam os noivos, os parentes, os convidados e entre estes está Nossa Senhora. Ela tinha ali muitos conhecidos, pessoas amigas; Maria se encontrava lá quando chegaram Jesus e seus discípulos; bem se pode imaginar a emoção da Santíssima Virgem ao conhecer os primeiros seguidores de seu Filho! Certamente Ela os tratou, logo de início, com um carinho maternal todo feito de amor. Ali começou a se tornar claro sua proteção especial por aqueles que resolvem se entregar a Nosso Senhor Jesus Cristo.
Oração Inicial:

"Ó Maria Santíssima Virgem Santíssima, que neste episódio do Evangelho, apareceis como suplicante, como medianeira pela primeira vez, nos relatos evangélicos; vós que intercedestes junto a vosso Divino Filho apesar de não ser ainda a hora, para pedir um milagre, vos que antecipastes, portanto, a vida pública de Nosso Senhor Jesus Cristo. Vós que tendes a voz, vós sabeis pedir como ninguém sabe, tendes a súplica infalível, nós vos pedimos, ó Mãe, nesta meditação, que desde já entregamos em reparação ao vosso Imaculado Coração por tantos pecados, horrores e ofensas que se cometem no mundo de hoje contra vosso Imaculado Coração.

Pedimo-vos, nesta meditação, que estejais a cada passo conduzindo a nossa inteligência, iluminando-a, fortalecendo nossa vontade, inflamando-nos com o desejo de aceitar inteiramente todas as graças que Nosso Senhor nos dará durante esta meditação. Cada um de nós aqui presente, pede que Vós nos ensineis a compreender a beleza da vocação,
a beleza de vossa mediação, a beleza da fé e da obediência, para que assim melhor possamos Vos servir.
Assim seja!"

Ave Maria, cheia de graças,...
I- Nosso Senhor eleva a união conjugal ao estado de sacramento.

" ... celebravam-se bodas em Caná da Galiléia, e achava-se ali a mãe de Jesus. Também foram convidados Jesus e os seus discípulos". (Jo 2, 1-2)

Bodas, casamento, matrimônio. Ali estava Nossa Senhora. O casamento naquele tempo era celebrado com grandes festas, no momento em que se realizava. A preparação começava um ano antes da festa, com o contrato matrimonial pelo qual o noivo ficava prometido à noiva, e vice-versa. Nessa ocasião já se faziam os acertos relacionados ao problema da herança de um e de outro.

Chegado o momento do matrimônio, a festa, dependendo das posses da família, podia durar um dia, em geral começando em terça ou quarta-feira, distante do sábado, nos seus dois limites, mas às vezes durava até uma semana.

Os homens estavam ali para serem servidos; as jovens serviam, mas quem cuidava da festa propriamente eram as damas de maior idade, que tomavam as providências, orientavam o desenrolar da festa. Havia um mestre de cerimônia, um mestre da festa que coordenava os serviços dos serventes. Mas entre essas damas estava Maria. Maria era conhecida dessas famílias e Ela vai ter ali um grande papel.

Segundo afirmam inúmeros teólogos, exegetas, Nosso Senhor nessa ocasião elevou o casamento, a condição de sacramento.

E muito contrariamente ao que se divulga hoje em dia, o casamento é um sacramento, e ademais é uma vocação. Assim como um jovem, uma jovem, podem ser chamados a uma consagração religiosa, a uma vocação de servir a Deus, consagrando-se inteiramente e renunciando ao matrimônio, portanto seguindo uma vocação, um chamado, assim também o casamento é uma vocação. É o que fez Nosso Senhor Jesus Cristo neste momento, nesta festa em Caná foi santificar o casamento.
1 - Qual é a finalidade do casamento?
A união conjugal é querida por Deus para determinadas pessoas, assim como a vocação ao celibato é querida por Deus para outras. Mas assim como alguém que é chamado a seguir uma vocação religiosa, renuncia a tudo para se entregar àquela vocação com vistas a santificar-se e com vistas a cumprir uma missão, dentro do casamento o objetivo não é outro.

O casamento visa a santificação dos cônjuges. O casamento foi elevado a situação de sacramento, porque Deus quer que, dentro do casamento, esposo santifique a esposa, e esta santifique o marido.

2- Equívocos:

Erroneamente se divulga hoje em dia, como talvez em outras épocas, mas não sei se tanto como hoje, que a escolha do futuro cônjuge deve 
visar antes de tudo à beleza. Se é ele, ele procura a beleza na futura esposa. Se é ela, ela procura a beleza nele.
Ora, em latim se diz 'assueta vilescunt'- o uso frequente acaba envilecendo, torna vil, torna desprezível - e ademais, como estamos nesta terra de passagem, nós temos a fase da infância, da juventude, e da senectude. Se os dois se casam visando a beleza, depois de certa idade, a pele enruga, as doenças começam a se fazer sentir etc., etc., etc. E onde fica o elemento da união conjugal? Se a beleza foi embora, não existe mais ?

Esta é uma das causas de tantos matrimônios destroçados no mundo de hoje.

Uma das causas: casou-se por beleza, em um mês a beleza se foi, porque começou a encontrar defeitos.

Às vezes há gente que se casa pelo dinheiro. O dinheiro também, como nós temos sede de infinito, por mais que se tenha, nunca se terá tudo que se quer, porque se quer dinheiro em quantidade infinita, porque o homem, tudo o que quer, quer na proporção de Deus, ou seja, na proporção infinita, porque foi criado para Deus.

2 - O casamento por puro prazer, não tem as bênçãos de Deus!

E Nosso Senhor nas Bodas de Caná eleva o matrimônio a condição de sacramento. O homem deve santificar a mulher e esta santificar o homem. Essa é a finalidade do casamento: a santificação dos cônjuges.

Depois vem em seguida a prole. Mas nem é a prole a razão principalíssima do casamento. Ela é fundamental. Pode ser que o casal não venha a ter filhos. E por isso o casamento deixou de existir? Não. Mas depois da santificação, o que vem em seguida é a prole, os filhos. Casar por um puro prazer, torna praticamente inválido o casamento, não tem as bênçãos de Deus. E o casamento mais dia, menos dia se desfará.
II- Oração Final: celibato ou casamento?
"Minha Mãe,eu sou chamado ao celibato ou ao casamento? Se sou chamado ao celibato, eu devo me convencer de que o instinto que existe em mim e somente pode ser posto em prática dentro do casamento, em obediência a lei divina e a lei natural.

"E se for chamado ao casamento, minha Mãe, eu estou certo, ou estou certa de que devo, dentro do casamento, buscar sobretudo a minha santificação? Eu estou certo ou certa de que eu, casando-me, deverei colaborar para a santificação daquele ou daquela com quem me caso? Eu estou certo de que a felicidade relativa que eu possa ter no estado matrimonial, depende dessa fidelidade A lei de Deus, e que, portanto, eu não devo, de forma nenhuma trair a Deus, a meu cônjuge e a minha própria consciência?

Minha Mãe, neste momento em que medito estes pontos, eu vos peço: dai-me forças para ouvir de coração aberto a voz
de Deus, a voz da graça no meu interior minha alma"
III - O melhor vinho da História.

Conta-nos o Evangelho que nas bodas de Caná, Nossa Senhora percebendo a situação aflitiva dos noivos, dirige-se a seu Filho: "Não têm mais vinho". Ele fita-a com muito carinho e afeto, tratando-A com a suma linguagem de respeito para aquele tempo: "Mulher, que nos importa a mim e a ti isso? Ainda não chegou a minha hora!". Mas, apesar de tal resposta, Maria diz aos criados: "Fazei tudo o que Ele vos disser".

Jesus não pode deixar de atender a súplica de sua Mãe: eis que a água transforma-se num vinho extraordinário, dando origem a comentários: "Mas, então?! Foi deixado para o fim este vinho tão precioso, tão delicioso?".

Hoje em dia a humanidade encontra-se numa situação semelhante à do anfitrião nas bodas de Caná. Falta o vinho precioso da virtude, do juízo, da sabedoria, de modo tal que não há um recanto da terra do qual se possa dizer com certeza: "Este povo vive na graça de Deus".

Precisamente nessa hora de angústia, Nossa Senhora intervém para rogar por nós ao seu Divino Filho: "Eles não têm graças superabundantes para se converterem e mudar de vida. Enviai-lhas e transformai-os".(2)
E Nossa Senhora que conquista o vinho novo, mas o que virá é o melhor vinho de toda a História! Que Ela nos transforme, nos santifique!!
1 - A causa da verdadeira alegria.

A grande maravilha que se nota nas bodas de Caná, além da prestigiosa presença de Jesus -o centro de todas as atenções da festa - Maria e os discípulos, é o empenho que certamente tinham os noivos de tomarem um rumo real e normal de um matrimônio honesto, digno, santo. Os noivos se unem com a idéia exata de que devem trabalhar para santificar o outro; terem, sobretudo os filhos que Deus enviar e educá-los também nas vias da santidade.

Santidade! Esta é a causa da verdadeira alegria. Ser verdadeiramente santo é o que torna uma pessoa alegre; quem foge da santidade, quem foge da graça de Deus não pode ter a posse da verdadeira alegria.

Oração Final :

Ó Mãe Santíssima, a Vós entregamos esta meditação e Vos pedimos a graça de uma consciência clara e uma vontade inteiramente pura e enérgica, no sentido de sermos inteiramente fiéis, quer nas vias da religião, quer nas do matrimônio, a esta virtude que transparece em Vosso semblante: castidade!

Dai-nos, ó Mãe, a graça de sermos puros como os Anjos e santos que estão no céu e isso, quer seja dentro do casamento, quer numa vida religiosa; que entreguemos o nosso corpo e nossa alma para ser como Vós sois: Casta. Mãe Castíssima, fazei de nós pessoas puras e inocentes, afastadas de todo e qualquer pecado e que sejamos tão puros como foram tantos santos e santas.

E assim, tendo vencido todas as lutas e tentações de nossas vidas, por meio de Vossa graça, encontremos Vosso olhar maternal e sorridente; abraçando-nos na entrada do céu e dizendo-nos: Vinde meu filho, vinde minha filha, eu vou mostrar o lugar que lhes preparei por terdes aceitado as graças que a vós foram concedidas ao longo de suas vidas, na linha da pureza e da castidade.
Ps. Esta meditação é de autoria do Mons. João Clá Dias, pronunciada na Catedral da Sé de S.Paulo, 3/set./2005, sem revisão do autor. 'Fátima -O meu Imaculado Coração triunfará' * Mons. João S.Clá Dias, set.2007, 2ª edição, Copypress, pp 87-88.




terça-feira, 1 de janeiro de 2019

OS REIS MAGOS, SANTA VERÔNICA E A MENSAGEM DE FÁTIMA







(Comentários de Dr. Plínio Corrêa de Oliveira sobre a Santíssima Virgem Maria)

E nós podemos perguntar se desta verdade se pode tirar algo de aplicável para nós. Nós também somos poucos, também representamos uma minoria muito pequena e de tal maneira comprimida que quando nos sentimos muitos - mas muitos não no sentido de massa da população - mas muitos apenas em relação ao âmbito normal das relações de um homem, nós já nos sentimos espantados, de tal maneira é antinatural na época de hoje que sejamos numerosos.
Entretanto, representamos o dever da fidelidade; e aos pés da Igreja perseguida, aos pés da Igreja humilhada, aos pés da Igreja lançada, na pior das confusões de sua história, Nossa Senhora quis que representássemos a fidelidade, a pureza, a ortodoxia, a intrepidez, o espírito de iniciativa, de ataque, de ação, no momento em que tudo deveria falar  em recuo, em transigência, em  fuga.
O que representamos nós aí? Aos pés dessa nova crucifixão de Nosso Senhor e da Igreja representamos todos os fiéis, representamos a fidelidade de todos os que foram fiéis no passado, de todos aqueles que dormiram na paz do Senhor e que nos antecederam. Se um São Gregório VII, se um São Luiz, se um São Luiz de Montfort, se um São Fernando de Castela, um Beato Nuno Álvares, pudesse de longe, ao morrer, saber que numa época assim de crise haveria fiéis que representariam a fidelidade inteira à Igreja Católica, eles nos teriam abençoado de longe, teriam se sentido nossos congêneres, de longe teriam sentido uma espécie de desafogo: ao menos estes estão fazendo o que eu quereria fazer se estivesse vivo naquele tempo.
Estamos, portanto, representando a todos eles, estamos representando a todas as almas fiéis esparsas e esmagadas por esse mundo e que não sabem aonde sequer pousar sua fidelidade, mas que gostariam de fazer o que estamos fazendo. Estamos representando as almas que vierem depois de nós, essas almas que, olhando para trás, vão ficar entusiasmadas com aquilo que fazemos. Vão dizer: se estivéssemos vivos naquele tempo, faríamos aquilo.
Há essas interpenetrações na história, em virtude dessa doutrina da representação, algumas das quais são verdadeiramente impressionantes. Os senhores sabem que quando São Remígio e se seus auxiliares ensinavam a Clóvis e seus francos a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, eles davam urros, levantavam suas lanças e diziam: “Por quê não estávamos lá na hora da Paixão para defender Nosso Senhor?”
E eles estavam. Pois, na Paixão, Nosso Senhor anteviu o que eles queriam, anteviu que eles diriam isso, eles O consolaram naquela hora. Há, portanto, uma espécie de reversibilidade por cima do tempo, dessas várias ações, e tudo isso se funde numa cena única e grandiosa; nessa cena única e grandiosa, os poucos fiéis dessa época representam toda a fidelidade passada, do presente e toda a fidelidade do futuro.

Devemos ser para Nossa Senhora o que foi Verônica para Nosso Senhor



Eu tive ocasião de dizer que a cena e a projeção do Auto do Divino Infante acentuou muito essa impressão aqui em nosso grupo, e a situação histórica dentro da qual nos encontramos é precisamente essa: Nossa Senhora está como uma rainha sentada em seu trono, mas, pela injúria dos homens - e de que homens! - já descoroada, já atada com cordas e condenada a ser arrancada aos safanões de seu trono. Nessa sala onde esse crime se prepara, uns poucos são fiéis e estão dispostos a tudo para que esse crime não se consume. Esses fiéis, que estão lutando nessa hora, que tiveram a felicidade incomparável de agüentar os sofrimentos, as incertezas, as torturas espirituais dessa situação, esses fiéis representam todas as almas marianas do passado, do presente e do futuro nesse momento de tanto sofrimento para Nossa Senhora.
Elas são para Nossa Senhora o que Verônica foi para Nosso Senhor. Enxugando a Divina Face, Verônica representou o mundo inteiro, e não houve uma alma piedosa, desde o momento da prática desse ato, que não se sentisse com inveja dela e não se sentisse, por assim dizer, representada por ela. E a nós foi dada a felicidade e a vocação de enxugarmos a santíssima face de Nossa Senhora, cheia de prantos, como a lacrimação em Siracusa[1] nos fez sentir, nessa época dolorosa.
A estrela para os Reis Magos foi Nosso Senhor, para nós será Fátima

E sentimos a necessidade dessa nossa representação nesse ato,  em face da representação dos Reis Magos diante do Menino Jesus. A doutrina da representação nos deve alentar. Peçamos aos Reis Magos que orem por nós - porque certamente estão no Céu junto a Deus - para que tenhamos uma das muitas formas de coragem que nos são pedidas e que devemos ter, a coragem de sermos sós como eles eram; sós no mundo pagão, mas à espera da estrela, à espera da hora de Deus, para cumprir Sua vontade quando ela se apresentasse, e cumpri-la com toda a fidelidade e pontualidade, na hora em que se apresentar.
A hora, para eles, foi consoladora: foi a hora em que o Menino Jesus nasceu. A hora, para nós, deve ser a hora da plena realização dos acontecimentos previstos por Nossa Senhora em Fátima; mas, de qualquer maneira, chegará para nós um momento muito preciso em que uma estrela nos dirá que a hora esperada chegou. Não será uma estrela exterior, mas será uma voz interior. Será uma convicção de que os tempos se consumaram, que a hora felizmente chegou. Devemos nos preparar para essa hora, para sermos modelos de exatidão e fidelidade como foram os Reis Magos, sendo agora modelos de fidelidade no isolamento.
(Conferência, de 05 de janeiro de 1965)




[1]Miraculosa lacrimação de imagem de Nossa Senhora, em Siracusa - Itália, ocorrida em 1953

domingo, 30 de dezembro de 2018

PREGANDO AOS DOUTORES DA LEI, JESUS INICIA SEU APOSTOLADO COM AS ELITES


 

A narração do episódio em que Jesus foi encontrado pregando entre os doutores da lei, contando apenas com 12 anos de idade, demonstra a preferência que Deus dá às elites para fazer um eficiente apostolado de conquista dos corações.
          Como eram, ou deveriam ser, os ensinamentos dos rabinos?    “Sua função, - comenta Thomas Walsh - sob a direção dos Sumos Sacerdotes, na teocracia judaica, era explicar e conservar vivo e puro o conhecimento e amor do Deus único e verdadeiro. E para tornar melhor este serviço inestimável a Israel e ao mundo, os rabinos haviam estabelecido por toda a Palestina, quer nas sinagogas, quer, se fosse preciso, ao ar livre, notável sistema de livres escolas públicas, onde todas as crianças de seis ou mais anos eram obrigadas a estudar. Era ilegal, de fato, para uma família viver onde não houvesse escola. Ensinavam os rabinos que tal lugar merecia ser destruído ou excomungado...”  (O Apóstolo São Pedro” – Ed. Melhoramentos - pág. 19)

          Pelo que diz William Thomas Walsh, seria natural que o próprio Nosso Senhor tivesse freqüentado tais escolas, pois, apesar de ser Deus, Ele quis se sujeitar às leis da natureza humana em tudo. Segundo São Lucas, “o Menino crescia e se fortificava cheio de sabedoria, e a graça de Deus era com ele” (Lc 2, 40). Podemos até imaginar que tenha sido apresentado como Menino prodígio aos doutores de Jerusalém por seu mestre de Nazaré, ocasionando o fato extraordinário de ser encontrado pregando entre os doutores da lei. Ou então o que diz a vidente Beata Anna Catharina Emmerich em suas visões:

          “Nosso Senhor se havia dirigido, com alguns rapazes, a duas escolas da cidade; no primeiro dia, a uma; no segundo, a outra. No terceiro dia, fora de manhã a uma terceira escola, e de tarde ao Templo, onde o acharam os pais. Jesus pôs os doutores e rabinos de todas as escolas em tal estado de admiração e embaraço, pelas suas perguntas e respostas, que resolveram humilhar o Menino, por intermédio dos rabinos mais doutos, na tarde do terceiro dia, em auditório público, interrogando-o sobre diversas matérias. Vi Jesus sentado numa cadeira  grande, rodeado de numerosos judeus velhos, vestidos como sacerdotes. Escutavam atentamente e pareciam estarem furiosos. Como o Senhor houvesse alegado, nas escolas, muitos exemplos da natureza, das artes e ciências, para demonstrar as suas respostas, reuniram-se conhecedores de todas essas matérias”. ( Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus” – Anna Catharina Emmerich – Editora MIR – pág. 57). 
           Ao final, narra a Beata, os doutores e sacerdotes ficaram furiosos porque não conseguiam rebater os argumentos do Menino Jesus.
É claro que naquela pregação Nosso Senhor não se apresentara como o Messias, pois não havia chegado ainda a hora de sua atuação pública: Ele apenas indicava para aqueles doutores, dentre os quais provavelmente encontrava-se Hilel, Shammai ou até mesmo os seus futuros verdugos Anás e Caifás, qual a verdadeira interpretação da Lei e provavelmente quais as principais características do Messias, diferente daquilo que eles criam. Causou entre os doutores uma sensação de maravilhamento, mas ainda não de fascínio, pois São Lucas diz que “todos os que ouviam, estavam maravilhados de sua sabedoria e das suas respostas”, mas não consta que tenha conseguido algum discípulo entre eles.

          Enquanto os sacerdotes tinham funções rituais, os escribas se ocupavam com o estudo das escrituras e da parte doutrinária. No tempo de Nosso Senhor havia duas escolas de escribas, a do liberal Hillel e a de um radical chamado Shammai, ambos oriundos da Babilônia. São Nicodemos e Gamaliel eram também escribas, mas certamente de pouca importância entre eles, pelo contrário teriam sido assassinados por discordarem da corrente babilônica..

          Os judeus atuais (conforme Frank Moore Cross ) admiram Hillel (que veio também da Babilônia no tempo de Herodes, “o grande”) como a “mais criativa inteligência de seu tempo”. “Foi um gigante que deixou marcas indiscutíveis no farisaísmo e por muitas gerações seus descendentes diretos foram os principais líderes da comunidade judaica normativa”.

          Segundo alguns autores, São Gamaliel era neto de Hilel e teria sido mestre de São Paulo, sendo considerado um dos 7 grandes rabinos de Israel. Conforme uma tradição tornou-se cristão, juntamente com outros judeus, e defendeu os primeiros apóstolos perante o Sinédrio (At 5,34 e 6,7).

Hilel fez escola. Um seu discípulo, Gamaliel II, presidiu uma reunião de escribas, já na diáspora, no ano 90 de nossa Era, ocasião em que foi ressuscitada a instituição do Sinédrio, evidentemente que inteiramente adaptado ao novo judaísmo. Logo depois surgiu o judaísmo moderno, que se originou no judaísmo rabínico, o sistema religioso dos rabinos do Mishná (compilado por volta do século II) e do Talmude (compilado entre os séculos V e VI).


sábado, 29 de dezembro de 2018

CORAÇÃO DE MARIA, NOSSA ESPERANÇA!





(Comentários do Dr. Plínio Corrêa de Oliveira sobre a Santíssima Virgem Maria)


“Coração de Maria, minha Esperança!” era o lema do célebre João Sobieski, rei da Polônia, que nos transes difíceis de sua vida e do seu reinado, ia haurir no Coração Imaculado de Maria alento e valor para as dificuldades. Com este grito de guerra, “Cor Mariae, spes mea”, a vibrar-lhe na alma e a inebriar lhe o coração, se lançou ele afoito contra os turcos em 1683, e pouco depois libertava heroicamente a cidade de Viena do apertado cerco muçulmano.
“Coração de Maria, nossa Esperança!” é o grito de guerra com que dum recanto ao outro da terra temos que convocar todas as almas de boa vontade para, numa cruzada invencível, sob a égide da Rainha dos Céus, marcharmos à rude tarefa de libertar enfim a pobre humanidade dos terríveis cercos de ferro com que a perversidade e a insânia tentam aniquilá-la. É pelo Coração de Maria que faremos triunfar o Coração de Jesus!
Há quarenta anos apontava Leão XIII para o Coração Santíssimo de Jesus como o grande sinal no firmamento a prometer-nos vitória: In hoc signo vinces! (com este sinal vencerás) E com ele nos mandava armar, como outrora os soldados de Constantino, com o sinal da Cruz. E muitos dos cristãos obedeceram e o mundo foi consagrado oficialmente pelo Papa ao Sagrado Coração do Salvador.
Por isso podia na sua primeira encíclica escrever Pio XII: “Da difusão e aprofundamento do culto ao divino Coração do Redentor, que encontrou o seu coroamento, não só na consagração da humanidade, ao declinar do último século, mas também na instituição da festa da Realeza de Cristo pelo nosso imediato Predecessor, de feliz memória, resultaram indizíveis bens para inúmeras almas; foi um caudal impetuoso que alegra a cidade de Deus: fluminis impetus laetificat civitatem Dei” (Salm. XLV, 5).
Mas havemos de reconhecer que os triunfos do Coração de Jesus ainda não correspondem plenamente nesta época às sorridentes esperanças de Leão XIII ao consagrar-lhe o universo. “Que época mais do que a nossa – diz ainda Pio XII – foi atormentada de vazio espiritual e profunda indigência interior a despeito de todos os progressos técnicos e puramente civis?... Pode conceber-se dever maior e mais urgente do que evangelizar as insondáveis riquezas de Cristo (Ef. III, 8) aos homens do nosso tempo? E pode haver coisa mais nobre do que desfraldar o estandarte do Rei – Vexilia Regis – diante dos que tem seguido e seguem ainda bandeiras falazes, e procurar reconduzir para o pendão vitorioso da Cruz os que o abandonaram?”
Ora, se urge anunciar essas riquezas insondáveis de Cristo aos homens, o caminho mais rápido e obrigatório é Maria – per Maria ad Jesum. Tem sido sempre assim desde o começo da Igreja. É por Maria que nos vem Jesus.
E o impulso cristão – que irrompe afinal das almas sob a ação do Espírito Santo, como num das suas encíclicas sobre o Rosário o notou Leão XIII – o impulso cristão vai mais longe afirmando cada vez mais clara e afoitamente, sobretudo de há um século a esta parte, que é pelo Coração de Maria que nos há de vir o Coração de Jesus; é pelo reinado do Coração da Mãe que há de vir o reinado do Coração do Filho.
Para o fazer reinar é mister amá-Lo – é o seu triunfo nos corações e nas vontades. Para o amar é urgente primeiro conhece-Lo – é o seu reinado nas inteligências.
Contribuam estas linhas para levar às almas essa luz e esse calor.
Bastante temos já escrito no Mensageiro de Maria e alguma coisa tem lido os nossos leitores sobre Nossa Senhora.
Talvez, porém, não nos situássemos nunca no verdadeiro ponto de vista e na verdadeira luz em que melhor se nos revela toda a excelência, poder e bondade de Maria.
Omnis gloria Filiae Regis ab intus (Salm. 44, 15): toda a glória da Filha do Rei está no seu interior. Assim como não se conhece deveras a Cristo enquanto não se conhece Seu Coração – o Coração de Jesus é o melhor ponto de vista do Salvador, é a chave do enigma de todas as Suas misericórdias, o abismo inesgotável de todas as suas invenções de amor... – assim também Maria Santíssima só será conhecida e amada e reinará plenamente nas almas, quando intimamente for conhecido o Seu Coração Imaculado. É também ele o melhor ponto de vista de Maria. À luz do Seu Coração ilumina-se das mais suaves e deslumbrantes tonalidades a sua virgindade sem par, a sua inexcedível dignidade de Mãe de Deus, de Esposa do Espírito Santo e de Filha Predileta do Altíssimo, a Sua terníssima solicitude de Mãe dos homens e de Rainha dos Céus e da Terra.
O seu Coração é o ímã misterioso que nos arrebata os corações, o que levou São Bernardo a denominá-la a arrebatadora dos corações: raptrix cordium. Mas se é pelo Coração que Ela nos conquista a nós, é também ele a arma com que conquistamos a Ela: tocar-lhe no Coração é vencê-la. E – mistério profundo! – não é outro o cetro com que Maria impera junto do Altíssimo. Mostrar ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo o seu Coração de Filha, Esposa e Mãe é conquistar a Deusé inclinar a seu favor toda a Santíssima Trindade.
Daqui vem que tudo o que se afirma de Maria Santíssima na sua missão e misericórdia a respeito dos indivíduos, da humanidade e da Igreja em especial, se haja de afirmar com mais forte razão do seu Coração Imaculado.
Portanto não conhece Maria quem não conhece o seu Coração; mas quem conhecer a esse Coração possui o melhor conhecimento de Maria.
Não ama a Maria quem não ama o seu Coração; mas amar o Coração de Maria é amá-lo pelo melhor modo como Ela deseja ser amadaÉ no seu Coração que está a razão de todas as suas bondades para com os homens; é essa a força que nos atrai, quando a Ela acudimos e o bálsamo que nos conforta quando A imploramos, na certeza de sermos socorridos.
É porque no peito de Maria palpitava um Coração tão semelhante ao Seu, que o Coração de Jesus à hora da morte no Calvário no-La deu por Mãe: ecce mater tua e a Ela nos entregou por filhos: ecce filius tuus.
Se de São Paulo se afirmou que tinha um coração parecido ao de Cristo: cor Pauli, Cor Christimuito mais e melhor que ninguém tem direito a este encômio supremo Maria Santíssima: Cor Mariae, Cor Jesu.
É porque em seu peito continua lá no Céu a pulsar o mesmo Coração dulcíssimo e amantíssimo que a Santa Igreja, nas horas aflitivas, nos manda acudir a Maria, seguros de obtermos sempre pronto socorro.
“Quem considerar atentamente os anais da Igreja Católica – escrevia o saudoso Pontífice Pio XI – verá facilmente unido a todos os fastos do nome cristão, o valioso patrocínio da Virgem Mãe de Deus. E na verdade, quando os erros, grassando por toda a parte, procuravam dilacerar a túnica inconsútil da Igreja e subverter o mundo católico, Àquela que “sozinha destruiu todas as heresias do mundo inteiro” (do Breviário Romano) acudiram nossos pais e se dirigiram com o coração cheio de confiança; e a vitória por Ela obtida trouxe-lhes tempos mais felizes”.
Quando a impiedade muçulmana, confiada em potentes armadas e grandes exércitos, ameaçava arruinar e escravizar os povos da Europa, foi implorada instantissimamente, por conselho do Sumo Pontífice, a proteção da Mãe Celeste; deste modo foram destruídos os inimigos e submergidas as suas naus (referência à batalha de Lepanto, em outubro de 1571, n.d.c.).
E tanto nas calamidades públicas, como nas necessidades particulares, tem acudido à Maria, suplicantes, os fiéis de todos os tempos, para que Ela venha benignissimamente em seu socorro, obtendo-lhes o alívio e remédio dos males do corpo e da alma. E jamais seu poderosíssimo socorro foi esperado em vão por aqueles que o imploram em prece confiante e piedosa.
Com toda a razão, portanto, nas horas difíceis em que hoje vivemos, todas as nossas esperanças de salvação, de triunfos e de paz estão postas nesta Arca de salvação: no Coração de Maria.
“A mim, o mínimo dos santos, foi-me dada esta graça de evangelizar às gentes as investigáveis riquezas de Cristo”, dizia São Paulo.
Uma das mais insondáveis riquezas que nos legou Cristo foi o Coração de Sua Mãe. E se a nós nos fora dado carisma parecido ao do Apóstolo de evangelizarmos aos nossos leitores toda a profundeza, longitude e latitude, todos os abismos preciosos de amor encerrados no Coração de Maria!
Um erudito e piedoso autor dizia, ao escrever sobre o Coração da Mãe de Deus, que ambicionava para si poder, como outrora São João Evangelista na última Ceia sobre o peito do Senhor reclinar-se também sobre o peito de Maria, para depois de escutar as palpitações de seu Coração, conseguir mais facilmente dizer desses segredos de amor.
As nossas ambições vão mais longe neste instante: quiséramos não somente reclinar a cabeça sobre o Coração Imaculado de nossa Mãe do Céu, mas poder estabelecer lá dentro a nossa morada para que, iluminados nessa luz, virginizados nessa pureza e inflamados nas chamas dessa caridade, tudo o que disséssemos fossem palavras de luz e fogo a brotar da abundância desse Coração inefável.
Que Ela nos acolha nesse recôndito de amor, nos faça aí como que desaparecer n’Ela, para que afinal seja Maria quem diz de Si mesma, pelo débil instrumento que todo se lhe consagra, as maravilhas do seu Coração.
Que seja aí também que os nossos leitores coloquem a sua mansão, para nessa escola e a essa luz melhor compreenderem a obra prima do Senhor.
(Legionário, 28 de março de 1943, N. 555)




terça-feira, 18 de dezembro de 2018

UM MILAGRE DO MENINO JESUS NA POLÔNIA COMUNISTA




No Natal de 1956, na Hungria, professora ateia desafia alunas cristãs
O maravilhoso milagre que vamos narrar ocorreu a muitos anos, por ocasião do Natal de 1956, na Hungria já subjugada pela Rússia comunista. O prodígio, inteiramente verídico e largamente conhecido, chegou ao Ocidente através do relato do Pe. Norberto que exercia o sacerdócio numa paróquia de Budapeste, antes de escapar para o Ocidente, fugindo da perseguição que os marxistas moviam aos católicos em seu país.
Na escola dessa paróquia, ensinava a professora Gertrudes, ateia militante. Todas as suas lições giravam em torno da impiedade e da negação de Deus. Tudo lhe servia para denegrir e ridicularizar a Igreja Católica. O seu programa de ensino era simples: arrancar a Fé da alma das crianças e formar legiões de pequeninos “sem Deus”.
Suas alunas mesmo intimidadas, não se deixavam convencer com as troças da mestra. Coisa curiosa: Gertrudes parecia adivinhar quais as que comungavam e era as que mais perseguia.
Um dia, uma menina de dez anos, chamada Ângela, procurou o Pe. Norberto e pediu-lhe licença para comungar diariamente. Muito inteligente, muito bem dotada, era a melhor aluna da classe e da escola. O sacerdote mostrou os riscos a que se expunha, mas ela insistiu: “Senhor padre, a mestra não conseguirá apanhar-me em falta, asseguro-lhe, e trabalharei melhor. Não me recuse o que lhe peço. Nos dias em que comungo sinto-me mais forte. O senhor padre disse-me que devo dar bons exemplos. Para os dar preciso sentir-me forte.” O padre acedeu.
Desde esse dia, Ângela viveu um verdadeiro inferno. Apesar de saber sempre as lições, a mestra implicava continuamente com ela. A criança resistia, mas ficava nitidamente abatida. A partir de novembro, as aulas passaram a ser autênticos duelos entre a professora e a pequena discípula. Aparentemente, a mestra triunfava e dizia sempre a última palavra. Todavia, a sua irritação era tão grande que até o silêncio de Ângela a punha fora de si.
Aterradas, as outras crianças pediam socorro ao padre Norberto, que nada podia fazer. “Graças a Deus – lembrava ele – Ângela continuava firme na sua Fé e a nós restava rezar com absoluta confiança na misericórdia divina”.
Pouco antes do dia de Natal, a 17 de dezembro, a professora inventou um estratagema cruel que devia, na sua opinião, dar um golpe mortal naquilo que ela designava por “superstições ancestrais” das alunas. E preparou a cena com sádico entusiasmo. Naturalmente, a pobre Ângela foi a vítima …
Com voz doce, a professora fez um longo interrogatório para que ela e a classe se certificassem de que pessoas vivas atendem quando são chamadas. As mortas, ou as que só existem nas histórias, não podem obviamente aparecer.
Mandou então Ângela sair da sala de aula e ficar do lado de fora. Ato contínuo, fez as alunas chamarem-na em coro. Ângela entrou muito intrigada, pressentindo uma cilada. “Afinal – sentenciou a mestra – estamos todos de acordo. Quando chamamos aqueles que vivem, que existem, eles vêm. Quando chamamos os que não existem, eles não podem vir … Ângela, que está aqui, viva, em carne e osso, ouviu-nos chamando-a e veio. Suponhamos que chamássemos o Menino Jesus. Parece que há entre vós quem acredite n’Ele…” – acrescentou maliciosamente. Houve um instante de silêncio, de medo, talvez, mas as meninas, embora timidamente responderam: “Acreditamos”.
“E tu Ângela, também crês que o Menino Jesus te ouve quando o chamas?” – perguntou-lhe a perversa Gertrudes. Apesar de ver ali a cilada que havia pressentido, a criança respondeu com ardente fervor: “Sim, creio que Ele me ouve!”
“Muito bem”, replicou a mestra. “Façamos a experiência: as meninas viram que Ângela, quando a chamávamos, veio imediatamente. Se o Menino Jesus existe, Ele vos ouvirá chamando-O. Gritem todas ao mesmo tempo e com força: Vem Menino Jesus! Vá! Um, dois, três! Chamem!”
Intimidadas, as crianças permaneceram caladas. Os argumentos da mestra tinham-nas impressionado. Gertrudes soltou uma gargalhada prolongada, diabólica …
De repente, deu-se o imprevisto. Levantando-se, no meio da classe, cheia de esperança e confiança, Ângela olhou em volta para todas as suas colegas e gritou: “Ouçam-me, vamos chamá-Lo! Gritemos todas: vem, Menino Jesus!”
Num instante, todas se puseram de pé e fizeram ouvir suas vozes num uníssono vibrante. A professora não esperava esta súbita reação. Um impulso sobrenatural se manifestava naquela que se revelava a mais ardorosa e esperava o milagre.
Quando o clamor das alunas estava no auge, a porta abriu-se sem ruído, entrando por ela uma claridade intensíssima, que crescia, crescia, como a chama de um enorme fogo. No meio deste clarão, um globo cheio de luz abriu-se mostrando um Menino lindíssimo e risonho, todo vestido de luz. O Menino sorria, não falava, e todas as alunas sorriam também, tranquilas e contentes. Depois o globo fechou-se devagar e desapareceu suavemente. A porta fechou-se sem que ninguém a tocasse. As crianças olhavam ainda para lá quando um grito agudo se fez ouvir. Aterrada, olhos esgazeados, braços esticados, a professora gritava com louca: “Ele veio! Ele apareceu!” E fugiu completamente desnorteada, batendo com a porta.
O padre Norberto disse que interrogou as crianças uma por uma. E atestou, sob juramento, que não encontrou nas suas palavras a menor contradição.
Quanto à professora Gertrudes, teve o fim que merecia: enlouquecida, teve de ser internada numa casa de saúde. E ali, sob o impacto de tremendo abalo que sofreu, não cessava de repetir: “Ele veio! Ele Veio!”