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terça-feira, 1 de janeiro de 2019

OS REIS MAGOS, SANTA VERÔNICA E A MENSAGEM DE FÁTIMA







(Comentários de Dr. Plínio Corrêa de Oliveira sobre a Santíssima Virgem Maria)

E nós podemos perguntar se desta verdade se pode tirar algo de aplicável para nós. Nós também somos poucos, também representamos uma minoria muito pequena e de tal maneira comprimida que quando nos sentimos muitos - mas muitos não no sentido de massa da população - mas muitos apenas em relação ao âmbito normal das relações de um homem, nós já nos sentimos espantados, de tal maneira é antinatural na época de hoje que sejamos numerosos.
Entretanto, representamos o dever da fidelidade; e aos pés da Igreja perseguida, aos pés da Igreja humilhada, aos pés da Igreja lançada, na pior das confusões de sua história, Nossa Senhora quis que representássemos a fidelidade, a pureza, a ortodoxia, a intrepidez, o espírito de iniciativa, de ataque, de ação, no momento em que tudo deveria falar  em recuo, em transigência, em  fuga.
O que representamos nós aí? Aos pés dessa nova crucifixão de Nosso Senhor e da Igreja representamos todos os fiéis, representamos a fidelidade de todos os que foram fiéis no passado, de todos aqueles que dormiram na paz do Senhor e que nos antecederam. Se um São Gregório VII, se um São Luiz, se um São Luiz de Montfort, se um São Fernando de Castela, um Beato Nuno Álvares, pudesse de longe, ao morrer, saber que numa época assim de crise haveria fiéis que representariam a fidelidade inteira à Igreja Católica, eles nos teriam abençoado de longe, teriam se sentido nossos congêneres, de longe teriam sentido uma espécie de desafogo: ao menos estes estão fazendo o que eu quereria fazer se estivesse vivo naquele tempo.
Estamos, portanto, representando a todos eles, estamos representando a todas as almas fiéis esparsas e esmagadas por esse mundo e que não sabem aonde sequer pousar sua fidelidade, mas que gostariam de fazer o que estamos fazendo. Estamos representando as almas que vierem depois de nós, essas almas que, olhando para trás, vão ficar entusiasmadas com aquilo que fazemos. Vão dizer: se estivéssemos vivos naquele tempo, faríamos aquilo.
Há essas interpenetrações na história, em virtude dessa doutrina da representação, algumas das quais são verdadeiramente impressionantes. Os senhores sabem que quando São Remígio e se seus auxiliares ensinavam a Clóvis e seus francos a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, eles davam urros, levantavam suas lanças e diziam: “Por quê não estávamos lá na hora da Paixão para defender Nosso Senhor?”
E eles estavam. Pois, na Paixão, Nosso Senhor anteviu o que eles queriam, anteviu que eles diriam isso, eles O consolaram naquela hora. Há, portanto, uma espécie de reversibilidade por cima do tempo, dessas várias ações, e tudo isso se funde numa cena única e grandiosa; nessa cena única e grandiosa, os poucos fiéis dessa época representam toda a fidelidade passada, do presente e toda a fidelidade do futuro.

Devemos ser para Nossa Senhora o que foi Verônica para Nosso Senhor



Eu tive ocasião de dizer que a cena e a projeção do Auto do Divino Infante acentuou muito essa impressão aqui em nosso grupo, e a situação histórica dentro da qual nos encontramos é precisamente essa: Nossa Senhora está como uma rainha sentada em seu trono, mas, pela injúria dos homens - e de que homens! - já descoroada, já atada com cordas e condenada a ser arrancada aos safanões de seu trono. Nessa sala onde esse crime se prepara, uns poucos são fiéis e estão dispostos a tudo para que esse crime não se consume. Esses fiéis, que estão lutando nessa hora, que tiveram a felicidade incomparável de agüentar os sofrimentos, as incertezas, as torturas espirituais dessa situação, esses fiéis representam todas as almas marianas do passado, do presente e do futuro nesse momento de tanto sofrimento para Nossa Senhora.
Elas são para Nossa Senhora o que Verônica foi para Nosso Senhor. Enxugando a Divina Face, Verônica representou o mundo inteiro, e não houve uma alma piedosa, desde o momento da prática desse ato, que não se sentisse com inveja dela e não se sentisse, por assim dizer, representada por ela. E a nós foi dada a felicidade e a vocação de enxugarmos a santíssima face de Nossa Senhora, cheia de prantos, como a lacrimação em Siracusa[1] nos fez sentir, nessa época dolorosa.
A estrela para os Reis Magos foi Nosso Senhor, para nós será Fátima

E sentimos a necessidade dessa nossa representação nesse ato,  em face da representação dos Reis Magos diante do Menino Jesus. A doutrina da representação nos deve alentar. Peçamos aos Reis Magos que orem por nós - porque certamente estão no Céu junto a Deus - para que tenhamos uma das muitas formas de coragem que nos são pedidas e que devemos ter, a coragem de sermos sós como eles eram; sós no mundo pagão, mas à espera da estrela, à espera da hora de Deus, para cumprir Sua vontade quando ela se apresentasse, e cumpri-la com toda a fidelidade e pontualidade, na hora em que se apresentar.
A hora, para eles, foi consoladora: foi a hora em que o Menino Jesus nasceu. A hora, para nós, deve ser a hora da plena realização dos acontecimentos previstos por Nossa Senhora em Fátima; mas, de qualquer maneira, chegará para nós um momento muito preciso em que uma estrela nos dirá que a hora esperada chegou. Não será uma estrela exterior, mas será uma voz interior. Será uma convicção de que os tempos se consumaram, que a hora felizmente chegou. Devemos nos preparar para essa hora, para sermos modelos de exatidão e fidelidade como foram os Reis Magos, sendo agora modelos de fidelidade no isolamento.
(Conferência, de 05 de janeiro de 1965)




[1]Miraculosa lacrimação de imagem de Nossa Senhora, em Siracusa - Itália, ocorrida em 1953

domingo, 9 de setembro de 2018

ÍNTIMA RELAÇÃO ENTRE COROMOTO E FÁTIMA






ÍNTIMA RELAÇÃO ENTRE COROMOTO E FÁTIMA

A história de Nossa Senhora de Coromoto é sumamente edificante e, para que se compreenda todo o seu alcance, farei algumas considerações preliminares.
Durante o Concílio, em 1962, os membros de nosso Movimento que estavam em Roma receberam de um bispo da Venezuela, da Diocese de Guanare, onde está o Santuário Nacional desse país, estampas representando Nossa Senhora de Coromoto.
A imagem chamou-me atenção, porque – embora não tivesse grande valor artístico, no que diz respeito à execução material – seu porte e a expressão do olhar tinham uma elevação régia, uma majestade especial. E uma majestade com inteira consciência de sua grandeza, com muita dignidade; e ao mesmo tempo sem nada de apropriativo, de fruitivo, de como quem dissesse: “Aqui estou eu, sou extraordinária.” O olhar indica que seu pensamento está posto em seres de algum modo superiores a Ela, os anjos, no Céu ou no próprio Deus Nosso Senhor. É a imagem de uma Rainha, ao mesmo tempo contemplativa e mística de primeira categoria, e que considera todas as coisas da Terra através de altíssima luz.  Por causa disso, pus a estampa em minha carteira, e dali nunca mais retirei. Das imagens de Nossa Senhora por mim conhecidas, essa é talvez uma das que mais me falam à alma.
Embora eu já tivesse ouvido falar várias vezes de Nossa Senhora de Coromoto, nunca soube de detalhes de sua história. Só recentemente vim a conhecê-los, e tocou-me enormemente imaginar uma imagem tão majestosa sendo o veículo para tanta misericórdia. Através dela se tem a verdadeira idéia de majestade unida à misericórdia. É uma Rainha com fisionomia extremamente elevada e nobre, com porte muito digno e olhar pairando nas mais altas paragens do espírito, e ao mesmo tempo cheia de uma misericórdia inefável. A misericórdia não é demagógica, vulgar, uma condescendência com o pecado, uma afabilidade criminosa em relação ao mal, mas um ato de bondade generoso, gratuito, de quem converte o vence o mal, que vem muito de cima, mas entra a fundo e é capaz de toda espécie de regenerações.
Há um sacrossanto contraste entre a majestade e a misericórdia. Não há verdadeira majestade sem misericórdia, nem verdadeira misericórdia sem majestade.
A história do índio Coromoto, ao qual apareceu a Santíssima Virgem, fez-me lembrar as aparições de Nossa Senhora a um índio em Guadalupe, no México. A Mãe de Deus tratou-o com uma ternura especial, uma bondade, como não se vê nas outras aparições – mesmo em Fátima, onde Ela se manifestou tão condescendente e bondosa. Esse índio sentia tanta liberdade para com Nossa Senhora que, em vez de chamá-la “minha Rainha”, tratava-A de “minha filhinha”. E a Santíssima Virgem tomou tão bem esse tratamento, que uma ampliação fotográfica recente da imagem de Guadalupe mostra que na pupila dos olhos de Nossa Senhora está a figura do índio, tornando-o imortalizado aos olhos d’Ela. Estar na menina dos olhos significa ser o centro da atenção, do cuidado, e isto realizou-se ao pé da letra.
Tudo isso levou-me também a pensar a respeito do que disse Santo Antonio Maria Claret, após assistir as últimas sessões do Concílio Vaticano I, há cem anos atrás. Vendo, já naquela época, os sinais de desagregação da Europa, afirmou querer morar na América, porque aqui floresceriam santos maiores do que os surgidos na Europa. Essa afirmação me pareceu extraordinária.
Há mais. Antes de ser confessor da Rainha da Espanha, Isabel II, Santo Antonio Maria Claret tinha sido Arcebispo de Santiago de Cuba, e saíra deste país por ser perseguido pelos inimigos da Igreja, apesar de seu apostolado com a população do lugar, em favor da qual ele praticara magníficos milagres. No navio que o conduzia, predisse o futuro próximo de Cuba, sua separação da Espanha e submissão aos Estados Unidos. E apresentava isso como uma série de apostasias e castigos. Naturalmente, uma apostasia causa outra, e por fim se chegou à atual e miserável situação de Cuba.
Parecia-me curioso que ele, falando de Cuba com tal energia e precisão, previra tanta santidade na América Latina. Isso significava a presença de um grande perdão e uma imensa misericórdia, ao lado do abismo representado pelo anúncio dessa severidade.
E, afinal, como a santidade tem sua origem, sua causa primeira, numa misericórdia de Deus para conosco, eu achava muito razoável que houvesse esse nexo entre a profecia de Santo Antonio Maria Claret, de um lado, e de outro o fato de Maria Santíssima ter-Se manifestado tão carinhosa, condescendente, em relação a esse índio do México. Nossa Senhora de Guadalupe foi proclamada pela Santa Sé Patrona da América Latina e, evidentemente, esse índio representava, para o olhar d’Ela, a América Latina inteira, e todos nós somos simbolizados por esse índio. De certo modo, pode-se dizer que cada um de nós está na menina dos olhos da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe.

Apesar da extrema maldade do índio, Maria Santíssima manifesta sua inesgotável misericórdia
Essas considerações estavam reunidas em meu espírito quando soube do fato ocorrido em Guanare, Venezuela, com o índio Coromoto, em seus detalhes. Através destes, se vê que é impossível a um homem levar mais longe a obstinação no mal, e inimaginável por nós que a Mãe de Deus chegasse a  extremo sua “obstinação” em convertê-lo. Realmente é a última palavra em matéria de condescendência: depois de o índio ter querido flechar e golpear Nossa Senhora, Ela fez um milagre, deixando nas mãos dele um pergaminho com sua imagem, e depois o converteu! Não se pode excogitar misericórdia mais excelsa, mais excelente, do que essa.
Alguém poderia observar que o pecado dos que mataram Nosso Senhor Jesus Cristo foi um pecado maior do que o desse índio, tentando agredir a Santíssima Virgem. Tudo quanto toca à Pessoa Divina de Nosso Senhor Jesus Cristo ultrapassa qualquer dimensão e não pode ser comparado com absolutamente nada. Porém é preciso considerar que em sua Paixão Jesus estava na prostração, na humilhação própria à sua natureza humana. Nossa Senhora, em Guanare, Se apresentou em visão, de forma esplendorosa, mostrando-Se superior a tudo quanto o índio conhecia, e de uma maneira evidente, como Nosso Senhor não fez com seus verdugos. Apesar disso, a maldade dele foi tão grande que tentou agredi-La. Não afirmo ter sido isso mais grave do que o deicídio, mas, sob certo aspecto, revela uma dureza de alma ainda maior. Pois bem, para esse homem, a Mãe de Deus manifestou tanta bondade e misericórdia.

“À sua bondade soberana ninguém resiste”
Que ensinamentos retiramos desse fato? Antes de tudo, para Nossa Senhora a maldade humana não consegue opor obstáculos decisivos. De um jeito ou de outro, se a Santíssima Virgem quer mesmo, e até o fim, Ela acaba vencendo a maldade humana. Portanto, se em determinado momento da História da Humanidade Nossa Senhora quiser praticar um ato de generosidade excelso em relação a um homem, ou a uma série de homens, Ela poderá fazê-lo e vencerá, porque à sua bondade soberana ninguém resiste.
A Santíssima Virgem é soberana em tudo, inclusive em sua bondade. Querendo, Ela derruba todos os obstáculos, como Rainha cheia de suavidade, de tal maneira que ume pessoa, liberta dos grilhões do vício, dos apegos maus, realiza o verdadeiro livre arbítrio, o qual consiste em se confiscado por Nossa Senhora. Trata-se de um verdadeiro confisco, porém a Mãe de Deus quando confisca, liberta. Ela não cobre o indivíduo de algemas, mas torna-se sua senhora, e ele torna-se senhor de suas más inclinações, de seus vícios, de seus pecados, de tudo quanto impede que sua alma voe para o bem. Essa é a própria substância da definição do livre arbítrio, segundo a Doutrina Católica.

A misericórdia de Nossa Senhora se estende aos povos e às instituições
Outra lição muito importante que decorre das aparições da Virgem Maria ao índio Coromoto é a seguinte: se Nossa Senhora fez isso com esse homem, não poderá realizá-lo com as pessoas de um continente, ou de uma parcela da Humanidade, especialmente suscitada para ser d’Ela, e para seu futuro reino? Maria Santíssima não tem o poder de provocar a conversão da América Latina? Pobre América Latina, tão endurecida, opaca e apagada na Fé que recebeu, na pureza e elevação dos costumes que já não possui; tão longe das esperanças dos santos e dos missionários que vieram cá, para fazer um novo reino de Deus, a fim de compensar, no balanço das coisas entre a Terra e o Céu, o que a Santa Igreja estava perdendo com a apostasia protestante! Essa conversão não ocorrerá de um momento para outro?
Por fim, voltamos nossos olhos para nosso Movimento.
Vendo as coisas bem de frente, tendo Nossa Senhora desígnios sobre nosso Movimento e sua atuação na América Latina, não é bem verdade que o episódio de Coromoto, a graça desse perdão, que dulcifica qualquer dureza e vence qualquer ingratidão, precisa começar dentro de casa? E que devemos pedi-la para nós e para toda essa parte da Humanidade, aonde Nossa Senhora quis fazer esse milagre extraordinário? E não é verdade também que, apesar de todas as nossas fraquezas e infidelidades, temos razões especialíssimas para confiar, e nunca devemos consentir num pensamento de desespero, à vista de uma graça tão extraordinariamente grande?
Aqui está o ponto central da meditação a respeito de Nossa Senhora de Coromoto, que visa mais especialmente nosso Movimento – porque tem uma missão muito em ordem a isso – e, dentro dele, cada um de nós. Mas essa meditação deve também ter em vista a América Latina, como sendo especial protagonista do dia de amanhã, no Reino de Maria.

Coromoto e Fátima: íntima relação
Finalmente, podemos nos perguntar qual a relação de tudo isso com as profecias de Fátima. São os mistérios de Nossa Senhora... A realização das promessas da Virgem de Fátima purificará e preparará as almas para o Grand Retour (*). Quando ele vier, receberemos a graça da misericórdia, da conversão completa.
Com esta visualização, temos um grande enriquecimento para o conjunto de nossas concepções sobre o futuro da História, isto é, a idéia do Grand Retour fundada num milagre extraordinário como foi o de Guanare. É um fato concreto que nos dá uma esperança especial e nos explica emalgo como vai ser o Grand Retour.
Poder-se-ia objetar que não foram apresentadas provas que demonstram a veracidade da história de Nossa Senhora de Coromoto. A prova é: em Guanare está o pergaminho contendo a imagem, com base na qual foi tirada essa estampa que estou comentando, colocada num belíssimo relicário de ouro. Todo o povo, desde quando ocorreu o milagre, vai venerá-lo, indicando assim que já naquele tempo se espalhou sua fama; foi, portanto, admitido por todos os que conheciam aquele índio e sua família, que os fatos relacionados à imagem e a eles eram reais. E essa versão e essa crença foram conservadas através das gerações.
Mas, para mim, isso que poderia ser uma prova histórica muito boa é de pouca importância. O importante é saber que Nossa Senhora é assim, conforme nos ensina a Doutrina Católica. Portanto, ainda que as aparições de Nossa Senhora de Coromoto não tivessem acontecido, elas são reais na sua substância: a misericórdia de Maria Santíssima pode chegar até lá. Se pedirmos, seremos atendidos.
E, para esse efeito, poderíamos fazer uso da seguinte jaculatória: “Nossa Senhora de Coromoto, cuja misericórdia a dureza do coração do índio pecador não conseguiu deter, tende pena de mim, entretanto tão pecador e tão endurecido”.

(Plinio Corrêa de Oliveira, conferência de 16/7/72- Extraído da revista “Dr. Plínio” n. 139, de outubro de 2009, págs. 19/23)

 (*) Na revista “Dr. Plínio” n. 86, de maio de 2005, está explicitado o que seja o “Grand Retour”, ou “Grande Retorno” em português, ao seio da Igreja.: “Uma conversão completa, um total repúdio a todo o mal que havíamos feito, e um amor inteiro às virtudes e a todo o bem que éramos chamados a praticar e a realizar. Em suma, um vôo à santidade, que abarca o perfeito amor a Deus e ao próximo, com o deliberado propósito de extinguir a Revolução sobre a face da Terra”.