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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

PORTUGAL E ESPANHA TRAZIAM MAIS RIQUEZAS PARA AS COLÔNIAS DO QUE DAQUI AS LEVAVAM

 


Há algumas calúnias pregadas contra nossos colonizadores, dentre as quais a de que aqui vieram roubar nossas riquezas e de que mandavam pra cá somente bandidos e fugitivos da justiça.

Para desmentir parte desta calúnia nada mais do que um texto insuspeito, escrito por um holandês que participou da invasão da Bahia em 1624, portanto, protestante, herege e inimigo dos católicos. 

O “Relato da Conquista da Cidade do Salvador enviado para a Holanda” foi escrito por Johann Gregor Altenburg em 1628, portanto, logo depois da invasão holandesa. Dele extraímos o tópico abaixo, muito ilustrativo da riqueza que havia em Salvador na época, a qual não foi produzida aqui mas toda trazida de Portugal e Espanha (na época o Brasil estava sob domínio espanhol), fazendo de nossa capital, juntamente com Quito, uma das cidades mais ricas das Américas.  Lembremos que aqui não havia nem ouro nem prata. O ouro só foi descoberto no século XVIII e a prata muito tempo depois, e pouca. 

Eis o excerto:

“NO DIA 11 DE MAIO, RETIRARAM-SE DE TODAS AS IGREJAS E CONVENTOS, AS IMAGENS, NA SUA GRANDE MAIORIA DE PRATA, ENTRE AS QUAIS, DOZE APÓSTOLOS, UMA IMAGEM DE MARIA E OUTROS PERTENCES, QUE TOMOU O ALMIRANTE WILLEKENS SOB SUA GUARDA. AFORA ISSO, ABRIU-SE MÃO DE TODOS OS CONVENTOS E DOS BENS ECLESIÁSTICOS, NOS QUAIS SE FIZERAM IMPORTANTES E MAGNÍFICAS PRESAS, ESPECIALMENTE NO COLÉGIO DOS JESUÍTAS, ONDE FORAM ACHADOS, EM QUARENTA QUARTOS, RIQUÍSSIMOS E VARIADOS UTENSÍLIOS, OBJETOS PRECIOSOS FABRICADOS DE PRATA E OURO, DE SORTE QUE MUITO CAPITÃO,  EM UMA HORA, ARRECADOU 5 A 6.000 FLORINS; TAMBÉM SE FARTARAM OS SOLDADOS RASOS, ARREBANHANDO-SE E COBRINDO-SE DE VELUDOS, SEDAS, PRATA, OURO, COMO GRANDES OFICIAIS. NÃO QUIS, TODAVIA, CONSENTIR O ALMIRANTE NO SAQUE DAS CASAS DOS MORADORES. O QUE, DIFICILMENTE, PÔDE SER EVITADO”.

Em outra parte do mesmo documento o Autor informa que daqui saíram sete navios carregados de riqueza para a Holanda, tudo saqueado dos conventos, das igrejas e da população. Era grande o acervo cultural que portugueses e espanhóis haviam trazido para a colônia. O autor não diz o que foi feito dessas imagens, devem ter sido levadas para a Holanda e transformadas em artefatos para uso pessoal, vendidas ou colocadas em museus, não se sabe. Sedas, veludos e objetos de prato serviram para enriquecer mais ainda suas casas, a maioria já cheia dos saques piratas que faziam em suas guerras de conquista.

(“Relação da Conquista e Perda da Cidade do Salvador pelos Holandeses em 1624-1625 “ – vol. I – Johann Gregor Aldenburgk –Edição da !Brasiliensia Documenta” , págs. 239/240)

Veja nossas postagens anteriores sobre a invasão holandesa no Brasil:

VALENTE RESISTÊNCIA DAS MULHERES AOS INVASORES HOLANDESES

https://quodlibeta.blogspot.com/2016/10/valente-resistencia-das-mulheres.html

QUARTO CENTENÁRIO DA INVASÃO E EXPULSÃO DOS HOLANDESES 

https://quodlibeta.blogspot.com/2025/04/quarto-centenario-da-invasao-e-expulsao.html



segunda-feira, 2 de abril de 2018

ORIGEM DA IMAGEM DE NOSSA SENHORA DO DESTERRO VENERADA NO CONVENTO DE SANTA CLARA EM SALVADOR, BAHIA





Pouco depois de se dar princípio à Cidade de São Salvador, ou Bahia de todos os Santos, foi isto pelos anos de 1560 sendo Governador Mem de Sá, se erigiu uma Ermida no Sertão, ou alguma cousa distante da nova povoação; aonde uns devotos, não sem destino do Céu (porque havia escolhido aquele lugar para Palácio), colocaram as imagens de Jesus, Maria e José. Imagens de vulto formadas de madeira, o menino, e São José com seus bordões. Era esta Ermida feita de tábuas e o teto coberto de folhas de palma. O sítio desmatá-lo-iam; mas afrouxando a devoção, tornou a crescer o mato; e assim era muito infestada de animais ferozes e peçonhentos, com cobras jibóias ou de veados muito grandes, jacarés e outros que saíam das lagoas que lhe ficavam vizinhas. E, ou fosse que se acabasse de todo a devoção, ou que o temor de cair dos dentes daquelas feras cruéis e medonhas, fez que se acabasse totalmente o ir a venerar a Senhora à sua Ermida. E assim se perdeu a devoção; e quando algumas pessoas (se iam lá) levavam armas de fogo para se evitar qualquer perigo.
Pelos anos de 1567, sendo ainda Governador o referido Mem de Sá, se diz por tradição comum, que fora um homem (ou Nossa Senhora lhe inspirou que lá fosse). Ia este a cavalo para aquela parte e vendo Ermida, ou casa de palha, perguntou a uns negros o que aquilo era, e eles lhe responderam: era a casa de Nossa Senhora do Desterro; mas que se não podia lá ir, porque era aquele sítio muito reparo o homem, no que os pretos referiram; e assim se resolveu a entrar na Ermida e ir fazer oração à Senhora do Desterro. Foi chegando, se apeou e entrou dentro a encomendar-se à Senhora.
Depois de fazer a sua oração, saiu para fora e assentou-se à porta da Ermida, e ali encostado, dizem, que adormeceu. Despertou logo todo sobressaltado; porque se viu cingido e cercado de uma grande jibóia, ou securiubam (1) a qual já fazia diligência pelo tragar. Neste tempo, e neste perigo, invocou em seu favor à Senhora do Desterro, e com ela animado puxou de uma navalha, que também dispôs Deus que a levasse consigo; tal golpe e com tal sucesso lhe deu pela garganta que a degolou e caiu morta aquela fera e animal espantoso. Reconhecendo logo de onde lhe viera o socorro, entrou dentro da Ermida a dar graças à Senhora, que o havia livrado da morte. E depois saindo fora, carregou como pôde no cavalo aquele medonho animal, e com ele se foi à praça da Cidade, apregoando a grande maravilha e o favor que a Senhora lhe fizera. Tem aquele animal a pele tão dura, que dizem por encarecimento que tem sete couros. E é esta tão dura que parece impenetrável, porque para o abrirem não bastavam os machados. E aqui se viu o mais o portentoso do milagre, que sendo aquela pele tão dura e tão impenetrável , a fez o favor de Maria Santíssima tão e tão branda no pescoço que com uma navalhada pôde aquele homem degolar aquela grande fera. Esfolaram-na e depois encheram a pele de algodão, e com a navalhinha na boca a foram oferecer à Senhora do Desterro, em memória do benefício que fizera em livrar da morte aquele seu devoto.
Com este grande milagre se ascendeu o povo em fervorosa devoção para com a Senhora do Desterro, e tanto que o mesmo Governador Mem de Sá pediu a todos os moradores que tinham pretos, aos que tinham seis, que dessem três, e aos que tinham quatro, que dessem dois, e assim aos mais, para irem roçar todo aquele mato, que estava em o circuito da Ermida da Senhora. Limpa toda a terra até o sítio da casa da Senhora, trataram de lhe edificar outra mais grande e capaz de pedra e cal, e alevantar casas junto a ela. E o mesmo Governador mandou ali edificar uma casa nobre, ou palácio, para sua vivenda. E depois se foram fazendo tantas casas, que a Cidade se estendeu até aquele sítio. O mesmo Governador desejou logo, que naquele mesmo sítio se edificasse um Convento para religiosas, que perpetuamente louvassem a Nosso Senhor e a Nossa Senhora, e fez as diligências possíveis para que estes seus desejos se efetuassem. E porque ele o não pôde conseguir em sua vida, o recomendou à Câmara daquela Cidade. E tão certo estava de que a Senhora do Desterro havia de ser servida naquele lugar por religiosas, que na sua morte deixou ao Padre Reitor do Colégio da Companha (2) daquela Cidade mil cruzados em depósito, para que assim que chegassem as religiosas a tomar posse daquela casa lhes entregasse para a ceia daquele dia; como em efeito o executou, indo logo entregá-los ás religiosas. E reparando elas na aceitação, o Padre Reitor as certificou, de que aquele dinheiro era seu, e que se lhe havia deixado em legado para quando elas chegassem.
Isto mesmo testemunha ainda hoje uma companheira das Madres Fundadoras, que vive no Convento de Santa Clara da Cidade de Évora (de onde saíram para fundar) neste presente ano de 1705, a qual disse que estes mil cruzados depositaram logo as Madres Fundadoras, para se dar com ele princípio a obra do seu Convento. O ano em que as Fundadoras saíram do seu Convento de Évora, foi o de 1676 em oito de novembro. E tomaram posse do Convento novo na Cidade da Bahia em nove de março de 1677. As Fundadoras eram a Madre Soror Margarida da Coluna, que ia por Abadessa, a Madre Soror Luiza de São José por Vigária, as outras duas eram a Madre Soror Maria de São Raimundo e Soror Jerônima do Presépio. E teve muito de mistério, que todas quatro voltaram a Portugal e foram para o seu Convento, aonde se restituíram todas em oito de novembro de 1686. Gastando dez anos justos e completos nesta obra, que podíamos dizer fora profetizada por aquele pio e devoto Governador Mem de Sá. Esta casa da Senhora do Desterro é juntamente paróquia daquele distrito; se o era já quando as religiosas tomaram posse não me constou; mas já o devia ser. A imagem da Senhora é de talha estofada, e por ornato lhe põem um rico manto, e assim a Senhora como São José; e o soberano menino se vem com varas de prata por bordões, a sua estatura da Senhora são cinco palmos. Obrou sempre, e obra muitos milagres. A sua festividade se faz sempre com grandeza em dia de Reis, na qual se acaba o seu septenário.
NOTAS: 1) Tudo indica que o autor quer se referir à cobra sucuri.
2) Refere-se à Companhia de Jesus.
(Transcrito do livro “Santuário Mariano e História das Imagens Milagrosas de Nos-sa Senhora” – de Frei Agostinho de Santa Maria – Em Lisboa – 1722- págs. 28/30).
(O trabalho de Frei Agostinho (“Santuário Mariano...”) foi feito sob encomenda do Bispo, Dom Sebastião Monteiro da Vide, que viu a necessidade de documentar todas as imagens milagrosas de Nossa Senhora que haviam na Bahia).

domingo, 9 de outubro de 2016

VALENTE RESISTÊNCIA DAS MULHERES CATÓLICAS AOS HOLANDESES NO NORDESTE





Os piratas protestantes que invadiram e dominaram o Nordeste brasileiro no século XVII enfrentaram forte resistência de nossas mulheres.
Para fugir da terrível perseguição e das crueldades que os holandeses vinham praticando no litoral do Nordeste, a população se sujeitava a tudo. De Alagoas, da Bahia ou de Pernambuco corriam pelos matagais e serranias multidões de trânsfugas, algumas vezes protegidas pelos nossos guerreiros, com grandes sofrimentos, como relata o Padre Manoel Calado:
"Aqui os tristes ais dos meninos, os suspiros das mães, o desamparo das donzelas descalças, e metidas por a lamas, e passarem os rios com pouca compostura de seus corpos, alheios da honestidade, e recolhimento em que haviam sido criadas (o que sentiam mais que perder as vidas) aqui umas desmaiadas, outras com os pés abertos, porque o descostume de andar não as deixava dar um passo adiante; as pragas que rogavam ao Conde de Banholo (o qual depois que entrou em Pernambuco tudo foi de mal a pior) o ver os amancebados levar a cavalo as mancebas brancas, mulatas e negras, e deixarem ir suas mulheres a pé, e sem saberem parte delas, a fome que todos iam padecendo, o dormirem por os pés das árvores, sem amparo, nem abrigo; não é coisa que se pode escrever, porque muitos dos que o viram com os olhos, como eu, tendo os corações férreos, não se podiam refrear sem derramar grande cópia de lágrimas" 
Em outro episódio, D. Jerônima de Almeida, esposa de Rodrigo de Barros Pimentel (o qual fugira para a Bahia), foi presa em Porto Calvo e levada para Recife por haver agasalhado em sua casa e dado comida a uma tropa de soldados brasileiros que vinham da Bahia em direção de Pernambuco para combater os invasores. Colocaram-na em uma prisão juntamente com seus nove filhos, incomunicável com quem quer que fosse, e, depois de iníquo julgamento, foi condenada a morrer degolada. Sabedoras da notícia, várias mulheres de homens nobres foram até Maurício de Nassau pedir que lhe poupasse a vida. Fazendo-se passar por compassivo, o conde atendeu o pedido das mulheres e deu ordens que D. Jerônima fosse indultada
Quando a situação dos hereges invasores holandeses era quase insustentável, utilizaram-se de mais um artifício diabólico para sobrepujar os nossos. Publicaram um edital, pelo qual ordenavam que "todas as mulheres dos moradores que se haviam retirado com João Fernandes Vieira para os matos, fossem em cinco dias naturais próximo seguintes em busca de seus maridos com seus filhos, e filhas, sob pena de morte, a fogo, e sangue, e perdimento de seus bens, e que passado este termo de cinco dias, senão usaria de clemência, nem piedade com aquelas que tendo seus maridos, irmãos, ou filhos ausentes, se achassem em suas casas". 
Houve grande clamor entre as moradoras de Recife: "Umas se prostravam de joelhos, e com as mãos levantadas ao Céu, e os olhos arrasados em lágrimas, pediam a Deus perdão, e misericórdia, outras com os Rosários da Virgem Maria nas mãos, os passavam uma, e muitas vezes, outras se abraçavam com os inocentes filhinhos, e com soluços, e gemidos se despediam deles, outras caiam desmaiadas em terra sem dar acordo de si, outras que nunca haviam saído de suas casas, se não era no tempo da Quaresma, ou nos dias das festas principais à Igreja, e ainda então arrimadas em pajens, por não caírem; vendo-se neste aperto, e estreitura arremetiam com súbito temor a entrar por entre os matos, e ali se punham aos pés das primeiras árvores que achavam, pedindo a misericórdia a Deus, e a proteção, e amparo à Virgem Maria, e aos Santos, de quem eram mais devotas; porque de outra parte não esperavam que lhes pudesse vir socorro, nem remédio". 
Mais tarde, os holandeses começaram a cumprir suas ameaças. Estavam os insurrectos aquartelados pelas matas do interior pernambucano, sob o comando de João Fernandes Vieira, quando lhes chegou o aviso: já tinham sido levadas prisioneiras a mulher de Francisco Berenguer, D. Antonia Bezerra, a de Antonio Bezerra, D. Isabel de Góis e a de Amaro Lopes de Madeira, D. Luzia de Oliveira. E a notícia dizia que os inimigos estavam em busca de prender outras mulheres. Sabedor disto, levantou-se Fernandes Vieira e gritou para seus homens: "Vamos acudir por nossa honra, e por nossas mulheres, e filhos, morramos na demanda, pois mais vale uma morte honrada, que mil vidas com afronta. Porventura não somos nós Portugueses, filhos, e netos de nossos pais, e avós, que em outro tempo foram assombros do mundo? Que fazemos? Como não caminhamos? ". Tal foi o entusiasmo de sua tropa que, ao grito de "vamos! Vamos!" todos partiram com seu general para dar combate ao inimigo.
Quando estavam a caminho, resolveu Fernandes Vieira descansar numa fazenda, porque chovia muito e estavam todos enlameados. Quando dormia, teve um sonho, no qual lhe aparecia Santo Antonio repreendendo-o de descuidado, "e pouco zeloso do serviço de Deus, e das necessidades, e aflições de seus próximos, e que lhe mandava que se levantasse com pressa, e fosse a buscar o inimigo, porque lhe daria seu favor, e adjutório em paga dos serviços que nas suas confrarias havia feito". 
Ao se acordar, vendo naquele sonho alguma inspiração divina, o comandante mandou acordar toda a tropa e partir imediatamente. Quando chegaram ao acampamento holandês onde as mulheres estavam cativas, que era apenas uma fazenda, as sentinelas que lá restavam disseram que o inimigo já havia saído em direção de Recife com suas presas. Alguns quilômetros adiante o grupo de Fernandes Vieira se encontra com dois sentinelas inimigos, com os quais trocam tiros, matando um deles. Mais adiante estavam os holandeses aquartelados numa fazenda, já prestes a montar de novo, quando ouvem os tiros e voltam para dentro da casa. Neste local houve uma renhida batalha.
Desesperados, colocaram os hereges as três mulheres prisioneiras numa das janelas da casa da fazenda, juntamente com uma criança de quatro meses de nascida nos braços de uma delas, ameaçando matá-las se os portugueses não parassem de atirar. João Fernandes Vieira, sensatamente, mandou suspender o fogo. Teria que haver negociações. Mandou uma pessoa negociar, com a bandeira branca em sinal de paz, mas os holandeses traiçoeiramente mataram o emissário. Cheios de ódio por causa desta traição covarde, os nossos invadem a casa da fazenda, atirando e matando, livrando da morte as três mulheres e a criança e ainda matando todos os holandeses que estavam ali aquartelados. 
Bem diferente era o tratamento que as mulheres prisioneiras tinham nas mãos de João Fernandes Vieira ou dos portugueses, brasileiros ou negros de modo geral. Logo após o episódio acima, tiveram outro entrechoque no lugar chamado Afogados, onde fizeram prisioneiros dois holandeses e uma mulher que andava com eles. Os dois homens foram postos na prisão para serem interrogados, mas a mulher foi remetida a Recife, com um recado de Fernandes Vieira: que estava devolvendo a mulher para a liberdade e de volta para seus amigos, os holandeses, para demonstrar o cavalheirismo e cortesia com que os portugueses sabiam lidar com as mulheres, tratadas com respeito e sem lhes fazer qualquer agravo como os holandeses costumavam fazer com as nossas mulheres. 
João Fernandes Vieira era um rico comerciante de Recife, outrora amigo dos holandeses, que resolveu apoiar o levante popular para expulsar os invasores. Soube este que dois grandes senhores de engenho haviam perdido quase toda sua riqueza na guerra contra os batavos: os senhores Antonio Cavalcanti e Francisco Berenguer de Andrada, que já pensavam em desertar de tão nobre causa. Chamou-os João Fernandes Vieira para um acordo. Tanto Antonio Cavalcanti quanto Francisco Berenguer tinham dois filhos, um casal de cada um. Que fez Fernandes Vieira? Tratou que se casassem os dois filhos homens com as duas filhas mulheres, sendo que ele, Fernandes Vieira, seria o padrinho e lhes daria como dote engenhos e bens que possuía. Com este presente de padrinho os filhos de ambos os senhores de engenho (quase falidos) ficariam ricos. Perante tal oferta, os dois comandantes voltaram com redobrada coragem para o campo de batalha...


sábado, 13 de agosto de 2011

As gestas de um Santo: a batalha de Aljubarrota

14 de agosto, comemora-se uma das mais célebres batalhas épicas de Portugal, protagonizada por um dos maiores heróis da Cristandade: São Nuno de Santa Maria, o fabuloso Condestável de Dom João I, primeiro rei da dinastia de Avis.
Coria o ano de 1385. Estava chegando a hora decisiva para se definir a posse do reino de Portugal ou para consolidar o novo trono procedente de Avis. Coimbra, que meses antes tinha sido o palco onde nascera a nova monarquia, seria agora o teatro do entrechoque trágico das forças contrárias em disputa pelo reino. O rei de Castela, mais uma vez, tentava invadir Portugal.
Quando a notícia da aproximação do exército castelhano chegou a Lisboa, se reavivaram nas mentes as tristes lembranças do cerco que haviam sofrido não fazia um ano ainda. Sabiam os portugueses que o exército castelhano era mais poderoso, e que seria difícil resistir a seus assédios. Mas havia na alma de todos uma terna e inabalável confiança na Providência Divina. Esta confiança era alimentada pela vigorosa Fé católica que se enraizara naquele povo. Quando do primeiro cerco, Deus fizera o grandioso milagre salvando a cidade através da peste que grassara no exército invasor. E havia em todos a certeza de que o anjo exterminador acompanhava o grande Condestável Dom Nun'Álvares Pereira, agora mais ativo do que nunca. Havia a crença certeira de que viria o socorro do Céu, e que São Miguel Arcanjo seria quem armaria o braço de Dom Nuno para desbaratar mais uma vez o exército invasor.
Para ler o texto completo acesse: A Batalha de Aljubarrota, épico histórico. Também há um resumo nesta postagem a seguir   https://quodlibeta.blogspot.com/2022/08/aljubarrota-uma-guerra-vencida-por-um.html


segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Homenagem ao dia do catequista



No último domingo de agosto é celebrado o Dia do Catequista. Deixamos aqui uma homenagem a todos estes homens e mulheres que dedicam seu trabalho e seu afeto para que a mensagem de Jesus tenha a boa acolhida no coração das crianças, dos jovens e dos adultos.

Também a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) celebrou o dia “com admiração, reconhecimento e gratidão”, lembrando que “celebrar o Dia do Catequista é sempre uma graça, motivo de alegria e de reflexão mais profunda sobre o ser do catequista, sua vocação e missão na Igreja e na sociedade”.

Para homenagear este dia a CNBB divulgou o vídeo abaixo.






O Catecismo através da História

Nos primeiros séculos, a Igreja só tinha mestres semelhantes aos Apóstolos. Os catequistas eram seus doutores. Esta função divina de ensinar, de maneira simples e familiar , a Doutrina Cristã era a mesma que os bispos herdaram de Jesus Cristo; consideravam-na peculiar à sua qualidade de pais e pastores. Quando, com o aumento do número de fiéis, viram-se constrangidos pela força das circunstâncias a passar essa tarefa a outros, tiveram o cuidado de escolher, para tão nobre missão, os homens mais capacitados e virtuosos de sua igreja.
Os mais destacados doutores dos primeiros séculos da Igreja ufanaram-se da função de catequista e da preparação dos catecúmenos para o batismo. São Cirilo, bispo de Jerusalém, Santo Ambrósio, arcebispo de Milão, São Gregório de Nissa e Santo Agostinho até compuseram livros, que ainda conservamos, para orientar os catequistas e ensinar-lhes o método de transmitirem os princípios da fé às crianças e aos adultos que se preparavam para o batismo.
Na igreja de Alexandria funcionava uma célebre escola de catequistas para instruir os catecúmenos. Pantenus, São Clemente de Alexandria e Orígenes, que sucessivamente a dirigiram, deram à escola tanta fama, que para ela acorriam pessoas das mais longínquas regiões. Nela, São Gregório Taumaturgo aprendeu os rudimentos da fé e fez progressos tais, que o tornaram célebre pelos séculos afora.
Entre as honrarias da Igreja de Constantinopla, o registro dos serviçais menciona a de catequista, cujas funções eram instruir o povo e todos os que abandonavam a heresia para retornar ao seio da Igreja Católica. Orígenes foi encarregado da doutrina aos catecúmenos já aos dezoito anos quando ainda era leigo. Em Cartago, São Cipriano nomeou para o mesmo serviço um mestre de retórica chamado Optato. Declara-o nestes termos: “Nomeamos Optato, um dos leitores, mestre dos catecúmenos”. Duzentos anos depois, o diácono Deogratias exercia idêntica função na mesma igreja, e foi a seu pedido que Santo Agostinho compôs o belo livro intitulado: “De catequizandis rudibus” . Tudo isso comprova que se confiava essa tarefa ora a um diácono, ora a um sacerdote e, às vezes, até a um simples leigo e que, na seleção de catequistas, olhava-se menos a posição social da pessoas do que seus talentos, virtudes e dons particulares.
Isso continuou até que, tendo a maioria dos homens abraçado o cristianismo, a falta de catecúmenos fez desaparecer aos poucos a função de catequista. Em tal situação, os pais e as mães e, na falta deles, os padrinhos e as madrinhas assumiram o encargo de ensinar a doutrina às crianças. Ao mesmo tempo, os bispos fundaram escolas para instruir a juventude na religião e nas ciências humanas. A criação, nas igrejas catedrais, do título de “écolâtre”, ou chanceler, remonta àquela época. Os que eram investidos dessa dignidade deviam supervisionar as escolas primárias e tinham o direito de: nomear os mestres e as mestras de primeiras letras e dar-lhes posse; resolver e julgar eventuais divergências; e, elaborar estatutos e regulamentos para as escolas primárias e exigir-lhes exata observância.
Foi daí que surgiu a “Escolástica”. O termo “Escolástico” vem do latim “Scholasticus”, que designava o clérigo dirigente da escola vinculada à igreja catedral. Na França medieval, a palavra latina foi deformada para “scolastre”, gerando o termo francês “Écolâtre”. No início do Cristianismo era muito comum se determinar que alguém ensinasse o Catecismo, sendo depois regulamentada aquela função com a designação de um clérigo que, futuramente, ficou dirigindo a escola vinculada à igreja principal, ou catedral. No decorrer dos anos, o termo foi evoluindo até tomar o significado que tem hoje: nome de um método de ensino utilizado nas escolas e universidades medievais a partir do século XI. Várias etapas compõem esse método. A primeira consiste em comentar e explicar os autores, isto é, os escritores considerados autoridades na matéria tratada. A isso chama-se “lectio”, na verdade uma exposição que começa com a análise do texto, de sua correção e significação. A seguir, uma discussão (“disputatio”), onde se estabelece a sentença, isto é, o ensinamento que se pode tirar do texto. A partir do momento em que esse texto é posto em questão, surge a terceira fase do método (‘questio”) na qual alunos e mestres apresentam a conclusão do que examinaram (“determinatio”), sempre dirigida pelo professor. Então, “lectio”, “disputatio”, “questio”, e “determinatio” formam o caminho percorrido pela Escolástica para se chegar á Verdade, que seria a “conclusio”. Duas vezes por ano, os professores organizavam uma reunião chamada “quodlibet”, em que propunham o debate de um tema sugerido por qualquer pessoa presente. A Escolástica tornou-se, com o tempo, o nome que sintetiza as doutrinas teológicas e filosóficas dominantes na Idade Média, cujo cume foi atingido com o Tomismo.
A maioria dos concílios medievais, notadamente os de Châlons-sur-Saône (813), Aix-la-Chapelle (816), Paris (829), Meaux (845), Troflé (909), e Latrão (1179 a 1198), recomendavam encarecidamente a fundação de escolas e obrigaram os párocos a ensinarem o catecismo ao povo.
Apesar do empenho da Igreja, ainda havia muita ignorância religiosa. Jean Charlier, conhecido como Jean de Gerson, ou simplesmente como Gerson, (1363-1429) famoso reitor da Universidade de Paris e teólogo notável, teve que escrever um livro , “Traité du zèle pour attirer les petits enfants à Jésus-Christ” (Tratado do zelo para levar as criancinhas à Jesus Cristo), com objetivo de catequizar as crianças. Ele próprio, reitor e teólogo de fama, exerceu as funções de catequista em Lion, tendo por isto sido julgado como pessoa de mente fraca.
Anos depois, o Concílio de Trento promulgava vários decretos cujos objetivos eram a catequese. Num deles cada vigário era obrigado a dar o catecismo às crianças, aos domingos e dias de festa. Numerosos concílios provinciais confirmaram e publicaram os decretos do Concílio de Trento, obrigando por sua vez seus pastores a serem catequistas de suas paróquias. Na Itália, São Carlos Borromeu foi o primeiro a apoiar a medida, ordenando inclusive que as crianças fossem chamadas ao catecismo pelo toque do sino.
Nos dias atuais a catequese (dar aulas de catecismo) é função quase exclusiva dos leigos, havendo pouquíssima (ou quase nula) participação de sacerdotes ou religiosos de modo geral nesta sublime missão. Da mesma forma, o catecismo dedicado às crianças não sofreu substanciais modificações didáticas, sendo que a última data ainda do tempo de São Pio X, há exatos cem anos.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Mata de São João se irmana com São Pedro de Rates

O site do Centro Cultural da Casa da Torre Garcia D'Ávila e a Embaixada Portuguesa no Brasil divulgam a seguinte notícia:
Em sessão especial ocorrida no último 14 de abril, no plenário da câmara municipal de Mata de São João, na Bahia, foi requerido pelo vereador Alexandre Rossi, autor do projeto de Cidade Irmã com São Pedro de Rates em Portugal, e assinado o protocolo de cooperação entre as duas cidades, pelo prefeito João Gualberto, o presidente da Junta da Freguesia de Rates, Armindo Ferreira, cônsul de Portugal, João Sabido Costa, presidente da câmara, Joselito Pereira e o vice-presidente, Alexandre Rossi. O vereador Alexandre Rossi estará em Portugal no próximo dia 26 de abril para as comemorações do aniversário de Rates, bem como mantendo uma agenda de visitas com organizações, universidades e empresas de Portugal.

S. Pedro de Rates é a maior freguesia do concelho da Póvoa de Varzim (com uma área de 1.383 ha).

A história, de mais de três séculos, da Casa da Torre está intimamente ligada à história das Comunicações no Brasil, uma vez que foi naquela Torre de Garcia d'Avila que se estabeleceu um primeiro sistema de comunicação à distância, no país, ligando-a à primeira capital do Brasil - a Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos: A "Torre Singela de São Pedro de Rates". De lá partiam os emissários, a cavalo, para avisar na metrópole sobre a presença de navios corsários ou dos hereges holandeses que apontavam no horizonte tentando invadir a Bahia.

Em Mata de São João, no dia anterior, foi feita uma homenagem aos descendentes de Garcia d'Ávila , feita da seguinte forma, conforme informa o site da “Casa da Torre de Garcia D’Ávila”:
Nesta data verdadeiramente histórica, em que a Freguesia de São Pedro de Rates – Berço de Garcia d’Ávila tornou-se, formalmente, “Irmã-Gêmea” da Cidade de Mata de São João – Berço da Casa da Torre foi com grata satisfação que os descendentes destas duas Origens, congregados neste Centro Cultural foram representados na memorável Sessão da Câmara Municipal, por Caio Cesar Tourinho Marques, Visconde de Tourinho, presidente da seção do Brasil Setentrional da Associação da Nobreza Histórica do Brasil.
Agradecemos e rogamos aos Padroeiros – São Pedro de Rates e Nossa Senhora da Conceição da Torre de Garcia d’Ávila –, que protejam e iluminem a todos, para que saibamos aproveitar tão auspiciosa oportunidade, como instrumento de contato entre as populações e culturas, em prol da paz e do desenvolvimento.
Deus a todos guarde muitos anos.

História contada pelo Padre Vieira:

O padre Vieira fala sobre São Pedro de Rates em sua defesa perante o Santo Ofício: “E porque não saiamos do nosso Reino, com ser humana tão pequena parte do mundo, se em Braga, como acima tocamos, depois de seiscentos anos, ressuscitou aquele homem que depois foi São Pedro de Rates...”
“Entrou em Braga o Apóstolo [São Tiago], e para entrar com estrondo de trovão (cujo filho o chama Cristo, Nosso Senhor) se foi a uma sepultura célebre, onde jazia enterrado de seiscentos anos um santo profeta, judeu de nação, e que ali viera dar com outros cativos mandados de Babilônia por Nabucodonosor, chamado Malaquias, o Velho, ou Samuel, o Moço; e em presença de infinito povo, chamando por ele o ressuscitou em nome de Jesus Cristo, a quem vinha pregar e publicar por verdadeiro Deus; batizou-o pouco depois, e dando-lhe o nome de Pedro, o escolheu e tomou por primeiro e principal de todos seus discípulos” Este fato foi extraído da obra “História Eclesiástica dos Arcebispos de Braga”, escrita por D. Rodrigo da Cunha.
A respeito do grande milagre feito por São Tiago, continua o padre Vieira: “Até aqui esta maravilhosa história, tirada de autores e memórias mui antigas, e particularmente de uma carta de Hugo, bispo do Porto, e dos fragmentos de Santo Atanásio, bispo de Saragoça, o qual conheceu o mesmo Pedro ressuscitado e escreveu o caso quase pelas mesmas palavras, que por isso não a traduzimos, e são as seguintes: ‘Ego novi sanctum Petrum, Bracharensem Episcopum, quem antiquum prophetam suscitavit Sanctus Jacobus Zebedaei filius, magister meus. Hic venerat cum duodecim tributus missis a Nabuchodonosere in Hispaniam Hierosolymis duce Nabuchoi-Cerdan, vel Pyrrho, Hispaniarum praefecto’ (cf. “História do Futuro”, de Antonio Vieira, 2a. Edição, Imprensa Nacional de Lisboa, pág. 227)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Visite as catacumbas cristãs de Roma pela internet

O site denomina-se "As catacumbas cristãs de Roma", onde se encontra todas as informações sobre a matéria. Transcrevemos abaixo, a título de exemplo, o resumo histórico das catacumbas:
Os cristãos do primeiro século não tinham cemitérios próprios. Possuíam terrenos, sepultavam neles os seus defuntos, ou recorriam aos cemitérios comuns, usados também pelos pagãos. São Pedro, por esse motivo, foi sepultado na "necrópole" ("cidade dos mortos") junto à Colina do Vaticano, aberta a todos; São Paulo, igualmente, foi sepultado numa necrópole da Via Ostiense.
Na primeira metade do século segundo, como consequência de várias concessões e doações, os cristãos começaram a sepultar os seus mortos abaixo da terra. Iniciaram-se assim as catacumbas. Muitas delas surgiram e desenvolveram-se ao redor de sepulcros familiares, cujos proprietários, recém convertidos, não os reservaram apenas à família, mas abriram-nos também aos seus irmãos na fé. Com o passar do tempo as áreas funerárias alargaram-se, às vezes por iniciativa da própria Igreja. É tipico o caso das catacumbas de São Calisto: a Igreja assumiu diretamente a sua organização e administração, com caráter comunitario.
Com o edito de Milão, promulgado pelos imperadores Constantino e Licínio em fevereiro de 313, os cristãos não foram mais perseguidos. Podiam professar livremente a fé, construir 1ugares de culto e igrejas dentro e fora das muralhas da cidade, e comprar lotes de terreno sem perigo de confisco. As catacumbas, contudo, continuaram a funcionar como cemitérios regulares até os inícíos do seculo quinto, quando a Igreja voltou a sepultar exclusivamente acima da terra ou nas basílicas dedicadas a mártires importantes.
Quando os bárbaros (Godos e Longobardos) invadiram a Itália e desceram até Roma, destruíram sistematicamente muitos monumentos e saquearam muitos lugares, inclusive as catacumbas. Impotentes diante das repetidas invasões, pelo final do oitavo e início do nono século, os papas fizeram transferir, por razões de segurança, as relíquias dos mártires e dos santos às igrejas da cidade.
Uma vez concluído o traslado das relíquias, as catacumbas não foram mais frequentadas, sendo totalmente abandonadas, com exceção das de São Sebastião, São Lourenço e São Pancrácio. Com o passar do tempo, os desabamentos e a vegetação obstruíram e esconderam as entradas das outras catacumbas, tanto que se perderam até mesmo os sinais delas. Durante todo a tarda Idade Média não se sabia nem sequer onde se localizassem.
A exploração e o estudo científico das catacumbas tiveram início, séculos dcpois, com Antonio Bosio (l575-l629), chamado de o "Colombo da Roma subterrânea". No século passado, a exploraçao sistemática das catacumbas, e particularmente das de São Calisto, foi realizada por Giovanni Battista de Rossi (1822-1894), considerado o fundador e pai da Arqueologia Cristã.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A gênese do cangaço

Conforme Dom Duarte Leopoldo e Silva , a revolta pernambucana de 1817, foi uma revolução de padres. A lista dos que participaram do movimento abrange, no avultado número, cônegos e governadores do Bispado, vigários e coadjutores, regulares e seculares, dos quais dois se suicidaram, quatro foram supliciados e muitos condenados à pena comum de prisão.
Entre os prisioneiros havia 57 religiosos. Todos ou quase todos esses padres eram membros das sociedades secretas, reunidas sob as denominações de “academias” ou “areópagos”, onde se cultivavam as idéias libertárias da Revolução Francesa. Tem-se dito que essas lojas maçônicas eram simplesmente “nacionalistas”, como ao depois pretenderam e pretendem se passar como simples entidades filantrópicas. Como quer que seja, é certo que, à sombra do mistério que as envolvia, se desenvolveram doutrinas absolutamente contrárias à ortodoxia católica que, a seu tempo, se encontraram em campo aberto contra a Igreja.
Dom Duarte comenta em sua obra que “o espírito de tolerância que, então como hoje, apregoavam os adeptos dos “mistérios democráticos”, bem lhes serviu para iludir incautos e até sacerdotes, ilustres talvez nas ciências profanas, mas ignorantes das ciências eclesiásticas, pouco ou nada cultivadas em um país que não possuía seminários regulares bem dirigidos. Os poucos que, em Portugal, iam beber as ciências eclesiásticas, voltavam ainda mais contaminados”. A fumaça de Satanás, no dizer de Paulo VI em relação à crise religiosa do século XX, já penetrava no santuário desde longas datas, como se vê.
Por diversas cidades nordestinas, do interior e das capitais, pregavam essas dezenas de padres a revolta libertária e a implantação de uma república. Da mesma forma como no século XX o clero progressista pregava a Teologia da Libertação, com a diferença que hoje pregam o socialismo utópico enquanto naqueles tempos apregoavam a derrocada da monarquia e a implantação da república.
O centro daquele movimento era uma loja maçônica denominada “Areópago de Itambé”, criada no fim do século XVIII pelo padre Arruda Câmara. Este religioso teve sua formação religiosa inteiramente deturpada pelos ideais libertários da Revolução Francesa, ainda fumegante, e que a trouxe para o seminário de Olinda, fundado por ele em 1800 e tinha na sua direção outro padre revolucionário, Miguel Joaquim de Almeida Castro, estreitamente ligado ao “Areópago de Itambé”. O movimento era contestatório contra Dom João VI e diz-se que agia sob a inspiração de Napoleão Bonaparte. Na mesma época, o desventurado falso imperador estava preso na Ilha de Santa Helena, muito próxima do Brasil, o que inspirou aos idealizadores do “areópago” um plano para libertá-lo e aclamá-lo como nosso imperador.
O movimento fracassou, como se sabe, e os cabeças foram punidos. Mas, quais as seqüelas deixadas na região onde pregaram, e até pegaram em armas, tais sacerdotes? De tudo isto resultou, naquela região, a disseminação de uma grande centelha de ódio, a violência entre famílias, o espírito de vingança e, finalmente, o tão famigerado cangaço!
Um dos membros da agitação foi o sub-diácono José Martiniano de Alencar, pai do famoso romancista do mesmo nome, filho de Bárbara de Alencar, ardorosa revolucionária da cidade do Crato, no Ceará. Posteriormente, o sub-diácono foi ordenado sacerdote, teve vida irregular como religioso, casou-se, foi suspenso de ordens, e participou de outro movimento revolucionário em 1824, a “Confederação do Equador”, também liderada por um padre.
Quando estourou a revolta de 1817, com Bárbara de Alencar e seu filho como os principais mentores dela na cidade do Crato, houve muita violência e mortes. Destas escaramuças se originaram rixas de famílias que perduraram por mais de um século, e algumas perduram até hoje.
Conforme o escritor cearense Nertan Macedo, especialista em Lampião, o cangaço não teve origem no século XX, mas desde os primórdios do século XIX, exatamente logo após a revolta de 1817. Os revoltosos que fugiam das tropas do governo se embrenhavam pelas matas e passavam a levar vida de bandidos, saqueando e matando. Nertan Macedo pesquisou em detalhes a origem do bando de Lampião, que começou na cidade de Flores (PE). Um dos patriarcas da cidade, que era um capitão-mor das ordenanças, chamado Joaquim Nunes de Magalhães, foi assassinado no ano de 1838 por um da família dos Carvalho. As divergências entre estas duas famílias vinham desde o tempo da guerra de 1817, quando elas se dividiram entre conservadoras e liberais, a favor e contra a monarquia.
No entanto, o cangaceiro mais antigo de que se notícia é Jesuíno Alves de Melo, ou “Jesuíno Brilhante”, morto no ano de 1879. Não se sabe mais detalhes, diz-se apenas que nasceu em 1844, no Rio Grande do Norte, mas não se fala se já aderiu a algum bando de cangaceiros que existia por lá ou se formou um deles. Isto não impede que a tese de Nertan Macedo não esteja correta, pois é bem provável que todo cangaceiro, a maneira de Lampião, já encontrara um bando formado e a ele aderira, tornando-se o mais esperto a ser o líder do grupo. Assim, passados apenas algumas décadas após as revoluções de 1817 e 1824, seus reflexos podem muito bem ter originado o surgimento desses bandos de criminosos, só tomando forma definitiva de cangaço na época de Jesuíno Brilhante.
O grupo dos Pereira assumiu, logo após aquelas revoluções, a direção de um bando que se refugiava nas matas para evitar o confronto direto com a família rival. Ao longo dos anos, este grupo foi crescendo e ficando famoso por suas ações criminosas, ataques a fazendas, saques e assassínios. Da guerra entre famílias se passou facilmente para o cangaço. Quando Lampião assumiu a direção de seu grupo já contava este com 67 homens, dirigidos sempre por indivíduos mais aguerridos e líderes, que se sucediam ao longo dos anos. Quem foi o antecessor de Lampião? Não se sabe, não se fala quem foi porque não há dados, ninguém ainda fez uma pesquisa sobre o assunto.
Vimos, então, que a atuação do Clero revolucionário nada mais fez do que acender uma centelha de ódio, alimentando rixas de famílias sob o pretexto da revolução libertaria. É o fruto mais remoto da atuação de tais religiosos que tão tristes recordações deixaram no Brasil: a de terem inspirado a vida aventurosa e criminosa de cangaceiros. Diz-se, inclusive, que alguns apetrechos da indumentária dos cangaceiros, como o chapéu virado com a aba para a frente e as cartuchei-ras cruzadas no peito, foram inspirados nos soldados de Napoleão, o pretenso protetor do “Areópago de Itambé”.

Bibliografia

• “O Clero e a Independência” – Dom Duarte Leopoldo e Silva – Centro Dom Vital, Rio, 1823.
• “História do Brasil” – Luiz Koshiba e Denize Manzi Fryze Pereira – Atual Editora.
• “A Vida de José de Alencar” – Luís Viana Filho – Livraria José Olym-pio Editora, 1978.
• “Capitão Virgulino Ferreira Lampião” – Nertan Macedo – Editora Lei-tura S. A.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Nossa Senhora das Alegrias

Sínodo arquidiocesano de Vitória (ES), que atraiu multidão de fiéis, fez-me lembrar da bela história da devoção de Nossa Senhora das Alegrias, venerada até hoje naquela Lapa. Milhares de fiéis participaram no último domingo (23) do encerramento do I Sínodo Arquidiocesano, na Praça do Papa, em Vitória. Desde 2006, as comunidades e áreas pastorais da Igreja Católica se reúnem para elaborar planos de evangelização, e o resultado desse trabalho foi apresentado na forma de um documento com orientações específicas para a ação pastoral nos próximos anos. O Sínodo surgiu a partir das necessidades apontadas jovens, famílias e ex-católicos em uma pesquisa técnica. Na consulta, as pessoas expuseram a imagem que tinham da Igreja, e deram sugestões para um revigoramento da fé. A festividade teve início às 8h, com a chegada da imagem original de Nossa Senhora da Penha (ou das Alegrias como era antigamente chamada), que foi carregada por integrantes da Marinha até o palco central da Praça. O arcebispo da Arquidiocese de Vitória, Dom Luiz Mancilha Vilela, afirmou durante a Celebração Eucarística que a Igreja usará de todos os meios evangélicos para atingir o objetivo do 1º Sínodo, que se propõe a "ser sinal de esperança para o povo, anunciando e testemunhando a Boa Nova de Jesus Cristo, à luz da evangélica opção pelos pobres, caminhando juntos, na acolhida fraterna". Na presença de diversos integrantes do clero capixaba, Dom Luiz destacou que o Sínodo deve ser "sinal de esperança aos desesperançados, às crianças e jovens e as pessoas da Terceira Idade em situação de risco; sinal de esperança às vítimas de violência e as encarcerados, aos marginalizados das periferias, e aos acamados e de todo aquele que não têm ânimo de viver". O documento conclusivo do I Sínodo Arquidiocesano, com o tema "Caminhar juntos na acolhida fraterna e na esperança", foi apresentado durante o evento. Nele encontram-se objetivos e sugestões para serem seguidos pelos cristãos, que englobam Cidadania e Cultura de Paz, Família, Celebração do Ministério Pascal, entre outros. Na opinião da fiel, o Sínodo foi importante para reunir os fiéis e para renovar os laços de fé na Igreja. "O Sínodo traz essa nova visão, não só em direcionar o que está por vir, mas nossa forma de agir. Não é só teoria, é a parte espiritual mesmo, para que a gente aprenda a se voltar para a Igreja com mais fervor, porque às vezes a gente tem a impressão de que os católicos não têm esse fervor forte", disse. A avenida Nossa Senhora dos Navegantes ficou interditada até 18 horas, em ambos os sentidos, por causa do evento católico. Pela manhã, o trânsito ficou lento sentido Vitória-Centro, mas os agentes de trânsito estavam nos pontos de desvio para orientar os motoristas. Um show com a cantora Joana encerrou do I Sínodo. Textos Históricos sobre a devoção de Nossa Senhora das Alegrias Transcrevo abaixo alguns curiosos textos de antigos documentos que falam desta devoção: “Na Capitania do Espírito Santo há duas vilas de portugueses perto uma da outra meia légua por mar. Em uma delas,que está na barra e chamam Vila Velha por ser a primeira que ali se fez, está num monte muito alto e em um penedo grande uma ermida de abóbada que se chama Nossa Senhora da Penha, que se vê logo do mar e é grande refrigério e devoção dos navegantes e quase todos vêm a ela em romaria, cumprindo as promessas que fazem nas tormentas, sentindo particular ajuda na Virgem Nossa Senhora, e diz-se nela missa muitas vezes. Esta ermida edificou-a um frade castelhano sem ordens sacras chamado frei Pedro, da ordem dos Capuchos, que aqui veio com licença de seu superior, homem de vida exemplar, o qual veio ao Brasil com zelo da salvação das almas e com ele andava pelas aldeias da Bahia em companhia dos padres. Desejando de batizar alguns desamparados e como não sabia letras nem a língua, porque este seu zelo não fosse “non sine scientia”, batizando alguns adultos sem o aparelho necessário, admoestado dos padres, lhes pediu em escrito algum aparelho na língua da terra para poder batizar alguns que achasse sem remédio e os padres não pudessem acudir e assim remediava muitos inocentes e alguns adultos. Com este mesmo zelo se foi à Capitania do Espírito Santo onde fez o mesmo algum tempo, confessando-se com os padres e comungando a miúdo, até que começou e acabou esta ermida de Nossa Senhora com ajuda dos devotos moradores, e ao pé dela fez uma casinha pequenina à honra e S. Francisco, na qual morreu com mostras de muita santidade”. (Padre José de Anchieta – “Textos Históricos” – pág. 52 – Edições Loyola, 1989) “Dele escreve Anchieta, em carta hoje perdida: “Varão evangélico, que viveu e morreu santamente”, palavras citadas por Jaboatão em “Novo Ordo Seráfico”, 2ª. Parte, vol. II, 48”. (cf. nota 56, pág. 69, obra citada acima) “...Antes levando-o pelo espiritual, me disse Francisco de Aguiar Coutinho, senhor dela, que dissera a Sua Majestade que tinha uma fortaleza na barra da sua capitania que lha defendia, e não havia mister mais, e que esta era a ermida de Nossa Senhora da Penha que ali está, aonde do mosteiro do nosso padre São Francisco, que temos na vila do Espírito Santo, vão dois frades todos os sábados a dizer missa, e a temos a nossa conta. “E na verdade a dita ermida se pode contar por uma das maravilhas do mundo, considerando-se o sítio, porque está sobre um monte alto um penedo que é outro monte, a cujo cume se sobe por cinqüenta e cinco degraus lavrados no mesmo penedo, e em cima tem um plano em que está a igreja e a capela, que é de abóbada, e ainda fica ao redor por onde anda a procissão, cercado de peitoril de parede, donde se não pode olhar para baixo sem que fuja o lume dos olhos. “Nesta ermida esteve antigamente por ermitão um frade leigo da nossa ordem, asturiano, chamado Frei Pedro, de mui santa vida, como se confirmou em sua morte, a qual conheceu alguns dias antes, e se andou despedindo das pessoas devotas, dizendo que, feita a festa de Nossa Senhora, havia de morrer. E assim sucedeu, e o acharam morto de joelhos, e com as mãos levantadas como quando orava, e na trasladação de seus ossos desta igreja para o nosso convento fez muitos milagres, e poucos enfermos os tocam com devoção que não sarem logo principalmente de febres, como tudo consta do instrumento de testemunhas que está no arquivo do mesmo convento. Nota: Durante o custodiado de Frei Vicente do Salvador, instaurou-se a 27 de julho de 1616, o processo informativo sobre a vida e as virtudes de Frei Palácios”. (“História do Brasil” – Frei Vicente do Salvador – Ed. Itatiaia, pág. 109). “Nesta vila de Vitória, da Capitania do Espírito Santo, vivia há anos passados um homem do povo singularmente devoto da Virgem Mãe de Deus. Desejando empregar seus bens em obséquio a Ela, considerou que lhe seria agradável a construção de uma ermida, como o fizera Libério Romano, num local piedoso e apropriado onde se satisfizessem os desejos dos devotos, e as almas dos frios e lânguidos despertassem para o serviço de Deus. Com tal intenção, ao procurar com máxima diligência um local apto volveu os olhos para uma alta colina, que se debruça sobre o porto marítimo, coberta de árvores altas, grossas e espessas. Julgando-a adequada, com ingentes dificuldades nela penetrou; em seu topo encontrou uma grande pedra que lhe vinha a propósito. A construção se lhe afigurou dificílima por causa da altura e aspereza da colina, sem caminho, e por ser mister transportar para cima, nos ombros, todo o material necessário; mas nada conseguia esfriar ou diminuir sua devoção. Pelo contrário; com maior fervor e engenhoso zelo pôs-se a abrir com seus servos e familiares um acesso sinuoso em torno ao monte, como melhor pôde no momento, pois doutra forma era impossível a subida. Através dele, colocou no alto, com trabalho persistente e incômodo, todo o material que lhe pareceu conveniente para o início da construção, não desistindo da tarefa antes de ver construída a ermida. O santuário da ermida é arredondado, com teto em forma de abóbada, assemelhando-se a meio limão. Para que o corpo da capela se tornasse mais iluminado e agradável, foram abertos ao longo das paredes vários e curiosíssimos arcos, através dos quais, de dentro, enxergam-se o mar, a terra, os canais e quanto a vista pode atingir. A santa ermida agradou de tal maneira a todos e suscitou tanta devoção que os moradores trataram de criar uma confraria em honra da Bem-Aventurada Virgem, ajudando-a devotamente com suas esmolas, e determinaram que em todos os sábados nela se celebrassem a missa; para este ato navegava em seus botes todo o povo da cidade, distante uma parassanga (*) rio abaixo. Junto à pedra, sobre a qual está somente a ermida, foram construídas casas para abrigo dos peregrinos que faziam lá a novena. Destas, até à entrada da ermida sobem 55 degraus. Não falamos da altura desde o sopé do monte até eles, pois é incrível. Mas a grande piedade do povo que a visita e freqüenta a torna fácil, e por isso, com razão, pode chamar-se milagre da terra ou antes do céu e da terra, pois a Virgem Beatíssima lá habita. De fato é estupendo contemplar sobre um altíssimo monte uma pedra sobreposta, que por si é outro monte, ao qual se sobe por tantos degraus. Nele se acha uma esplanada na qual foi edificada a igreja e o santuário, em torno do qual corre um muro te à altura do peito, com espaço suficiente para as procissões; de lá não se pode olhar para baixo sem sentir vertigem. “Vinte anos antes desta Custódia chegou a esta vila de Vitória, Capitania do Espírito Santo, com autorização de seus superiores, certo religioso leito de nossa Ordem, chamado frei Pedro, de origem espanhola, muito admirado pelos moradores do lugar por suas virtudes e grande santidade. A ele foi entregue esta ermida de Nossa Senhora da Penha, na qual se recolheu e viveu pelo espaço de 8 ou 9 anos em grande e constante penitência, pois ordinariamente jejuava a pão e água, usava continuamente um cilício e levava vida de exemplo e edificação para todos. Era considerado santo e como tal venerado. Dificilmente descia do monte, a não ser para confessar-se e pedir esmolas, e quando retornava subia carregado com água potável ou pedras para construir uma capela em honra de nosso santíssimo pai Francisco, onde dormia sobre uma tábua, servindo-se de uma pedra como travesseiro. Andava sempre descalço e trajava uma veste miserável e remendada. Repreendia duramente os perjuros e os que viviam fora dos deveres cristãos; recebia somente pequenas esmolas, com as quais ainda ajuda os pobres.“Ele previu com muita antecedência o seu passamento. Ao aproximar-se o dia da morte, indo-se embora disse à gente devota que devia fazer uma longa viagem depois da festa de Nossa Senhora dos Prazeres. Na quarta-feira seguinte abiu uma cova na qual queria ser enterrado. Chamando o negrinho que certo homem piedoso e nobre lhe dera como companheiro naquele monte, pediu uma vela acesa e caiu de joelhos em seu cubículo, encostando-se ao altar de se pai Francisco, ali construído. A seguir mandou que o mesmo fosse chamar o seu senhor, que tão devotado lhe era, para que o viesse sepultar. Veio o nobre e piedoso varão com a Fraternidade da Santíssima Misericórdia, os Padres da Companhia de Jesus e o povo, por causa da grande veneração que lhe tinham, encontrando-o morto, de joelhos, encostado ao altar, com as mãos elevadas ao céu. Assim tão belo ficou para manifestar claramente sua santidade; foi sepultado no lugar por ele marcado ainda em vida, pelo ano do Senhor de 1570. “...A câmara, os fidalgos e grande multidão de povo dirigiu-se processionalmente para a ermida e erguem os santos despojos que são carregados aos ombros de cinco nobres. Enfim, com hinos e cânticos e grande número de Lâmpadas chegam solenemente ao santo convento, onde são depostas as relíquias. Imediatamente começaram a brilhar os milagres; no dia da transladação, ao entrar no convento a procissão com os sagrados despojos, um Religioso que se achava recolhido na enfermaria com grandes febres, se recomendou com fé inflamada aos méritos do santo e pediu para tocar e beijar as santas relíquias; ficou imediatamente curado e nunca mais o incomodou a febre. Tendo notícia deste milagre, outros enfermos da mesma região com grande fé e devoção mandar pedir ao Guardião alguma relíquia do santo Frei Pedro; tocando nelas ficaram curados de suas enfermidades...” (*) – “parassanga” – medida antiga, equivalente a 5.250 metros. (“Narrativa da Custódia de Santo Antonio do Brasil – 1584/1621 – Frei Manuel da Ilha – Editora Vozes, 1975 –págs. 55/63) Nota n. 31 – “Frei Pedro nasceu em Medina do Rio Seco, perto de Salamanca, chegou a Vila Velha em 1558. Faleceu no alto da Penha em 1570 com fama de santidade”. (Ib. id., pág. 145).

sábado, 1 de agosto de 2009

O balão foi inventado na Bahia

O Instituto Histórico e Geográfico de Santos está divulgando em seu site a programação dos 300 anos da invenção do aeróstato (ou balão), protagonizado pelo padre Bartolomeu de Gusmão em agosto de 1709 em Lisboa. O que pouca gente sabe é que, na realidade, aquela invenção foi idealizada e executada na Bahia, no lugar chamado Belém, na cidade de Cachoeira, situada no Recôncavo de Salvador. Lá existia um seminário dos jesuítas (posteriormente fechado por ordem do famigerado marquês de Pombal), onde o padre realizou todas as experiências com o balão. Segundo fontes históricas o reitor daquele seminário, Alexandre de Gusmão (tio de Bartolomeu), tinha sob suas ordens centenas de internos (São Galvão foi um deles), não se tratando do irmão citado abaixo, do mesmo nome. O corpo de Alexandre de Gusmão, tio, ainda hoje é venerado pela comunidade de Belém na tumba que se encontra na capelinha que foi do seminário, totalmente arruinado após a perseguição contra os jesuítas.

A programação que comemora os 300 anos da apresentação do aeróstato (balão de ar quente) realizada pelo cientista santista Bartholomeu de Gusmão para a corte portuguesa em 1709, em Lisboa, tem início na segunda-feira (03), no IHGS (Instituto Histórico e Geográfico de Santos), às 20h, com lançamento de carimbo postal comemorativo pelos Correios, exposição de maquetes, painéis e selos, além de palestras sobre a sua vida.

A mostra, gratuita, pode ser vista na sede do IHGS, na Avenida Conselheiro Nébias, 698, de terça (4) até quinta (6), das 9h às 12h e das 14h às 17h. Na sexta (7), o horário vai das 9h às 12h. No sábado (8), a programação começa às 9h, quando acontece a 3ª etapa do SP Open de Biathlon, que homenageará o inventor. Um dos momentos mais importantes das homenagens acontece às 10h, na Praça Ruy Barbosa, no Centro Histórico, onde se localiza a estátua em homenagem ao cientista.

Os restos mortais de Bartholomeu e os de seu irmão Alexandre de Gusmão serão transladados de São Paulo, da Catedral da Sé e da secretaria de Estado da Cultura, respectivamente, para a cripta da Catedral de Santos. Logo após a cerimônia serão realizados missa e sepultamento dos despojos.

No Parque Municipal Roberto Mário Santini, no José Menino, das 16h às 20h, diversas atividades culturais e recreativas estão programadas, como por exemplo a apresentação de balões, que serão elevados por ar quente em voos cativos – quando ficam suspensos, amarrados por cordas. No final da tarde, as luzes da orla daquele trecho serão apagadas, dando início ao Night Glow, show de iluminação especial dos balões.

No Museu do Surfe, no mesmo local, será montada a exposição do IHGS sobre a vida e os inventos de Bartholomeu, com miniaturas elaboradas pelo professor João Inácio da Silva Filho. Além disso, um balão de seis metros de altura, operado por controle remoto, ficará no parque e depois seguirá até o estádio da Vila Belmiro, onde sobrevoará o campo antes da partida Santos x Avaí, às 18h30, pelo Campeonato Brasileiro. Por fim, será lançado um concurso de redação entre alunos das escolas municipais sobre o inventor, sendo que os vencedores serão conhecidos em outubro.

O evento tem o apoio do Instituto Histórico e Geográfico de Santos e da Prefeitura de Santos, por meio das secretarias de Turismo (Setur), Esportes (Semes), Obras e Serviços Públicos (Seosp), Educação (Seduc) e Cultura (Secult), além da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego).

Apresentação do aeróstato

No dia 3 de agosto de 1709 foi realizada a primeira apresentação do aeróstato. O pequeno balão de papel aquecido por uma chama, no entanto, incendiou-se antes de alçar voo. Dois dias depois, nova tentativa foi bem-sucedida. No dia 8 de agosto, a experiência foi realizada na Sala das Embaixadas, diante de D. João V e da rainha D. Maria, além de outros membros da corte, como o núncio apostólico em Lisboa, cardeal Michelangelo Conti, futuro papa Inocêncio XIII.

O balão ergueu-se lentamente, gerando espanto aos presentes e criados do palácio, que temerosos com a possibilidade de um incêndio, se lançaram contra o engenho antes que este chegasse ao teto. Finalmente, no dia 3 de outubro, ao ar livre, o balão a ar quente desenvolvido por Bartholomeu de Gusmão saiu do pátio da Casa da Índia, indo pousar no terreiro do Paço Real.

QUEM FOI BARTHOLOMEU DE GUSMÃO

Bartholomeu Lourenço nasceu na Vila de Santos em dezembro de 1685, filho de Francisco Lourenço e de sua mulher Maria Álvares. Fez os estudos primários na Vila, seguindo para o Seminário de Belém (Bahia), onde terminou o curso de Humanidades, sob a orientação do padre Alexandre de Gusmão. Em sua homenagem, Bartholomeu, juntamente com o irmão Alexandre e a irmã Joana, adotaram o sobrenome Gusmão.

Entre 1708 e 1709, o cientista embarcou para Lisboa com o intuito de aperfeiçoar seus conhecimentos. Na Universidade de Coimbra realizou estudos de Ciência Matemática, Ciências de Astronomia, Física, Química, Mecânica, Física e Filologia. Foi em Portugal que Bartholomeu se ordenou padre secular, originando daí seu apelido, Padre Voador. Faleceu em 19 de novembro de 1724, em Toledo, na Espanha, aos 39 anos.







segunda-feira, 8 de junho de 2009

Em curso as comemorações do V centenário de Caramuru

A partir de fevereiro deste ano estão em curso as comemorações do V centenário da chegada de Diogo Álvares Correia, o “Caramuru”, ao Brasil. O foco inicial destas comemorações encontram-se na cidade de Viana do Castelo, em Portugal. A partir do final de 2008 a Câmara Municipal daquela cidade prestou significativas homenagens a Caramuru, com diversos eventos com a inauguração de um conjunto escultório de autoria do Mestre José Rodrigues, a apresentação de um livro do Prof. Amadeu Torres e uma exposição denominada “Caramuru – O Vianense criador da brasilidade” no Museu do Traje, encerrada em março passado.
No carnaval do Rio de Janeiro houve homenagens feitas pela escola de samba “Unidos de Santa Rita”, de Nova Iguaçu, com inúmeras fantasias alusivas ao evento.
Há referências a Caramuru como estimulador da primeira povoação brasileira, na Bahia, a que se costumou chamar de “Vila do Pereira”, objeto das lutas iniciais contra os índios e de apoio à colonização portuguesa. Segundo recentes pesquisas históricas, Diogo Álvares Correia levou Catarina Paraguaçu para a França, onde se casaram em Saint-Maloh no ano de 1528. Lá, a índia também foi batizada com o nome de sua madrinha, Catarina (esposa do capitão do navio, Jacques Cartier). Quando Tomé de Souza chegou à Bahia em março de 1549, encontrou lá uma já numerosa prole de mamelucos filhos de fidalgo português que muito ajudaram os portugueses no início da povoação da cidade. Também foram importantes estes descendentes de brancos e índios no desenvolvimento das terras concedidas a Garcia D’Ávila e o avanço para o interior do Brasil. Segundo alguns estudiosos os descendentes de Caramuru e da índia Paraguaçu entrelaçaram-se na geração de Jerônimo de Albuquerque e da filha da aldeia de Olinda, Muira-Ubi, Maria do Espírito Santo Arcoverde, 'primeira sociedade brasileira', e à progênie de Garcia D'Avila com a Índia Francisca Rodrigues, constituindo a Casa da Torre de Garcia D'Avila.
No entanto, maior contributo foi dado por Catarina Paraguaçu, conforme consta no episódio de fundação da devoção à Nossa Senhora da Graça. A índia, já cristã, viu Nossa Senhora da Graça em sonhos a lhe dizer que fosse a tal lugar onde encontraria um barco naufragado e dentro dele uma imagem Sua. Catarina pediu a Caramuru que fosse ao tal lugar resgatar a imagem, mas o marido não lhe deu ouvidos. Veio o segundo sonho, repetido, e o mesmo pedido. Após muitas insistências da índia, finalmente Diogo resolve ir ao tal lugar e lá encontra exatamente a imagem como Catarina havia descrito. Resgatada a imagem do barco, esta veio para Salvador (que à época era apenas um amontoado de casas, um vilarejo, ou simples vila), sendo construída uma ermida em sua homenagem. Aquela ermida inicial é hoje uma bela igreja, situada exatamente no bairro da Graça, em Salvador, onde consta que seja o povoamento inicial daquela cidade, a Vila do Pereira, que para outros era a encosta chamada de “Ladeira da Barra”, próxima á igreja da Vitória (aliás tão próximos que até se confundem no maremagno da cidade moderna) . Os sucessores (da Casa da Torre) participaram da conquista e do povoamento dos sertões nordestinos, implantando currais de gado e agricultura de subsistência, estendendo seus vastos domínios até ao Piauí e Maranhão, entrando pelo Tocantins, que naquela época pertencia à Pernambuco, descendo o São Francisco e atingindo às Minas Gerais, sendo a origem de boa parte população do Nordeste do Brasil, num extenso processo de miscigenação, deixando vínculos socioeconômicos e patrimoniais, plantados nas terras por onde passaram e se fixaram, numa herança genealógica e heráldica de raízes predominantemente européias, que se prolongou por todo o Brasil e, recentemente, vinculou-se à Casa Imperial Brasileira. A Casa da Torre, 'grande família', teve como principal sede o Castelo da Torre de Garcia D'Avila, na Bahia, onde se sucederam dez gerações, por três séculos, participando, da conquista e da defesa da terra, com relevante destaque nas lutas ferozes pelo combate aos piratas e corsários, concorrendo com a sua gente, suas armas, sua produção de mantimentos e o seu gado para vencê-los, à custa de enormes sacrifícios, assim como nas lutas havidas na Bahia, pela Independência e constituição do Império do Brasil.
As comemorações do V Centenário de Caramuru continuarão com a programação abaixo:
EXPOSIÇÃO em Copacabana - RIO DE JANEIRO
I - 02 de julho de 2009, às 19:00 h - Exposição temática do Armorial Histórico da Casa da Torre de Garcia D'Avila, com Palestra: ...."CARAMURU 500 Anos - O Heróico Vianense - Das Origens Européias à Gênese Brasileira". - Pres. CCPCTorre: Christovão de Avila. II - Homenagem à Cidade de Viana do Castelo, berço de Caramuru, chegado ao Brasil em 1509 (500 Anos).III - Homenagem à Cidade de Saint Malo, onde a princesa índia Paraguaçu foi batizada - "Katherine du Brézil"-, em 1528 (Ano França-Br).IV - Homenagem à Cidade do Salvador, fundada com a participação de Caramuru, em 1549 (460 Anos).V - Eventos Artísticos e Culturais.Realização:- Museu Histórico do Exército e Forte de Copacabana. Diretor e Cmt. - Coronel Edson Silva de Oliveira.Participação:- Instituto Geográfico e Histórico da Bahia - IGHB. Pres. - Consuelo Pondé de Sena. - Instituto Genealógico da Bahia - IGB. Pres. Álvaro Pinto Dantas de Carvalho Júnior. - Associação dos Moradores da Graça - AMOGRAÇA. Pres. Flávio Damásio de Paula. - Centro Cultural e de Pesquisas do Castelo da Torre - CCPCTorre. Pres. Christovão Dias de Avila Pires

segunda-feira, 4 de maio de 2009

A Torre de Giralda

Por: Marcos Eduardo Melo dos Santos
Todos os anos, milhões de visitantes acorrem do mundo inteiro, ávidos de admirar as cores, os sabores e os ritmos deste país ímpar que é a Espanha.
O destino de boa parte desses viajantes é Sevilha, a alegre e colorida cidade banhada pelo rio Guadalquivir, famosa por suas feiras populares e pelas pitorescas e tortuosas vielas cheias de charme, pontilhadas de fachadas batidas pelo Sol, em meio às quais passeiam as vivas tonalidades das mantillas e dos trajes andaluzes.
Mas toda a profusão de aspectos desta cidade multissecular poderia ser sintetizada em seu mais famoso marco: a Giralda.
A história desta torre é a história de Sevilha. Ela se ergue triunfante, como que premiada pelas vitórias, mas também com as marcas dos desastres superados com galhardia, como o terremoto de 1365.
Construída por ordem de Abu Yaqub Yusuf, como minarete da antiga mesquita, tinha originalmente 51 metros de altura. Segundo alguns historiadores, pretendia o rei almôade celebrar a vitória de suas tropas na Batalha de Alarcos (1195) com uma soberba torre que se destacasse na então capital de Al-Andalus. Séculos depois, foram encontradas na base da torre epígrafes em latim, revelando a reutilização de pedras das ruínas do antigo fórum romano.
São Fernando de Castela, após a reconquista da cidade em 1248, subiu a cavalo as 35 rampas que levam até o topo, para dali contemplar a bela capital muçulmana onde haveria de instalar sua corte. Em 1412, a torre foi incorporada ao maior templo gótico até hoje existente: a Catedral de Santa Maria de Sevilha. Lá descansam em paz os restos deste santo e valente rei.
Sob o governo de Felipe II, herdeiro do Imperador Carlos V, a Espanha alcançou glórias e triunfos extraordinários. Tais sucessos também se refletiram na vetusta edificação. Em 1558, o arquiteto Hernán Ruiz recebeu do cabido da catedral a incumbência de substituir a parte superior da torre por um corpo de sinos e uma cúpula.
Concluídos os trabalhos em 1568, esta atingiu 97,5 metros, tornando-se a mais alta do mundo, na época.
A obra de Hernán Ruiz foi coroada pela estátua de uma dama, simbolizando a Fé Vitoriosa. Apoiada sobre um eixo móvel, a grande peça escultural de mais de uma tonelada gira segundo a direção dos ventos. O vivaz povo sevilhano logo batizou de Giraldillo a estátua, e de Giralda a torre.
A Giralda - como referiu o Servo de Deus João Paulo II, ao visitar essa cidade em 1993, por ocasião do Congresso Eucarístico Internacional - é o símbolo de Sevilha. Na verdade, em suas rudes pedras encontra-se gravada a história da Andaluzia, desde os tempos dos romanos e fenícios, e sabendo harmonizar as artes mourisca, gótica e renascentista.
(Revista Arautos do Evangelho, Set/2008, n. 81, p. 50-51)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Enaltecendo a cultura medieval, uma bíblia carolíngia

É comum se ouvir dizer que a primeira bíblia foi publicada por Gutemberg. Tal erro deve-se ao fato daquele inventor ter criado a imprensa moderna, isto é, o famoso prelo, que possibilitou uma maior divulgação de livros. Baseado neste pressuposto outros afirmam que somente após Gutemberg os cristãos tiveram acesso à leitura da bíblia, antes acessível apenas aos religiosos que entendiam latim. Poucos se dão ao trabalho de verificar, até mesmo, que a bíblia de Gutemberg foi publicada em latim e não em alemão. Menos gente ainda se dá ao luxo de estudar o rico período cultural da Idade Média, como a chamada "Renascença Carolíngia", graças à qual surgiram institutos de ensino e embriões das universidades, além de livros e bibliotecas destinados a quem quisesse ler e estudar. É claro que, como os recursos eram mais rústicos, não havia uma maior quantidade de livros ou bíblias para o grande público. Para ilustrar aquela riqueza cultural, uma amostra: uma bíblia carolíngia está sendo exposta em São Paulo Fora dos Muros, em Roma, conforme a notícia abaixo divulgada pela Zenit:
VATICANO, segunda-feira, 20 de abril de 2009 (ZENIT.org).- A Bíblia carolíngia do século IX com a qual, segundo a tradição, Robert Guiscard jurou lealdade ao Papa Gregório VII, foi exposta ao público pela primeira vez na história na abadia de São Paulo Fora dos Muros, em Roma.
O cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado de Bento XVI, inaugurou a exposição do precioso códice neste sábado, 18 de abril, segundo informava L'Osservatore Romano em sua lição de domingo.
«É particularmente significativo que a exposição aconteça neste ano tão importante do bi-milênio do nascimento de São Paulo, que está produzindo tantos frutos espirituais mediante um redescobrimento mais profundo das cartas paulinas e da Palavra de Deus, tão importante para a vida de cada cristão», assinalou o cardeal Bertone durante a inauguração.
No ato, o cardeal leu também as seguintes palavras do prólogo desta Bíblia de Carlos II o Calvo: «Eis aí o alimento doce, o maná, verdadeira promessa. Não esqueças de comer e desfrutar este alimento, tu que queres conhecer Cristo».
Para o cardeal Bertone, a exposição constitui «um momento certamente importante no âmbito cultural e artístico, especialmente para muitos estudiosos e especialistas neste códice, que terão a possibilidade de admirar sua beleza».
Mas não só isso, «sobretudo quer ser um momento de pausa, de reflexão diante da Palavra de Deus, entendida não só como um livro ou um objeto, mas como Palavra viva, eficaz, capaz de vivificar nossa própria existência».
O cardeal recordou que Bento XVI, que concluirá o Ano Paulino na abadia beneditina em 29 de junho, não deixa de recordar a importância da Palavra de Deus.
Assim o fez, por exemplo, na abertura do Sínodo dos Bispos, em 6 de outubro de 2008, quando recordou que a Palavra de Deus é «o fundamento de tudo, a verdadeira realidade».
A Bíblia carolíngia permanecerá exposta ao público até o final do Ano Paulino, no próximo dia 29 de junho, em uma nova área expositiva da abadia beneditina.
Há mil anos, o Papa Gregório VII confiou esta Bíblia aos monges deste lugar, que então se encontrava fora das muralhas de Roma. Atualmente, a biblioteca antiga da abadia possui mais de 10 mil volumes, do século XV ao XVII.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A propósito do Ano Paulino


A propósito do Ano Paulino, divulgamos abaixo o texto do Pe. Inácio José do Vale, professor de História da Igreja da Faculdade de Teologia de Volta Redonda:
"Certo Demétrio, que era ourives, era fabricante de nichos de Ártemis, em prata, proporcionando aos artesãos não pouco lucro. Tendo-os reunido, bem como a outros que trabalhavam no mesmo ramo, disse: "Amigos, sabeis que é deste ganho que provém o nosso bem-estar". Entretanto, vedes e ouvis que não somente em Éfeso, mas em quase toda a Ásia, este Paulo tem desencaminhado, com suas persuasões, uma multidão considerável: pois diz que não são deuses os que são feitos por mãos humanas. Isto não só traz o perigo de a nossa profissão cair em descrédito, mas também o próprio templo da grande deusa Ártemis perderá todo o seu prestígio, sendo logo despojada de sua majestade aquela que toda a Ásia e o mundo veneram" (At 19, 24-27).
O grande Apóstolo dos Gentios, começou por Éfeso sua terceira viagem apostólica, pois pareceu-lhe ser este o cruzamento das estradas por onde as igrejas do Ocidente se juntariam às da Ásia. Éfeso era o centro do encanto asiático, o paraíso das delícias e dos vícios do Oriente.
O templo de Ártemis atraía multidões de peregrinos. Éfeso era um centro que atraía a si toda espécie de charlatões, que seduziam o povo sempre ávido de milagres e o falso maravilhoso.
Na cidade, o ocultismo e a micromancia tinham muitos partidários.
Para desmascarar os falsos milagreiros e exorcistas, Deus usou o apóstolo São Paulo para realizar milagres extraordinários, de sorte que até os lenços e aventais que lhe haviam tocado o corpo, aplicado aos enfermos, faziam desaparecer deles as enfermidades e sair os espíritos malignos" (A 19, 11-17).
O resultado glorioso da pregação de São Paulo Apóstolo foi o seguinte: "O fato chegou ao conhecimento de todos os judeus e gregos que moram em Éfeso. A todos sobreveio o temor, e o nome do Senhor Jesus era engrandecido" (At 19, 17).
"Muitos dos que haviam abraçado a fé começaram a confessar e a declarar suas práticas. E grande número dos que haviam exercido a magia traziam seus livros e os queimavam à vista de todos" (At 19, 18).
O outro fruto da sua pregação foi minar o culto à deusa Ártemis, o que levou os fabricantes de ídolos da deusa a se amotinarem contra ele, e "toda a cidade encheu-lhe de confusão", o que fez aí Apóstolo partir para a Macedônia (At 19, 28-31; At 20, 1) (1).
Ártemis era a deusa para os gregos e Diana para os romanos. Era a deusa da caça e do parto. Em Éfeso, a deusa Ártemis tinha a fama de riqueza e de ser ela mesma fonte de prosperidade.

TURISMO RELIGIOSO EM ÉFESO
As ruínas da antiga Éfeso, na costa da Turquia, têm sido local de intensa pesquisa arqueológica por mais de um século. Reconstruíram- se vários prédios, e numerosos achados arqueológicos têm sido estudados e interpretados por cientistas. Por causa disso, Éfeso é uma das atrações turísticas mais populares na Turquia.
O turismo religioso na cidade de Éfeso é muito intenso devido a crença mais comum em que a Virgem Maria viveu com São João Apóstolo em Jerusalém e que morreu pouco tempo antes de sua saída para missão em Éfeso, possivelmente no ano 48 ou 49, o que nos faz pensar que Maria tinha 70 anos quando faleceu. Desconhecemos o mês e o dia; contudo, no século sexto um decreto de Maurício, imperador oriental, consagrou o dia 15 de agosto à memória da morte (dormição) e Assunção de Maria.
Foi em Éfeso que o São João, o apóstolo do amor, escreveu o seu Evangelho e as suas Epístolas e lá foi sepultado.
O Dogma de Fé que a Virgem Maria é Mãe de Deus (Theotokos) foi empregado no Concílio de Éfeso, no ano de 431 d.C.
No segundo dia de visita à Turquia, o Papa Bento XVI celebrou a missa pra 250 convidados na cidade de Éfeso, num local sagrado para cristãos e muçulmanos: as duas religiões veneram como sendo a última morada da Virgem Maria (2).

PROVÍNCIA ROMANA DA ÁSIA
A Eurásia do século 11 a .C, foi marcada por tumultos e migrações. Foi nessa época que os gregos jônicos passaram a colonizar a costa oeste da Ásia Menor. Aqueles primeiros colonizadores tiveram contato com povos conhecidos como adoradores de uma deusa-mãe, divindade que mais tarde passou ser conhecida como Ártemis efésia.
Em meados do sétimo século a.C., cimerianos nômades vieram do Mar Negro, ao norte, para saquear a Ásia Menor. Mais tarde, por volta de 550 a .C.; subiu ao poder o Rei Creso, da Lídia, um poderosos governante famoso pela sua enorme riqueza. Com a expansão do Império Persa, o Rei Ciro subjugou as cidades jônicas, inclusive Éfeso.
Em 334 a .C., Alexandre da Macedônia iniciou a sua campanha contra a Pérsia, tornando-se assim o novo governante de Éfeso. Após a morte prematura de Alexandre, em 323 a .C., Éfeso ficou envolvida numa Pérgamo que não tinha filhos, deu Éfeso como herança para os romanos, tornando-a parte da província romana da Ásia.

O FRACASSO DA IDOLATRIA
Quando o apóstolo Paulo foi a Éfeso, perto do fim da sua segunda viagem missionária no primeiro século d.C., a cidade tinha uns 300 mil habitantes. (At 18,19-21) Durante a sua terceira viagem missionária, Paulo voltou a Éfeso, e com ainda mais coragem falou na sinagoga a respeito do Reino de Deus. No entanto, depois de três meses, a oposição dos judeus se intensificou, e Paulo decidiu fazer os seus discursos diários no auditório da escola de Tirano. (At 19,1,8,9)
A sua atividade de pregação continuou por dois anos, acompanhada por obras extraordinárias de poder, tais como curas milagrosas e a expulsão de demônios. (At 19,10-17)
Não é de admirar que muitos tenham se tornado crentes! Sim, a Palavra de Deus prevaleceu, de modo que um grande número de ex-praticantes das artes mágicas queimaram voluntariamente seus valiosos livros. (At 19,19,20).
A pregação bem-sucedida de Paulo não só levou muitas pessoas a abandonar a adoração da deusa Ártemis, mas também enfureceu os que promoviam tal adoração pagã.
A fabricação de santuários de prata para Ártemis era um negocio lucrativo. Sentindo que sua profissão estava sendo ameaçada, certo Demétrio instigou os prateiros a se revoltar. (At 19,23-32).
O confronto atingiu o auge quando a multidão gritou histericamente por quase duas horas: "Grande é a Ártemis, dos efésios!" (At 19,34) Depois que o distúrbio acalmou, Paulo encorajou seus irmãos cristãos mais uma vez e seguiu viagem. (At 20, 1) O culto a Ártemis estava condenado ao fracasso.

O TEMPLO DE ÁRTEMIS É DESTRUÍDO
O culto a Ártemis estava profundamente arraigado em Éfeso. Antes da época do Rei Creso, a deusa-mãe Cibele era a personagem central na vida religiosa daquela região. Por inventar um vínculo de família entre Cibele e os deuses gregos, o Rei Creso esperava criar uma personagem religiosa que tanto os gregos como os que não eram gregos aceitassem. Com o apoio dele, em meados do sexto século a.C., começou a obra no templo da sucessora de Cibebe, Ártemis.
O templo foi um marco na história da arquitetura grega. Nunca se haviam usado blocos de mármore tão grandes para construir um monumento daquele tipo e tamanho. Um incêndio destruiu o templo em 356 a .C. Ele foi reconstruído de forma igualmente magnífica, gerando muitos empregos e tornando-se uma grande atração para peregrinos. Construído numa plataforma de 73 metros de largura por 127 metros de comprimento, o novo templo tinha aproximadamente 50 metros de largura e 105 metros de comprimento.
Era considerado uma das sete maravilhas do mundo.
No entanto, nem todos se sentiam felizes com ele. O filósofo Herácito de Éfeso comparou o corredor escuro de acesso ao altar com a escuridão da depravação, e considerou a moral no templo pior do que a de animais .
Para a maioria, porém, parecia que o santuário de Ártemis em Éfeso nunca entraria em declínio. A história mostrou o contrário.
O livro Ephesos - Der neue Führer (Éfeso - O Novo Guia) declara: "Por volta do segundo século, a adoração de Ártemis e de outras deidades estabelecidas do panteão diminuiu rapidamente" .
No terceiro século d.C., Éfeso foi sacudida por um grave terremoto. Além disso, as riquezas impressionantes do templo de Ártemis foram roubadas por navegantes godos, procedentes do Mar Negro, que queimaram então o templo.
O livro mencionado acima diz: "derrotada, e incapaz de proteger a sua própria moradia, como podia Ártemis continuar a ser considerada protetora da cidade?"
Finalmente, perto de fim do quarto século d.C., o imperador Teodósio I confirmou o cristianismo como a religião do Estado.
Pouco depois, a enorme construção de pedra que fora uma vez o famoso templo de Ártemis tornou-se um lugar de onde se extraía material de construção. A adoração de Ártemis perdeu o todo o prestígio. Um observador anônimo comentou uma epigrama que exaltava o templo como uma maravilha do mundo antigo: "Agora é um lugar absolutamente desolado e desprezível."
Após o declínio da adoração de Ártemis veio a queda de Éfeso. Terremotos, malária e o assoreamento do porto tornaram a vida na cidade ainda mais difícil.
No sétimo século d.C., o islamismo havia começado a se expandir muito, e não se limitou a unificar tribos árabes sob a sua ideologia. Frotas árabes saquearam Éfeso durante o sétimo e o oitavo século d.C. O destino de Éfeso foi selado uma vez para sempre quando o porto foi completamente assoreado e a cidade se tornou um monte de ruínas. Daquela magnífica metrópole restou apenas um pequeno povoado chamado Aya Soluk (agora Selçuk) (3).
O erudito sacerdote, professor e escritor alemão, autor da obra clássica Paulo de Tarso, Josef Holzner escreve: "Ninguém ainda suspeitava que aquele homem de aparência insignificante, que hoje entrava em Éfeso, viria a derrubar o trono dessa Diana depois de um reinado de mais de mil anos, e faria surgir um novo dia cujo resplendor acabaria por dissipar todas as mascaradas e fraudes dos sacerdotes eunucos como a neblina se dissipa ao nascer do sol. Toda essa magnificência pagã desapareceu de maneira tão radical, num espaço de tempo tão curto, que os arqueólogos ingleses tiveram de utilizar bombas de sucção para resgatar uns poucos fragmentos do antigo templo, situados abaixo do nível do lençol freático. Uma única pedra do templo ficou no seu lugar, e uma coluna se conserva hoje no Museu Britânico".

PAULO E TIMÓTEO
"Paulo atravessou a Síria e a Cilícia, confirmando as igrejas. Alcançou em seguida Derbe , depois Listra. Ora, havia lá um discípulo chamado Timóteo, filho de uma mulher judia, que abraçara a fé, e de pai grego. Dele davam bom testemunho os irmãos de Listra e de Icônios". (At 15,41; 16,1.2).
Paulo tinha Timóteo como seu verdadeiro filho na fé (1 Tm 1,2). Paulo deixa Timóteo como bispo em Éfeso, quando estava de viagm para a Macedônia (1 Tm 1,3). Desta cidade Paulo escreve a primeira carta a Timóteo e a segunda quando ele se encontrava preso em Roma (2Tm 1,8.16; 2,9). Desta prisão, tudo sugere que Paulo escreve a Carta aos efésios (Ef 3,1;6,20).
Timóteo foi escolhido por Deus como um verdadeiro discípulo de Paulo: "Espero, no Senhor Jesus, enviar - vós logo Timóteo, para que eu tenha também a alegria de receber notícias vossas. Quanto a ele, vós sabeis que prova deu: como um filho ao lado do pai, ele serviu comigo à causa do evangelho" (Fl 2, 19-22).
Da prisão Paulo escreva a Timóteo: "Procura vir me encontrar o mais depressa possível. Procura vir antes do inverno e pede para trazer o manto e os livros" (2 Tm 4, 13.21).
Timóteo seguiu fielmente o seu mestre a Corinto, Éfeso, Jerusalém e até a prisão em Roma.
O jovem discípulo Timóteo aprendeu muito com o ínclito mestre das missões, principalmente no tocante ao poder espiritual.
Timóteo conheceu e presenciou a graça do Espírito Santo em Apolo - O Pregador eloqüente em Eféso - ( At 18,24-28), a descida dos dons de línguas e profecia nos doze varões de Éfeso pela imposição das mãos do apóstolo Paulo (At 19,1-7).
Ele mesmo experimentou a virtude celestial pela imposição do seu pai na fé (1 Tm 4,14;2 Tm 1,6.7).

CONCLUSÃO
A missão do grande evangelizador de Cristo crucificado e ressuscitado São Paulo Apóstolo, nos ensina duas coisas na cidade de Éfeso: "A primeira é que a Boa Nova de Jesus de Nazaré deve ser pregado em todo lugar e ocasião e a segunda é que a verdade cristã e o culto verdadeiro ao Senhor Deus, derrubam a mentira, a idolatria e os falsos líderes religiosos que ganham enganando as pessoas com a falsa adoração".
São Paulo Apóstolo realizou uma obra missionária monumental na História da Igreja jamais visto.
Até hoje continua sendo o maior missionário de todos os tempos.
Seu trabalho apostólico foi colossal para Igreja de Cristo e para salvação da humanidade. E tudo isso se comprova pela sua definição e determinação de amor ao seu Senhor e Salvador Jesus Cristo e ao gênero humano.
Pe. Inácio Jose do Vale Pároco da Paróquia São Paulo Apóstolo
Professor de História da Igreja Faculdade de Teologia de Volta Redonda
e-mail: pe.inaciojose.osbm@hotmailcom

NOTAS E BIBLIOLOGIA
(1) Catolicismo, junho de 2008, p.33.
(2) Jornal do Brasil, 30/11/2006, p. A22.
(3) A Sentinela, 15/12/2004, p. 26.
Holzner, Josef. Paulo de Tarso, São Paulo: Quadrante, 1994, p. 317.
Rops, Daniel. São Paulo - Conquistador de Cristo, Porto: Livraria Tavares Martins, 1952.
Baumann, Émile. Saint Paul, Paris: Bernard Grosset Éditeur,1952.
El Hajj, Georges. A Igreja Ortodoxa noMundo - História, Dogmas, Sacramentos e Organização, Rio de Janeiro: Editora Aurora, 1971.