terça-feira, 31 de outubro de 2017

QUAL A NOVA FASE DA REVOLUÇÃO UNIVERSAL?



Neste ano tivemos algumas datas significativas para a Humanidade. Comemorou-se o centenário das aparições de Fátima, os 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida, os 500 anos da apostasia e revolta de Lutero e, finalmente, cem anos da implantação do regime comunista na Rússia, a ser relembrado no próximo dia 7 de novembro, data em que os bolchevistas derrubaram o governo provisório e declararam a implantação de um Estado socialista soviético.
A situação do mundo hoje é convulsa e difícil de ser compreendida. Isto porque as coisas que ocorrem parecem não ter lógica, o homem moderno perdeu completamente o sentido de direção, de rumo, de saber para onde vai  o que fazer da vida. E isso ocorre também com governos e até nações inteiras.
Vejamos a situação da ideologia que dominou quase que completamente o século passado: o marxismo e sua consequência política mais imediata que é o comunismo, ou, como alguns chamam também o “capitalismo de Estado”, quando todas as riquezas, fontes de produção e de serviços, além de todos os cidadãos, passam a pertencer única e exclusivamente ao Estado. Vai completar um século que ocorreu um golpe para implantar este regime na Rússia, sendo chamado originalmente de “ditadura do proletariado”. Aos poucos este regime foi invadindo (pela força, astúcia e  rios de dinheiro) os países vizinhos da Rússia, formando um conglomerado de nações cativas sob a alcunha de União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Em pouco tempo já se implantava no mundo o maior império de que a História já se ouviu falar, dominando a China, grande parte de países asiáticos e da África.
Nas Américas, houve várias tentativas de se implantar tal regime, sendo uma das mais violentas a do México, a menos de dez anos após o golpe na Rússia.  Mas, tanto lá como em outros países, tipo Brasil, Argentina e Chile, além de outros da América do Sul assolados por guerrilhas cruéis, tais tentativas foram frustradas graças a sadias reações das populações. Somente em Cuba tal regime se fez implantar nas Américas, perdurando até hoje com quase sessenta anos de todo tipo de violências e misérias que lhe são afins.
No entanto, a partir da última década do século passado a ideologia marxista comuno-socialista começou a perder fôlego. Vários países se livraram da opressão comunista, como a Hungria, a Polônia, a Lituânia, no Leste Europeu. A própria Rússia abrandou a ditadura do proletariado e instituiu um regime de meias liberdades, sendo porém dominado por partido único (o PC) até hoje. De outro lado, os partidos comunistas e socialistas mais poderosos do mundo começaram a minguar por falta de contingentes ou carência de audiências. O PC italiano, por exemplo, era o mais rico e poderoso do Ocidente, e hoje vive à míngua. Os partidos socialistas mais poderosos dominavam a política na França, Espanha, Portugal  e Grécia, mas já não se pode dizer o mesmo hoje, embora continue a influenciar na promulgação de leis de cunho nitidamente socialistas. O que queremos destacar, porém, é que mediante o fracasso retumbante da doutrina e dos princípios marxistas implantados em vários países, tudo em torno deles fenece e tende a morrer de inanição.
Como se justifica, então, que após um século da primeira experiência comunista na Rússia haver demonstrado seu mais terrível fracasso através dos anos ainda surjam políticos que queiram implantá-la em seu país? Como entender que a Venezuela possa trilhar pelo mesmo caminho já tão sobejamente provado da pobreza, da fome e da miséria, que é a consequência do regime marxista, seja comunista ou socialista?
Talvez a resposta esteja numa tática diferente que a Revolução universal quer aplicar no mundo. Não, o rumo mais avançado da Revolução hoje já não é mais o velho e decrépito comunismo. Muito mais avançou ela (a Revolução universal) na Europa com a corrupção moral e dos costumes, com a retumbante licenciosidade e liberdade sexual e da promiscuidade estonteante nos costumes sociais e morais daquela sociedade. Avançou porque corrompeu e deixou toda a Europa sujeita, por exemplo, ao avanço do islamismo sem provocar qualquer comoção ou reação de rechaço. Mole e sensual, nada faz o europeu para enfrentar a tão absurda “invasão” muçulmana, pior do que se fosse dominado por regime comunista. Acomodou-se também com leis facínoras como as do aborto e eutanásia, ou com leis imorais como aprovação de casamentos homossexuais, gozando placidamente uma vida cheia de deleites sem se incomodar com o resto do mundo, se há guerras e injustiças em outros povos. Fora isso, lá não se fala mais em socialismo, comunismo, marxismo ou coisas congêneres. A fim de manter este clima de vida gozosa e fruitiva, sem qualquer perturbação aparente, a visão de uma regime comunista deve ser afastada para longe.
Mas, alguma coisa nova surgiu por lá e ganha corpo no resto do mundo. É a Revolução feita pelas tão decantadas “redes sociais”. Ela já se fez presente em alguns países. Operou com sucesso na famosa “primavera árabe”, derrubando governos como o do Egito, e já se fez presente na Europa com o movimento chamado de “Indignados”. Nos Estados Unidos teve um similar, com o título de “Ocupem Wall Street”. Esta Revolução, feita assim de forma mágica através das redes virtuais, nada produziu de positivo até agora. Por que? Porque ela mesma se define como sem meta, sem rumo, sem governo, sem partido, enfim, promove caos e anarquia. Sua bandeira é apenas um rosto fantasmagórico com o nome de “anonymus”, indicando que não tem nome, além de não ter rumo certo.
De onde vem tudo isso? Tudo indica que o manual que orienta tais grupos foi elaborado pelo americano Gene Sharp, que tem o nome de “como fazer uma revolução pacífica” ou coisa que o valha. E mesmo que alguns não sigam o manual diretamente, de uma forma indireta sofrem os efeitos do mesmo por aqueles que o aplicam e divulgam suas normas. Por exemplo, todos estes movimentos se dizem “espontâneos”, como se tivessem surgido naturalmente e não pertençam a grupos organizados; não podem ter partidos políticos ou ostentar bandeira disso ou daquilo, tem que ser anônimo, sem ideologia. E se algum grupo se apresenta desta forma está aplicando a tática ensinada por Gene Sharp, Tais métodos de ação são divulgados profusamente via internet.
E que ligação tem o problema da Venezuela com isso? É que a Revolução precisa mostrar ao público um alvo para que essa essa nova fase seja detonada. E nada mais visível para ser combatido do que um regime comunista, implantado exatamente num país outrora senão rico pelo menos em ascensão e há anos sob domínio de leis e governos socialistas. Assim fica mais fácil unir muita gente em torno das redes sociais e combater o inimigo comum. E nisso pode haver muitas vantagens como derrubar um regime opressivo, ditatorial e difusor de fome e misérias. Mas, há também muitas desvantagens como, por exemplo, deixar a sociedade no caos, sem rumo, porque eles não apresentam solução para o que vem depois. O “anonymus” quer apenas o “direito” de estar na rua fazendo protestos, queimando pneus, atirando pedras, destruindo tudo como os “Black blocs”, não possui nenhuma proposta positiva de reconstrução da sociedade em sólida bases morais. Quando Maduro cair, haverá uma organização mais presente nas redes sociais para fazer o mesmo com os que virão depois, sejam comunistas ou não.
A história de Nossa Senhora de Coromoto, a Padroeira da Venezuela, diz um pouco sobre o que espera a Providência daquele povo. A história conta que a Santíssima Virgem Maria apareceu a um cacique na aldeia de Coromoto, mas o mesmo jogou-lhe uma pedra. Naturalmente, a imagem sumiu sem sofrer os efeitos da pedrada, mas ela ficou para sempre gravada milagrosamente na pedra que o índio jogou, e até hoje pode ser vista indelevelmente. Perante tal milagre, o índio se converte com todo seu povo. Assim, a “pedrada” de hoje pode ser a implantação do comunismo, mas espera-se que a Providência reverta isso de forma milagrosa e produza efeitos contrários completamente alheios e diferentes daqueles que os “anonymus” querem disseminar na Venezuela, fazendo com que aquele povo retome o rumo de uma verdadeira civilização cristã. 


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

LUTERO: NÃO E NÃO!




* Plinio Corrêa de Oliveira * 

Na bula "Exsurge Domine", de 1520, o Papa Leão X condenou os erros de Lutero, o promotor do espírito de dúvida e da contestação da primeira grande Revolução do Ocidente
Tive a honra de ser, em 1974, o primeiro signatário de um manifesto publicado em cotidianos dos principais do Brasil e reproduzido em quase todas as nações onde existiam as então onze TFPs. Era seu título: "A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas – Para a TFP: Omitir-se? Ou resistir?" (cfr. "Folha de S. Paulo", 10-4-74).
Nele, as entidades declaravam seu respeitoso desacordo face à "ostpolitik" conduzida por Paulo VI, e expunham pormenorizadamente suas razões para tanto. Tudo – diga-se de passagem – expresso de maneira tão ortodoxa que ninguém levantou a propósito qualquer objeção.
Para resumir numa frase, ao mesmo tempo toda a sua veneração ao Papado e a firmeza com a qual declaravam sua resistência à "ostpolitik" vaticana, as TFPs diziam ao Pontífice "Nossa alma é Vossa, nossa vida é Vossa. Mandai-nos o que quiserdes. Só não nos mandeis que cruzemos os braços diante do lobo vermelho que investe. A isto nossa consciência se opõe".
Lembrei-me desta frase com especial tristeza lendo a carta escrita por João Paulo II ao cardeal Willebrands (cfr. "L’Osservatore Romano", 6-11-83), a propósito do quingentésimo aniversário do nascimento de Martinho Lutero, e assinada no dia 31 de outubro p.p. data do primeiro ato de rebelião do heresiarca, na igreja do castelo de Wittenberg. Está ela repassada de tanta benevolência e amenidade, que me perguntei se o Augusto signatário esquecera as terríveis blasfêmias que o frade apóstata lançara contra Deus, Cristo Jesus Filho de Deus, o Santíssimo Sacramento, a Virgem Maria e o próprio Papado.
O certo é que ele não as ignora, pois estão ao alcance de qualquer católico culto, em livros de bom quilate, os quais ainda hoje não são difíceis de obter.
Tenho em mente dois deles. Um, nacional é "A Igreja, a Reforma e a Civilização, do grande jesuíta pe. Leonel Franca. Sobre o livro e o autor, os silêncios oficiais vão deixando baixar a poeira.
O outro livro é de um dos mais conhecidos historiadores franceses deste século, Funck-Brentano, membro do Instituto de França, e aliás insuspeito protestante.
Comecemos por citar textos colhidos na obra deste último: "Luther" (Grasset, Paris, 1934, 7ª ed. 352 pp.). E vamos diretamente a esta blasfêmia sem nome: "Cristo – diz Lutero – cometeu adultério pela primeira vez com a mulher da fonte, de que nos fala João. Não se murmurava em torno dele: "Que fez, então, com ela? Depois com Madalena, em seguida com a mulher adúltera, que ele absolveu tão levianamente. Assim Cristo, tão piedoso, também teve de fornicar, antes de morrer" ("Propos de table", no. 1472, ed. de Weimar 2. 107 – cfr op. cit. p. 235).
Lido isto, não nos surpreende que Lutero pense – como assinala Funck-Brentano – que "certamente Deus é grande e poderoso, bom e misericordioso (...) mas é estúpido – "Deus est stultissimus" ("Propos de table", no. 963, ed. de Weimar, I, 487). É um tirano. Moisés agia movido por sua vontade, como seu lugar-tenente, como carrasco que ninguém superou, nem mesmo igualou em assustar, aterrorizar e martirizar o pobre mundo" (op. cit. p. 230).
Tal está em estrita coerência com estoutra blasfêmia, que faz de Deus o verdadeiro responsável pela traição de Judas e pela revolta de Adão: "Lutero – comenta Funck-Brentano – chega a declarar que Judas, ao trair Cristo, agiu sob imperiosa decisão do Todo-poderoso. Sua vontade (a de Judas) era dirigida por Deus: Deus o movia com sua onipotência. O próprio Adão, no paraíso terrestre, foi constrangido a agir como agiu. Estava colocado por Deus numa situação tal que lhe era impossível não cair" (op. cit. p. 246).
Coerente ainda nesta abominável seqüência, um panfleto de Lutero intitulado "Contra o pontificado romano fundado pelo diabo", de março de 1545, chamava o Papa, não "Santíssimo", segundo o costume, mas "infernalíssimo", e acrescentava que o Papado mostrou-se sempre sedento de sangue (cfr. op. cit. 337-338).
Não espanta que, movido por tais idéias, Lutero escrevesse a Melanchton, a propósito das sangrentas perseguições de Henrique VIII contra os católicos da Inglaterra. "É lícito encolerizar-se quando se sabe que espécie de traidores, ladrões e assassinos são os papas, seus cardeais e legados. Prouvesse a Deus que vários reis da Inglaterra se empenhassem em acabar com eles" (op. cit. p. 254).
Por isso mesmo exclamou ele também: "Basta de palavras: o ferro! o fogo!" E acrescenta: "Punimos os ladrões à espada, por que não havemos de agarrar o papa, cardeais e toda a gangue da Sodoma romana e lavar as mãos no seu sangue?" (op. cit., p. 104).
Esse ódio de Lutero o acompanhou até o fim da vida. Afirma Fuck-Brentano: "Seu último sermão público em Wittenberg é de 17 de janeiro de 1546; o último grito de maldição contra o papa, o sacrifício da missa, o culto da Virgem" (op. cit., p. 340).
Não espanta que grandes perseguidores da Igreja tenham festejado a memória dele. Assim "Hitler mandou proclamar festa nacional na Alemanha a data comemorativa de 31 de outubro de 1517, quando o frade agostiniano revoltoso afixou nas portas da igreja do castelo de Wittenberg as famosas 95 proposições contra a supremacia e as doutrinas pontifícias" (op. cit., p. 272).
E, a despeito de todo o ateísmo oficial do regime comunista, o Dr. Erich Honnecker, presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Defesa, o primeiro homem da República Democrática Alemã, aceitou a chefia do comitê que, em plena Alemanha vermelha, organizou as espalhafatosas comemorações de Lutero neste ano (cfr. "German Comments", de Osnabruck, Alemanha Ocidental, abril de 1983).
Que o frade apóstata tenha despertado tais sentimentos num líder nazista, como mais recentemente no líder comunista, nada de mais natural.
Nada mais desconcertante e até vertiginoso, do que o ocorrido quando da recentíssima comemoração do quingentésimo aniversário do nascimento de Lutero num esquálido templo protestante de Roma, no dia 11 do corrente.
Deste ato festivo, de amor e admiração à memória do heresiarca, participou o prelado que o conclave de 1978 elegeu Papa. E ao qual caberia, portanto, a missão de defender, contra heresiarcas e hereges, os santos nomes de Deus e de Jesus Cristo, a Santa Missa, a Sagrada Eucaristia e o Papado!
"Vertiginoso, espantoso"- gemeu, a tal propósito, meu coração de católico. Que, sem embargo, com isto redobrou de fé e veneração pelo Papado.

(Folha de São Paulo, 27 de dezembro de 1983)

LUTERO PENSA QUE É DIVINO!



Plinio Corrêa de Oliveira
Não compreendo como homens da Igreja contemporâneos, inclusive dos mais cultos, doutos ou ilustres, mitifiquem a figura de Lutero, o heresiarca, no empenho de favorecer uma aproximação ecumênica, de imediato com o protestantismo, e indiretamente com todas as religiões, escolas filosóficas, etc. Não discernem eles o perigo que a todos nos espreita, no fim deste caminho, ou seja, a formação, em escala mundial, de um sinistro supermercado de religiões, filosofias e sistemas de todas as ordens, em que a verdade e o erro se apresentarão fracionados, misturados e postos em balbúrdia? Ausente do mundo só estaria – se até lá se pudesse chegar – a verdade total; isto é, a fé católica apostólica romana, sem nódoa nem jaça.
Sobre Lutero – a quem caberia, sob certo aspecto, o papel de ponto de partida nessa caminhada para a balbúrdia total – publico hoje mais alguns tópicos que bem mostram o odor que sua figura revoltada espargiria nesse supermercado, ou melhor, nesse necrotério de religiões, de filosofias, e do próprio pensamento humano.
Segundo em anterior artigo prometi, tiro-os da magnífica obra do padre Leonel Franca S. J., "A Igreja, a Reforma e a Civilização" (Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 3ª ed., 1934, 558 pp.).
Elemento absolutamente característico do ensinamento de Lutero é a doutrina da justificação independente das obras. Em termos mais chãos, que os méritos superabundantes de Nosso Senhor Jesus Cristo só por si asseguram ao homem a salvação eterna. De sorte que se pode levar nesta terra uma vida de pecado, sem remorsos de consciência, nem temor da justiça de Deus.
A voz da consciência era, para ele, não a da graça, mas a do demônio!
  1. Por isso escreveu a um amigo que o homem vexado pelo demônio, de quando em quando "deve beber com mais abundância, jogar, divertir-se e mesmo fazer algum pecado em ódio e acinte ao diabo, para lhe não darmos azo de perturbar a consciência com ninharias (...) Todo o decálogo se nos deve apagar dos olhos e da alma, a nós tão perseguidos e molestados pelo diabo"(M. Luther, "Briefe, Sends breiben und Bedenken", e. De Wette, Berlim, 1825-1828 – cfr. op. cit., pp. 199-200).
  2. Neste sentido, escreveu ele também: "Deus só te obriga a crer e a confessar. Em todas as outras coisas te deixa livre e senhor de fazeres o que quiseres, sem perigo algum de consciência; antes é certo que, de si, Ele não se importa, ainda mesmo se deixasses tua mulher, fugisses do teu senhor e não fosses fiel a vínculo algum. E que se lhe dá (a Deus), se fazes ou deixas de fazer semelhantes coisas?"("Werke", ed. de Weimar, 12, pp. 131 ss. – cfr. op. cit., p. 446).
  3. Talvez ainda mais taxativo é este incitamento ao pecado, em carta a Melanchton, de 1º de agosto de 1521: "Sê pecador, e peca a valer (esto peccator et pecca fortiter), mas com mais firmeza ainda crê e alegra-te em Cristo, vencedor do pecado, da morte e do mundo. Durante a vida presente devemos pecar. Basta que pela misericórdia de Deus conheçamos o Cordeiro que tira os pecados do mundo. Dele não nos há de separar o pecado, ainda que cometêssemos por dia mil homicídios e mil adultérios"(Briefe, Sendschreiben und Bedenken", ed. De Wette, 2, p. 37 – cfr. op. cit. p. 439).
  4. Tão descabelada é esta doutrina, que o próprio Lutero a duras custas nela conseguia acreditar: "Nenhuma religião há, em toda a terra, que ensine esta doutrina da justificação; eu mesmo, ainda que a ensine publicamente, com grande dificuldade a creio em particular"( Werke", ed. de Weimar, 25, p. 330 – cfr. op. cit., p. 158).
  5. Mas os efeitos devastadores da pregação assim confessadamente insincera de Lutero, ele mesmo os reconhecia: "O Evangelho hoje em dia encontra aderentes que se persuadem não ser ele senão uma doutrina que serve para encher o ventre e dar larga a todos os caprichos"("Wekw", ed. de Weimar, 33, p. 2 – cfr. po. cit., p. 212).
E Lutero acrescentava, acerca de seus sequazes evangélicos, que "são sete vezes piores que outrora. Depois da pregação da nossa doutrina, os homens entregaram-se ao roubo, à mentira, à impostura, à crápula, à embriaguez e a toda espécie de vícios. Expulsamos um demônio (o papado) e vieram sete piores"("Werke", ed. de Weimar, 28, p. 763 – cfr. op. cit., p. 440).
"Depois que compreendemos não serem as boas obras necessárias para a justificação, ficamos muito mais remissos e frios na prática do bem (...) E se hoje se pudesse voltar ao antigo estado de coisas, se de novo revivesse a doutrina que afirma a necessidade do bem fazer para ser santo, outra seria a nossa alacridade e prontidão no exercício do bem"("Werke", ed. de Weimar, 27, p. 443 – cfr. op. cit., p. 441).
  1. Todas essas insânias explicam que Lutero chegasse ao frenesi do orgulho satânico, dizendo de si mesmo: "Este Lutero não vos parece um homem extravagante? Quanto a mim, penso que ele é Deus. Senão, como teriam os seus escritos e o seu nome a potência de transformar mendigos em senhores, asnos em doutores, falsários em santos, lodo em pérolas!" (Ed. Wittemberg, 1551, t. 4, p. 378 – cfr. op. cit., p. 190).
  2. Em outros momentos, a opinião que Lutero tinha de si mesmo era muito mais objetiva: "Sou um homem exposto e implicado na sociedade, na crápula, nos movimentos carnais, na negligência e em outras moléstias, a que se vêm ajuntar as do meu próprio ofício"("Briefe, Sendschreiben und Bedenken", ed. De Wette, 1, p. 232 – cfr. op. cit., p. 198). Excomungado em Worms em 1521, Lutero entregou-se ao ócio e à moleza. E a 13 de julho escreveu a outro prócer protestante, Melanchton: "Eu aqui me acho, insensato e endurecido, estabelecido no ócio, oh dor!, rezando pouco, e deixando de gemer pela Igreja de Deus, porque nas minhas carnes indômitas ardo em grandes labaredas. Em suma, eu que devo ter o fervor do espírito, tenho o fervor da carne, da libidinagem, da preguiça, do ócio e da sonolência"(Briefe, Sendscheiben und Bedenken", ed. De Wette, 2, p. 22 – cfr. op. cit. p. 198).
Num sermão pregado em 1532: "quanto a mim confesso – e muitos outros poderiam sem dúvida fazer igual confissão – que sou desleixado assim na disciplina como no zelo, sou muito mais negligente agora que sob o papado; ninguém tem agora pelo Evangelho o ardor que se via outrora" ("Saemtliche Werke", ed. de Plochman-Irmischer, 28 (2), p. 353 – cfr. op. cit. p. 441).
* * *
O que de comum se pode encontrar, pois, entre esta moral, e a da Santa Igreja Católica Apostólica Romana?

("Folha de S. Paulo", 10 de janeiro de 1984)

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

QUE MENTALIDADE ESTÁ POR TRÁS DE TRAGÉDIAS COMO A DE LAS VEGAS?




Mais um massacre para a triste história da vida moderna americana, o “american way of life”. O que diverge este dos demais é apenas as características pessoais do agressor e alguns detalhes menores.
Um outro massacre, ocorrido em 2012, teve características parecidas em alguns aspectos. Refiro-me ao ocorrido na escola de Sandy Hook, quando um jovem atirador surgiu de repente matando professores e alunos.
Naquela oportunidade, o ex-governador do Arkansas, Mike Huckabee, declarou que a causa do masscre na escola de Newtown é o fato do Estado haver sistematicamente removido Deus das escolas públicas. As opiniões divergem, de outro lado a maioria dos órgãos da mídia aponta como causa a fácil proliferação de armas naquele país. O que, também, não é verdade.
Mike Huckabbe erra porque Deus não foi removido somente das escolas, mas de toda a sociedade. A começar pelas próprias famílias, onde Deus foi banido da grande maioria dos lares.
Vejamos um pequeno exemplo dessa ausência de Deus: o presidente americano daquela época, Barack Obama, em discurso, dizia que a primeira coisa a fazer quando chegar em casa seria... abraçar os filhos, quando todos esperavam que ele dissesse: rezar com os filhos. Se é ateu e não reza deveria pelo menos pedir aos cristãos que rezassem pelas vítimas. Deu, portanto, mau exemplo, pois muitos de seus concidadãos estavam naquele instante rezando. Quanto ao atual, quando falava do massacre de Las Vegas apenas o classificou como coisa de muita maldade. Nada de orações ou de sentimentos de pesar cristão pelo ocorrido.

Mas, finalmente, que mentalidade é essa que produz tais monstros, capazes de matar tantos inocentes e, depois, suicidar-se?
Monstro é o termo usado pela mídia, e não surpreende que o seja. Mas, dizem, trata-se de um monstro cujo comportamento era padrão, tratando-se (o criminoso) geralmente de alguém de comportamento dito como “normal”.  O assassino de Sandy Hook era um rapaz calmo, estudioso e “bem comportado”. O autor do massacre de Las Vegas é um homem “normal”, sem problemas financeiros, rico e viciado nas roletas de cassinos. Que mentalidade foi gerada nesses homens, tão “pacatos”, para, de repente, explodir em ódio catastrófico?
Vários outros massacres foram produzidos por indivíduos tidos como “bem educados” e de cuja vida não pode se dizer que sofriam carências materiais. Todos eram de classe média e boa situação financeira. Possuíam em sua casa todos os recursos para uma vida dita feliz para os padrões modernos, como televisão, computadores, celulares de última geração e, sobretudo, armas modernas, caras e eficientes para matar. Uns usavam luvas, outros câmaras de filmar, e a maioria, calmamente, sabia mais apertar o gatilho certeiro do que folhear, por exemplo, um livro qualquer sobre moral ou religião. E nenhum deles tinha problema mental grave.
Vamos analisar essas mentalidades. Em primeira lugar, é óbvio, são pessoas sem Deus e sem religião. Em seu interior tais pessoas alimentaram durante anos uma vida inteiramente virtual, cheia de ídolos, de fantasias e de futilidades, vida essa que a educação pela imagem faz brotar e crescer nas pessoas de hoje. Sem manifestar publicamente em seu dia a dia, alimentam ódios pelo mundo real e exterior, o qual representa tudo o que se opõe ao seu mundo virtual e interior. A par disso tais pessoas geralmente posuem tudo o que desejam, seus pais lhes deram boas escolas, roupas caras, boa habitação para morar, mas, especialmente isso, nunca lhes causaram dissabores, nunca disseram “não” a seus caprichos. Alguns pais até achavam bonito e riam quando o filho, desde pequeno, fazia malcriações ou diziam palavrões, chutavam outras crianças, etc. É certo que a maioria não era vista como violenta, pareciam pacatos dentro de casa e no convívio com parentes, vizinhos e amigos. Mas, era como um vulcão que parecia morto e que de repente explode. O jogador de cassino de Las Vegas tem uma característica diferente, pois era filho de um bandido. E nem seus pais, nem seus professores, nem seus amigos e vizinhos viam que ali ardia uma fornalha de ódio.
Por que não viam? Porque vivendo sem religião não aprenderam a prescrutar o interior, a alma das pessoas. Num mundo virtual e superficial, as pessoas de hoje não conseguem ver o que há no interior da alma de cada um. Acostumados a ver tudo cor de rosa, a ver o mundo como uma maravilha destinada ao gozo dos prazeres, não sabem distinguir onde está a maldade. Especialmente, não percebem onde entra a ação preternatural, do demônio e seus asseclas, e muito menos a ação dos Anjos bons.
Agora, para encobrir mais ainda a realidade interior de que falamos, a mídia começa a dar como causa do massacre a proliferação de armas entre os americanos. Sim, não se pode negar que esta pode ser uma das causas, mas não a maior, nem única, nem a principal. A principal e maior  causa é a falta de religiosidade e de princípios morais que campeia em nossa sociedade, e não somente entre tais assassinos, mas entre seus familiares e conterrâneos.
Falou-se acima em “monstros”. Outros criminosos são assim denominados “monstros” pela nossa sociedade. Por exemplo, aqueles que cometem o abominável crime de pedofilia. A alcunha de “monstro” procura esconder onde essa monstruosidade foi gerada. Dentre os pedófilos, por exemplo, a principal causa é a pornografia desenfreada que grassa em nossa sociedade. No dia em que se fechar para sempre a edição de revistas pornográficas e de mulheres nuas, os moteis e os ambientes de perdição sexual, talvez tais crimes sejam menos frequentes, pois as causas, aquilo que vem gerando estas monstuosas taras terão desaparecido.
Do mesmo modo, a causa da monstruosidade praticada em tais massacres não pode estar nas armas, nem em outros instrumentos usados pelos criminosos, mas na vida atéia e sem Deus que se leva, sem levar em consideração que somos assediados cotidianamente por anjos, tanto do mau quanto do bem, com vantagens para os primeiros por causa de vida material e puramente agnóstica. Ao lado da facilidade com que adquirem armas tais, estes indivíduos também, como o resto da população, vivem assistindo filmes policiais de violências inauditas, os quais lhes servem de inspiração. E ninguém ver que também nestes filmes está um dos motivadores de tais mentalidades.
Na década de 60 houve um outro massacre que estarreceu os Estados Unidos: a chacina comandada por Charles Manson numa rica mansão, onde foi morta, mesmo grávida, a atriz Sharon Tate, num ritual diabólico. O assassino confesso, hoje em prisão perpétua, parecia um pacato cidadão, mas foi capaz de efetuar um monstruoso crime juntamente com alguns amigos. Na época não havia ainda a prática de suicídio do criminoso após tais crimes, mas foi ela a primeira a inspirar outros casos.
Parece até que a chacina de Newtown (em 2012) serviu de exemplo para outras que os espíritos malignos inspirariam no futuro, como esta de Las Vega, exemplo por conter traços de frieza, maldade, crueldade e desesperança. É o que tais casos procura incutir nas pessoas: desesperança; ao contrário do que ensina nossa Fé Católica, onde a Esperança é uma das principais virtudes que nos leva a caminhar em busca da vida eterna.

Veja também nossa postagem anterior sobre o mesmo tema:


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

BEATA ANNA CATARINA DE EMMERICH, VÍTIMA EXPIATÓRIA EXORCÍSTICA




Vidente alemã nascida em 8 de setembro de 1774 e falecida a 09 de fevereiro de 1824. Catharina Emmerich era de origem humilde, filha de camponeses da Westfália, que viviam na aldeia de Flamske, onde ela nasceu. Foi batizada no dia do nascimento o que lhe mereceu dos céus muitíssimas graças e dons celestiais. Ainda criança, via com freqüência seu Anjo da Guarda e brincava com o Menino Jesus. Falava de suas visões às outras crianças com toda a naturalidade, mas logo teve que precaver-se e calar tudo pensando que não estava sendo modesta.
Apesar de várias tentativas, somente conseguiu abraçar a vida religiosa quando contava com 28 anos de idade. Foi admitida no Convento das Agostinianas de Duelmen em setembro de 1802. No início de sua vida conventual teve algumas dificuldades com as outras freiras por causa de suas visões. Mas ela comenta tais dificuldades com a maior naturalidade: “Eu vivia em paz, com Deus e com todas as criaturas. Quando trabalhava no jardim, vinham as avezinhas pousar sobre minha cabeça e meus ombros e cantávamos juntas os louvores de Deus. Via sempre o meu Anjo da Guarda ao meu lado e, ainda que o mau espírito me assustasse e me agredisse, não me podia fazer mal. O meu desejo do Santíssimo Sacramento era tão irresistível, que muitas vezes deixava de noite a minha cela para ir rezar na igreja, quando estava aberta; se não, ficava ajoelhada diante da porta ou perto do muro, mesmo no inverno ou prostrada no chão, com os braços estendidos e em êxtase. Assim me encontrava o capelão do convento, Abbé Lambert (sacerdote francês, exilado da pátria por não prestar juramento  exigido pela constituição atéia), que tinha a caridade de vir mais cedo para dar-me a Sagrada Comunhão. Mas, logo que se aproximava para abrir a igreja, eu voltava a mim, indo depressa á mesa da Comunhão, onde achava o meu Deus e Senhor”
A situação ficou difícil para ela e suas confrades religiosas por volta de 1811 quando o convento teve que ser fechado por causa da guerra. Ficou  hospedada numa casa humilde até se restabelecer a ordem. No ano seguinte, Nosso Senhor lhe aparece e imprime em seu corpo os estigmas da Paixão. O capelão Abbé Lambert e o seu confessor, Pe. Limberg, viram-na sangrar dois dias depois, mas compreendendo tudo ficaram calados para proteger a privacidade da vidente. Ela também procurou, no início, esconder os sinais das chagas a fim de evitar ser mal compreendida pelas pessoas. A partir de então não pôde mais tomar alimento, a não ser água misturada com vinho, e raras vezes um pouquinho de suco de cereja ou ameixa. Seu único alimento era a sagrada Comunhão, e assim viveu até o final de seus dias.
No entanto, seu estado de completa abstinência e os estigmas da Paixão logo se tornaram notícia na cidade.  Em março de 1813 o vigário de Duelmen, Pe. Rensing, encarregou dois médicos para, juntamente com o confessor da vidente, fazerem um exame das chagas. Depois, o prefeito de Munster, sede do bispado, foi visitá-la acompanhado de um delegado de polícia. Após a visita determinou que oito médicos e cirurgiões do exército empregassem todos os meios disponíveis para fazer cicatrizar as feridas da extática. Sem resultado, é claro. No mesmo mês foi iniciado também um inquérito eclesiástico sobre o seu estado místico. Durante 10 dias, Catharina Emmerich foi vigiada por 20 pessoas para comprovar que o sangue dos estigmas vinham de causas naturais. Em parte, era a incredulidade dos homens, nesta época de ateísmo e irreligiosidade, duvidando dos milagres da Providência Divina, mas servindo aos desígnios de Deus. Os autos foram enviados às autoridades eclesiásticas, onde se constatava o caráter sobrenatural dos estigmas nas mãos, nos pés, no coração e na cabeça, e se reconhecia o estado virtuoso e santo da religiosa.
Seis anos depois, era a vez da investida maçônica contra a religiosa, proveniente de uma ordem das autoridades civis para “desmascarar o embuste”. Foi criada uma comissão de médicos naturalistas, os quais tentaram levar a vidente para a casa do conselheiro do Tribunal de Contas, Mersmann. Como ela se recusou a ir, e também a dar autorização para ser submetida a certos tipos de testes ou exames, foi levada à força.

Vítima expiatória para fulminar a conjuração anticristã
Tendo vivido no período que se seguiu à Revolução Francesa, Catharina Emmerich passou a conviver com os passos seguintes dados pela grande conjuração anticristã que se espalhava por toda a Europa. Monsenhor Henri Delassus assim comenta em sua obra “La Conjuration Antichrétienne”, publicada em 1910, no pontificado de São Pio X :
“A Igreja estava então, como ainda está hoje, numa das horas mais críticas da sua história. 1820, como vimos, foi o ano em que a Grande Loja entrou em plena atividade, e sabemos qual missão lhe foi dada. “Ora, diz um dos historiadores de nossa heroína, o que Anna Catharina fazia, no estado de contemplação, contra essa conjuração infernal, era uma obra tão real, acompanhada de resultados tão positivos quanto tudo o que se faz na esfera da via habitual. O martírio ao qual se submetia não era somente uma paixão, mas também uma ação, como em Nosso Senhor Jesus Cristo o sacrifício do Calvário foi uma obra, a obra da Redenção. Um dia ela pensou sucumbir ao peso das dores que a crucificavam; seu anjo exortou-a à resignação dizendo-lhe: “Cristo ainda não desceu da cruz. É preciso perseverar com Ele até o fim”.
“É através da participação nos sofrimentos da divina Paixão que, no momento em que o inferno faz mais esforços para retomar a posse do mundo, as pessoas escolhidas por Deus triunfam sobre ele e obtêm a vitória para a Igreja, depois a paz num crescendo de glória”.
Quer dizer, Anna Catharina Emmerich sofria com Nosso Senhor Jesus Cristo, e sofrendo com Ele sofria também com Seu Corpo Místico, a Santa Igreja Católica. Sofria como vítima expiatória por causa dos abomináveis pecados de Revolução que dominavam o seu tempo, os quais terminavam por favorecer a causa de satanás e a conjuração universal contra a Igreja.  Vítima expiatória que visava também exorcizar todos os demônios que infestavam sua época e dominavam as organizações das forças secretas e anticristãs.
Sobre a efetiva participação das forças secretas na demolição da Igreja, Catharina Emmerich teve a seguinte visão:
“Tive a visão de uma grande igreja. Junto dela vi muitas pessoas distintas, entre as quais vários estranhos, com aventais e colheres de pedreiro. Pareciam enviados para demolir essa igreja. Já começaram a destruí-la por intermédio das escolas que entregam à incredulidade. Toda espécie de pessoas juntam-se a eles. Até padres estavam lá, e mesmo religiosos. Isso me causou tal aflição que chamei meu divino Esposo em socorro. Supliquei-Lhe que não deixasse o inimigo triunfar desta vez”.
Eis um exemplo de intercessão expiatória de Catharina Emmerich em prol da Igreja, conforme narra Monsenhor Delassus:
“...Os príncipes da Alemanha haviam convocado uma assembléia, na qual vários padres católicos se mostraram animados dos mesmos sentimentos dos leigos que a compunham. O mais perigoso, no dizer de Catharina, era o vigário-geral Wessenberg, de Constance. Essa assembléia redigiu dois projetos de organização interna e externa da Igreja. Catharina viu na sala das deliberações o demônio sob a forma de um cão que lhe disse: Esses homens aí fazem verdadeiramente a minha obra. Catharina ofereceu-se como vítima de expiação e Deus lhe impôs uma obra de reparação que durou quinze dias”;
Sobre a ação deletéria dos educadores que corrompia a juventude, influenciados por filósofos racionalistas e anticristãos, como Kant, Schilling e Hegel, Catharina Emmeric declarou em 1823:
“Tive uma visão sobre a situação deplorável dos jovens estudantes de hoje. Vi-os em Munster, assim como em Bonn, correndo pelas ruas. Tinham nas mãos pacotes de serpentes, cujas cabeças sugavam, e ouvi estas palavras: “São serpentes filosóficas”. Vi que muitos pastores deixavam-se tomar por idéias perigosas. Oprimida de tristeza, desviei os olhos dessa visão que me enchia de angústia e rezei pelos bispos”.
No entanto, a vidente e extática não se restringia a rezar e expiar, ela também agia. Onde se fizesse necessário ela se fazia presente para defender a Santa Igreja, embora sob uma forma espiritual. Seu Anjo da Guarda a transportava em espírito para o lugar onde as potestades do mal estavam a agir. Declarou haver feito várias “viagens” a diversos países onde as forças da conjuração anticristã atuavam com denodo.
Sobre a situação de Paris, declarou:
“Pareceu-me que minavam debaixo dessa grande cidade, na qual o mal está no ponto máximo. Havia vários demônios ocupados nesse trabalho. Eles já estavam bem adiantados e eu acreditava que com tantos e tão pesados edifícios ela logo iria desabar”.
“Em seguida entrei na Espanha. Vi por todo o país uma longa cadeia de sociedades secretas. E meu anjo me disse: “Hoje Babel está aqui”.


“Desse desditoso país fui conduzida para uma ilha onde nasceu São Patrício (Irlanda). Aí os católicos estavam muito oprimidos. Mantinham relações com o Papa, mas em segredo.
“Da ilha de São Patrício fui conduzida a uma outra grande ilha (Inglaterra). Vi aí a opulência, os vícios, muitas misérias e numerosos navios”.
Chegando em Roma, falou da situação do Papa:
“Cheguei a São Pedro e São Paulo. Vi um mundo tenebroso, cheio de desgraça, mas como que atravessado por raios de luz, pelas inumeráveis graças emanadas dos milhares de santos que aí repousam. Vi São Pedro numa grande tribulação e numa grande angústia. Eu o vi rodeado de traições.  Vi que em casos extremos de desgraça ele tem visões e aparições. Vi muitos e piedosos bispos, mas eram fracos e o mau partido tomava a dianteira. Vi a igreja dos apóstatas ter muito crescimento. Vi as trevas que saíam dela espalharem-se pelos arredores, e vi muita gente desertar da Igreja legítima e se dirigir para a outra dizendo: “Aqui tudo é mais natural”.
Em outra visão, dias depois, voltava a falar do Papa:
“A aflição do Santo Padre (Pio VII) e da Igreja é tão grande que devemos implorar a Deus noite e dia. O Santo Padre, mergulhado em aflição, trancou-se, para subtrair a exigências perigosas.  Ele está muito fraco e completamente esgotado pela tristeza, pelas preocupações e pela oração. A principal razão para se manter fechado é que não pode mais se fiar senão em poucas pessoas.  Mas há perto dele um velho padre muito simples e muito piedoso que é um amigo e, por causa da sua simplicidade, considera-se não valer a pena ser afastado. Ele vê e observa muitas coisas que comunica fielmente ao Santo Padre. Informei-o enquanto ele rezava a propósito dos traidores e das pessoas mal intencionadas existentes entre os altos funcionários que vivem na intimidade do Santo Padre, a fim de que lhe seja dado conhecimento disso”.
Segundo Monsenhor Delassus, Catharina Emmerich visitava espiritualmente com freqüência os Papas de seu tempo:
“Catharina viu o Papa (Pio VII) numa grande tribulação e numa grande angústia. Com efeito, nesse momento ele estava submetido a provas mais penosas do que tinha sido sua prisão pelos satélites de Napoleão e aquilo que se seguiu. Ela diz que em momentos de grande aflição ele foi favorecido com visões. Vemos na sua história que ela mesma foi freqüentemente conduzida por seu anjo junto a ele, como também junto ao seu sucessor, Leão XII[1]. Ela ia para perto deles, não corporalmente, mas à maneira dos espíritos. Ela lhes transmitia os conselhos e mesmo às vezes as admoestações que seu guia celeste lhe sugeria. Essas comunicações eram produzidas através das iluminações de espírito a espírito, como nos mostra São Tomás relativamente aos anjos que se entretêm entre si, ou através de palavras faladas e ouvidas? Não o sabemos, mas esse desconhecimento não deve fazer-nos rejeitar a possibilidade dessas mensagens. Posto que Deus aceitava as orações e os sofrimentos de sua serva para o bem da Igreja, podemos admitir que Ele a enviasse junto ao Pastor supremo para esclarecê-lo, encorajá-lo e fazer com que evitasse os perigos que seus inimigos e os traidores a seu serviço lhe armavam, sem que, no entanto, ela deixasse seu leito de dores. Ela própria, ao mencionar uma mensagem da qual foi incumbida junto a um eclesiástico, nos dá uma idéia do modo como essas comunicações são recebidas”.
Dizia Catharina Emmerich: “Precisei ir até Munster, junto ao vigário-geral. Tive de dizer-lhe que ele estragava muitas coisas por causa do seu rigor, que ele devia dispensar mais cuidados ao seu rebanho e permanecer mais em casa para aqueles que tinham necessidade de vê-lo. Foi como se ele tivesse encontrado no seu livro uma mensagem que lhe sugerisse esses pensamentos. Ficou desgostoso consigo mesmo”.
Estes avisos e admoestações feitos ao Santo Padre, o Papa, faz parte da promessa que Nosso Senhor fez da assistência que o Divino Espírito Santo sempre deu à Santa Igreja Católica.  E na maioria dos casos essa assistência é dada utilizando-se dos próprios fiéis, pois Deus sempre age por causas segundas. Monsenhor Delassus lembra da assistência que receberam os Papas Gregório XVI e Pio IX por intermédio da mística Maria Moerl. Leão XIII foi lembrado por uma religiosa, Condessa Drotz zu Vischering, sobre o desejo de Nosso Senhor de ver o gênero humano consagrado ao Seu Sagrado Coração.
Além destes avisos de pessoas, ou mesmo de admoestações caridosos e sutis de videntes e místicos, os Papas também são guiados por visões ou sonhos. Foi assim que Leão XII teve uma pavorosa visão enquanto celebrava a Santa Missa: A terra apareceu-lhe toda envolta em trevas; e de um abismo entreaberto ele viu sair uma legião de demônios que se espalhavam pelo mundo para destruir as obras católicas e atacar a própria Igreja, que ele viu extremamente reduzida. Então São Miguel apareceu e repeliu os espíritos malignos para o abismo. Após esta visão, Leão XIII instituiu as orações do exorcismo que eram rezadas nas Santas Missas até o advento do Concílio Vaticano II.  Viu também que a ação de São Miguel seria completa apenas quando os efeitos de tais exorcismos fossem completos.
A Beata Anna Catharina Emmerich, anos antes, teve visão semelhante. Viu ela que um terço dos demônios que estavam no inferno seriam soltos em torno de cinqüenta ou sessenta anos antes do ano 2000, aos quais Deus daria certo tempo para agir na terra, mas findo este tempo seriam novamente sepultados no inferno. Quer dizer, seriam exorcizados de uma forma que não permaneceriam nos “ares”, fazendo algum mal aos homens, mas seriam projetados de volta para o inferno.

A “igreja naturalista”  faz parte dos planos do reino do demônio
A “Bondade natural” é um logro que conduz fatalmente os homens para uma falsa religião. Seu sucedâneo no plano mundial seria a “Igreja naturalista”. Aquilo que para Monsenhor Delassus, o Cardeal Merry del Val e o Papa São Pio X (posteriores a Catharina Emmerich)  já era um corpo vivo, digamos, o corpo místico do demônio, em franca ascensão e progresso, ao tempo dela era patente apenas em suas visões.
Monsenhor Delassus comenta:
“Várias vezes Anna Catharina fala da igreja dos apóstatas, que também chama de igreja das trevas e cujos progressos ela mostra. Ela também assinala nessa igreja a presença e a influência de certos cúmplices dos principais chefes da franco-maçonaria. Que igreja é essa? Ela não o precisa, senão pela frase que lemos acima: “Aqui tudo é mais natural”, e que parece indicar que com isso ela compreendia os propósitos daqueles que desertam da ordem sobrenatural para se porem mais à vontade no naturalismo”.
Mas a construção deste maldito templo satânico, que era o corpo místico do demônio e sua falsa igreja, só seria possível com a destruição da Igreja de Cristo. Daí a atuação constante dos demolidores:
“Fileiras de trabalhadores ocupados no trabalho de destruição estendiam-se através do mundo inteiro, e fiquei espantada com a coordenação com que tudo era feito. Os demolidores destacavam grandes pedaços do edifício. Esses sectários são numerosos e entre eles há apóstatas. Realizando o trabalho de destruição eles precisam seguir certas prescrições e certas regras. Usavam aventais brancos, debruados com uma faixa azul e guarnecido de bolsos. Tinham colheres de pedreiro fixadas na cintura. Ademais, têm vestimentas de toda espécie. Entre eles existem personagens distintos dos outros, grandes e corpulentos, com uniformes e cruzes, os quais, contudo, não trabalhavam diretamente, mas marcavam nas paredes das igrejas, com a colher de pedreiro, o que era preciso demolir. Vi com horror que havia entre eles padres católicos. Freqüentemente, quando os demolidores não sabiam bem como agir, eles se aproximavam, para se instruírem a respeito, de um dos seus, que tinha um grande livro no qual estava traçado todo o plano a seguir para as destruições, e este marcava exatamente, com a colher de pedreiro, o ponto que devia ser atacado; e logo um pedaço caía sob as marteladas. A operação prosseguia tranqüilamente seu ritmo e caminhava infalivelmente, mas sem despertar atenção e sem ruído, tendo os demolidores os olhos à espreita”.

Objetivos gerais dos demolidores
Anna Caharina Emmerich viu como os demolidores trabalhavam em visões. Monsenhor Delassus viu-os na realidade de seus dias:
“Vemos hoje que um plano de destruição foi traçado com antecedência com uma sabedoria diabólica. Vemos que os operários encarregados da execução encontram-se divididos por todos os países do mundo, que os papéis foram distribuídos e que cada qual recebeu o significado da tarefa que lhe incumbe. Eles cavam no lugar que lhes foi assinalado; param quando as circunstâncias o exigem, para retomar em seguida o trabalho com um novo ardor. Em todos os países católicos o assalto é conduzido simultaneamente ou sucessivamente contra a situação que o clero secular ocupava no Estado e nas diversas administrações; contra os bens que lhe permitiam viver, render a Deus o culto que Lhe é devido, ensinar a juventude a aliviar a miséria; contra as ordens religiosas e as congregações.  Relativamente à França, o plano geral da guerra que devia ser desfechada contra os católicos foi apresentado na Câmara dos Deputados no dia 31 de maio de 1883, por Paul Bert. Na execução desse plano, Ferry, Waldeck, Combes, Loubet, Briand, Clemenceau não exerceram nenhuma política pessoal. Eles executaram aquilo cujas linhas o chefe misterioso traçara, indo consultar seus subalternos, os depositários do pensamento, quando ficavam hesitantes ou embaraçados.  Após os doze primeiros anos desse trabalho, o episcopado da França pôde dizer: “O governo da República tem sido a personificação de um programa de oposição absoluta à fé católica”. Desde então, a cada ano tem abatido uma nova parte do edifício erguido por nossos pais, a Igreja da França. Catharina Emmerich via os franco-maçons e seus ajudantes distribuídos em diversas equipes, cada qual com uma tarefa determinada. Foi o que vimos. Gambetta foi encarregado da declaração de guerra. Paul Bert levou a picareta ao ensino. Naquet à constituição da família, Jules Ferry ao culto, Thévenet, Constans, Floquet, etc., expulsaram o clero de todas as suas posições; Waldeck-Rousseau atacou as congregações religiosas; Combes, Clemenceau, Briand, conceberam e buscaram a separação entre a Igreja e o Estado”.
“Para os trabalhos de demolição no interior da Igreja há também engenheiros que podemos facilmente nomear: um ataca a Sagrada Escritura, outro a Teologia, um terceiro a filosofia, este a História, aquele o culto. Sobretudo, há associações internacionais encarregadas , como vimos, de disseminar no pública, e particularmente na juventude, o espírito refratário ao dogma”.
“Anna Catharina, que assim via os franco-maçons e seus cúmplices ou seus “inocentes úteis”  se assanharem em demolir a Igreja, de dentro e de fora, também via o clero e os bons fiéis se esforçarem para entravar o trabalho deles e mesmo reerguer as ruínas já feitas, mas, diz ela, “com pouco zelo”. Os defensores pareciam-lhe não ter nem confiança, nem ardor, nem método. Eles trabalhavam como se ignorassem absolutamente do que se tratava e quanto era grave a situação. Era deplorável”.
Em suas visões, a Bem-Aventurada via que o objetivo principal dos demolidores era Roima, era o Papado:
“Vi, um dia, o Papa em oração. Ele estava rodeado de falsos amigos. Vi sobretudo um homem-negro trabalhar para a ruína da Igreja com grande atividade. Ele diligenciava em cativar os cardeais através de adulações hipócritas”.
Monsenhor Delassus narra que, numa carta reservada, um maçom que tinha o codinome de “Nubius”, comentava:
“Algumas vezes passo uma hora da manhã na casa do velho cardeal Somaglia, o Secretário de Estado;  cavalgo, seja com o duque de Laval, seja com o príncipe Cariati, ocasião em que freqüentemente encontro cardeal Bernetti.  Daí corro para a casa do cardeal Palotta; depois visito em suas células o Procurador-Geral da Inquisição, o dominicano Jabalot, o teatino Ventura ou o franciscano Orioli. À noite, começo nas casas de outros essa vida tão bem ocupada aos olhos do mundo”.
Em outras visões, a Bem-Aventurada fala detalhadamente deste personagem:
“Vi muitas pessoas piedosas aflitas com as intrigas do homem-negro. Ele tinha o aspecto de um judeu.
“O pequeno homem-negro, que vejo tão freqüentemente, tem muitas pessoas que faz trabalhar para ele sem que elas conheçam o objetivo. Há também cúmplice seus na nova igreja das trevas”.
“Eu o vi realizar muitas subtrações e falsificações”.
“De um lugar central e tenebroso, vejo partirem mensageiros que levam comunicações a diversos lugares. Vejo essas comunicações saírem da boca dos emissários como um vapor negro que cai no peito dos ouvintes e acende neles o ócio e a raiva”.
Após uma de suas visões, declara Catharina Emmerich:
“Precisei ir a Roma. Vi o Papa fazer demasiadas concessões em importantes negócios tratados com os heterodoxos. Existe em Roma um homem-negro que sabe obter muitas coisas mediante adulações e promessas. Ele se esconde atrás dos cardeais; e o Papa, no desejo de obter uma certa coisa, consentiu numa outra coisa que será explorada de uma maneira nociva. Vi isto sob a forma de conferências e troca de escritos.  Vi em seguida o homem-negro vangloriar-se cheio de jactância diante do seu partido. “Eu o venci, disse ele, nós logo veremos o que acontecerá à Pedra sobre a qual está construída a Igreja”.   Mas ele se vangloriou cedo demais.  Precisei encontrar-me com o Papa.  Ele estava de joelhos e rezava. Eu lhe disse aquilo que eu estava encarregada de lhe fazer chegar ao conhecimento. E o vi subitamente levantar-se e tocar a campainha. Mandou chamar um cardeal que encarregou de retirar a concessão que fizera.  O cardeal, ouvindo isso, ficou completamente perturbado e perguntou ao Papa de onde lhe vinha aquele pensamento. O Papa respondeu que nada tinha a explicar sobre isso. “Basta, disse ele, deve ser assim”.  O outro saiu inteiramente estupefato”.
Entendendo o motivo pelo qual Nosso Senhor lhe mostrava tudo isto, disse ela: “Espero ajudar os que resistem a essas seduções tomando sobre mim as dores da Paixão de Cristo”.   Após estas palavras seu corpo enrijeceu-se e tomou a posição de uma pessoa estendida sobre a cruz. Um suor frio correu na sua fronte. Era a vítima expiatória sofrendo a Paixão do Corpo Místico de Cristo, a Sua Santa Igreja.
Depois, falando sobre o caráter exorcístico de sua vocação dizia:  “Vejo como no fim Maria estende seu manto sobre a Igreja e como os inimigos de Deus são expulsos”.

Visões proféticas sobre a Igreja e a “bagarre”
As visões da Bem-Aventurada Catharina Emmerich abarcam toda a História do Universo e a Obra divina. Desde a criação do mundo até a vinda do Anticristo.  Sobre os dias que viriam após sua época, viu de uma forma simbólica o crescimento do corpo místico de satanás da seguinte forma:
“Eu vejo as trevas se adensarem. Ameaça uma grande tempestade, o céu está coberto de um modo apavorante. Há poucas pessoas que rezam e a aflição dos bons é grande. Vejo por toda a parte as comunidades católicas oprimidas, humilhadas, arruinadas e privadas de liberdade. Vejo muitas igrejas fechadas. Vejo grandes misérias se produzirem em todos os lugares. Vejo guerras e sangue derramado.
“Tive a visão de uma imensa batalha. Toda a planície estava coberta por uma espessa fumaça.  Vinhas estavam cheias de soldados, de onde atiravam continuamente. Era um lugar baixo; viam-se grandes cidades ao longe.  Vi São Miguel descer com numerosa tropa de anjos e separar os combatentes. Mas isso só acontecerá quando tudo estiver perdido.  Um chefe invocará São Miguel e então a vitória descerá”.
“Vi São Miguel pairando sobre a igreja de São Pedro, brilhante de luz, usando uma vestimenta vermelho-sangue e segurando na mão um grande estandarte de guerra. Verdes e azuis combatiam contra os brancos, que pareciam sofrer a derrota. Todos ignoravam porque combatiam. Entretanto, o anjo desceu, foi aos brancos e eu o vi várias vezes à frente de todas as suas coortes. Então eles ficaram animados de uma coragem maravilhosa, sem que soubessem de onde isso lhes vinha.  O anjo multiplicava seus golpes entre os inimigos, as tropas inimigas passavam para o lado dos brancos, outros fugiam para todos os lados”.
Sobre a demolição da Igreja a Bem-Aventurada teve diversas visões, chegando ao ponto de vê-La a tal ponto destruída que só restava de pé o Santíssimo Sacramento.  Nisto ela viu um homem que defendia a Igreja: “Eu estava acabrunhada de tristeza e me perguntava onde estava aquele homem que eu tinha visto outrora permanecer sobre a Igreja para defendê-la, usando uma vestimenta vermelha e segurando uma bandeira branca”.  Se ela não via neste momento o homem que “outrora” defendia a Igreja é porque este já havia entrado na glória, pois em seguida é Nossa Senhora em pessoa que luta pela igreja: “Então vi uma mulher cheia de majestade avançar pela grande praça que fica diante da igreja. Ela tinha seu amplo manto erguido sobre os dois braços, e ela se levantou suavemente no ar. Ela se postou sobre a cúpula e estendeu sobre a Igreja, em toda a sua extensão, o manto que parecia faiscar de ouro”.  Com esta intervenção, vários demônios “mantenedores” de que falamos neste trabalho foram exorcizados: “Os demônios acabavam de tomar um instante de repouso; mas quando quiseram voltar ao trabalho foi-lhes absolutamente impossível aproximar-se do espaço coberto pelo manto virginal”.  Os anjos bons agora ocupavam tais espaços, preparando o ambiente para a vinda do Reino de Maria.
É chegado a hora em que, após o Varão da Destra de Nossa Senhora ter subido aos céus, com o seu holocausto  como que “comprou” de Deus um mais poderoso auxílio angélico para os bons que combatiam: “Entretanto, os bons puseram-se a trabalhar com uma atividade incrível.”.  Inicialmente meio moles, por causa de certos “provectos”, mas depois aguerridos por causa da presença de “muitos jovens fortes e vigorosos”. Na descrição a seguir há uma referência a um movimento dentro da Igreja para a restauração de tudo: “Vieram homens muito velhos, impotentes, esquecidos, depois muitos jovens fortes e vigorosos, mulheres e crianças, eclesiásticos e seculares; e o edifício foi logo inteiramente restaurado”.  
Depois de tudo isto, o Reino de Maria: “Vi tudo se renovar e uma igreja que se erguia até o céu”. Em outra visão: “Vi uma imagem desse tempo distante que não posso descrever. Mas vi sobre a terra a noite se retirar e a luz e o amor retomarem uma nova vida. Tive nessa ocasião visões de toda espécie sobre o renascimento das Ordens religiosas. O tempo do Anticristo não está tão próximo como alguns crêem. Haverá ainda precursores, e vi em duas cidades doutores de escola dos quais poderiam sair esses precursores”.
No Reino de Maria os conspiradores anticristãos continuarão atuando: “Os homens de avental branco continuaram a trabalhar, mas sem ruído e com grande circunspecção. Eles estão temerosos e têm sempre o olho à espreita”.
Não há como negar que a Bem-Aventurada Anna Catharina Emmerich foi vítima expiatória, isto foi proclamado por ocasião de sua beatificação. E, como tal, vítima expiatória exorcística, pois pelo seu holocausto (junto aos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo) diversos demônios encarregados da conjuração anticristã entre os homens foram exorcizados.  Não se sabe se, ao voltarem todos para o inferno lá ainda permanecem, pois tais são os pecados dos homens que muitos deles podem ter voltado ou ainda ter permanecido em algum lugar na terra.





[1] Foi eleito sucessor de Pio VII em 28 de julho de 1823. Na sua política externa procedeu às negociações de diversas concordatas, vantajosas para o papado.. Condenou as sociadades bíblicas (de tendências protestantes) e reorganizou o sistema educacional. Era fortemente opositor da Carbonária e da Maçonaria..