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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

PORTUGAL E ESPANHA TRAZIAM MAIS RIQUEZAS PARA AS COLÔNIAS DO QUE DAQUI AS LEVAVAM

 


Há algumas calúnias pregadas contra nossos colonizadores, dentre as quais a de que aqui vieram roubar nossas riquezas e de que mandavam pra cá somente bandidos e fugitivos da justiça.

Para desmentir parte desta calúnia nada mais do que um texto insuspeito, escrito por um holandês que participou da invasão da Bahia em 1624, portanto, protestante, herege e inimigo dos católicos. 

O “Relato da Conquista da Cidade do Salvador enviado para a Holanda” foi escrito por Johann Gregor Altenburg em 1628, portanto, logo depois da invasão holandesa. Dele extraímos o tópico abaixo, muito ilustrativo da riqueza que havia em Salvador na época, a qual não foi produzida aqui mas toda trazida de Portugal e Espanha (na época o Brasil estava sob domínio espanhol), fazendo de nossa capital, juntamente com Quito, uma das cidades mais ricas das Américas.  Lembremos que aqui não havia nem ouro nem prata. O ouro só foi descoberto no século XVIII e a prata muito tempo depois, e pouca. 

Eis o excerto:

“NO DIA 11 DE MAIO, RETIRARAM-SE DE TODAS AS IGREJAS E CONVENTOS, AS IMAGENS, NA SUA GRANDE MAIORIA DE PRATA, ENTRE AS QUAIS, DOZE APÓSTOLOS, UMA IMAGEM DE MARIA E OUTROS PERTENCES, QUE TOMOU O ALMIRANTE WILLEKENS SOB SUA GUARDA. AFORA ISSO, ABRIU-SE MÃO DE TODOS OS CONVENTOS E DOS BENS ECLESIÁSTICOS, NOS QUAIS SE FIZERAM IMPORTANTES E MAGNÍFICAS PRESAS, ESPECIALMENTE NO COLÉGIO DOS JESUÍTAS, ONDE FORAM ACHADOS, EM QUARENTA QUARTOS, RIQUÍSSIMOS E VARIADOS UTENSÍLIOS, OBJETOS PRECIOSOS FABRICADOS DE PRATA E OURO, DE SORTE QUE MUITO CAPITÃO,  EM UMA HORA, ARRECADOU 5 A 6.000 FLORINS; TAMBÉM SE FARTARAM OS SOLDADOS RASOS, ARREBANHANDO-SE E COBRINDO-SE DE VELUDOS, SEDAS, PRATA, OURO, COMO GRANDES OFICIAIS. NÃO QUIS, TODAVIA, CONSENTIR O ALMIRANTE NO SAQUE DAS CASAS DOS MORADORES. O QUE, DIFICILMENTE, PÔDE SER EVITADO”.

Em outra parte do mesmo documento o Autor informa que daqui saíram sete navios carregados de riqueza para a Holanda, tudo saqueado dos conventos, das igrejas e da população. Era grande o acervo cultural que portugueses e espanhóis haviam trazido para a colônia. O autor não diz o que foi feito dessas imagens, devem ter sido levadas para a Holanda e transformadas em artefatos para uso pessoal, vendidas ou colocadas em museus, não se sabe. Sedas, veludos e objetos de prato serviram para enriquecer mais ainda suas casas, a maioria já cheia dos saques piratas que faziam em suas guerras de conquista.

(“Relação da Conquista e Perda da Cidade do Salvador pelos Holandeses em 1624-1625 “ – vol. I – Johann Gregor Aldenburgk –Edição da !Brasiliensia Documenta” , págs. 239/240)

Veja nossas postagens anteriores sobre a invasão holandesa no Brasil:

VALENTE RESISTÊNCIA DAS MULHERES AOS INVASORES HOLANDESES

https://quodlibeta.blogspot.com/2016/10/valente-resistencia-das-mulheres.html

QUARTO CENTENÁRIO DA INVASÃO E EXPULSÃO DOS HOLANDESES 

https://quodlibeta.blogspot.com/2025/04/quarto-centenario-da-invasao-e-expulsao.html



sábado, 26 de junho de 2021

MEM DE SÁ, GRANDE HERÓI DO BRASIL

 




 

 

a)    a) A Contra-Reforma no Brasil ou a Contra-Revolução possível

 Após atribulada viagem de oito meses, finalmente Mem de Sá chegou ao Brasil em fins de 1557. Irmão do piedoso e conhecido poeta Francisco Sá de Miranda, era ele detentor de grande prestígio e conceito na corte, exercendo o cargo de desembargador, fidalgo da Casa e do Conselho do Rei. Católico fervoroso, a primeira coisa que fez ao desembarcar na Bahia foi ter com os jesuítas, indo “recolher-se em um cubículo dos religiosos da Companhia de Jesus, e tomar aí por oito dias os exercícios espirituais de nosso santo patriarca Inácio, à instrução do Padre Manuel da Nóbrega, consultando com Deus, e com seu instrutor (que conhecia por zeloso, e santo) os meios mais suaves, com que poderia conseguir o intento Del-rei seu senhor, e o seu, que era o maior bem do estado, e conversão dos índios; e para todas as ações que depois obrou, ficou animadíssimo, começando em primeiro lugar por sua pessoa, com vida exemplar, que uniformemente continuou até expirar”[1]

O espírito católico de Mem de Sá foi, assim, aperfeiçoado e requintado com os exercícios espirituais inacianos. Daí para frente os cronistas registram uma contínua procura de perfeição e prática da bondade. Como se comportava o novo Governador em sua vida de piedade?  O Padre Simão de Vasconcelos nos diz:

“Rezava o ofício divino todos os dias; infalivelmente vinha ouvir missa ante manhã ao nosso colégio; confessava, e comungava todos os sábados, por dias mais desocupados para ele que os domingos. Era contínuo em assistir às pregações, e dava aos pregadores pias advertências. Era brando, e benigno para com todos, e tão inclinado à virtude que a não ser a obrigação de seu cargo, escolhera de boa vontade (como ele dizia) ser um dos particulares obreiros e missionários da companhia; mas se não na profissão o não foi, parecia-o no trato familiar, e respeito que tinha aos nossos, especialmente ao Padre Manuel da Nóbrega, a quem consultava em tudo, e sem cujo conselho nada obrava”.[2]

 

Situação encontrada por Mem de Sá

Vinha o nobre português já sabendo que aqui não encontraria comodidades, mas um trabalho árduo e martirizante. 

Num esboço biográfico de Mem de Sá, São José de Anchieta assim se refere ao estado das coisas no Brasil quando da chegada do grande governador:

“Envolta, há séculos, no horror da escuridão idolátrica, houve nas terras do Sul uma nação, que dobrava a cabeça ao jugo do tirano infernal, e levava uma vida vazia de luz divina. Imersa na mais triste miséria, soberba, desenfreada, cruel, atroz, sanguinária, mestre em trespassar a vítima com a seta ligeira, mais feroz que o tigre, mais voraz que o lobo, mais assanhada que o lebréu, mais audaz que o leão, saciava o ávido ventre com carnes humanas. Por muito tempo tramou emboscadas: seguia, no seu viver de feras, o exemplo do rei dos infernos, que por primeiro trouxe a morte ao mundo, enganando nossos primeiros pais. Dilacerava o corpo de muitos com atrozes tormentos, e, embriagado de furor e soberba ia enlutando os povos cristãos com mortes freqüentes”[3]  

Mais adiante, na mesma obra, São José de Anchieta completa a descrição do  estado bárbaro e desumano dos nossos índios:

“(...) O bárbaro expandindo sua ira quebrantava as leis da natureza e os divinos preceitos do Pai onipotente cevando as queixadas bestiais em corpos humanos! Essa raça selvagem, sem a menor lei, perpetrava crimes horrendos contra os mandados divinos, proferindo impunemente ameaças contínuas e altivos discursos. Então com arrogância o índio sanhudo olhava para os cristãos, e estes, entrincheirados detrás de seus muros, tremiam de pavor vergonhoso: como quando lobos vorazes, que a fome impiedosa açula e avassala, rangendo os dentes, cobiçam, à ronda do aprisco, espostejar os tenros cordeiros e extinguir a sede ardente no sangue que sugam; lá dentro as ovelhas estremecem e fremem com medo das feras que rondam fora, mal confiadas no aprisco”[4]

Para piorar, havia ainda a triste situação de alguns clérigos corrompidos,  que estimulavam este estado de coisas em vez de combatê-lo. Tornava-se necessário fazer algo para pôr fim a tudo isso. Os padres da Companhia de Jesus, sozinhos, ainda pouquíssimos e divididos ao longo de terras tão extensas, necessitavam de um apoio maior par seu trabalho. Era necessário que surgisse um herói, um santo de grande quilate para dar início a este trabalho de suporte das missões jesuíticas. Quem seria este herói?

Mem de Sá:

“Mas um dia o Pai onipotente volveu os olhares do reino da luz à noite das regiões brasileiras, às terras que suavam, aos borbotões, sangue humano. Então mandou-lhes um herói das plagas do Norte, um herói que vingasse os crimes nefandos, que banisse as discórdias, freasse o assassínio, bárbaro e contínuo, acabasse com as guerras horrendas, abrandasse os peitos ferozes e não sofresse impassível cevar-se em sangue de irmão queixadas humanas...”[5]

 

Apoio governamental aos jesuítas

Pode-se dizer que, de algum modo, houve uma ação típica da Contra-Reforma no Brasil. Os princípios renascentistas, com mistos de luteranismo e calvinismo, infestavam as ordens religiosas, a maioria em franca decadência com a frouxidão dos costumes e de suas regras.  Isto não se dava, porém, com a Companhia de Jesus, onde a ortodoxia, a fidelidade à Igreja, o fiel cumprimento de suas regras, mantinham seus membros em franca oposição aos avanços revolucionários.  Era necessário, porém, o apoio governamental para que a ação dos padres jesuítas obtivesse êxito. Deveria haver uma ação combinada para operar a conversão dos índios e a transformação do Brasil num país cristão.

Em fins do ano seguinte à chegada de Mem de Sá, a Rainha manda uma carta aos vereadores e procuradores da cidade de Salvador, onde expressa o seu empenho em que os padres da Companhia de Jesus sejam ajudados em seu apostolado, exigindo dos portugueses que tratem bem dos índios:

“(...) aos gentios que se fizerem cristãos tratem bem; e não os avexeis; nem lhes tomeis suas terras; porque, além disto assim ser razão e justiça, receberei muito contentamento em o assim fazerdes, pelo exemplo que os outros gentios receberão. Agradecer-vos-ei  muito terdes destas coisas muita lembrança e em efetuardes como confio; porque do contrário poderá deixar de me desaprazer muito”[6]

 

O jugo da lei predispôs os indígenas às graças divinas

Era opinião desposada pelos jesuítas, como consta no “Diálogo Sobre a Conversão dos Gentios” do Padre Manuel da Nóbrega, de que era urgente impor aos índios o jugo da Lei, pois somente assim ficariam dóceis à atividade missionária dos padres. E quem poderia fazê-lo senão o Governador?  Era uma exigência primordial de amparo ao trabalho apostólico dos missionários jesuítas. E foi assim que Mem de Sá, “de início, para poder jungir esses rudes selvagens ao jugo da lei e moldá-los pela doutrina de Cristo, ordena que deixados recôncavos, campos, florestas, acorram de todas as partes a um mesmo local e aí construam suas casas, ergam novas aldeias e comecem a deixar os antigos costumes de feras; não vagueiem daqui e dali, como tigres, pelos cerrados”[7]

Mem de Sá começa por acabar com o nomadismo dos índios, ordenando que viessem morar em aldeias fixas. Somente a partir daí se poderia aplicar as leis. Tal medida era necessária e urgente. Outros padres jesuítas afirmam a mesma coisa. O Padre Francisco Pires, por exemplo:

“(...) porque entrando a justiça com eles com a espada nua e campal guerra, por boa indústria do Sr. Mem de Sá, Governador, ficam de paz, e como a têm corporalmente nós trabalhamos de a dar espiritualmente e por este meio se há feito tanto fruto, quanto Vossa Reverendíssima poderá lá entender por carta, de maneira que as dificuldades que eu para sua virtude achava se diminuem e os meios se executam e homem recolhe o que há tantos tempos com trabalhos e lágrimas derramou...”[8]

Como conseqüência, os índios começaram a acorrer para serem doutrinados de forma mais ordenada, sem os perigos da dispersão e do nomadismo, afirmando o Padre Pires que “agora posso com razão escrever que são ligeiros para irem acorrer à igreja, e se suas gargantas eram “sepulchrum patens” para matarem e comerem vivos, agora estão abertas para louvarem a Cristo...”[9]

Da mesma forma, o padre Ruy Pereira escrevia: “(...) ajudou grandemente a esta conversão cair o senhor Governador na conta, e assentar que sem temor não se podia fazer tudo...  ...ordenou que houvesse em cada povoação destas um dos mesmos índios, que tivesse carrego de  prender em um tronco os que fizessem cousa que pudessem estorvar a conversão...  ...E hão tanto medo a estes troncos, que, depois de Deus, são eles causa de andarem no caminho e costumes que lhes pomos...”[10]

Outro jesuíta, o Padre Antonio Pires, afirma que os próprios índios pedem para a disseminação destes “troncos”, espécie de meirinhos, “para terem cuidado de prenderem os ruins”.   O Padre Braz Lourenço conta um caso em que uma índia cristã cometera adultério, tendo o adúltero sido condenado a perder suas roupas para o marido daquela com quem havia adulterado e ser metido num tronco, “de modo que ficaram tão atemorizados os outros, que não se achou dali por diante fazerem outro adultério; mas se algum peca logo é acusado ao Padre, o qual manda que o castiguem”.[11]

 

b) Inicia-se a verdadeira conversão dos índios

 

Antes da chegada de Mem de Sá e a aplicação de tais métodos, alguns índios se convertiam, é verdade, eram batizados e prometiam mudar de vida. Mas não perseveravam, mudavam de propósito rapidamente, influenciados, principalmente, pelos feiticeiros que viviam arredios. Num dia convertiam-se mil e já no outro dia os mesmos mil fugiam para outro local em seu nomadismo e recomeçavam sua antiga vida pagã. A intervenção do Governador Mem de Sá foi verdadeiramente milagrosa, segundo São José de Anchieta:

“Foi por vosso ministério que tão grandes milagres se realizaram. Vós, mais velozes que os ventos, a nossas plagas trazeis em revoadas contínuas as paternas disposições da Providência divina.  Dizei vós as leis e a ordem que o ilustre e piedoso governador implantou entre povos tão feros, para afinal ser honrado nestas paragens incultas o nome vitorioso, forte e imortal de Jesus!”[12]

Assim, foi o Governador Mem de Sá que solidificou a cristianização de nossos selvagens.  Os jesuítas são unânimes em afirmar que o Governador, com seu zelo por Cristo Nosso Senhor, castigava os delinqüentes com muita prudência e temperança, de forma que o castigo edificasse e não destruísse a obra da catequese. Isto também serviu para solidificar a amizade dos índios com os padres e os bons cristãos, levando-os a abandonar com gosto seus antigos costumes bárbaros por outros cristãos.

Os primeiros aldeamentos feitos na forma determinada por Mem de Sá, isto é, em lugares fixos, foram fundados na Bahia a partir de 1558, com as aldeias já com denominações cristãs: São Paulo, São João, Espírito Santo e Santiago. Em Piratininga havia apenas a de São Paulo, fundada 4 anos antes por São José de Anchieta.

 

Temor e sujeição: condição para civilizar o índio

O Padre Manuel da Nóbrega foi um dos propugnadores da tese de que somente através do temor e sujeição poder-se-ia civilizar duravelmente os nossos índios. Os princípios estão enunciados na seguinte carta, dirigida ao Rei de Portugal:

“Depois que o Brasil é descoberto e povoado, têm os gentios mortos e comidos grande número de cristãos e tomadas muitas naus e navios e muita fazenda. E trabalhando os cristãos por dissimular estas coisas, tratando com eles e dando-lhes os resgates, com que eles folgam, e têm necessidade, nem por isso puderam fazer deles bons amigos, não deixando de matar e comer, como e quando puderam. E se disserem que os cristãos os salteavam e tratavam mal, alguns o fizeram assim, e outros pagariam o dano que estes fizeram, porém a outros, a quem os cristãos nunca fizeram mal, os gentios os tomaram e comeram e fizeram despovoar muitos lugares e fazendas grossas; e são tão cruéis e bestiais, que assim matam aos que nunca lhes fizeram mal, clérigos, frades, mulheres de tal parecer, que os brutos animais se contentariam delas e lhes não fariam mal. Mas são estes tão carniceiros de corpos humanos que, sem exceção de pessoas, a todos matam e comem e nenhum benefício os inclina nem abstém de seus maus costumes, antes parece, e se vê por experiência, que se ensoberbecem e fazem piores com afagos e bom tratamento. A prova disto é que estes da Bahia, sendo bem tratados e doutrinados, com isso se fizeram piores, vendo que se não castigavam os maus e culpados nas mortes passadas; e com a severidade e castigo se humilham e sujeitam.

“Depois que Sua Alteza mandou Governadores e justiça a esta terra, não houve saltearem os gentios nem tomarem-lhes o seu, como antes, e nem por isso deixarem eles de tomar muitos navios e matarem e comerem muitos cristãos, de maneira que lhes convém viver em povoações fortes e com muito resguardo e armas, e não ousam de se estender e espalhar pela terra, para fazerem fazendas, criação e viver pela terra dentro, que é larga e boa, em que poderiam viver abastadamente, se o gentio fosse senhoreado ou despejado, como poderia ser com pouco trabalho e gasto, e teriam vida espiritual, conhecendo o seu Criador, e vassalagem a S. A., e obediência aos cristãos, e todos viverem melhor e abastados e S. A. teria grossas rendas nestas terras.

“Este gentio é de qualidade que não se quer por bem se não por temor e sujeição, como se tem experimentado, e por isso, se S. A. os quer ver todos convertidos, mande os sujeitar e deve fazer estender os cristãos pela terra adentro e repartir-lhes os serviços dos índios àqueles que os ajudarem a conquistar e senhorear como se faz em outras partes de terras novas, e não sei como sofre a geração portuguesa, que entre todas as nações é a mais temida e obedecida, estar por toda esta costa sofrendo e quase sujeitando-se ao mais vil e triste gentio do mundo” [13]

 

Apoio da nobreza da terra, então emergente

Mas, se os jesuítas e Mem de Sá procuravam criar condições para converter e civilizar os índios, era necessário que obtivessem o apoio da chamada “nobreza da terra”, a pequena elite emergente que se mudara de Portugal para o Brasil mas já se dizia da terra. Muitos deles vieram cheios de erros liberais e só pensavam em si mesmos, tomados pelo espírito da burguesa mercantilista. Alguns desejavam que os jesuítas cuidassem somente dos cristãos portugueses, mantendo os índios em suas aldeias, separados e pagãos, muitos até mantidos impunemente como escravos ou expulsos para o interior. Assim ficariam longe de encarar o problema que teriam por obrigação cristã de enfrentar: a catequese e cristianização daquele povo.  No entanto, a ação apostólica dos jesuítas visou também mudar tais homens, combatendo seus erros. A ação do Governador foi vital para este fim.  O Padre Leonardo do Vale refere que tanto o Governador quanto o Ouvidor Geral eram pessoas de boa consciência e diligenciaram para demonstrar o erro em que estavam incorrendo alguns portugueses que aqui moravam.

Dentro de algum tempo formou-se um pugilo de homens que rejeitavam aquelas concepções liberais e renascentistas, adotando a concepção católica esposada pelos jesuítas. Dentre eles destacam-se, além do próprio Mem de Sá, seu filho Fernão de Sá (que morreu em combate contra os índios), Estácio de Sá, Simão da Gama de Andrade, etc. Este último havia sido comandante do Galeão São João Batista, capitânia da pequena armada de 1550 em que viera a segunda missão jesuítica, preferindo então ficar morando no Brasil. Recebeu terras em 1552, prosperou e foram, tanto ele como sua melhor D. Leonor Sales, muito elogiados pelos jesuítas que referem-nos em suas cartas ora como padrinho dos índios, ora como benfeitor nas suas festas. Foi ele que ajuntou os índios numa Vila que deu o nome de Nossa Senhora da Vitória. Era uma invocação recente, a mesma da batalha de Lepanto havida 21 anos depois, mas escolhida pelos portugueses sempre que venciam batalhas memoráveis. E, no caso, o nome foi escolhido porque os portugueses venceram grande batalha contra os índios na Bahia. Hoje, o nome de Vitória continua na Bahia, tratando-se de um bairro de tradição em Salvador.

O padre Antonio Blásquez comenta como Simão da Gama promovia as festividades daquele tempo:

“(..) Tomou o assunto de fazer esta festa o Sr. Simão da Gama, como outras vezes o tem feito em alguns batismos solenes, porque posto que quanto ao mundo tenha muita possibilidade e aparelho, acrescenta-se a isto ser ele mui devoto e afeiçoado à Companhia; assim, pois, chegando o tempo, partiu de sua casa com a mulher e filhos e entrou por esta povoação de S. Iago com um tambor e bandeira e com grande alboroto e prazer, após ele iam tanto os romeiros que vinham, e tanto assim o estrondo dos que caminhavam por terra como os que chegavam por mar, que era espanto vê-los”[14]

O capitão-mor do Espírito Santo, Belchior de Azevedo, foi um exemplo de como tais homens estavam empenhados em jugular os índios ainda bárbaros: acompanhou Estácio de Sá em 1564, quando tiveram de travar vários combates contra os tamoios e franceses, realizando proezas heróicas juntamente com o chefe índio cristão Martim Afonso. Numa destas proezas o capitão-mor, com apenas 8 canoas, deu combate a vinte dos inimigos, aprisionando duas. Um jesuíta escreveu:

“O Capitão a que chamam Belchior de Azevedo, pessoa mui nobre e para este ofício mui suficiente, assim por sua virtude e saber como por ter ele ânimo para sujeitar estes índios e resistir aos grandes combates dos Franceses, é muito nosso devoto e ajuda e favorece em todas as coisas tocante à conversão dos Gentios e em tudo o de mais que cumpre a serviço de Nosso Senhor...  ...e é muito nosso familiar, e nos manda comumente ajudar com suas esmolas”.[15]

 

c) Espírito católico do Governador Mem de Sá

 

Esta plêiade insigne de homens tinha o Governador como exemplo maior de virtudes, de espírito cristão, de catolicidade. Mem de Sá era não só o administrador político da terra, mas o amansador dos índios, o guerreiro, o católico praticante e amigo dos padres, o padrinho dos neófitos e dos noivos, distribuindo justiça e bondade a todos. Consumiu sua vida toda no Brasil, onde veio a falecer. Numa só cerimônia de batismo, Mem de Sá foi padrinho de 84 crianças, o que fazia sempre com alegria e acolhimento dos pequeninos.

Certa ocasião instaram e escreveram à Rainha pedindo que fossem enviadas mulheres virtuosas para ajudar a doutrinar as meninas. Prontamente secundou o pedido o Governador, escrevendo também à Rainha neste sentido; assim fez, segundo informa o padre Antonio Blásquez, “por zelo do Governador, que no negócio da conversão nos ajuda com todas as suas forças, e se nestes dois anos se tem muito frutificado “in vinea Domini”, depois do Favor Divino, tem sido pelo cuidado e indústria que ele pôs neste negócio.” [16]

O Padre Francisco Pires também o elogia merecidamente ao afirmar:

“É o mais solícito Capitão que eu vi; parece que toda a sua vida o usou; sua humildade e constância e paciência me têm atônito, porque a dois ou três homens a quem repreendeu com aspereza lhe vi pedir-lhe perdão com o barrete na mão. Sofre muitas coisas, “et  cum spiritu lenitatis” leva tudo e mostrando muita perfeição, em suas palavras e obras com muita paciência. Mandou-me que de sua mesa desse o que me parecesse aos índios principais que ao derredor estão, e de sua despensa tomasse tudo o que quisesse aos pobres, e assim o faço com muita edificação de todos. Toda a sua boca é cheia de contentar a todos, e tudo o que faz parece proceder de mui reta intenção e assim o diz estes senhores Capitães, que lhes quer descanso”.

Esta religiosidade, este amor à Causa Católica, vinha de uma profunda humildade e amor a Deus. Assim o refere o padre Ruy Pereira:

“E isto depois de Deus deve-se ao Senhor Governador e à sua prudência e zelo, porque ainda que ele professara a vida da Companhia, não sei que mais pudera fazer na conversão, e tanto fazia que, por nos acreditar com os índios, de um certo modo se desacreditava a si, dizendo aos que deles lhe vinha falar sobre cousas que tocavam a conversão, que os Padres eram os que faziam essas cousas, que com eles fossem tratar, e o que eles determinassem isso seguissem; e fazendo um índio principal uma cousa que merecia castigo, e pedindo-lhe disso perdão, ele o mandou por dois seus escravos trazer à nossa casa, dizendo-lhe que ele lá se aviesse com os Padres, que se deles alcançasse o perdão ele também lhe perdoaria; e assim veio o índio com muita humildade a pedir perdão de joelhos, e o alcançou.”[17]

 

Herói abnegado, desprendido de tudo, com aspecto patriarcal

A História registra o Governo de Mem de Sá como um dos mais profícuos para o Brasil em formação.  Qualidades de guerreiro e de bom administrador são reconhecidas pelos historiadores, mas faltou reconhecer-lhe as qualidades de herói abnegado, desprendido de tudo. Em carta dirigida ao reino em 1560 pede que lhe mandem de volta para Portugal, dizendo que não era o homem ideal para o Brasil. Eis suas razões:

“Eu nela gasto muito mais do que tenho de ordenado: o que me pagam é em mercadorias, que me não servem. Eu fui sempre ter guerra e trabalhos onde hei de dar de comer aos homens, que vão pelejar e morrer, sem soldo, sem mantimentos, porque o não há para lho dar. Sou velho, tenho filhos que andam desagasalhados...”[18]

Seu pedido não obteve aprovação do Rei, terminando seus dias no Brasil, onde faleceram também seus filhos e esposa. Um de seus filhos morreu lutando contra os selvagens. Como recompensa resta-lhe apenas a homenagem dos seus pôsteres através de um relicário colocado na Catedral da Sé em Salvador, onde repousam seus restos mortais.

São José de Anchieta descreve que tipo de herói era ele:

“Eis que, liberta dos perigos do mar e de há muito esperada, uma esquadra fundeia na baía a que todos os Santos legaram nome. Trazia, salvo das fauces do oceano, um singular herói, de extraordinária coragem, Mem, que do sangue de nobres antepassados e de seiva ilustre de longa ascendência herdara o sobrenome de Sá. Superiores aos anos, ornam-lhe o rosto barbas brancas e majestosas: alegres as feições, sombreadas de senil gravidade, vivos os olhos, másculo o arcabouço do corpo, frescas ainda, como de moço, as forças de adulto. Muito mais excelente é a alma:  pois lha poliram vasta ciência, com a experiência longa do mundo, e a arte da palavra bela. Arraigado no seio traz um amor de Deus, santo, filial, verdadeiro e a fé de Cristo jamais desmentida. No peito, incendiado pelo sopro divino, ferve-lhe o zelo de arrancar as almas brasílicas às cadeias do inferno”. [19]

 

Fernão de Sá

O filho de Mem de Sá, Fernão de Sá, foi para a guerra ainda jovem, com dezesseis anos. São José de Anchieta conta como o jovem morreu mártir na guerra contra os índios:

“O herói, em vão magnânimo, ao ver que os companheiros levaram para longe os barcos e que a turba inimiga, em linha de batalha e entre gritos de guerra, começa a apertá-los e, brada: “Para onde corremos, colegas? Já não nos resta esperança alguma! O inimigo nos cerca de toda a parte, de toda a parte o oceano! A terra nos falta! Buscaremos a armada, cortando com o peito as ondas? Para onde dirigir-nos no aperto presente? Pois, rompamos à ponta da espada estas hordas! Paira sobre nós a morte? – que paire! Oh! Que belo deixar por Deus as vidas caras na arena sangrenta e comprar com esse sangue a vida de muitos!” Disse, e logo (pois já o ataque dos índios não dava lugar a demora), à invocação do nome de Cristo, com os colegas se arroja contra os selvagens, postado a arrastar na própria morte os corpos de mil inimigos e a rasgar com o punhal reluzente mil feridas sangrentas. Os inimigos se apinham ao redor e o carregam com gritos de terror e com flechas:  não lhe dá a hora descanso, como caçadores à volta do leão que freme asseteado:  ele a raivar ruge horrendamente e feroz ameaça com o olhar torvo, ora este, ora aquele, impertérrito rasga com a boca em sangue os corpos que alcança: Eles o apartam, fincam-lhe lanças nas costas, nos flancos á porfia, até que todo roto de feridas sucumbe e a terra treme ao baque dos membros robustos.  Assim o enxame dos inimigos em cerco cerrado estreitou o jovem: esse o fere com a clava, aquele com setas e vão se multiplicando os esforços. Em algazarra se arrojam sobre ele. Sem tréguas, apertam-no daqui e dali, insaciáveis. Redobram os golpes: as flechas lançadas de todos os lados já o cobrem todo, as armas tinem, rompe-se a malha de couraça, já não resiste a tantos golpes o escudo. Copioso suor lhe inunda o corpo e por completo o abandonam as forças:  a sede lhe queima a garganta e o pobre exala pelos pulmões a alma ofegante. Já tem o herói o rijo peito crivado de inúmeras setas, o sangue o cobre todo e lhe empana a beleza dos membros. A praia treme á sua queda. Tombando os olhos moribundos se cravaram na altura e a alma invencível se evolou às plagas celestes”[20]

 

A própria autoridade inspira a prática de virtudes cristãs

Uma virtude é uma força, mas não uma força qualquer, pois é proveniente do caráter fortalecido ao longo de muitos anos ou de uma ação milagrosa momentânea. Trata-se de uma forma moral adquirida da prática contínua de atos em busca de uma perfeição.  Mas tal só se obtém somando-se e apoiando-se uma virtude à outra;  dificilmente uma virtude cresce sozinha. Por exemplo, é necessário perseverança, quer dizer, procurar enraizar o hábito da prática daquela virtude através de sua prática constante e sem desfalecimento, diariamente, momento a momento, de maneira que os embates contra ela sirvam mais para fortalecê-la do que diminuí-la. Como, pois, um indígena que antes era bárbaro, impuro, orgulhoso, repentinamente poderia ficar manso, casto e humilde? Coadjuvados uns pelos outros e pelos Padres, aos poucos eles foram crescendo em virtudes cristãs, a bondade autêntica aspirada pela alma humana. Mas, pouco se obteria de sucesso sem que houvesse uma autoridade que coadjuvasse a todos nestas práticas.

O Padre Antonio Pires narra um episódio que demonstra esta mudança inclusive entre aqueles que ainda não eram cristãos, ou que não o eram inteiramente por ainda praticar alguns costumes bárbaros:

“Logo nesta conjunção sucedeu que outro Negro[21], o mais soberbo desta terra, em cuja aldeia entendemos, em tempo do governador D. Duarte da Costa, fazer casas para os doutrinar, e como ele vivia em tanta liberdade que parecia não temer a ninguém, não desprezou e não quis que fizessem lá casa;  antes, medindo os tempos todos por uma medida, também agora desprezou as leis que já disse, e comeu carne humana com todos os seus em grandes festas.   Ao qual o Governador [Mem de Sá] mandou chamar, ficando assentado que se não viesse, o mandaria logo prender, o qual, conhecendo a sujeição veio logo, tendo para si que em chegando o haviam de matar, como o língua o foi chamar e contou; e antes que se partisse dos seus, lhes fez uma fala aconselhando-lhes que trabalhassem de ser bons e não curassem de ir dali, porque ele pagaria por todos. Sucedeu a cousa que, vindo o Negro à casa do Governador, foi mal recebido dele, e o Negro se lhe lançou aos pés e lh’os beijou e pediu perdão, oferecendo-se logo a que fossem lá os Padres porque estavam aparelhados para fazer tudo o que lhe mandassem;  tudo isso com tais sinais de contrição que mereceu perdoar-lhes isto. Veio logo outro Principal a fazer o mesmo. Estes são os frutos que o Senhor vai colhendo...”[22] O selvagem, neste caso, agiu mais por temor, mas mesmo assim abriu um precedente para a prática da humildade que foi logo seguido por outros. Em anos anteriores ele não teria atendido ao Governador e o teria enfrentado numa guerra. Mas Mem de Sá já tinha superado tal situação: todo chefe índio que desafiasse sua lei e comesse carne humana em seus rituais de antropofagia era chamado e metido na prisão. Os índios temiam mais uma prisão do que a própria morte.

 

Biografia resumida de Mem de Sá

“Mem de Sá (1498-1572) foi o terceiro governador geral do Brasil. Em sua administração, os franceses foram expulsos da Guanabara, foi fundada a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e foram formadas as primeiras missões com objetivo de catequizar os índios. Foi também, assinada pela Regente D. Catarina, viúva de D. João III, a Carta Régia de 29 de março de 1559, autorizando os senhores de engenho a mandarem vir da África até 120 escravos para cada propriedade.

Mem de Sá (1498-1572) nasceu em Coimbra, Portugal, provavelmente em 1498. Formado em Direito, foi desembargador, corregedor e nas horas vagas fazia versos. Era irmão do poeta Sá de Miranda. Em 1556, D. João III o nomeia governador geral do Brasil. Até então o que o ligava a colônia portuguesa, era uma sesmaria na Capitania de Ilhéus, que lhe fora doada em 1537, mas que ele jamais visitara.

No dia 10 de novembro de 1556, no Brasil, o comandante francês, Villegaignon desembarcava onde seria o Rio de Janeiro, com seiscentos homens. Conquistaram os índios e construíram o forte Coligny. Projetaram a fundação da França Antártica. Duarte da Costa, o segundo governador geral, não conseguira evitar essa invasão.

Mem de Sá chegou a Salvador no dia 28 de dezembro de 1557. Assumiu o governo em 3 de janeiro de 1558. Era preciso expulsar os franceses e conseguir que os índios deixassem de lutar entre si ou contra os portugueses. Combater a antropofagia era também um problema difícil. Nesse mesmo ano, a pedido do Donatário Vasco Fernandes Coutinho, Mem de Sá organiza uma expedição contra os índios do Espírito Santo. Nas lutas morre seu filho Fernão de Sá.

O apaziguamento dos índios foi resolvido em boa parte com o auxilio dos Jesuítas e com a formação das missões, que chegaram a abrigar 5 mil pessoas. Ao mesmo tempo, que os índios aprendiam os costumes cristãos, os padres conheciam a língua e os hábitos indígenas. A Companhia de Jesus passa a receber subvenção oficial.

Em 29 de março de 1559, é assinada pela Regente D. Catarina, viúva de D. João III, a Carta Régia, permitindo a importação de 120 escravos africanos, para cada senhor de engenho, permitindo criar uma agricultura de exportação. No fim do século o Brasil dominava o mercado mundial do açúcar.

Em 1560 as forças de Mem de Sá atacam e destroem a fortificação dos franceses que ainda permanecem na Guanabara. Em 1563, Estácio de Sá, sobrinho do governador geral, chega à Bahia, trazendo reforços de Portugal, para um novo ataque aos franceses. No dia 1 de março de 1565, Estácio de Sá inicia a construção da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Em 1567, ferido na batalha decisiva que expulsou os franceses, Estácio de Sá morre, no dia 20 de janeiro.

Em 1568, Mem de Sá pede a nomeação de outro governador geral para substituí-lo. Em 1570, Luís de Vasconcelos é nomeado, mas não chega a tomar posse, morre no naufrágio do navio que o conduzia à Bahia.

Mem de Sá faleceu em Salvador, Bahia, no dia 12 de março de 1572”

Fonte:

https://www.ebiografia.com/mem_de_sa/

 



[1] “Crônica da Companhia de Jesus” – Pe. Simão de Vasconcelos - Editora Vozes, vol 1, págs. 33/34

[2] op. cit. pág. 34

[3] “De Gesti Mendi de Saa” – Pe. Joseph de Anchieta, SJ – Edições Loyola, 1986, pág. 93

[4] op. cit. pág. 127

[5] op. cit. pág. 93

[6] “História Geral do Brasil”, Edições Melhoramentos –Francisco Adolfo de  Varnhagen, vol.1, 9ª. Edição, 1978, pág. 303

[7] “De Gssti Mendi de Saa” – Pe. Joseph de Anchieta, SJ – Edições Loyola, 1986, pág. 137

[8] ”Cartas Jesuíticas 2 – Cartas Avulsas” – Azpilcueta Navarro e outros – Ed. Itatiaia, págs. 273/274

[9] op. cit. pág. 274

[10] op.; cit. pág. 286

[11] op. cit. págs. 304 e 367

[12] “De Gesti Mendi de Saa” – Pe. Joseph de Anchieta, SJ – Edições Loyola, 1986, págs. 136/137

[13] “A Terra de Vera Cruz na Era de Quinhentos” – Eduardo Dias – BIBLIEX, págs. 123/125

[14] “Cartas Jesuíticas 2 – Cartas Avulsas” – Azpilcueta Navarro e outros – Ed. Itatiaia, pág. 449

[15] op. cit. pág. 365

[16] op. cit. pág. 255

[17] op. cit. pág. 285

[18] “História Geral do Brasil”, Edições Melhoramentos –Francisco Adolfo de  Varnhagen, vol.1, 9ª. Edição, 1978, pág. 343

[19] “De Gssti Mendi de Saa” – Pe. Joseph de Anchieta, SJ – Edições Loyola, 1986, pág. 93

[20] op. cit. págs; 115/117

[21] Negros, como eram chamados os índios por alguns dos padres jesuítas.

[22]  “Cartas Jesuíticas 2 – Cartas Avulsas” – Azpilcueta Navarro e outros – Ed. Itatiaia, pág. 226


sábado, 12 de maio de 2018

A LEI ÁUREA FOI PROMULGADA POR FORÇA DAS CONVICÇÕES CATÓLICAS DA PRINCESA ISABEL





A Margem do 13 de maio

O “Legionário” oferece, hoje, aos seus leitores um documento que dificilmente se encontra, e que, no entanto, é do maior valor para se apreciar devidamente a acentuada influência da Igreja na abolição dos escravos cujo cinqüentenário se celebrou na sexta-feira passada.
Ainda está para ser feita uma História da Igreja no Brasil. No dia em que tal se fizer, e em que for possível pôr à mostra as raízes religiosas de muitos dos principais acontecimentos históricos de nosso País, ver-se-á o quanto a História oficial se empenhou em desfigurar a verdade, para arrancar à viva força à tradição nacional aquele caráter fundamentalmente católico que é a sua mais importante característica.
O gesto da Princesa Isabel, libertando bruscamente os escravos com perigo para o trono que um dia deveria ocupar, tem sido comentado sob os mais variados aspectos. Os positivistas e congêneres se comprazem em glorificá-la como grande benfeitora da humanidade, sem cogitar dos motivos religiosos pelos quais a grande Princesa assumiu a atitude que a imortalizou.
Os republicanos, não raras vezes, elogiando embora o 13 de Maio, deixam transparecer ardilosamente que a Princesa Isabel foi conduzida a ele pelo curso inexorável dos acontecimentos, e que se prestou a fazer de bom grado em 1888 o que em 1890 ou 1895, inevitavelmente, ela teria de fazer. Os monarquistas se preocupam, freqüentemente, em pôr em relevo as vantagens da forma de governo monárquico, argumentando com as virtudes da Princesa, sem dar o devido valor, na sua apologética política, às virtudes santificadoras da Religião Católica que inspiraram na realidade o nobre ato de desinteresse com que Da. Isabel sacrificou o seu trono. E os católicos - como dói dize-lo - sejam eles monarquistas ou republicanos, se esquecem quase sempre de procurar discernir nesse acontecimento histórico, como nos demais, a influência benéfica da Igreja, que outros são perspicazes em ocultar, enquanto os filhos da luz se mostram tão indiferentes em ver e glorificar.
Se Leão XIII tivesse sido devidamente atendido, a situação religiosa e moral da raça negra no Brasil seria muito outra.
Sirvamos a causa dos negros, não por uma série de elogios ao feiticismo das macumbas, mas pelo trabalho ativo em prol de sua integração cada vez mais perfeita na santa Igreja de Deus.
A figura da Princesa Isabel tem sido mantida em um esquecimento censurável, nesse belo jubileu que há dois dias atrás comemoramos. Empenhados em comemorar o 13 de Maio, parece que muitos de nossos pró-homens só se lembraram em falar sobre superstições negras, macumbas e candomblés. Isto é, sobre um dos mais humilhantes frutos da escravidão para a raça negra. Por que, em lugar disto, não falam do belíssimo ato de piedade e de justiça cristãs que foi na realidade o 13 de Maio?
E, no entanto, a este propósito muito haveria que dizer. A Princesa Isabel tem sido mal conhecida. Na realidade, ela mostrou, na alta posição de Princesa Imperial, qualidades que fariam honra a qualquer estadista católico. Colocada, por seu sexo, em uma atitude de natural reserva que os costumes da época acentuavam imensamente; obrigada pelo caráter constitucional da monarquia então vigente (naquele tempo, o poder absoluto causava horror no Brasil) a uma linha de conduta de extrema circunspecção em todos os acontecimentos políticos; forçada ainda a muita prudência para não colidir com a autoridade de seu Pai, ainda reinante, a Princesa Isabel poderia ter encontrado fáceis desculpas perante sua consciência, para se iludir a si própria, e recusar ao Brasil e à Igreja muitos dos serviços que lhes prestou.
A Princesa, entretanto, tinha uma firmeza de caráter muito acentuada, e soube mais de uma vez, dentro dos limites ditados por sua situação, fazer valer bem alto seus direitos de católica e de herdeira do trono imperial, contrariando ao mesmo tempo o liberalismo rançoso que infestava o século XIX e certos preconceitos injustos que tendiam a retirar à mulher qualquer influência, ainda quando a Providência a tivesse feito nascer nos degraus de um trono.
Provou-o, por exemplo, a conduta modelar da Princesa por ocasião da questão religiosa. Enquanto D. Pedro II e o Ministério, de mãos dadas com a opinião regaliana e maçônica, com o liberalismo e todos os fatores de desordem do Brasil, se empenhavam em perseguir os Bispos do Recife e do Pará, a Princesa Isabel fez notar sempre sua desaprovação ao que se passava, rodeando constantemente com as maiores atenções os altos dignitários da Igreja, e dando publicamente provas tais do vigor de suas convicções católicas - naquele tempo os inimigos da Igreja diziam-se anticlericais mas afirmavam ser católicos; hoje em dia alguns deles cometem uma aberração não menor, ostentando-se anticatólicos mas escondendo que são anticlericais – e, portanto, de sua desaprovação pelo que acontecia, que a Princesa Isabel ficou assinalada pela maçonaria como vítima destinada a nunca ocupar o trono do Brasil.
Conquanto os móveis de ação da Princesa, nessa difícil emergência, tenham sido religiosos, a experiência mostrou mais tarde que ela procurou abrir para a monarquia o único caminho viável, que seria o da restauração religiosa do Brasil, única base sólida de todas as instituições humanas. Na realidade, a Princesa Isabel não agiu apenas como uma grande católica, mas ainda como uma estadista de larga envergadura.
Justifica-se, pois, nossa afirmação de que suas qualidades honrariam qualquer estadista católico.

* * *
Vejamos, agora, o 13 de Maio. Se há um gesto da Princesa Isabel em que preponderou a força das convicções religiosas, esse gesto foi o 13 de Maio. Nabuco contou, em entrevista concedida à imprensa do Rio naquela época, que foi à procura de Leão XIII, a fim de obter uma Encíclica contra a escravatura. Conhecedor profundo do coração católico da Princesa, Nabuco, que já conhecia a manifesta solidariedade que a ligava aos abolicionistas, não duvidava de que a palavra do Papa a moveria aos mais enérgicos lances para libertar a raça negra. A entrevista entre Leão XIII e Nabuco realizou-se. O relatório que dela fez Nabuco é memorável e mereceria uma longa análise. Digamos, porém, simplesmente, que o fruto da entrevista foi a resolução de Leão XIII de publicar quanto antes sua palavra de ordem a todos os católicos do Brasil. Data daí o memorável documento que hoje publicamos. Ele foi o móvel mais seguro da ação da Princesa Isabel. Encontrando nos seus sentimentos intensamente católicos e caritativos da Regente um eco profundo, as palavras do papa foram decisivas. A nobre e inteligente manobra de Nabuco fora bem sucedida. E o 13 de maio não tardou a vir.
Conta-se que quando se dirigia para a porta de saída do Palácio, na triste noite de 16 de Novembro, a princesa passou pela sala em que se encontrava a mesa na qual foi assinado o decreto de 13 de maio. E, num gesto de admirável firmeza católica, ela exclamou: “Ainda que a libertação dos escravos tenha sido a causa da queda do trono, não me arrependo por um só momento do que fiz; antes pelo contrário, repeti-lo-ia se necessário fosse”.
Qual o episódio da História do Brasil que seja mais belo? E, no entanto, quão poucos são os que se lembram neste momento do grande Papa e da grande Princesa que, de modo tão destacado, contribuíram para o 13 de Maio?
À margem destes fatos históricos, não podemos deixar de fazer uma reflexão. Em sua Encíclica, Leão XIII recomenda expressamente um regime de especial proteção espiritual e material ao elemento liberto, que muito teria a sofrer de uma liberdade repentina, como o Papa claramente acentuou.
Veio a República. Com ela, Da. Isabel foi atirada ao exílio e a influência da Igreja foi coarctada por todos os modos possíveis quanto à sua ação na esfera legislativa.
E a raça negra ficou sem o amparo que seria indispensável para que o 13 de Maio fosse para ela, na totalidade de seus efeitos, uma reparação benéfica simultaneamente imposta pela justiça e pela caridade.
E, hoje em dia, essa grande obra do reerguimento moral do negro ainda parece esquecida de muita gente, que acha divertido glorificar a abjeção das macumbas e dos candomblés, em lugar de trabalhar positiva e concretamente pela elevação do nível moral da raça negra.


Artigo “À Margem do 13 de maio” , de Plinio Corrêa de Oliveira

“Legionário”, No 296, 15 de maio de 1938