SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O papel da mídia na propagação da violência

Comentários sobre o papel da mídia na propagação da violência:
Entrevista do jornal “O Globo”, com o marginal “Marcola” tem até data 23.5.2006 – Local: Segundo caderno – Autor: Arnaldo Jabor – Tamanho: 1000 palavras. Título da reportagem: “Estamos todos no inferno”. No entanto, o site “Observatório da Imprensa”, desmente que a entrevista tenha existido, seria tudo “virtual” como nos dias modernos. Virtual ou não a suposta entrevista correu pela rede e causou certo alvoroço.
Vamos fazer alguns comentários sobre seu conteúdo, pois ele realmente impressiona certo público:
- Primeira pergunta: você é do PCC?
- Eu sou mais do que isso. Sou o sinal dos “novos tempos”. Eu era pobre e “invisível”. Vocês nunca me olharam durante décadas. Olha, antigamente era “mole” resolver o problema da miséria, o diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, favelas, ralas periferias, etc., etc... E a solução nunca vinha. E o que fizeram? Absolutamente nada! Agora te pergunto: o governo federal alguma vez alocou verba para nós? Não, só aparecíamos nos desabamentos dos morros ou nas músicas românticas, sobre a “beleza dos morros ao amanhecer”, essas coisas... Agora estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo. ...”Nós somos o início tardio de vossa consciência social”. Viu? Sou culto... Leio Dante na prisão...
Comentário:
Não se tratando de um jornalista novato (Já que se diz que o autor da entrevista foi Arnaldo Jabor), como é que se inicia uma entrevista com uma pergunta boba como esta? Ah, agora entendo, o sujeito é experiente mas ele queria que o bandido dissesse que o PCC não é nada, o importante é ser um “sinal dos tempos”. Começo a pensar que esta entrevista foi toda “arrumada” pelo pessoal da mídia, toda preparada com perguntas e respostas antecipadamente arranjadas para um fim específico.
- Segunda pergunta: mas, a solução seria...
- Solução? Não há mais solução, cara... A própria idéia de solução já é um grande erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio de Janeiro? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governo e alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, uma verdadeira revolução na educação, urbanização geral, etc., etc.
E tudo isso teria que ser sob a batuta quase de uma “tirania esclarecida”, que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do legislativo cúmplice (ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão até roubar o PCC). E do judiciário que impede punições.
Teria que haver uma reforma radical do processo penal do País... Teria de haver comunicação e inteligência entre policiais municipais, estaduais e federais... (veja bem, nós até fazemos “conference calls” entre presídios...). E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: É impossível... Não há solução!
Comentário:
Outra pergunta de quem é, ou faz o papel de idiota: como é que um bandido vai dizer qual será a solução para ele mesmo? Ah, tudo se explica: é que o suposto entrevistador quer dar a tônica da resposta, ele quer que se diga que a violência não tem solução. Por isso pede que o bandido a diga qual seria... No mais, os números apresentados pelo bandido serve apenas para dizer que ele está por dentro de tudo (só “errou” na quantidade de deputados, talvez para indicar que não tem importância isto ou por outro motivo qualquer).
- Terceira pergunta: você não tem medo de morrer?
- Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar... Mas eu posso mandar matar vocês lá fora... Nós somos homens-bombas. Na favela tem cem mil homens-bombas... Estamos no centro do insolúvel, mesmo! Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a “fronteira da morte”, a única fronteira.
Sabe, já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês.
A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração... A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala... Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em “seja marginal, seja herói!?” Pois é: chegamos, somos nós! Há, há...
Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né?
Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante... Mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país.
Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um “monstro alien” escondido nas brechas da cidade.
Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feitas “com autorização da justiça”? Pois é. É outra linguagem.
Estamos diante de uma espécie de “pós-miséria”. Isso. A “pós-miséria” gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus soldados são uma “mutação da espécie social”, são “fungos de um grande erro sujo”.
Comentário:
Terceira pergunta imbecil e ridícula. Que importância tem em se saber se um bandido tem medo da morte? Agora, o bandido dizer que é inteligente, ler 3 mil livros, etc, é puro blefe para mostrar ao público um lado simpático de sua personalidade. Se fosse algo sem muita importância o suposto jornalista teria cortado isto da entrevista, mas ele o publica com óbvio interesse em promover o marginal. Ler livro de Dante não é grande coisa na literatura moderna, é coisa até ultrapassada, mas isto vai servir para caracterizar o inferno, uma das partes da principal obra de Dante (A Divina Comédia). Não parece coisa arranjada?
- Quarta pergunta: o que mudou nas periferias?
- Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem U$ 400 milhões de dólares como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório... Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no microondas... há... há... Vocês são um estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos.
Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de “três-oitão”. Nós estamos sempre no ataque. Vocês na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformaram em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços! Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais provincianos. Nossas armas e produtos vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos clientes. Vocês nos esquecem assim que passa o surto da violência.
Comentário:
Finalmente, uma pergunta um pouco inteligente, embora distorcida de certa realidade, pois ela quer dar a entender que banditismo tem tudo a ver com a periferia das grandes cidades. Pode ser que tenha algo a ver, mas apenas no que diz respeito aos locais onde os bandidos procuram se esconder e não com as populações destas periferias, pessoas ordeiras e que não compactuam com os bandidos.
Na resposta, é claro, o bandido mente e se mostra cínico. Dizer que Beira-Mar possui 400 milhões de dólares é um grande blefe, uma deslavada mentira, aliás sem condição de comprovação. Um bandido como Beira-Mar ou Marcola não existe sozinho, há uma organização internacional com eles – assim, pode ser que a organização deles possua algo em torno disso, mas que o bandido individualmente o possui é flagrante mentira ou invenção do “pseudo Marcola”.
- Quinta pergunta: mas, o que devemos fazer?
- Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os “barões do pó”. Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O exército? Com que grana? Eles não têm dinheiro nem para o rancho dos recrutas...O país está quebrado!
Sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. Você acha que o exército vai lutar contra o PCC e CV?
Estou lendo o “Klausewitz”, “sobre a guerra”. Não há perspectiva de êxito... Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas... A gente já tem até foguetes antitanques.
Se bobear, vão rolar uns “stingers” por aí... Para acabar com a gente só jogando bomba atômica nas favelas... Aliás, a gente acaba arranjando “umazinhas” daquelas bombas sujas mesmo... Já pensou? “Ipanema radioativa?”
Comentário:
O “entrevistador” volta agora a ter novo ataque de idiotismo, "perguntando" a um bandido o que fazer para acabar com ele e sua organização. Dizendo que não há solução o bandido está fazendo seu jogo, mas o “repórter” contribui para este jogo ao fazer tal pergunta, com visível intuito de que fosse dado aquela resposta (isto é, de que não há solução, nada há que fazer!). Na resposta, o marginal mais uma vez se jacta de seu suposto dom literário dizendo que está lendo “Klausewitz”. Desta vez ele cita um autor menos lido para dar a entender que está entrosado na literatura, e está por dentro da “arte da estratégia” ou da guerra moderna. Como se vê, tudo arranjado...
- Sexta pergunta: mas... Não haveria outra solução?
- Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a normalidade. Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco... Na boa... Na moral... Estamos todos no centro do insolúvel, só que com uma diferença muito grande, nós vivemos dele, e vocês... Não têm saída! Só a merda! E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem porque? Porque vocês não entendem a extensão do problema.
Como escreveu o divino Dante: “Lasciate ogna speranza voi Che entrate!” Percam todas as esperanças! Estamos todos no inferno!
Comentário:
Para encerrar a “entrevista” se repete a ridícula e imbecil pergunta que se vinha fazendo desde o início. Ele pretende finalizar seu “papo” com o marginal dando a entender a todo mundo que o banditismo não tem solução, e por isso repete a pergunta. Ó vós que aqui entrais, deixai toda esperança! É a resposta, baseada na obra de Dante, para aqueles que entram no inferno. Já que ele desejava informar o público sobre o perigo e a ação do PCC porque não fez ou inventou tantas outras perguntas de interesse maior da população?
Perguntas que o provável jornalista poderia ou deveria ter feito (ou fez e omitiu para dar realce a outras finalidades):
- 1. Que ligação tem o PCC com grupos internacionais como a máfia italiana ou os traficantes da Colômbia, Bolívia e Venezuela?
- 2. É verdade que alguns advogados que os defendem também fazem parte da organização?
- 3. Como é que você, num presídio de segurança máxima, consegue mandar suas mensagens a seus comandados?
- 4. Quando um elemento é aceito na cúpula do PCC faz algum juramento sectário? Isto é, na cúpula vocês constituem também uma ou várias seitas secretas que visam poder e dinheiro?
Observação: geralmente, estas entrevistas constam de várias horas de gravação e, lá na redação, o pessoal tira dali o que interessa ao jornal, isto é, o que eles desejam espalhar na população. Pode ter ocorrido que tenha havido realmente tal entrevista, e resolveram dar destaque apenas a tais perguntas e respostas, negando depois sua autenticidade para não comprometer alguém no presídio, mas com intuito de propagar aquelas idéias. No caso, a falta de esperança, a idéia de que está tudo perdido, vivemos num inferno...
Temos outro exemplo, desta vez, real. A REVISTA “ÉPOCA”, DE 27.5.2009, divulga reportagem sobre o bandido, mostrando apenas banalidades da prisão, discussão com carcereiro, com vizinho de cela, etc., nada que revele ao leitor algum aspecto interessante sobre a organização do marginal. Falando sobre banalidades, a mídia peca por banalizar a violência enquanto retida no presídio. O único destaque dado é sobre a intimidação que Marcola exercia sobre os carcereiros.

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