SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

PROBLEMAS DA VIDA MODERNA (VII)

O SIGNO DA DESESPERANÇA

O Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, numa conferência feita em 1957 sobre a obra de Santo Afonso Maria de Ligório “A Oração, o Grande Meio da Salvação”, afirmou que um dos sinais precursores da “Bagarre” (como ele denominava os castigos previstos em Fátima, em 1917) seria a falta de Esperança, isto é, o desespero total. :
“Francamente, eu tenho a impressão de, aos poucos, se estar mudando o teor da vida espiritual dos homens. Antes, houve um pecado de presunção de se salvar sem merecimentos, muito próprio da Belle Epoque. Era aquele otimismo mundano acretinado, que ainda continua no construtivismo norte-americano: ‘todo o mundo é bom”; “todo mundo vai para o Céu”; “não se incomode, Deus vai abraçar os últimos celerados”; “eu sou tinto de pecado porque Deus, no fundo, ama o pecado”, etc.
“Há um signo debaixo do qual a vida espiritual está mudando: é o do desespero. À medida que a vida vai se tornando mais difícil para todo o mundo, e lentamente a Bagarre vai baixando sobre a terra, a vida humana vai se tornando cada vez mais desencontrada, mais horrorosa. Começa-se a ter a impressão de que a posição normal das almas é o desespero, e cada vez mais vão aparecendo pessoas já com uma espécie de tendência natural malévola – e maléfica – de desconfiança em relação a Deus. Não querem contas com Deus: “Deus é um e eu sou outro. Eu me arranjo, não tenho pacto de amor nem de amizade com Deus. Ponha-se Ele do lado dEle como entender, eu vou me arranjar por mim.
“Têm quase uma espécie de raiva da misericórdia de Deus. Têm “nó” com a misericórdia de Deus, a tal ponto – posso estar enganado – que leva, às vezes, as pessoas a nem gostarem que outros rezem por elas. Não querem servir-se nem de um guincho para sair de suas dificuldades espirituais. Se não querem que venha um caminhão com cabo de aço para tirá-los lá de dentro, ou saem por si, ou não saem. Eles sabem que não saem por si; logo, ficam naquele horror. Naturalmente, se for assim numa linha reta, isto acaba tocando no Inferno.
“E às vezes eu me pergunto se isto já não é também um sinal precursor da Bagarre”.


Dr. Plínio não está sozinho nesta apreciação. Basta que voltemos nossos olhos para os estudos de alguns teólogos modernos, como os realizados pelo jesuíta Horácio Bojorge sob o título de “A civilização da acédia”, (http://www.horaciobojorge.org/) onde o Autor diz que a característica de nosso tempo é uma civilização baseada completamente naquele tipo de vício capital (a acédia), que é produto da preguiça, da tristeza, da moleza, da tibieza na fé, da inveja da graça fraterna, atributos comuns nas multidões modernas, que produzem, por sua vez, ansiedades e desesperos.
Assim, predomina um verdadeiro oceano de ansiedades no mundo moderno. Esta ansiedade coletiva existe porque o homem atual só tem desejos imoderados, às vezes até legítimos, mas cheios de ânsias por não serem desejos adequados ao momento ou sem moderação. Na maioria das vezes são até desejos ilícitos e imorais. É bem verdade que o comum das pessoas deseja apenas ter bom emprego, casa e conforto: uma vida digna, dizem muitos. No entanto, tais desejos sempre escondem a vontade do gozo imoderado dos prazeres terrenos. E tais desejos existem, se alimentam e são multiplicados pela vida moderna. E há verdadeiros propagandistas deste estilo de vida: criou-se a idéia de um verdadeiro paraíso de gozos terrenos, alimentando nas pessoas os sonhos utópicos de vida prazenteira e sem sofrimentos. Propaga-se até a idéia do ganhador de loteria que, de pobre, passa a subir na escala social pelo uso da simples sorte no sorteio. Estes são mostrados como o exemplo, o modelo, do enriquecimento fácil, desfrutador de todos os prazeres da vida, causando verdadeira inveja a todo o corpo social. Sem falar, é claro, dos jogadores de futebol e dos artistas que se enriquecem facilmente com seus talentos.
Coletivamente, tais desejos vão materializar-se em ideais políticos e em fórmulas cabalísticas de economia. Como tais ideais e tais fórmulas não produzem efeitos demorados, são efêmeros e sutis, logo vêm causando tremenda frustração nas multidões. Esta frustração coletiva causa ansiedade coletiva, pois todos os desejos não podem ser satisfeitos, haja vista que imoderados e até impossíveis em alguns casos.
Pior do que isto, a ansiedade do homem moderno o está levando ao desespero. O paroxismo do gozo dos prazeres, que a vida moderna favorece a quem tem dinheiro e posição social, está alimentando esta melancólica ansiedade e uma frustração desesperadora. Ansiedade porque não são atendidos seus desejos imoderados, ou então não são atendidos da forma que imaginam. Frustração quando não atendidos, ou então, depois de atendidos, ao se verificar que não era bem aquilo que imaginavam estar necessitando, a constatação miserável do engodo e da perversidade que constituíam tais desejos.
Sim, estamos presenciando a um descomunal desespero coletivo. Estamos vivenciando a “civilização da acédia”, conforme definiu o padre Horácio Bojorge, SJ acima citado..
Falta Fé, falta confiança. O resultado não pode ser outro: desespero. Desespera-se porque não se consegue atingir o tão esperado sonho utópico do gozo de todos os bens, de todas as alegrias, de todas as satisfações e benesses. Desespera-se porque tudo na vida é visto como uma situação sem saída, de dificuldades tremendas, de sacrifícios ingentes. E ninguém aponta para uma solução certa para os problemas que se avolumam dia-a-dia. É a triste situação do mundo moderno! Não só triste, mas terrível!

A falta de esperança domina a mídia

Tem-se notado uma tendência na mídia em geral em favorecer a desesperança na população. Assim, as notícias apresentam um mundo cheio de caos, de violência, de insegurança, mas não aparece no noticiário nenhuma solução. Pelo contrário, a ênfase que se dá é pelo desespero, insegurança, como se estivesse tudo perdido, tudo sem jeito. A corrupção campeia entre os políticos? Não há solução apresentada. A violência impera nas cidades? A polícia e o governo são apresentados como impotentes para resolvê-la. A assistência social, como a saúde, é ruim? Culpa dos governos, mas solução não se apresenta.
Por exemplo, tornou-se rotineiro e insistente o noticiar de suicídios, e para piorar os casos vêm sendo documentados com filmagens ao vivo. Notícias de assassinatos em série, massacres comuns ocorridos nos Estados Unidos nas escolas, são agora divulgados com as imagens que, às vezes, os próprios autores dos crimes as fazem. Em seguida, tais assassinos se suicidam, havendo casos em que estas imagens são também divulgadas. Com que objetivo? Não parece outro a não ser de propagar a idéia da desesperança, da falta de consolo, da falta de solução, enfim, desespero total...
No Brasil, o comum agora é divulgar os casos em que o sujeito mata a esposa, às vezes além da esposa também os filhos e até outras pessoas da família. O que está se acrescentando a estes crimes é o suicídio do criminoso em seguida. E para piorar, em alguns casos o sujeito se suicidou perante as câmaras de televisão logo após haver assassinado esposa ou namorada...
O “L’Osservatore Romano”, em sua edição de 25 de fevereiro de 2008, publica um artigo de Gaetano Vallini, comentando que esta tendência da falta de esperança dominou completamente a entrega do Oscar em Hollywood, onde os filmes ganhadores têm características obscuras e carregadas de desesperança. Segundo o articulista, as películas “No country for old men” (Não há lugar para os velhos) e ”There will be blood” (petróleo sangrento), ganhadores dos principais prêmios da Academia, apresentam duas visões confrontadas do mal, duas formas de mostrar a maldade através das imagens.
No filme “No country for old men” é narrada uma história “marcada por atos violentos e absurdos e sem sentido, um mundo em que não há lugar para os velhos valores”. Há uma completa ausência de consciência moral, que aparece um pouco apenas num xerife, “muito pouco para tanta violência gratuita”.
Da mesma forma os outros filmes demonstram a mesma tendência obscura pela violência e, principalmente, pela desesperança.
O articulista questiona se isto é ou não “um sinal dos tempos”, considerando, entretanto, que havia filmes capazes de expressar diferentes emoções, como o de nome “Juno”, dirigido por Jason Reitman, que conta a história de uma adolescente decidida a levar a termo uma gravidez não desejada, ou então o filme “O Escanfandro e a Mariposa”, de Julian Schabel. Parece que o critério da Academia está voltado agora para estimular a desesperança...
O diário do Vaticano precisa que estas produções mancham “o sonho americano, descrito pelos diretores em traços ligeiros, sem oferecer uma âncora de esperança, nenhuma esperança para o futuro”. Isto difere da novela original em que se baseou o filme, onde há “certa margem para a esperança”.
Vallini disse que “claramente esta visão pessimista que os Estados Unidos se oferece a si mesmo através da películas”, parece ser compartilhada pelo jurado dos prêmios da Academia, que concedeu o prêmio a uma película que não deixa dúvidas sobre seu objetivo: mostrar a decadência da sociedade moderna, a decadência dos valores”.

Enquanto a Igreja lança sua mensagem de Esperança, refletida na Encíclica do Papa Bento XVI “Spe Salvi”, as demais instituições modernas caminham para um rumo oposto, o da desesperança.

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