SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

quarta-feira, 26 de maio de 2010

FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO

ASPECTOS HISTÓRICOS DE SUA INSTITUIÇÃO

Com características diferenciadas em cada região do Brasil, a Festa do Divino Espírito Santo é um evento folclórico-religioso composto de missas, novenas, procissões, peditório com a bandeira, festejos populares, shows com fogos de artifício, cavalgadas, etc.

Origens que se reportam às festas hebraicas do Antigo Testamento:
O culto do Espírito Santo tem origem na Antigüidade: A Festa de Pentecostes (Deut 16, 9) era celebrada cinqüenta dias (sete semanas) depois da Páscoa. Era conhecida, ainda, com nomes diferentes: das Ceifas, das Semanas, do Dom da Lei, e outros, tendo sido, primitivamente, uma festa agrária dos cananeus. Entre os hebreus, o termo shabüoth (ou shavuot), citado na Torah, faz referência à festa que começa cinqüenta dias depois da Páscoa e marca o fim da colheita do trigo.
As três principais festas dos israelitas eram: Páscoa, Pentecostes e dos Tabernáculos, também chamadas de peregrinações. Nestes dias cada varão, que não estivesse legitimamente impedido, deveria ir ao Tabernáculo (no tempo de Moisés), ao Santuário de Silo (no tempo de Davi) e, finalmente, ao Templo de Salomão (em Jerusalém). (v. Ex 23, 14-17):
“Celebrareis festas três vezes cada ano em minha honra. Observarás a solenidade dos ázimos. Comerás, como eu te mandei, pães ázimos durante sete dias, no mês dos trigos novos, quando saíste do Egito; não aparecerás na minha presença com as mãos vazias. Observarás a solenidade da ceifa e das primícias do teu trabalho, de tudo o que tiveres semeado no campo; e também a solenidade no fim do ano, quando tiveres recolhido todos os teus frutos do campo. Três vezes no ano, todos os varões comparecerão diante do Senhor teu Deus” (ex 23, 14-17)
“Celebrarás a solenidade das semanas por ocasião das primícias da tua messe de trigo, e a solenidade (da colheita) quando no fim do ano se recolhe tudo” (ex 34, 22)”
“Também o dia das primícias, quando, completas as (sete) semanas, oferecerdes ao Senhor as novas messes, será venerável e santo...” (Num 28, 17).
“Durante seis dias comerás (pães ázimos), e no sétimo dia não trabalharás, porque é a assembléia do Senhor, teu Deus. Contarás sete semanas desde o dia em que puseres a foice na seara, e celebrarás a festa das semanas em honra do Senhor, teu Deus (com) a oblação voluntária da tua mão, a qual oferecerás segundo a bênção do Senhor, teu Deus...” (Deut 16, 8-10).

Depois do exílio foram instituídas outras festas menores: o Purim, em comemoração da libertação dos judeus por Ester, a Dedicação, instituída por Judas Macabeu, e outras que foram observadas apenas por certo tempo, como a celebração da vitória de Judas Macabeu sobre Nicanor no dia 13 do mês Adar.

Origem da Festa do Divino
Já o culto ao Espírito Santo, sob a forma de festividade sacra e profana, no sentido que iria adquirir mais tarde, se concretiza no início da Baixa Idade Média, na Europa. Havia um crescimento da devoção na piedade popular, mas começaram a surgir idéias “milenaristas” com base no que diz o Apocalipse (11.3), quando fala de um período de 1260 dias, o que simbolicamente poderia se referia ao ano 1260 que se aproximava. Um destes “profetas” foi o abade Joachim de Fiori (morto em 1202), que ensinava que a última fase da história seria a do Espírito Santo, avizinhando-se no século que se iniciava então. Segundo alguns exegetas, Deus Pai reinou até a vinda do Filho, Jesus Cristo; Deus Filho, Jesus Cristo, está reinando até a vinda do Espírito Santo, o qual reinaria até o fim do mundo. O abade Joachim de Fiori cometia, porém, vários erros, um deles ao afirmar que o império do Espírito Santo se daria com a destituição da Hierarquia da Igreja.
Os erros do abade – que já haviam sido condenados no IV Concílio de Latrão, em 1215, no pontificado de Inocêncio III (1198-1216) – entraram na ordem franciscana. Além das teses de Joachim de Fiori, um dos ramos Franciscanos, ditos Espiritualistas, defendia: A regra da pobreza devia ser absoluta e radicalmente obedecida, e no mesmo grau em que São Francisco a praticara. Por isso, a Ordem não poderia ter igrejas de pedra, nem conventos. Os frades não poderiam ter livros de missa, de oração ou de estudo. Só poderiam ter um hábito de saco. Este hábito deveria ser usado até cair de podre. O hábito não poderia chegar até os pés, pois que isso seria supérfluo e um luxo desnecessário; nem o Papa teria poder para mudar a regra elaborada por São Francisco; profetizavam para aquela data um grande castigo no qual a maior parte dos homens seria eliminada. Até mesmo boa parte dos frades franciscanos, sobrevivendo apenas um pequeno grupo, que formaria o reino do Espírito Santo. Este reino espiritual seria o dos monges, que substituiria a ordem dos sacerdotes. Viria um grande Papa – o "Pastor Angelicus" – e um grande Imperador que instaurariam o reino do Espírito Santo; assim como a Igreja substituíra a Sinagoga, haveria uma nova igreja espiritual, igualitária (sem hierarquia) e pobre, sem nenhuma propriedade; a lei de Deus seria abolida, sendo instaurada a lei do Amor.
Estes princípios parecem muito afins com o da moderna “Teologia da Libertação” e com alguns aspectos da dita igreja carismática dos nossos dias.
Todo este corpo de doutrina foi condenado também por São Tomás de Aquino em sua Suma Teológica. Estas heresias baseavam-se, mais ou menos, em alguns textos de Isaías, considerados como prenúncio deste Reino do Espírito Santo.

O Profeta Isaías, no capítulo 26, diz: Quando exerceres sobre a terra os teus juízos, os habitantes do mundo aprenderão a justiça (Isaías 26, 9). Este juízo é o mesmo que Daniel veio fazer em nome de Deus, quando deu o Reino universal aos santos do Altíssimo; e estes santos do Altíssimo serão aqueles que estarão plenos do Espírito Santo, os quais diz Isaías que todos aprenderão e terão por estudo a justiça e santidade sem que haja necessidade de quem os ensine, quer dizer, sem hierarquia, sem docentes, pois será o próprio Paráclito que os ensinará diretamente em seus corações.
O capítulo 32 começa assim: «Eis que um rei reinará com justiça e os seus príncipes governarão com retidão (Is 32, 1)... Não se ofuscarão os olhos dos que vêem e os ouvidos dos que ouvem escutarão atentamente. O coração dos insensatos entenderá a ciência e a língua dos tartamudos se exprimirá com prontidão e clareza. Já não se dará ao insensato o nome de príncipe, nem ao fraudulento o de grande (Is 32, 3) ; ... e o deserto se converta em um vergel e o vergel em bosque. E habitará no deserto a caridade, e a justiça terá o seu assento no vergel. A paz será obra da justiça, e o efeito da justiça o sossego e a segurança para sempre” (Is 32, 16-17).
Mais adiante: “O Senhor foi engrandecido, porque habita no alto; ele encheu Sião de retidão e de justiça. A fé reinará nos teus tempos; a sabedoria e a ciência serão as tuas riquezas de salvação; o temor do Senhor será o teu tesouro (Isaías 33,5).
O mesmo Isaías, no capítulo 60, depois de descrever largamente a conversão universal nos últimos tempos, pinta este século dourado da Igreja e a diferença dele a todos os passados com a que fazem aos lenhos os metais, e aos metais vis os preciosos, e aos preciosos os preciosíssimos; e por fim, diz claramente e sem metáfora, que por aquele tempo não haverá maldades, e que todos serão justos.
“Em lugar de cobre trarei ouro, e em vez de ferro trarei prata; em vez de madeira, cobre, e em lugar de pedras, ferro; porei no teu governo a paz, e nos teus magistrados a justiça. Não se ouvirá mais falar de iniqüidade na tua terra, nem haverá assolação nem ruína dentro das tuas fronteiras; a salvação reinará dentro dos teus muros e o louvor dentro da tuas portas... Todo o teu povo será um povo de justos. (Is 60, 17-19 e 21)”

Como se vê, os textos podem ser interpretados da forma como o fez o abade se não for analisado detidamente em seu todo. E os ideais dessa pretendida Era do Espírito Santo caracterizados pela paz, pela fraternidade e pelo amor entre todos os homens, manifestaram-se rapidamente por toda a Europa Ocidental. Algumas pessoas eram bem intencionadas e nelas animou o crescimento de uma autêntica devoção ao Espírito Santo. Na Alemanha, há registros de uma organização dedicada a essa devoção durante a dinastia dos Othons (Oto IV, o Soberbo), no século XIII, que se destinava a lançar fundamentos de uma instituição de caridade, cujos bens eram oriundos de esmolas e eram destinados aos pobres nos anos de penúria. E como os promotores eram reis, os festejos conservaram os aspectos de realeza, isto é, com pompa e beleza. Da divindade que invocavam, nasceram os festejos religiosos ao Espírito Santo, cujo costume se propagou por toda a Europa. Na França, a festa foi facilmente difundida. A Folia do Divino, assimilada rapidamente, foi chamada ‘Folias do Bispo Inocente’, solenizada anualmente em São Martinho de Tours. Da mesma forma em diversos países, aos poucos a devoção foi se propalando. Daí à Península Ibérica, Portugal e suas colônias foi questão de tempo.

Santa Isabel introduz a Festa do Divino em Portugal
No entanto, a propagação da principal devoção ao Espírito Santo revestiu-se do caráter de riqueza e nobreza, como até hoje se verifica. Por influência da Rainha Santa Isabel de Portugal, o Rei Dom Dinis adotou o culto ao Espírito Santo, que foi logo assumindo o caráter de devoção pelo povo português. Em 1296, a Rainha Isabel criou, ou autorizou a criação duma confraria do Espírito Santo na sua vila de Alenquer. Seis anos antes, em 1290, Beatriz de Castela (1242-1303), princesa de Castela e Rainha de Portugal entre 1253 e 1279, sogra da Rainha Santa Isabel, já havia determinado o início das obras da construção da Igreja do Espírito Santo, anexa ao convento franciscano em Alenquer. As obras foram concluídas em 1305, sendo, portanto, provável que, só após esta data, a Rainha Santa Isabel tenha realizado a promessa do oferecimento de sua coroa ao Divino Espírito Santo, o que acabou por melhor estruturar os festejos comemorativos à Santíssima Trindade, que já existiam em Portugal.
Há informações baseadas em documentos do Arquivo de Alenquer, de que a primeira festa teria sido realizada no Convento de São Francisco da mesma vila, em 1323. Já havia três anos que o rei guerreava com o filho e Santa Isabel sendo apaziguadora. Naquele ano, como Dom Afonso (o filho) não conseguira ver atendidas algumas reivindicações, reúne um exército com objetivo de conquistar Lisboa. Santa Isabel intervém mais uma vez para evitar a guerra. Morto, porém, o pai, a guerra continuou entre os irmãos, Dom Afonso e Dom Sanches. Novas intervenções de Santa Isabel e os dois assinam ao final um tratado de paz.
Foi estas guerras fratricidas (já de longas datas) que fez Santa isabel tomar uma decisão inédita: abdica de seus direitos à coroa e delibera que quem reinaria deveria ser o Divino Espírito Santo. E para dar visibilidade pública à sua promessa, no dia de Pentecostes, toda a Corte, em solene procissão, tendo à frente o Rei e a Rainha (com títulos simbólicos de Imperador e Imperatriz), dirigiram-se à Catedral, depositando no altar-mor a coroa, o cetro e o estandarte do Reino. A partir de então, a Imperatriz repetia todos os anos, no dia de Pentecostes, a cerimônia de consagração do reino ao Divino Espírito Santo, em ação de graças pela felicidade e prosperidade de Portugal.
O costume foi se espalhando e modificando os personagens. A partir de certa época não era mais os reis que eram coroados, mas pessoas do povo. Após a celebração da missa, realizava-se uma procissão culminando com a coroação do Imperador e de dois Reis. O Imperador e os reis eram crianças do povo, símbolos da inocência, a quem o rei e a rainha entregavam as insígnias do poder temporal: as suas coroas e o cetro real. O Imperador fazia-se acompanhar por três pajens e duas damas de honra. Estas últimas recebiam seus dotes dos reais anfitriões. Seguia-se uma tourada e a carne era distribuída aos pobres, e depois se realizava um banquete, onde abundavam para todos o pão, o bolo, a carne e o vinho.
Com mais ou menos detalhes quanto à origem, motivação e ritual da primeira Festa do Divino Espírito Santo, o certo é que a devoção se espalhou por todo o reino português, com destaque para a Beira Baixa, para a região de Tomar, Estremadura e o Barlavento Algarvio, até se radicar nos Açores, arquipélago descoberto em 1427 e distante 1.500 km da costa portuguesa.
Em Portugal continental, a devoção se alastrou e alcançou seu ponto culminante na Era das Grandes Descobertas, ou seja, nos séculos XV e XVI. De Portugal continental para as suas Colônias e Possessões, a devoção acompanhou o movimento colonizador, chegando ao Brasil por volta do século XVII.
Existem outras versões, entre as quais a de que a Festa do Divino Espírito Santo nasceu em Portugal a partir de um sonho real. Conta-se que a Rainha Santa Isabel estando a pernoitar com seu marido, o Rei Dom Dinis, na Vila de Alenquer, teve um sonho. Nele, Deus informava que muito mais se alegraria se fosse construída naquela localidade uma igreja ao Espírito Santo. Ao acordar, a Rainha Isabel mandou pedir aos juízes da Vila que lhe enviassem quatro pedreiros e seis ajudantes, e ordenou-lhes que fincassem os alicerces em determinado lugar. Ali chegando, no entanto, encontraram os alicerces já começados embora pessoa alguma os tivesse feito. A rainha viu nisso a mão de Deus e orou agradecendo o milagre. Conta-se também que os operários receberam rosas da rainha, como pagamento, e elas se transformaram em dinheiro.

Com o início da colonização, ela foi introduzida no Brasil, provavelmente desde o século XVII. A figura do Imperador do Divino - criança ou adulto - era o escolhido para presidir a festa. Aqui ela sempre foi uma festa de caráter popular, não figurando entre as quatro festas oficiais celebradas por ordem da Coroa, no período colonial. Mas seu prestígio no início do século XIX era tanto, que em 1822, segundo Luís da Câmara Cascudo, o ministro José Bonifácio escolheu para Pedro I o título de Imperador, em vez de Rei, porque era muito grande a popularidade do Imperador do Divino. Em certas cidades ou vilas do interior, o Imperador do Divino, com sua corte solene, dava audiência no Império, com as reverências privativas de um soberano.
Fontes consultadas:


História de Santa Isabel de Portugal

Vídeo

http://www.youtube.com/watch?v=3fpg6BG8rTQ




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