SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

domingo, 28 de março de 2010

OS SOFRIMENTOS MORAIS DE NOSSO SENHOR DURANTE A PAIXÃO

Publicamos abaixo parte de um belíssimo texto sobre Paixão de Cristo, da lavra de grande personalidade religiosa: o Cardeal Newman. Convertido do anglicanismo para o Catolicismo, sua atuação contribuiu vivamente para trazer para o seio da Igreja vários anglicanos. Recentemente, o Vaticano iniciou seu processo de beatificação.

Cardeal Newman

O homem foi criado à imagem de Deus e essa imagem se encontra na alma; quando pois o seu Criador, por uma condescendência inexprimível, quis se revestir da natureza humana, tomou uma alma a fim de tomar um corpo; a fim de se unir a um corpo: tomou primeiro uma alma, depois o corpo de um homem. Tomou os dois ao mesmo tempo, mas nessa ordem: alma primeiro e corpo depois. Criou ele próprio a alma que tomou; mas o corpo, tomou-o da sagrada carne de sua Mãe, a Virgem.

Tornou-se, portanto, perfeitamente homem, com corpo e alma. E assim como tomou um corpo de carne e de nervos sujeito ao sofrimento e à morte, tomou uma alma capaz de experimentar não só aqueles sofrimentos físicos, mas também os que não são próprios dela. Sua missão expiatória não foi apenas sofrida no seu corpo; ela o foi também — pensemos! — em sua alma, na sua alma de homem.

Nos dias solenes que vão seguir, seremos especialmente chamados, caros irmãos, a considerar os seus sofrimentos corporais, sua prisão, suas idas e vindas de um lugar a outro; suas pancadas, suas feridas, sua flagelação; os espinhos, a cruz, os cravos... Todas essas coisas estão resumidas para nós no crucifixo, todas a um só tempo se acham representadas na carne sagrada que pende diante dos nossos olhos: a sua meditação se torna fácil. Não acontece o mesmo com os sofrimentos de sua alma. Não poderão ser pintados aos nossos olhos, não poderão ser devidamente sondados; pois excedem ao mesmo tempo os sentidos e o pensamento, posto que tenham precedido os seus sofrimentos corpóreos. A agonia — sofrimento da alma e não do corpo — foi o primeiro ato do seu terrível sacrifício, “Minha alma está triste até a morte”, disse ele. Sim se ele sofreu então no seu corpo, sofreu realmente na sua alma, pois o corpo não faz mais que transmitir o sofrimento à verdadeira sede e recipiente da angústia.

Vem muito à propósito insistir nesse ponto. Eu digo que não era o corpo que sofria, mas a alma no corpo; era a alma, e não o corpo, que era a sede dos sofrimentos do Verbo Eterno. Considerai que não pode haver dor real, mesmo quando há aparência de sofrimento, se não existe nenhuma sensibilidade interna, nenhum espírito que possa ser-lhe a sede. A árvore, por exemplo, é dotada de vida, tem órgãos e cresce; pode ser ferida e maltratada, secar e morrer; mas não pode sofrer, pois não tem espírito nem princípio sensível. Ao contrário, onde for encontrado esse princípio imaterial, a dor será possível, e será tanto maior quanto mais perfeito aquele. Se não tivéssemos espírito, seríamos tão insensíveis quanto as árvores; se não tivéssemos alma, sofreríamos apenas como os animais; mas sendo homens, sentimos a dor de um modo mais vivo, como convém aos seres dotados de alma.

Os seres vivos são pois mais ou menos sensíveis de acordo com o espírito que se encontra neles; os animais o são muito menos que o homem porque não podem pensar o que sentem: não têm nenhuma inteligência, nenhuma consciência direta dos seus próprios sofrimentos. O que nos torna a dor tão intolerável, é que não podemos desviar dela o pensamento enquanto a estamos sentindo. Lá está ela, diante de nós, reinando sobre o nosso espírito, atraindo o nosso pensamento como um ímã. Tudo o que dela nos distrai, a alivia e acalma: por isso é que os nossos amigos se esforçam por nos divertir quando sofremos, pois a diversão é justamente uma espécie de distração. Às vezes eles o conseguem, se a dor é leve, e nós deixamos de certo modo de sentir a dor que ainda sofremos. Pela mesma razão freqüentemente acontece nos machucarmos ao praticar algum esforço violento, sem que tenhamos a idéia de ter sentido a dor, comprovada no entanto pelas cicatrizes. Nas rixas e nas batalhas não é a dor geralmente que faz com que os combatentes percebam que estão feridos, mas a perda de sangue.

Vou mostrar-vos agora, meus irmãos, como pretendo aplicar essas reflexões aos sofrimentos de Nosso Senhor. Antes, porém, farei uma outra observação. É a seguinte: não há dor que seja por si mesma intolerável; só se torna intolerável por causa da duração. Às vezes a gente exclama que não agüenta mais um minuto, e o paciente procura deter a mão do cirurgião que persiste em fazê-lo sofrer: parece-lhe que já suportou tudo o que podia, como se fosse a continuidade da dor, e não sua intensidade, que a tornasse intolerável. Que significa isto, senão que a lembrança dos momentos de dor que precederam age sobre a dor que segue e, de certo modo, a aviva? Se pudéssemos tomar isoladamente o terceiro, o quarto ou o vigésimo momento da dor, e esquecer a série dos que os precederam, ele não se tornaria mais intenso que o primeiro e seria tão suportável quanto aquele; o que o torna insuportável é ser ele o vigésimo e nele se concentrarem todos os outros: o primeiro, o segundo, o terceiro, até o décimo-nono — cada novo momento de dor aumentando, aumentando sem cessar, com o peso dos anteriores. Daí vem, repito, o fato de que os bichos pareçam geralmente quase insensíveis à dor: é que não são dotados de reflexão nem consciência. Não sabem que existem; não olham para diante nem para trás; o instante que passa é tudo para eles: passeiam à superfície da terra, vendo isto ou aquilo, experimentando prazer ou sofrimento, mas tomam as coisas como vêem e as deixam ir do mesmo modo, tal o homem, em sonhos. Eles têm memória, mas não a dos homens inteligentes, pois não estabelecem relações entre as coisas, incapazes de coordenar as sensações particulares que vão experimentando; nada, além dessas sensações, tem para eles realidade ou substância: um certo número de expressões sucessivas, eis tudo o que eles sentem. E é por isso que não sentem a dor, como várias outras coisas, senão de forma mitigada, a despeito das manifestações exteriores que porventura dão. É o fato de perceber intelectualmente a dor como um todo difuso através de movimentos sucessivos que dá a essa dor sua força e sua particular acuidade. E só a alma, de que está privado o animal, é capaz de tal compreensão.

Aplicai agora isso aos sofrimentos de Nosso Senhor. Estais lembrados de que lhe ofereceram vinho com mirra no momento de o crucificarem? Não o quis beber; e por quê? Porque essa bebida ter-lhe-ia entorpecido o espírito, e ele havia decidido experimentar a dor em toda a plenitude. Isto vos revela, meus irmãos, o caráter dos seus sofrimentos: ele os teria voluntariamente evitado, se tal tivesse sido a vontade de seu Pai “Se é possível” — dissera ele — “afastai de mim este cálice”. Mas não sendo possível aquilo, perguntou serenamente ao apóstolo que o queria subtrair ao suplício: “Por que não beberia eu o cálice que meu Pai me quis dar?” Já que devia sofrer, entregava-se ao sofrimento, e não viera para sofrer o menos possível; não se desviou da dor, mas fez-lhe frente: desafiou-a, se posso dizer, a fim de que ela se imprimisse cabalmente nele, em cada instante.

E assim como os homens, superiores aos animais, são mais sujeitos à dor por causa do espírito que reside neles e que dá à mesma uma substância; assim Nosso Senhor experimentou a dor no seu corpo com uma consciência — e portanto, com uma vivacidade, uma intensidade e uma unidade de percepção — que nenhum de nós pode sondar, de tal modo sua alma estava plenamente em seu poder, completamente livre de toda distração, inteiramente ligada à dor, absolutamente entregue e submetida ao sofrimento. Pode-se assim dizer que ele sofreu inteiramente sua Paixão, em todos os instantes.

Lembrai-vos que o nosso bem-amado Senhor, posto que fosse inteiramente homem, divergia de nós num ponto: havia nele um poder mais alto que a sua alma, que governava a sua alma, pois era Deus. As almas dos outros homens estão submetidas aos desejos, aos sentimentos, aos impulsos, às paixões, às perturbações que lhe são próprias, enquanto a alma de Nosso Senhor não estava submetida senão à sua divina pessoa. Nada chegava à sua alma por efeito súbito do acaso; jamais foi encontrado desprevenido; nada o atingiu sem que ele o tivesse querido. Jamais seu espírito se afligiu, temeu, desejou ou se alegrou, sem que ele tivesse antes querido se afligir, temer, desejar ou alegrar-se. Quando sofremos, é porque os agentes exteriores e as emoções incoercíveis do nosso espírito nos forçam a tal. Sofremos involuntariamente a disciplina da dor; sofremos mais ou menos vivamente, segundo as circunstâncias; nossa paciência é mais ou menos posta à prova, e fazemos o que podemos para aliviar ou extinguir a dor. Somos incapazes de prever em que medida ela se abaterá sobre nós, nem quanto tempo a poderemos suportar; quando passou, não sabemos dizer ao certo porque sofríamos, nem o que sofríamos, nem porque não suportáramos melhor o nosso fardo.

Deu-se o contrário com Nosso Senhor. Sua divina pessoa não estava sujeita, não podia estar sujeita e exposta à influência de suas afeições e sentimentos, a não ser quando o quisesse. Repito que, quando ele queria temer, ele temia; irritava-se quando queria irritar-se; afligia-se quando queria estar aflito. Não estava exposto à emoção, mas expunha-se voluntariamente à influência que o devia comover. Por isso, quando resolveu sofrer os sofrimentos de sua Paixão expiatória, tudo o que ele fez, o fez segundo a expressão do Sábio: instanter, com diligência; aplicando nisso todo o seu poder, não o fez pela metade; não procurou, como nós, desviar da dor o seu espírito; — como o teria feito, ele que viera para sofrer, que não podia sofrer senão por sua própria vontade? Não falou, retirando depois suas palavras; não agiu, negando os atos em seguida; mas falou e agiu; e disse: “Eu venho fazer a vossa vontade, ó meu Deus; não quisestes sacrifício nem oferenda, mas me formastes um corpo”. Ele tomou um corpo para poder sofrer; fez-se homem para poder sofrer como os homens; e quando chegou a sua hora — a hora de Satanás e das trevas — a hora em que o pecado devia derramar sobre ele toda a sua malícia — ofereceu-se a si próprio, inteiro, em holocausto, em total oblação.

E assim como, estendido sobre a cruz, ofereceu o seu corpo todo, foi também todo o seu espírito, toda a sua lucidez, toda a sua sensibilidade, que apresentou aos seus algozes: não uma aceitação virtual ou uma submissão a contragosto, mas uma intenção presente e absoluta. Sua paixão foi um ato: sua energia vital atingira o auge, quando jazia desfalecido e agonizante. E se morreu, foi por um ato da vontade: inclinou a cabeça não apenas em sinal de resignação, mas de comando: “Meu Pai, nas vossas mãos entrego o meu espírito”. Pronunciou estas palavras e entregou a sua alma, sem a perder no entanto.

Vedes, meus caros irmãos, que ainda que Nosso Senhor tivesse sofrido apenas no seu corpo, e ainda que tivesse sofrido menos que os outros homens, teria no entanto sofrido infinitamente mais, já que a dor deve ser medida pela tomada de consciência da mesma. Era Deus que sofria; Deus sofria na sua natureza humana, e os sofrimentos pertenciam a Deus: foram bebidos, sorvidos até a última gota, porque era Deus que os bebia. Não se contentou em provar o cálice, mas bebeu — sem disfarçá-la com remédios, como fazem os homens — a taça toda da angústia. E o que acabo de dizer servirá de resposta a uma objeção que vou agora formular, porque existe talvez em estado latente no espírito de alguns, fazendo-os ignorar a parte que tomou, na sua misericordiosa expiação, a alma de Nosso Senhor.

Como sua agonia começasse, Nosso Senhor falou: “Minha alma está triste até a morte”. Perguntar-me-eis talvez, caros irmãos, se ele não dispunha de certas consolações particulares, impossíveis em outro, que lhe aliviavam ou amorteciam a penúria da alma, fazendo-o portanto sofrer menos intensamente que um homem comum. Possuía, por exemplo, o sentimento de inocência a tal ponto que nenhum outro poderia possuir: os seus próprios perseguidores, o próprio apóstolo que o traíra, os próprios soldados que o executaram, o atestam: “Condenei o sangue inocente”, disse Judas; “Estou puro do sangue desse justo”, declarou Pilatos; “Na verdade, esse homem era justo”, exclamou o centurião. Se esses mesmos, pecadores que eram, atestaram-lhe a inocência — quanto mais não haveria de proclamá-la o seu próprio coração! Ora, e se nós mesmos, por pecadores que sejamos, sabemos bem que do sentimento de nossa inocência ou culpabilidade depende nossa força de resistência à hostilidade e à calúnia — quanto mais, em Nosso Senhor, o sentimento de sua santidade não devia compensar seus sofrimentos e aniquilar a sua vergonha! Além do mais (direis ainda), ele sabia que os seus sofrimentos eram breves e que seriam coroados de alegria, enquanto que a incerteza do futuro é o elemento mais cruel da angústia humana: não poderia conhecer a ansiedade, pois não havia incerteza para ele; nem o abandono ou o desespero, pois não foi jamais abandonado. E isso nos é confirmado por São Paulo, que diz expressamente: por causa da alegria que lhe era prometida, Nosso Senhor “desafiou a vergonha”.

Sem dúvida deu demonstração em todos os seus atos de calma e sangue-frio maravilhosos. Considerai seus conselhos aos apóstolos: “Vigiai e orai para não cairdes em tentação; o espírito é pronto, mas a carne é fraca”; ou o que ele disse à Judas: “Meu amigo, por que vieste? Com um beijo tu trais o Filho do Homem?”; ou o que disse a Pedro: “Todos aqueles que tomarem uma espada perecerão pela espada”; ou suas palavras ao homem que lhe bateu na face: “Se falei mal, provai o que disse de mal; se falei bem, por que me bateis?”; ou o que disse à sua Mãe: “Mãe, eis o teu filho”.

Tudo isso é verdade, e merece ser frisado, mas está perfeitamente de acordo com o que acabo de dizer; ou melhor, o ilustra. Afirmá-lo, meus irmãos, equivale a constatar que Nosso Senhor (para empregar uma expressão humana) foi sempre ele mesmo. Seu espírito era, nele, o seu próprio centro; jamais perdeu, em grau ínfimo que fosse, seu celeste e perfeito equilíbrio. O que Nosso Senhor sofreu, sofreu-o porque se expôs ele próprio ao sofrimento — e deliberada, e serenamente. Assim como dissera ao leproso: “Eu o quero; sara”; ao paralítico: “Que teus pecados te sejam perdoados”; ao centurião: “Eu vou curá-lo”; e de Lázaro: “Eu vou despertá-lo do seu sono”; — assim também disse: “Agora eu vou começar a sofrer” e deu início à Paixão. Sua tranqüilidade não é senão a prova do inteiro domínio que tinha sobre a sua alma. Tirou, no momento oportuno, os ferrolhos e as cadeias, abriu as portas, e as torrentes invadiram-lhe o coração com todo o ímpeto. Eis o que S. Marcos nos diz dele, e o escutou da própria boca de S. Pedro, que foi uma das três testemunhas: “Vieram”, diz S. Marcos, “a um lugar chamado Gethsémani: e ele disse a seus discípulos: Sentai-vos aqui enquanto eu rezo. Conduziu consigo Tiago, Pedro e João, e começou a ser invadido pelo terror e o abatimento”. Bem vedes como é deliberadamente que ele age: vai a um certo lugar, dá uma ordem precisa, retira à sua alma o sustentáculo da divindade — e logo ruem sobre ele o terror, a angústia, o abandono. Entra na agonia moral por um ato tão definido como se tratara de qualquer sofrimento físico, o fogo ou a roda.

Assim sendo, vedes logo, meus caros irmãos, como é fora de propósito dizer que Nosso Senhor pudesse ter sido sustentado nas suas provações pelo sentimento de sua inocência e a antecipação de seu triunfo, pois suas provações consistiam justamente na retirada desse sentimento e dessa antecipação, como de qualquer outro motivo de consolo. O mesmo ato de vontade que entregava sua alma à influência de uma determinada angústia, a entregava ao mesmo tempo à influência de todas as angústias. Não foi uma luta entre impulsos e idéias contrárias, vindas de fora, mas o efeito de uma resolução interior. Assim como os homens que se controlam podem se concentrar à vontade num tema ou noutro, assim Nosso Senhor recusou deliberadamente todo conforto, e se fartou de dor. Naquele instante não pensava no futuro: pensava apenas no fardo que lhe pesava na alma e que viera justamente carregar sobre os ombros.

Mas qual será, meus irmãos, esse fardo que Nosso Senhor teve de carregar quando abriu assim a sua alma à torrente do sofrimento? Era um fardo que conhecemos bem — ai de nós! — que nos é bastante familiar, mas que representava, para ele, um tormento inexprimível. Teve de carregar um peso que transportamos tão facilmente, tão naturalmente, tão à vontade, que custamos a imaginá-lo como um grande suplício. Mas, para ele, tinha o cheiro da morte, o cheiro envenenado da morte. Teve, meus caros irmãos, de carregar o peso do pecado; teve de carregar os nossos pecados; os pecados do mundo inteiro.

O pecado nos parece leve, fazemos pouco caso dele, e não compreendemos por que motivo o Criador o tem em tão grande conta: não conseguimos crer que ele mereça ser castigado; e, quando já aqui no mundo recebe o seu castigo, arranjamos uma explicação qualquer para isso, e desviamos o pensamento. Mas, considerai o que o pecado é em si mesmo: é uma rebelião contra Deus; é o gesto do traidor que procura destronar o seu soberano e eliminá-lo; é um ato que, para usar uma expressão bem forte, chegaria a aniquilar o próprio Senhor do mundo, se ele pudesse ser aniquilado. O pecado é o inimigo mortal do Altíssimo, de modo que o pecado e ele não podem permanecer juntos; e, assim como o Altíssimo lança o pecado fora da sua presença para as trevas exteriores — assim, se Deus pudesse ser menos que Deus, o pecado é que teria o poder de transformá-lo em tal.

E notai, caros irmãos, que quando o Amor todo-poderoso entrou, pela sua encarnação, nesse sistema criado e se submeteu às suas leis — logo esse adversário do bem e da verdade, aproveitando a ocasião, se lançou sobre aquela carne divina, agarrou-se a ela e a fez morrer. A inveja dos Fariseus, a traição de Judas e a insensatez do povo não eram mais que o instrumento ou a expressão da iniqüidade que o pecado sentia pela Eterna Pureza, desde que, na sua infinita misericórdia pelos homens, Deus se pusera ao seu alcance. O pecado não lhe podia atingir a Majestade divina, mas podia assaltá-lo, como ele próprio o consentia, por intermédio da humanidade que assumira. E o desfecho, a morte do Deus encarnado, nos ensina, meus irmãos, o que é o pecado em si mesmo, e qual o fardo que ia cair, num dado momento e com todo o peso, sobre a natureza humana de Deus — quando permitiu que essa natureza fosse invadida pelo terror e a agonia.

Nessa hora tão terrível, portanto, o Salvador do mundo se pôs de joelhos, recusando as garantias de sua divindade, afastando os anjos solícitos, prontos a responder por miríades ao seu apelo; abriu os braços e descobriu o peito para se expor, na sua inocência, ao assalto do inimigo — um inimigo cujo hálito era uma peste e cujo abraço, uma agonia. Lá estava de joelhos, imóvel e silencioso, enquanto o impuro demônio envolvia-lhe o espírito numa veste banhada no que o crime humano tem de mais hediondo e mais atroz; enquanto o demônio invadia a sua consciência, penetrava-lhe em todos os sentidos, em todos os poros do seu espírito, estendendo sobre ele a sua lepra moral — até que se sentisse quase transformado naquilo que ele não poderia ser jamais, naquilo em que seu inimigo teria querido transformá-lo. Qual não foi o seu terror quando, ao se contemplar, não mais de reconheceu: quando se sentiu igual a um impuro e detestável pecador, na sua percepção aguda desse amontoado de corrupções que lhe choviam sobre a cabeça e escorriam até a extremidade da sua veste! Qual não foi o seu espanto, quando viu que seus olhos, suas mãos, seus pés, seus lábios, eram como membros de um mau, e não mais os de um Deus! Serão as do Cordeiro imaculado, essas mãos, outrora inocentes, rubras agora de milhões de atos bárbaros e sanguinários? Serão os do Cordeiro, esses lábios que não mais pronunciam orações e louvores, manchados que estão pelos perjúrios, as blasfêmias e as doutrinas diabólicas? Serão os do Cordeiro, esses olhos profanados pelas visões malignas e as fascinações dos ídolos, pelos quais deixaram os homens o seu adorável Criador? Seus ouvidos ressoam o tumulto das festas e dos combates; seu coração está gelado pela avareza, a crueldade e a ingratidão; sua própria memória está carregada de todos os pecados cometidos depois da Queda em todas as regiões do mundo: o orgulho dos antigos gigantes, a luxúria das cinco cidades, o endurecimento do Egito, a ambição de Babel, a ingratidão e o desprezo de Israel. Quem não conhece a tortura de uma idéia fixa, que volta sem cessar, por mais que a queiramos repelir, e que, não podendo nos reduzir, nos obseda? Ou a de um pensamento sufocante e odioso, que de modo nenhum nos pertence, mas que nos foi imposto de fora para dentro? Ou a de fatal conhecimento, adquirido ou não por nossa culpa, mas do qual daríamos tudo para sermos imediatamente libertados?

Eis os inimigos que, aos milhões, se comprimem em torno de vós, ó Senhor! Que sobre vós se abatem em nuvens mais numerosas que as dos gafanhotos, das moscas e das rãs enviadas contra o Faraó. Estão aí todos os pecados. Os pecados dos vivos, dos mortos e daqueles que ainda não nasceram. Dos condenados e dos eleitos. Do vosso povo e dos povos estrangeiros. Dos pecadores e dos santos. E vossos bem-amados estão também presentes: vossos santos, vossos escolhidos, vossos três apóstolos: Pedro, Tiago e João — não para vos consolar porém, mas para vos acabrunhar, “lançando o pó contra os céus”, como os amigos de Jó, amontoando maldições sobre a vossa cabeça.

Estão todos aí, menos uma criatura. Uma só não está aí; uma só. Porque ela, que nunca teve parte no pecado, era a única que vos podia consolar; é por isso que está ausente. Virá para perto de vós quando estiverdes na cruz; mas no jardim, permanecerá afastada. Foi a vossa companheira e a vossa confidente por toda a vida; trocou convosco os pensamentos e as reflexões de trinta anos: mas seu ouvido virginal não poderia captar, nem seu coração imaculado conhecer, o que se oferece agora à vossa vista. Esse fardo, só Deus mesmo é que o pode carregar. Às vezes mostrastes a alguns dos vossos santos a imagem de um pecado apenas, tal como aparece à luz da vossa Face (e a imagem de um pecado venial, não de um mortal); e eles nos disseram que esse espetáculo quase os ia matando, que os teria de fato morto, se não tivesse sido logo desviado de seu olhar. A Mãe de Deus, apesar de toda a sua santidade, ou antes, por causa dela, não teria podido suportar a vista de um só desses inumeráveis prepostos de Satanás que vos cercam agora.

Na verdade, é a longa história de um mundo, e só Deus é que pode carregar-lhe o peso. Esperanças desfeitas, votos partidos, luzes extintas, advertências desprezadas, ocasiões perdidas; inocentes enganados, jovens endurecidos, penitentes que caem de novo, justos abatidos, velhos sem rumo; sofismas da incredulidade, cegueira das paixões, obstinação do orgulho, tirania do hábito, verme roedor do remorso, febre do mundanismo, angústia da vergonha, amargor das decepções, agonia do desespero; tais são as cenas cruéis, dilacerantes, revoltantes, detestáveis, enlouquecedoras, que, todas juntas, se oferecem a ele. As vítimas voluntárias da rebelião — faces transtornadas, lábios convulsos e as frontes sombrias — estão sobre ele, estão nele. Ocupam o lugar daquela paz inefável que não cessou de habitar-lhe a alma desde a sua concepção. Estão sobre ele, e parecem, quase, suas. Ele invoca o seu Pai como se fora o criminoso, e não a vítima. Sua agonia toma a aparência da culpabilidade e da compunção. Faz penitência; confessa-se. Faz ato de contrição de um modo infinitamente mais real, infinitamente mais eficaz que todos os santos e todos os penitentes juntos. Porque ele é para nós todos a única vítima, o único holocausto expiatório, o verdadeiro penitente — sem ser no entanto o verdadeiro pecador.

Ele se ergue dolorosamente; volta-se para contemplar o traidor e o seu bando, que deslizam furtivamente na sombra profunda. Olha; e vê o sangue nas suas vestes, o sangue nas pegadas dos seus pés. De onde vêm essas primícias da paixão do Cordeiro? As varas dos soldados ainda não lhe tocaram as espáduas; nem os cravos do carrasco, as suas mãos e pés. Meus irmãos, ele derramou o seu sangue antes da hora. Sim, ele espalhou seu sangue. Foi sua alma agonizante que partiu o invólucro de carne para o fazer brotar...

Sua paixão começou dentro dele próprio. Esse coração supliciado, sede de ternura e amor, se pôs a palpitar, a bater com veemência que excede a natureza. “As fontes do grande abismo se romperam”; os rios de sangue se chocaram com tanto ímpeto e furor, que transbordaram as veias, brotaram pelos poros e formaram um orvalho espesso por toda a superfície do corpo. Pois as gotas deslizaram, grossas e pesadas, inundando o chão.

“Minha alma está triste até a morte”, disse ele. Já se disse, a respeito da epidemia que atualmente nos aflige, que ela começa pela morte, evidenciando, assim, que ela não conhece fases nem crises, que toda esperança está perdida quando ela se declara, e que o que aparece como evolução não é senão agonia mortal e processo de dissolução. Assim, posto que num sentido muito mais elevado, nossa vítima expiatória começou por essa paixão de dor. E se ela não morreu, foi porque sua vontade todo-poderosa impediu seu coração de quebrar-se e sua alma de separar-se do corpo antes que tivesse sofrido na cruz. Não. Nosso Senhor ainda não esgotou o cheio cálice, de que sua fraqueza natural se tinha de início desviado. O aprisionamento, a acusação, a bofetada, a paixão, o julgamento, as zombarias, as idas e vindas de um lugar para outro, a flagelação, a coroa de espinhos, a lenta subida ao Calvário, e a crucifixão — tudo isto viria ainda. Será preciso que uma noite e um dia se passem lentamente, hora por hora, antes que chegue o fim, que a crucifixão seja consumada.

Depois, quando o momento fixado veio e que ele deu a sua ordem, sua paixão terminou com sua alma, como com ela havia começado. Não morreu de esgotamento corporal, nem de dor corporal; seu Coração supliciado se partiu, e ele entregou o espírito ao seu Pai.

* * *

Ó Coração de Jesus, ó Todo Amor, eu vos ofereço essas humildes súplicas por mim mesmo e por todos que se unem a mim em espírito para vos adorar. Ó santíssimo Coração de Jesus, eu me proponho renovar e vos oferecer esses atos de adoração e essas orações por mim mesmo, miserável pecador que sou, e por todos os que estão associados na vossa adoração. Eu me proponho renová-la em todos os instantes, até meu último alento. Eu vos recomendo, ó meu Jesus, a Santa Igreja, vossa cara Esposa e nossa verdadeira Mãe, as almas que praticam a justiça, todos os pobres pecadores; os aflitos, os moribundos e todo o gênero humano. Não permitais que o vosso sangue tenha sido derramado por eles em vão. E dignai-vos enfim aplicar os seus méritos para o consolo das almas do Purgatório, especialmente daquelas que, no correr de sua vida, vos adoraram com devoção.

(A Ordem, Março – Abril, 1951)

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