SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

terça-feira, 30 de março de 2010

A ação angélica na Morte e Ressurreição de Cristo

O Anjo conforta Jesus Cristo No Horto das Oliveiras
Quando Nosso Senhor rezava no Horto das Oliveiras e passava por atrozes sofrimentos, chegando a suar sangue, um Anjo veio confortá-lo, conforme narra São Lucas: “Apareceu-lhe um anjo do céu, que o confortava” (Lc 22, 43).
Discute-se entre os teólogos como é que Ele, sendo Deus, pode ter recebido conforto de um Anjo. Segundo São Tomás de Aquino, este conforto não diz respeito a algum conselho, instrução ou iluminação dada pelo Anjo: “o alívio recebido do Anjo não se deu a modo de instrução, mas para manifestar a veracidade de Sua natureza humana” (Suma Teológica III, 12, 4, 1). Como Nosso Senhor tinha sido atribulado pelos demônios, enchendo Sua alma de tristeza mostrando todas as traições e pecados dos homens, o Santo Anjo veio, então, à Sua presença para mostrar as maravilhas, as virtudes magníficas que iriam ser germinadas com Seu Sangue após a fundação da Igreja e a correspondência dos justos até o fim dos tempos.
A narração tão singela no Evangelho de São Lucas é, entretanto, cheia de detalhes que nos movem à piedade nas visões da Beata Anna Catarina Emmerich. Antes do consolo angélico, a vidente viu de que forma os nossos pecados e os demônios atormentavam o Salvador:
“...Tive a clara impressão de que Jesus, entregando-se às dores da Paixão, que ia começar, e sacrificando-se à justiça divina, em satisfação de todos os pecados do mundo, de certo modo retirou a sua divindade para o seio da SS. Trindade; impelido por amor infinito, quis entregar-se à fúria de todos os sofrimentos e angústias, na sua humanidade puríssima e inocente, verdadeira e profundamente sensível, para expiação dos pecados do mundo, armado somente com o amor do seu coração humano... Entregue assim inteiramente à sua humanidade, implorando a Deus com tristeza e angústia indizíveis, prostrou-se por terra. Viu em inumeráveis imagens todos os pecados do mundo, com toda a sua atrocidade, tomou todos sobre si e ofereceu-se na sua oração para dar satisfação à justiça do Pai Celestial, pagando com os sofrimentos toda essa dívida da humanidade para com Deus. Satanás, porém, que se movia no meio de todos os horrores, em figura terrível e com um riso furioso, enraivecia-se cada vez mais contra Jesus e, fazendo passar-lhe diante da alma visões sempre mais horrorosas, gritou diversas vezes à humanidade de Jesus: “Que? Tomarás também isto sobre ti? Sofrerás também castigo por este crime? Como podes satisfazer por tudo isto?”
“Veio, porém, um estreito feixe de luz, da região onde o sol está entre as dez e onze horas, descendo sobre Jesus e nela vi surgir uma fileira de Anjos, que Lhe transmitiram força e ânimo”.
“...Voltando à gruta, com toda a tristeza que o acabrunhava, Jesus prostrou-se por terra, com os braços estendidos, e rezou ao Pai Celeste. Mas passou-lhe na alma nova luta, que durou três quartos de hora. Anjos vieram apresentar-lhe em grande número de visões, tudo o que devia aceitar de sofrimentos para expiar o pecado. Mostraram-lhe a beleza do homem antes do primeiro pecado, como imagem de Deus e quanto o pecado o tinha rebaixado e desfigurado. Mostraram-lhe como o primeiro pecado fora a origem de todos os pecados, a significação e essência da concupiscência e seus terríveis efeitos sobre as faculdades da alma e do corpo do homem, como também a essência e a significação de todas as penas contrárias à concupiscência. Mostraram-lhe os seus sofrimentos expiatórios primeiramente como sofrimentos de corpo e alma, suficientes para cumprir todas as penas impostas pela justiça divina à humanidade inteira, por toda a má concupiscência; e depois como sofrimento, que, para dar verdadeira satisfação, castigou os pecados de todos os homens na única natureza humana que era inocente: na humanidade do Filho de Deus, O qual, para tomar sobre si, por amor, a culpa e o castigo da humanidade inteira, devia também combater e vencer a repugnância humana contra o sofrimento e a morte. Tudo isto lhe mostraram os Anjos, ora em coros inteiros, com séries de imagens, ora separados, com as imagens principais; vi as figuras dos Anjos mostrando com o dedo elevado as imagens e percebi o que disseram, mas sem lhes ouvir as vozes..
“...Enquanto a humanidade de Jesus sofria e tremia, sob esta terrível multidão de sofrimentos, notei um movimento de compaixão nos Anjos; houve uma pequena pausa: parecia-me que desejavam ardentemente consolá-lo e que apresentavam as súplicas diante do trono de Deus. Era como se houvesse uma luta instantânea entre a misericórdia e justiça de Deus e o amor que se estava sacrificando.... Vi-O no momento da compaixão dos Anjos, quando estes desejavam consolar Jesus que, com efeito, teve neste instante um certo alívio. Depois desapareceu tudo e os Anjos, com sua compaixão consoladora, abandonaram o Senhor, cuja alma entrou em novas angústias...
“...Mas essas imagens consoladoras desapareceram e os Anjos mostraram-lhe a Paixão, mais perto da terra, porque já estava próxima. Estes Anjos eram muitos numerosos. Vi todas as cenas apresentadas muito distintamente diante dele, desde o beijo de Judas, até à última palavra na Cruz; vi lá tudo o que vejo nas minhas meditações da Paixão, a traição de Judas, a fuga dos discípulos, os insultos perante Anás e Caifás, a negação de Pedro, o tribunal de Pilatos, a decisão diante de Herodes, a flagelação, a coroação de espinhos, a condenação à morte, o transporte da cruz, o encontro com a Virgem Santíssima no caminho do Calvário, o desmaio, os insultos de que os carrascos O cobriam, o véu de Verônica, a crucifixão, o escárnio dos fariseus, as dores de Maria, de Madalena e João, a lançada do lado, em uma palavra, tudo passou diante da alma de Jesus, com as menores circunstâncias. Vi como o Senhor, na sua angústia, percebia todos os gestos, entendia todas as palavras, percebia tudo o que se passava nas almas. Aceitou tudo voluntariamente, sujeitou-se a tudo por amor dos homens. O que mais O entristecia era ver-se pregado na Cruz num estado de nudez completa para expiar a impudicícia dos homens: implorava com instância a graça de livrar-se daquele opróbrio e que pelo menos Lhe fosse concedido um pano para cingir os rins; e vi ser atendido, não pelos carrascos, mas por um homem compassivo. Jesus viu e sentiu profundamente a dor da Virgem Santíssima, que pela união interior aos sofrimentos do seu Divino Filho, caíra sem sentidos nos braços das amigas, no Vale de Josafá.
“No fim das visões da Paixão, Jesus cai por terra como um moribundo; os Anjos e as visões da Paixão desaparecem; o suor de sangue brotava mais abundante; vi-o escoar-se através da veste amarela encostado ao corpo. A mais profunda escuridão reinava na caverna. Vi então um Anjo descendo para junto de Jesus: era maior, mais distinto e mais semelhante ao homem do que os que eu vira antes. Estava vestido como um sacerdote, de uma longa veste flutuante, ornada de franjas e trazia na mão, diante de si, um pequeno vaso, da forma do cálice da última Ceia. Na abertura deste cálice se via um pequeno corpo oval, do tamanho de uma fava, que espargia uma luz avermelhada. O Anjo estendeu-Lhe a mão direita e pairando diante de Jesus, levantou-se; pôs-Lhe na boca aquele alimento misterioso e fê-Lo beber do pequeno cálice luminoso. Depois desapareceu.
“Tendo aceitado o cálice dos sofrimentos e recebido nova força, Jesus ficou ainda alguns minutos na gruta, mergulhado em meditação tranqüila e dando graças ao Pai Celeste. Estava ainda aflito, mas confortado de modo sobrenatural, a ponto de poder andar para junto dos discípulos sem cambalear e sem se curvar sob o peso da dor. Estava ainda pálido e desfigurado, mas o passo era firme e decidido. Enxugara o rosto com um sudário e pusera em ordem os cabelos, que lhe pendiam sobre os ombros, úmidos de suor e conglutinados de sangue”.(*)

(*) “Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus” – Anna Catharina Emmerich – Editora Mir, págs. 133/150.

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