SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Fundador do "Lar da Mãe" fala sobre sua instituição

Apresento na íntegra, entrevista do padre Rafael Alonso, fundador do "Lar da Mãe", cuja missão se poderá verificar na postagem anterior.
ROMA, domingo, 6 de julho de 2008 (ZENIT.org).- Assim como a dimensão mais profunda da crise que a Igreja atravessou em anos passados está na falta de fé na Eucaristia, sua força reside no amor por esse sacramento, assegura o fundador de uma das novas realidades eclesiais, após o Congresso Eucarístico Internacional de Québec.
O Pe. Rafael Alonso Reymundo, nascido na Espanha em 1947, fundou o Lar da Mãe, família espiritual estendida por vários continentes com um ramo feminino de religiosas, um masculino de sacerdotes, assim como com leigos jovens e adultos. No centro de sua espiritualidade está o amor pela Eucaristia, como explica nesta entrevista concedida à Zenit.

–O senhor não acha que a maior crise da Igreja, nesta e em outras épocas, deve-se à falta de fé na Eucaristia?

–Pe. Rafael: A falta de fé na Eucaristia é uma dimensão a mais – ainda que eu ache que é a mais profunda – da grande crise de fé em que estamos mergulhados por causa da soberba do homem, que pretende, se pudesse, sentar julgar o próprio Deus e condená-lo.
Eu conheci de perto muitos casos de alteração da fé eucarística.
Lembro que quando estive nas Milícias Universitárias – uma facilidade que se dava aos universitários para harmonizar os estudos com a obrigação de fazer o «serviço militar» na Espanha –, conheci um jovem a quem podemos chamar de Eugênio.
Esse jovem havia saído do noviciado de uma instituição missionária bem conceituada, que sofreu uma grande crise vocacional nos anos do pós-concílio, e estudava medicina. Concretamente, o mestre de noviços fornecia constantemente aos seminaristas livros de marxismo, comunismo, teologia da libertação, etc. O resultado foi que todos saíram da instituição, inclusive o mestre de noviços. Eugênio queria imitar o Che Guevara.
E ali estava ele. Fazendo a «mili» comigo e na minha barraca. Éramos cerca de 5 mil jovens universitários naquele acampamento. O interessante é que ele ia à missa livremente e comungava; mas durante o dia blasfemava, cantava canções contra o Papa, contra a Igreja, etc. Eu tentei conscientiza-lo de sua incoerência. E lhe pedi que deixasse de comungar nesse estado. E lhe perguntei: por que você comunga? Ele me disse para ele tinha um valor simbólico: comungava no meio do povo operário explorado pelos capitalistas. Eu lhe sugeri que levasse um pedaço de pão à barraca de acampamento e que o comesse na frente de todos. É uma simples história que ilustra essa grande crise de fé que deu frutos tão amargos. Deve-se pensar se a relação dos fiéis com Cristo Eucaristia não foi se destruindo e foi substituída pela televisão e outras formas de evasão e distração do «único necessário». E isso afetou em grande parte as comunidades religiosas e de consagrados. É difícil analisar as causas disso. Mas acho, como Paulo VI, que também existe um elemento estranho, espiritual e pessoal que interveio e que foi mencionado em «O Credo do Povo de Deus».

–A força dos primeiros cristãos era a Eucaristia. O senhor não vê muitas semelhanças entre o mundo em que aqueles discípulos e apóstolos viveram e o mundo de hoje?

–Pe. Rafael: Um padre jesuíta dizia que a Eucaristia era o «pão que alimenta leões».
Eu comentei esta frase muitas vezes aos jovens e os alentei a alimentar-se d’Ele.
O leão está em muitos escudos heráldicos. Representa a força.
O leão é o mais forte dos animais selvagens, ou pelo menos foi considerado assim pelos homens.
Acho que a Eucaristia é nossa força, nosso vigor. Assim nos disse Jesus Cristo: «quem come minha carne e bebe meu sangue tem vida», o que quer dizer que se não comemos sua carne e não bebemos seu sangue, não temos vida, ou seja, morremos sobrenaturalmente.
Quando Santo Inácio de Antioquia diz que quer «ser trigo moído nos dentes dos leões» é para tornar-se Eucaristia com Cristo. Certamente, é da Eucaristia que tiravam a força. Os futuros mártires do norte da África foram exortados a abandonar a celebração eucarística dominical e eles responderam: «Não podemos viver sem a Eucaristia».
Na atualidade acontece a mesma coisa. Os cristãos que têm consciência de sê-lo e estão bem formados tampouco podem viver sem a Eucaristia. Como passar uma semana sem a celebração eucarística dominical? Acho que em muitos grupos se recuperou essa sensibilidade para com a Eucaristia. E creio também que o responsável por isso é o faz o Espírito Santo, que nunca abandona a Igreja.
Impressionou-me a intervenção de Elizabeth Nguyen Thi Thu Hon, irmã do cardeal Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, no passado Congresso Eucarístico Internacional, celebrado em Québec, no qual apresentou textos desconhecidos de seu irmão, desde a prisão no Vietnã. Ele dizia aos seus pais: «Queridos papai e mamãe, não pesem seus corações com a tristeza. Vivo cada dia unido à Igreja universal e ao sacrifício de Jesus». Considero que estes são nossos confessores e mártires de hoje.
E a união entre eles e os mártires dos primeiros séculos, e em todos os séculos, é constituída pelo amor de Deus, que vem a nós muito especialmente na Eucaristia.

– O senhor viu o amor à Eucaristia refletido em algumas pessoas?

–Pe. Rafael: Certamente sim. Eu sou devedor de muitas pessoas que me ajudaram a penetrar na profundidade do mistério eucarístico. Elas foram e são ícones e pontos referenciais em minha vida eucarística. Em primeiro lugar, quero prestar uma homenagem à Providência, que me fez conhecer um sacerdote romeno. Não sei o nome dele. Ele já deve estar contemplando Àquele a quem adorou na terra. Eu o ajudei na missa. Era um vigário geral de uma diocese romena. Na época do comunismo, ele passou – segundo me disse – 36 anos na prisão, não seguidos. «Conheci todo tipo de celas. Também as de castigo» – disse. Ele foi à Espanha porque admirava seu «catolicismo». Infelizmente ele saiu decepcionado. Ele me mostrou uma maletinha. Tinha fundo duplo. E me explicou que ia celebrar a Eucaristia vestido de encanador, com essa maletinha de «trabalho» pelas casas, na Romênia. Tirou um cálice dela. Era de prata, com o interior de ouro. Bastante grosso e pesado. Mostrou-me as pequenas formas que consagrava e os mini-corporais. Tudo diminuto.
Suas palavras me impressionavam. A seu lado eu era uma pulga na fé. Celebrou a missa. E eu o ajudei. A unção religiosa que ele irradiava me colocada frente ao mistério insondável que se tornava quase tangível. Ele orava profundamente.
Não posso esquecer tampouco o servo de Deus, Pe. Tomas Morales, S.J. (+1994), meu diretor espiritual. Sua forma de celebrar era solene, majestosa, recordava Pio XII. Para quem estava na celebração, parecia que o tempo parava e os presentes ficavam absortos no mistério.
E ultimamente não posso esquecer dois dias nos quais celebramos o Corpus Christi. Um foi com Sua Santidade o Papa João Paulo II. O último que ele pôde presidir. A missa foi celebrada pelo Cardeal Ruini. Acabada a missa, o Papa subiu no veículo em que o Santíssimo estava. Ele estava com muita dor e sofrimento, mas com os olhos fixos em Jesus Cristo Sacramento. Ele percorreu a Via Merulana em posição de adoração. Vê-lo era dizer: que fé este homem tem! E eu desejava ter uma fé como a dele.
E tive a mesma sensação no Corpus Christi deste ano, passado com Sua Santidade Bento XVI.
E há uma ingente multidão de almas profundas e simples, entregues ao Senhor, que modelaram e continuam modelando meu espírito, porque vejo nelas um autêntico amor e abertura ao mistério de Deus conosco.
Eu acho que nós, pastores, devemos aprender desses modelos para poder construir o Reino de Deus fundamentado em Cristo Eucaristia. E converter-nos, nós também, em modelos para nossos fiéis.

–Como o senhor descobriu, em sua vida, a presença real de Jesus no sacramento?

–Pe. Rafael: Eu tive a oportunidade de nascer em uma Espanha cheia de fé. A dimensão eucarística era co-natural ao nosso desenvolvimento cotidiano. A fé fazia parte de nossa vida.
Meus pais foram os que me levaram à missa dos domingos. Nunca opuseram resistência à transmissão da fé.
Desde que eu era criança, íamos em grupo da escola à catequese com o senhor pároco, que se chamava Juan. Era um homem de baixa estatura e enfermo, mas bom e zeloso do bem e do progresso espiritual de sua paróquia. Ele me catequizou e me admitiu entre seus «coroinhas». Eu lembro que a missa era muito cedo e, contudo, eu me levantava com grande vontade para «ajudar na missa». Aprendi as orações em Latim, as que tinha de responder ao sacerdote, através de uma cartolina impressa a duas cores. O que devia aprender estava de cor negra.
Servindo no altar, aprendi a amar o sacerdócio e a Eucaristia.
Outro fator importante foi o colégio.
Fui ao colégio da Sagrada Famíli, dos irmãos Maristas de Cartagena (Espanha). Existia o costume de solenizar o mês de maio com atos em honra de Nossa Senhora. E às quintas-feiras desse mês se celebrava a exposição do Santíssimo. Em uma quinta-feira do mês de maio, estando no segundo banco da fila da esquerda, olhando para o altar, eu senti o Senhor vivo na Eucaristia. E Ele me disse: «Tu vais ser meu, só meu, totalmente meu». Não ouvi isso com palavras exteriores. Ouvi em meu interior. Como se as palavras estivessem impressas em meu coração. Essas palavras correspondem exatamente ao que senti. Não outras.
É claro que essa experiência me marcou. Eu tinha cerca de 12 anos. E nos anos da infância e adolescência é quando mais se imprimem as experiências espirituais. E duram a vida toda.
Creio sinceramente que foi um processo onde intervieram a família, o colégio, a paróquia, a Ação Católica e a Cruzada de Santa Maria. Foi um crescimento constante e acho que ainda devo crescer mais no aprofundamento desse Sacramento.

–O senhor criou o Lar da Mãe que permitiu que muitas pessoas redescobrissem a fé na Eucaristia. Como fazem isso?

–Pe. Rafael: Não fazemos nada extraordinário. A Igreja tem os tesouros espirituais e os entrega a nós. Nós estamos atentos aos ensinamentos da Igreja.
Quando eu era um sacerdote recém-ordenado, meu bispo, o cardeal Marcelo Martín, de Toledo (Espanha), permitiu-me continuar exercendo a função de catedrático de Geografia e História no Instituto no qual lecionava antes. E me nomeou vice-reitor do Colégio Diocesano Nossa Senhora dos Infantes. Compreendi que o Senhor me colocava numa situação privilegiada para o apostolado com a juventude. E entendi que tinha de ser Ele quem atuasse neles. Só assim a mensagem que queria transmitir em suas almas chegaria a tocá-las.
Então eu centrei tudo em colocá-los em contato com Cristo Eucaristia, sabendo que Ele podia falar a seus corações, melhor que eu, o que necessitavam. E comecei a celebrar a Eucaristia meia hora antes de entrar nas aulas. E todos os dias eu lhes explicava um ponto do livro «A alma de todo apostolado», um magnífico tratado sobre a oração, de D.J. Chautard.
Depois começaram a perguntar-me mais coisas sobre a oração. Aproveitei a ocasião para organizar uns exercícios espirituais de 4 dias em uma casa dos Padres Franciscanos em Arenas de San Pedro (Ávila). No silêncio e na oração, aprofundaram mais no significado, conteúdo e realidade da Eucaristia.
O Senhor lhes falou muito, como sempre faz quando se oferece à juventude as verdades que a Igreja guarda.
O que os jovens rejeitam é um cristianismo light, um mini-evangelho à medida de seus gostos. Eles anseiam é a Verdade. E a Verdade é Jesus Cristo. Ele enche seus corações de esperança. Não gostam da mediocridade, e menos ainda que lhes ocultem a verdade. Quando a encontram, muitos se entregam.

Nenhum comentário: