SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O PENSAMENTO PLINIANO NA MÍDIA ESCRITA (XXIX)

Amor ao papado




Várias foram as oportunidades em que Dr. Plínio manifestou seu amor, fidelidade e admiração filial pelo papado. Um exemplo é o artigo estampado pela "Folha de São Paulo", abaixo transcrito:




“Do Sr. Jeroboão Cândido Guerreiro recebi a seguinte carta, valentemente escrita e “assinada” à máquina:
“Ao ler as notícias recentes sobre a manifestação antiprogressista em Roma, e seu triste desfecho, pensei no senhor.
“Assim, mil e quinhentos católicos de vários países desfilam em Roma para exprimir a Paulo VI seu desagrado ante a reforma que ele está fazendo na Igreja. Entre outras coisas , querem eles que o Bispo de Roma em nossos dias tenha o mesmo poder absoluto dos seus antecessores. Chegados à Praça de São Pedro, eles permaneceram em submissa vigília de orações, a pedir que Deus ilumine o Papa Montini. Este, de seu lado, se mantém desdenhosamente de portas e janelas fechadas, durante todo o tempo em que ali permanecem essas ovelhas... às quais, entretanto, ele não tem outra inculpação a fazer, senão a de que são mais papalinas do que ele. A pobre grei da superfidelidade supercatólica e superpapalina se dispersa melancolicamente, sem ter ouvido do Pastor supremo, ao qual teimam em estar unidos, uma só palavra de afeto paterno. Mais pouco depois, Paulo VI em uma alocução os arrasou.
“Já dias antes, um “herege” (adoto aqui a terminologia dos teólogos católicos), como o Patriarca armênio Vasken, fora recebido com pompas como se fosse um papa, por Paulo VI, na Capela Sixtina. Agora, Paulo VI receber... certamente para algum “diálogo”, seguido de concessões, o líder contestatário (aliás bem mais simpático do que o senhor e a sua TFP), que o Cardeal Alfrink, de Ultrecht. Também poucos dias depois de dar com a porta na cara de seus infelizes superfiéis, Paulo VI recebeu, com distinção especial, os três guerrilheiros afro-lusos. Para agosto, está programada a visita de Tito ao Vaticano, onde será recebido com honras de chefe de Estado. E assim por diante.
“O senhor, Dr.Plínio, não percebe que as portas do Vaticano e o coração do Papa estão abertos para todos os ventos e todas as vozes, exceto para os ventos ideológicos que sopram do quadrante onde o senhor se situa, e para as vozes que dizem coisas semelhantes às que o senhor diz?
“Francamente, acho fantástica a sem-cerimônia com que o senhor afeta, em seus artigos, nada ver disto tudo, e se professa católico tão fervoroso e intransigente quanto se fosse Papa, hoje em dia, não Montini, mas Sarto (“São Pio X”), o truculento quebra-hereges do início do século.
“A intenção desta carta não é de mortificá-lo, dr. Plínio. Mas, enfim, a verdade é a verdade: abra os olhos para ela. Não há no mundo quem seja mais rejeitado pelo Papado moderno, e pela Igreja Nova, do que o senhor e seus congêneres.
“Meça bem o contraste. Durante o último Sínodo de Bispos, reuniram-se em uma igreja protestante de Roma alguns padres católicos supercontestatários, que levaram a Paulo VI uma mensagem sulfúrica. As portas do Vaticano se abriram para eles. Chegaram até à antecâmara papal. Entregaram sua mensagem. Paulo VI não os recebeu em audiência. Mas prometeu muito afavelmente que iria estudar os pedidos dos contestatários.
“E para a mensagem da TFP, implorando providências de Paulo VI contra o que o senhor chama a “infiltração comunista na Igreja”, assinada entretanto por 1.600.368 católicos? Nem uma resposta sequer teve Paulo VI! Pergunto: pode haver mais clara prova de rejeição?
“Entretanto, apesar de tomar assim com a porta na cara, o senhor se apresenta em público como um papista fanático, tão fanático como o senhor era quando, jovem ainda, se fazia notar nas fileiras dos congregados marianos, a vociferar o hino: “Viva o Papa, Deus o proteja, o Pastor da Santa Igreja”.
“O senhor não percebe, dr. Plínio, que tudo mudou, e que agora quem está na berlinda é o senhor?
“Tenha a coragem de explicar ao público sua posição contraditória de hoje...”.


Sr. Jeroboão Cândido Guerreiro (Jeroboão é o nome de protestante, confere. Este Jeroboão me parece pouco cândido e muito guerreiro), começo pela aliás fácil coragem de publicar a sua carta na íntegra.
Se bem que eu me sinta tentado a entrar em matéria apontando alguns erros de estilo, de pensamento e de História (presente e passada) do meu missivista, prefiro ir ao cerne do assunto, no pouco espaço que seu longo texto me deixa. E este cerne consiste – em se tratando de um interlocutor de formação protestante – em mostrar como se deveria portar um católico que estivesse, não precisamente nas condições em que me encontro, mas nas condições em que ele imagina que estou.
O sr. Jeroboão se engana. Não é com meu entusiasmo dos tempos de jovem, que eu me coloco hoje perante a Santa Sé. É com um entusiasmo ainda maior, e muito maior. Pois à medida que vou vivendo, pensando e ganhando experiência, vou compreendendo e amando mais o Papa e o Papado. E isto seria precisamente assim, ainda que eu me encontrasse – repito – exatamente nas circunstâncias que o sr. Cândido Guerreiro pinta.
Lembro-me ainda das aulas de catecismo em que me explicaram o Papado, sua instituição divina, seus poderes, sua missão. Meu coração de menino (eu tinha então 9 anos) se encheu de admiração, de enlevo, de entusiasmo: eu encontrara o ideal a que me dedicaria por toda a vida. De lá para cá, o amor a esse ideal não tem senão crescido. E peço aqui a Nossa Senhora que o faça crescer mais e mais em mim, até o meu último alento. Quero que o derradeiro ato de meu intelecto seja um ato de Fé no Papado. Que meu último ato de amor seja um ato de amor ao Papado. Pois assim morrerei na paz dos eleitos, bem unido a Maria minha Mãe, e por Ela a Jesus, meu Deus, meu Rei e meu Redentor boníssimo.
E este amor ao Papado, sr. Jeroboão, não é em mim um amor abstrato. Ele inclui um amor especial à pessoa sacrossanta do Papa, seja ele o de ontem, como o de hoje ou o de amanhã. Amor de veneração. Amor de obediência.
Sim, insisto: de obediência. Quero dar a cada ensinamento deste Papa, como de seus antecessores e sucessores toda aquela medida de adesão que a doutrina da Igreja me prescreve, tendo por infalível o que ele manda ter por infalível, e por falível o que ele ensina que é falível. Quero obedecer às ordens deste ou de qualquer outro Papa em toda a medida em que a Igreja manda que sejam obedecidos. Isto é, não lhes sobrepondo jamais minha vontade pessoal, nem a força de qualquer poder terreno, e só, absolutamente só recusando obediência à ordem do Papa que importasse eventualmente em pecado. Pois neste caso extremo, como ensinam – repetindo o Apóstolo São Paulo – todos os moralistas católicos, é preciso colocar acima de tudo a vontade de Deus.
Foi o que me ensinaram nas aulas de catecismo. Foi o que li nos tratados que estudei. Assim penso, assim sinto, assim sou. E de coração inteiro.
Como já disse, haveria de cá e de lá algumas precisões ou retificações a fazer aos fatos que o senhor narra. Imagino entretanto – para argumentar – que fossem tais que o senhor os pinta. E que as portas do Vaticano me tenham sido batidas, ou venham a ser-me batidas no rosto. Eu em nada alteraria minha atitude de fé, entusiasmo e obediência. E, além disto, me sentiria em perfeita felicidade.
Sabe o senhor o que nos ensina São Francisco sobre a perfeita felicidade? Para refrigério e gáudio de sua alma, eu o transcrevo dos “Fioretti”, embora resumidamente:
“Vindo uma vez S. Francisco de Perusa para S. Maria dos Anjos com frei Leão, em tempo de inverno, e o grandíssimo frio fortemente o atormentasse, (...) frei Leão perguntou-lhe: Pai, peço-te, da parte de Deus, que me digas onde está a perfeita alegria. E S. Francisco assim lhe respondeu: Quando chegarmos a S. Maria dos Anjos, inteiramente molhados pela chuva e transidos de frio, cheios de lama e aflitos de fome, e batermos à porta do convento, e o porteiro chegar irritado e disser: Quem são vocês? E nós dissermos: Somos dois dos vossos irmãos, e ele disser: Não dizem a verdade; são dois vagabundos que andam enganando o mundo e roubando as esmolas dos pobres; fora daqui; e não nos abrir e deixar-nos estar no tempo, à neve e à chuva com frio e com fome até à noite: então, se suportarmos tal injúria e tal crueldade, tantos maus tratos, prazenteiramente, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos contra ele (...) escreve que nisso está a perfeita alegria. E se ainda, constrangidos pela fome e pelo frio e pela noite, batermos mais e chamarmos e pedirmos pelo amor de Deus com muitas lágrimas que nos abra a porta e nos deixe entrar, e se ele mais escandalizado disse: Vagabundos, importunos, pagar-lhes-ei como merecem: e sair com um bastão nodoso e nos agarrar pelo capuz e nos atirar ao chão e nos arrastar pela neve e nos bater com o pau de nó em nó: se nós suportarmos todas estas coisas pacientemente e com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo bendito, as quais devemos suportar por seu amor: ó irmão Leão, escreve que aí e nisso está a perfeita alegria, e ouve, pois, a conclusão, irmão Leão. Acima de todas as graças e de todos os dons do Espírito Santo, os quais Cristo concede aos amigos, está o de vencer-se a si mesmo, e voluntariamente pelo amor suportar trabalhos, injúrias, opróbrios e desprezos (...)”


(A perfeita alegria – Folha de São Paulo, 12.07.70).




Ao lado, aspecto dos funerais de Paulo VI. Apesar de tudo ainda havia certa pompa, algo indissociável dos rituais da Igreja.

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