A lacrimação de Nossa Senhora em Nova
Orleans é o eco dolorido do aviso dado por Ela na Cova da Iria em 1917. O que
espera o mundo de hoje, que não se emenda de seus pecados?
Há um pequeno fato da
vida corrente, muitas vezes notado e que parece sem maior significação:
conversa-se com uma pessoa e, de repente, falta a ela o termo adequado para
exprimir seu pensamento. Ela tartamudeia, hesita e alguém que está ao lado lhe
propõe a palavra. A pessoa tem um alívio, toma a palavra com certa ênfase,
veemência e continua.
Para ela o pensamento
estava encalhado na mente, não se definia, não se exprimia enquanto aquele
vocábulo não aparecia, e a ejeção brilhante do pensamento que encontra a
expressão adequada é como que uma respiração para a alma que estava em suspenso
em todo o seu funcionamento.
As
saudades que gemem na alma dos contrarrevolucionários
Ora, para o homem de
hoje em dia acontece isso. Há em sua alma um contrarrevolucionário que dorme –
às vezes de um sono profundo, terrível, mas real -, que teria vontade de
objetar algo à Revolução que fala, que estadeia em suas pompas, se afirma,
proclama; contudo, diante dela ele não sabe o que dizer... Faltam-lhe não só as
palavras que proclamem a verdade, mas os símbolos, as cerimônias, os ritos que
a representam.
Não só isso – oh,
quanta dor! – faltam, no seu integral esplendor, na sua incondicional ortodoxia,
os ritos da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Essa é a falta suprema,
irremediável enquanto eles não forem restaurados!
Mas também à vida
civil, reduzida a uma tediosa banalidade e a uma trivial vulgaridade, faltam-lhe
as cerimônias, os estilos, aqueles reluzimentos das pompas de outrora, nas
quais os grandes encontravam a expressão de sua grandeza e os pequenos a
grandeza da nação. Isso tudo desapareceu quase completamente.
Há, pois, na alma do
homem contemporâneo algo que geme à procura de expressão. É o
contrarrevolucionário que gostaria de se manifestar. Prova disso – e quão
eloquente – tivemos com o casamento do Príncipe Charles.[1]
Calcularam-se em dezenas de milhões de pessoas do mundo inteiro que acordaram
ou se mantiveram despertas em horas incômodas, para assistir à cerimônia do
início ao fim.
Por que um cerimonial
na longínqua Inglaterra – respeitável enquanto escrínio de tradições – atraiu
os olhos do mundo inteiro? É única e exclusivamente porque o mundo tinha
saudades deles.
Tinham saudades os
homens de idade madura que ouviram falar delas como algo que ainda palpitava
nas recordações de há pouco, mas que não chegaram a vê-las; tinham saudades os
jovens, para os quais elas faziam parte de uma mitologia. Todos queriam
contemplar alguém que andasse numa carruagem dourada, com pajens, com lacaios;
desejavam ver corcéis magníficos que cavalgam, queriam os desdobramentos de
pompas de outrora porque algo lhes dizia: "Temos saudades do cerimonial!”
Quanto é verdade que
essas saudades são mais intensas, não na alma do homem comum que anda pela rua,
no qual dorme um contrarrevolucionário, mas na alma do contrarrevolucionário
que tem saudades das pompas nas quais ele se exprimia inteiramente. Saudades de
um passado que lhe falava de sobrenatural, de fé, de grandeza, de
combatividade, de harmonia, de arte, de bom gosto, de desfiles que davam a
impressão de fabulosos exércitos que andavam nas nuvens. Disso tem saudades, no
fundo de sua alma, o contrarrevolucionário, porque tem vontade de exprimir
aquilo que deseja, mas que não encontra as formas externas que deem respiração
e expressão ao que está em seu interior.
Nossa
Senhora, a profética beleza do gênero humano
Essa foi a alegria que
experimentamos nesta cerimônia[2] em
que festejamos Nossa Senhora do Carmo, a título especial Rainha dos Profetas,
Mãe e esplendor do Carmelo – Mater et
decor Carmeli.
Do alto do Monte
Carmelo, a montanha profética por excelência, Nossa Senhora reina e sorri para
o universo, governa a História e infunde terror aos demônios.
Ela é a Mãe, porque
protege todos aqueles que lutam sob seu estandarte. E o melhor da proteção é
acalentar a alma deles com a esperança da vitória.
O que significa decor? No português corrente diz-se de
algo que mantém ou ressalta, viola, transgride ou comprime e decoro. O que é o
decoro? É propriamente a beleza da dignidade. É o pulcro majestoso, distinto e
diferenciador da grandeza, que na medida em que se ergue e se manifesta
superior, rejeita a banalidade e atrai a si as almas verdadeiramente capazes de
compreendê-lo. Essa é a velha acepção do vocábulo.
Do cimo do Carmelo
Nossa Senhora reina maternal, mas decorosamente. Ela é a profética beleza do
gênero humano.
Embora voltar-se para o
passado seja uma das atitudes nobres da alma humana – feita de riquezas que não
se esgotam nessa atitude -, ela pede algo a mais, pois tem vontade de produzir
o futuro. O bem-estar da alma existe quando o homem nota uma continuidade entre
o passado e o futuro. O sentido do presente é de ser um hífen e não uma gora
sem nexo atirada à margem do tempo.
Nesta cerimônia não
houve apenas a rememoração saudosa do passado, mas uma afirmação de que esse
passado, no que ele tem de perene, quer e vai renascer. Muito mais que um
pressentimento, ela foi a prelibação do Reino de Maria que nasce, porque, neste
presente de ruína e de miséria, o que há de mais verdadeiro é que Maria
vencerá! Eis a promessa de vitória e de êxito que paira sobre o pantanal do
mundo moderno.
As
lágrimas de Nossa Senhora em Granada
Neste ano, a festa de
Nossa Senhora do Carmo coincide com o décimo aniversário da lacrimação da
Sagrada Imagem em Nova Orleans[3]. E
ao cabo desses dez anos, Nossa Senhora chorou sangue, em Granada.[4]
Qual é a relação entre
um pranto de lágrimas e um pranto de sangue? Os símbolos falam por si.
Lágrimas, chora a mãe quando chega ao extremo de sua dor. Durante vinte séculos
a Igreja venerou Nossa Senhora lacrimosa aos pés da Cruz, donde esta frase de
um belíssimo cântico: “Stabat Mater
dolorosa, iuxta crucem lacrimosa” – junto à Cruz, cheia de dor, estava a
Mãe lacrimejando”. A piedade comum imaginou Nossa Senhora no auge da dor,
vertendo lágrimas indizivelmente preciosas que lhe ensopam a túnica e o manto
sagrado... Também escorre o Sangue infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus
Cristo, misturando-se, quiçá, com essas lágrimas, como a primeira água a
misturar-se com o vinho para a primeira Missa.
O amor materno é tão
nobre, venerável e sensível, que facilmente atinge o extremo da dor, pelo
sofrimento causado pelo mau filho. Entretanto, não se ousa afirmar que uma mãe
chegou a chorar sangue.
Consideremos uma mãe
muito infeliz que diz: “Passei a noite chorando”, dir-se-á: “Coitada!”, olha-se
para ela com compaixão. Mas se ela disser: “Eu chorei sangue”, pensa-se: “Que
importa!”, porque mesmo as maiores aflições do amor materno não levam
correntemente a chorar sangue.
Isso é tão comum na
História, que o homem tem arrepio quando imagina que um sofrimento moral levou
alguém a esse extremo.
Nossa Senhora, em
Granada, chorou sangue para dizer que a dor que durante tantos anos A
entristeceu – dez anos -, foi aumentando; o castigo que Ela receia para os
homens foi aumentando também, e não há palavras que exprimam a punição que se
aproxima...
O mundo
contemporâneo impenitente provoca a ira de Deus
Nós vivemos no século
do dinheiro, portanto, na era dos juros. Não nos damos conta de que nos
“bancos” de Deus o castigo dá juros tremendos. E quando um homem que tem
espírito de fé vê impune o pecado, o que ele deve pensar é: “Pobre miserável..
que juros tremendos estão se acumulando sobre ele!”
Quando ouvimos falar de
uma cidade qualquer sobre a qual em certo momento tenha baixado a punição de
Deus, se nos dissessem que um ano antes do castigo seus habitantes tinham sido
avisados por sinais, nós diríamos: “Que terrível! Quanto mais antiga a ameaça,
mais dá mostras de quão irado está Aquele que vai castigar!”
Como será um castigo
que fez Nossa Senhora chorar há dez anos? Que terror, que portento, que
tormentos! Mas se fossem apenas dez anos! A lacrimação de Nova Orleans é o eco
dolorido do aviso dado por Ela na Cova da Iria em 1917. Mais ainda: o aviso
feito por Nossa Senhora de Fátima é, ele mesmo, eco daqueles dados por Ela no
século anterior, em La Salette, ou quando apareceu a Santa Catarina Labouré. Na
Rue du Bac Ela previu as devastações da Comuna em Paris. Ela alertou em 1830, e
em 1870 caiu o terrível castigo, como quem diz: “Eu aviso uma vez e logo se
cumpre o que eu disse”.
E, apesar do afeto e da
veneração que tenho pela França, é preciso dizer: depois que ela foi invadida
pelos prussianos[5],
ela nunca mais foi a mesma. Ela se recompõe em parte, mas nela algo ficou como
uma vergastada na face. Nem sequer os louros da guerra que ela ganhou com o
apoio de quase todas as nações da Terra recompuseram as tristezas desse gilvaz[6]
que no rosto lhe ficou marcado.
Se por pecados tão
menores o terrível precônio[7] se
cumpriu, o que espera o mundo de hoje que não se emenda de pecados universais
imensamente mais graves, repetidos em condições históricas mais
impressionantes? Oh, que castigo!
Nós, e sobretudo
aqueles que estão sob a ameaça do castigo deveriam chorar sangue para se
penitenciar, porque quando se provocam lágrimas de sangue à própria Mãe, o
único modo proporcionado de pedir perdão é chorar lágrimas semelhantes às
d’Ela. Sangue com sangue se paga. E como está longe disso o mundo
contemporâneo!
Cantaremos
eternamente as misericórdias de Nossa Senhora
Mas, vede como é Nossa
Senhora: Misercordia Domini in aeternum
cantabo[8]-
do mesmo modo nós cantaremos eternamente as misericórdias d’Ela, porque
irada assim e manifestando aos homens essas ameaças, Ela quer dar graças
especialíssimas a alguns, atraí-los de modo particular e dizer-lhes:
“Vós, filhos do meu
amor materno, do vínculo com o gênero humano que não se rompeu inteiramente;
vós sois aqueles sobre os quais a misericórdia incidirá antes mesmo dos
terríveis castigos da justiça. Eu vos escolhi do meio de tantas nações, de
diversas partes do corpo social, de diferentes idades e de tantas condições, Eu
vos escolhi e vos reuni para serdes o ponto luminoso que deve brilhar nas
trevas deste mundo, para glorificar o passado que, se morre, deve morrer com
honra e prenunciar um futuro que, se nasce, deve nascer pequeno e desprezado para
depois prostrar por terra os grandes homens que disseram a esse pugilo: “Tu não
gerarás o futuro!”
Na sua misericórdia
imensa, no seu poder ilimitado, Nossa Senhora dispõe as coisas de maneira a ter
em vários lugares quem A ame na fidelidade ao passado e na esperança do futuro.
Esses são a continuidade histórica disposta por Ela. Entre esses, estamos nós
e, por isso, podemos dizer:
“Ó Mãe e Senhora,
esplendor do Carmelo, na vossa sabedoria profética Vós previstes o futuro da
Igreja, que resultaria de vossas preces unidas ao sacrifício infinitamente
precioso de vosso Filho. Em determinado momento de vossa previsão, foi-Vos
revelado que nós existiríamos. E Vós, para quem o futuro não tinha véus, pois
sois a Rainha dos Profetas, Mãe do único Profeta por excelência, Nosso Senhor
Jesus Cristo, quando pensastes nesta cerimônia realizada em vossa honra, Vós
sorristes e dissestes: “Eis meu desígnio que continua”.
Permiti que a seriedade
me sugira uma reflexão: será só o sorriso de Nossa Senhora que encontraríamos se
Ela olhasse para nós?
Necessidade
de um Confiteor
Adentremos no interior
de nossas almas e analisemos até que ponto estamos contentes conosco, até que
ponto damos a Nossa Senhora toda glória correspondente ao convite incomparável
que recebemos. Se formos sinceros, devemos nos lembrar daquelas palavras do
Salmo: “Si iniquitates observaveris,
Domine, Domine quis sustinebit? – Se observardes as iniquidades, Senhor,
Senhor, quem se sustentará em vossa presença? (Sl 129, 3).
Há apenas uma voz que
pode responder afirmativamente a essa pergunta. Essa voz enche a História: a da
Virgem Mãe. Ela não teve uma falta sequer, nunca deixou de corresponder
perfeitissimamente às graças mais superlativas e sofreu dores como não estamos
em condições de imaginar. Nós pensamos que, imaginando-A chorando sangue,
concebemos tudo; mas não compreendemos o que é a alma d’Aquela que é Filha do
Padre Eterno, Mãe do Verbo Encarnado, Esposa do Divino Espírito Santo e que vê
morrer o seu próprio Filho que é Deus.
Se a natureza toda entrou
em convulsões com a morte do Homem-Deus, muito mais sensível que as montanhas
que estremecem e do que o céu que se toldou era o Coração transpassado d’Aquela
que conhecia tudo, media tudo e amava a Deus como Ele merece ser amado.
Então, para nós é necessário
também um Confiteor. Não creio que
haja festa, comemoração ou alegria católica que, na seriedade da alma, possa
ser desacompanhada de um Confiteor,
porque o homem deve estar sempre à procura de uma oblação mais completa, de uma
pureza maior, mais íntegra e mais intransigente. Assim deve ser a alma
verdadeiramente católica.
Tenhamos isto em vista:
quando Nossa Senhora chora sangue por filhos que lhe foram indiferentes, que A
ultrajaram e perseguiram, filhos que A esbofetearam com as mãos na quais reluz
a unção sagrada, para consolá-La é imprescindível chorarmos as nossas próprias
faltas!
“Sede
amigos da minha dor, do meu pranto, da minha seriedade”
Nessa festa de Maria, Mater et decor Carmeli, foram oferecidas
a Ela o ouro, simbolizado pelo esplendor desta cerimônia; o incenso, das preces
e louvores que subiam dos corações; e eu venho com o terceiro presente: a mirra
amarga, mas preciosa, da seriedade e da severidade. Nisso o meu coração fala
por inteiro.
Com as lágrimas de
sangue vertidas em Granada, Nossa Senhora parece querer nos dizer: “Sede amigos
da minha dor, do meu pranto, da minha seriedade, da minha severidade”.
Essas são lagrimas de
severidade, da Mãe que quer converter os filhos, mas é solidária com o castigo
que vem. Ela quer que a punição se afaste, desde que os homens se convertam.
Nossa Senhora não pede: “Senhor, afastai o castigo”; Ela diz: “Senhor, dai-me
meios de fazer com que eles fujam do castigo, fugindo da culpa. Se eles ficarem
abraçados à culpa eu choro sangue, mas não tenho o que fazer”. Deus põe uma
condição: caso se arrependam, o castigo será afastado; do contrário ele virá.
Nesta quadra da História em que estamos, onde vivemos uma espécie de segunda Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo que está sendo crucificado no seu Corpo Místico, a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, amemos, portanto a seriedade, amemos a severidade, amemos a contrição, amemos a dor. (Conferência Santo do Dia, de 16/7/1982[9]
[1]
Celebrado em 29/7/1981.
[2]
Cerimônia em louvor a Nossa Senhora do Carmo, após a qual Dr. Plínio pronunciou
as palavras aqui transcritas.
[3]
Em julho de 1972, na cidade de Nova Orleans, EUA, uma imagem peregrina de Nossa
Senhora de Fátima verteu lágrimas humanas por 14 vezes.
[4]
Em 1982, na Basílica San Juan de Dios, em Granada (Espanha).
[5]
Guerra Franco-Prussiana (1870-1871(.
[6]
Ferimento, cicatriz na face.
[7]
Anúncio, proclamação, termo usado na Páscoa.
[8]
Do latim: Cantarei eternamente a misericórdia do Senhor.
[9]
Revista “Dr, Plinio”, edição n. 328, de julho de 2025, págs. 8/13
