terça-feira, 1 de setembro de 2026

IGREJA DO PILAR E DE SANTA LUZIA, EM SALVADOR (BA)

 


A devoção a Nossa Senhora do Pilar é muito divulgada na Espanha. No período de 1580 a 1640 o Brasil ficou sob domínio espanhol, havendo muita influência de espanhóis em aspectos culturais e religiosos na Bahia daquele tempo, já que era a capital da Colônia. Exemplos: devoções a Nossa Senhora do Pilar e de Monteserrat.

A Irmandade do Pilar foi fundada em 1718 em Salvador. A construção de sua igreja, porém, se deu em 1756.. O cemitério foi concluído em 1799 em um nível mais alto do que o edifício da igreja, no estilo neoclássico. A igreja, seu pátio interno com uma fonte e o cemitério em um nível superior formam um complexo arquitetônico exclusivo da cidade de Salvador.

Salvador foi geograficamente dividida em dez paróquias, ou freguesias, no século XIX. A igreja tornou-se o ponto focal da freguesia de Santíssimo Sacramento do Pilar; os moradores eram batizados, casados, eleitos pelas autoridades locais e eram enterrados naquela igreja, como nas demais existentes na cidade. A igreja do Pilar, situada numa das áreas comerciais da cidade baixa, abrigava em seu cemitério comerciantes portugueses ricos e escravos e libertos afro-brasileiros.

Inicialmente, a capela dedicada a Santa Luzia havia se instalado no ano de 1718 num pequeno convento carmelita que existiu onde fica o Trapiche Barnabé, na avenida Jequitaia, e a edificação da atual igreja foi iniciada em 1739, sendo concluída em 1756 por imigrantes espanhóis, apresentando elementos dos estilos barroco, rococó e neoclássico. O frontispício foi executado entre 1770 e 1780, com representação da padroeira em mármore, segurando uma custódia, na base de uma grande encosta abaixo do Carmo. Á direita do templo, está o cemitério da Irmandade, edificado em 1799. Toda a cantaria dos arremates veio de Portugal.

Vale lembrar que a Irmandade do Santíssimo Sacramento foi responsável pela construção de várias igrejas do Brasil com a dedicação à Nossa Senhora do Pilar. Foi aquela Irmandade que também edificou belíssimas igrejas em Minas Gerais, como em São João del Rei e Ouro Preto.

Respeitando costume religioso da época, o rei de Portugal contribuiu financeiramente para as obras da capela.  No ano de 1756, os irmãos da confraria obtiveram autorização para aplainar uma parte do morro em frente à igreja, para que pudesse ser feito um adro.

O frontispício da igreja, até a base do frontão, possui ornamentação em pedras de lioz, que foram importadas de Lisboa.

 

FESTA DE SANTA LUZIA

 

Havia uma capela dedicada a Santa Luzia na região próxima ao porto de Salvador, tendo sido destruída por um incêndio em meados do século XIX. A imagem de Santa Luzia escapou ilesa do incêndio, sendo levada pelos devotos para um altar da Igreja do Pilar. Um fato ocorrido no início do século XX teria dado início às romarias na Igreja do Pilar em louvor à Santa Luzia. Conta-se que um cego que sentia muito calor resolveu lavar o rosto com a água da fonte que jorra na região do comércio. Ao levantar o rosto lavado pela água, o homem teria enxergado o azul do céu e, devido à forte emoção, teria morrido uma semana depois. A partir  daí, e até hoje, centenas de fiéis formam fila para armazenar a água da Fonte de Santa Luzia, localizada numa gruta ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Pilar. A Festa dedicada à Santa se inicia às 5:30 da manhã do dia 13 de dezembro com uma alvorada de fogos. Várias missas se seguem durante a manhã e à tarde. Após a missa das 16:30 horas, uma procissão percorre as ruas do Comércio em direção à Basílica da Conceição da Praia.

 


IGREJA DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO E NOSSA SENHORA DO PILAR

 

Situa-se a igreja na parte baixa da cidade, próxima ao porto, no sopé da montanha que divide a cidade em dois níveis. Está situada no final da Rua do Pilar, por detrás de onde era antigamente a Receita Federal e o antigo “Mercado do Ouro”.  Na vizinhança da igreja estão situados grandes armazéns e sobrados convertidos em pardieiros, muitos deles próximos à Praça Marechal Deodoro

Durante 17 anos ela permaneceu fechada, em reforma, tendo sido reaberta em abril de 2012, mostrando grande riqueza cultural em suas paredes.

A igreja é precedida de um amplo adro, à direita do qual se encontra, em cota mais elevada, o cemitério da Irmandade de feição neo-clássica. Portal e cercaduras de janelas da igreja são de lioz talhados em Lisboa. Os artistas que trabalharam nela são hoje pouco lembrados. O teto da nave foi pintado por José Teófilo de Jesus. Existem azulejos do período 1750/60 de diferentes oficinas portuguesas. Os painéis de azulejos da nave são atribuídos à oficina do Juncal; os da capela-mor possuem cercadura rococó e fundo marmoreado azul. Existem ainda azulejos nos corredores laterais à capela-mor e na sacristia também de gosto rococó. Dentre a imaginária, destaca-se a imagem de Santa Luzia, do século XVIII. A igreja é rica em alfaias, possuindo coroa com 140 brilhantes, diadema de ouro proveniente do Porto, além de custódias e cálices.

Esta é uma das raras igrejas baianas a apresentar um alongamento da planta, que foi a preocupação dos arquitetos mineiros, possivelmente inspirados na igreja de S. Paulo de Braga (Portugal) do final do séc. XVII. Os corredores laterais foram suprimidos ao longo da nave e reduzidos a estreitas ligações ao longo da capela-mor que conduzem à sacristia transversal. Esta disposição é adotada também nas igrejas dos conventos franciscanos do Nordeste. Sua fachada apresenta portas e janelas coroadas por frontões retilíneos e curvilíneos sem entablamento, executados em lioz de Lisboa, onde começava a florescer o espírito arquitetural que conduziria ao neo-clássico. Esta tendência, também notada em outras igrejas do mesmo período, como Conceição e Santana, não vingaria na Bahia, a não ser no século seguinte, na decoração interior. O frontão do corpo principal apresenta um tratamento rococó dos mais requintados e comprova a não aceitação na Bahia dos modelos que empolgavam Lisboa na época. A terminação da torre se assemelha às coberturas à Mansard, também notadas nas igrejas do convento do Carmo e Santana. O cemitério sob a influência do neo-clássico tomou a forma de um monumental pórtico eneástilo.[1]

Histórico arquitetônico: Frei Agostinho de Santa Maria informa que os fundadores da igreja foram Pe. Pascoal Duram de Carvalho, João Heitor e Manoel Gomes; 1718 - A Irmandade foi instituída e teve aprovação do seu compromisso em 1719; 1739 - Contribuição real para a edificação da capela-mor. Bazin acredita que a igreja tivesse sido iniciada nesse ano; 1756 - Decisão municipal autoriza desmontar encosta para construção do adro da igreja; 1770 - Execução do frontispício, segundo documento da Santa Casa de Misericórdia, citado por Bazin; 1796 - José Joaquim da Rocha faz o douramento e pintura da sacristia e seis painéis; 1798 - Fatura da cornija; 1799 - Encomenda a Felipe Ribeiro Filgueiras pedra do Reino para lajear a igreja e soleira das portas. Edificação do cemitério; 1834 - executados 8 painéis e douramento da talha por José Téofilo de Jesus; 1837 - Pintura do forro por José Téofilo de Jesus; 1838/39 - Encomendados a Joaquim Francisco de Mattos 4 altares da nave, 6 tribunas, 2 púlpitos, talha do coro, portas, molduras para painéis e obras do batistério; 1843 - Desabamento de terra arruína o consistório e retarda douramento da talha; 1848 - Douramento das novas talhas por Manoel Joaquim Lino; 1902 - Construção de dois novos altares laterais em gesso; 1903 - Substituição das grades de madeira do batistério por ferro.

(Fonte: Cd-room IPAC-BA: Inventário de proteção do acervo cultural da Bahia, Bahia, Secretaria de Cultura e Turismo.)

 

 

 



[1] Termo grego oriundo da arquitetura clássica que define um edifício com nove colunas em sua fachada principal.