SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O NOSSO ANJO DA GUARDA







Dando continuidade aos planos da Criação, após os seres angélicos, Deus resolveu criar os homens. Da mesma forma que fez com seus Anjos, os colocou num Paraíso natural e os submeteu a uma prova. O plano divino era que Adão e Eva gerassem tantos descendentes que enchessem a terra: “Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra...” (Gên 1, 28). Mas não bastava que a terra se enchesse de homens, era preciso que tudo nela estivesse sujeito a eles: “...e sujeita-a, e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu, e sobre todos os animais que se movem sobre a terra”.  Isto quer dizer que os planos de Deus era que a sociedade humana formasse uma Civilização perfeita, a exemplo dos coros angélicos, para depois gozarem da beatitude celeste.
Adão e Eva desde o princípio estavam sujeitos aos preceitos divinos, tanto para dar vazão à natureza humana, quando Deus disse “Crescei e multiplicai-vos”, quanto para saber contê-la, quando proibiu de comer dos frutos da árvore da ciência do Bem e do Mal. Permitiu Deus, pois, para prová-los, que o demônio lhes aparecesse em forma de serpente. Novamente, Lúcifer usa o argumento da igualdade com Deus, dizendo que se Eva comesse do fruto proibido se divinizaria, ficaria igual a Deus. E Eva, talvez pela primeira vez, usou da palavra, para conversar com a serpente e lhe ouvir tais argumentos...
No exato momento em que Deus permitiu que satanás se transformasse em serpente para tentar nossos primeiros pais, destinou também para eles seus Anjos Custódios, pois não poderia deixá-los desamparados à mercê do inimigo de suas almas. A partir daquele momento Deus havia ordenado que se destinasse para cada homem ou conjunto de homens um Anjo da Guarda, Anjo Guardião ou Anjo Custódio. São Gregório Niceno diz: “Desde que a nossa natureza caiu no pecado, não ficou a nossa queda sem o socorro de Deus; um Anjo foi destacado para assistir à vida de cada um”.

a) Anjos Custódios das pessoas

Quando é que o Anjo da Guarda é chamado por Deus para estar ao lado da pessoa a fim protegê-la por toda a vida? Alguns afirmam que é no momento em que a pessoa é gerada ou em que é criada a alma dela por Deus, outros dizem que somente no momento em que nasce, pois antes de nascer a criança é protegida no ventre pelo Anjo da Guarda de sua mãe. É provável que Deus designe o Anjo da pessoa já no momento em que ela é gerada e criada sua alma, porém como a ação dele no ventre da mãe pode ser entregue ao Anjo Custódio dela, somente ao nascer o Anjo da Guarda do recém-nascido passará a agir mais ativamente sobre ele.
Cada pessoa, seja pagão, herege ou cristão, tem o seu Anjo da Guarda. Apesar de apenas um só Anjo ser suficiente para proteger todos os homens existentes no mundo, Deus quis, por sua infinita Bondade, dá a cada um de nós individualmente um Anjo, que é exclusivamente nosso, o qual recebe a missão de nos proteger dia e noite, quer estejamos acordados ou dormindo, a sós ou no meio de outros, em casa ou na rua.  A algumas pessoas dotadas de uma vocação especial, Deus ordena que lhe sejam concedidas mais de um Anjo Custódio. Por exemplo, o Papa, provavelmente tem vários Anjos da Guarda a lhe proteger. Maria de Ágreda, em suas revelações sobre Nossa Senhora, afirma que a Santíssima Virgem tinha mais de mil Anjos protetores.  Mais abaixo veremos, por exemplo, que uma abadessa, irmã de Santa Matilde, tinha doze anjos lhe custodiando.       
De algum modo, cada um de nós é o sósia espiritual, psicológico, do próprio Anjo da Guarda. Como é legítimo que um pai tenha preferência por um filho que lhe é mais parecido, assim também se compreende que um Anjo tenha preferência por um mortal que com ele seja mais assemelhado e que haja um intercâmbio que depois continuará no Céu. Santo Agostinho faz a seguinte indagação: como podem os Anjos estar longe, se nos foram dados por Deus para ajudar-nos?.
A ação angélica de nossos Anjos Custódios produzem efeitos corporais e espirituais. Os efeitos corporais visam sempre a nos proteger dos males materiais, quais sejam, os acidentes, as doenças, como o fez o Anjo Rafael a Tobias quando disse: “Eu conduzirei são ao teu filho e são to reconduzirei”  (Tob 5, 20). De outro lado, muito mais fazem os Anjos para que surtam efeitos espirituais em seus tutelados, defendendo-os contra os demônios, sugerindo bons pensamentos, estimulando-os à prática do bem, fortalecendo a vontade no combate aos vícios e maus costumes, etc. 
Na Sagrada Escritura está confirmada a presença dos Anjos da Guarda entre os homens, como por exemplo nos Salmos: “O Anjo do Senhor acampa ao redor dos que o temem, e os liberta” (Sl 33, 8), “Porque mandou aos seus Anjos acerca de ti, que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te levarão nas suas mãos, para que o teu pé não tropece em alguma pedra” (Sl 90, 11-12), e no livro do Profeta Baruc: “Porque o meu Anjo está convosco e ele mesmo terá cuidado das vossas almas” (Baruc 6, 6). Diz Nosso Senhor no Evangelho: “Os Anjos destes meninos vêem constantemente a face de meu Pai que está nos céus” (Mt 18, 10).
Que faz por nós o Anjo da Guarda? Consagra ele toda a sua atiladíssima inteligência e saber, todo o seu poder, todo o seu amor à ação de vigiar, proteger, defender e auxiliar, por todos os meios possíveis, aquele filho de Deus que foi entregue a seus cuidados. O nosso Anjo da Guarda arde em desejos amorosos de que também nós participemos do seu júbilo e alegria em conhecer a Glória de Deus. Assim, os cuidados de nosso Anjo da Guarda são direcionados sobretudo para o bem de nossa alma, inspirando-nos bons propósitos, afastando-nos das más influências e das tentações do demônio, enfim, envidando todos os esforços (no plano meramente espiritual) para que possamos nos tornar santos. Age o Anjo em nossa imaginação, em nossa mente e no ambiente que nos rodeia a fim de que possa nos causar uma boa influência e nos faça caminhar para o Bem.
No final de nossa vida, um Anjo tem a sublime missão de nos levar ao Purgatório ou mesmo diretamente ao céu. Segundo doutos teólogos, compete a São Miguel levar as almas para o céu. Alguns santos, porém, têm sua alma elevada aos céus por mais de um Anjo, como ocorreu com São Germano, fato narrado por São Gregório Magno na biografia de São Bento:
“Havendo chegado a hora de descansar, subiu o venerável Bento a sua cela, situada na parte superior da torre, e o diácono Servando, por sua vez, ocupou uma habitação no piso inferior, de onde subia uma larga escadaria que dava acesso ao piso superior do edifício. Defronte a essa mesma torre havia uma ampla edificação na qual descansavam os discípulos de ambos.
“E eis que enquanto dormiam os irmãos, venerável Bento, solícito em velar, se antecipava à hora da oração noturna de pé, junto à janela, e orava a Deus onipotente. E aconteceu que, àquelas horas tardias, viu projetar-se do alto uma luz que, difundindo-se em redor, afugentava todas as trevas da noite e brilhava com tanto fulgor que, resplandecendo no meio da escuridão, era superior à do dia.  Nessa visão sucedeu um fato maravilhoso; porque, como ele mesmo contou depois, apareceu diante de seus olhos o mundo inteiro como que recolhido num único raio de sol. E enquanto o venerável Pai fixava suas pupilas no brilho da deslumbrante luz, viu que a alma de Germano, bispo de Cápua, era levada ao Céu pelos Anjos numa bola de fogo. Querendo então que outra pessoa testemunhasse tão grande maravilha, chamou o diácono Servando, repetindo duas ou três vezes seu nome com grandes brados. Turbado este pelo grito pouco habitual no santo varão, subiu, olhou e ainda pôde ver uma tênue réstia daquela luz”.[1]
Se a alma de São Germano era “levada ao Céu pelos Anjos”, impossível que um destes não fosse seu próprio Anjo da Guarda.
Mas não é só no plano espiritual que nossos Anjos da Guarda agem para nos amparar e proteger. Num plano inferior, que é o material, os Anjos também realizam ações que nos defendem de males, como doenças, acidentes e até morte prematura. No entanto, eles não nos livram de todas as cruzes e sofrimentos desta vida, que Deus nos manda para nossa santificação. Porém eles sempre nos ajudam a suportar com paciência as cruzes que Deus manda.

Se o Anjo da Guarda está sempre ao nosso lado...
Nosso Anjo da Guarda nos acompanhará sempre até o fim de nossa vida? De algum modo, sim, pois é esta a missão dele. Mas isto dependerá fortemente de nosso procedimento. Pois ele certamente nos parecerá abandonar se não formos fiéis às leis de Deus. São Basílio afirma que nossos pecados afastam de nós o Anjo da Guarda, sendo que o pior deles é o pecado carnal. Pois assim como o fumo afugenta as abelhas, também o pecado afasta o Anjo de nossa companhia. Mas este abandono não é completo, é apenas aparente...
A propósito, Nosso Senhor disse a Santa Margarida de Cortona: “Mando até os meus Anjos para que lhes assistam e, com freqüentes impulsos, incitem-nos a abandonar e a aborrecer o pecado”. Perplexa, pergunta a santa: “Então os Espíritos puros permaneciam junto dos pecadores impuros?”. Nosso Senhor respondeu que os Santos Anjos nunca abandonam os pecadores.
Não, os Anjos não abandonam a alma pecadora, mas já não estão mais a seu lado, não mais “comungam” com aquele espírito. O procedimento angélico a esse respeito, pode ser resumido assim: o Anjo da Guarda acompanha seu pupilo tentando conduzi-lo a Deus através de três vias: purgativa, iluminativa e unitiva. Quando a pessoa pratica as virtudes recebe luzes para seguir até Deus sendo iluminada, é a via iluminativa; quando cresce nas virtudes e se santifica, o Anjo mostra para ela a via unitiva, o coração dela se une ao Sagrado Coração de Jesus por ação e inspiração angélica; se a pessoa, porém, peca, o Anjo tem para ela a via purgativa, inspirando-lhe atos de arrependimento, contrição e penitência, para que possa assim voltar à amizade de Deus. O Anjo inspira, sugere, ajuda, mas deliberadamente não está mais a seu lado. E se a pessoa peca tanto, tanto, tanto que não tem mais jeito, só tem uma via para ela: a punitiva. Mas, mesmo através da via punitiva, existem fases: a primeira são as punições materiais, a segunda são as punições espirituais (estas duas, enquanto a pessoa ainda vive para que abra os olhos e volte-se para Deus), a fim de evitar que seja decretada a última e inapelável punição eterna, executada como sentença irrecorrível de Deus, mas exercida então pelos anjos maus, os demônios, no inferno.
A propósito, vejamos o que Nosso Senhor disse à vidente polonesa Santa Faustina Kowalska:
"Escreve: - Sou três vezes santo e abomino o menor pecado. Não posso amar uma alma manchada pelo pecado, mas quando se arrepende, não há limites para a generosidade que tenho para com ela. A minha misericórdia a envolve e justifica. Com a minha misericórdia persigo os pecadores em todos os seus caminhos, e alegra-se o Meu Coração quando eles voltam a Mim. Esqueço as amarguras com que alimentaram o Meu Coração e alegro-me com a sua volta. Dize aos pecadores que ninguém escapará ao meu braço. Se fogem do meu misericordioso Coração, cairão nas mãos de minha justiça. Dize aos pecadores que sempre espero por eles, presto atenção ao pulsar do seu coração, para ver quando bate por Mim. Escreve que falo a eles pelos remorsos da consciência, pelos malogros e sofrimentos, pelas tempestades e raios, falo pela voz da Igreja, e se invalidarem todas as minhas graças, começarei a Me zangar com eles, deixando-os a si mesmos, e dou-lhes o que desejam"[2].

Modo dos Santos Anjos da Guarda ajudar os homens
Um dos maiores contentamentos dos Santos Anjos é levar até Deus e Lhe oferecer nossas boas obras.  No Livro de Tobias, São Rafael diz como o fazia: “É boa a oração acompanhada do jejum, e dar esmola vale mais do que juntar tesouros  de ouro; porque a esmola livra da morte, é a que apaga os pecados e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna. Mas os que cometem pecado e iniqüidade, são inimigos das suas almas...  Quando tu oravas com lágrimas, enterravas os mortos, deixavas o teu jantar, escondias os mortos em tua casa de dia e os enterrava de noite, eu apresentei as tuas orações ao Senhor. E, porque eras aceito a Deus, por isso foi necessário que a tentação te provasse.  Agora o Senhor enviou-me a curar-te e a livrar do demônio a Sara, mulher do teu filho...”  (Tob 12, 8-15).
A caminho da casa de Sara, o Anjo Rafael diz a Tobias como e por que o protegerá:
“Ouve-me: eu te mostrarei quais são aqueles sobre quem o demônio tem poder. São os que se casam com tais disposições que lançam Deus fora de si e do seu espírito e se entregam à sua paixão, como o cavalo e o jumento que não têm entendimento. Mas tu, quando a tiveres recebido, tendo entrado na câmara, viverás com ela em continência durante três dias, e não cuidarás noutra coisa que em fazer oração com ela. Nesta mesma noite, queimando o fígado do peixe, será posto em fuga o demônio. Na segunda noite serás admitido na sociedade dos santos patriarcas. Na terceira noite conseguirás a bênção, para que de vós nasçam filhos robustos.  Passada a terceira noite, tomarás a donzela no temor do Senhor, levado mais pelo desejo de ter filhos, do que por sensualidade, a fim de conseguires nos filhos a bênção reservada à descendência de Abraão”  (Tob 6, 16-22).
Santa Matilde viu como doze Anjos assistiam a sua irmã, que era abadessa e estava enferma. Três Anjos iam expondo a Deus tudo o que à volta dela se passava, as virtudes que praticava e os obséquios que lhe iam prestando as irmãs que a assistiam. A seus pés, outros três lhe inspiravam paciência. A um lado, mais três sugeriam-lhe boa vontade, intenções piedosas e santos desejos. De outro lado, outros três acolhiam manifestações de respeito, veneração e caridade das irmãs para com a doente, indo todos alegremente depositar tudo aos pés do Rei do Universo. Como se vê, essa abadessa não tinha um só Anjo da Guarda, mas foram contados doze por Santa Matilde...
Normalmente, o Anjo guia o seu protegido de uma maneira invisível, mas existem casos raríssimos em que a ação é manifesta para que fique patente a obra de Deus. Foi o que aconteceu com um velho monge, conforme vem contado no livro “Esta é a Hora dos Anjos” (pág. 97). Vivia certo monge numa cela sozinho, retirado do mundo. O ermitão ia buscar água numa nascente que ficava distante de sua cela, e um dia ele começou a meditar: “E se eu desfizesse a cela e a reconstruísse junto da nascente? Estou velho, enfraquecido, evitaria muitas canseiras”. De repente avista um homem que o ia seguindo, contando seus passos. Logo viu que se tratava de seu Anjo, que assim anotava os sacrifícios que fazia para apresentá-los ao Altíssimo... Nova lição, ainda, ia lhe dar seu Anjo da Guarda. Como tinha uma pequena horta que lhe rendia algum dinheiro, pensou em juntar um pequeno pecúlio para prevenir-se no futuro. Estava já com seu cofrinho quase cheio quando lhe apareceu uma enfermidade no pé, fazendo-o esgotar todas as economias com remédios. Visitando seu médico, este diz que já era necessário amputar o pé. Aí o ermitão entra em pânico e reconhece o erro cometido, a falta de confiança na Providência que havia demonstrado. Cai de joelhos e chora amargamente, pedindo perdão a Deus. De repente, lhe aparece o Anjo e pergunta: onde está o dinheiro que tinhas ajuntado? Onde está a esperança que tinhas nele? Vendo-o sinceramente arrependido, o Anjo toca-lhe o pé e o deixa curado.

Estimuladores do santo temor de Deus nos homens
São Boaventura, ao dissertar sobre o santo temor de Deus, assim se expressa: “Por isso deve o homem considerar muito aquilo que há de pensar, o que há de falar e o que há de fazer, porque Deus vê tudo. De onde Boécio, no livro “De consolatione”, disse: “A vós, se não quereis dissimulá-lo, vos é grandemente necessária a probidade, pois que fazeis todas as coisas em presença do juiz que vê tudo”.  E em Ester se diz: “Vos tenho visto, Senhor, como a um anjo de Deus, e com o temor de sua majestade se há conturbado meu coração. Porque vós, oh Senhor, sois em extremo admirável, e está teu rosto cheio de graça”.(15, 16). – Vos tenho visto, Senhor!, como a um anjo de Deus. O anjo vê e examina com atenção todas as coisas, aprova as boas e reprova as más; ademais, o anjo ama o bom e odeia o mal”.[3]

b) Anjos Custódios de cidades e nações

Não existem Anjos Custódios somente para os homens. Deus determinou que houvesse Anjos da Guarda também para cidades, povos e nações inteiras. Segundo São Dionísio, a quantidade de nações foi estabelecida por Deus em função dos Anjos que determinou para guardá-las. Provavelmente, o momento em que o Anjo passa a proteger determinada cidade, povo ou nação, é naquele exato momento que aquela povoação adquire autonomia como tal.  A primeira notícia que se tem de um Anjo Custódio de um lugar foi a dos querubins que Deus colocou á porta do Paraíso terrestre, mas desta feita para evitar que os homens lá entrassem e se tornassem imortais: “Eis que Adão se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal; agora, pois, (expulsemo-lo do paraíso), para que não suceda que ele estenda a sua mão e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente. E o Senhor Deus lançou-o fora do paraíso, para que cultivasse a terra, de que tinha sido tomado. E expulsou Adão, e pôs diante do paraíso de delícias querubins brandindo uma espada de fogo, para guardar o caminho da árvore da vida ” (Gên 3, 22-24).

Anjos custódios dos persas, gregos e hebreus:
No Livro de Daniel (cap. 10, 12-14) há referências sobre o Anjo da Guarda dos hebreus, dos persas e dos gregos: “Então disse-me ele: Sabes tu por que é que eu vim ter contigo? Agora volta a pelejar contra o príncipe dos persas. Quando eu saía, apareceu o príncipe (ou Anjo custódio) dos gregos, que vinha. Mas eu te anunciarei o que está expresso na escritura da verdade; e em todas estas coisas ninguém me ajuda senão Miguel, que é o vosso príncipe. (Dan 10, 20-21). “E eu (Gabriel), desde o primeiro ano de Dario medo, estava junto dele para o sustentar e fortificar. (Dan 11,1). “Naquele tempo se levantará o grande príncipe Miguel, que é o protetor dos filhos do teu povo.  (Dan 12, 1).
Como se vê pelo texto acima, o Anjo da Guarda do povo judeu é o próprio São Miguel, parecendo indicar que São Gabriel era ele também o Anjo Tutelar de Dario ou dos medas.

O Anjo da Guarda de Portugal
Um outro exemplo histórico de Anjo da Guarda de um povo nós verificamos por ocasião das aparições de Fátima. Um ano antes das aparições de Nossa Senhora de 1917, os três pequenos pastores Lúcia, Jacinta e Francisco por três vezes tiveram aparições de Anjos: na primeira o Anjo se apresentou como “Anjo da Paz”, mas na segunda como o Anjo da Guarda de Portugal. Na terceira aparição não se diz que Anjo era, podendo indicar que era o mesmo.

Anjo Custódio de Barcelona
São Vicente Ferrer, poderoso taumaturgo, converteu milhares de judeus e muçulmanos e foram contados para sua canonização 873 milagres, enquanto seus cronistas afirmam que fez mais de 40 mil.
Um dia, quando chegava às portas de Barcelona, seguido de umas três mil pessoas, São Vicente viu um formoso jovem que tinha na mão uma espada desembainhada e a quem ele perguntou:
- Anjo de Deus, que fazes tu aqui?
Ao que o Anjo responde:
- Por ordem do Altíssimo, guardo esta cidade.
Era o Anjo Custódio de Barcelona. Em memória deste prodígio colocaram na referida porta o nome de “Porta do Anjo” e ali construíram uma capela em sua honra.

O Anjo da Guarda da Hungria
Olíbrio, rei da Hungria, estava disposto a dar combate aos Tártaros e confiava absolutamente em suas forças. Mas veio visitá-lo um bispo muito santo que o aconselhou a nada empreender sem primeiro fazer oração, devendo se dirigir especialmente ao Anjo da Guarda do seu reino, pois ele decerto lhe inspiraria o que devia fazer.
O rei aceitou de boa vontade a sugestão, e orou fervorosamente. Quando estava rezando apareceu-lhe então o Anjo Custódio de seus reinos e lhe falou solenemente:
- Não saias a campo contra esse povo, porque nisto em que te empenhas não tens razão e acabarás por ser vencido. Não confies nos grandes exércitos que possuis porque o Anjo dos Tártaros pelejará por eles, e eu não te valerei.
Profundamente impressionado e agradecido, Olíbrio aproveitou o aviso celestial e fez as pazes com o rei dos Tártaros. Mandou depois fazer grandes solenidades em honra do Anjo da Guarda do seu reino, e pôs a imagem dele sobre a sua coroa.
A partir deste episódio, tornou-se costume entre os reis e príncipes da Hungria invocarem sempre nas ocasiões solenes a Deus, por intermédio do seu Anjo, e nada resolviam de grave sem ter feito esta oração.

O Anjo Custódio da Irlanda
Nos relata o Venerável Beda que um dos reis da Irlanda tinha grande devoção aos Santos Anjos, e costumava orar-lhes com muito fervor. Teve, porém, um mau conselheiro e começou a malquistar-se com os seus súditos, pelo que estes se juntaram contra ele, resolvidos a moverem-lhe guerra.
Ao saber disso, o rei ficou perturbado e inquieto, mas eis que lhe apareceu o seu Anjo da Guarda, todo resplandecente de alegria e glória, que lhe diz:
- Não temas. Pela devoção que sempre me tens tido, assim como aos outros Anjos, obtivemos de Deus que os outros príncipes e teus súditos se decidissem a fazer aliança contigo. Mas, por teu lado, tens de apartar de ti esse mau conselheiro, e esforçar-te por contentar os bons homens do teu reino.   
O que fez o rei, com ótimos resultados.

O Anjo Custódio de Roma e do Sumo Pontífice
Estando numa de suas costumeiras orações um Anjo manifestou-se ao Beato Palau da seguinte forma:
“Pelo ano 1864, havendo-me retirado para este monte, uma grande voz, que há 20 anos me falava nos desertos sobre os destinos de nossa Ordem, a qual não sabia de onde procedia, me disse com grande força o que segue:
“Eu sou o anjo de que fala o capítulo XX do Apocalipse; a mim está confiada a custódia do pendão do Carmelo e a direção dos filhos desta Ordem. Eu guardo o trono pontifício de Roma e os muros desta cidade, frente aos demônios e à Revolução que a circunda. Venho a ti enviado por Deus para instruir-te sobre o futuro da Ordem a que pertences para que saibas a missão que hás de cumprir e sua forma.
“Eu vou abandonar Roma. Tirarei dela o trono pontifício e a cidade será entregue ao poder dos demônios e da Revolução. Roma não será mais o centro da religião de Jesus; degolará a seus sacerdotes e religiosos e outra vez se constituirá inimiga de Cristo e de sua Igreja. O trono do Sumo pontificado não voltará mais para ela, porque será trasladado para outro lugar”.

Pouco tempo depois as tropas de Garibaldi invadiam os Estados Pontifícios, Roma foi saqueada e a Igreja perseguida, vários religiosos foram trucidados, o Papa teve que fugir, e no seu retorno, não mais reinou em Roma mas no pequeno território que lhe foi reservado, o Vaticano, onde reside até os dias atuais. Roma, como se viu, deixou de ser dirigida pelo seu Anjo tutelar para ser entregue





[1] “Vida e Milagres de São Bento” – São Gregório Magno – cap. XXXV.

[2] Diário da Serva de Deus Irmã M. Faustina Kowalska, Professa Perpétua da Congregação de N. S. da Misericórdia" - Congregação dos Padres Marianos - Curitiba(PR) - pág. 486.

[3] Obras de San Buenaventura” – Vol. V – BAC – pág. 381

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