SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA

SÃO JOSÉ DE ANCHIETA E A NATUREZA
São José de Anchieta

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Anjos executores de ameaças e castigos




Segundo a doutrina de alguns teólogos, especialmente São Roberto Belarmino, compete aos Anjos executar os castigos divinos, são eles ministros da justiça divina:   “Último ofício dos Anjos é de serem soldados, ou chefes armados para tomarem vingança das nações e repreenderem os povos (Sl 149, 7).
“São esses Anjos que queimaram com o fogo e o enxofre a cidades infames (Gên 19, 14), que mataram todos os primogênitos do Egito (Ex 12, 19), que prostraram muitos milhares de assírios com um só golpe (IV Reis 19, 35); serão esses Anjos que no derradeiro dia separarão os homens maus dos justos, e os lançarão no fogo ardente do inferno (Mat 13, 41-42)”. [i]
Numa extraordinária visão, o Profeta Ezequiel nos mostra como os Anjos atuarão num castigo formidável que Deus daria aos homens. Embora as imagens proféticas sejam meramente simbólicas, tudo indica que tal castigo ainda não ocorreu, pelo menos da forma como é descrito:
“Com uma grande voz gritou aos meus ouvidos, dizendo: Os visitadores da cidade estão a chegar, e cada um tem na sua mão um instrumento de morte. E eis que vinham seis homens pelo caminho da porta superior que olha para o aquilão[1], e cada um trazia na sua mão um instrumento de morte; via-se também no meio deles um homem vestido com roupas de linho e um tinteiro de escriba à cinta; entraram e puseram-se junto ao altar de bronze.
“A glória do Senhor de Israel elevou-se de cima dos querubins, sobre os quais estava, indo-se pôr à entrada da casa (do Senhor); chamou o homem que estava vestido de roupas de linho e que tinha um tinteiro de escriba à cinta. O Senhor disse-lhe: Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e com um tau marca a fronte dos homens que gemem e que se doem de todas as abominações que se fazem no meio dela. Aos outros disse, ouvindo eu: Passai pelo meio da cidade, seguindo-o, e feri: não sejam compassivos os vossos olhos, nem tenhais compaixão alguma.  O velho, o jovem e a donzela, o menino e as mulheres, matai todos, sem que nenhum escape; mas não mateis nenhum daqueles sobre quem virdes o tau; começai pelo meu santuário.  Começaram, pois, pelos anciãos que estavam diante  da casa do Senhor. E disse-lhes: Profanai a casa e enchei os seus átrios de mortos; depois saí.  Eles saíram e iam matando os que estavam na cidade. Acabada a matança, fiquei eu ali. Lancei-me prostrado com o rosto por terra e disse, gritando: Ai, ai, ai, Senhor Deus! porventura destruirás tu tudo o que resta de Israel, derramando o teu furor sobre Jerusalém? Ele disse-me: a iniqüidade da casa de Israel e da casa de Judá é excessivamente grande, a terra está toda coberta de sangue e a cidade está cheia de apostasia; porque eles disseram: O Senhor abandonou a terra, o Senhor não vê. Pois também o meu olho não poupará, nem terei compaixão alguma; sobre a sua cabeça farei recair as suas obras. E eis que o homem, que estava vestido de roupas de linho e que tinha o tinteiro à cinta, deu esta resposta, dizendo: Fiz o que mandaste”.   (Ez. 9, 1-11). 
Além dos castigos contra Sodoma e Gomorra, executados por Anjos, temos também na Sagrada Escritura vários exemplos de castigos feitos contra homens maus ou inimigos de Deus, ou até mesmo contra o próprio eleito quando prevaricava.

Davi
Quando o rei Davi contrariou a vontade divina, Deus mandou tremendo castigo contra o povo judeu:
“Mandou, pois, o Senhor a peste a Israel, desde aquela manhã até o tempo assinalado, e morreram do povo, desde Dan até Bersabéia, setenta mil homens. E, tendo estendido o Anjo do Senhor a sua mão sobre Jerusalém para a destruir, o Senhor compadeceu-se da sua aflição, e disse ao Anjo exterminador do povo: Basta, detém agora a tua mão. O Anjo do Senhor estava junto da eira de Areuna jebuseu. Davi, logo que viu o Anjo ferindo o povo, disse ao Senhor: Eu sou o que pequei, eu fui o que procedi mal; que fizeram estes, que são as ovelhas? Volte-se, te peço, a tua mão contra mim, e contra a casa de meu pai”  (II Sam ou II Reis 24, 15-17).

Castigo dos velhos que caluniaram a casta Susana
Conta a Sagrada Escritura, no livro de Daniel, que havia entre os israelitas uma mulher formosíssima e temente a Deus, chamada Susana. Dois velhos juízes, tomados do espírito de concupiscência, entraram no jardim particular de Susana de forma escondida, e vendo-a banhar-se correram ao seu encontro para tentá-la. Como ela reagiu corajosamente, ameaçaram-na, e cumprindo as ameaças acusaram-na de a haverem encontrado pecando com um mancebo. Levada a julgamento, a casta mulher já era conduzida para a morte quando apareceu o profeta Daniel, ainda muito jovem, e pediu para fazer novo julgamento.
Mandou Daniel que os dois velhos fossem separados um do outro. Perguntou então ao primeiro debaixo de que árvore ele tinha visto a mulher com o mancebo. Ele  respondeu: Debaixo de um lentisco. E Daniel lhe disse: Justamente é que a tua mentira vai a recair sobre a tua cabeça: porque eis aí o anjo de Deus, que tendo recebido dele o poder de executar a sentença contra ti proferida, te partirá pelo meio.
E feito retirar este, mandou que viesse o outro: e lhe disse: Raça de Canaã, e não de Judá, a formosura te seduziu, e a concupiscência te perverteu o coração. Assim é que tu fazias às filhas de Israel, e elas por medo falavam convosco: mas a filha de Judá não sofreu a vossa iniqüidade. Dize-me pois agora, debaixo de que árvore os apanhaste tu, quando se estavam falando. Respondeu ele: Debaixo de um carvalho. E Daniel lhe disse: Justamente é também que a tua mentira vai a recair sobre a tua cabeça: porque o anjo do Senhor está esperando com a espada na mão, para te cortar pelo meio, e para vos matar a ambos. (Dan cap. 13)
A sentença divina foi cumprida pelos anjos, mas a execução coube aos homens, que mataram os dois caluniadores.

Heliodoro
No tempo dos Macabeus, o tesouro do templo de Jerusalém estava repleto de riquezas, o que despertou a cobiça de um tal Simão. Vendo que não podia vencer Onias, o sumo pontífice, e roubar todas aquele]as riquezas, Simão foi ter com Apolônio, filho do governador da Celesíria e da Fenícia, e contou-lhe que o erário de Jerusalém estava cheio de imensas somas de dinheiro e de riquezas incalculáveis. Tramaram então uma forma daquela riqueza cair em poder do rei. Este chama Heliodoro, seu ministro, envia-o a Jerusalém com ordens de trazer tudo o que havia no erário.
Chegado a Jerusalém e recebido com amabilidade pelo sumo sacerdote, Heliodoro declarou-lhe as informações que havia tido  e qual a verdadeira causa da sua vinda. O sumo sacerdote disse-lhe que aquele dinheiro era oriundo de doações das viúvas e dos órfãos e que não era muita coisa. Apesar dos protestos do sumo sacerdote, Heliodoro insistiu que tinha de cumprir as ordens do rei e levar aquele dinheiro para o tesouro real.
No o dia em que Helidoro ia entrar no erário para carregar tudo, já havia uma grande consternação na cidade. Os sacerdotes prostraram-se diante do altar, clamando aos céus; os habitantes faziam preces públicas; as mulheres, cobertos os peitos com cilícios, enchiam as ruas; as donzelas, levantavam as mãos para os céus e dirigiam súplicas a Deus. Ninguém podia olhar para o semblante do sumo sacerdote, sem ficar com o coração traspassado, por causa da agonia de sua alma.
Enquanto todos da cidade invocavam a Deus, Heliodoro se dirigia ao Templo para executar seus desígnios. Houve, então, a intervenção angélica neste momento:
“Já estava com os seus guardas junto à porta do erário, quando o Senhor dos espíritos e soberano dominador de todo o poder se manifestou tão magnificamente, que todos os que tinham ousado vir ali, foram lançados em terra pelo poder de Deus e ficaram num total desfalecimento e em grande terror. Apareceu-lhes um cavalo, sobre que estava montado um homem terrível, ajaezado com os melhores arreios, o qual, investindo contra Heliodoro o molestou com as patas dianteiras. O cavaleiro parecia ter uma armadura de ouro. Ao mesmo tempo apareceram outros dois jovens, cheios de força, de resplendente beleza, ricamente vestidos,  os quais rodearam Heliodoro e o açoitavam nas costas, cada um do seu lado, descarregando sobre ele muitos golpes. Caiu Heliodoro de repente por terra, envolvido numa grande escuridão. Pegaram nele, e, posto numa cadeira de mão, o levaram dali para fora. Deste modo, o que tinha entrado no erário com uma grande comitiva e escolta de guardas, era levado sem se poder socorrer, depois de experimentar claramente o poder de Deus”.
Mas o miserável obteve o perdão divino:
“Então alguns amigos de Heliodoro foram a toda a pressa suplicar a Onias que invocasse o Altíssimo, para que desse vida ao que estava reduzido a dar o último suspiro. Então o sumo sacerdote, considerando que o rei poderia talvez suspeitar algum atentado urdido pelos judeus contra Heliodoro, ofereceu um sacrifício pela vida deste homem. Quando o sumo sacerdote oferecia o sacrifício expiatório, os mesmos dois jovens, vestidos dos mesmos trajos, apresentando-se a Heliodoro, disseram-lhe: Dá graças ao sacerdote Onias, porque o Senhor concede-te a vida por seu respeito. Tu, pois, que assim foste açoitado por Deus, anuncia a todos o seu grande poder. Ditas estas palavras, desapareceram”.  (II Mac 3, 22-34).
Quando Helidoro voltou para a companhia de seu rei, narrou as maravilhas que tinham se passado em Jerusalém. O rei, então, lhe pergunta quem deveria mandar no seu lugar para ir buscar o tesouro de Jerusalém, ao que Heliodoro responde: “Se tens algum inimigo ou adversário da tua governação, manda-o já, e tu o verás voltar açoitado – se escapar – porque verdadeiramente naquele lugar há uma virtude divina. Aquele que tem habitação nos céus, está vigilante e protege esse lugar, e fere e mata os que lá vão para fazer algum mal”. (II Mac 3, 38-39).

Ozias, rei de Judá
Ozias começou a reinar com 16 anos, e reinou em Judá por mais de 50 anos. Começou bem o seu reinado, mas um dia resolveu usurpar o sacerdócio e foi castigado. Embora o texto não se refira diretamente à ação angélica, depreende-se entretanto que não poderia ter sido de outra forma que Deus o castigou:
“Mas, ao ver-se poderoso, o seu coração elevou-se de soberba para sua ruína. Desprezou o Senhor, seu Deus, e, tendo entrado no templo do Senhor, quis oferecer incenso sobre o altar dos perfumes. Logo após ele, entrou o pontífice Azarias, e com ele oitenta sacerdotes do Senhor, homens corajosos, opuseram-se ao rei e disseram: Não pertence a ti, Ozias, queimar incenso ao Senhor, mas aos sacerdotes, isto é, aos filhos de Arão, que foram consagrados para este ministério; sai do santuário, não queiras fazer este desprezo, porque esta ação não será gloriosa para ti diante do Senhor Deus. Mas Ozias, irado, tendo na mão o turíbulo para oferecer incenso, ameaçou os sacerdotes. Imediatamente apareceu-lhe a lepra na fronte em presença dos sacerdotes, no templo do Senhor, junto ao altar dos perfumes. Tendo o pontífice Azarias e todos os outros sacerdotes postos os olhos nele, viram a lepra na sua fronte e sem mais demora o lançaram fora. Ele mesmo, cheio de medo, apressou-se a sair, porque tinha sentido logo a praga com que o Senhor o tinha ferido. O rei Ozias foi, pois, leproso até o dia da sua morte, e habitou numa casa separada, cheio de lepra, por causa da qual tinha sido lançado fora da casa do Senhor” (Crônicas 26, 16-21).  

Antíaco Epífanes
Os castigos infligidos pelos Santos Anjos, por ordem de Deus, nem sempre são consumados através de suas presenças manifestas e claras, mas muitas vezes através de doenças e pragas que mostram a mão invisível de Deus. Foi o que ocorreu com um inimigo de Deus chamado Antíaco Epífanes:
“Por este tempo, Antíaco voltava ignominiosamente  da Pérsia. Com efeito, tinha entrado na cidade, que se chama Persépolis,  e tentado roubar o templo e oprimir a cidade, mas, correndo às armas todo o povo, foi posto em fuga pelos habitantes da região, e, assim, obrigado a regressar vergonhosamente.
“Quando chegou perto de Ecbátana, teve notícia do acontecido a Nicanor e ao exército de Timóteo. Transportado em ira, imaginava que poderia vingar-se sobre os judeus da afronta que lhe tinham feito os que o obrigaram a fugir; por isso ordenou ao cocheiro do seu carro que andasse sem parar, para abreviar a viagem. Perseguia-o a vingança do céu, por ter dito com  orgulho que iria a Jerusalém e faria dela o sepulcro dos judeus.
“Mas o Senhor Deus de Israel, que vê todas as coisas,  feriu este príncipe com uma chaga incurável e invisível. Apenas tinha acabado de proferir estas palavras, foi assaltado duma terrível dor de entranhas e cruéis tormentos internos. Isto com muita justiça, pois que ele mesmo havia rasgado as entranhas aos outros, por muitas e novas maneiras de tormentos. Entretanto, de nenhum modo abatia a sua arrogância; pelo contrário, sempre cheio de soberba, exalava o fogo da sua ira contra os judeus e mandava que se acelerasse a marcha, quando, repentinamente, caiu do carro que avançava impetuoso; a queda foi tão desastrada que ficou ferido por todo o corpo. Assim aquele que, elevando-se pela sua soberba sobre a condição de homem, imaginava que podia dar ordens às ondas do mar e pesar numa balança as montanhas, agora humilhado até à terra, era levado numa cadeira, dando aos olhos de todos um manifesto testemunho do poder de Deus. Do corpo deste ímpio saíam vermes, e, ainda vivendo, lhe caíam as carnes a pedaços no meio das dores, sendo tal o cheiro da podridão que dele saía, que incomodava todo o exército. Aquele que, pouco antes, cuidava que podia tocar nos astros do céu, agora ninguém o podia suportar, por causa do intolerável cheiro que exalava.(II Mac 9, 1-10).
“Enfim, este homicida e blasfemo, presa de horríveis tormentos, como tinha causado aos outros, acabou a vida sobre os montes, longe da sua terra, com uma miserável morte. (II Mac 9, 28). .   

Senaquerib
Um desses castigos foi a morte dos soldados de Senaquerib, 185 mil, que redundou na do rei também. Senaquerib, filho e sucessor de Sargon, no reino da Assíria, reinou de 705 a 681 a.C. Conquistou Babilônia, Elam e uma grande parte da Síria. Marchando contra Ezequias, conquistou todas as cidades fortificadas de Judá. Após ter sido derrotado pelo Anjo, voltou a Nínive onde foi assassinado pelos seus filhos. Eis o relato da ação angélica contra ele: 
“Portanto, eis o que do rei dos assírios diz o Senhor: Ele não entrará nesta cidade, nem despedirá nenhuma seta contra ela, nem a afrontará com escudos, nem será cercada de nenhuma trincheira. Ele voltará pelo caminho por onde veio e não entrará nesta cidade, diz o Senhor. Eu protegerei esta cidade e a salvarei por amor de mim e por amor do meu servo Davi.
“Aconteceu, pois, que naquela noite veio o Anjo do Senhor e matou no campo dos assírios cento e oitenta e cinco mil homens. Senaquerib, tendo-se levantado ao amanhecer, viu todos os corpos dos mortos; e, retirando-se, foi-se. Senaquerib, rei dos assírios, retirou-se e ficou em Nínive. E, enquanto adorava no templo o seu deus Nesroque, seus filhos Adrameleque e Sarasar, mataram-no com a espada e fugiram para a terra dos armênios. (II Reis 19, 32-37)


Herodes
Por mais de quatro séculos (mais ou menos 435 anos) não surgiram verdadeiros profetas em Israel. No tempo de Nosso Senhor os falsos profetas já eram em grande quantidade, como, por exemplo, a seita dos herodianos, que profetizava que tal monstro (Herodes Agripa, neto do outro Herodes que ordenou a matança dos inocentes) seria o esperado Messias. Foi morto por um Anjo quando era aclamado como um deus por seus asseclas:
“Ora Herodes o, foram ter com ele, e com o favor de Blasto, camareiro do rei, pediram paz, porque das terras do rei é estava em conflito com os de Tiro e de Sidônia. Mas estes, de comum acordque o seu país recebia a subsistência. No dia marcado, Herodes, vestido de traje real, sentou-se no trono e arengava-lhes. O povo o aplaudia, dizendo: É voz de um deus e não de um homem! Porém subitamente o Anjo do Senhor o feriu, porque não tinha dado glória a Deus; e, roído de vermes, expirou”  (At 12, 20-23).
O insuspeito historiador judeu Flávio Josefo, citado na “Legenda Dourada”,  também se refere ao castigo acometido contra Herodes:
“Tão logo Herodes tomou posse de seu reino começou a perseguir a alguns membros da Igreja. Às vésperas da festa dos Ázimos fez degolar com uma espada a São Tiago, irmão de João, e, para agradar aos judeus, que por certo haviam apoiado sua nomeação de rei com sumo agrado, durante a celebração da mencionada festa mandou prender a Pedro e o encerrou no cárcere com a idéia de entregá-lo ao povo enquanto durassem os festejos da Páscoa. O Apóstolo foi detido e encarcerado, porém na mesma noite de sua detenção um anjo apareceu milagrosamente na prisão, quebrou as cadeias com que o haviam prendido e o pôs em liberdade para que pudesse prosseguir o ministério e sua pregação.
“Estes criminosos atos do rei não tardaram em ser castigados. No dia seguinte à libertação de São Pedro, ao saber da fuga do prisioneiro, Herodes atribuindo a fuga do encarcerado a descuido das sentinelas, os chamou para submetê-los a severos castigos. Deus todavia não queria que a liberdade que deu ao apóstolo redundasse em prejuízo de ninguém; por isso impediu que Herodes pudesse levar a cabo seu intento, e dispôs as coisas de maneira que o iníquo rei tivesse que sair urgentemente para Cesaréia, onde logo ao chegar morreu ferido pelos espíritos angélicos. Eis aqui como se refere a este sucesso Josefo no livro XIX de suas Antiguidades:
 “No dia seguinte ao de sua chegada a Cesaréia, muito cedo ainda, dirigiu-se Herodes ao anfiteatro onde se achava reunido todo o povo daquela província para tributar-lhe uma homenagem. Ia o rei vestido com riquíssimas e resplandecentes roupas, tecidas com fios de ouro e prata. Ao sair o sol, a incidência de seus raios sobre as douradas vestimentas régias deu lugar a um espetáculo maravilhoso: a luz do sol se refletia na preciosa e metálica roupagem de Herodes, reverberava como se vibrasse em torno de sua pessoa; os revérberos fulgurantes deslumbravam e ofuscavam os olhos dos assistentes, os quais, impressionados e quase aterrados pelo que estavam vendo, julgavam que seu rei era um ser sobre-humano. Esse efeito precisamente era o que Herodes havia pretendido conseguir: que seus súditos o acreditassem revestido de natureza e poderes sobrenaturais; e para infundir neles semelhante crença havia preparado cuidadosamente a cena e aqueles artifícios. Tudo saiu na medida de seus desejos porque, tão logo começaram a produzirem-se os fulgurantes efeitos da luz sobre seus seguidores, e as ofuscações visuais com as quais pretendia enganar a seu povo, primeiro alguns aduladores e depois a totalidade dos assistentes começaram a aclamá-lo e a dizer aos gritos:
- Até agora acreditávamos que eras um homem; porém acabamos de comprovar que sois um ser portentoso e sobre-humano e por tal te teremos do hoje em diante.
“Herodes escutava estas aclamações com evidente satisfação, e acolheu regozijado as honras divinas que a multidão lhe tributava. Mas eis aí que, quando embriagado de prazer saboreava os louros daquele triunfo, ao levantar seus  olhos para o céu viu no alto, como se estivesse pendurado num fio, uma misteriosa figura que parecia descer até ele. O objeto, com efeito, desceu e se aproximou o suficiente para que o rei se desse conta de que se tratava de um mocho. O pássaro começou em seguida a dar voltas no ar volteando a certa altura e descrevendo círculos num plano situado sobre a cabeça do monarca. Este, que não havia esquecido o augúrio de seu antigo companheiro na prisão, recordou então com toda precisão as palavras que o feiticeiro lhe dissera: “Cindo dias depois de veres um mocho, morrerás”; entendeu, pois, que sua morte estava próxima, e dirigindo-se ao povo proclamou solenemente:
“- Eu, vosso deus, vou morrer brevemente.
“Naquela mesma manhã se sentiu repentinamente enfermo e invadido por uma praga de vermes que ao longo de cinco dias foram constantemente devorando suas carnes, e ao terminar as cinco jornadas morreu”. [ii]  

Herodes foi morto pelos Anjos por sentença de Nossa Senhora
A vidente Soror Maria de Jesus, de Ágreda, Espanha, conta como ocorreu a intervenção angélica para ser aplicado o terrível castigo em Herodes, por sentença de Maria Santíssima:
Foi-lhe grande alívio e consolo a liberdade de São Pedro, bem como ver arrojado de Jerusalém não só Lúcifer, como seus demônios. Foi nesta ocasião que a divina Sabedoria, que distribui os trabalhos e alívios, determinou que Maria tivesse notícia do mau estado de Herodes e de seu intento de acabar com todos os fiéis. Tal noticia causou-lhe grande horror, e excessiva dor, pela sua indignação contra os seguidores da fé. Em meio a estes cuidados enviou Ela um de seus Santos Anjos à presença do trono real do Altíssimo para solicitar-lhe, em seu nome, não permitir que Herodes executasse seus planos, oferecendo-se, outrossim, Ela própria para padecer pelos fiéis. Voltou o divino embaixador, e em nome da beatíssima Trindade, manifestou a Maria Santíssima que Ela era Mãe, Senhora e Governadora da Igreja, e portanto, queria que Ela, como Rainha e Senhora do céu e da terra, fulminasse sentença contra Herodes. Turbou-se um pouco a humildíssima Maria Santíssima, com esta resposta, e replicando, pediu ao Santo Anjo que voltasse à presença do Altíssimo, e O consultasse se não seria possível reduzir Herodes ao caminho da salvação eterna. Voltou do céu o Santo Anjo com a resposta de que Herodes era do número dos réprobos, e que ele não admitiria nem mesmo a intercessão dEla. Pela terceira vez enviou Maria Santíssima o Santo Príncipe à presença do Altíssimo, com nova instância, no sentido de não pronunciar Ela a sentença de morte, ponderando que seu tribunal não era de justiça, e sim só de misericórdia para os pecadores. Voltou o Santo Anjo embaixador com a resposta de que a misericórdia dEla, Maria Santíssima, era para os mortais que querem valer-se de sua poderosa intercessão, e não para os que, como Herodes, a desprezam, e que ele deveria morrer por sentença e disposição Sua, como Senhora da Igreja que era. Aceitou a Mãe de Deus a comissão, e pronunciou a sentença de morte contra Herodes, porém, maravilha de misericórdia, com a justificativa de evitar que ele merecesse maiores tormentos no inferno, caso executasse as maldades que intentava! A decisão do Senhor foi para glória de Sua beatíssima Mãe, e em testemunho de havê-La feito Rainha de todas as criaturas, com poder de obrar sobre elas como Rainha e Senhora, assimilando-se, nisto, a Seu Filho santíssimo. Com este poder, ordenou ao Anjo que fosse à Cesaréia, onde estava Herodes, e lhe tirasse a vida, como ministro da justiça divina. Executou o Anjo a sentença com presteza, e consumido de vermes, morreu o infeliz, temporal e eternamente. Voltou o Anjo a Éfeso, e deu conta a Maria Santíssima da execução da sentença. A piedosa Mãe chorou a perda daquela alma, porém louvou os juízos do Altíssimo, dando-lhe graças pelo benefício que, daquele castigo, adviria para a Igreja”. [iii]
Anna Catharina Emmerich, outra vidente, afirma que os seguidores de Herodes tentaram ocultar sua morte durante algum tempo.

Ameaça de castigo faz o povo judeu arrepender-se
Nem todas as ameaças de castigo são concretizadas, desde que o ameaçado se arrependa. Foi o que ocorreu com os hebreus ainda no tempo de Josué:
“Ora o anjo do Senhor subiu de Gálgala ao Lugar dos Chorosos, e disse: Eu vos tirei do Egito e vos introduzi na terra, que eu tinha jurado a vossos pais e prometi-vos não mais romper o pacto convosco; com a condição, porém, de que não faríeis aliança com os habitantes desta terra, mas que destruiríeis os seus altares; e vós não quisestes ouvir a minha voz; por que fizestes isto? Por esta razão eu não  quis extingui-los da vossa presença, para que os tenhais por inimigos e os seus deuses sejam a vossa ruína.
“Ao dizer o anjo do Senhor estas palavras a todos os filhos de Israel, levantaram estes a sua voz e choraram. Pelo que aquele lugar foi chamado o Lugar dos Chorosos ou das lágrimas; e imolaram ali hóstias ao Senhor”. (Juizes 2, 1-5).

O Anjo executor da Ira divina
Pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial faleceu a vidente polonesa, canonizada por João Paulo II, Irmã Faustina Kowalska, deixando um diário (iniciado em 1935) em que contava suas inúmeras visões. Numa delas, eis como ela viu um Anjo:
"À noite, quando me encontrava na minha cela, vi o Anjo executor da ira Divina. Estava vestido de branco, com o rosto radiante, uma nuvem a seus pés, da nuvem saíam trovões e relâmpagos para as suas mãos, e delas só então atingiam a terra. Quando vi esse sinal da ira Divina, que deveria atingir a terra, e especialmente um determinado lugar que não posso mencionar por motivos justos, comecei a pedir ao Anjo que se detivesse por alguns momentos, que o mundo faria penitência. O meu pedido não significava nada diante da ira Divina. Nesse momento vi a Santíssima Trindade. A grandeza de Sua Majestade traspassou-me profundamente e eu não ousava repetir minha súplica...". [iv]   

A ação dos Santos Anjos no Juízo Final
A atuação angélica no Juízo Final será especialmente vingadora e punitiva, conforme consta em diversos documentos Sagrados:
“O Filho do homem enviará os seus anjos, e tirarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade, e lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes”. (Mt 13, 41-42).     
Depois disto, vi que se abriu o templo do tabernáculo do testemunho no céu. Os sete anjos, que traziam as sete pragas, saíram do templo, vestidos de linho puro e branco e cingidos pelos peitos com cintas de ouro. Então, um dos quatro animais deu aos sete anjos sete taças de ouro, cheias da ira de Deus, que vive pelos séculos dos séculos. O templo encheu-se de fumo pela majestade de Deus e pela sua virtude, e ninguém podia entrar no templo, enquanto se não cumprissem as sete pragas dos sete anjos. “  (Apoc 15, 1-7).
“Ouvi uma grande voz (que saía) do templo, a qual dizia aos sete anjos: ide e derramai sobre a terra as sete taças da ira de Deus”.
O Apocalipse descreve as seis primeiras pragas, derramadas por Anjos, sobre a terra. Finalmente, chegando na sétima, que é o fim de tudo, relata:
“O sétimo anjo derramou a sua taça pelo ar, e saiu uma grande voz do templo (vindo) do trono, que dizia: está feito. Seguiram-se relâmpagos, vozes e trovões, e houve um grande terremoto, tão grande que nunca houve outro igual desde que existiram homens sobre a terra. A grande cidade foi dividida em três partes, e as cidades das nações caíram; e Babilônia, a grande, foi recordada por Deus, para lhe dar a beber o cálice do vinho da indignação da sua ira. Todas as ilhas fugiram e os montes não foram achados. Caiu do céu sobre os homens uma grande chuva de pedras, como do peso de um talento. Os homens blasfemaram de Deus, por causa da praga da pedra, porque foi grande em extremo”.  (Apoc 16,


[1] Aquilão – o mesmo setentrião – a região norte.



[i] “Elevação da Mente a Deus pelos Degraus das Coisas Criadas"”- São Roberto Belarmino – Ed. Paulinas, 1955 – pág. 157.
[ii] La Leyenda Dorada” – Alianza Forma – vol. 1, pág. 431.
[iii] “Mística Cidade de Deus” – História e Vida da Virgem Mãe de Deus por Soror Maria de Jesus, abadessa do Convento da Imaculada Conceição de Ágreda, Espanha. - Ed. Louva-a-Deus - Rio, 2001 -pp. 341/343.
[iv] "Diário da Serva de Deus Irmã M. Faustina Kowalska..." pág. 36. A irmã Faustina foi canonizada pelo Papa João Paulo II. No mesmo ano que João Paulo II ascendeu ao sólio pontifício, 1978, o referido diário teve autorização papal para ser divulgado por não se encontrar qualquer erro doutrinário nele.  Paralelamente, prosseguia o processo de beatificação da freira, que, finalmente, no ano 2000 foi canonizada. No dia 18 de agosto de 2002, João Paulo II foi à Polônia para consagrar o Santuário da Divina Misericórdia, construído ao lado do convento onde viveu Santa Faustina. Estava oficialmente aprovado o texto da mensagem de Nosso Senhor transmitido àquela Santa.

Um comentário:

Antonio Fernando Navarro disse...

Parabens pelo trabalho de divulgação de temas tão interessantes para todos aqueles que gostam de ler algo sério sobre religiões.